Entrevista com o professor José Augusto Pacheco: sobre a internacionalização do currículo e suas implicações para a autonomia docente e para a educação da infância

 

Interview with professor José Augusto Pacheco: On the Internationalization of the Curriculum and Its Implications for Teacher Autonomy and Early Childhood Education

 

Entrevista con el profesor José Augusto Pacheco: sobre la internacionalización del currículo y sus implicaciones para la autonomía docente y para la educación de la infancia

José Augusto Pacheco https://lh7-us.googleusercontent.com/h9Ojv87ptVEgwx8PXehJNWB6RbeDlpXgP9wEPNuQgEiN1MWZqOYypeCQ59qJzbAdKq2NWcCoCxu9ig7Uxj9DQGeZQd62p5GHyOeol1sBa83pp3fhKd6TWJ4p1GJxaptf9Bd5r7OgGMw4FOSfvYdyTA
Universidade do Minho, Braga, Portugal.
jpacheco@ie.uminho.pt

Kênia Kristina Furtado https://lh7-us.googleusercontent.com/h9Ojv87ptVEgwx8PXehJNWB6RbeDlpXgP9wEPNuQgEiN1MWZqOYypeCQ59qJzbAdKq2NWcCoCxu9ig7Uxj9DQGeZQd62p5GHyOeol1sBa83pp3fhKd6TWJ4p1GJxaptf9Bd5r7OgGMw4FOSfvYdyTA
Universidade do Estado de Santa Catarina, Florianópolis – SC, Brasil.
keniakfurtado@gmail.com

Alba Regina Battisti de Souza https://lh7-us.googleusercontent.com/h9Ojv87ptVEgwx8PXehJNWB6RbeDlpXgP9wEPNuQgEiN1MWZqOYypeCQ59qJzbAdKq2NWcCoCxu9ig7Uxj9DQGeZQd62p5GHyOeol1sBa83pp3fhKd6TWJ4p1GJxaptf9Bd5r7OgGMw4FOSfvYdyTA
Universidade do Estado de Santa Catarina, Florianópolis – SC, Brasil.
alba.faed@gmail.com

Altino José Martins Filho https://lh7-us.googleusercontent.com/h9Ojv87ptVEgwx8PXehJNWB6RbeDlpXgP9wEPNuQgEiN1MWZqOYypeCQ59qJzbAdKq2NWcCoCxu9ig7Uxj9DQGeZQd62p5GHyOeol1sBa83pp3fhKd6TWJ4p1GJxaptf9Bd5r7OgGMw4FOSfvYdyTA
Universidade do Estado de Santa Catarina, Florianópolis – SC, Brasil

altinojosemartins@gmail.com

 

Recebido em 13 de abril de 2026

Aprovado em 09 de julho de 2026

Publicado em 16 de julho de 2026

 

RESUMO

A presente entrevista com o professor José Augusto Pacheco, realizada durante o período de doutorado sanduíche na Universidade do Minho, Portugal, aborda questões centrais do campo do currículo, especialmente na educação da infância. O Professor Pacheco reflete sobre sua trajetória acadêmica e as influências teóricas que moldaram sua visão, destacando a complexidade do currículo. Discutem-se as implicações da internacionalização e da regulação curricular, a partir de pressões globais, como as promovidas por organismos internacionais, que tensionam a autonomia docente e a valorização da infância enquanto tempo em si. Ele sublinha a importância de um currículo centrado na criança, contrapondo-se à escolarização precoce e à padronização curricular, defendendo práticas pedagógicas que respeitem as necessidades sociais e afetivas das crianças. A entrevista culmina em um convite à reflexão sobre o papel das professoras e dos professores como agentes críticos e criativos na construção do currículo, enfatizando a relevância de uma educação lúdica, dialógica e comprometida com o contexto sociocultural.

Palavras-chave: Internacionalização do Currículo; Educação da infância; Autonomia docente.

