Entre vozes e narrativas: o lugar dos grupos de discussão na pesquisa com jovens[i]

Between voices and narratives: the place of group discussions in research with young people

Entre voces y narrativas: el lugar de los grupos de discusión en la investigación con jóvenes

 

Maria Amália de Almeida Cunha

Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte – MG, Brasil.

amalia.fae@gmail.com

 

Wivian Weller

Universidade de Brasília, Brasília – DF, Brasil.

wivian@unb.br

 

Recebido em 18 de fevereiro de 2026

Aprovado em 11 de março de 2026

Publicado em 14 de agosto de 2026

 

RESUMO

O ponto de partida deste artigo refere-se a um texto seminal no campo da pesquisa qualitativa com jovens, que completa hodiernamente 20 anos de sua publicação. Trata-se do artigo Grupos de Discussão na pesquisa com adolescentes e jovens: aportes teórico-metodológicos e análise de uma experiência com o método (Weller, 2006). Tomando-o como referente, nossa intenção é analisar a vitalidade dos grupos de discussão como dispositivo metodológico privilegiado nas pesquisas com jovens. Para tanto, realizamos uma revisão integrativa da literatura, a fim de analisar a produção bibliográfica publicada em periódicos acadêmicos nos últimos 20 anos sobre a utilização de grupos de discussão em pesquisas com jovens. Consideramos que o uso desse instrumento contribui para superar visões homogeneizadoras da experiência juvenil, ampliando o campo interpretativo e potencializando a análise das experiências conjuntivas e as ações coletivas dos jovens em seus contextos cotidianos.

Palavras-chave: Pesquisa qualitativa; Grupos de Discussão; Juventude.

 

ABSTRACT

This article refers to a seminal text in the field of qualitative research with young people, which has now been published for 20 years. The article in question is Discussion groups in the research with teenagers and youngsters: theoretical-methodological contributions and analysis of an experience with the method (Weller, 2006). Building on this, we intend to analyze the vitality of the group discussion as a valuable methodological tool in research with young people. To this end, we conducted an integrative review of literature published in academic journals over the last 20 years on the use of group discussions in research with young people. We believe that using this instrument helps to overcome homogenizing views of the youth experience, broadening the interpretive field and enhancing the analysis of young people's everyday conjunctive experiences and collective actions.

Keywords: Qualitative research; Group Discussion; Youth.

 

RESUMEN

El punto de partida de este artículo es un texto seminal en el campo de la investigación cualitativa con jóvenes que cumple 20 años desde su publicación. Se trata del artículo Grupos de discusión en la investigación con adolescentes y jóvenes: aportes teórico-metodológicos y análisis de una experiencia con el método (Weller, 2006). Tomándolo como referencia, nuestro objetivo es analizar la vitalidad de los grupos de discusión como dispositivo metodológico privilegiado en las investigaciones con jóvenes. Para ello, hemos realizado una revisión integradora de la literatura con el fin de analizar la producción bibliográfica publicada en revistas académicas en los últimos 20 años sobre el uso de grupos de discusión en investigaciones con jóvenes. Consideramos que el uso de este instrumento contribuye a superar las visiones homogeneizadoras de la experiencia juvenil, ampliando el campo interpretativo y potenciando el análisis de las experiencias conjuntivas y las acciones colectivas de los jóvenes en sus contextos cotidianos.

Palabras clave: Investigación cualitativa; Grupos de discussión; Jóvenes.

 

Introdução

Quando Wivian Weller publicou, em 2006, o artigo Grupos de Discussão na pesquisa com adolescentes e jovens: aportes teórico-metodológicos e análise de uma experiência com o método, ofereceu ao campo da pesquisa qualitativa com jovens mais do que a sistematização de um procedimento técnico. Seu texto consolidou um gesto epistemológico: deslocar o jovem da condição de objeto observado para a de sujeito que fala, interpreta e negocia sentidos coletivamente. Após duas décadas de sua publicação, esse gesto permanece não apenas atual, mas necessário.

Ao retomarmos este artigo (Weller, 2006), reconhecemos que sua aposta metodológica já continha uma crítica contundente às leituras homogeneizadoras da juventude. Ao privilegiar a interação grupal, a autora já evidenciava que as experiências juvenis só poderiam ser construídas na tensão entre o comum e o singular, entre o compartilhado e o dissenso. Seu argumento era o de que os grupos de discussão faziam emergir não uma voz juvenil unívoca, mas uma polifonia, marcada por concordâncias, disputas, silêncios e reposicionamentos constantes.

