Vamos todos(as) brincar! A importância de experiências lúdicas proporcionadas por práticas formativas em Brinquedotecas Universitárias
Let's all play! The importance of playful experiences provided by educational practices in university toy libraries
¡Juguemos todos! La importancia de las experiencias lúdicas que ofrecen las práticas educativas en las ludotecas universitarias.
Prefeitura de Jaboatão dos Guararapes, Jaboatão dos Guararapes – PE, Brasil.
Maria
de Fátima Gomes da Silva
Universidade de Pernambuco, Recife – PE, Brasil.
Recebido em 07 de agosto de 2025
Aprovado em 05 de novembro de 2025
Publicado em 20 de março de 2026
RESUMO
Este artigo apresenta resultados de uma pesquisa científica que teve por objetivo conhecer experiências lúdicas proporcionadas por práticas formativas, no âmbito da Brinquedoteca Universitária da Universidade de Pernambuco – Campus Mata Norte e de outras brinquedotecas universitárias. Sobre os procedimentos metodológicos, fez-se opção pela abordagem qualitativa de pesquisa. Para a coleta de dados recorreu-se à entrevista semiestruturada online, de modo individual, via Plataforma Google Meet, com nove coordenadores(as) de diferentes Brinquedotecas Universitárias brasileiras. Os dados foram analisados, por meio da técnica de Análise de Conteúdo temático categorial. Os resultados da pesquisa possibilitaram a conclusão de que as experiências lúdicas proporcionadas e as práticas formativas desenvolvidas, no contexto das brinquedotecas investigadas, estão direcionadas para públicos de diferentes faixas etárias, com foco na socialização dos indivíduos e na formação. Concluiu-se que essas experiências têm contribuído significativamente para a interação entre crianças e adultos e para a formação inicial e continuada de professores(as).
Palavras-chave: Brinquedoteca universitária; Experiências lúdicas; Vivências formativas.
ABSTRACT
This article presents the results of a scientific study aimed at understanding playful experiences provided by training practices within the University Toy Library of the University of Pernambuco – Mata Norte Campus and other university toy libraries. Regarding the methodological procedures, a qualitative research approach was chosen. Data collection involved individual, online semi-structured interviews via Google Meet with nine coordinators from different Brazilian university toy libraries. The data were analyzed using the categorical thematic content analysis technique. The research results led to the conclusion that the playful experiences provided and the training practices developed in the toy libraries studied are targeted at audiences of different age groups, focusing on individual socialization and development. The conclusion is that these experiences have contributed significantly to interaction between children and adults and to the initial and continuing education of teachers.
Keywords: Universitytoy library; Playful experiences; Formative experiences.
RESUMEN
Este artículo presenta los resultados de un estudio científico que buscó comprender las experiencias lúdicas proporcionadas por las prácticas de formación en la Ludoteca Universitaria de la Universidad de Pernambuco – Campus Mata Norte y otras ludotecas universitarias. En cuanto a los procedimientos metodológicos, se optó por un enfoque de investigación cualitativo. La recolección de datos incluyó entrevistas individuales semiestructuradas en línea a través de Google Meet con nueve coordinadores de diferentes ludotecas universitarias brasileñas. Los datos se analizaron mediante la técnica de análisis de contenido temático categórico. Los resultados de la investigación llevaron a la conclusión de que las experiencias lúdicas proporcionadas y las prácticas de formación desarrolladas en las ludotecas estudiadas están dirigidas a públicos de diferentes grupos de edad, con foco en la socialización y el desarrollo individual. Se concluye que estas experiencias han contribuido significativamente a la interacción entre niños y adultos y a la formación inicial y continua del profesorado.
Palabras clave: Ludoteca universitária; Experiencias lúdicas; Experiencias formativas.
Introdução
Tratar sobre experiências lúdicas formativas, no contexto de Brinquedotecas Universitárias, é de grande relevância. Isso porque essas vivências propiciam ricas contribuições formativas para professores(as) em formação inicial e continuada, no sentido de romper com barreiras pedagógicas tradicionais, além de proporcionar uma participação mais significativa nos processos de aprendizagem. Além disso, através das experiências lúdicas, os sujeitos que visitam esses espaços tornam-se agentes constituintes do seu próprio conhecimento através da prática brincante. Nesse entendimento, as vivências lúdicas formativas desenvolvidas no contexto de brinquedotecas devem ser oportunizadas para que haja a possibilidade de os(as) professores(as) formarem e se formarem por meio da auto-reflexão subjetiva que se efetiva através dessas práticas.
Esse aspecto é evidenciado por Rau (2013, p. 185) ao descrever que, no contexto da brinquedoteca, “quando brinca, a criança, o jovem e o adulto têm a possibilidade de adaptar o mundo às suas experiências, criando novas vivências de aprendizagem.”. Ou seja, esse território possibilita, através das experiências produzidas, uma criação e recriação de novas vivências que se configuram numa aprendizagem mais significativa. Isso reverbera o aspecto formativo propiciado por tais experiências.
Para além disso, por intermédio da interação que acontece nessas experiências lúdicas formativas, os sujeitos socializam práticas que corroboram para o desenvolvimento de habilidades subjetivas, as quais são validadas durante as brincadeiras e socializações que ocorrem nesse contexto brincante. Silva et al. (2017, p. 344) relatam que,
ao se divertir, ao brincar, a criança pequena aprende a viver e a desenvolver opiniões, progredindo, assim, em suas fases, as quais são imprescindíveis para o seu crescimento. Em suas brincadeiras, a criança promove experiências que serão indispensáveis na sua rotina diária, pois provoca, exercita, desenvolve o funcionamento do pensamento e das potencialidades da mesma.
