A Educação Sensível na formação de professores de Educação Física: um estado do conhecimento

Sensitive Education in Physical Education teacher education: A state of knowledge

La Educación Sensible en la formación de profesores de Educación Física: un estado del conocimiento

 

Davi José de Paula Soares https://lh7-us.googleusercontent.com/h9Ojv87ptVEgwx8PXehJNWB6RbeDlpXgP9wEPNuQgEiN1MWZqOYypeCQ59qJzbAdKq2NWcCoCxu9ig7Uxj9DQGeZQd62p5GHyOeol1sBa83pp3fhKd6TWJ4p1GJxaptf9Bd5r7OgGMw4FOSfvYdyTA

Universidade Federal do Pará, Belém – PA, Brasil.

davijose.ds98@gmail.com

 

Renan Santos Furtado

Universidade Federal do Pará, Belém – PA, Brasil.

renan.furtado@yahoo.com.br

 

Recebido em 03 de novembro de 2025

Aprovado em 12 de maio de 2026

Publicado em 15 de maio de 2026

 

RESUMO

O trabalho tem como objetivo central apresentar um Estado do Conhecimento (EC) sobre a Educação Sensível na formação de professores de Educação Física, e como objetivo específico apontar uma visão ampla e atual sobre o tema, bem como seus avanços e lacunas na produção do conhecimento. O estudo adotou a metodologia do EC proposta por Morosini e Fernandes (2014), percorrendo as etapas de Bibliografia Anotada, Bibliografia Sistematizada, Bibliografia Categorizada e Bibliografia Propositiva. A pesquisa realizou buscas nas bases BDTD/IBICT, SciELO e Educ@, utilizando palavras-chave específicas, recorte temporal (2015-2025) e outros critérios de inclusão e exclusão, resultando em 6 produções que foram categorizadas em dois eixos: a) Fundamentos filosóficos e epistemológicos da Educação Sensível; e b) Práticas corporais e experiências sensíveis na formação. O EC apontou a Educação Sensível como uma perspectiva educacional que valoriza os saberes corporais, a experiência vivida e as subjetividades dos sujeitos em processo formativo, porém tal abordagem permanece marginalizada nos currículos formais, sendo frequentemente fragmentada e restrita a disciplinas específicas. Identificaram-se lacunas na produção científica, especialmente nas regiões norte e centro-oeste do Brasil, além da ausência de estudos sobre a Educação Sensível em programas institucionais de iniciação científica e à docência. Revelou-se o predomínio das contribuições de Merleau-Ponty no aporte teórico do corpus. A pesquisa propõe a ampliação das investigações sobre experiências sensíveis na formação inicial e continuada de professores de Educação Física, que, apesar de ser uma área do conhecimento que dá centralidade ao corpo, ainda relega à sensibilidade corporal uma função acessória na formação.

Palavras-chave: Educação sensível; Formação de professores; Educação Física.

 

ABSTRACT

This study aims to present a State of Knowledge review on Sensitive Education in Physical Education teacher education and, specifically, to provide a broad and up-to-date overview of the theme, advances and gaps in knowledge production. Adopting the methodology proposed by Morosini and Fernandes (2014), the research followed four sequential stages: Annotated Bibliography, Systematized Bibliography, Categorized Bibliography, and Propositive Bibliography. Searches were conducted in BDTD/IBICT, SciELO, and Educ@ databases, using specific keywords, a temporal cut (2015-2025) and other inclusion/exclusion criteria, resulting in six relevant publications categorized into two thematic axes: a) Philosophical and epistemological foundations of Sensitive Education; and b) Bodily practices and sensitive experiences in teacher education. The review indicated that Sensitive Education constitutes an educational perspective that values bodily knowledge, lived experience and the subjectivities of individuals in the formative process, however this approach remains marginalized in formal curricula, frequently fragmentarily and restrict to specific disciplines. Scientific production gaps were particularly evident in the northern and central-western regions of Brazil, with a notable absence of studies addressing Sensitive Education within institutional scientific initiation and teacher education programs. The predominance of Merleau-Ponty’s contribuitions in the theoretical framework of the corpus was revealed. The study calls for expanded research on sensitive educational experiences in both initial and continuing Physical Education teacher education wich, although it is a field that places the body at the center still relegates bodily sensibility to an accessory role in training.

Keywords: Sensitive education; Teacher training; Physical Education.

 

RESUMEN

Este trabajo tiene como objetivo presentar un Estado del Conocimiento (EC) sobre la Educación Sensible en la formación de profesores de Educación Física y, de manera específica, ofrecer uma visión amplia y actualizada sobre el tema, así como sus avances y lagunas em la producción del conocimiento. La investigación adoptó la metodología propuesta por Morosini y Fernandes (2014), que comprende las etapas de Bibliografía Anotada, Bibliografía Sistematizada, Bibliografía Categorizada y Bibliografía Propositiva. Se realizaron búsquedas en las bases BDTD/IBICT, SciELO y Educ@, utilizando palabras clave específicas, um recorte temporal (2015-2025) y otros criterios de inclusión y exclusión, resultando en seis producciones categorizadas en dos ejes: a) Fundamentos filosóficos y epistemológicos de la Educación Sensible; y b) Prácticas corporales y experiencias sensibles em la formación. El EC indicó que la Educación Sensible se configura como uma perspectiva educativa que valoriza los saberes corporales, la experiencia vivida y las subjetividades de los indivíduos em processo formativo, sin embargo esta perspectiva permanece al margen de los currículos formales, tratada frecuentemente de manera fragmentada o restringida a ciertas disciplinas. Se identificaron vacíos en la producción científica, especialmente en las regiones norte y centro-oeste de Brasil, y la ausencia de estudios sobre Educación Sensible en programas institucionales de iniciación científica y formación docente. Se reveló el predominio de las contribuiciones de Merleau-Ponty en el marco teórico. El estudio plantea la necesidad de ampliar las investigaciones sobre experiencias sensibles en la formación inicial y continua de profesores de Educación Física, campo que, aunque otorga centralidad al cuerpo, todavia relega la sensibilidade corporal a uma función accesoria en la formación.

Palabras clave: Educación sensible; Formación de profesores; Educación Física.

 

Introdução

          A construção teórica do termo Educação Sensível aglomera influências de diversas áreas do conhecimento, sendo solidificada pelos antigos estudos e constantemente retroalimentada pelos novos estudos, permitindo, assim, uma abordagem mais ampla do termo (Favacho; Fares, 2024). Essas contribuições teóricas apontam a Educação Sensível como alternativa em favor de uma formação humana, considerando os sujeitos integralmente em suas realidades sociais e culturais e operando para a transformação dessas realidades por vias de sensibilização dos educandos (Santos; Rodrigues; Pety, 2024).