Assim, Weller argumentava que os grupos de discussão se inscreviam em uma tradição da pesquisa qualitativa reconstrutiva (Bohnsack, 2020) que recusava a ideia de que as experiências juvenis pudessem ser capturadas por categorias previamente estabilizadas. Ao contrário, demonstrava como o método deveria ser concebido como um dispositivo de emergência do social, em que as falas dos jovens não se apresentavam como dados brutos, mas como discursos e narrativas situadas, atravessadas por relações de poder, pertencimentos geracionais e contextos socioculturais específicos. O grupo, nesse sentido, não é um mero cenário da coleta, mas uma instância produtora de sentido.

Após duas décadas, essa dimensão polifônica, tão cara ao método, torna-se ainda mais relevante em contextos contemporâneos nos quais os e as jovens vivenciam formas intensificadas de fragmentação social, circulação de discursos e multiplicação de pertencimentos. Ao revisitarmos os descritores propostos por Weller: composição dos grupos, papel do pesquisador, dinâmica das interações e potencial analítico do material produzido, observamos que eles mantêm sua força explicativa justamente porque não se fecham em prescrições técnicas, mas operam como princípios orientadores da escuta.

Tomando este artigo seminal como um objeto heurístico nas pesquisas com jovens, pretendemos: a) fazer um balanço crítico, tomando o texto como um marco fundacional no campo das pesquisas qualitativas com jovens no Brasil; b) analisar em que medida os grupos de discussão mantêm sua vitalidade analítica e interpretativa nas pesquisas contemporâneas com jovens, considerando as mudanças nas formas de sociabilidade, comunicação e produção de sentido e, por último, mas não menos importante, c) retomar o diálogo com autores clássicos e contemporâneos da sociologia que tiveram um papel relevante na construção deste dispositivo teórico-metodológico (os grupos de discussão) e que permanecem ainda pouco explorados na literatura sobre os grupos de discussão.

A tarefa de revisitar um texto nos coloca o desafio de pensar que aquilo que pesquisamos, analisamos e interpretamos necessita ser colocado sempre sob escrutínio, à luz das transformações sociais, culturais e juvenis das últimas duas décadas. Assim, compreendemos que analisar a vitalidade dos grupos de discussão nas pesquisas com jovens parte do primado de que a fala juvenil, quando produzida coletivamente, não pode ser lida de maneira literal ou descontextualizada. O sentido não reside apenas no enunciado, mas na relação entre os participantes, nos modos de validação mútua, nas interrupções, nos risos e nos silêncios. Tal perspectiva desafia abordagens que tendem a ser mais instrumentais, reafirmando os grupos de discussão como um dispositivo analítico denso, especialmente fecundo para pesquisas que buscam compreender práticas, valores e representações juvenis em sua complexidade, em um cenário de permanente transformação e metamorfose (Beck, 2018).

Nesse movimento, tal dispositivo se revela não apenas atual, mas profundamente comprometido com uma ética da pesquisa que reconhece os jovens como interlocutores legítimos na produção do conhecimento social.

 

Grupos de Discussão nas pesquisas com jovens: uma revisão integrativa da literatura das duas últimas décadas

 

Do ponto de vista de um balanço crítico, é possível afirmar que o texto (Weller, 2006) inaugura, no contexto brasileiro, uma inflexão metodológica relevante ao articular juventude, geração e conhecimento socialmente situado. Tal articulação permitiu tensionar leituras adultocêntricas e normativas sobre jovens, ao mesmo tempo em que ofereceu ferramentas analíticas para captar conflitos, consensos provisórios e dissensos que emergem na interação grupal. Nesse sentido, o trabalho de Weller (2006) contribuiu para consolidar um campo de pesquisa que entende a juventude não como categoria homogênea, mas como uma construção social marcada pelo tempo histórico e geracional, assim como pelas imbricações de classe, gênero, raça, território e trajetórias institucionais.

 

Todavia, após duas décadas de sua publicação, impõe-se a necessidade de uma revisão crítica da utilização dos grupos de discussão nas pesquisas com jovens, considerando as transformações sociais, tecnológicas e culturais que reconfiguram profundamente as experiências juvenis contemporâneas. A centralidade das sociabilidades digitais, a ampliação dos espaços híbridos de interação (presenciais e virtuais), bem como a intensificação das desigualdades e a precarização da condição juvenil, colocam novos desafios à condução e à interpretação dos grupos de discussão. Tais mudanças não invalidam o arcabouço proposto por Weller (2006), mas exigem uma revisão constante dos pressupostos teórico-metodológicos que orientam os grupos de discussão e uma adaptação aos novos contextos de pesquisa.

