Narrativas (auto)biográficas e projetos de futuro das juventudes rurais: um estudo sobre trajetórias e perspectivas
(Auto)biographical narratives and future projects of rural youth: a study on trajectories and perspectives
Narrativas (auto)biográficas y proyectos de futuro de las juventudes rurales: un estudio sobre trayectorias y perspectivas
Universidade Federal do Recôncavo da Bahia – Cruz das Almas, BA, Brasil
Universidade do Estado da Bahia – Salvador, BA, Brasil
Universidade do Estado da Bahia – Salvador, BA, Brasil
Recebido em 28 de feveiro de 2026
Aprovado em 20 de abril de 2026
Publicado em 14 de agosto de 2026
RESUMO
O presente artigo tem como objetivo promover reflexões sobre os projetos e expectativas de vida de jovens moradores de áreas rurais que estudam em áreas urbanas, evidenciando o quanto a pesquisa (auto)biográfica tem se potencializado como abordagem capaz de promover diálogos com as juventudes, valorizando suas experiências e os modos como constroem suas existências. O estudo pauta-se nos princípios epistemológicos da pesquisa qualitativa, ancorando-se metodologicamente nos pressupostos da abordagem (auto)biográfica. Como dispositivos de pesquisa, foram utilizadas entrevistas narrativas, oficinas e grupos de discussão, além da análise das imagens fotográficas produzidas pelos próprios jovens e pesquisadores. O estudo possibilitou diferentes olhares sobre as trajetórias de vida e de educação dos jovens colaboradores, evidenciando o quanto possuem forte relação de pertencimento com o espaço em que vivem, mas ainda assim muitos, especialmente as moças, idealizam uma vida futura fora do meio rural como modo de alcançar estabilidade financeira.
Palavras-chave: Narrativas juvenis; Pesquisa (auto)biográfica; Projeto de futuro.
ABSTRACT
This article aims to promote reflections on the projects and life expectations of young people living in rural areas who study in urban areas, highlighting how (auto)biographical research has become an increasingly powerful approach for promoting dialogue with young people, valuing their experiences and the ways in which they construct their lives. The study is based on the epistemological principles of qualitative research, anchored methodologically in the assumptions of the (auto)biographical approach. Narrative interviews, workshops, and discussion groups were used as research tools, in addition to the analysis of photographic images produced by the young people themselves and researchers. The study provided different perspectives on the life and educational trajectories of the young collaborators, highlighting how strongly they feel a sense of belonging to the space in which they live, but nevertheless, many, especially the girls, idealize a future life outside the rural environment as a way to achieve financial stability.
Keywords: Youthnarratives; (Auto)biographicalresearch; Future projects.
RESUMEN
El presente artículo tiene como objetivo promover reflexiones sobre los proyectos y expectativas de vida de jóvenes residentes en zonas rurales que estudianen áreas urbanas, evidenciando como la investigación (auto)biográfica se ha fortalecido como un enfoque capaz de fomentar diálogos com las juventudes, valorando sus experiencias y las formas en que construyen sus existencias. El estudio se basa em los principios epistemológicos de la investigación cualitativa, anclándose metodologicamente em los supuestos del enfoque (auto)biográfico. Como dispositivos de investigación, se utilizaron entrevistas narrativas, talleres y grupos de discusión, además del análisis de imágenes fotográficas producidas por lospropiosjóvenes y los investigadores. El estudio permitió diferentes miradas sobre las trayectorias de vida y educativas de los jóvenes participantes, evidenciando su fuerte vínculo de pertinência com el espacio en el que viven. No obstante, muchos de ellos, especialmente las mujeres, idealizan una vida futura fuera del medio rural como una forma de alcanzar la estabilidade financiera.
Palabras clave: Narrativas juveniles; Investigación (auto)biográfica; Proyecto de futuro.
Introdução
Da minha aldeia
vejo quanto da terra
se pode ver o Universo....
Por isso a minha aldeia é
grande como outra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura...
(Caeiro, 1993, p.32.)
No Brasil, cerca de 25.572.339 pessoas são habitantes de contextos rurais, ou seja, 12,59% da população, segundo IBGE (2022), um contingente populacional considerável em termos quantitativos, pois é uma população maior do que a verificada em grande parte dos países do mundo, reconhecidos pela ONU. E relevante em termos qualitativos, pois estes sujeitos: crianças, jovens, homens, mulheres e idosos, possuem modos diversos de ser, fazer, viver e ler o mundo. Saberes, vivências e experiências formativas, muitas vezes, desvalorizadas e/ou invisibilizadas pela modernidade e pela ideologia homogeneizante da sociedade capitalista - urbana e industrial.
O poema de Caieiro (1993) nos faz refletir que de cada aldeia, vila, comunidade rural, quilombola, ribeirinha, indígena e outras, há sujeitos com vivências, experiências, saberes e sonhos, bem como de leituras de mundo, muitas vezes diversos e singulares, em relação aos sujeitos urbanos, e que não são considerados pela sociedade e escola. Assim, reafirma-se, nesse artigo, a necessidade de se refletir sobre quem são e quais os projetos de futuro dos jovens rurais – àqueles/as que serão, ou não, a próxima geração de sujeitos rurais do Brasil.
Nessa busca de entender como os jovens se constituem nas suas experiências cotidianas, reconhecemos a potência de suas narrativas para nos ajudar a compreender como se vêem e se projetam no futuro. Nesse sentido, validamos a pesquisa (auto)autobiográfica e apresentamos resultados de pesquisas[1] desenvolvidas com estudantes do Ensino Médio de duas cidades do interior da Bahia. Através de diferentes dispositivos de pesquisa, a saber: entrevistas narrativas, oficinas e grupos de discussão, foi possível adentrar, de modo respeitoso e consensual, nas trajetórias de vida e de educação dos jovens colaboradores, potencializando e valorizando suas vozes.
