A pesquisa sociobiográfica com jovens: entre a imaginação sociológica e as tiranias da intimidade

Sociobiographical research with young people: between sociological imagination and the tyrannies of intimacy

 

La investigación sociobiográfica con jóvenes: entre la imaginación sociológica y las tiranías de la intimidad

 

Priscila Oliveira Coutinho https://lh7-us.googleusercontent.com/h9Ojv87ptVEgwx8PXehJNWB6RbeDlpXgP9wEPNuQgEiN1MWZqOYypeCQ59qJzbAdKq2NWcCoCxu9ig7Uxj9DQGeZQd62p5GHyOeol1sBa83pp3fhKd6TWJ4p1GJxaptf9Bd5r7OgGMw4FOSfvYdyTA
Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte – MG, Brasil.
prioliveiracoutinho@gmail.com

Juliana Batista dos Reis https://lh7-us.googleusercontent.com/h9Ojv87ptVEgwx8PXehJNWB6RbeDlpXgP9wEPNuQgEiN1MWZqOYypeCQ59qJzbAdKq2NWcCoCxu9ig7Uxj9DQGeZQd62p5GHyOeol1sBa83pp3fhKd6TWJ4p1GJxaptf9Bd5r7OgGMw4FOSfvYdyTA
Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte – MG, Brasil.

jubtr@ufmg.br

Sofia Ramos Jayme https://lh7-us.googleusercontent.com/h9Ojv87ptVEgwx8PXehJNWB6RbeDlpXgP9wEPNuQgEiN1MWZqOYypeCQ59qJzbAdKq2NWcCoCxu9ig7Uxj9DQGeZQd62p5GHyOeol1sBa83pp3fhKd6TWJ4p1GJxaptf9Bd5r7OgGMw4FOSfvYdyTA
Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte – MG, Brasil.
sofiarjayme@gmail.com

 

Recebido em 09 de março de 2026

Aprovado em 14 de julho de 2026

Publicado em 14 de agosto de 2026

 

RESUMO

Este ensaio, fundamentado em obras que discutem o capitalismo tardio e a datificação da vida, pretende tensionar o movimento científico de valorização das narrativas de vida. Para isso, articula duas formas de trabalhar a relação entre indivíduo e sociedade, a imaginação sociológica (Mills,1976) e a imaginação psicológica (Sennett, 2022). O desenvolvimento de tal argumento culmina na defesa de que a utilização de dispositivos pedagógicos voltados às histórias de vida juvenis seja feita em atenção à ênfase nos processos sociológicos e históricos correspondentes, de modo a colaborar para a superação da ideia de subjetividade como fim em si mesmo. No contexto da plataformização e da digitalização da vida, as narrativas biográficas, quando orientadas por perspectivas que relativizam e contextualizam a experiência pessoal com a contribuição da História e das Ciências Sociais, podem contribuir tanto para a formação acadêmica quanto para a pesquisa com jovens. Para isso, entretanto, é crucial que os jovens compreendam as articulações contemporâneas entre as mediações tecnossociais e os modos de construção de si.

Palavras-chave: Biografias; Juventudes; Plataformização.

 

ABSTRACT

This essay draws on works discussing late capitalism and the platformization of life, aiming to critically examine the scientific trend of valuing life narratives. To this end, it integrates two approaches to the relationship between the individual and society: the sociological imagination (Mills, 1976) and the psychological imagination (Sennett, 2022).The development of this argument culminates in the defense that the use of pedagogical devices focused on youth life stories should be done with attention to the necessary emphasis on corresponding sociological and historical processes, in order to contribute to overcoming the idea of ​​subjectivity as an end in itself. In the context of platformization and digitalization of life, biographical narratives, if guided by perspectives that relativize and contextualize personal experience with the contribution of History and Social Sciences, can contribute both to academic training and to research with young people. For this to happen, however, it is crucial that young people understand the contemporary articulations between techno-social mediations and modes of self-construction.

Keywords: Biographies; Youths; Plataformization.

 

RESUMEN

Este ensayo se basa en trabajos que abordan el capitalismo tardío y la plataformización de la vida, con el objetivo de examinar críticamente la tendencia científica a valorar las narrativas vitales. Para ello, integra dos enfoques sobre la relación entre el individuo y la sociedad: la imaginación sociológica (Mills, 1976) y la imaginación psicológica (Sennett, 2022).El desarrollo de este argumento culmina en la defensa de que el uso de dispositivos pedagógicos centrados en las historias de vida de los jóvenes debe hacerse prestando atención al necesario énfasis en los procesos sociológicos e históricos correspondientes, a fin de contribuir a la superación de la idea de la subjetividad como un fin en sí mismo. En un contexto de plataformización y digitalización de la vida, las narrativas biográficas, si se guían por perspectivas que relativizan y contextualizan la experiencia personal con el aporte de la Historia y las Ciencias Sociales, pueden contribuir tanto a la formación académica como a la investigación con jóvenes. Para que esto suceda, sin embargo, es crucial que los jóvenes comprendan las articulaciones contemporáneas entre las mediaciones tecnosociales y los modos de autoconstrucción.

Palabras clave: Biografías; Juventudes; Plataformización.

 

Introdução

A relação entre indivíduo e sociedade, desdobrada na articulação entre física e fenomenologia sociais, se faz presente nas Ciências Sociais desde a sua fundação. As perspectivas cujas bases teórico-metodológicas privilegiam as determinações estruturais foram, ao longo do século XX e XXI, dividindo espaço com propostas explicativas mais voltadas para a ação e a interpretação dos indivíduos. O desenvolvimento de pesquisas empíricas em diferentes contextos, desde a efervescente Chicago do entreguerras às sociedades indígenas brasileiras, provaram que, nas Ciências Sociais, o exame de como indivíduos e grupos respondem a situações sociais contraditórias depende tanto do exame das condições históricas que contextualizam e originam uma crise social quanto do exame dos processos comportamentais (maneiras de pensar, sentir, agir e julgar) dos sujeitos.

A esse respeito, é exemplar a ideia de imaginação sociológica, elaborada pelo sociólogo estadunidense Charles Wright Mills (1976), a qual sintetiza a virtude do pensamento analítico capaz de orquestrar o que ele denomina de questões sociais (o componente estrutural) e perturbações individuais (a experiência subjetiva). Para o autor, a imaginação sociológica seria tanto uma obrigação de ofício para aquelas pessoas que, de algum modo, participavam da formação da esfera pública – professores, jornalistas, escritores, economistas e intelectuais públicos – quanto uma ferramenta poderosa para quem decidisse se dedicar ao escrutínio da própria trajetória.

