Narrativas juvenis na formação de professores de educação física: mediações e projetos de ser na escolha do curso superior

Youth narratives in physical education teacher training: mediations and projects of being in choosing a higher education course

Narrativas juveniles en la formación de profesores de educación física: mediaciones y proyectos de ser en la elección de una carrera de educación superior

Fabio Machado Pinto https://lh7-us.googleusercontent.com/h9Ojv87ptVEgwx8PXehJNWB6RbeDlpXgP9wEPNuQgEiN1MWZqOYypeCQ59qJzbAdKq2NWcCoCxu9ig7Uxj9DQGeZQd62p5GHyOeol1sBa83pp3fhKd6TWJ4p1GJxaptf9Bd5r7OgGMw4FOSfvYdyTA
Universidade Federal de Santa Catarina – Florianópolis, SC, Brasil

fabiobage@yahoo.com.br


Raymundo Carlos Machado Ferreira Filho https://lh7-us.googleusercontent.com/h9Ojv87ptVEgwx8PXehJNWB6RbeDlpXgP9wEPNuQgEiN1MWZqOYypeCQ59qJzbAdKq2NWcCoCxu9ig7Uxj9DQGeZQd62p5GHyOeol1sBa83pp3fhKd6TWJ4p1GJxaptf9Bd5r7OgGMw4FOSfvYdyTA
Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Sul-rio-grandense – Pelotas, RS, Brasil

raymundofilho@ifsul.edu.br

 

Marcelo Silva da Silva https://lh7-us.googleusercontent.com/h9Ojv87ptVEgwx8PXehJNWB6RbeDlpXgP9wEPNuQgEiN1MWZqOYypeCQ59qJzbAdKq2NWcCoCxu9ig7Uxj9DQGeZQd62p5GHyOeol1sBa83pp3fhKd6TWJ4p1GJxaptf9Bd5r7OgGMw4FOSfvYdyTA
Universidade Federal de Pelotas – Pelotas, RS, Brasil

marcelosilva.ufpel@gmail.com

 

Recebido em 24 de feveiro de 2026

Aprovado em 30 de março de 2026

Publicado em 14 de agosto de 2026

 

RESUMO

Este artigo analisa memoriais (auto)biográficos de quatro estudantes jovens que ingressaram no curso de Educação Física da Universidade Federal de Pelotas com 18 anos ou menos, utilizando o método progressivo-regressivo de Jean-Paul Sartre como referencial teórico-metodológico. A pesquisa narrativa, de natureza quali-quantitativa, investiga as mediações humanas e institucionais que constituíram as trajetórias formativas desses jovens e determinaram a escolha profissional pela Educação Física. A análise revela que a escolha profissional não é um ato isolado, mas uma totalização singular de múltiplas mediações (família, professores, técnicos, amigos) e espaços formativos (escola, clube, rua, praia). Os episódios marcantes identificados nas narrativas (entrada no esporte por recomendação médica, lesões, mudanças de cidade, pandemia) funcionaram como pontos de inflexão biográfica que reorientaram trajetórias. Três dos quatro estudantes mencionaram dúvidas sobre qual curso fazer, mas a identificação com o esporte e a relação afetiva com o saber corporal foram determinantes. A pesquisa demonstra a potencialidade heurística e política da pesquisa narrativa com jovens, evidenciando como as narrativas de vida permitem compreender os processos de subjetivação, a constituição de identidades e a elaboração de projetos de futuro. O método progressivo-regressivo possibilita uma análise dialética que articula singularidade e universalidade, práxis individual e história coletiva, contribuindo para a compreensão crítica da formação de professores de Educação Física.

Palavras-chave: Narrativas juvenis; Método progressivo-regressivo; Formação de professores; Educação Física; Pesquisa (auto)biográfica.

 

ABSTRACT

This article analyzes (auto)biographical memorials of four young students who entered the Physical Education course at the Federal University of Pelotas at age 18 or younger, using Jean-Paul Sartre's progressive-regressive method as a theoretical-methodological framework. The narrative research, of a qualitative-quantitative nature, investigates the human and institutional mediations that constituted the formative trajectories of these young people and determined their professional choice for Physical Education. The analysis reveals that professional choice is not an isolated act, but a singular totalization of multiple mediations (family, teachers, coaches, friends) and formative spaces (school, club, street, beach). The significant episodes identified in the narratives (entry into sport by medical recommendation, injuries, city relocations, pandemic) functioned as biographical turning points that reoriented trajectories. Three of the four students mentioned doubts about which course to take, but identification with sport and the affective relationship with bodily knowledge were determinant. The research demonstrates the heuristic and political potential of narrative research with young people, showing how life narratives allow us to understand processes of subjectivation, the constitution of identities, and the elaboration of future projects. The progressive-regressive method enables a dialectical analysis that articulates singularity and universality, individual praxis and collective history, contributing to a critical understanding of Physical Education teacher training.

Keywords: Youth narratives; Progressive-regressive method; Teacher training; Physical Education; (Auto)biographical research.

 

RESUMEN

Este artículo analiza memoriales (auto)biográficos de cuatro estudiantes jóvenes que ingresaron al curso de Educación Física de la Universidad Federal de Pelotas con 18 años o menos, utilizando el método progresivo-regresivo de Jean-Paul Sartre como referencial teórico-metodológico. La investigación narrativa, de naturaleza cuali-cuantitativa, investiga las mediaciones humanas e institucionales que constituyeron las trayectorias formativas de estos jóvenes y determinaron la elección profesional por la Educación Física. El análisis revela que la elección profesional no es un acto aislado, sino una totalización singular de múltiples mediaciones (familia, profesores, entrenadores, amigos) y espacios formativos (escuela, club, calle, playa). Los episodios significativos identificados en las narrativas (entrada al deporte por recomendación médica, lesiones, cambios de ciudad, pandemia) funcionaron como puntos de inflexión biográfica que reorientaron trayectorias. Tres de los cuatro estudiantes mencionaron dudas sobre qué curso hacer, pero la identificación con el deporte y la relación afectiva con el saber corporal fueron determinantes. La investigación demuestra la potencialidad heurística y política de la investigación narrativa con jóvenes, evidenciando cómo las narrativas de vida permiten comprender los procesos de subjetivación, la constitución de identidades y la elaboración de proyectos de futuro. El método progresivo-regresivo posibilita un análisis dialéctico que articula singularidad y universalidad, praxis individual e historia colectiva, contribuyendo a la comprensión crítica de la formación de profesores de Educación Física.