Desse modo, estruturamos este texto em seções, nas quais tecemos reflexões sobre aspectos ligados às juventudes rurais, à potencialidade das pesquisas com narrativas (auto)biográficas juvenis e aos modos como estes estudantes constroem suas existências nessa dinâmica de ir e vir diário entre roça e cidade. Também intencionamos escutar estes sujeitos para entender melhor seus sonhos, expectativas futuras e projetos de vida, reconhecendo que essa discussão não se limita às escolhas profissionais, já que projetar a vida não é somente pensar na profissão. Logo, entende-se que o artigo potencializará um debate relevante sobre as juventudes rurais, seus anseios, sonhos e dilemas.
É preciso ver além: pesquisa (auto)biográfica e formas outras de ver o mundo
O trabalho investigativo com as juventudes leva-nos a questionamentos sobre como valorizar as vozes destes que têm sido tão pouco escutados nos espaços educacionais. Qual abordagem metodológica utilizar para que os problemas acerca das juventudes rurais, que nos instigam, possam ser estudados para além da mera constatação? Como desenvolver uma pesquisa que permita extrapolar a visualização dos problemas e possibilite entender as expectativas e desafios e escutar narrativas que não têm sido validadas?
Ciente de que a abordagem (auto)biográfica pode permitir que enxerguemos além do que estamos vendo, foi feita a opção por esse modo de pesquisar no qual as pessoas falam de si de diferentes formas e com variados instrumentos. Reconhecemos, então, que a abordagem biográfica na educação consegue romper com os modelos reducionistas de investigação no âmbito das escolas, projetando a pesquisa em educação para fora do quadro lógico-formal das investigações sociais e permitindo um olhar para além do que o que está na superfície, pois, como diz Barros (2000): “É preciso transver o mundo”, ou seja, é preciso ver além, enxergar com olhos subjetivos, perceber os dilemas, idealizações, vivências e angústias dos sujeitos, rompendo com estudos que não propõem aos participantes a dinâmica do conhecimento de uma forma viva.
E, também, é preciso recuperar o sujeito empírico nas pesquisas qualitivativas, focalizando em sua experiência, à medida que noutros modelos de investigação, há, ainda, infelizmente, uma resistência a dar a palavra aos outro sujeitos que fogem do padrão normatizado pela sociedade capitalista industrial (Passeggi; Souza, 2017; Arroyo, 2014). A defesa pelo método (auto)biográfico e a opção em desenvolver uma pesquisa que nos permita trilhar pelos caminhos da via da abordagem experiencial se dá, então, pelo entendimento da fecundidade que a abordagem adotada pode instaurar, nos colaboradores, a partir de um olhar para si.
Quando Josso (2004) nos instiga a pensar modos de reflexão a partir do caminhar para si, ela sublinha o quanto essa dimensão da busca de si é potencializadora de aprendizagens, até porque este é um caminhar com outros e possibilita pensar sobre quem somos com as redes de afinidades que vamos construindo ao longo das nossas vidas. A pesquisa (auto)biográfica nos coloca nesse estado de mergulho interior, de ampliação da nossa visão de mundo, de reflexão sobre nós e sobre nossas redes de pessoas, espaços e situações.
Também permite escutar, numa perspectiva implicada e sensível, as vozes dos sujeitos da pesquisa para compreendermos o que vivenciam estes jovens. Corroborando com Dubet (1996), entendemos que a categoria possui uma ambiguidade intrínseca. Isso quer dizer que esse é um período da vida que se abre a novas experimentações e possibilidades, mas que também é uma fase de inquietações, angústias e sentimentos pendulares. Com relação às juventudes rurais, apesar de não serem um grupo homogêneo, já que há uma diversidade de locais em que habitam e, consequentemente, das suas especificidades (existem jovens ribeirinhos, da roça, das florestas, quilombolas, assentados, etc.) percebe-se sentimentos e situações que são comuns entre eles, relacionados especialmente à vida em comunidade. São exemplos disso a boa relação com os vizinhos, a valorização do local em que se vive, o contato com o meio ambiente, os desafios para conciliar estudo e trabalho, dentre outros.
Compreende-se também que, apesar de viverem em condições de vida e trabalho diversas, os jovens que habitam as comunidades rurais brasileiras compartilham também de vários desafios em comum. A falta de políticas públicas para esse segmento da sociedade, a necessidade de deslocamento diário para continuidade dos estudos e a pouca visibilidade que as juventudes rurais encontram nas produções acadêmicas são alguns desses desafios. Para os estudiosos da educação ofertada aos sujeitos de áreas rurais, a pesquisa (auto)biográfica dos estudantes pode possibilitar não só a escuta do que eles falam, mas também o conhecimento sobre elementos que impliquem repensar a dinâmica escolar, pois ao (auto)biografar-se os jovens geram conhecimento e (auto)conhecimento, colocando –se como articuladores de novas formulações teóricas e como seres de ação, assumindo o protagonismo nas pesquisas sobre as juventudes.
Nesse sentido, ressalta-se nosso entendimento de que, em um mundo fundamentado na ideologia urbana e industrial, no qual a maior parte da população brasileira e mundial já vive em cidades, pode parecer normal um projeto de escola e sociedade que seja indiferente às especificidades dos sujeitos oriundos de contextos não urbanos, à medida que estes modos de vida e leituras que fazem do mundo destoam da norma da escola e, assim, devem ser substituídos. Logo a valorização das narrativas dos jovens rurais que se deslocam para estudar diariamente torna-se essencial por valorizar as vozes de quem vive, ainda hoje, os desafios de acesso à educação, já que os moradores desses locais não têm escolas públicas em todos os níveis de ensino onde residem e, por isso, são obrigados a percorrer grandes distâncias para continuar estudando.
Esses jovens moradores de áreas rurais vivem a invisibilidade no que diz respeito à conquista de políticas públicas específicas que atendam às suas demandas e valorizar suas narrativas é também possibilitar o conhecimento de como vivem, o que pensam e o que idealizam, a partir de uma perspectiva mais subjetiva e respeitosa das suas representações sobre a vida e o mundo. Nessa perspectiva dialética de compreensão do universo existencial das juventudes, as entrevistas, fotografias e diversidades de formas de escutar o que eles narram, pode nos possibilitar novas formas de entendermos seus mundos e de adentramos em seus territórios.