A síntese de Mills (2009, p. 82), segundo a qual “nem a vida de um indivíduo nem a história de uma sociedade podem ser compreendidas sem que entendamos ambos”, condensa a capacidade de articular biografia e história, experiência individual e estrutura social. Tal exercício intelectual desloca os problemas privados para o plano das questões públicas, evidenciando as condições estruturais que contornam as trajetórias individuais. Nessa perspectiva, Mills nos convida a ultrapassar explicações psicologizantes ou moralizantes e a situar as experiências singulares nos marcos mais amplos das transformações econômicas, institucionais e culturais.

Há uma variedade de pesquisas narrativas com jovens que operam nessa mesma chave analítica ao defender que a narrativa de si é um objeto público e um instrumento de reconhecimento coletivo, ou seja, cada vida individual se desenrola entre gerações inscritas em uma continuidade histórica e social (Pais, 2001; Feixa, 2018). Afinal,

[…] as formas que os indivíduos usam para biografar suas vidas não são de sua própria autoria, não lhes pertencem e eles não podem decidir por si mesmos: são formas coletivas que pertencem à história, à cultura e à sociedade (Delory-Momberger, 2021, p. 4).

Desse modo, caberia à antropologia histórica descrever e identificar os tipos de narrativas e os modos de construção biográfica predominantes em certo período histórico e em determinada configuração cultural (Delory-Momberger, 2021).

Na nossa época, definida por Manuel Castells (2013) como a da sociedade em rede, a compreensão das escritas de si depende do reconhecimento de que estamos imersos em ecossistemas digitais, territórios informacionais, plataformas de sociabilidade e suportes comunicacionais em conexão com a internet. Esses ambientes e sua infraestrutura técnica, caracterizada pela agência dos algoritmos – e seus efeitos acentuados da personalização –, são agentes cruciais da experiência humana contemporânea e, consequentemente, das construções biográficas.

Nas dinâmicas habituais das redes sociais, modeladas para que os usuários se sintam governantes autônomos dos seus próprios microcosmos digitais hipercustomizados (Chun, 2016), gestos habituais como “seguir”, “curtir” ou “bloquear” podem gerar a sensação de liberdade e protagonismo. Porém, tais ações se dão num ambiente produzido por aparatos técnicos altamente centralizados e dominados pelas big techs. Garante-se, com isso, a rastreabilidade dos mais triviais movimentos cotidianos, ao mesmo tempo que se promove a reconfiguração da atenção dos usuários. Isso porque a mediação algorítmica entre sujeito e máquina opera em níveis pré-reflexivos de constituição da memória, dos hábitos e das disposições afetivas (Cesarino, 2022; Isulaitis; Silveira, 2025).

Neste ensaio, defendemos que a simbiose entre neoliberalização e digitalização[1] (Sibilia, 2012; Cesarino, 2022) radicalizou o processo de erosão das instituições e dos modos de sociabilidade capazes de criar e manter a coesão social. Isso traz consequências profundas tanto para a compreensão dos assuntos públicos quanto para a constituição de uma identidade fundada na narrativa de si. Pretendemos demonstrar que tais consequências são ainda mais radicais para os/as jovens, socializados em contextos intensa e amplamente dominados por lógicas que engendram o progressivo enfraquecimento das capacidades cognitivas e conviviais. As condições de existência de cada fração da sociedade em que esses jovens vivem, é claro, oferecem recursos mais ou menos eficazes para lidar com a lesividade de tal lógica, mas ela atinge o corpo social em seu conjunto.

No que concerne ao tema que nos interessa de maneira central neste texto – a narrativa de si entre jovens –, como profissionais que trabalham com dispositivos didáticos que convocam à produção de textos autobiográficos no ensino superior, reconhecemos que tais dispositivos possuem muitas virtudes, dentre as quais destacamos: 1) uma ampla adequação à investigação interdisciplinar; 2) o exercício de organização histórico-temporal das experiências pessoais e coletivas; 3) o bom acolhimento metodológico para a prática de perspectivação de valores e para a consideração analítica de percepções do senso comum; e 4) o convite a utilizar as próprias memórias como material sociológico, num exercício de artesanato intelectual que desenvolve a necessária capacidade científica de transitar entre o concreto e o abstrato, bem como entre o investigativo e o explicativo.

Temos percebido, contudo, uma tendência ao esvaziamento da compreensão, dos processos histórico-sociais na explicação das trajetórias individuais, associada à dificuldade – ou mesmo resistência – de tratar temas do domínio público por meio de códigos de significação impessoal. Trata-se de uma relação com o mundo que Richard Sennett (2022) denomina imaginação psicológica, segundo a qual a única forma de avaliação legítima das questões públicas é a verbalização dos sentimentos pessoais a seu respeito.

Como professoras e pesquisadoras que nos valemos de métodos biográficos, temos a responsabilidade cognitiva de analisar os motivos de tal fenômeno. A nós, cabe também a tarefa de discernir o método autobiográfico, científica e pedagogicamente útil, das confissões, desabafos ou tentativas de transmutação de sentimentos pessoais em interpretação acadêmica. Neste texto, pretendemos, então, expor algumas reflexões sobre como o capitalismo flexível, associado à digitalização da vida, vem corroendo tanto a capacidade de compreensão das questões públicas (Mills, 1976) quanto a constituição de subjetividades com habilidades cooperativas. Tais problemas da nossa época se expressam, entre outras formas, numa maneira específica de se relacionar com o mundo. Ela pode ser percebida pela invasão da esfera pública por constantes e ansiosas manifestações a respeito do sentimento individual. Muitas dessas exteriorizações se dão na forma de narrativas autobiográficas, as quais são intensa e extensivamente exploradas pelos novos modelos de negócios, ao mesmo tempo que moldam uma determinada maneira de interpretação e avaliação de si.

As reflexões deste texto pretendem colaborar para duas questões centrais: 1) dadas as especificidades das dinâmicas sociais no mundo da economia informacional, como as pesquisas sociobiográficas com jovens podem problematizar os paradoxos que tensionam as relações entre indivíduo e sociedade? 2) Considerando que plataformas digitais amplamente utilizadas pelos jovens confundem as informações/narrativas pessoais com dados algoritmos para aproveitamento mercadológico, como recuperar, por meio de dispositivos pedagógicos, o potencial explicativo e emancipador das autobiografias?