 

Para realizar uma análise das produções das duas últimas décadas, utilizamos a base oasisbr.ibict.br, portal brasileiro de publicações e dados científicos em acesso aberto. Nosso critério de busca foi utilizar os descritores: <grupos de discussão> e <pesquisas com jovens>, utilizando os marcadores booleanos (and/or/not), no período de 2006 a 2026.

 

A busca resultou em um conjunto de 1.235 produções, dentre dissertações, teses, artigos, capítulos de livros, livros, trabalhos de conclusão de curso, etc. Para a discussão aqui presente, refinamos a busca apenas de “artigos”, totalizando 281 produções em periódicos revisados por pares. Dentre eles, 276 são artigos publicados em português, 20 em inglês e 4 em espanhol. O período da nossa busca correspondeu ao período de 2006-2026, justamente o período que recobre o escopo do artigo aqui analisado.

 

Em nossa análise, utilizamos uma revisão integrativa da literatura, cujo objetivo foi o de reunir, analisar e sintetizar criticamente resultados de pesquisas já publicadas sobre um determinado tema, integrando diferentes abordagens metodológicas (quantitativas, qualitativas e mistas), com vistas a uma compreensão ampliada do estado de conhecimento e à identificação de lacunas, tendências e controvérsias no campo investigado.

 

Após este levantamento preliminar, refinamos a nossa busca dentre os 281 artigos levantados, excluindo artigos duplicados e aqueles que faziam referência à assuntos relacionados à saúde ou que não faziam referência direta aos descritores “grupos de discussão” e “pesquisa com jovens”. Assim, após um segundo refinamento, obtivemos a soma de 21 artigos, os quais foram analisados com vistas a compreender o emprego dessa ferramenta ao longo dos últimos vinte anos, seus avanços e limites.

 

 

Figura 1 – Fluxograma.

Fonte: Elaboração própria, com o auxílio do aplicativo Canva (2026).

 

Perfil do corpus analisado

 

Os 21 artigos que compõem esta revisão foram publicados entre 2006 a 2026. A Tabela 1 mostra a sua distribuição temporal ao longo de duas décadas:

 

Tabela 1. Distribuição dos artigos por ano de publicação:

 

Período

Número de Artigos

2006-2016

11

2017-2026

10

Fonte: Elaboração própria

 

          A distribuição temporal dos artigos analisados demonstra uma regularidade das publicações que utilizam os dois descritores. Do total dos 21 artigos revisados por pares e selecionados como corpus desta análise, verificamos que o uso desta abordagem é predominante na área de educação, com um diálogo consistente com a sociologia. O eixo predominante é a juventude, acompanhado de representações da escola, dos projetos de vida, do lazer, das expectativas para o futuro, da escola e trabalho, das representações sociais sobre violência, sociabilidades juvenis na periferia, da experiência escolar no ensino médio noturno, gênero, entre outras.

 

No processo de busca, todos os artigos analisados continham os descritores: grupos de discussão e pesquisa com jovens. Importa destacar que essa busca apontou artigos que fizeram uso dos grupos de discussão a partir de vertentes teóricas distintas, ou seja, não se restringiu à vertente alemã que remonta à Escola de Frankfurt como apontado por Weller (2006). Ao analisar nosso corpus, dividimos os artigos em três conjuntos (somente um artigo, dos 21, foi desconsiderado por falta de associação): a) grupo 1: artigos que descrevem o método para além de sua dimensão técnica, referenciando-o teoricamente e discutindo o papel do moderador/pesquisador como um reconstrutor de sentidos nas pesquisas com jovens. Neste primeiro grupo, percebe-se um diálogo com a sociologia do conhecimento de Karl Mannheim, o método documentário de Ralf Bohnsack e a teoria de habitus de Pierre Bourdieu. Analisam as potencialidades e os limites no uso da abordagem metodológica; b) grupo 2: artigos que realizam pesquisas com jovens, de natureza qualitativa, utilizando distintos procedimentos para a construção de dados qualitativos (entrevistas, fotografias, diários de campo, grupos de discussão, entrevistas narrativas, etc.). Referem-se ao uso de dispositivos para “emular” diálogos e reflexividade. O quadro conceitual geralmente é uma proposição de diálogo com a sociologia reflexiva e c) grupo 3: pesquisas com jovens por meio de entrevistas grupais com nomenclaturas distintas e sem uma definição precisa de sua fundamentação teórico-metodológica, envolvendo procedimentos como grupo focal, grupo de diálogo, discussão em grupo e grupo de discussão.

 

 

Tabela 2. Distribuição dos artigos por grupos:

 

Categorização dos artigos por grupos

A (N) = artigos consultados

Grupo 1: Grupos de discussão ocupam papel central no escopo do artigo e da pesquisa realizada. Aproximações com a sociologia do conhecimento, método documentário e teoria do habitus

A1, A2, A7, A8, A9, A13, A17, A18, A20.