          Desse modo, defendemos em nosso estudo a Educação Sensível como uma abordagem pedagógica inovadora que reconhece a singularidade dos sujeitos em formação e se compromete com uma práxis educacional que integra sensibilidade, humanização e transformação. Seus fundamentos contemplam dimensões da vida concreta, leitura de mundo, experiências sensíveis, expressividade criativa, interação dialógica dos sujeitos com o mundo e o desenvolvimento da consciência crítica como base para uma intervenção formativa relevante. A proposta se contrasta com o modelo educacional direcionado pela racionalidade instrumental por se dedicar ao reconhecimento das subjetividades humanas nos processos de apropriação do mundo cultural e suas potencialidades para uma atuação ética na sociedade.

Essa noção de Educação Sensível se distancia da racionalidade moderna, que, ao tentar construir um mundo ideal, evidencia o intelecto e retrai a sensibilidade, considerando que o conhecimento se constitui apenas por uma dimensão instrumental – que seria a chamada racionalidade técnica do conhecimento (Moreira, 2024). A partir desse rompimento, ela pressupõe uma série de abordagens contra-hegemônicas[1] destinadas à prática pedagógica nos diferentes espaços e níveis de escolaridade. Não pretendemos propor uma abordagem pedagógica que se afaste do conhecimento objetivo – de modo contrário, reconhecemos o caráter revolucionário à causa humana que a ciência produziu –, mas somos levados a entender que é necessário ir além do paradigma racional moderno, transcendendo suas limitações para com as problemáticas estruturais que vivenciamos cotidianamente. Assim, apresentamos uma formação que seja aberta ao contato dos indivíduos com a realidade por meio da sensibilidade que, geralmente, é desvalorizada na dinâmica da produção do conhecimento e da prática educacional. Diante disso, projetamos as suas contribuições e possibilidades para a discussão sobre a Educação, destacando a formação de professores de Educação Física.

Portanto, elaboramos esta investigação do Estado do Conhecimento (EC) acerca das temáticas da Educação Sensível, entendendo a necessidade de mapear e analisar as produções já socializadas desses campos em um determinado período, identificando seus avanços para o conhecimento científico e as lacunas que se evidenciam por meio desses estudos.

O movimento investigativo-metodológico desta pesquisa se inicia com uma questão científica: Em que estado se encontra o conhecimento empírico já socializado sobre a Educação Sensível como proposta pedagógica para a formação de professores de Educação Física?

Para a tarefa de solucionar essa questão, a pesquisa tem como objetivo central a construção do EC sobre a temática da Educação Sensível na formação de professores de Educação Física, entendendo a necessidade de se conhecer o que existe publicado a respeito desse campo de conhecimento. Como objetivo específico, propomos alguns apontamentos elaborados a partir de uma visão ampla e atual sobre esse saber, bem como a identificação de avanços e lacunas que circundam a discussão acerca desse objeto de conhecimento.

Organizamos este artigo em quatro seções a partir dessa introdução, as quais se encarregarão de descrever o processo de composição do EC aqui realizado. Na segunda seção, descrevemos o caminho metodológico adotado para a realização do EC. Na terceira seção, observam-se os procedimentos das duas etapas iniciais da pesquisa de EC (Bibliografia Anotada e Sistematizada). Na quarta seção, apresentamos os trabalhos do corpus selecionado nas etapas anteriores, agrupados em uma Bibliografia Categorizada. Na quinta seção, registramos as inferências criadas a partir da análise do corpus e das categorias instituídas na pesquisa, cumprindo a etapa da Bibliografia Propositiva. Por fim, apresentamos as considerações finais do EC realizado.

 

Metodologia: o Estado do Conhecimento

          O EC é definido por Morosini e Fernandes (2014) como a busca por produções científicas de determinada área ou objeto de conhecimento que permite sua identificação, registro e categorização, culminando na síntese teórica sobre o volume e a qualidade desse material já produzido e socializado em um determinado espaço temporal. Portanto, trata-se de um tipo de metodologia bibliográfica que se baseia em teses, dissertações e artigos científicos. Tendo tais fontes de dados como parâmetro, é possível ir ao encontro de produções provenientes dos Programas de Pós-Graduação Stricto Sensu (Kohls-Santos; Morosini, 2021), o que resulta em um levantamento teórico consistente e garante idoneidade à pesquisa que se pretende realizar sobre determinada temática.

Para o presente estudo, adotamos as proposições acerca do EC – características, etapas, procedimentos, critérios etc. – a partir de Morosini e Fernandes (2014), Kohls-Santos e Morosini (2021) e Morosini, Nascimento e Nez (2021). Desse modo, percorreremos pelas seguintes etapas: Bibliografia Anotada, Bibliografia Sistematizada, Bibliografia Categorizada e Bibliografia Propositiva. Entendemos que esse percurso seja essencial para que o EC possa ser consolidado, permitindo reflexões contundentes à produção do conhecimento sobre o objeto a ser tematizado.

A Bibliografia Anotada é caracterizada pela organização dos documentos encontrados nas bases a partir das buscas pelas palavras-chave e/ou descritores[2],  por suas referências bibliográficas e o resumo, que, em geral, contém as informações estruturais das produções, como objetivos, metodologia e resultados (Morosini; Kohls-Santos; Bittencourt, 2021).

A segunda etapa é denominada Bibliografia Sistematizada. Ela consiste na seleção dos documentos recolhidos na etapa anterior, a fim de sistematizar apenas aqueles que estão de acordo com o objetivo da pesquisa. Nessa etapa, o corpus da pesquisa precisa estar melhor lapidado para que as fases seguintes sejam bem sucedidas em seus objetivos de análise, inferência e proposições.

A próxima etapa é a Bibliografia Categorizada, que se responsabilizará por orquestrar em categorias e subcategorias o corpus disponível, de modo que tais agrupamentos auxiliem a estruturação do EC. A divisão em blocos temáticos pode ser estabelecida a partir de unidades formais, como termos e palavras-chave ou, ainda, o tema identificado, gerando unidades de sentido, que são as categorias peculiares a essa etapa (Kohls-Santos; Morosini, 2021).

A Bibliografia Propositiva se constitui como a etapa final, sendo a fase de inferência sobre o conteúdo analisado. Nela, o pesquisador, já familiarizado com as dimensões exploradas no corpus analisado, estará apto a identificar lacunas, apontar nexos e propor reflexões com base no conteúdo pesquisado.