Sendo assim, o estudo busca, ao voltar o olhar para o cotidiano e expectativas de vida dos jovens rurais, em diálogo com princípios da pesquisa (auto)biográfica, entender melhor suas trajetórias e perspectivas, além de contribuir para a construção de mecanismos de engajamento, humanização e empoderamento para estes sujeitos, auxiliando-os na criação de uma realidade melhor e possível.
Reflexões sobre trajetórias, expectativas e projetos de vida: diálogos com as juventudes rurais
Ao adentrar nos territórios juvenis, escutando suas narrativas, buscamos um olhar mais sensível para suas realidades, como já desenvolvido em outras pesquisas realizadas pelos autores e outros pesquisadores vinculoados ao GRAFHO/UNEB (Souza; Souza, Orrico, 2015; Souza; Orrico; Santos; Pinho, 2016; Souza; Orrico; Souza, 2018; Souza; Souza; Orrico, 2019).
Assim, o anseio em ouvir os jovens cresce no intuito de entender os múltiplos e singulares processos que vivenciam, já que sabemos que, em uma sociedade, eles não se constituem em um grupo homogêneo e nem de fácil definição. Dayrell (1999) sistematiza um conceito mais amplo quando afirma que a juventude é, ao mesmo tempo, uma condição social e um tipo de representação, entendendo que as idealizações que procuram unificar os sentidos dos movimentos sociais da juventude tendem a ser ultrapassadas pelo contínuo movimento da realidade.
Ratificamos, nesse sentido, nossa opção pelo entendimento de que as juventudes são diversas e que os modos de vidas e a forma como experienciam sua condição juvenil varia de acordo com as condições socioculturais em que estão inseridas. Desta forma, justamente por se tratar de um estudo desenvolvido com uma categoria social complexa e heterogênea, foi necessário conhecer de perto os processos de socialização e trajetórias de vida dos jovens colaboradores da pesquisa. Para isso, foram feitas entrevistas narrativas com estudantes em suas comunidades, além de oficinas e grupos de discussão nas escolas[2].
Entendemos que ser um jovem, especialmente um jovem rural, é um processo carregado de subjetividades ligadas aos modos de existência naquele espaço, da relação com o local em que se vive, com as pessoas da comunidade, com as experiências vividas na coletividade e com as diferentes situações que vão produzindo um sentimento de pertencimento e identificação com aspectos que são marcantes da vida local. Até o enfrentamento das situações adversas que afetam diariamente as comunidades rurais passa a se configurar como fator de aproximação e de estabelecimento de vínculos.
Cientes de que devemos investir em estudos que possam fugir do senso comum, que falem das juventudes e de seus muitos modos de ser e viver, reconhecendo o quanto os jovens estão envoltos em situações diversas e que este é um grupo extremamente exposto aos dilemas sociais e econômicos da atualidade, buscamos refletir sobre esses dilemas, normalmente relacionados às questões de redistribuição de tempo e de espaço no capitalismo contemporâneo, o que tornam esses jovens sujeitos de diversas concepções na sociedade. Essas concepções sobre as juventudes brasileiras, muitas vezes, são construídas a partir de uma série de imagens a respeito da juventude com as quais nos deparamos e que podem interferir em nossa maneira de compreender os jovens (Dayrell, 2003). Uma destas imagens que se sobressaem é a da juventude vista na sua condição de transitoriedade, sempre o jovem como uma pessoa na condição de “vir a ser”, tendo apenas no futuro, na passagem para a vida adulta, o sentido das suas ações no presente.
Groppo (2017, p.08), ao refletir sobre a questão dos jovens enquanto vir a ser, cita que eles são “[...] sujeitos submetidos a processos de subordinação e integração social – despojados de direitos plenos, ainda que protegidos em espaços seguros para experimentar e tatear – até definir melhor quem realmente eles vão ‘ser’”. É válido, então, afirmar que os jovens estão em processo de definição das suas identidades, pensando sobre quem vão ser, mas que eles já são alguém e precisam ser mais reconhecidos, pois, apesar de terem alcançado alguns avanços recentes na legislação[3], os jovens ainda são muito pouco escutados e atendidos nos seus anseios e expectativas.
Para Dayrell (2005, p. 38), “a noção de juventude construída na modernidade, e da qual somos herdeiros, é fruto de uma determinada classe, a burguesia, e de uma determinada noção de tempo”. Essa concepção entende que a juventude é um tempo da vida na qual nos preparamos para o futuro. Daí o entendimento que ainda prevalece, na sociedade brasileira, de que os jovens só serão reconhecidos a partir do momento que ingressarem no mercado de trabalho. Os próprios jovens colaboradores da pesquisa expressam sentimentos de ansiedade para o início da vida profissional, no caso daqueles que não trabalham, ou se sentem mais reconhecidos, no caso dos que já exercem alguma atividade remunerada.
[…] Eu aqui na roça trabalho, eu e meu irmão a gente trabalha ajudando meu pai, minha mãe, arranco mandioca, raspo, limpo a terra com enxada, esses dias mesmo a gente tava debulhando mangalô. Aí é bom porque já dá pra ganhar um dinheiro. Aqui na roça é bom porque a gente começa a trabalhar mais cedo e começa a ter o da gente. Na cidade é mais difícil assim... aqui na roça eu acho melhor […] (João [4]– Entrevista narrativa, 2021).
[…] Trabalhar assim mesmo, pra ganhar dinheiro, eu não trabalho ainda não, só assim ajudando minha mãe em casa, ajudando meu pai a tirar cacau às vezes, mas eu quero muito começar a trabalhar, eu quero fazer um curso de manicure ano que vem. Depois, eu vou querer fazer faculdade, eu vou querer ser professora. É, vou querer trabalhar como professora, mas na cidade, porque eu acho que ser professora na cidade pode ganhar mais […] (Carolina – Entrevista narrativa, 2021).