 

As juventudes no capitalismo flexível

A juventude, como categoria social historicamente construída e atravessada por clivagens de classe, gênero, raça, território, constitui um tema já consolidado nos campos da Sociologia e da Educação (Sposito, 1997). Em contrapartida, as investigações sobre as fases da vida e os rituais de passagem que simbolizam e instituem as transições geracionais se consolidaram no âmbito da Antropologia, especialmente nas análises sobre os ciclos vitais e os processos de liminaridade, como na obra clássica da antropóloga norte-americana Margaret Mead (1949), Coming of Age in Samoa. Entre 1925 e 1926, Mead realizou uma pesquisa etnográfica em Samoa, ilha no sul do Oceano Pacífico habitada por povos polinésios, e acompanhou, em especial, a vida de garotas adolescentes. Seu estudo explicita os processos socializadores e a formação de uma personalidade adolescente samoana sem traços de rebeldia, muito distintos da “crise da adolescência” ou dos “problemas da juventude”, caracterizados por conflitos, crises e angústias, atribuídos comumente à juventude no Ocidente. A autora atribui particular importância às práticas educativas samoanas, destacando que elas tendem a atenuar as distinções individuais e a reduzir conflitos intergeracionais.

A chave interpretativa da antropóloga, ao contrastar as adolescências samoana e norte-americana, permite deslocar o olhar para a contemporaneidade e indagar quais são, hoje, os dispositivos culturais que moldam as subjetividades juvenis. Tal deslocamento exige mobilizar a imaginação sociológica, compreendida como a capacidade de transitar entre diferentes escalas de análise, conectando experiências individuais e processos sociais mais amplos. Como afirma Mills (2009, p. 86) trata-se da

capacidade de passar de uma perspectiva para outra – do político para o psicológico; do exame de uma única família para a avaliação comparativa dos orçamentos nacionais do mundo; da escola teológica para a organização militar; de considerações sobre uma indústria de petróleo para estudos de poesia contemporânea. É a capacidade de oscilar entre as transformações mais impessoais e remotas e os traços mais íntimos da pessoa humana – e de ver as relações entre os dois (Mills, 2009, p. 86).

Nas chamadas sociedades complexas, a coexistência de diferentes mundos juvenis engendra dinâmicas próprias. Jovens participam, em diferentes graus, de códigos mais restritos ou mais universalizantes. Os múltiplos domínios e as suas respectivas províncias de significado (Schutz, 1979) revelam distintas gramáticas nas experiências juvenis contemporâneas. Portanto, “colocar juventudes no plural expressa a posição de que é necessário qualificá-la, percebendo-a como uma categoria heterogênea, e, portanto, refratária a simplificações e esquematismos” (Velho, 2006, p. 192). Dessa forma, a categoria juventude pode ser compreendida como um “intervalo de sentido”, conteúdo necessariamente situado em fronteiras de valoração coletivamente constituídas (Feltran, 2017).

Sob esse prisma, pode-se conceber o capitalismo digital (Iasulaitis; Silveira, 2025) como estruturante da experiência intergeracional contemporânea, produzindo efeitos singulares sobre as novas gerações. A compreensão de tal contexto, porém, demanda uma incursão, ainda que breve, nesses efeitos para a constituição identitária e para a narrativa de si e do movimento histórico, ao longo do qual a digitalização foi simbioticamente integrada ao capitalismo flexível (também denominado de reestruturação produtiva, capitalismo tardio e neoliberalismo). Esse movimento deu início a um conjunto de processos econômicos e sociais que destinou um grande contingente populacional a viver suportando constante instabilidade das condições básicas de reprodução da vida (emprego, moradia, serviços de saúde e educação e mobilidade).

As incertezas decorrentes da flexibilidade e o enfraquecimento das políticas estatais voltadas ao social (saúde, educação pública e assistência) têm altos custos sociopsicológicos, os quais foram sintetizados por Richard Sennett como a “corrosão do caráter”:

O termo caráter concentra-se, sobretudo, no aspecto a longo prazo de nossa experiência emocional. É expresso pela lealdade e pelo compromisso mútuo, pela busca de metas a longo prazo ou pela prática de adiar a satisfação em troca de um fim futuro. Da confusão de sentimentos em que estamos em algum momento em particular procuramos salvar e manter alguns; esses sentimentos sustentáveis servirão a nossos caracteres. Caráter são os traços pessoais a que damos valor em nós mesmos, e pelos quais buscamos que os outros nos valorizem. Como decidimos o que tem valor duradouro em nós numa sociedade impaciente, que se concentra no momento imediato? Como se pode buscar metas a longo prazo numa economia dedicada ao curto prazo? Como se pode manter lealdades e compromissos mútuos em instituições que vivem se desfazendo ou sendo continuamente reprojetadas? (Sennett, 2016, p. 10).

A fase neoliberal do capitalismo proliferou contextos de socialização cujas propriedades não favorecem a formação de acordos éticos sólidos (em última instância, codificados num inventário de direitos constitucionalmente garantidos), tampouco laços de confiança duradouros. Isso impede a formação de subjetividades cujo senso de valor próprio dependa da atuação responsável e comprometida diante do outro, que pode ser tanto alguém com quem se possua uma relação de afeto ou de vínculo formal, como num contrato de trabalho.

Sennett se vale da comparação das trajetórias de dois trabalhadores, pai e filho, para expressar a relação essencial entre narrativa de si e caráter. O pai, Enrico, era um faxineiro, imigrante italiano que, embora tivesse uma vida modesta, viveu a era do estado de bem-estar social estadunidense e de uma ainda sólida proteção dos direitos laborais. Enrico teve uma vida modesta, mas com previsibilidade. Ele sabia exatamente quando e com qual renda ele se aposentaria. Viveu num tempo em que a “jaula de ferro” (Weber, 2004) da estrutura burocrática garantia a racionalização do tempo. Sennett o teria conhecido no ano de 1970, quando realizava a pesquisa que resultou no livro The Hidden Injuries of Class (1973).