 

Critérios de inclusão e exclusão para a composição do corpus de análise

          A busca do EC exige que o pesquisador adote critérios de inclusão e exclusão, visando um melhor e mais conciso corpus de análise, de acordo com os objetivos propostos. Aqui consideramos os seguintes critérios:

 

a)    Produções e Bases de dados: realizamos uma busca comum em produções nacionais provenientes de Programas de Pós-Graduação ou periódicos que se relacionam com a área da Educação e/ou Educação Física, visando a uma análise qualitativa. Para isso, buscamos teses e dissertações na Biblioteca Digital de Teses e Dissertações do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (BDTD/IBICT), que disponibiliza integralmente esses documentos em seu portal. Adicionalmente, buscamos artigos de periódicos indexados nas plataformas Scientific Electronic Library Online (SciELO) e Educ@, dada a relevância de ambas para a grande área da Educação em relação à excelência da produção e socialização do conhecimento, principalmente oriunda de países da América Latina e Caribe. Essas plataformas são consideradas uma diretriz comum de indexação na avaliação de artigos e periódicos proposta pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) para o ciclo quadrienal de 2025 a 2028 (MEC, 2025a, 2025b).

 

b)    Recorte histórico: considerando a necessidade de uma investigação conectada com a atualidade do tema aqui proposto e entendendo que as produções dos últimos dez anos podem melhor se relacionar com as mais atuais contribuições teórico-científicas da Educação e da Educação Física, utilizamos o recorte histórico de 2015 a 2025 nas buscas realizadas.

 

c)     Livre acesso: durante a busca das produções, por meio dos critérios já pontuados, deparamo-nos com o acesso restrito em alguns documentos, apesar de todos os resultados serem caracterizados como de open access. Desse modo, a investigação desses documentos não pôde ser efetivada.

 

d)    Duplicação: algumas obras apareceram duplicadas nos resultados. Consideramos apenas a primeira aparição, excluindo as demais.

 

e)    Especificidade do material: além dos critérios de inclusão e exclusão apresentados, faz parte da natureza do processo de construção do EC a lapidação do material recolhido, que deve ser moldado de acordo com o objetivo proposto pelo pesquisador em seu fazer científico. Desse modo, especificamente nas duas primeiras etapas (Bibliografia Anotada e Sistematizada), foram excluídos os trabalhos que não possuem aderência com a proposta estabelecida na pesquisa, selecionando os demais para o corpus.

 

Após a descrição do caminho metodológico do estudo, passamos para a explicitação das etapas do EC realizadas.

 

Bibliografia Anotada e Sistematizada

          A busca foi realizada na BDTD/IBICT, na plataforma SciELO e Educ@, com a utilização das seguintes palavras-chave: Educação Sensível AND Formação AND Educação Física (para todas as bases); e Educação Sensível (para a segunda e terceira base). Os primeiros termos – trabalhados juntamente com os “operadores booleanos” (Tessaro, 2023) – foram escolhidos por considerarmos a sua relação direta com o escopo de nosso estudo. A segunda palavra-chave foi escolhida para atuar isoladamente por evidenciarmos a escassez de artigos acadêmicos que versem sobre a Educação Sensível na formação em Educação Física na segunda e terceira fonte. Portanto, consideramos necessária a realização de uma busca mais ampla e abrangente, optando pela palavra-chave informada.

Ilustramos, no Quadro 1, os resultados das buscas realizadas pelas palavras-chave:

Quadro 1 – Buscas nos bancos de dados por palavras-chave

BASES DE DADOS

PALAVRAS-CHAVE

TÍTULOS ENCONTRADOS

CAMPOS PESQUISADOS

BDTD/IBICT

Educação Sensível

AND

Formação

AND

Educação Física

74

Todos os campos

SciELO

Educação Sensível

AND

Formação

AND

Educação Física

0

Todos os índices

Educação Sensível

1

Todos os índices

Educ@

Educação Sensível

AND

Formação

AND

Educação Física

0

Todos os índices

Educação Sensível

2

Todos os índices

Fonte: Elaboração própria (2025).

 

A primeira busca foi realizada na BDTD/IBICT, com obtenção de 74 resultados, sendo 40 trabalhos em nível de mestrado (dissertação) e 34 em nível de doutorado (tese). Essa busca considerou todos os campos de pesquisa disponíveis na plataforma (título, autor, ano da publicação, assunto e resumo) e aplicou como medidor de recorte histórico o filtro que limita o ano das publicações, considerando os documentos publicados de 2015 até 2025.

Após a primeira busca, partimos para a SciELO, aplicando as mesmas palavras-chave utilizadas no primeiro banco de dados, bem como a busca em todos os índices disponíveis (ano de publicação, autor, financiador, periódico, resumo e título) e recorte temporal, porém não obtivemos resultados. Escolhemos, por conseguinte, utilizar apenas o termo Educação Sensível, mantendo a busca em todos os índices e ampliando o recorte temporal para qualquer período, o que ocasionou o total de 1 resultado.

Na averiguação realizada no indexador Educ@, utilizamos, igualmente, as palavras-chave das buscas anteriores em uma pesquisa em todos os índices (palavras do título, autor, registro de ensaios clínicos, assunto, resumo, ano de publicação, tipo de artigo, afiliação – organização e afiliação – e país) e com o mesmo recorte histórico, ocasionando em nenhum resultado disponível. Desse modo, utilizamos o mesmo critério de amplificação da busca adotado na plataforma SciELO, direcionando a pesquisa apenas pelo termo Educação Sensível, o que gerou 2 resultados.

O Gráfico 1 demonstra os dados percentuais e quantitativos dos resultados obtidos nas bases de dados utilizadas, dividindo-os pelos tipos de documentos:

Gráfico 1 – Distribuição por tipos de publicação

Fonte: Elaboração própria (2025).

 

            Os resultados encontrados (77) constituem o corpus de análise nesta fase preliminar da pesquisa. Diante disso, iniciamos a etapa da Bibliografia Anotada do EC.

Registramos os documentos encontrados nas buscas realizadas, enumerando cada unidade de acordo com sua respectiva ordem de resultado[3]. Com as referências organizadas, demos início ao processo de leitura flutuante das produções, a fim de verificar quais resultados estavam dentro do escopo e de acordo com o objetivo do EC.