Palabras clave: Narrativas juveniles; Método progresivo-regresivo; Formación de profesores; Educación Física; Investigación (auto)biográfica.

 

Introdução

A pesquisa (auto)biográfica tem se consolidado como uma abordagem teórico-metodológica potente para compreender os processos de subjetivação, a constituição de identidades e a elaboração de projetos e desejos de ser professor/profissional da Educação Física (Pinto, Silva e Cavalli, 2025). Ao valorizar a experiência vivida e as múltiplas formas de expressões juvenis, a pesquisa narrativa possibilita acessar os sentidos das experiências na relação com as práticas corporais, que os jovens produzem sobre si, sobre o mundo e sobre sua inserção em contextos sociais, culturais e educacionais. Este artigo se inscreve nesse campo de investigação da pesquisa (auto)biográfica, propondo uma articulação entre a pesquisa-formação (Josso, 1999, 2008, 2010; Abrahão, 2004, 2016) e o método progressivo-regressivo de Jean-Paul Sartre para analisar as trajetórias formativas, o desenvolvimento do projeto e desejo de ser professor, em estudantes jovens no curso de Educação Física.

A escolha profissional é um momento crucial na vida dos jovens, especialmente no contexto brasileiro, onde o ingresso no ensino superior ainda é marcado por desigualdades sociais e por um campo de possibilidades delimitado por condições objetivas de classe, gênero, raça e território. (Balbinotti & Tétreau, 2006; Cericatto et all, 2017; Cerqueira-Santos, Mello Filho & Koller, 2014; Pilatti e Poli, 2021). No caso da Educação Física, a escolha profissional está frequentemente associada a uma rica biografia esportiva e corporal, mediada por experiências em escolas, clubes, academias e espaços não-formais de prática. (Zanotto, Alves, Januario, 2020) Compreender como essas experiências se articulam na constituição do sujeito e na elaboração de seu projeto profissional é fundamental para a formação de professores.

Este estudo analisa memoriais (auto)biográficos de quatro estudantes que ingressaram no curso de Educação Física da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) com 18 anos ou menos, representando um recorte específico de jovens no ensino superior. O objetivo é investigar as mediações humanas e institucionais que constituíram suas trajetórias formativas e determinaram a escolha pela Educação Física como primeira graduação. As questões norteadoras da pesquisa são: Quais mediações humanas (pais, professores, técnicos, amigos) e institucionais (família, escola, clube, rua) foram cruciais na formação desses jovens? Quais episódios marcantes reorientaram suas trajetórias? Houve dúvidas sobre qual curso fazer? O que determinou a escolha pela Educação Física?

A pesquisa se fundamenta no método progressivo-regressivo de Sartre (2014), que permite uma análise dialética das trajetórias biográficas, articulando o movimento progressivo (do individual ao social, do presente ao futuro projetado) e o movimento regressivo (do social ao individual, do presente ao passado que o constituiu), para então realizar uma síntese totalizadora que compreende o sujeito como uma singularidade universal. Essa abordagem possibilita compreender a complexa trama de mediações que constituem os processos formativos, mais especificamente de jovens em formação inicial no curso Superior de Educação Física da UFPel.

 

Referencial Teórico-Metodológico

A Pesquisa (Auto)biográfica e as Narrativas Juvenis

A pesquisa (auto)biográfica em educação tem se constituído como um campo fértil de investigação no Brasil, especialmente a partir das contribuições de autores como Marie-Christine Josso, Maria Helena Abrahão, Antônio Nóvoa e Elizeu Clementino de Souza e outros pesquisadores do movimento das histórias de vida em formação. As narrativas ganham centralidade na pesquisa não apenas como a fonte principal na produção de dados, mas como um dispositivo de formação e intervenção social que valoriza a experiência vivida e os processos reflexivos dos sujeitos.

O trabalho de pesquisa a partir da narração das histórias de vida ou, melhor  dizendo,  de  histórias  centradas  na  formação,  efetuado  na  perspectiva de evidenciar e questionar as heranças, a continuidade e a ruptura, os projetos de vida, os múltiplos recursos ligados às aquisições de experiência, etc., esse trabalho de reflexão a partir da narrativa da formação de si (pensando, sensibilizando-se, imaginando, emocionando-se, apreciando, amando) permite estabelecer a medida das mutações sociais e culturais nas vidas  singulares  e  relacioná-las  com  a  evolução  dos  contextos  de  vida profissional e social. As subjetividades exprimidas são confrontadas à sua freqüente inadequação a uma compreensão liberadora de criatividade em nossos contextos em mutação. O trabalho sobre essa subjetividade singular e plural torna-se uma das prioridades da formação em geral e do trabalho de narração das histórias de vida em particular. (Josso, 2008, p. 214-215)

No contexto das juventudes, a pesquisa narrativa assume uma dimensão política e ética fundamental. Como argumenta Dayrell (2003), os jovens são sujeitos sociais que constroem suas identidades e projetos de vida em meio a condições sociais, culturais e históricas específicas. As narrativas juvenis permitem acessar os modos como os jovens significam suas experiências, elaboram suas memórias e projetam seus futuros, evidenciando as tensões entre experiência e discurso, biografia e formação, individualidade e coletividade.

Delory-Momberger (2012) destaca que a narrativa biográfica não é uma simples reprodução da vida vivida, mas uma construção que organiza temporalmente a experiência, atribuindo-lhe sentido e coerência. Nesse processo, o sujeito se constitui como autor de sua própria história, ainda que sempre situado em um campo de possibilidades delimitado por condições objetivas. A pesquisa (auto)biográfica com jovens, portanto, não busca acessar uma "verdade" factual sobre suas vidas, mas compreender os processos de biografização através dos quais eles se constituem como sujeitos.