O filho, Rico, teve uma trajetória escolar mais longeva, formou-se engenheiro e concretizou o sonho familiar de mobilidade social ascendente, mas sustentava a vida adulta no mundo do capitalismo flexível. Seu pai, Enrico,

conquistou uma mítica história para si mesmo, em que a sua experiência se acumulava material e fisicamente […]. O faxineiro sentia que se tornava autor de sua vida, e embora fosse um homem inferior na escala social, essa narrativa lhe dava um senso de respeito próprio (Sennett, 2016, p. 14).

Rico, por sua vez, teve a vida emocional profundamente marcada pelas características distintivas do capitalismo de nossa época: a constante redefinição dos tempos, locais, regras e prioridades do trabalho. Tanto ele quanto sua esposa moldaram a vida familiar num campo de incertezas acumuladas. Mudaram-se de cidade e estado diversas vezes, o que dificultava o pertencimento a uma comunidade, a um grupo formado de testemunhas de longo prazo de suas trajetórias. Redefiniram as suas vidas profissionais para melhor se adaptarem ao mercado, submeteram-se ao custo psicológico de justificar os seus fracassos, apesar do trabalho duro e da alta escolaridade. A sobrecarga administrativa de pequenos grupos de trabalho com muitas e variadas tarefas – característica frequente da reorganização empresarial –, por sua vez, gerava grandes dilemas na geração de Rico e de sua esposa. A absorção da vida familiar por um regime de trabalho sem tempo rotinizado somava-se à culpa pela baixa participação na vida dos filhos, numa época em que os discursos pedagógicos e psicológicos sobre a importância da vigilância parental na vida escolar e emocional da prole já invadiam a esfera pública. A exigência de constância e disciplina dirigida aos filhos, por sua vez, esmorecia diante do exemplo concreto de uma vida relativamente anárquica, derivada não do desejo de Enrico e de sua esposa, mas das circunstâncias do capitalismo de curto prazo que dirigia as suas vidas.

Os bloqueios concretos (estruturais e institucionais) ao amadurecimento da confiança informal e do compromisso mútuo difundem poderosamente uma lógica das relações sociais segundo a qual “as formas passageiras de associação são mais úteis às pessoas que as ligações de longo prazo e, em parte, que fortes laços sociais como a lealdade deixaram de ser atraentes” (Sennett, 2016, p. 24). Tais circunstâncias faziam com que os ensinamentos de Enrico sobre “compromissos mútuos” se tornassem uma “ideia abstrata” para os filhos de Rico. Este percebia que as exigências de sobrevivência no mundo do trabalho e os comportamentos associados ao sucesso financeiro já não lhe permitiam oferecer aos filhos um modelo de referência paterna capaz de orientar suas trajetórias e a construção de vínculos duradouros (Sennett, 2016, p. 26). Como afirma Sennett (2016, p. 168),

pode-se dizer que o capitalismo sempre foi assim. Mas não do mesmo jeito. A indiferença do antigo capitalismo ligado à classe era cruamente material; a indiferença que se irradia do capitalismo flexível é mais pessoal, porque o próprio sistema é menos cruamente esboçado, menos legível na forma.

O exame de Sennett acerca das consequências do novo capitalismo para a identidade nos oferece uma produtiva transição do argumento filosófico ricoeuriano para a discussão sociológica. A ideia de caráter e de cumprimento da palavra – o que assegura o caráter diante do outro – também se faz presente na obra de Paul Ricoeur (1990). Segundo o filósofo, o caráter e o cumprimento da palavra garantem uma unidade e a permanência do si no tempo, isto é, a constituição de uma identidade. Esta se funda menos em uma posição imediata sobre si – cujo acesso se dá pelo cogito ou pela projeção do sentimento mais emergente – do que em um processo longamente mediado pelos testemunhos das capacidades pessoais do si mesmo, obtidos nas interações ao longo da trajetória. Trata-se de um processo inscrito no tempo e, portanto, narrativamente ancorado.

Para Ricoeur (1990, p. 144), o caráter designa, por excelência, a mesmidade da pessoa, sendo “o conjunto de marcas distintivas” pelas quais se pode “reidentificar” alguém como “o mesmo”. O caráter seria, nas palavras do filósofo, uma “disposição durável” (Ricoeur, 1990, p. 146). A noção de disposição, embora tenha origem na filosofia aristotélica, é muito cara à sociologia. Vários autores[2] se valem dela para sintetizar o resultado da internalização subjetiva das maneiras de pensar, agir ou sentir homólogas às propriedades sociais dos contextos de socialização. Nesse sentido, um caráter íntegro, a ponto de ser reconhecível na duração de uma vida, depende da duração também das propriedades dos contextos formadores – familiares, educacionais e, mais recentemente, das diversas mídias que têm absorvido a nossa vida mental e mediado, de forma incontornável, as nossas interações sociais.

A noção de compromisso mútuo como fulcral para a produção de uma história para si faz convergir, mais uma vez, as obras de Richard Sennett e de Paul Ricoeur. Se o caráter designa o conjunto de traços distintivos, o que é assinalável inequivocamente na pessoa, a palavra empenhada designa a maneira pela qual o sujeito se identifica na própria mudança – ou apesar dela –, por meio da manutenção de si produzida pelo ato de manter a palavra outrora empenhada. Ambas coordenam uma permanência no tempo, pois permitem o reconhecimento de si ao longo da vida.

Nas palavras de Sennett (2016, p. 133), “o dilema de como organizar uma narrativa de vida é em parte esclarecido sondando-se como, no capitalismo de hoje, as pessoas enfrentam o mundo”, mas há uma grande desigualdade na forma como o enfrentamos. Para usar a conhecida formulação de Pierre Bourdieu (1988), a vida é mais benéfica para aqueles que guardam “cumplicidade ontológica” com o mundo, isto é, para aqueles cuja socialização produziu traços de caráter ajustados às exigências das estruturas sociais de sua época.

Aqueles cujas condições de existência possibilitam genuína tolerância à fragmentação e um sereno desapego ao passado e ao que foi construído – a exemplo dos empresários da indústria de tecnologia ou dos investidores mais agressivos – podem ajustar-se tranquilamente ao novo capitalismo, fazendo da própria trajetória uma enérgica defesa daquilo que entendem e vivem como liberdade e espontaneidade. Para outros, porém, não se trata de liberdade e espontaneidade, mas de estar à deriva. Os mesmos traços que compõem o tipo de subjetividade afinado com o capitalismo flexível corroem o caráter daqueles que, sem dispor dos recursos materiais, simbólicos e atitudinais por ele exigidos, tentam jogar segundo as mesmas regras ou sequer possuem as condições de reconhecê-las e decifrá-las (Sennett, 2016).