          Dos 77 trabalhos verificados, 64 não cumpriam o critério de especificidade do material, sendo excluídos do corpus para análise nas etapas seguintes. Essas produções, apesar de se caracterizarem como pesquisas educacionais, investigavam outras áreas do conhecimento (ciências biológicas, ciências exatas, linguística, artes, dentre outras) e produziam estudos voltados à prática da Educação Sensível em outros campos de atuação que não se enquadravam como a formação de professores de Educação Física, como a Educação Básica. Ainda, 7 trabalhos apresentaram acesso restrito, apesar de inseridos em plataformas virtuais de livre acesso.

Realizada a leitura, passamos para a organização da Bibliografia Sistematizada.

          Dos trabalhos analisados na primeira etapa, foram selecionadas 6 produções que estavam de acordo com os critérios de inclusão e exclusão adotados na pesquisa, alinhando-se com a proposta do EC sobre a Educação Sensível na formação de professores de Educação Física. As obras selecionadas estão relacionadas no Quadro 2:

Quadro 2 – Produções selecionadas a partir da Bibliografia Sistematizada

Nº

ANO

AUTORES

TÍTULOS

NÍVEL

2

2023

PEIXOTO, Sara Maria Pinheiro

O AEE e o trabalho articulado na educação infantil: por uma escuta ao corpo e um olhar sensível às diferenças[4]

Doutorado

4

2015

FIAMONCINI, Luciana

Sensibilidade na formação do professor: experiências na Educação Física

Doutorado

5

2023

DOMINGOS JÚNIOR, Moaldecir Freire

Aikido como educação do corpo em espaços educacionais

Doutorado

8

2020

OLIVEIRA, Fabyana Soares de

Formação continuada em Educação Física: desafios e possibilidades com alunos que apresentam deficiência na escola regular

Mestrado

10

2019

ASSIS, Marília Del Ponte de

Corpo e práticas corporais na formação em Pedagogia: narrativas de docentes das universidades públicas paulistas[5]

Doutorado

75

2021

SILVA, Luiz Arthur Nunes da; NÓBREGA, Terezinha Petrucia da

Experiência educativa no Taekwondo: autoconfrontação como análise subjetiva do movimento

Qualis A1[6]

Fonte: Elaboração própria (2025).

 

            Como ilustrado no quadro 2, são 4 teses de doutorado, 1 dissertação de mestrado e 1 artigo publicado em periódico. Ainda na intenção de demonstrar os dados da pesquisa, elaboramos um mapa que ilustra a distribuição percentual dos trabalhos selecionados de acordo com a região brasileira de origem. A Figura 1 compreende essa divisão:

Figura 1 – Distribuição das produções por região brasileira

Fonte: Elaboração própria (2025).

 

Após a sistematização desses resultados da pesquisa, iniciamos o procedimento de categorização do corpus.

Para a formulação da Bibliografia Categorizada desse EC, realizamos uma análise mais rigorosa e aprofundada das produções selecionadas em comparação à análise feita nas etapas anteriores, partindo para a leitura dos documentos na íntegra e criando blocos de interesses temáticos. Esse aprofundamento no conteúdo nos permitiu chegar até as seguintes categorias: a) Fundamentos filosóficos e epistemológicos da Educação Sensível; b) Práticas corporais e experiências sensíveis na formação.

A próxima seção abordará a organização do corpus nas categorias citadas, promovendo, dessa maneira, a interlocução entre os autores dos trabalhos referenciados.

Bibliografia Categorizada

          Os trabalhos selecionados nas etapas anteriores passaram a compor blocos de interesse que identificam as ênfases dadas pelos autores em suas produções, propiciando, assim, uma disposição lógica da análise efetuada nesta etapa. Apesar de o termo Educação Sensível não ser especificamente adotado em algumas das produções listadas, compreendemos que todos os trabalhos apresentam eixos, princípios e categorias concernentes ao conhecimento dessa natureza – o que pode ser examinado nas palavras introdutórias do presente estudo. Destacamos que as categorias não são mutuamente excludentes, e isso se evidencia nas transversalidades temáticas que poderão ser observadas nas exposições seguintes, que pontuam a natureza interdisciplinar e complexa da Educação Sensível.

          A seguir, elaboramos um quadro que contém as categorias construídas com base no conteúdo analisado:

Quadro 3 – Bibliografia Categorizada

CATEGORIAS

TÍTULOS

AUTORES

Fundamentos filosóficos e epistemológicos da Educação Sensível

1. Sensibilidade na formação do professor: experiências na Educação Física;

2. Aikido como educação do corpo em espaços educacionais;

3. Experiência educativa no Taekwondo: autoconfrontação como análise subjetiva do movimento.

1. FIAMONCINI, Luciana;

2. DOMINGOS JÚNIOR, Moaldecir Freire;

3. SILVA, Luiz Arthur Nunes da; NÓBREGA, Terezinha Petrucia da.

Práticas corporais e experiências sensíveis na formação

1. O AEE e o trabalho articulado na educação infantil: por uma escuta ao corpo e um olhar sensível às diferenças;

2. Sensibilidade na formação do professor: experiências na Educação Física;

3. Aikido como educação do corpo em espaços educacionais;

4. Formação continuada em Educação Física: desafios e possibilidades com alunos que apresentam deficiência na escola regular;

5. Corpo e práticas corporais na formação em Pedagogia: narrativas de docentes das universidades públicas paulistas;

6. Experiência educativa no Taekwondo: autoconfrontação como análise subjetiva do movimento.

1. PEIXOTO, Sara Maria Pinheiro;

2. FIAMONCINI, Luciana;

3. DOMINGOS JÚNIOR, Moaldecir Freire;

4. OLIVEIRA, Fabyana Soares de;

5. ASSIS, Marília Del Ponte de;

6. SILVA, Luiz Arthur Nunes da; NÓBREGA, Terezinha Petrucia da.

Fonte: Elaboração própria (2025).

 

            Apresentamos, a partir dos tópicos expostos, a conceituação da divisão proposta para análise do corpus da pesquisa, juntamente com a síntese proveniente do parecer qualitativo dos trabalhos selecionados, esclarecendo as escolhas adotadas e o viés que assumimos na construção do EC aqui elaborado.

 

Fundamentos filosóficos e epistemológicos da Educação Sensível

          Atribuímos à categoria “fundamentos filosóficos e epistemológicos da Educação Sensível” as produções que se baseiam em princípios filosóficos e epistemológicos no tratamento da sensibilidade na prática formativa. Os autores dessas obras desenvolvem suas discussões considerando o arcabouço teórico já produzido sobre categorias como corporeidade, estética, experiência, fenômeno, subjetividade, expressividade, dentre diversos outros eixos que se relacionam com a percepção sobre a Educação Sensível aqui defendida. Além de se embasarem em concepções já fundamentadas pela ciência, os autores sugerem novas possibilidades inovadoras em seus caminhos metodológicos, contribuindo, desse modo, para o acúmulo do conhecimento.