 

ABSTRACT

This interview with Professor José Augusto Pacheco, conducted during a doctoral exchange period at the University of Minho, Portugal, addresses core issues in the field of curriculum studies, particularly in early childhood education. Professor Pacheco reflects on his academic journey and the theoretical influences shaping his perspective, highlighting the complexity of the curriculum. The discussion explores the implications of curriculum internationalization and regulation, driven by global pressures from international organizations, which challenge teacher autonomy and the recognition of childhood as a time in itself. He underscores the importance of a child-centered curriculum, opposing early academic formalization and curriculum standardization, while advocating for pedagogical practices that respect children's social and emotional needs. The interview concludes with an invitation to reflect on the role of teachers as critical and creative agents in curriculum development, emphasizing the significance of playful, dialogical, and context-sensitive education.

Keywords: Curriculum Internationalization; Early Childhood Education; Teacher Autonomy.

 

RESUMEN

La presente entrevista con el profesor José Augusto Pacheco, realizada durante el período de doctorado sándwich en la Universidad del Minho, Portugal, aborda cuestiones centrales del campo del currículo, especialmente en la educación de la infancia. El profesor Pacheco reflexiona sobre su trayectoria académica y las influencias teóricas que moldearon su visión, destacando la complejidad del currículo. Se discuten las implicaciones de la internacionalización y de la regulación curricular, a partir de presiones globales, como las promovidas por organismos internacionales, que tensionan la autonomía docente y la valorización de la infancia como tiempo en sí. Él subraya la importancia de un currículo centrado en el niño, contraponiéndose a la escolarización precoz y a la estandarización curricular, defendiendo prácticas pedagógicas que respeten las necesidades sociales y afectivas de los niños. La entrevista culmina en una invitación a la reflexión sobre el papel de las profesoras y de los profesores como agentes críticos y creativos en la construcción del currículo, enfatizando la relevancia de una educación lúdica, dialógica y comprometida con el contexto sociocultural.

Palabras clave: Internacionalización del Currículo; Educación de la infancia; Autonomía docente.

 

Apresentação: uma breve trajetória do entrevistado

          A presente entrevista foi realizada em setembro de 2024 na Universidade do Minho (UMinho) com o professor José Augusto Pacheco, pesquisador do campo do currículo, que aceitou participar do diálogo proposto sobre currículo e docência, ressaltando aspectos de internacionalização e regulação curricular e suas implicações para a autonomia e autoria docente, e abordando questões específicas para a educação da primeira infância[1].

José Augusto de Brito Pacheco, natural de Paredes de Coura, nasceu em 27 de janeiro de 1956. Licenciado (1982) e Bacharel (1980) em História e Ciências Sociais, pela UMinho, concluiu seu Doutorado em Educação em 1993, na mesma universidade, na especialidade de Desenvolvimento Curricular, tendo feita a agregação em 2002 e passado a catedrático em 2013. Suas discussões científicas se centram no campo do currículo, com foco para as seguintes temáticas: conhecimento, avaliação, formação de professores, transformação curricular, desenvolvimento profissional, globalização, internacionalização e as implicações de um “currículo de todas as coisas”[2].

Possui ampla produção científica, publicando artigos em revistas e livros nacionais e internacionais relacionados ao campo do currículo e formação de professores, áreas nas quais é reconhecido nacional e internacionalmente por sua contribuição e produção intelectual. Também realiza conferências, palestras e participa de debates e mesas-redondas em diversos países, inclusive no Brasil.

É professor catedrático do Departamento de Estudos Curriculares e Tecnologia Educativa e investigador do Centro de Investigação em Educação na UMinho, localizada na região de Braga, em Portugal, onde tem colaborado amplamente com instituições de ensino superior em países de língua oficial portuguesa, sobretudo Brasil, Cabo Verde, Moçambique e Timor-leste.

A presente entrevista foi realizada durante os estudos de Doutorado em Educação da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), que teve período sanduíche de seis meses financiado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES/Brasil) para aprofundamento teórico e metodológico no Estágio Científico Avançado (ECA) Da UMinho, em Portugal. O roteiro de entrevista foi elaborado de forma conjunta pelos autores e submetido à apreciação e possibilidade de reconstrução pelo próprio professor entrevistado.

Diálogos curriculares com o professor José Augusto Pacheco

Autores: Professor Pacheco, hoje o senhor, juntamente com outros teóricos, é uma grande referência para as discussões no campo do currículo. Para iniciarmos nosso diálogo, poderia compartilhar um pouco sobre o seu percurso e envolvimento com o tema do currículo? Quais teóricos e influências marcaram (e ainda marcam) essa trajetória, e como o senhor se vê nesse processo de ter seus estudos e produções reconhecidas no campo do currículo?