A esse respeito, é esclarecedora a pesquisa do sociólogo português José Machado Pais, que, na obra Ganchos, tachos e biscates (2001),[3] analisa a condição juvenil a partir de experiências biográficas de jovens que vivenciavam o trabalho de forma intermitente, improvisada, em um tempo de instabilidade e incerteza. Por meio das histórias de vida de 14 jovens, José Machado Pais revela como as transições para a vida adulta deixam de seguir um roteiro previsível. O autor analisa as biografias a partir das metáforas “encruzilhadas” e “labirintos”, que se configuram em trajetórias “ioiô”, isto é, experiências juvenis marcadas por movimentos oscilatórios e reversíveis (Pais, 2001, p. 12). Se, naquele momento, no início dos anos 2000, a obra do sociólogo português apontava que a fragmentação das trajetórias juvenis tensionava a construção de narrativas biográficas com traços constantes e reconhecíveis (formadores do caráter), no contexto contemporâneo da plataformização da vida essa condição se radicaliza.

A nossa época é marcada por uma interessante contradição: ao mesmo tempo em que nos escapa, de maneira cada vez mais radical, a possibilidade de constituição de uma identidade por meio do reconhecimento de si ao longo da vida, essa é uma época em que falar de si e projetar os sentimentos pessoais para interpretar problemas públicos tornou-se a tônica hegemônica, como pretendemos argumentar na seção seguinte.

 

A erosão do ethos republicano e o triunfo da imaginação psicológica

Como argumentamos na seção anterior, a construção de uma narrativa de si depende da reconstituição longitudinal de princípios reconhecíveis ao longo da vida. Trata-se, sobretudo, da identificação do valor ético que atribuímos aos nossos próprios desejos e às nossas relações com os outros (caráter), bem como da avaliação sobre a capacidade não somente de apresentar nossos valores, mas de fazê-los valer nas atitudes com os outros e nas decisões tomadas ao longo da vida. Nesse sentido, há duas dimensões cruciais para a construção de uma identidade narrativa: a reconstituição do vivido e a apreciação ética daquilo que foi cognitivamente formulado como vivido. Sennett e Ricoeur encontram-se na conclusão de que a ideia de cooperação é essencial à configuração de uma narrativa de si. Como afirma Ricoeur (apud Sennett, 2016, p. 195), acerca da manutenção de si: “Como alguém conta comigo, eu sou responsável por minha ação perante o outro”. Sobre essa afirmação de Ricoeur, diz Sennett (2016, p.168):

Para sermos dignos de confiança, devemos nos sentir necessários; para nos sentirmos necessários, esse Outro tem de estar em necessidade. “Quem precisa de mim?” é uma questão de caráter que sofre um desafio radical no capitalismo moderno. O sistema irradia indiferença. Faz isso em termos dos resultados do esforço humano, como nos mercados em que o vendedor leva tudo, onde há pouca relação entre risco e recompensa. Irradia indiferença na organização da falta de confiança, onde não há motivo para se ser necessário. E também na reengenharia das instituições, em que as pessoas são tratadas como descartáveis. Essas práticas, óbvia e brutalmente, reduzem o senso de que contamos como pessoa, de que somos necessários aos outros.

Sennett (2022) defende que o acirramento das características estruturais e relacionais do novo capitalismo teve como consequência a debilitação da vida pública e das habilidades humanas para a vida coletiva. O sociólogo argumenta que, em diferentes momentos históricos, pode-se identificar uma dinâmica específica da relação entre os domínios público e privado: à medida que a vida pública se enfraquece, o indivíduo direciona as suas energias emocionais para o encapsulamento na esfera privada, seja para um compromisso místico ou religioso, seja para outras vias de fuga do mundo. No novo capitalismo, nos encaminhamos para uma forma moderna de idolatria da personalidade, que tem consequências culturais, políticas e para a experiência cotidiana. Trata-se, portanto, não apenas de uma erosão das capacidades de negociação do cidadão com o Estado, no sentido clássico da República, mas de um processo que repercute na autoconcepção de si e nas formas de apreciar e julgar o que o mundo nos apresenta, sejam produtos culturais, fatos políticos ou situações cotidianas.

Um conjunto significativo de expressões culturais pode nos ajudar a localizar e interpretar o que Sennett (2022) nomeia de o “fim da cultura pública”. Produtos da indústria cultural estadunidense – de filmes hollywoodianos de grande sucesso a grandes empresas voltadas à venda de métodos de “conscientização”, como a Erhard Seminars Training (EST) – alcançaram enorme sucesso nos Estados Unidos, foram exportados para outros países, como o Brasil, e dão provas tanto do desencanto com a vida coletiva quanto das maneiras modernas de preservar o eu da ameaça incontrolável representada pela complexidade social.

Filmes como Um dia de cão (1975), Taxi Driver (1976) e Inferno na Torre ilustram as consequências psicológicas da crise econômica americana que sucedeu a era de estabilidade em que Enrico construiu sua trajetória: dois homens fracassados que decidem assaltar um banco; um taxista e ex-fuzileiro naval cuja saúde mental, já comprometida, se deteriora pelo contato com a violência do cotidiano; e um grupo de pessoas que se joga das janelas de arranha-céus – o símbolo máximo da afluência financeira – em chamas. Essas narrativas são metáforas do desajuste social e revelam indivíduos reagindo desesperadamente ao desemprego, à crise energética, à perda da confiança nas instituições estatais e na força da coletividade.[4]

A cultura de coaches, por sua vez, troca os sinais de um movimento anterior de “busca do eu”, o movimento de contracultura, também conhecido como movimento hippie. Enquanto este propagava o cultivo de uma espiritualidade conectada com a defesa do pacifismo, da vida comunitária e da crítica ao consumismo, aquela convocava à busca de soluções individuais para os mais variados sofrimentos. A cultura dos coaches se tornou um imenso poço de ideias, no qual cabem desde a psicanálise freudiana até as recomendações oraculares de investimento financeiro (Silva, 2012). O fato é que ela invadiu o marketing, o mundo corporativo e os inúmeros mercados de lifestyle – da moda ao turismo e à alimentação –, espraiando a ideologia de que a realidade depende menos de fatos observáveis e comprováveis do que de sentimentos a respeito do mundo. O destino estaria em nossas próprias mãos, desde que mudássemos os nossos sentimentos sobre a realidade.