          A tese de Fiamoncini (2015) reflete sobre as possibilidades do desenvolvimento da sensibilidade na formação do professor de Educação Física em uma pesquisa de campo que investigou e interviu nas disciplinas de estágio de um curso de graduação. Para essa reflexão, a autora procurou uma compreensão sobre o tema da sensibilidade, que foi além da busca por um conceito lógico, “[...] pois o conceito não consegue abarcar toda a riqueza do que pode ser entendido por sensibilidade” (Fiamoncini, 2015, p. 48). Portanto, é preciso considerar que a sensibilidade se articula como um conhecimento subjetivo, não material, do âmbito pessoal, que se constitui em uma dimensão orgânica do saber. Porém, percebemos que a busca desse conhecimento subjetivo entra em choque com o entendimento geral da ciência, tendo em vista a valorização da racionalidade técnica e instrumental do conhecimento, que desqualifica como não científico tudo o que não pode ser mensurado, quantificado e previsto em dados lógicos.

A autora se orienta pela perspectiva de Larrosa (2002) na compreensão de uma formação sensível que se dá no saber pela experiência, uma relação que envolve o conhecimento e a vida e que gera mudanças nos sujeitos por meio da experienciação refletida. Também defende a ideia de uma autoformação baseada no termo alemão Bildung, que considera a possibilidade de os sujeitos se educarem a partir do repertório de experiências pessoais que se manifestam em ambientes escolares e não-escolares; ou seja, uma formação cultural que se desenvolve no vivenciar a vida (Fiamoncini, 2015). Essas experiências se conectam com a perspectiva do se-movimentar (Kunz, 2000), que, ligado à subjetividade humana, declara organicamente uma relação de sensibilidade na comunicação de significados e na expressividade dos sujeitos.

          Ainda no tocante à compreensão da experiência como espaço de estímulo e formação da sensibilização, observamos o trabalho de Domingos Júnior (2023), em que a experiência pessoal do autor com a arte marcial japonesa Aikido, iniciada durante a graduação em Educação Física, levou-o a uma investigação que propõe compreender essa luta como uma forma de educação do corpo. Constituiu-se, dessa forma, como uma experiência sensível e subjetiva de formação a partir da vivência do corpo em movimento no mundo, com os outros e consigo mesmo. Tendo como horizonte os fundamentos filosóficos, epistemológicos, fenomenológicos e ontológicos de Merleau-Ponty e da própria história e filosofia do Aikido, a pesquisa centraliza seu conteúdo em uma narrativa em primeira pessoa, a perspectiva reflexiva do narrador, bem como nas experiências do ensino da luta, destacando contribuições à formação docente e à Educação Sensível.

          Enxergando a prática do Aikido como uma via de formação que integra o sensível, o ético e o pedagógico, Domingos Júnior (2023) encontra um lugar onde o corpo é compreendido não como instrumento, mas como sujeito de significação e centro da experiência educativa, que, por meio da ação educacional, seja em ambientes formais ou não formais, alcança uma autonomia constituída pelo saber sensível acumulado pela experiência fenomenológica.

          O artigo de Silva e Nóbrega (2021) muito se assemelha à pesquisa de Domingos Júnior (2023), por adotar a atitude fenomenológica de Merleau-Ponty como metodologia, com foco na experiência vivida no e pelo corpo na prática da luta, nesse caso, o Taekwondo. Consideram, para isso, os conhecimentos sóciofilosóficos prévios dos próprios autores como professores de Educação Física e pesquisadores do corpo e movimento humano, assim como os saberes de mestres da referida luta.

A pesquisa se pauta no método documental do cinema-verdade, elaborado por Edgar Morin e Jean Rouch, que consiste na prática de filmagens que capturam as representações do real (Morin; Rouch, 2003). Os autores justificam a escolha desse método: “Assumimos o filme como processo de pesquisa, como educação sensível e estética, que revela a atuação dos personagens pela própria experiência vivida” (Silva; Nóbrega, 2021, p. 6).

Nesse processo, fica constatado que o gesto corporal no Taekwondo ultrapassa a técnica marcial, revelando uma educação que se dá no movimento, na escuta do corpo e na relação intersubjetiva com o outro e consigo. O trabalho amplia o campo da formação humana ao demonstrar que a sensibilidade não é uma dimensão acessória da educação, mas sua própria essência quando se parte do corpo vivido.

Os trabalhos vinculados a essa categoria nos proporcionam uma riqueza de contribuições para o entendimento de uma Educação Sensível, valendo-se de dimensões filosóficas e epistemológicas no desenvolver de suas investigações que embasam as intervenções realizadas com uma alta valorização dos sujeitos na percepção dos corpos, do movimento e das suas subjetividades.

 

Práticas corporais e experiências sensíveis na formação

          A categoria “práticas corporais e experiências sensíveis na formação” agrupa o conhecimento concernente à promoção de experiências pedagógicas por meio de práticas corporais exploradas nos trabalhos investigados, alinhando essas ações com os princípios de uma Educação Sensível nos ambientes de formação. As produções como um todo se ocupam em exercitar conceitos e fazeres na esfera dos currículos formativos, tanto na formação inicial quanto continuada, e, ainda, na educação básica, que não está incluída no recorte desse EC. Porém, consideramos a relevância de compreendermos uma formação humana na realidade escolar conduzida pelo viés da Educação Sensível.

Peixoto (2023) orienta sua discussão com foco na realidade do Atendimento Educacional Especializado (AEE)[7], serviço que deveria promover suporte para estudantes com deficiência com intenção de incluí-los na realidade escolar, mas que comumente é executado de maneira segregacionista e excludente. Portanto, Peixoto (2023) intervém na realidade escolar com a proposta de uma formação colaborativa, que articula as ações dos professores do AEE com as ações dos professores das salas comuns, para que se cumpra a tarefa educacional de participação de todos em prol do conhecimento.

Para essa tarefa, a pesquisadora (que não possuía formação na área da Educação Física) buscou fazer, concomitantemente à pesquisa, um curso de especialização lato sensu intitulado “Consciência Corporal, Saúde e Qualidade de Vida”, ofertado pelo Departamento de Educação Física da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (DEF/UFRN). Essa especialização foi de suma importância, considerando o fato de que o curso em questão enriqueceu não apenas a pesquisa de doutorado em andamento, mas sua dimensão pessoal e profissional, como relata Peixoto (2023) em sua tese.