 

Grupo 2: Grupos de discussão utilizados em combinação com outros procedimentos de construção de dados. Diálogo com a sociologia reflexiva.

 

A3, A5, A11, A14, A15, A16, A19.

Grupo 3: Procedimentos grupais com características difusas: grupo focal, grupo de diálogo, discussão em grupo e grupo de discussão

A4, A6, A10, A12.

 

Não se aplica a nenhuma das categorias observadas

A21

Fonte: Elaboração própria

 

          Tal tipologia não deve ser tomada de forma rígida e hierárquica, mas ela pode se mostrar interessante como um mapa analítico que evidencia graus distintos de elaboração teórico-metodológica, bem como apontar caminhos para o fortalecimento dos grupos de discussão como estratégia de pesquisa rigorosa, particularmente relevante para a compreensão das experiências juvenis em contextos sociais marcados pela pluralização, pela polarização e pela fragmentação dos espaços de socialização.

 

a) Grupos de discussão em diálogo com a sociologia do conhecimento, método documentário e teoria do habitus

 

Nesta primeira categoria, os grupos de discussão são concebidos não apenas como uma técnica de coleta de dados, mas como um dispositivo metodológico estruturante da pesquisa, ancorado na tradição da sociologia do conhecimento, particularmente em Karl Mannheim (Weller et. al., 2002) e operacionalizado por meio do método documentário de interpretação, conforme sistematizado por Ralf Bohnsack (2020). Há ainda uma forte vinculação à teoria do habitus de Pierre Bourdieu e, em alguns casos, à tradição espanhola dos grupos de discussão inaugurada por Jesus Ibáñez (Weller, 2019; Meinerz, 2011).

 

Nessas pesquisas, o foco analítico desloca-se do conteúdo manifesto das falas para a reconstrução dos quadros de orientação compartilhados, dos saberes tácitos e das estruturas de experiência coletiva que se expressam na interação grupal. O grupo de discussão é compreendido como um espaço privilegiado de produção de sentidos socialmente situados, no qual se tornam observáveis os modos como os jovens elaboram, negociam e atualizam interpretações do mundo social a partir de posições geracionais, de classe, de gênero e de pertencimentos socioculturais.

 

O papel central atribuído ao grupo de discussão implica, do ponto de vista metodológico, uma forte coerência entre teoria, método e interpretação. A análise não se limita à tematização discursiva, mas busca apreender o como das enunciações: os estilos narrativos e discursivos, os consensos implícitos, os dissensos silenciados, permitindo a reconstrução de habitus, de orientações coletivas e do modus operandi dos grupos, em diálogo crítico com tradições como a sociologia bourdieusiana e/ou mannheimiana. Trata-se, portanto, de pesquisas que reivindicam densidade interpretativa e reflexividade metodológica, reconhecendo o grupo como locus de expressão do social incorporado.

 

b) Grupos de discussão em diálogo com a sociologia reflexiva

 

Na segunda categoria, os grupos de discussão aparecem integrados a outras estratégias de construção de dados qualitativos, combinados com entrevistas individuais (semi-estruturadas ou narrativas), produção e análise de imagens, uso de fotografias, diários ou outras técnicas qualitativas. Diferentemente da categoria anterior, o grupo de discussão não ocupa necessariamente uma posição hegemônica no desenho da pesquisa, mas desempenha um papel complementar e articulador.

 

Esses estudos tendem a dialogar com a sociologia reflexiva, mobilizando o grupo de discussão como um espaço de confronto entre experiências individuais e construções coletivas de sentido. O grupo funciona, assim, como um dispositivo de reflexivização das trajetórias juvenis, permitindo observar como narrativas pessoais são reconfiguradas no encontro com o outro e como determinadas categorias de percepção ganham legitimidade, são tensionadas ou ressignificadas no plano intersubjetivo.

 

Metodologicamente, essa abordagem privilegia a triangulação de dados e a comparação entre diferentes registros empíricos. O grupo de discussão pode ser utilizado para aprofundar temas emergentes das entrevistas individuais, problematizar interpretações preliminares do/a pesquisador/a ou explorar dimensões relacionais que não emergem com a mesma intensidade em contextos individuais. Ainda que não estejam ancoradas de forma sistemática em uma corrente sociológica de análise, essas pesquisas reconhecem o potencial do grupo para evidenciar dinâmicas sociais, disputas simbólicas e processos de construção identitária próprios da condição juvenil.