A valorização dos estados emocionais como índice supremo de interpretação das interações sociais, das personalidades públicas e dos eventos coletivos pode ser constatada também na forma como, de algumas décadas para cá, a crítica de obras (ou produtos culturais) tem sido amplamente substituída pela avaliação da vida privada dos seus autores,[5] como observa a ensaísta Claire Dederer (2025) ao analisar a relação entre produção e recepção de bens culturais em uma época de saturação biográfica.

Atualmente, não parece legítimo apreender uma obra – literária, pictórica, cinematográfica ou científica – em seus próprios termos. Um imenso mercado de biografias (Dederer, 2025), alimentado justamente pela ansiedade em recolher elementos da vida privada que possibilitem a elaboração de sentimentos pessoais sobre os autores, tem gerado menos um movimento de iconoclastia com potencial de crítica social e cultural do que um crescimento vertiginoso da mercantilização das máculas alheias. Essa mercantilização, por sua vez, conecta-se à indústria das revelações, que direciona muito da energia humana a um fluxo interminável de julgamentos.[6] Isso reforça moralidades tribais,[7] obliterando discussões mais abrangentes e elucidativas sobre as hierarquias e os mecanismos de poder dos campos de produção cultural, assim como sobre a obra intelectual como elemento da cultura objetiva (Simmel, 2014), ou seja, como produção humana que se torna independente de seu criador.

Uma maior absorção psíquica também tende a nos desabilitar para muitas experiências, mesmo as mais corriqueiras, cujos mecanismos dependem de diferentes formas de cooperação, tais como discussões produtivas, gestos de civilidade no contato com estranhos, práticas esportivas, musicais e demais atividades em que o gesto do outro importa

No âmbito das interações face a face e das habilidades comunicativas, a obsessão com a autojustificação e com a legitimidade do eu prejudica a capacidade de escuta e encurrala a conversa ao “‘fetiche da afirmação”’ (Sennett, 2012), ou seja, ao impulso de enfatizar um argumento como se ele fosse inquestionável ou insuperável. A fixação do interlocutor com o que um acontecimento ou uma pessoa significam – seja um amigo ou uma personalidade pública –, sem a concessão cognitiva e emocional de um espaço ao outro, impede não somente a produção de consenso, mas deteriora a função cooperativa do conflito. Essa dinâmica, segundo Sennett, deve ser entendida no registro do caráter: “é a preocupação consigo mesmo que impede alguém de entender aquilo que é inerente ao domínio do eu e da autogratificação e aquilo que não lhe é inerente” (Sennett, 2022, p. 22). No sentido clínico, esse tipo de personalidade pode ser caracterizado como narcisista. Porém, ao usar vocabulários clínicos, corremos o risco de sugerir soluções terapêuticas para questões cuja grandeza psicológica está amplamente associada a dimensões sociológicas. Não é essa a nossa intenção aqui. Pretendemos argumentar que uma determinada ecologia informacional e comunicativa engendra a produção de batalhas de manifestações de sentimentos pessoais, amplamente aproveitadas pelo capitalismo algoritmizado. Na próxima seção, deslindamos algumas das características da experiência individual e das narrativas jovens no mundo digitalizado.

 

Juventudes e narrativas no mundo da pós-verdade

Também nas plataformas digitais, diferentes “mundos juvenis” coabitam ou estão sobrepostos. Há uma inegável digitalização das experiências individuais em um ambiente no qual os algoritmos se adequam às demandas dos sujeitos, personalizando e intensificando vivências autorreferidas. A digitalização da vida, enquanto fenômeno estrutural, demanda personalidades direcionadas ao reconhecimento externo e à exposição imagética. Como argumenta Paula Sibilia (2012, p. 51), “os jovens abraçam essas novidades e se envolvem com elas de maneira mais visceral e naturalizada, embora de modo algum se trate de uma exclusividade das gerações mais novas”.

As transformações da internet, como ambiente de construção de experiências coletivas e de expressões da individualidade, podem ser compreendidas pela mudança de um modelo mais aberto e descentralizado para uma ecologia comunicacional fortemente plataformizada, centralizada pela ação das big techs, pela curadoria algorítmica e pela intensiva personalização da experiência dos usuários. Parafraseando Sennett (2022), o eu digital de cada indivíduo se tornou seu principal fardo. No contexto dos ambientes digitais e das narrativas algorítmicas, a imaginação psicológica encontra terreno fértil, o falar de si ocorre por meio de micronarrativas do cotidiano – postagens, comentários, imagens –, que registram aspectos da vida, das relações afetivas, do trabalho.

As plataformas e as redes sociais digitais privilegiam formas de enunciação centradas no eu, na emoção e na exposição de vivências pessoais, reforçando modos de conhecer e interpretar o mundo baseados na visibilidade e no engajamento afetivo. Isso é amplificado pelo trabalho estatístico que, mensurando os fluxos de atenção, oferece caminhos para uma cooptação ainda mais poderosa. Os algoritmos são agentes decisivos para a reconfiguração da experiência informacional, promovendo a segmentação de grupos e indivíduos nas chamadas “bolhas” e, no limite, a personalização de mundos (Cesarino, 2022). Uma vez que

Os usuários vão perdendo o controle daquilo que aparece para si e de como eles mesmos aparecem para outros. Essas decisões vão sendo delegadas para os algoritmos e os usuários passam a uma posição cada vez mais passiva. O grande paradoxo do capitalismo de vigilância – e, como já notamos, fonte de sua eficácia – é que, do ponto de vista dos usuários, poucos entendem a própria experiência nas plataformas como sendo de passividade. Pelo contrário, ali prevalece o que van Zoonem (2012) chamou de eu-pistemologia (i-pistemology) (Cesarino, 2022, posição 1227).

Os sistemas sociotécnicos atravessam a vida contemporânea de forma transversal. As temporalidades hiperaceleradas, a intensa personalização e a ilusão das deliberações individuais nos ambientes de socialização digital criam maneiras de agir e pensar, e narrativas influenciadas por agentes não humanos que competem com outros ambientes de socialização. Os mecanismos – tanto mais eficazes quanto mais sutis – de captura da atenção, um dos bens mais intensamente disputados da contemporaneidade, manifestam e estruturam as nossas interações cotidianas. Assim, como afirma Yves Citton (2018, p. 25), “aquilo que era um epifenômeno – prestar coletivamente atenção mais a isto do que àquilo – está reestruturando fundamentalmente a maneira como nós (re)produzimos materialmente nossas existências”.