Apesar de se tratar de uma pesquisa que discute, em grande parte, sobre a educação básica, a autora promove alguns apontamentos que atravessam a discussão acerca do papel do professor de Educação Física e do campo de atuação referente a esse docente. A partir de uma visão de corpo e da experiência corporal pela ótica de Merleau-Ponty, o trabalho questiona o lugar do corpo na escola, tendo como parâmetro as constatações empíricas da pesquisadora, considerando sua formação inicial em Pedagogia e a vasta experiência profissional como professora, coordenadora e gestora pedagógica em uma Secretaria Municipal de Educação, com uma demanda diversificada de atuação, transitando por diferentes níveis e modalidades de ensino.

Esse acúmulo de experiências a levou a questionar o conhecimento corporal na educação escolar, ainda atribuído apenas aos professores da Educação Física: considerando que a Educação Física é componente curricular obrigatório na educação básica, porém se aplica apenas a partir dos anos iniciais do ensino fundamental, como os professores pedagogos podem contribuir para a escuta sensível ao corpo e valorizar as subjetividades do movimento na educação infantil? A partir dessa questão, Peixoto (2023) organiza sua intervenção em oficinas lúdicas, interativas e inclusivas, elaboradas a partir da análise de narrativas dos sujeitos participantes da pesquisa, coletadas anteriormente a essa etapa formativa.

          A dissertação elaborada por Oliveira (2020) descreve uma intervenção no âmbito da formação continuada, em que se realizou uma pesquisa-ação colaborativa com 34 professores de Educação Física e um coordenador de Educação Física da Secretaria Municipal de Educação Básica (SMEB) do município de Ceará-Mirim (RN), com foco na tematização da Educação Física Escolar na Perspectiva Inclusiva. A proposta foi sistematizada em encontros formativos que trataram de elementos voltados à realidade da Educação Física escolar, como jogos, brincadeiras, esportes etc., partindo da perspectiva inclusiva e incluindo desafios da vida cotidiana dos próprios professores e instrumentos de avaliação.

          O estudo constatou que muitos professores possuíam uma visão reducionista em relação aos alunos com deficiência, centralizando as dificuldades e limitações do trabalho com esse público antes de compreenderem as subjetividades desses sujeitos. Para lidar com essa realidade, a pesquisadora agiu, a partir do diálogo e da troca de experiências, para a desconstrução dessa visão, impulsionando, assim, um percurso formativo em favor de uma Educação Inclusiva.

          Ainda no bojo da categoria de práticas corporais e experiências sensíveis, incluímos os estudos de Domingos Júnior (2023), que traz à tona suas experiências do mundo vivido (Merleau-Ponty, 1999) como praticante de Aikido – relação estabelecida enquanto ele se encontrava na formação inicial – e professor de Educação Física, exercitando, dessa forma, uma práxis direcionada por essa vivência pessoal com a luta. Também integram a categoria em tela Silva e Nóbrega (2021), que produzem um filme-pesquisa com a finalidade de identificar significações do movimento situado na realidade do mundo e promover uma formação perpassada pela autoconfrontação sugerida pelas filmagens, que revelam as representações do real.

          Conforme explicitado, essa categoria assume a temática da prática pedagógica, apontando trabalhos que se comprometem com uma práxis educacional compromissada com os princípios de uma formação que viabiliza a sensibilidade como força transformadora da realidade dos sujeitos.

 

Bibliografia Propositiva

Esta seção se ocupa em apresentar o EC de uma perspectiva mais reflexiva do que analítica. Porém, as reflexões aqui presentes só se tornaram reais pelo esforço contínuo de análise e interpretação do corpus selecionado, o que oportuniza a essa última etapa um caráter dialógico com os dados suscitados na pesquisa. Segundo Kohls-Santos e Morosini (2021), na atual etapa de Bibliografia Propositiva, é interessante que se registre as proposições dos autores analisados (Proposições do Estudo), juntamente com as proposições do próprio pesquisador (Proposições Emergentes) a partir do que fora analisado.

A análise dos seis trabalhos que compõem o corpus desta pesquisa permitiu identificar proposições relevantes que surgem das experiências vividas, das metodologias adotadas e das teorizações em torno da Educação Sensível. A seguir, sistematizamos tais proposições, seguidas de sugestões derivadas das lacunas e desafios observados.

 

Proposições dos estudos analisados

          O estudo de Peixoto (2023) descreve os desafios encontrados para a conscientização sobre o trabalho articulado entre os professores do AEE e os demais professores das salas comuns como a dominação de um pensamento cartesiano que divide o corpo, objeto biológico a ser disciplinado, e a mente, concentração do intelecto racional; e, ainda, do pensamento capacitista que determina os indivíduos pelas suas deficiências. A autora propôs o desenvolvimento de uma escuta ao corpo e olhar sensível às diferenças na formação colaborativa por ela ministrada, intencionando a valorização do corpo como protagonista nos processos de aprendizagem, trazendo, com isso, uma proposta de Educação Inclusiva Sensível.

Fiamoncini (2015) traz em seu trabalho o apontamento de que a sensibilidade é identificada no currículo apenas em momentos específicos da formação, como as disciplinas que tematizam as danças e aquelas que abordam bases teórico-metodológicas do ensino para alunos com deficiência. A autora ainda assevera que o contato com uma educação pelo sensível deve estar para além das disciplinas do currículo, podendo ter uma grande contribuição nos projetos de iniciação científica, extensão, nos estágios não curriculares e em outros setores que movimentam o fazer científico e a prática profissional.

A tese de Domingos Júnior (2023, p. 137) apresenta sua proposta de uma educação do corpo baseada tanto na história e filosofia do Aikido quanto na fenomenologia de Merleau-Ponty, em que “o compreender, o sentir, o movimentar e o treinar são os princípios fundamentais para mobilizar a educação e a educação física”.

Oliveira (2020) considera necessária a valorização e o reconhecimento do professor, que precisa ser assistido de diversas formas e por/com diversas estratégias que amplifiquem a sua formação e, consequentemente, a sua atuação no campo escolar.

A pesquisa realizada por Assis (2019) apontou, mesmo com certa timidez, a presença de algumas disciplinas que trabalham com a temática do corpo e das práticas corporais ministradas por professores com a formação inicial em Educação Física nos cursos de Pedagogia da cidade de São Paulo (SP). Comparado à constatação de Soares (1999) sobre a não-presença de disciplinas que valorizem o fazer sensível por meio de vivências corporais na formação pedagógica, notamos que o cenário se modificou e avançou nessa discussão em um intervalo de 20 anos. Com os resultados da pesquisa, Assis (2019) propõe que se façam novos estudos que possam contemplar temas que aparecem na pesquisa, mas que, por conta do recorte adotado, não puderam ser explorados, como as implicações de gênero na docência e a atuação de professores, profissionais e especialistas nos campos de trabalho destinados à Educação Física.