 

c) Procedimentos grupais com características difusas: fragilidade metodológica e conceitual

 

A terceira categoria reúne estudos nos quais os grupos de discussão são utilizados de maneira difusa, frequentemente sem um repertório teórico-metodológico definido. Nesses casos, observa-se uma aproximação instrumental, muitas vezes marcada pela sobreposição ou confusão conceitual entre grupo de discussão, grupo focal, discussão em grupo ou grupos de diálogo.

 

O grupo tende a ser mobilizado como um recurso pragmático para “ouvir vários jovens ao mesmo tempo” ou para complementar dados obtidos por outras técnicas, sem que se explicite o estatuto epistemológico da interação grupal nem os critérios analíticos empregados na interpretação dos discursos. Predomina, assim, uma leitura mais descritiva e temática, centrada nos conteúdos expressos, com pouca atenção às dinâmicas relacionais, aos silêncios, às hierarquias internas e às formas de produção coletiva do discurso.

 

Do ponto de vista crítico, esse conjunto de trabalhos revela uma banalização do uso do grupo de discussão como método de pesquisa, desvinculada de uma reflexão mais aprofundada sobre seus pressupostos teóricos e alcance do método. Ao mesmo tempo, essas pesquisas evidenciam a difusão e a legitimação dos grupos de discussão no campo das pesquisas com jovens no Brasil, ainda que de forma desigual e, por vezes, metodologicamente frágil. Tal cenário aponta para a necessidade de maior rigor conceitual, bem como de formação metodológica que diferencie abordagens, tradições e objetivos analíticos.

 

Em síntese, os três conjuntos permitem compreender não apenas a diversidade de usos dos grupos de discussão nas pesquisas com jovens, mas também distintos modos de relação entre teoria, método e empiria. Eles expressam tensões constitutivas do campo: entre densidade interpretativa e pragmatismo metodológico; entre apropriação crítica de tradições sociológicas e uso instrumental de técnicas; entre a centralidade do coletivo e a primazia do individual.

 

Contribuições da sociologia do conhecimento para a interpretação dos discursos, narrativas e produção de sentido em um mundo em transformação

 

Vimos como os grupos de discussão oferecem ao pesquisador a possibilidade de não negligenciar o ordinário. Pelo contrário, sua tarefa é mergulhar no fluxo da vida e extrair dele conexões racionais que garantam a verificabilidade científica através de dois caminhos rigorosos: a confirmação empírica no material histórico e a busca por conexões entre fenômenos documentados pelos grupos.

 

Em um tempo dominado pela velocidade da informação e por uma instantaneidade do tempo que ameaça aniquilar o espaço e homogeneizar as singularidades, cultivar tal capacidade de observar o anódino nos desafia a olhar para além da superfície dos dados empíricos e das opiniões apressadas.

 

Entretanto, a realidade social é constituída por orientações coletivas profundas que exigem instrumentos analíticos sensíveis para serem mapeadas. O nosso cotidiano não é um conjunto de fatos desconexos, mas um rico arquivo de sentidos. Cada gesto, cada escolha e cada rito é um documento de uma visão de mundo maior. Observar a vida através desta lente é o primeiro passo para compreender que, mesmo na singularidade de nossos atos, somos portadores das estruturas invisíveis da história.

 

Este é o paradoxo com o qual a sociologia clássica muitas vezes se confronta: como capturar o fluxo caótico e pulsante da vida cotidiana sem destruí-lo através da frieza das categorias científicas? O pensamento de Karl Mannheim emerge justamente dessa tensão, propondo que a realidade social não é um aglomerado de fatos isolados, mas uma gramática invisível que ele denomina Weltanschauung (visão de mundo). Para o pesquisador, o desafio não é apenas descrever o que vemos, mas decifrar o sentido profundo que as ações humanas documentam (Weller et. al., 2002).

 

Para tanto, a visão de mundo não deve ser confundida com uma imagem de mundo puramente intelectual ou abstrata. Ela é, primordialmente, a fundação da vida em grupo, uma totalidade que não se reduz à simples soma de indivíduos (Mannheim, 1971). Para Mannheim, a Weltanschauung é uma estrutura viva que conecta experiências, permitindo que a singularidade do vivido se torne compartilhada. O insight fundamental para os pesquisadores nas ciências sociais e na educação é que estas visões não são apenas pensadas; elas são vividas e construídas a partir de ações práticas. Entender esse conceito é o que nos permite mapear a totalidade sistêmica da cultura, onde ideias e crenças não são isoladas, mas interdependentes.

 

Esta definição afasta a sociologia de uma análise meramente estatística e a conduz para uma interpretação das interconexões estruturais que dão sentido à existência coletiva. A transição do vivido para o pensado, contudo, exige que compreendamos a natureza do conhecimento que reside antes da teoria (Mannheim, apud Foracchi, 1982).