A convergência entre algoritimização e neoliberalização tem como uma de suas principais consequências a “reorganização nas formas contemporâneas de formalização da verdade”’ (Cesarino, 2021, p. 74), notadamente no sistema de peritos (Giddens, 1991),[8] cuja crise de confiança força uma “reestruturação do ambiente epistêmico contemporâneo” (Cesarino, 2021, p. 74). No horizonte do conhecimento centrado no eu como instância privilegiada de verdade, o regime de produção e validação científicos – organizado em torno de critérios de prova, generalização ou falseabilidade – passa a competir com a legitimidade da experiência pessoal e do testemunho subjetivo, em grande medida porque “falar de si é uma condição de sobrevivência no quadro dessa nova economia” (Citton, 2018, p. 24). A autoridade da primeira pessoa amplia seu espaço na esfera pública, desde as redes sociais de influencers às mudanças nas hierarquias e categorizações do jornalismo, passando pela ampla recepção, sobretudo da parte das Ciências Humanas, da legitimidade das autobiografias sem as mediações analíticas que as enquadrem e contextualizem. Assim, a imaginação psicológica não apenas molda modos de interpretação do mundo social, mas também participa ativamente da reorganização contemporânea dos regimes de verdade.

O quadro de colonização das narrativas de si para um mercado ávido pela atenção humana é reforçado pelo crescimento exponencial do uso do formato storytelling nas estratégias de publicidade, efeito da migração dos vídeos da televisão para redes sociais (Veríssimo, 2021). As narrativas publicitárias retiram seu poder persuasivo do trabalho prévio, de base algorítmica, por meio do qual o emissor procura descobrir e conceber maneiras de motivar os sentimentos mais aderentes ao seu público. As evidências das neurociências de que os indivíduos se lembram melhor das informações quando “estas são contadas em forma de ‘história’, ao invés de serem apresentadas como uma lista de factos, está a contribuir, cada vez mais, para o uso deste tipo de narrativa pelos publicitários” (Veríssimo, 2021).

As narrativas biográficas, portanto, devemos admitir, estão comprometidas pela decadência do ethos republicano, pela perda de confiança no sistema de peritos e pela ideologia do sujeito que permeiam as plataformas digitais, tal como previsto por Gaulejac (2013, p. 75):

E se o retorno do sujeito vier a ser a ideologia da hipermodernidade? Face ao desmantelamento do social, da família, de diferentes instituições, face à evolução do individualismo, do narcisismo, do psicologismo, face à crise do trabalho, do político, da religião, encontramos, enfim, um recurso! E esse recurso é o sujeito ele próprio que toma o lugar de Deus como criador de sua existência, como produtor da sociedade, como empreendedor de sua vida, como revelação do seu “si íntimo”!

Diante do quadro que procuramos montar, consideramos ser premente, para nós, pesquisadoras e professoras dedicadas às perspectivas biográficas, ter atenção redobrada a quais modelos de construção narrativa os indivíduos nas sociedades pós-modernas recorrem para biografar sua experiência. Estamos testemunhando uma transformação, uma renovação da narratividade biográfica em suas formas, suas estruturas, mas também em seu funcionamento e modos de ação. Acreditamos que o gosto pelo desvelamento autobiográfico deve ser disciplinado pela orientação científico-valorativa segundo a qual, quando servimos à produção de conhecimento, a subjetividade não é um fim em si mesmo. Assim, devemos investigar a nossa própria trajetória em consideração a um arco histórico maior e com o uso consciente de instrumentos intelectuais que colaborem para a objetivação de si e para a relativização dos nossos pontos de vista. Isso tudo é o oposto do culto a um universo intrapsíquico.

 

Conclusão

Se, em momentos anteriores da história do Ocidente, a fuga para o reino da privacidade se direcionou largamente para a transcendência religiosa – um dos mais poderosos exemplos é o da experiência romana após a queda de Augusto, no século V, seguida de poderosa ascensão da Igreja Católica –, em anos recentes, assistimos à colonização da vida social por um conjunto de sistemas e estratégias que nos alienam da compreensão das estruturas que engendram a Grande História,[9] na qual estão circunscritas as nossas trajetórias individuais, e também da compreensão dos contextos sociais que pavimentam os processos de socialização e das características das relações sociais e pessoais das quais dependemos e nas quais colaboramos.

Grande parte desse processo de encapsulamento do eu se deve, como procuramos argumentar, ao enfraquecimento dos suportes materiais da vida pública compartilhada e do consequente esvaziamento da confiança mútua. Os jovens tendem a experimentar esse processo de forma mais radical, posto que ele foi intensificado pela explosão da comunicação digital nesse começo do terceiro milênio.

As miradas mais qualificadas sobre o mundo contemporâneo – aquelas que logram integrar explicação de processos estruturais com as suas repercussões da sociabilidade e subjetividade – têm provado sistematicamente que determinadas arquiteturas digitais, com gigantesco poder de expansão, operam por meio de mecanismos amplamente baseados na “eu-pistemologia”, aproveitando-se de um momento de radicalização daquilo que Sennett identificou como imaginação psicológica. As narrativas pessoais, do tipo autobiográfica, são, por excelência, o gênero de produção oral e escrita propício à ênfase aos julgamentos e às sensibilidades individuais, assim como são impermeáveis à consideração dos processos históricos e sociais. Por outro lado, maneiras cada vez mais sofisticadas de captura da atenção têm feito uso das capacidades de impregnação das narrativas do tipo storytelling. Tudo isso coloca o aproveitamento acadêmico das narrativas de si ou autobiografias na berlinda. Estaríamos contribuindo para a legitimidade da narrativa em primeira pessoa em detrimento do modo de operação do sistema de peritos?