 

José Augusto Pacheco:

Quando optei pela especialidade de Desenvolvimento Curricular, do doutoramento em Ciências da Educação, era docente da Universidade do Minho, na formação inicial de professores, lecionado a disciplina Teoria Curricular. Com efeito, era uma disciplina muito ligada à Didática Geral, com grande influência da Psicologia. Na minha formação estiveram autores francófonos, sobretudo os que se notabilizaram na docimologia, na observação e no binómio objetivos/avaliação. Pontuavam, com efeito, as taxionomias de objetivos e a avaliação quantitativa. Foi um tempo de entender como funcionava uma sala de aula, com a Pedagogia e a Psicologia a servir de base teórica à Didática, razão pela qual digo que o currículo era um objeto da didática.

Com o aprofundamento dos meus estudos de doutorado em Desenvolvimento Curricular (que se deve entender hoje pela designação mais abrangente Estudos Curriculares), li autores anglo-saxónicos, destacando-se na minha formação o britânico Lawrence Stenhouse. Foi, sem dúvida, o precursor de um currículo perspectivado como projeto, já que define currículo como uma receita culinária, sendo mais importante, ao contrário do que diz Jeromne Bruner, a práxis do que uma teoria normativa de ensino. Geoff Whitty, Michael Young e Ivor Goodson são outros autores britânicos que muito marcaram a minha formação, abrindo-me novas fronteiras para o entendimento da complexidade do currículo. E daí passei aos autores norte-americanos, com grande destaque para Michael Apple e para William Pinar, que ora definem as relações intrincadas da educação, ora assumem a subjetividade como base de qualquer projeto curricular, e neste caso, William Pinar é um autor com muita influência na minha formação, tendo, aliás, feito o meu pós-Doc com este renomado académico na University of British Columbia, em Vancouver.

A minha formação ficaria ainda mais completa com a leitura de muitos autores brasileiros, não podendo deixar de mencionar, entre outros, Guacira Louro, Carlos Libâneo, Marlucy Paraíso, Menga Ludke, Maria Célia Moraes, Tomás Tadeu da Silva, Alfredo Veiga-Neto e António Flávio Moreira.

E assim passei de uma perspetiva normativa e burocrática de currículo para uma perspetiva mais aberta, em que as questões de género, raça e etnia são marcantes, tal como é a subjetividade, que exploro no livro O Currículo de Todas as Coisas, pois as Tecnologias Digitais têm um poder enorme de transformação da educação e do currículo, principalmente no que diz respeito ao conhecimento e às novas formas de aprendizagem.

 

Autores: O senhor, junto com outros teóricos do campo curricular, tem ressaltado que o currículo é um campo polissêmico, repleto de complexidades e composto por diversas perspectivas conceituais fundamentadas em diferentes epistemologias, ontologias, axiologias e metodologias. No entanto, ao fazer pesquisa é importante delimitar minimamente de onde se parte, ou seja, a explicitação conceitual de uma compreensão sobre o currículo. Tendo essa consideração, poderia nos situar com qual abordagem e perspectiva seus estudos e pesquisas têm olhado para o currículo?

 

José Augusto Pacheco:

Como disse anteriormente, o currículo é sempre um projeto, mas a sua realização depende quer da conceção do projeto em si, quer do tempo e dos espaços que definem qualquer projeto curricular. Parti destes três vetores para trabalhar conceitualmente o currículo, entendendo-o sempre como práxis e não como mera prática, pois o papel do sujeito é crucial na interpretação de um dado projeto curricular. No denominado “currículo-à-prova-do-professor”, dos anos de 1960 e 1970, e hoje reeditado pela plataformização do currículo, tudo está previsto na listagem que o docente tem de cumprir quando há, por um lado, o currículo, que define as regras do que deve ser, e, por outro, a instrução, como algo de inexorável em termos de cumprimento de regras definidas. Essa é, aliás, a perspetiva de currículo de Ralph Tyler e de Mauritz Johnson, cuja influência ainda se faz sentir sobremaneira nas práticas curriculares.