 

Por isso mesmo, a tarefa do sociólogo não é apenas categorizar esses atos, mas realizar uma inversão do uso da razão: usar o intelecto para traduzir esse mundo vivido, tornando-o legítimo, comunicado e compartilhado no rigor da ordem científica. Assim, a sociologia, para Mannheim, nasce como certa “atitude” diante da vida:

 

É dessa sociogênese da reflexividade, fundada na historicização e na problematização de ordens simbólicas inconciliáveis, que emerge a atitude experimental e, em sua forma mais sistemática, a atitude sociológica (Côrrea, 2025, p.15)

 

Para que essa tradução do ateórico para o científico ocorra sem violar o caráter individual do fenômeno (Weller et al. 2002), precisamos de um método sensível às diferentes camadas de sentido que compõem a ação humana: temos nesta orientação, o elemento basilar do método documentário desenvolvido por Ralf Bohnsack com base na sociologia do conhecimento de Karl Mannheim (Bohnsack, 2020; Weller, 2019), que subjaz os elementos teóricos-metodológicos que irão compor os grupos de discussão.

 

          As transformações e metamorfoses da sociedade constituem um primado do qual não podemos abrir mão na interpretação da existência coletiva. Ulrich Beck (2018) contribui decisivamente para essa análise ao sustentar que não vivemos apenas processos de mudança social incremental, mas uma metamorfose - isto é, transformações estruturais profundas que reconfiguram as próprias categorias com as quais a sociedade se compreende. Em A metamorfose do mundo, Beck argumenta que as instituições centrais da modernidade (Estado-nação, trabalho, ciência, política, família) permanecem formalmente de pé, mas operam segundo lógicas radicalmente transformadas.

 

Tal tese dialoga diretamente com Mannheim: a metamorfose indica que a gramática invisível da primeira modernidade - fundada na centralidade do Estado nacional, na distinção clara entre natureza e sociedade, na previsibilidade institucional e na soberania do trabalho industrial - já não organiza adequadamente a experiência social, embora continue a orientar discursos e práticas de forma residual.

Se a metamorfose descrita por Beck (2018) implica uma reconfiguração das subjetividades, é no espaço horizontal e interativo do grupo que as narrativas deixam de ser meras opiniões individuais para revelarem-se como documentos de orientações coletivas. No contexto brasileiro, marcado por uma modernidade híbrida e por profundas clivagens sociais, o grupo de discussão permite acessar a "gramática invisível" que sustenta tanto a resiliência de estruturas tradicionais quanto a emergência de novos arranjos de sentido, capturando o momento exato em que o vivido se choca com as categorias pré-estabelecidas da sociologia clássica.

Dessa forma, a aplicação do método documentário aos grupos de discussão no Brasil não visa apenas compreender o que é dito, mas interpretar como experiências são vividas e compartilhadas pelos pares. Ao focar nas experiências conjuntivas, o pesquisador consegue mapear como diferentes grupos processam as incertezas de um mundo em metamorfose: da precarização do trabalho às novas configurações familiares. A força dessa abordagem reside na capacidade de transformar o “ruído” do cotidiano em dado científico, permitindo que a sociologia do conhecimento atue como uma ferramenta de tradução: ela torna inteligíveis as respostas criativas e, por vezes, contraditórias, que os atores sociais articulam diante de uma configuração social que exige a constante reatualização dos nossos marcos interpretativos.

 

Do risco à reflexividade: reconfiguração dos esquemas tácitos

 

A noção de sociedade do risco mundial introduzida por Beck (2018) explicita como novos perigos globais (crises ambientais, sanitárias, tecnológicas, financeiras) operam como forças estruturantes de sentido. Esses riscos não apenas produzem novos conflitos, mas alteram os esquemas cognitivos e normativos que sustentavam a ação social. Em termos mannheimianos, trata-se de uma transformação da gramática invisível: o futuro deixa de ser horizonte de progresso e passa a ser campo de incerteza fabricada; a ciência perde seu estatuto de instância soberana de verdade e torna-se objeto de controvérsia; a política desloca-se das arenas institucionais clássicas para espaços difusos, transnacionais e híbridos.

 

A gramática invisível herdada não corresponde mais às condições objetivas da vida social, produzindo déficits de interpretação e ação. Mannheim já indicava que crises históricas profundas tornam visíveis os limites das formas tradicionais de pensamento e Beck (2018) radicaliza esse diagnóstico ao mostrar que a própria unidade de referência do social (a sociedade nacional) tornou-se insuficiente.