Nós, que trabalhamos em um ambiente epistêmico fortemente colocado em xeque e integramos, nós mesmas, o sistema de peritos, o que teríamos a oferecer aos jovens que viveram os seus processos de socialização num mundo de crescente intensificação da desorganização informacional? A tarefa da educação é, mais do que nunca, oferecer e ensinar as aptidões de reconhecimento e a apreciação da qualidade da experiência intelectual, bem como do valor da compreensão da história e da vida social para a produção científica e para a constituição de habilidades cooperativas. Como afirma Citton (2018, p.27), ao comentar o trabalho de Richard Lanham sobre economia da atenção:

Richard Lanham tem toda a razão em sublinhar que a economia da atenção tem ao menos dois milênios e meio, pois os retóricos conceberam seu trabalho e sua ciência, desde a Antiguidade, como uma habilidade para captar e sustentar a atenção de uma audiência, seja em um contexto judiciário, político ou artístico. Como ele ressalta, boa parte das reflexões e das experimentações relativas ao “estilo”, ontem como hoje, merecem ser (re)lidas levando em conta um contexto de rivalidade quanto à conquista de uma atenção sempre dolorosamente limitada.

A ênfase na imaginação sociológica, ideia que sintetiza uma maneira de pensar atenta aos processos que transcendem o sujeito e ajudam a explicar até mesmo os dilemas mais íntimos, é uma maneira de subverter a tendência heteronomizante da eu-pistemologia e da entropia informacional, que promovem não somente danos cognitivos, mas também psicológicos (Sennett, 2022). A relação entre uma menor participação da vida coletiva e uma maior absorção psíquica merece ter as suas causas sociologicamente reconstituídas. O sofrimento psíquico deve-se, em larga medida, a questões sociais, mas as práticas e os discursos hegemônicos ligados à gestão do sofrimento psíquico costumam fazer abstração do social, o que pode gerar tanto culpabilização pessoal quanto ilusão de que são os sentimentos, e não os fatos, que dão inteligibilidade à realidade. A incapacidade cognitiva de apreensão do real colabora para a atomização das atitudes e valores individuais. Além disso, produz indivíduos e instituições carentes de ideias ou explicações que suportem o peso das experiências concretas.

Apostamos que, mesmo em um cenário de digitalização da vida e de plataformização, a coprodução entre agentes humanos e maquínicos (Cesarino, 2021) pode ser mirada pela imaginação sociológica como prática de reflexividade, em um universo informacional em crescente expansão, aceleração e sujeição à entropia. Nessa direção, compreendemos a imaginação sociológica como uma tarefa teórico-metodológica que se materializa em dispositivos pedagógicos capazes de articular formação e pesquisa com jovens (Cunha; Reis; Coutinho, 2022; Coutinho; Cunha, 2024).[10] Ao mobilizar os/as jovens a relacionarem suas biografias às condições coletivas que as constituem, esses dispositivos cultivam a prática de reflexividade, deslocando o olhar de interpretações centradas exclusivamente na experiência individual para as redes de interdependência que conformam a vida social.

 

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Notas



[1] Digitalização é a conversão de informações analógicas (físicas) em formato digital (bits). Dataficação é a transformação de aspectos da vida íntima, privada e social em dados quantificáveis, permitindo seu rastreamento, análise por algoritmos e exploração econômica (Segata; Rifiotis, 2021).

[2] A tradição disposicionalista na sociologia, da qual fazem parte autores de diferentes gerações, como Émile Durkheim, Pierre Bourdieu, Bernard Lahire, defende que a “personalidade” e a “identidade” individuais são constituídas pela experiência em contextos sócio-históricos específicos. Para esse raciocínio, é fundamental o conceito de socialização, entendido como um processo cronológico e socialmente ordenado por meio do qual o indivíduo é moldado (Peters, 2006). Nesse sentido, para a tradição disposicionalista, o passado incorporado do ator é um elemento analítico privilegiado, o que se afina com a perspectiva de Ricoeur sobre a possibilidade de uma manutenção de si ao longo do tempo.

[3] Em Portugal, as expressões ganchos e biscates são utilizadas de forma semelhante para designar atividades profissionais marcadas pela precariedade e pela informalidade. O termo gancho é empregado com maior frequência para atividades ilícitas. Tacho tem origem na expressão portuguesa “ganhar para o tacho”, isto é, garantir o sustento alimentar. Contudo, no uso contemporâneo, passou a designar, sobretudo, um posto de trabalho bem remunerado obtido por meio de influências pessoais (Pais, 2001, p. 7).

[4] Sobre a relação entre a profunda crise econômica estadunidense da época pós Watergate e a American new wave, ver o documentário 1975: o ano do colapso (Neville, 2025).

[5] Não queremos defender a quimera da neutralidade intelectual ou artística. Por óbvio, a biografia do artista intervém na criação e a do espectador na recepção. Carregamos subjetividade tanto para criar quanto para apreciar e avaliar produtos culturais. Porém, temos sido submetidos a uma superexploração das biografias, que não somente matiza ou questiona as obras, mas reduz a obra a uma tela em branco sobre a qual deveríamos projetar nossos sentimentos pessoais acerca de como deveriam ser os comportamentos dos seus autores.

[6] O livro de Claire Dederer, Monstros: o dilema dos fãs (2025), propõe uma interessante reflexão a respeito dos impactos dos julgamentos dos comportamentos do artista na avaliação de suas obras. Há casos radicais de comportamentos criminosos, como o de Roman Polanski, acusado de estupro. O artista é denunciado, a sua imagem é amplamente comprometida e as suas obras são ressignificadas. Mas, apesar do comportamento monstruoso (para usar a palavra que nomeia o título) desse e de outros artistas, a obra ainda resta, bem como outros elementos das biografias. A pergunta que resta é: diante do que descobrimos sobre o criador, o que fazer com a criatura? A resposta, sugere a autora, deve estar à altura da complexidade da pergunta. Certamente a imaginação sociológica pode colaborar para isso.

[7] Usamos aqui a ideia de tribos morais tal como mobilizada por Joshua Greene (2018), isto é, de grupos que concordam entre si e que competem com aqueles que defendem perspectiva distinta.

[8] Em As consequências da modernidade, Antony Giddens (1991, p. 37-38) define os sistemas peritos como “sistemas de excelência técnica ou competência profissional que organizam grandes áreas dos ambientes material e social em que vivemos hoje”.

[9] A expressão é de Sidney Mintz que, em sua obra Worker in the Cane: a Puerto Rican life story (1974), examina a interação entre a “grande história” – processos estruturais globais, como o capitalismo e o os processos sociais relacionados à Plantation – e a “pequena história” – a vida cotidiana de trabalhadores e produtores.

[10] Para mais detalhes sobre como operacionalizar dispositivos didáticos orientados pela imaginação sociológica, ver Cunha; Reis; Coutinho, 2022 e Coutinho; Cunha, 2024.