Tais falas evidenciam uma preocupação com a necessidade de conseguir uma certa independência financeira e mostram algumas dimensões desse debate que se interligam a essa discussão das expectativas para o futuro, por exemplo, ao falar dos seus anseios futuros, eles colocam a importância do estudo sempre como algo necessário para conseguir uma melhor condição financeira da que a que seus pais e familiares têm hoje.Pineau e Le Grand (2012) enfatizam que na adolescência, por conta conta das práticas transicionais e de currículo, os jovens se veem obrigados a fazer um balanço da vida, quando delineiam caminhos e desejos, mesmo que hipotéticos, levando-os a uma auto-eco-reorganização, um processo vital para tomar a vida nãos mãos e na cabeça.(Delory-Momberger, 2014; Arroyo, 2014).
[…] A gente precisa estudar porque ajuda a pessoa a melhorar a condição financeira, a conseguir um emprego bom, a entrar numa faculdade […] (Mário – Entrevista narrativa, 2021).
[…] Eu não gosto muito de estudar, de ler, mas eu sei que é importante, que a pessoa pra ter qualquer coisa na vida vai precisar de estudo […] (Renato – Oficinas, 2021).
[…] Ah, o estudo é importante, como que a gente vai crescer na vida se não estudar? Pra fazer o ENEM mesmo não dá, sem estudo não passa […] (Maria – Oficinas, 2021).
Os jovens reconhecem também que o fato de serem moradores de áreas rurais é mais desafiador e que as escolas não costumam escutá-los, mesmo com a disciplina Projeto de Vida, incluída a partir da mais recente Reforma do Ensino Médio. Nesse sentido, muitos afirmam que, mesmo com a disciplina, seus projetos de vida não têm sido valorizados e/ou incentivados enquanto moradores de áreas rurais e que não são discutidos os desafios dos moradores destas áreas para continuar com seus estudos e seguir com seus sonhos. As narrativas dos jovens corroboram essa realidade.
[…] Não valoriza não, e eu planejo ir embora da zona rural, para ter mais facilidade de fazer a faculdade e trabalhar[…] (Boa Vista, 2025)
[…] Eu acho que para o aluno rural realizar seus planos de vida é mais complicado, pois em nossas vidas há várias dificuldades comparadas a pessoas da cidade, sendo o primeiro desafio quanto morador da zona rural é acordar mais cedo e pegar um ônibus por uma hora para chegar ao colégio. A vida para a estabilidade na faculdade ou financeira dependeria de parentes para ceder abrigo ou dinheiro para aluguel, pois muitos não há disponibilidade de moradia nas cidades[…] (São Francisco, 2025)
[…] Como jovem rural, vejo a escola da cidade como um espaço importante para ampliar meus conhecimentos e oportunidades, mas também percebo que muitas vezes ela não valoriza os saberes do campo e as tradições da vida rural.Sinto que a disciplina de Projeto de Vida fala bastante sobre sonhos e metas, e de certa forma acaba incentivando de algum jeito, mas deveria ser mais.Muitas vezes enfrentamos dificuldades para chegar até a escola, como transporte e distância, e também sentimos que nossos saberes e modos de vida não são valorizados[…] (Arrupiada, 2025)
[…] A disciplina de projeto de vida não trabalha os nossos projetos, não. A disciplina até então, cita bastante e incentiva a descobrirmos sobre nossas futuras escolhas profissionais, mas não houve nenhuma aula, conversa ou atividade que valorize/incentive os moradores rurais. A escola está na cidade, tem o nome de escola do campo, mas é uma escola de costas para o rural.Em nenhum momento a matéria de projeto de vida tocou nos sonhos e projetos da gente que mora na zona rural, sempre eram projetos sobre o futuro da cidade. E isso faz com que a gente acabe achando que só é importante se tiver que ser da cidade. É muito ruim isso[…] (Campo Verde 2, 2025)
[…] Desde pequeno, tanto eu quanto alguns familiares sempre percebemos e comentávamos que eu não continuaria morando na zona rural ou aqui no interior. É como se eu nunca tivesse me enxergado morando aqui. Eu não me sinto em “casa”. Pretendo fazer uma faculdade, provavelmente morando de aluguel e vivendo longe das pessoas daqui[…]. (Viração, 2025)
Reforça-se que os jovens não vêem como positiva a mudança no Ensino Médio nem a inserção da disciplina Projeto de Vida. O que tem acontecido, na maioria das reformas educacionais, é que os estudantes sequer são consultados sobre um novo formato educacional. Logo, não podem propor o que para eles seria significativo. Muitas vezes sequer os professores e gestores são consultados e defendemos que a comunidade escolar precisa estar, de algum modo, representada e envolvida na construção do projeto educacional da escola.
Essa realidade ratifica as discussões de Delory-Momberger (2014) sobre como a escola é o primeiro campo de conflito entre o mundo da vida e o mundo curricular, pois, apesar destes jovens estarem no momento mais fértil e inventivo em relação às figuras de si e projetos de vida, a escola, com sua pedagogia fechada, regulada e programa – sem inocência, neutralidade ou transparência -, oferece pouco ou nenhum espaço e tempo para os processos de configuração, desconfiguração, reconfiguração do sujeito. E isso é amplificado quando os sujeitos são rurais, pois ainda têm que se adequar ao modelo padrão – urbano e industrial -, que norteia, na maioria das vezes, o currículo escolar. Dessa forma, é na escola, onde os sujeitos rurais sentem mais intesamente as dificuldades e opressões para reorganizar o mundo da vida e para reajustar o projeto de si (Delory-Momberger, 2014; Arroyo, 2014).