 

O Método Progressivo-Regressivo de Jean-Paul Sartre

O método progressivo-regressivo, elaborado por Sartre na Crítica da Razão Dialética (Sartre, 2002) e aplicado em diversas biografias com destaque para a de Gustave Flaubert (Sartre, 2013), oferece um instrumental teórico-metodológico potente para a análise de trajetórias biográficas. Esse método se fundamenta na compreensão de que o sujeito é um fenômeno singular-universal, ou seja, sintetiza, a seu modo, as determinações sociais, culturais e históricas que o atravessam, para se projetar no mundo por meio da práxis individual, motor da história.

O movimento progressivo parte da singularidade do sujeito em direção às mediações sociais que o constituem, sejam sociológicas ou antropológicas. Trata-se de compreender o projeto de ser dos sujeitos, suas escolhas, seus desejos, sua práxis. Como afirma Sartre (2002), o projeto é o movimento concreto do ser humano no mundo, isso que ele faz daquilo que fizeram dele. O movimento progressivo, portanto, focaliza a liberdade situada do sujeito, sua capacidade de transcender as condições dadas e projetar-se no futuro.

O movimento regressivo realiza o caminho inverso: parte do presente e retorna ao passado para identificar as condições objetivas que delimitaram o campo de possibilidades do sujeito. Trata-se de compreender as estruturas sociais, as mediações institucionais, as relações familiares entre outros grupos, as experiências formativas que constituíram o sujeito. O movimento regressivo não busca causas determinantes, mas demarcar o campo de possibilidade de cada sujeito ou grupo.

A síntese totalizadora articula os dois movimentos, vai e vem compreendendo o sujeito como uma práxis que totaliza suas condições objetivas através de seu projeto. O sujeito não é nem um produto passivo das estruturas, nem um agente absolutamente livre, mas uma liberdade situada que se faz a partir daquilo que fizeram dela. Como sintetiza em O Existencialismo é um Humanismo (Sartre, 1946), o homem está condenado a ser livre, ou seja, mesmo em condições de extrema opressão, o sujeito é colocado frente a escolhas diversas e, responsável pelas mesmas, por aquilo que faz de si neste contexto.

Esse método tem sido apropriado no contexto internacional por pesquisadores do campo educacional, como Ferrarotti (2014) e Bertaux (2010), que destacam sua potencialidade para compreender as relações entre biografia e sociedade, entre práxis individual e história coletiva. No contexto da formação de professores de Educação Física, o método progressivo-regressivo permite analisar como as trajetórias esportivas e corporais dos estudantes se articulam com suas escolhas profissionais, evitando tanto uma leitura determinista (que veria a escolha como mero reflexo da origem social) quanto uma leitura voluntarista (que ignoraria os condicionantes sociais).

 

Mediações Humanas e Institucionais na Formação

 

O conceito de mediação é central na perspectiva sartriana. As mediações são as instâncias que fazem a ponte entre o indivíduo e a totalidade social, entre a singularidade e a universalidade. No campo educacional, as mediações podem ser humanas (pais, professores, técnicos, amigos) ou institucionais (família, escola, clube, rua, mídia). Essas mediações não são neutras, mas carregam valores, normas, expectativas e possibilidades que orientam a formação do sujeito. Para Sartre (1997), a noção de mediação faz presente desde a sua ontologia na dinâmica entre a consciência (pour-soi) e o mundo exterior (en-soi). Ela revela a forma como o sujeito se relaciona com o mundo e com os outros, impactando em sua liberdade e realidade. No capítulo relações concretas com o outro, o olhar (le regard d'autrui), atua como um mediador central na constituição do sujeito. O perceber-se como objeto da consciência de outra pessoa, impacta sua liberdade e subjetividade. A reificação provocada consiste numa mediação de reconhecimento do seu lugar no mundo. A noção avança quando confrontada às categorias da dialética marxista, especialmente na Crítica da Razão Dialética (Sartre, 2002), onde a mediação passa a ser um elemento para compreender como a práxis individual se articula às estruturas sociais, demarcadas como campo de possíveis. As mediações do contexto implicam na função que a família (grupo de origem) e a classe social exercem sobre o sujeito desde a infância, que compreende questões de ordem histórica, geográfica, política, econômica, cultural e social, mas também psicofísicas, ou seja, como cada sujeito se relaciona com a objetividade (campo prático-inerte) e produz subjetividade nos processos de totalização, destotalização e retotalização histórica.

No caso da formação de professores de Educação Física, as mediações esportivas são particularmente relevantes. Como demonstram estudos no campo da sociologia do esporte (Bourdieu, 1983; Wacquant, 2002), a prática esportiva é um espaço de socialização que produz disposições corporais, valores e identidades. A figura do técnico, do professor de Educação Física, dos colegas de equipe, são mediadores que transmitem não apenas técnicas corporais, mas modos de ser e de se relacionar com o corpo, com o esforço, com a competição.

As instituições formais (escola, clube, academia) e não-formais (rua, praia, condomínio) também exercem papel fundamental na constituição das trajetórias. A escola, por exemplo, não é apenas um espaço de transmissão de conhecimentos, mas um espaço de socialização, de construção de amizades, de experimentação de práticas corporais. O clube esportivo, por sua vez, oferece uma formação técnica e competitiva que pode orientar projetos profissionais. Os espaços não-formais (rua, praia) são espaços de prática cotidiana, de lazer, de sociabilidade, onde o esporte se inscreve na vida ordinária.

 

Metodologia

Contexto e Participantes da Pesquisa

A pesquisa foi realizada no curso de Educação Física da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), no estado do Rio Grande do Sul, Brasil. O recorte da pesquisa focalizou estudantes que ingressaram no curso com 18 anos ou menos, representando um perfil de jovens que fizeram a escolha profissional logo após a conclusão do ensino médio.

De um universo de 692 estudantes matriculados no curso (turmas de 2022 a 2025), foram identificados 95 estudantes que ingressaram com 18 anos ou menos. Desses, foram selecionados os 04 estudantes mais jovens deste grupo, ingressando ainda com 17 e concluindo 18 anos somente no 2º semestre do ano.