 

Autores: Na sua produção intelectual, o senhor frequentemente destaca a centralidade da questão do conhecimento no campo do currículo, particularmente na busca por respostas sobre “qual conhecimento é considerado mais valioso”. Como o senhor avalia as disputas e negociações relacionadas a definição de “aprendizagens essenciais” promovidas por organismos internacionais, que acabam definindo alguns conhecimentos como mais valiosos do que outros?

 

José Augusto Pacheco:

O que aprendi com a sociologia do currículo, marcadamente com Bernstein e Young, que foram, respetivamente mestre e discípulo, e como António Flávio Moreira foi discípulo de Young mais aprendi com estes autores, é que currículo é conhecimento, desviando-se do vetor da aprendizagem, que é tão marcante da Didática Geral e da Didática Específica (ou das Metodologias de Ensino). E para Young no confronto entre as componentes do conhecimento que integram o currículo, a vertente das disciplinas é muito decisiva no processo de transformação curricular, terminologia que uso e não tanto a da transposição didática. Daí que o conhecimento poderoso, que é o das disciplinas, tenha mais peso que o conhecimento do quotidiano, que é o que nos prende ao contexto, mas não a visões particularíssimas, porque há muitos mundos ou contextos dentro dos mundos a que vamos pertencendo. Esta é uma discussão que Pierre Bourdieu ajuda a compreender através do valor simbólico da cultura, e por conseguinte da educação e do currículo.

Neste sentido, aprofundei nos meus escritos a partir de 2011 a necessidade de entender o currículo pela subjetividade ou pela hermenêutica, como nos ensina Michel Foucault.

Na realidade curricular portuguesa, a partir de 2017, o programa tradicional das disciplinas deu lugar às aprendizagens essenciais, não deixando de ser uma listagem de conteúdos que devem ser ensinados por todos os docentes da escolaridade obrigatória ou da educação básica.

 

Autores: Considerando que, na educação para a primeira infância, o currículo emerge das relações sociais estabelecidas em contexto, em sintonia com a intencionalidade pedagógica de ampliação, diversificação e complexificação das experiências das crianças pequenas, sem necessariamente haver uma definição de prescrição de conteúdos disciplinares para essa faixa etária, quais implicações o senhor ressaltaria sobre a definição das chamadas “aprendizagens essenciais” especificamente para as crianças, desde bebês, da Educação Infantil?

 

José Augusto Pacheco:

Partilho uma conceção de educação de infância sem uma listagem de conteúdos que levem à escolarização. A ludicidade é a base da educação de infância, aquela que antecede qualquer processo formal de escolarização. Muito temos de fazer ainda para que a educação de infância seja entendida não pela perspetiva dos adultos, mas pelas necessidades das crianças, naquilo que é o desenvolvimento integrado das dimensões social e pessoal. A cognitivização da educação de infância é algo que a sociedade impõe aos docentes, caindo-se, muitas vezes, na escolarização precoce das crianças.

 

Autores: Diante da crescente internacionalização das políticas curriculares e do alinhamento das orientações curriculares aos marcos regulatórios influenciados por organismos internacionais, como o senhor avalia as tendências globais de padronização, especialmente no que se refere à definição de um "currículo comum" ou "currículo mínimo" para a educação da primeira infância?

 

José Augusto Pacheco:

A educação de infância não sendo um processo de escolarização é um tempo que tem de levar à descoberta de aprendizagens por parte das crianças. Não partilho a concepção pedagógica que nada deve aprender a criança antes da escolarização formal. A criança aprende diariamente, e quanto mais lúdicas e ativas forem as atividades que a criança partilha mais será progressiva a sua formação, fazendo com que crie mecanismos socio-afetivos e cognitivos que o seu tempo exige. Na experiência que tenho tido em Timor-Leste, e também devido a uma cultura escolar própria dos países do Sudoeste da Ásia, a educação de infância é um tempo de instrução, fortemente escolarizada. São perspetivas, assim, diferentes, preferindo a educação de infância como fase de desenvolvimento de potencialidades.

Se não há uma história global, não existe do mesmo modo um currículo global, como defendem alguns gurus da tecnologia digital. Seria um currículo de conteúdos comuns, mas de processos individualizados pelos algoritmos, presentes cada vez mais na educação. Com uma base comum existem, por conseguinte, caminhos diferentes, embora o controlo seja quantitativo e condicionado à obtenção de resultados formulados em termos de metas. É algo perigoso que irá contra uma perspetiva humanista e personalizada de educação.