Esse formato de promover uma educação na qual os professores e estudantes sejam valorizados, motivados e tenham escuta e participação na escola não é uma realidade na educação brasileira. O Estado impõe, historicamente, inclusive aos gestores das escolas, modelos e programas educacionais, muitas vezes sem nenhuma consulta. Prova disso é o que se observa no Novo Ensino Médio, que surge de uma Medida Provisória, que foi transformada em lei sem que houvesse ampla discussão com a população nem com os educadores. O Novo Ensino Médio tem sido extremamente criticado[5] por promover retrocessos na educação, tais como: retirada de conteúdos fundamentais, fragmentação do currículo, notório saber para a docência, dentre outros.
Além disso, apesar de aumentar o tempo do estudante na escola, acredita-se que não promoverá aumento do conhecimento dos estudantes, já que haverá redução de carga horária de muitas disciplinas e sonegação de acesso a vários conhecimentos essenciais para os estudantes ao dividir os currículos em itinerários. Outro fator considerado negativo é que o currículo do Novo Ensino Médio está atrelado ao BNCC (Base Nacional Curricular Comum), documento que não considera as especificidades de cada realidade. Os jovens da roça que colaboraram neste estudo falaram que a educação não considera suas especificidades e que eles não são ouvidos, mesmo com a disciplina que deveria ouvir sobre seus projetos de vida.
Seria necessário que os estudantes do Ensino Médio, moradores de áreas rurais, discutissem mais nas escolas sobre seus projetos de futuro. Observamos que as narrativas dos jovens que evidenciam seus anseios e expectativas futuras estão muito relacionadas com a inserção profissional. Isso é comum, pois, enquanto ser social, ao sair da infância, a pessoa passa a ter uma maior percepção do mundo que o rodeia e das relações consigo mesmo e com o outro. Sua identidade passa a ser percebida nessa fase, em um processo de constante reconstrução e definição, já que, como nos alerta Dayrell (1999), o descobrimento do eu não é um percurso que está dado. Nesse período da vida, cresce o desejo de serem reconhecidos na sociedade, de emancipação, de sair da condição de invisibilidade em relação ao mundo adulto, de mostrar que não são mais crianças e têm poder de decisão, independência, o que, na sociedade capitalista, está muito relacionado aos papeis que se assume de consumidor de bens e serviços.
Em estudo intitulado “Ser alguém na vida: um estudo sobre jovens do meio rural e seus projetos de vida”, Alves e Dayrell (2015) dialogam com jovens moradores de um município mineiro, São Geraldo da Piedade e destacam as vozes juvenis, seus questionamentos e reflexões, que são potentes no sentido de nos ajudar a alimentar a necessidade de pensarmos as juventudes para além desse viés mercadológico demandado pelo sistema capitalista:
O que você quer ser quando crescer? ”Quem nunca fez essa pergunta ou foi indagado a esse respeito na infância ou na adolescência? Provavelmente quem a faz está se referindo à vida adulta na sua dimensão profissional, ou seja, quer saber que profissão a pessoa pretende exercer quando entrar no mercado de trabalho. [ ] Falar em projetos de vida é mais amplo, porque, além da vida profissional, também é preciso problematizar outras dimensões da condição humana, como as escolhas afetivas, os projetos coletivos e as orientações subjetivas da vida individual. (Alves e Dayrell, 2015, p.381).
Reconhece-se, então, a relevância de que se discuta com os jovens seus projetos de vida, mas que essa discussão não se limite às escolhas profissionais, já que não é somente escolher a profissão que significa projeto de vida. Evidencia-se, então, a necessidade de se escutar mais os jovens, validando estudos que os tragam como protagonistas, que nos apresentem suas opiniões e concepções de mundo, que escutem e valorizem mais suas especificidades, refletindo o que pensam acerca do local em que vivem, se é lá que eles se projetam vivendo no futuro ou não, quais seus anseios, expectativas e como a escola/universidade ajudará a concretizar seus desejos, o que a escola não vem fazendo, como demonstra suas narrativas.
Também é importante escutá-los, conscientes de que a questão profissional não deve ser a única a ser discutida com os jovens ao falar de expectativas para o futuro, é evidente que essa questão é importante, até para a criação de políticas específicas de empregabilidade que atendam às necessidades das diferentes juventudes brasileiras, mas é preciso ouvir e acolher as expectativas, dilemas e conflitos que esse grupo social tem a respeito do seu próprio futuro.
Entende-se, então, que é preciso fortalecer a luta por uma escola que promova uma maior escuta dos atores sociais que ali estão (estudantes, professores e demais membros da comunidade escolar). Nesse sentido, como discute Nóvoa (2014), necessitamos entender que a formação vai além dos conceitos de progresso e desenvolvimento, a fim de perceber e valorizar uma formação com base num balanço de vida, com reflexividade crítica, numa auto-eco-reorganização, para a emancipação cognitiva.
Foi possível observar, pelas narrativas dos jovens, que os sujeitos hoje demandam da escola que ela ofereça mais do que acolhimento e matrículas, os jovens querem ser escutados, querem poder sonhar com o ingresso na universidade e com uma vida sem tantas atribulações financeiras. Quando falam sobre seus anseios quando concluírem o Ensino Médio, percebemos que os jovens desejam acessar a universidade, mesmo os que não têm certeza de qual curso optarão.
[…] Eu quero fazer assim Agronomia ou Veterinária.... Porque essas coisas eu podia trabalhar aqui na roça, eu quero me formar e continuar morando aqui na roça, fazer um curso na faculdade, estudar e ficar aqui mesmo, eu acho aqui melhor […](João – Entrevista narrativa, 2021).
[…] Eu vou querer ser engenheiro agrônomo, por isso eu acho que vou precisar ler muito pra fazer faculdade, entender todos os assuntos daqui do campo, de plantação, dos tipos de árvores e eu vou querer morar aqui na roça mesmo porque eu gosto muito de lidar com a terra, com os animais […] (Carlos – Entrevista narrativa, 2021).