Silva e Nóbrega (2021, p. 1) propõem a autoconfrontação “[...] como educação sensível que transita entre mestre e discípulo por meio do gesto, da técnica e da relação do corpo com o outro, com o mundo e com o próprio ser”, tornando, desse modo, a aprendizagem mais aberta à percepção da experiência vivida pela sensibilidade.

 

Proposições emergentes

O exame minucioso das produções selecionadas revelou um conjunto significativo de proposições que evidenciam a emergência de um movimento a favor da consolidação da Educação Sensível como campo epistêmico-pedagógico na formação de professores de Educação Física.

González (2020) afirma que:

 

A magnitude do compromisso que um pesquisador qualitativo assume com seu assunto de estudo é uma condição essencial para oferecer garantias quanto à robustez das informações que ele coleta; isso requer não apenas habilidade e prontidão, mas, fundamentalmente, sensibilidade [...] (p. 163, grifo nosso).

 

Compreendendo que o pesquisador assume compromissos no exercício de sua função social, responsabilizando-se em aprender, interpretar, desconstruir/reconstruir, criticar e explicar, assumimos essa atitude de propor novos olhares acerca do que tematizamos neste estudo.

A intencionalidade do EC aqui construído emerge da necessidade de se explorar acerca do objeto de estudo, isto é, a Educação Sensível, por a compreendermos como uma perspectiva pedagógica contra-hegemônica que assume a formação humana como caminho sensível para emancipação social. Adorno (2020) entende a emancipação como uma demanda social dos sujeitos de combate às estruturas que, em seu tempo histórico, perpetuam a dominação e a barbárie. Enfretamento esse que não pode ser concretizado desarticuladamente da formação, meio pelo qual os sujeitos chegarão à conscientização. Portanto, faz-se indispensável o apelo à uma formação que valorize a sensibilidade como eixo estruturante de seus processos de ensino e aprendizagem, acolhendo a sensibilização gerada a partir das experiências do mundo e possibilitando a aprendizagem pelo sentir/experimentar.

Nesse sentido, propomos uma perspectiva de formação humana que dá centralidade à percepção corporal nos processos de ensino e aprendizagem, entendendo que as experiências sensíveis levam à construção de um corpo de conhecimentos subjetivos legitimos ao processo de apreensão do mundo cultural pelos sujeitos. Destacando o âmbito da formação de professores de Educação Física no presente estudo, porém, reconhecemos a Educação Sensível como uma abordagem ampla, no sentido de possuir densidade filosófico-epistemológica suficiente para subsidiar práticas pedagógicas sensíveis direcionadas às diversas áreas do conhecimento. Comprovamos esse pensamento por entrarmos em contato, no percurso de construção do atual EC, com estudos em Educação Sensível provenientes de outros campos de saberes para além da grande área das Ciências Humanas e da Educação.

Asseveramos que essa investigação se manifesta de forma pioneira no cenário atual das pesquisas educacionais, visto que é possível identificar uma lacuna abissal nos estudos da Educação Sensível no campo da formação de professores, de um modo geral, e especificamente na área da Educação Física.

Identificamos que os trabalhos que compõem o corpus de análise desse EC se relacionam com uma variedade de ambientes e setores educacionais. Por exemplo, o estágio supervisionado, que é o ambiente de intervenção de Fiamoncini (2015), assim como a educação básica, que é alcançada em suas diversas etapas nos estudos de Peixoto (2023), Domingos Júnior (2023) e Oliveira (2020), e, ainda, os ambientes educacionais não-formais citados no artigo de Silva e Nóbrega (2021).

Também destacamos algumas tematizações que consideramos pertinentes às discussões sobre a Educação, como os trabalhos de Peixoto (2023) e Oliveira (2020), que voltam seus estudos para o âmbito da Educação Especial e Inclusiva. Ainda, ambas as produções tematizam a formação continuada, na qual Peixoto (2023) descreve o impacto que um curso de especialização causa em sua realidade pessoal, constituindo-se como fonte de conhecimento para a elaboração de sua intervenção. Por sua vez, Oliveira (2020) destaca que na formação continuada existe a oportunidade para a ampliação do conhecimento dos professores, possibilitando a complementação de saberes orientados à prática pedagógica e conectando os profissionais com a realidade em que se intervém.

Esses resultados impactam diretamente a relevância e contemporaneidade da discussão sobre a Educação Sensível no campo da formação docente em Educação Física, visto que, apesar de ainda escassas as produções sobre a temática, evidenciam proposições inovadoras que ultrapassam a lógica da racionalidade moderna na produção do conhecimento, apresentando perspectivas contra-hegemônicas como alternativa viável às problemáticas educacionais presentes na atualidade.

Chamamos a atenção para a distribuição geográfica desses estudos: como apontado na Figura 1 deste escrito, no total de resultados selecionados para o escopo da pesquisa, as regiões norte e centro-oeste do Brasil assinalam o total de 0,0% de produções socializadas, podendo haver alterações, visto que o ano de 2025, que faz parte do recorte histórico da pesquisa, ainda se encontra em curso. Isso nos faz questionar o motivo para tão baixa adesão às investigações acerca do objeto, visto que ambas as regiões mencionadas apresentam uma amplitude de elementos socioculturais que poderiam ser compreendidos como aporte para a tematização da Educação Sensível, bem como a existência de Programas de Pós-Graduação consolidados e reconhecidos cientificamente, os quais possuem capacidade de contribuir para a produção do conhecimento desse campo.

No conjunto da análise, constatamos que nenhum dos trabalhos aborda os Programas Institucionais de Bolsas de Iniciação Científica e à Docência (PIBIC/PIBID) como meios de intervenção. Isso nos faz questionar o motivo para tal lacuna, visto que o PIBIC e o PIBID cada vez mais ganham território na realidade das universidades públicas, colaborando para o aperfeiçoamento da formação docente com o favorecimento de experiências da cultura científica e da realidade profissional para além da grade curricular e com os auxílios financeiros fomentados com as bolsas aos estudantes (Melo; Lyra, 2020). Considerando esse território de experiências, vislumbramos as possibilidades de a Educação Sensível ser inserida e abordada pelos bolsistas em seus fazeres científicos e pedagógicos, contribuindo para a superação das lacunas já identificadas neste estudo sobre a tematização dos saberes corporais sensíveis na formação em Educação Física e nas artes marciais.