 

Autores: No Brasil, a inserção da Educação Infantil na Base Nacional Comum Curricular de 2017, provocou grandes debates e críticas, principalmente por ter o conceito de competências enquanto eixo principal para toda a Educação Básica. Nesse sentido, como podemos construir uma proposta curricular que valorize as vivências e as experiências das crianças, sem impor uma lógica disciplinar que escolariza as crianças de forma precoce e abrevia a infância?

 

José Augusto Pacheco:

Em Portugal, não existem aprendizagens essenciais para a educação de infância (dos 3 aos 5 anos), que ao nível das políticas educativas é declarada como universal, ou seja, de frequência facultativa, mas considerada essencial para a futura escolarização. Assim se chama a esse período educação pré-escolar, ficando para a fase primeira da infância o tempo da creche, que não tem orientações curriculares. Trata-se de valorizar as vivências e as experiências das crianças, sem nada impor, mais ainda a lógica disciplinar que escolariza as crianças de forma precária. O princípio da ludicidade tem de ser estruturante às duas fases da educação de infância, podendo-se adotar a metáfora de John Dewey quando diz que possuir todo o conhecimento do mundo e perder a própria pessoa é um terrível destino na educação. Sendo fundamental o conhecimento para a criança explorar o mundo, será também crucial que na educação de infância, e noutros fases de escolarização, o engessamento curricular pelos conteúdos não se sobreponham ao desenvolvimento da pessoa nas suas várias dimensões. Por isso, reler o texto A criança e o Currículo, de Dewey, torna-se num alicerce seguro para elaborar propostas curriculares para a educação de infância.

 

Autores: Pensando a vida cotidiana das crianças como conteúdo para (re)construir o currículo para a primeira infância, como o senhor vê a relação entre o currículo e a vida das crianças, e quais estratégias considera fundamentais para transformar suas experiências de vida em conteúdos curriculares significativos, respeitando e valorizando suas histórias, culturas e modos singulares e heterogêneos de ser na Educação Infantil?

 

José Augusto Pacheco:

Na continuidade da valorização humanista da educação, a pessoa e o seu contexto são essenciais em qualquer proposta curricular. A contextualização curricular é, presentemente, uma perspetiva que segue, por exemplo, a abordagem curricular centrada na criança, nos seus interesses e no seu contexto. Nesse sentido, do mundo das crianças, incluindo a sua fecunda imaginação e a sua surpreendente criatividade, tem de fazer parte as suas histórias pessoais como elo de ligação identitária a uma comunidade, cuja matriz simbólica não deixa de estar presente como processo de socialização. Numa visita recente a uma sala de educação de infância, em Portugal, pude constatar a ligação da comunidade à escola, quer pela abordagem dos temas que vão sendo explorados, quer pela presença dos pais como coparticipantes do processo de educação. Trata-se de dar voz aos pais e á comunidade para que as crianças sintam a escolinha como sua e cujos sinais de pertença vão aprendendo a decodificar.

 

Autores: Entendendo a natureza regulatória do currículo (que regula e é regulado) e como ele é moldado por interesses políticos, sociais, econômicos e culturais, como o senhor percebe a influência de normas e diretrizes oficiais cada vez tomando mais força a lógica sobre como deve ser pensada e realizada a docência? E como o senhor avalia a formulação e implementação dessas políticas curriculares em termos de suas implicações para a autonomia e autoria de professoras e professores?

 

José Augusto Pacheco:

Tenho falado muito do ciclo político de Stephen Ball. O contexto de influência é descrito como ponto de partida, traduzindo os processos de regulação internacionais, nacionais e regionais, em complementaridade com os contextos de produção política (elaboração do texto político), da prática (organizacional, curricular e pedagógica), dos resultados esperados/efeitos (formas de avaliação) e da estratégia política (formas de abordagem dos quatros contextos anteriores). Pela análise de tal modelo, bem como dos demais procedimentos de regulação, cabe discutir se, na definição de políticas educativas, há ou não um denominador comum que define a existência de educação cada vez mais globalizante. Por exemplo, a UNICEF é hoje uma organização com uma forte presença na regulação de conceitos que fazem da educação de infância uma dimensão mais substantiva nos sistemas educativos. Na perspetiva de Stephen Ball, a regulação derivada do contexto de influência tem contribuído para a passagem de uma mudança baseada na decisão unitária de um determinado estado para uma mudança centrada em decisões abrangentes, reguladas por organizações e redes transnacionais, supranacionais e internacionais. Embora os cinco contextos do referido ciclo estejam interrelacionados, porque não são meras etapas lineares, há aspetos que necessitam de ser questionados, nomeadamente o que se entende por macrocontexto, reconhecendo-se a sua diversidade e o seu peso relevante na definição de políticas nacionais, face ao papel fulcral do estado na conceção de políticas educativas e à valorização dos diversos fatores que podem identificar o que é realmente uma política pública de educação. Por mais que a linguagem da performatividade, ligada à prestação de contas e à responsabilização, bem como à eficiência do desempenho, seja valorizada ao nível das políticas educativas, não é de menosprezar, por outro lado, o papel que, associada à sua cultura, a escola assume na interpretação e na tradução das políticas educativas, de acordo com a autonomia que lhe é, formal ou informalmente, consagrada e com as lógicas que etiquetam as práticas das salas da educação de infância.

 

Autores: Diante da crescente regulação do currículo e, consequentemente, a regulação da própria docência, em que medida o senhor considera que as políticas curriculares podem limitar ou, ao contrário, potencializar e emancipar a capacidade dos docentes de criar práticas pedagógicas que sejam verdadeiramente responsivas às necessidades singulares das crianças? Como os professores podem atuar como agentes de transformação dentro desse cenário regulatório e fortalecer sua autoria e autonomia no movimento de (re)construção de um currículo?

 

José Augusto Pacheco:

Recorrendo mais uma vez a organizações internacionais, e faço-o muito mais a partir do momento que comecei a fazer parte do conselho consultivo da OEI, gostaria de focar no papel da OCDE como um dos mais poderosos na regulação de políticas públicas de educação. Considerando a epistemecidade da OCDE, com a força dos seus relatórios, dos quais se destacam os que dizem respeito ao teste PISA, o quadro pedagógico que está a ser desenhado por esta organização centra-se no conceito de agência, e correlativamente no de autonomia. Primeiramente, agência das crianças e jovens para navegar no conhecimento, sem colocar de lado os recursos da Internet, e depois agência dos docentes e dos responsáveis escolares. A autonomia é a pedra angular deste novo quadro pedagógico que vai sendo mostrado em relatórios, adotando a ideia de Dewey do “learninf by doing” Como não existe um currículo realizado que corresponda mimeticamente a um currículo prescrito, o currículo real é algo que acontece, em função dos três vetores que identifique no início da entrevista, com a presença dos atores escolares, para usar a perspectiva mais sociológica de Alain Touraine. Contudo, sem autonomia curricular da escola as outras autonomias não são realizáveis, razão pela qual seria pertinente começar a discutir com acuidade e premência o que é a autonomia da escola, incluindo as suas orientações e as suas dinâmicas pedagógicas. Vejo, assim, a Didática Geral como objeto de estudo do Currículo, pois as práticas curriculares têm uma componente de organização de situações de aprendizagem. Definir o que é autonomia da escola (organizacional, curricular e pedagógica) é ao mesmo tempo o ponto de partida e o ponto de chegada de toda a discussão em torno da inovação educativa, sendo de lembrar as ideias de Michael Fullan.

 

Autores: Quais ações o senhor entende que poderiam ser implementadas para assegurar que a experiência e a perspectiva de professoras e professores sejam devidamente integradas no processo de elaboração das políticas curriculares?

 

José Augusto Pacheco:

A participação ativa dos docentes nos processos de decisão é fundamental para que possa existir uma outra prática educativa, já que as políticas curriculares não são uniformes, nem lineares. Nas diferentes fases de construção do currículo, e lembremos o ciclo de Ball, há ideias que se contradizem e perspectivas muito diferentes. Reconhecer-se-á que as decisões curriculares fazem parte de um complexo puzzle. Saber o papel que os docentes podem desempenhar, se para tal lhes for dada a autonomia necessária, é algo que deve estar na base da reflexão de casa docente, numa partilha que faz em contexto de cada escola. A inovação surge, deste modo, da capacidade de inovar e não só das condições objetivas que são alteradas, sabendo-se que o dissenso é tão valioso como o dissenso. Por vezes, dada a burocracia – e de que modo os docentes se burocratizam mais e mais com as plataformas que abundam nas escolas! –, os docentes perdem o seu tempo de estudo, bem como o seu tempo de colaboração, encerrando-se em plataformas que fortemente o condicionam a todos os níveis.