Observa-se que, de um modo geral, muitos sonham com o Ensino Superior e a maioria busca uma profissão ligada às Áreas Agrárias, mas também há aqueles que desejam ser engenheiros, psicólogos, advogadas e uma série de outras profissões:
[…] Eu quero fazer faculdade, mas não sei se vai dar certo não porque o curso que eu quero fazer não tem aqui, é Engenharia Mecânica ou Mecatrônica. Eu sou assim apaixonado por coisas eletrônicas, é uma coisa que tá no meu coração […] (Leon – Oficinas, 2021).
[…] Eu ainda não decidi se quero fazer técnico de Radiologia ou algum curso na faculdade na área de Saúde, eu gosto mais dessa área […](Ricardo – Oficinas, 2021).
[…] Eu quero fazer Agronomia, ser engenheira agrônoma […] (Eva– Oficinas, 2021)
[…] Eu quero fazer faculdade pra ser assistente social, mas não é fácil não, às vezes entrar é até fácil, o difícil é ficar, ainda mais que não tem aqui na cidade […] (Thamires- Oficinas, 2021).
Nota-se que muitos demonstram querer cursar a universidade e trabalhar em áreas que os permitam continuar vivendo e trabalhando no campo, outros não. Assim como em estudo desenvolvido por Castro (2005), observa-se, entre os jovens estudantes rurais, grande preferência pelas profissões das chamadas Ciências Agrárias.
Observando algumas das manifestações de possíveis carreiras, encontramos muita insistência em profissões das chamadas Ciências Agrárias [...] mesmo entre aqueles que não têm interesse no trabalho na roça e/ou em permanecer no lote, os cursos de Ciências Agrárias são muito desejados. Embora o sonho de cursar uma faculdade ou curso técnico em Ciências Agrárias seja forte – o que poderia apontar para a construção de carreiras profissionais que integrariam o lote a uma profissão – mais uma vez, as difíceis condições econômicas e o próprio sistema educacional mantêm essa possibilidade no plano dos desejos. Castro (2005, p.89).
A autora supracitada também chama a atenção para o fato de que as jovens moças desejam, em sua grande maioria, sair do campo. Segundo a autora, no seu estudo, ela constata que: “Os filhos começam ajudando os pais [...] As filhas seguem outra dinâmica. Elas buscam emprego, principalmente no comércio”(Castro, 2005, p.23).
Esse fato realmente chamou a atenção ao se discutir sobre expectativas de futuro com as juventudes. Ao realizar entrevistas narrativas com as jovens moradoras de uma das comunidades rurais e perguntar a elas sobre seus sonhos, expectativas e sobre como se veem após a conclusão da Educação Básica, as narrativas demonstram o quanto elas visualizam um futuro no qual o Ensino Superior é um desejo idealizado, mas que não querem voltar para o campo:
[…] Eu estou terminando o Ensino Médio e estou estudando pra fazer o ENEM, eu quero fazer faculdade, então estou fazendo o UPT (Universidade para Todos), que é um cursinho online, pra ajudar mais. Eu quero fazer Psicologia e quero passar esse ano no ENEM e não quero ficar aqui na roça […](Cecília – Entrevista narrativa, 2021).
[…] Eu sinceramente não tenho nada em mente, ainda não pensei qual curso quero fazer, mas quero fazer uma faculdade sim, eu já quis ser Veterinária, mas hoje eu não quero mais, não faço nem ideia do que quero estudar, mas sei que vou querer fazer faculdade e sair da zona rural […] (Clarice – Entrevista narrativa, 2021).
Estudos diversos realizados com jovens moradores de áreas rurais (Alves, Seel e Castro, 2018; Silva, 2010, 2020; Castro, 2005, Dayrell e Alves, 2015, Alves, 2013; Carneiro, 1994; Paulillo, 2016) sinalizam que as moças, ao se projetarem no futuro, anseiam, grande parte delas, uma vida fora do ambiente rural.No caso dos jovens estudantes colaboradores deste estudo, também se observou o fato de que, especialmente as moças, não desejam continuar no campo e elas citam uma diferenciação no tratamento que as jovens que residem nas áreas rurais têm em relação aos rapazes como fator motivador desse desejo de sair da roça.
Algumas jovens colaboradoras do estudo trazem, em suas narrativas, situações e sentimentos que evidenciam o desejo de sair do local em que hoje vivem, mesmo gostando de morar na roça:
[…] Eu gosto de morar no campo, mas quando eu me formar não quero ficar lá não, é muito ruim lá, oportunidade de trabalho não tem nenhuma, só mesmo pra trabalhar na roça mesmo, principalmente pra nós, as meninas, não tem nada, os meninos sempre acham um lugar pra dar dia[6]lá na roça, a gente não […] (Ana Cristina – Oficinas, 2021).
[...] eu trabalho em casa mesmo, minha mãe vai pra casa de farinha e eu fico fazendo as coisas de casa, às vezes eu vou também com ela, meu pai fica mais na roça. Agora pra trabalhar depois que eu terminar a escola, eu não vou querer ficar na roça não, é bom de morar lá, mas é ruim de trabalho, pra estudar também.... Eu acho que isso é mais com as meninas mesmo, pras nós meninas é pior […](Natalia–Oficinas, 2021).
[…] Eu acho essa discussão da diferença de tratamento dos meninos para as meninas uma coisa muito boa de ser discutida, que bom que vai se colocar isso aí nesse trabalho porque o que acontece é assim: normalmente os meninos, desde novos, saem para trabalhar no campo, com os pais, os avôs, pra fazer aquilo que é considerado, pela sociedade machista, coisas de meninos, já as meninas têm que ficar em casa ajudando as mães a fazer coisas que a sociedade encara como trabalho de mulher: fazer comida, arrumar a casa, cuidar das crianças. É por isso que a maioria das meninas, depois que crescem, querem sair da roça […](Clarice – Entrevista narrativa, 2021).
[…] Eu também vou querer trabalhar na rua, na roça é ruim pra mulher. E o povo da roça é muito machista, se alguém quiser pagar pra nós, meninas, dar dia, já é difícil, mas se alguém quiser pagar, vai querer pagar menos […](Simone – Oficinas, 2021).