Estes estudantes ingressaram na modalidade de graduação ABI (Área Básica de Ingresso) e suas narrativas (auto)biográficas foram registradas ao longo do 1º semestre de curso, garantindo assim que a experiência no ensino superior ainda não tivesse reorientado significativamente suas narrativas sobre a escolha profissional.

Os participantes da pesquisa são:

Tabela 1 – Título da tabela

Participante[1]

Gênero

Idade ao Ingressar

Ano de Ingresso

Mobilidade Geográfica

Esporte Principal

Ágata

Feminino

17 anos

2022

Baixa

Natação

Âmbar

Masculino

17 anos

2023

Alta

Futebol

Peridoto

Masculino

17 anos

2024

Alta

Futebol

Lepidolita

Feminino

17 anos

2025

Muito Alta

Vôlei

Fonte: Tabela elaborada pelos autores.

Instrumento de Coleta de Dados

O instrumento de coleta de dados foi o Memorial (auto)biográfico, solicitado aos estudantes como atividade acadêmica no início do curso. O memorial é um gênero textual produzido a partir da pesquisa-formação, que utiliza-se da escrita-de-si onde os estudantes refletem e narram os aspectos da sua formação desde o nascimento, com foco nas experiências relacionadas às práticas corporais e os caminhos que o levaram à escolha profissional. Escrita-de-si é um dispositivo, na medida em que, ao narrar sua história, o estudante realiza um trabalho reflexivo sobre si mesmo, portanto, reinventa-se no processo.

Os memoriais analisados têm extensão variável (sem limites para o texto) e foram escritos de forma livre, porém com protocolo que auxilia no estudo da sua história e elaboração da narrativa. Essa liberdade narrativa é importante para que o estudante possa destacar aquilo que considera mais significativo em sua trajetória, revelando assim seus processos de biografização.

 

Procedimentos de Análise

A análise dos memoriais seguiu uma abordagem quali-quantitativa, inspirada no software Modalisa, utilizado pelo Observatoire de la vie étudiante de l'Université Paris 8 (OVE) que foi coordenado pelo Prof. Dr. Ridha Ennafaa. Essa abordagem articula análise de conteúdo, análise lexical e análise estatística, permitindo tanto a compreensão aprofundada das singularidades quanto a identificação de padrões e correlações. Os procedimentos de análise incluíram: 1. a leitura compreensiva dos memoriais: Leitura atenta e repetida dos textos, buscando compreender a lógica narrativa de cada estudante, os temas recorrentes, os episódios marcantes, as mediações destacadas; 2.  Codificação temática: Identificação de categorias emergentes das narrativas, organizadas em três dimensões: (a) mediações humanas (família, professores, técnicos, amigos); (b) mediações institucionais (escolas, clubes, espaços não-formais); (c) episódios marcantes e processos de escolha profissional. 3. Análise lexical: Identificação das palavras mais frequentes nos memoriais, análise de termos-chave relacionados à pesquisa (esporte, educação, família, saúde, projeto, futuro), criação de nuvem de palavras; 4. Quantificação de categorias: Transformação das categorias qualitativas em variáveis quantitativas (presença/ausência, intensidade), criação de matriz de dados, análise de frequências e cruzamentos; 5. Análise de correlações: Identificação de correlações entre variáveis (gênero, mobilidade geográfica, quantidade de esportes praticados, experiência de pandemia, projeto profissional definido, etc.); 6. Interpretação à luz do método progressivo-regressivo: Articulação dos achados qualitativos e quantitativos através do método, compreendendo cada trajetória como uma totalização singular de mediações sociais.

Por outro lado, de forma inovadora, mas com cuidado, rigor e respeito a ética e integridade da pesquisa, buscou-se concomitantemente o apoio de inteligência artificial como ferramenta metodológica, mantendo os pesquisadores como responsáveis pela interpretação teórica. O processo analítico foi apoiado por uma plataforma de inteligência artificial (Manus AI) para leitura sistemática, extração de dados e categorização inicial dos memoriais. A IA foi instruída sobre o referencial teórico da pesquisa (auto)biográfica e o método progressivo-regressivo de Sartre. Todas as interpretações teóricas, validações de categorias e conclusões permaneceram sob responsabilidade dos pesquisadores, seguindo princípios éticos da pesquisa qualitativa. O processo seguiu cinco fases: (1) Planejamento: definição do referencial teórico-metodológico e instruções à IA sobre pesquisa (auto)biográfica e método progressivo-regressivo; (2) Extração de dados: leitura sistemática dos memoriais pela IA, organizando informações por pergunta norteadora em arquivos temáticos; (3) Categorização: identificação de categorias emergentes pela IA, validadas e refinadas pelos pesquisadores; (4) Análise comparativa: identificação de padrões e correlações pela IA, supervisionada pelos pesquisadores; (5) Síntese interpretativa: aplicação do método progressivo-regressivo pelos pesquisadores, utilizando dados organizados pela IA como base empírica.

O controle de qualidade incluiu conferência amostral da extração, validação humana das categorias e triangulação de evidências. A IA funcionou como instrumento de sistematização, preservando a responsabilidade interpretativa e teórica dos pesquisadores, em consonância com princípios éticos da pesquisa qualitativa. A pesquisa foi realizada com dados já coletados institucionalmente como parte das atividades acadêmicas do curso, com assinatura de Termo de Consentimento Livre Esclarecido pelos alunos participantes. Os nomes dos participantes foram substituídos por pseudônimos para garantir o anonimato. A análise focalizou os processos de formação e escolha profissional, respeitando a dignidade e a privacidade dos estudantes.

 

Resultados e Discussão

Panorama Geral das Trajetórias

A análise dos memoriais revela trajetórias formativas marcadas por uma rica biografia esportiva e corporal. Todos os quatro estudantes praticaram múltiplas modalidades esportivas ao longo da vida (média de 5,5 esportes por estudante), evidenciando uma socialização corporal intensa. As estudantes do gênero feminino (Ágata e Lepidolita) apresentaram maior diversidade de práticas (7 esportes cada), enquanto os estudantes do gênero masculino (Âmbar e Peridoto) concentraram-se mais no futebol (4 esportes cada).