 

Assim, autores contemporâneos, como Beck e Bohnsack dialogam com a sociologia do conhecimento de Mannheim lembrando que a transmissão de um legado deve ser constantemente reatualizada.

 

A utilidade de A metamorfose do mundo para pensar a gramática invisível reside, portanto, em três contribuições principais: a) um diagnóstico da defasagem cognitiva entre categorias herdadas e realidades emergentes; b) ênfase nas transformações não intencionais, que operam “por trás das costas” dos atores sociais, à maneira mannheimiana e c) a atualização da sociologia do conhecimento, ao deslocar o foco das ideologias explícitas para as condições globais, reflexivas e ambivalentes de produção de sentido.

 

Lido em diálogo com Karl Mannheim, Ulrich Beck permite compreender que a gramática invisível da vida social contemporânea se encontra em processo de desestabilização e recomposição. A metamorfose do mundo não elimina a necessidade de interpretação sociológica; ao contrário, exige um esforço renovado de tornar visíveis os novos pressupostos tácitos que orientam a ação em um mundo marcado por riscos globais, interdependências assimétricas e crises de referência. Nesse sentido, Beck não apenas dialoga com Mannheim, mas radicaliza sua intuição fundamental: a de que compreender a sociedade implica decifrar os quadros invisíveis que tornam o mundo social inteligível - mesmo, e sobretudo, quando eles estão em transformação.

 

Essa inflexão implica reconhecer que a tarefa sociológica, em tempos de modernização reflexiva, não se limita a mapear posições sociais, mas requer analisar os mecanismos pelos quais certos riscos são nomeados, hierarquizados e governados. Trata-se de investigar como se constituem os regimes de verdade que autorizam determinadas leituras do mundo e silenciam outras, evidenciando que a metamorfose contemporânea é também uma metamorfose dos próprios critérios de evidência e plausibilidade social. Nesse movimento, a herança mannheimiana é reatualizada: compreender a sociedade contemporânea significa apreender a historicidade dos seus pressupostos cognitivos e normativos, interrogando as condições sociais de possibilidade dos diagnósticos que orientam a ação coletiva em um cenário de incerteza radicalizada.

 

          Neste cenário, o papel dos grupos de discussão pode operar como uma via empírica para investigar a produção social do conhecimento cotidiano em tempos de modernização reflexiva. O método permite apreender como os sujeitos, em interação, reconstroem as gramáticas práticas que orientam a ação, revelando os pressupostos implícitos que organizam suas leituras da realidade. Assim, a articulação entre Mannheim e Beck fornece não apenas um horizonte teórico, mas também uma justificação epistemológica para o uso dos grupos de discussão: se a sociedade contemporânea exige decifrar pressupostos tácitos em constante recomposição, é precisamente na interação discursiva coletiva que tais pressupostos se deixam entrever, ser disputados e, analiticamente, reconstruídos.

 

Considerações finais: atualidade e vitalidade do método (20 anos depois)

 

As transformações recentes nas formas de sociabilidade juvenil, intensificadas pela metamorfose do mundo (Beck, 2018), têm produzido dinâmicas de interação caracterizadas pela segmentação dos públicos, pela formação de bolhas informacionais e pela radicalização de posições discursivas. Nesses contextos, as experiências juvenis tendem a ser vivenciadas de maneira simultaneamente hiperconectada e fragmentada, o que coloca desafios analíticos significativos aos métodos de pesquisa qualitativa, sobretudo aqueles centrados na entrevista individual.

 

Os grupos de discussão, compreendidos não apenas como técnica de coleta de dados, mas como situação social de produção de sentido, apresentam vantagens específicas para a investigação dessas dinâmicas. Ao promoverem a interação face a face (ou síncrona mediada), os grupos criam um espaço no qual posições, valores e interpretações do mundo são confrontados, negociados e rearticulados coletivamente, permitindo ao pesquisador observar processos de formação de consensos provisórios, dissensos explícitos, silenciamentos e alinhamentos tácitos. Desta forma, procedimentos grupais e dialógicos ganham ainda mais relevância em contextos marcados pelos desafios contemporâneos enunciados.

 

Em ambientes digitais marcados pela lógica algorítmica da confirmação e pela circulação de discursos polarizados, os grupos de discussão operam como um contraponto metodológico, ao deslocarem os jovens de interações mediadas por filtros personalizados para uma situação comunicativa na qual a alteridade se faz presente de modo mais imediato. Essa configuração possibilita acessar não apenas opiniões cristalizadas, mas os processos interacionais por meio dos quais tais posições são sustentadas, ajustadas ou tensionadas.