As falas das estudantes colaboradoras do estudo corroboram com o que dizem autores que se dedicaram a estudar com mais profundidade a temática da saída das jovens rurais do campo. Segundo Schenato e Antonello (2021, p.01), estas moças se veem: “[...] inseridas num contexto de desigualdade de gênero.” Também Silva (2010), em estudo desenvolvido sobre os sentidos de ser uma jovem moça ou um jovem rapaz em contextos rurais, cita que as moças apontam uma tensão sobre ser uma jovem nesses espaços e o grupo de meninas entrevistadas pela autora mostrou-se “[...] resistente ao modelo de comportamento instituído para moças e rapazes no meio rural. As jovens mostram-se indignadas com a forma como são vistas e tratadas na comunidade”(Silva, 2010, p.07).
O que ocorre é que, apesar dos avanços no que diz respeito à discussão sobre protagonismo feminino e crescimento dos movimentos sociais de mulheres no campo, nas áreas rurais, assim como em grande parte do país, a mulher, muitas vezes, ainda é subordinada ao homem, que é considerado mais capaz no que diz respeito ao desenvolvimento de determinadas atividades profissionais. Nas sociedades patriarcais, o homem é tido como mais forte e a figura da mulher é constantemente associada à fragilidade. Essa representação tem mudado pelos avanços do debate em torno desse tema, principalmente pelos estudos acadêmicos, e também pelas conquistas sociais que os grupos que lutam por essa causa vem conseguindo, mas, no espaço rural, ainda é frequente a ocorrência de discursos patriarcais e a reprodução de posições sexistas.
Observa-se que, na agricultura, o trabalho da mulher tem sido visto frequentemente como “ajuda” ao homem e o seu protagonismo ainda é invisibilizado e por vezes silenciado (Alves, Seel e Castro, 2018).O termo “ajuda” inclusive é discutido na obra de Paulilo (2016): “Mulheres rurais: quatro décadas de diálogo”, que mostra o crescimento de movimentos sociais de mulheres camponesas, porém cita que estes ainda são incapazes de romper o ciclo de privilégios masculino e de desvalorização das mulheres que vivem em contextos rurais. Isso reafirma o que dizem Schenato e Antonello (2021, p.02), quando concluem que:
O lugar de nascimento influencia significativamente o desenvolvimento do protagonismo social, uma vez que neste estão envolvidas ações de dominação a partir o gênero, como é no sistema patriarcal onde a subordinação da mulher, ou da jovem, ocorre pela supervalorização do homem na ocupação de atividades consideradas destinadas apenas para ele. Neste sentido, o homem acaba tendo privilégios [...]
Essa concepção, que prevalece em muitas localidades rurais brasileiras, acaba interferindo nas relações de trabalho, na representação política e até na vida cotidiana de homens e mulheres. As narrativas das jovens participantes deste estudo trazem falas como “oportunidade de trabalho não tem”, “a maioria das meninas, depois que crescem, querem sair da roça”, dentre outras, que evidenciam que há necessidade de uma maior discussão em torno dessa temática. Apesar de não ser objetivo inicial dessa pesquisa discutir sobre a divisão social do trabalho nas áreas rurais, emerge nas falas das jovens essa realidade, evidenciando que é preciso debater mais sobre esse assunto.
Precisa ser mais discutida não só a divisão do trabalho nas áreas rurais, mas também a subordinação da mulher em contextos rurais que, historicamente,tem sido incumbida do trabalho reprodutivo com os afazeres da casa e arredores, enquanto o homem é responsável pelo trabalho produtivo e o sustento da casa, tendo uma posição de maior destaque na roça, já que as mulheres e filhos podem ajudá-lo na lida do campo e as filhas normalmente ajudam nos afazeres do lar, mas é o homem quem exerce o domínio sobre essas decisões.
Nesse sentido, entende-se a relevância da escola, enquanto espaço de debate de temáticas essenciais à juventude, de trazer à tona essa discussão sobre as relações de gênero no meio rural, pois, como disseram Schenato e Antonello (2021, p.05) “Diante desse cenário, muitas vezes de exclusão social e expulsão das mulheres para cidade, é importante verificar o protagonismo da escola para quebrar ou reforçar tais estereótipos.“ Reconhece-se, então, que esse debate deve e precisa ser mais visibilizado no âmbito escolar para que as juventudes rurais se sintam mais valorizadas nesses espaços e entendam que seus problemas são relevantes para quem os educam.
É inviável, atualmente, que a escola se perpetue somente como uma “máquina” de ensinar conteúdos e desconsidere os muitos desafios que os jovens enfrentam na dinâmica de suas vivências diárias e projeções de futuro. É importante que se discuta questão profissional ao tratar das juventudes, que se lute por políticas públicas que atendam às necessidades dos jovens para que eles tenham acesso à educação e consigam se inserir no mercado profissional, mas que outras questões sejam debatidas, pois o jovem precisa ser visto na sua inteireza e ouvido para além das demandas econômicas.
Nesse sentido, é preciso que se entenda a necessidade de olharmos as juventudes brasileiras de modo multidimensional. Sendo assim, salienta-se a importância dos relatos dos jovens rurais como corpus de investigação, mas também de formação e valorização das suas singularidades, reconhecendo a importância do que eles têm a dizer. Desse modo, assumimos ,como princípio epistemológico, a concepção de que os jovens rurais são produtores de conhecimento e que é preciso lutar para que a escola os escute mais, valorizando suas vozes e a singularidade das suas vidas.
Considerações Finais
Ao final da pesquisa, o jovem rural, São Franscisco, aluno e poeta, entregou o poema, intitulado Estudante do Campo, construído, a partir das entrevistas e grupos de discussão sobre a vida, obstáculos e projetos de futuros dos jovens rurais:
Vai para a cidade todos os dias
Bate a poeira do corpo
Para tentar aprender algo novo.