A mobilidade geográfica foi um fator distintivo nas trajetórias. Ágata, com baixa mobilidade (sempre morou em Pelotas), desenvolveu uma carreira esportiva linear e focada na natação. Em contraste, Lepidolita, com mobilidade muito alta (quatro cidades diferentes), desenvolveu uma relação mais plural com as práticas corporais, experimentando diferentes modalidades em cada cidade. Essa diferença sugere que a mobilidade geográfica pode funcionar como um elemento que amplia o leque de experiências, mas talvez dificulte a especialização precoce.

Todos os participantes frequentaram escolas particulares de qualidade (ou, no caso de Peridoto, transitou de escolas particulares para escola pública no ensino médio), indicando um capital cultural médio-alto. Esse capital cultural foi fundamental para viabilizar o acesso a clubes esportivos, academias e atividades extracurriculares, constituindo um campo de possibilidades favorável à escolha pela Educação Física.

 

As Mediações na Formação humana

A análise das mediações humanas revela configurações distintas em cada trajetória. Para Ágata, a mediação médica foi absolutamente crucial. Aos sete anos, um médico recomendou a natação devido a problemas de saúde (sopro no coração e colesterol alto). Essa recomendação profissional foi o ponto de virada que a inseriu no universo esportivo. Ágata narra: "Comecei a nadar aos 7 anos por recomendação médica [...] tinha um pouco de medo de piscina e mergulhar, mas superei". A superação do medo e a transformação de uma necessidade de saúde em paixão marcam sua trajetória. Os avós aparecem como figuras centrais de suporte afetivo ("sou muito grata por tudo que eles fazem por mim"), configurando uma família atípica (mora com os avós desde pequena) que funciona como espaço de estabilidade.

Para Âmbar, os amigos foram os principais mediadores da prática esportiva. Ele narra: "eu e meus amigos íamos para a quadra jogar futsal", no intervalo da escola, e frequentavam a casa de um amigo que tinha quadra. A mediação dos pares, aqui, é mais constante que a mediação de adultos (técnicos ou professores). O futebol aparece como eixo central de socialização, e a escolha profissional é uma continuidade dessa paixão infantil.

Para Peridoto, a mediação mais crucial foi a de um amigo do condomínio e da sala, que o convidou para jogar no Clube Pelotas aos 10 anos. Peridoto destaca: "tinha um amigo que era do meu condomínio e da minha sala que me convidou para começar a jogar futebol no Pelotas". Essa mediação de um par (não de um adulto) foi o ponto de virada que o inseriu no futebol de base por seis anos. A família aparece como suporte na mudança de Curitiba para Pelotas, mas também como fonte de desafio afetivo (separação temporária do pai e da família extensa).

Para Lepidolita, a treinadora de vôlei em Florianópolis foi uma mediação afetiva central: "eu amava a minha treinadora e os dias de treino eram os que eu mais ficava animada". Essa figura feminina de referência foi determinante para que Lepidolita se "encontrasse" no vôlei. A mãe aparece como figura central de suporte nas múltiplas mudanças de cidade, configurando uma família monoparental onde a relação mãe-filha é o núcleo afetivo.

 

Figura 1 – Mediações Humanas e Formação dos Estudantes

Fonte: elaborado pelos autores.

 

O gráfico de radar revela padrões distintos de mediações humanas nas trajetórias formativas dos quatro estudantes, evidenciando que a escolha pela Educação Física é mediada por diferentes configurações de agentes sociais. A análise comparativa das mediações humanas (visualizada no gráfico de radar) evidencia que não há um padrão único de mediação. Para alguns, a mediação profissional (médico, técnico) foi crucial; para outros, a mediação dos pares (amigos) foi mais determinante. Essa diversidade reforça a tese sartriana de que cada sujeito totaliza suas mediações de forma singular, não havendo um padrão universal de formação. Porém, com uma mostra maior poderemos verificar as principais tendências relacionadas às mediações fundamentais, isso pode revelar padrões de mediação e consequências pedagógicas na formação humana relacionadas ao ensino das práticas corporais na educação física escolar e em outros ambientes educativos.

  

Mediações Institucionais na formação humana

As instituições formais que mediaram a formação dos estudantes incluem escolas, clubes esportivos, academias e o Sistema de Avaliação para ingresso no ensino superior (ENEM/PAVE). Todas as escolas mencionadas são particulares de qualidade (Colégio Gonzaga, Escola da Fazenda/EFAZ, escolas em Santos/SP e Curitiba/PR), com exceção da transição de Peridoto para a escola pública no ensino médio.

A Escola da Fazenda (EFAZ) em Florianópolis, frequentada por Lepidolita, merece destaque. Trata-se de uma instituição com pedagogia diferenciada, que valoriza a participação ativa do aluno, utiliza conceitos em vez de notas, promove consciência ambiental e conta com professores altamente capacitados. Lepidolita narra: "eu amava estudar lá, foi onde fiz minhas melhores amizades". Essa experiência educacional marcante parece ter influenciado sua visão sobre educação e sua escolha profissional, evidenciando que a qualidade da mediação institucional pode ser tão importante quanto a mediação humana.

Os clubes esportivos foram espaços de formação técnica e identitária. Para Ágata, o clube de natação a levou do nível recreativo ao alto rendimento competitivo. Para Peridoto, o Clube Pelotas ofereceu seis anos de formação de base no futebol, constituindo sua identidade como atleta. A interrupção dessa trajetória por uma lesão no joelho foi o episódio que reorientou seu projeto profissional: de atleta a formador de atletas.

As instituições não-formais (praia, rua, casa de amigos, condomínio) foram fundamentais para a prática cotidiana do esporte. Âmbar destaca a praia em Santos como espaço de lazer e prática de futebol com amigos. Lepidolita menciona a casa a "20 passos da praia" em Florianópolis, onde praticava vôlei de areia. Peridoto fala do condomínio como espaço de socialização pós-escola. Esses espaços não-formais são importantes porque inscrevem o esporte na vida ordinária, para além da institucionalização formal.