 

Do ponto de vista analítico, especialmente quando articulados ao método documentário, os grupos de discussão permitem acessar o meio social e reconstruir as orientações coletivas que informam as tomadas de posição juvenis. Mais do que mapear divergências ideológicas, esse procedimento torna visíveis os esquemas de interpretação compartilhados, os repertórios narrativos e as experiências geracionais que estruturam o modo como os jovens percebem a política, a escola, o trabalho, as relações de gênero e as desigualdades sociais em um contexto de intensa mediação digital.

 

Além disso, os grupos de discussão apresentam uma vantagem ética e formativa relevante. Ao criarem um espaço de escuta e diálogo regulado, eles favorecem a expressão de vozes frequentemente marginalizadas e permitem que jovens experimentem formas de argumentação e reconhecimento mútuo pouco acessíveis nos ambientes digitais polarizados. Nesse sentido, os grupos de discussão não apenas documentam orientações coletivas preexistentes, mas também constituem um espaço reflexivo no qual tais orientações podem ser problematizadas.

 

Reconhecer a vitalidade dos grupos de discussão nas pesquisas com jovens significa reconhecer igualmente os limites e desafios que se apresentam, como a gestão de conflitos e assimetrias nos grupos; os desafios éticos; a influência das redes sociais na fala presencial e a necessidade de formação do pesquisador.

 

Por outro lado, é fácil reconhecer o potencial heurístico dos grupos de discussão, quando as pesquisas evidenciam o quanto eles podem ampliar o campo interpretativo, além de evitar leituras enviesadas da juventude, favorecendo análises mais densas e contextualizadas das situações experimentadas.

 

Pensar os grupos de discussão como um instrumento de análise das situações sociais possibilita ao leitor revisitar a sociologia clássica com os olhos na atualidade. Assim, a releitura da sociologia do conhecimento de Karl Mannheim, encontra, no debate contemporâneo, um duplo e fecundo deslocamento, tanto no plano teórico como metodológico. 

 

Passados 20 anos da publicação do artigo Grupos de Discussão na pesquisa com adolescentes e jovens: aportes teórico-metodológicos e análise de uma experiência com o  método (Weller, 2006), nossa pesquisa bibliográfica integrativa sugere que está em curso a consolidação de uma perspectiva analítica nas pesquisas com jovens que têm procurado conjugar densidade teórica com sofisticação metodológica, permitindo compreender não apenas o conteúdo explícito dos discursos, mas os modos de produção, circulação e sedimentação do conhecimento em sociedades marcadas pela reflexividade, pela contingência e pela complexidade social.

 

Assim, os grupos de discussão se afirmam como um dispositivo teórico- metodológico privilegiado para a pesquisa qualitativa com jovens. Sua força reside na capacidade de tornar observáveis os processos coletivos de produção de sentido, captando a complexidade das orientações juvenis para além das posições individuais isoladas ou das expressões discursivas típicas das redes digitais.

 

Em última análise, a vitalidade do método dos grupos de discussão, duas décadas após sua sistematização referencial por Weller (2006), reside na sua vigência heurística diante de uma realidade social em permanente reconfiguração. Se a modernidade reflexiva nos impele a uma subjetividade fragmentada e desvinculada, o grupo de discussão atua como um refúgio de coletividade, onde a subjetividade juvenil é lida não como um dado biográfico isolado, mas como reflexo de um espaço de experiências conjuntivas e de um repertório compartilhado de sentidos e enfrentamentos diante do social. Ao capturar o “conhecimento conjuntivo” que emerge do encontro (Weller, 2019), o método preserva a fidelidade dos dados, impedindo que a riqueza da experiência vivida seja reduzida a metadados ou categorias estáticas, reafirmando o compromisso da sociologia com a escuta profunda e a alteridade.

Conclui-se que esta abordagem dos grupos de discussão, ancorada na sociologia do conhecimento e no método documentário em constante revitalização por interpretações contemporâneas, permanece não apenas atual, mas essencial para decifrar as mudanças e as transformações da vida em sociedade, exigindo uma prática científica que seja tecnicamente precisa e, ao mesmo tempo, conectada à vida cotidiana.

 

Referências

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WELLER, Wivian et. al. Karl Mannheim e o método documentário de interpretação: uma forma de análise das visões de mundo. Sociedade e Estado, Brasília, 17(2), 2002. Disponível em: https://periodicos.unb.br/index.php/sociedade/article/view/4976. Acesso em 20 jan. 2026.

 

 

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Notas



[i] Este artigo reflete algumas das discussões originadas a partir de um estágio de pós-doutoramento realizado no Programa de Pós-Graduação em Educação na Universidade de Brasília (UNB), sob a supervisão da 2a autora.