Em meio as dificuldades
Tenta achar seu espaço nas cidades,
Com receio de deixar seu canto para trás
Mesmo assim motivado pelos pais;
Não se abala com as preocupações.
Sonha em conquistar o mundo,
Mesmo com suas limitações,
Sonha em voltar para o seu interior.
Estuda, trabalha, se estressa e lucra.
Volta ao seu berço
Ao lado de quem lhe cativou,
Perto do amor puro que não há preço.
São coisas do interior,
Como explicar isso há alguém
Que nunca da roça foi refém,
Mas nunca trocaria aquilo por nada e ninguém.
(Estudante do Campo –São Francisco, 2025)
Podemos notar que o poema traz os desejos, obstáculos e projetos de vida, que se confrontam, se reorganizam e de desenvolvem, como discute Delory-Momberger (2014), sob formas moventes e instáveis na juventude, o que exige, da parte deles, um intenso trabalho biográfico para metabolizar as mudanças, contradições e os sonhos com a realidade e projetos da escola e da vida. Assim, estes sujeitos rurais, tentam desenvolver táticas e estratégias para preservar sua identidade e figuras de sim, bem como colocar em prática seus projetos de futuro.
O artigo tensionou, a partir das narrativas discentes, promover reflexões sobre trajetórias, anseios, perspectivas e projetos de futuro de jovens que moram na roça e se deslocam para estudar em áreas urbanas. Constatou-se que as diversas juventudes rurais que habitam o Brasil clamam por serem mais ouvidas e por conquistarem mais espaço nas políticas públicas, nas escolas e nos diferentes locais em que circulam (Silva, 2020; Weishmeier, 2013; Castro, 2005). Os jovens querem ser mais visibilizados e anseiam pela possibilidade de revelar suas identidades, suas relações de pertença e seus singulares modos de vida.
É preciso que os escutemos para entender melhor como eles estão de fato produzindo e tecendo sua condição juvenil nas diferentes localidades em que residem, pois, como disse Stropassolas (2005), quando falamos de juventudes, não se tem uma palavra oficial sobre quem eles são ou deveriam ser. Por isso, apostamos em escutar as juventudes e seguir caminhando nesse estudo a partir de uma ancoragem metodológica baseada nos pressupostos da pesquisa (auto)biográfica, já que essa abordagem nos ensina a escutar mais, a educar o nosso olhar, nos ajudando a valorizar a singularidade de cada percurso de vida e reconhecendo que a educação precisa respeitar as especificidades dos sujeitos.
Os jovens colaboradores têm sonhos e anseios comuns a tantos jovens e destacam-se a preocupação com a indepedência financeira e o desejo de cursar uma universidade. Muitos deles almejam em trabalhar em áreas que os permitam continuar vivendo e trabalhando no campo, mas essa não é uma realidade que todos vivenciam. Observa-se que principalmente as moças sonham com uma vida fora do espaço rural. Estudos como o de Castro (2006) sinalizam para o fato de que as jovens moças desejam, em sua grande maioria, sair do campo, evidenciando uma realidade ainda marcada pelo machismo estrutural e pelas desigualdades de gênero nas áreas rurais.
O artigo também evidencia, como uma das conclusões deste estudo, que os jovens precisam ser mais ouvidos em seus dilemas e expectativas de futuro, já que nem mesmo a implantação da disciplina Projeto de Vida tem conseguido favorecer uma discussão para além do viés econômico mercadológico. Ratifica-se, então, nossa crença de que é preciso pensar nas juventudes para além do mercado de trabalho e que os estudos que valorizam as narrativas (auto)biográficas juvenis podem representar um caminho para estes jovens de autoconhecimento, engajamento e construção de novas realidades.
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[1] Essas observações e discussões têm sido objetivo de estudos em projetos e pesquisas desenvolvidos pelo Grupo de Pesquisa (Auto)biografia, Formação e História (GRAFHO), tais como o projeto de pesquisa e inovação educacional “Multisseriação e trabalho docente: diferenças, cotidiano escolar e ritos de passagem”, financiado ela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia (FAPESB) e pelo CNPq.
[2] Estas atividades estiveram articuladas também a projetos de extensão universitária de duas universidades baianas: a UNEB (Universidade do Estado da Bahia) e a UFRB (Universidade Federal do Recôncavo da Bahia).
[3] Em 2010, o Congresso promulgou a então chamada PEC da Juventude, hoje transformada em Emenda Constitucional n° 65. Essa lei alterou a Constituição Federal, incluindo o jovem entre os grupos cujos direitos fundamentais são reconhecidos e destacados por artigos da Carta. Em 2013, através da Lei12.852/2013 foi instituído o Estatuto da Juventude, que dispõe sobre os direitos dos jovens, os princípios e diretrizes das políticas públicas de juventude e o Sistema Nacional de Juventude - SINAJUVE.
[4] Os jovens escolheram pseudônimos para não serem identificados com seus nomes próprios, por conta do compromisso com as normas éticas de pesquisa.
[5] A Folha de São Paulo ouviu diretores de escolas e professores que se mostraram insatisfeitos com a reforma. Também a coordenadora da Campanha Nacional pelo direito à Educação, Andressa Pellanda, foi ouvida e criticou o reducionismo das disciplinas, a educação voltada para atender os ditames do mercado de trabalho e o pouco espaço para criticidade, além do fato de serem aceitas pessoas com notório saber, sem formação na área, como educadores. Para maiores informações sobre o assunto, acessar: https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2022/02/novo-ensino-medio-comeca-sob-questionamentos-e-criticas.shtml.
[6] A expressão “dar dia” na roça é popularmente utilizada pelos jovens e moradores das comunidades rurais para se referir ao trabalho de diária que é realizado nas grandes e médias fazendas da região. A pessoa trabalha por um dia e ganha um valor referente ao dia de trabalho. Segundo as moças colaboradoras do estudo, normalmente são contratados homens e rapazes para o desenvolvimento dessas atividades.