 

Figura 2 – Diversidade de Instituições Mediadoras

Fonte: elaborado pelos autores.

O estudo apresenta novamente um equilíbrio na mediação de ambientes educacionais formais e não-formais na formação humana. A escola, ambiente formal, permanece em destaque, mas divide com outros ambientes, a função de cuidar e/ou educar o corpo dos mais jovens, proporcionando um campo de possibilidades na construção das relações com as práticas corporais e do sentido das experiências educativas.

 

Episódios Marcantes: Pontos de Inflexão Biográfica

A análise identificou episódios marcantes em cada trajetória, compreendidos como momentos de inflexão biográfica que condensam experiências significativas e reorientam projetos. A linha do tempo construída a partir das narrativas permite visualizar esses episódios e suas idades aproximadas.

Para Ágata, o episódio fundador foi a entrada na natação aos 7 anos por recomendação médica. Esse episódio condensa o tema central de sua biografia: a superação. Ágata tinha medo da piscina, mas superou e transformou uma necessidade de saúde em paixão. Outros episódios marcantes incluem a crise de autocobrança no nono ano (2019), que a levou a focar apenas na natação, abandonando outros esportes; as lesões nos ombros + pandemia (2019-2020), que foram "muito difíceis" para sua relação com o corpo e a mente, mas ensinaram sobre limites e resiliência; a entrada na academia (2021), que ampliou seus horizontes profissionais para além da natação; e as medalhas no Sulbrasileiro e Estaduais (2022), que validaram seu esforço e confirmaram a escolha profissional.

Para Âmbar, os episódios marcantes são menos pontuais e mais recorrentes. A prática constante de futebol na praia e em quadras com amigos é o episódio estruturante de sua identidade. A mudança de Santos para Pelotas implicou ruptura geográfica e reconstrução de redes sociais, mas não é tematizada como trauma. A memória da infância vestindo-se de Homem-Aranha e pulando de móvel é um episódio lúdico que marca a relação imaginativa e ousada com o corpo e o movimento.

Para Peridoto, o episódio de mudança de Curitiba para Pelotas aos 6 anos é descrito como uma ruptura profunda: "mudou totalmente minha vida, vir de uma Capital para uma cidade bem mais tranquila". A dificuldade de adaptação (cultura, clima, sotaque) e o distanciamento da família extensa foram desafios que exigiram resiliência. O convite do amigo para jogar no Clube Pelotas (10 anos) foi o ponto de virada esportivo, inserindo-o em uma trajetória de seis anos no clube. A pandemia (14 anos) privou-o de atividade física por um ano, evidenciando a centralidade do esporte em sua identidade. Mas o episódio mais significativo foi a lesão no joelho em torneio de verão representando o Pelotas, que marcou o fim da trajetória competitiva como atleta. Peridoto decidiu "jogar futebol apenas pela diversão", mas a frustração foi ressignificada: de atleta, ele se projeta como formador de atletas.

Para Lepidolita, as múltiplas mudanças de cidade (Pelotas à Eldourado à Florianópolis à Pelotas) são o tema estruturante de sua biografia, condensado no título de seu memorial: “Vida de Mudanças”. Cada mudança implicou em perdas (deixar o cachorro Chico com os vizinhos ao mudar de Florianópolis) e ganhos (novas amizades, novas práticas). A experiência pedagógica na EFAZ em Florianópolis foi diferenciada e marcou sua visão sobre a educação. O encontro com a modalidade vôlei e a treinadora da equipe marcou sua identidade esportiva, isso que fez do volêi sua prática corporal favorita.

 

 

Figura 3 – Linha do Tempo

Fonte: elaborado pelos autores.

Esses episódios marcantes evidenciam que as trajetórias não são lineares, mas marcadas por rupturas, crises, superações e ressignificações. Como argumenta Delory-Momberger (2012, 2016), a narrativa biográfica organiza temporalmente a experiência, atribuindo-lhe sentido retrospectivo. Os episódios marcantes são aqueles que, na narrativa, aparecem como pontos de virada, momentos em que algo se transformou.

Processo de Escolha Profissional: Dúvidas e Determinantes

Todos os quatro estudantes estão ingressando em seu primeiro curso superior. Três dos quatro (Ágata, Peridoto, Lepidolita) mencionam explicitamente dúvidas sobre qual curso fazer, considerando outras opções. Apenas Âmbar não menciona dúvidas, sugerindo uma escolha mais linear.

Ágata considerou Nutrição como segunda opção, interesse que surgiu ao adentrar o "mundo fitness" através da academia. A dúvida não era sobre fazer ou não Educação Física, mas sobre qual curso fazer primeiro. Seu projeto é ser uma "profissional completa", cursando Educação Física agora e Nutrição futuramente. O motivo principal da escolha pela Educação Física foi transformar a experiência pessoal de superação através do esporte em projeto profissional. Como ela narra: "me vi na obrigação de decidir o que cursar na faculdade" e escolheu aquilo que a salvou.

Âmbar não menciona dúvidas. Sua escolha parece clara e linear: "minha paixão até hoje" é o futebol, e a Educação Física é a "área profissional onde quero seguir". Ele expressa felicidade explícita por estar em Educação Física e em universidade federal. O motivo principal é a continuidade da paixão infantil pelo futebol, o desejo de não se separar do que ama e de transformar sua atividade de lazer em profissão.

Peridoto menciona dúvidas explícitas: "sempre vem aqueles pensamentos de qual curso fazer, qual vai ser melhor remunerado e qual tem mais futuro na profissão". Ele considerou critérios econômicos e de futuro profissional, mas fez uma decisão consciente e afetiva: "não pelo dinheiro, mas sim me aproximar desse curso e dos esportes". O motivo principal foi a ressignificação da frustração (lesão que encerrou a carreira de atleta) em novo projeto: formar atletas como forma de continuar no futebol. Sua escolha é afetiva, não econômica.