 

Autores: Temos acompanhado em suas últimas produções a discussão sobre como a inteligência artificial e a tecnologia têm moldado o currículo e, por extensão, a própria subjetividade humana. Como o senhor enxerga o papel das professoras e dos professores e das instituições educativas na mediação desses impactos para que o currículo promova o desenvolvimento crítico, criativo e humano diante da crescente influência tecnológica?

 

José Augusto Pacheco:

Sim, O Currículo de Todas as Coisas, publicado em inglês, com tradução em curso para português e edição no Brasil, pretende ser uma análise das ideologias que as tecnologias digitais nos legam: conetividade, dataficação e digitalização. Num imaginário sociotécnico, o algoritmo governa a educação e governa-nos como sujeitos da web, transformando-nos num código, largamente aproveitado pelo mercado, a todos os níveis, incluindo a educação.

Porém, o que está por detrás das tecnologias digitais, no campo da educação, é uma vigilância constante tanto do docente como do aprendente, pois cada passo que se dá na rede fica registado, e esse passo que é dado tem no algoritmo a sua razão de ser. Nada acontece ao acaso, e o currículo da Internet das Coisas estará sempre presente, numa sociedade também mais desigual.

 

Autores: Por fim, gostariamos de lhe agradecer por sua disponibilidade em participar desta entrevista, trazendo tantas reflexões e aprendizagens importantes sobre o campo do currículo, com especial atenção ao currículo com e para a infância.

 

Considerações finais: um convite às reflexões que ficam desse diálogo

 

A partir da escuta sensível, a entrevista com o Professor José Augusto Pacheco resultou em um convite a aprofundar reflexões sobre o currículo enquanto campo complexo e polissêmico, que dialoga com dimensões políticas, culturais, sociais e econômicas. Suas respostas, refletidas desse processo dialógico respeitoso, demonstram não apenas o vasto conhecimento acumulado ao longo de sua trajetória, mas também uma sensibilidade apurada para a docência e a educação da infância.

Ao enfatizar a importância de respeitar as experiências e contextos das crianças e das/os professoras/es, o professor Pacheco apresenta uma visão crítica às tendências globalizantes de padronização curricular e reafirma o valor da autonomia e autoria docente como pilares essenciais para a construção de práticas pedagógicas que respondam às diversidades e complexidades do mundo contemporâneo.

Além disso, ao abordar temas como a influência da tecnologia, a inteligência artificial e o impacto das agendas globais nas políticas curriculares, o professor Pacheco reforça a necessidade de resistirmos à lógica reducionista de eficiência e performatividade, priorizando uma educação humanizadora, contextualizada e comprometida com o desenvolvimento integral das crianças. Encerramos este diálogo reconhecendo a riqueza de suas contribuições e a inspiração que deixam para pesquisadores, professores e gestores na contínua tarefa de (re)construir currículos na busca constante pela transformação curricular.

 

Agradecimentos

 

À CAPES pela bolsa PDSE para realização do doutorado sanduíche no exterior.

À Prefeitura Municipal de Florianópolis pela licença aperfeiçoamento para realização da pesquisa de doutorado.

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[1] Conforme o Art. 2º da Lei 13.257 de 2016, a primeira infância é o período que abrange os primeiros 6 anos de idade completos de vida da criança, sendo no Brasil intitulada de Educação Infantil e definida como primeira etapa da Educação Básica.

[2] Refere-se ao ebook intitulado “The Curriculum of Everything: Understanding education and curriculum”, publicado em 2023, no qual explora o impacto crescente da inteligência artificial na educação e sociedade, destacando o currículo como uma prática social, cultural e tecnológica que molda o conhecimento e o poder. Nele, Pacheco (2023) alerta sobre a necessidade de refletir criticamente sobre essas mudanças e suas implicações para a subjetividade humana e o papel da tecnologia no ensino e aprendizagem. Para leitura completa, acesse: https://ebooks.uminho.pt/index.php/uminho/catalog/book/118