Desse modo, é urgente a tarefa de propor novos estudos que evidenciem uma perspectiva sensível para a Educação e a Educação Física, legitimando esse território de saberes como alternativa possível para a emancipação humana.

 

Considerações finais

O presente Estado do Conhecimento teve como objetivo mapear e sistematizar as produções acadêmicas que abordam a Educação Sensível na formação de professores de Educação Física, identificando contribuições, tendências e lacunas presentes no campo. Ao longo da investigação, foi possível constatar que a temática da Educação Sensível vem ganhando espaço na área da Educação Física, sobretudo nos últimos anos, sendo abordada por diferentes vieses teórico-metodológicos, com destaque para a fenomenologia de Merleau-Ponty e os estudos do corpo e das práticas corporais.

As produções analisadas revelaram que a Educação Sensível é compreendida como uma abordagem que valoriza os saberes corporais, a experiência vivida e as subjetividades dos sujeitos em processo formativo. As pesquisas incluídas no corpus do estudo demonstram que há um movimento crescente em direção a práticas pedagógicas que reconhecem o corpo como centro da experiência educativa, propondo a sensibilidade como fundamento epistêmico e ético para a formação docente.

A análise das produções selecionadas permitiu agrupar os estudos em duas grandes categorias: os Fundamentos filosóficos e epistemológicos da Educação Sensível e as Práticas corporais e experiências sensíveis na formação. Essa organização evidenciou que, mesmo reconhecida por seu potencial transformador, a Educação Sensível ainda permanece à margem dos currículos formais, sendo frequentemente tratada de modo fragmentado ou restrita a algumas disciplinas específicas.

O EC identificou que, apesar da centralidade do corpo na Educação Física, o reconhecimento da sensibilidade como componente formativo ainda encontra barreiras teóricas e institucionais, muitas vezes sendo desqualificado por uma lógica técnico-instrumental dominante. Assim, um dos desafios que emergem desta pesquisa é consolidar a Educação Sensível como eixo estruturante dos processos formativos, e não como um complemento periférico.

Como proposição, o estudo indica a urgência de ampliar as investigações que se debrucem sobre as experiências sensíveis no contexto da formação inicial e continuada de professores de Educação Física. Apesar do avanço encontrado quanto à tematização da Educação Sensível no meio científico, ainda se faz de modo lento e casual, destacando-se a baixa demanda de produções provenientes das regiões Norte e Centro-Oeste do Brasil.

A não predominância de estudos que explorem o sensível na intervenção pedagógica das lutas e artes marciais também é um fator que nos propõe um movimento para a superação dessa lacuna. Além disso, sugerimos o aprofundamento das discussões sobre o PIBIC e o PIBID como potenciais espaços de experimentação de práticas formativas sensíveis, campo ainda inexplorado pelas pesquisas analisadas.

Por fim, a pesquisa realizada contribui para consolidar a Educação Sensível como campo de investigação e prática pedagógica no interior da formação de professores de Educação Física, abrindo caminhos para que novas pesquisas se aprofundem nas interfaces entre corpo, experiência, sensibilidade e formação humana. A aposta na sensibilidade como força epistêmica e pedagógica aponta para uma educação comprometida com a escuta, a presença e a transformação dos sujeitos e de suas realidades.

 

Referências

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Notas



[1] Primeiramente, contextualizamos nossa compreensão de hegemonia em Gramsci (1982), que a conceitua como sendo a correlação de forças político-ideológico-culturais de uma classe social sobre uma sociedade inteira em um determinado bloco histórico, que se vale de mecanismos de domínio sobre os demais grupos sociais para garantir um território de disciplina e consenso, que seriam a base das relações de poder (Schlesener, 2019). A partir disso, entendemos que a Educação Sensível seria uma atitude contra-hegemônica para a superação de hierarquias de nosso bloco histórico, a exemplo do neoliberalismo, pois ela induz à construção de uma consciência crítica (Gramsci, 1978) a partir da valorização da sensibilidade nas relações educacionais que, potencialmente, progride para a transformação revolucionária do real.

[2] Palavras-chave e descritores são itens recorrentes no universo científico, que, por sua natureza informativa, facilitam a divulgação de materiais, porém são caracterizados de maneiras diferentes. Segundo Brandau, Monteiro e Braile (2005), as palavras-chave são termos livres e aleatórios, sendo estabelecidos de acordo com a percepção do autor sobre os principais temas discutidos na obra em questão. Já os descritores são termos padronizados regidos por especialistas em uma hierarquia pré-estabelecida, passando por um rígido controle de sinônimos.

[3] Quanto à numeração aplicada nos trabalhos, seguimos uma ordem crescente contínua para todo o corpus de análise. Como fizemos a exploração em três bancos de dados, iniciamos a contagem com os resultados encontrados na BDTD/IBICT (74), prosseguindo com a inclusão dos resultados encontrados na SciELO (1) e Educ@ (2).

[4] Apesar de não ser uma pesquisa que investiga o campo da formação de professores de Educação Física, a tese faz uma contundente retratação sobre uma experiência de formação continuada na área vivenciada pela pesquisadora, a qual garantiu o aprofundamento conceitual necessário à realização da pesquisa. Por esse motivo, mantivemos o estudo no escopo do EC.

[5] Ainda que essa não seja a área do conhecimento elencada, a pesquisa se volta para a investigação de como as disciplinas relacionadas ao corpo e às práticas corporais nos cursos de Pedagogia da cidade de São Paulo vêm sendo trabalhadas por docentes cuja formação inicial é em Educação Física. Portanto, o estudo se insere nesse escopo, pois investiga a situação de temáticas do corpo e das práticas corporais na formação de professores, tendo como fontes narrativas docentes com formação na área em questão, e ainda por ser uma pesquisa que assume, em seu quadro teórico, autores que sedimentam o conhecimento científico da Educação Física brasileira, como Carmen Lúcia Soares, Elenor Kunz, Marcos Garcia Neira, David Le Breton e Johan Huizinga.

[6] Artigo publicado na Revista Educação e Pesquisa. O periódico pertence à Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FEUSP) e foi avaliado como A1 no quadriênio de 2017-2020 da Qualis Capes.

[7] O AEE é um serviço que orienta um conjunto de ações/intervenções voltadas para o público da Educação Especial, com o objetivo de promover a inclusão no sistema educacional brasileiro (Peixoto, 2023).