Lepidolita menciona que se interessava "bastante por direito também", mas afirma: "no fundo eu sempre quis educação física". A dúvida era entre Educação Física e Direito, mas a identificação de longa data com a área foi determinante. O motivo principal foi a identificação profunda com as experiências educativas significativas (EFAZ, treinadora de vôlei) e a diversidade de práticas corporais experimentadas ao longo das mudanças de cidade.

A análise comparativa do processo de escolha revela que, apesar das dúvidas, a identificação com o esporte e a relação afetiva com as práticas corporais, especialmente as esportivas, foram determinantes em todos os casos. A escolha pela Educação Física não é uma escolha econômica (Peridoto afirma explicitamente que não escolheu pelo dinheiro), mas uma escolha afetiva e identitária. Como argumenta Charlot (2000) em sua teoria da relação com o saber, a escolha profissional está profundamente ligada à história de relação do sujeito com o saber e com o mundo.

 

Análise Lexical: O Que Dizem as Palavras?

 

A análise lexical dos memoriais, realizada através da identificação das palavras mais frequentes (excluindo stopwords), revela os temas centrais das narrativas. As palavras mais frequentes no conjunto dos quatro memoriais foram: física (25 ocorrências); educação (22 ocorrências); escola (19 ocorrências); ensino (16 ocorrências); meus (15 ocorrências); futebol (13 ocorrências); casa (12 ocorrências); pelotas (11 ocorrências); vida (11 ocorrências); hoje (11 ocorrências).

 

Figura 4 – Nuvem de palavras

Fonte: elaborado pelos autores.

 

A centralidade dos termos "física", "educação", "escola" e "ensino" confirma que a formação escolar e a escolha profissional são os eixos narrativos principais. A frequência de "futebol" (13 ocorrências) reflete a centralidade dessa modalidade para os dois participantes masculinos. A palavra "vida" (11 ocorrências) e "hoje" (11 ocorrências) indicam uma narrativa que articula passado, presente e futuro, característica do gênero memorial.

A análise de termos-chave relacionados à pesquisa revela: Esporte/Atividade Física (83 ocorrências); Educação/Formação (130 ocorrências); Família (17 ocorrências); Saúde (15 ocorrências); Projeto/Futuro (14 ocorrências); Afetividade (22 ocorrências).

A predominância de termos relacionados a "Educação/Formação" (130 ocorrências) sobre "Esporte/Atividade Física" (83 ocorrências) é significativa. Embora o esporte seja central nas trajetórias, os estudantes narram suas histórias a partir do campo educacional, evidenciando que a escolha pela Educação Física é uma escolha de inserção no campo da educação, não apenas no campo esportivo.

Quantidade de Esportes & Preparação para Ensino Superior & Perfil Dedicado, sugere que os estudantes com perfil mais dedicado e que se prepararam formalmente para o vestibular (ENEM/PAVE) também foram os que experimentaram uma maior quantidade de modalidades esportivas ao longo da vida (Ágata e Lepidolita, ambas com 7 esportes). Essa correlação pode indicar que a dedicação aos estudos e a diversidade de práticas esportivas são dimensões de um mesmo habitus de classe, marcado pelo capital cultural e pelo acesso a oportunidades.

Experiência de Pandemia & Desafios de Saúde & Projeto Profissional Definido, indica que os estudantes que mencionaram explicitamente a experiência da pandemia também foram os que relataram desafios de saúde e que possuem um projeto profissional mais definido (Ágata e Peridoto). A pandemia e os desafios de saúde podem ter atuado como catalisadores para a reflexão e definição de projetos de futuro, evidenciando que as adversidades podem ser momentos de inflexão biográfica que reorientam trajetórias.

Segunda Graduação & Esporte como Identidade, mostra que a única participante que considera uma segunda graduação (Ágata, com Nutrição) não teve o "Esporte como Identidade" codificado da mesma forma que os outros. Isso pode indicar que, para Ágata, a entrada no esporte foi por uma questão de saúde (não puramente por paixão identitária inicial), e seu projeto profissional é mais amplo (não se limita à Educação Física).

Essas correlações, embora baseadas em uma amostra pequena, apontam para a complexidade das relações entre variáveis biográficas e sugerem que a escolha profissional é uma totalização de múltiplas dimensões (classe social, gênero, experiências de saúde, mobilidade geográfica, etc.).

 

Síntese Totalizadora: Cada Estudante como Singularidade Universal

Aplicando o método progressivo-regressivo, podemos compreender cada estudante como uma totalização singular da história coletiva, temos:

      Ágata sintetiza a superação e transforma uma condição biológica (problemas de saúde) em um projeto de vida profissional no esporte de alto rendimento. Sua história é a da disciplina e da especialização. O movimento progressivo revela seu projeto de ser uma "profissional completa" (Educação Física + Nutrição), trabalhando como técnica de natação de alto rendimento. O movimento regressivo revela as condições que possibilitaram esse projeto: família estável (avós), escola de qualidade (Gonzaga), mediação médica crucial, acesso a clube de natação e academia. A síntese totalizadora compreende Ágata como uma jovem que, a partir de suas condições (capital cultural médio-alto, família estável, mediação médica), fez de si uma atleta e futura profissional do esporte, transformando necessidade em paixão.

      Âmbar sintetiza a continuidade que em sua trajetória é a da paixão infantil pelo futebol que se transforma, de forma quase linear, em um projeto de carreira docente. O movimento progressivo revela seu desejo de trabalhar na área que ama, sendo um professor "comprometido, inspirador, capacitado e dedicado". O movimento regressivo revela as condições: família nuclear tradicional, escola de qualidade em Santos, praia como espaço de prática, amigos como mediadores constantes. A síntese totalizadora compreende Âmbar como um jovem que, a partir de suas condições (capital cultural, socialização pelo futebol), escolheu não se separar do que ama, transformando lazer em profissão.

      Já Peridoto sintetiza a ressignificação de uma lesão que o tirou do caminho de atleta profissional é o ponto de virada que o leva a projetar-se como formador de novos atletas. Sua práxis é a de transformar a frustração em um novo projeto. O movimento progressivo revela seu desejo de trabalhar com jovens em clubes de elite, formando atletas. O movimento regressivo revela as condições: mudança traumática de Curitiba para Pelotas aos 6 anos, mediação crucial de um amigo, seis anos no Clube Pelotas, lesão que encerrou a carreira. A síntese totalizadora compreende Peridoto como um jovem que, a partir de suas condições (mobilidade geográfica, formação no clube, lesão), escolheu continuar no futebol por outros meios, fazendo uma escolha afetiva (não econômica) pela Educação Física.

      Por fim, Lepidolita sintetiza a adaptabilidade em sua "vida de mudanças" que a constitui como um sujeito aberto à diversidade e à experimentação. Ela é a totalização da pluralidade de experiências que a mobilidade geográfica lhe proporcionou. O movimento progressivo revela seu projeto de "aproveitar esse período ao lado de pessoas boas que contribuam para boas lembranças futuramente", valorizando o processo formativo em si. O movimento regressivo revela as condições: família monoparental (mãe), múltiplas mudanças de cidade, experiência na EFAZ (pedagogia diferenciada), mediação afetiva da treinadora de vôlei, diversidade de práticas corporais. A síntese totalizadora compreende Lepidolita como uma jovem que, a partir de suas condições (mobilidade, família monoparental, capital cultural), escolheu um campo que valoriza participação, diversidade e corpo, identificando-se profundamente com a Educação Física.

 

Neste sentido, nos somamos aos estudos e pesquisas (auto)biográficas que articulam memória, narrativas e formação humana, com potencial (auto)formativo e transformador no sentido da compreensão e (auto)gestão dos seus projetos de ser professor em permanente processo de totalização.

 

Considerações Finais

 

Esta pesquisa demonstrou a potencialidade heurística, ética e política da pesquisa narrativa com jovens, articulada ao método progressivo-regressivo de Sartre, para compreender os processos de subjetivação, a constituição de identidades e a elaboração de projetos de futuro no contexto da formação inicial de professores de Educação Física.

A análise dos memoriais (auto)biográficos revelou que a escolha profissional não é um ato isolado ou puramente individual, mas permeada por processos de totalização (que podem se destotalizar e retotalizar de múltiplas formas) de múltiplas mediações humanas (família, professores, técnicos, amigos) e institucionais (escola, clube, rua, praia) que, ao longo da vida, constituíram o sujeito e seu campo de possibilidades. As mediações foram diversas e singulares em cada trajetória: para alguns, a mediação profissional (médico, técnico) foi crucial; para outros, a mediação dos pares (amigos) foi mais determinante. Essa diversidade reforça a tese sartriana de que cada sujeito totaliza suas mediações de forma singular.

Os episódios marcantes identificados nas narrativas (entrada no esporte por recomendação médica, lesões, mudanças de cidade, pandemia) funcionaram como pontos de inflexão biográfica que condensam experiências significativas e reorientam trajetórias. Esses episódios evidenciam que as trajetórias não são lineares, mas marcadas por rupturas, crises, superações e ressignificações. A narrativa biográfica organiza temporalmente a experiência, atribuindo-lhe sentido retrospectivo e prospectivo.

O processo de escolha profissional foi marcado por dúvidas (exceto para um dos participantes), mas a identificação com o esporte e a relação afetiva com o saber corporal foram determinantes em todos os casos. A escolha pela Educação Física não foi uma escolha econômica (um dos participantes afirmou explicitamente que não escolheu pelo dinheiro), mas uma escolha afetiva e identitária. Os motivos principais foram: profissionalizar-se ((Ágata), continuar na paixão infantil (Âmbar), ressignificar a frustração (Peridoto), identificar-se com experiências educativas significativas (Lepidolita).

A articulação entre análise qualitativa e quantitativa, inspirada no software Modalisa, permitiu tanto a compreensão aprofundada das singularidades quanto a identificação de padrões e correlações. As correlações identificadas (entre quantidade de esportes, preparação para ensino superior e perfil dedicado; entre experiência de pandemia, desafios de saúde e projeto profissional definido) apontam para a complexidade das relações entre variáveis biográficas e sugerem que a escolha profissional é uma totalização de múltiplas dimensões. Porém, destacamos que as análises podem nos oferecer novidades ou novas perspectivas quando verificarmos o conjunto dos memoriais redigidos no período de 2022 a 2025.

A pesquisa-formação e o método progressivo-regressivo mostrou-se uma ferramenta potente para desvelar a dialética entre a singularidade de cada história de vida e as determinações sociais que as atravessam. Cada estudante é uma singularidade universal: singularidade porque cada trajetória é única, mas universal porque todos totalizam, a seu modo, as mediações sociais, culturais e históricas que constituem o campo da Educação Física no Brasil contemporâneo. A escolha profissional pode ser considerada, assim, um ato de liberdade situada: liberdade porque escolhem, mas situada porque escolhem a partir de um campo de possibilidades delimitado por suas condições objetivas e pelas mediações que os constituíram.

Para a formação de professores de Educação Física, compreender essas mediações é fundamental. Os estudantes não chegam ao curso como "tábulas rasas", mas como sujeitos em constituição, com uma trajetória formativa com rico repertório esportivo e cultural. Reconhecer e valorizar essas trajetórias, ao mesmo tempo em que se oferece novas mediações (teóricas, metodológicas, críticas), é o desafio da formação inicial. A pesquisa (auto)biográfica, ao dar voz aos sujeitos e ao valorizar suas narrativas, pode ser um dispositivo potente de formação, na medida em que permite aos estudantes refletirem sobre suas próprias trajetórias e se constituírem como autores de suas histórias.

Por fim, a pesquisa reforça a tese sartriana da importância de se estudar os sujeitos e a práxis individual: não como um produto acabado, passivo das estruturas, nem um agente absolutamente livre, mas uma liberdade situada que se faz a partir daquilo que fizeram dela. A escolha pela Educação Física é, para esses quatro jovens, a escolha de fazer de si aquilo que fizeram deles.

 

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