Nesse processo, há uma transferência e reconfiguração dos sentidos e significados subjetivos atribuídos nessa socialização do saber. Isso se dá justamente pela compreensão do espaço da Brinquedoteca Universitária como um ambiente que permite acontecer a interação de múltiplas linguagens que são proporcionadas através das ações lúdicas.
A Brinquedoteca Universitária concebida como um laboratório das licenciaturas, evidencia seu aspecto formativo, por intermédio do fomento dessas experiências lúdicas e se configura “como oportunidade de formação teórico-prática ofertada aos discentes promovendo a observação, documentação e vivências com a criança em seu momento íntimo com a brincadeira e com os brinquedos ali dispostos.” (Pereira; Lima; Dutra, 2021, p. 198). Nesse contexto, esse espaço torna-se imprescindível para o alinhamento entre ensino, pesquisa e extensão, através das experiências com os indivíduos que participam desse processo lúdico e contribuem para a construção de saberes.
Ademais, é de grande relevância fomentar o debate na comunidade acadêmica e em diferentes comunidades sobre a importância do lúdico promovido, no contexto de brinquedotecas universitárias, compreendendo que esse espaço formativo tem como função precípua o desenvolvimento do brincar, da ludicidade e da sensibilização dos(as) professores(as) para que estes possam vivenciá-los em seus cotidianos escolares. Schlindwein e Laterman (2016, p. 116), reiteram que “quando pensamos em promover vivências (ou experiências) que possam desenvolver o senso estético de professores e alunos, estamos considerando a hipótese de uma espécie de recuperação das vias do sensível”. Esses autores evidenciam a necessidade de recuperação da sensibilidade dos(as) professores(as) de maneira que, sem isto, a vivência do lúdico em suas práticas poderá não ocorrer, já que não fará sentido para os(as) mesmos(as).
Em síntese, neste artigo, buscamos refletir acerca das contribuições de experiências lúdicas promovidas por práticas formativas que têm se desenvolvido no contexto das diversas Brinquedotecas Universitárias do Brasil e evidenciamos as contribuições dessas experiências lúdicas, no que diz respeito ao aspecto formativo, quer seja de âmbito pessoal, quer seja na esfera profissional dos(as) frequentadores(as) desses territórios brincantes.
Procedimentos Metodológicos
Esta pesquisa foi orientada pela abordagem qualitativa. Consideramos, tal como Bogdan e Bilklen (2010), que ela permite uma melhor compreensão da problemática a ser investigada. Esse tipo de abordagem possibilita um entendimento sobre a realidade das pessoas e dos fatos em sua essência. Oliveira (2012, p. 37) entende a “pesquisa qualitativa como sendo um processo de reflexão e análise da realidade [...] em seu contexto histórico e/ou segundo sua estruturação”. Em outras palavras, esse tipo de pesquisa conduz o(a) pesquisador(a) ao cerne do objeto de estudo.
A coleta de dados se deu através de entrevista semiestruturada online, por meio do Google Meet. Entrevistamos nove coordenadores(as) de diferentes Brinquedotecas Universitárias brasileiras em atuação durante os anos de 2021 e 2022. O locus principal foi a Brinquedoteca Universitária da Universidade de Pernambuco – Campus Mata Norte. Contudo, devido a extensão do estudo, foram envolvidas, de modo remoto, outras brinquedotecas universitárias públicas de outros estados do Brasil. A análise dos dados foi realizada por meio da técnica de Análise de Conteúdo temático-categorial (Bardin, 2014), a qual passou pelas seguintes fases: organização do material; codificação; categorização; o tratamento dos resultados obtidos e a interpretação.
Os cuidados éticos da pesquisa foram seguidos em conformidade com as normas éticas para pesquisa em seres humanos, tendo sido a pesquisa aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade de Pernambuco (UPE), sob o número do CAAE 59373522.1.0000.5207, e seu parecer 5.622.153. A identificação dos(as) participantes da pesquisa foi autorizada pelas mesmas, a fim de se promover a publicização das ações brincantes de suas Brinquedotecas à todos(as) interessados(as) no tema.
Contribuição de experiências lúdicas promovidas por práticas formativas em brinquedotecas universitárias
Reconhecida como um laboratório para as licenciaturas, sobretudo, para o Curso de Pedagogia, a Brinquedoteca Universitária é compreendida em um processo científico, educativo e cultural que sustenta o tripé ensino, pesquisa e extensão numa perspectiva em que viabiliza uma relação transformadora entre a universidade e a sociedade. Isso se dá no sentido de que professores(as) em formação inicial e continuada têm a oportunidade de experienciar ações lúdicas através das vivências formativas estabelecidas em seu território, por meio da interação com outros sujeitos, que resulta numa mudança de sua práxis pedagógica.
Sobre as possibilidades formativas através das experiências lúdicas propiciadas pela brinquedoteca, Pereira, Lima e Dutra (2021, p. 199-200) descrevem que,
entendemos e pontuamos a importância da brinquedoteca universitária como um espaço de suporte para a formação docente que rompe com as barreiras do tradicionalismo e eleva a construção de um educador que constrói experiências lúdicas, que participa da constituição do seu próprio conhecimento e desenvolve práticas pedagógicas que favoreçam práticas significativas.
É justamente acerca das ações e do desenvolvimento de práticas pedagógicas significativas que se sustenta a importância desse território brincante, através de ações formativas lúdicas, no sentido de oportunizar aos(às) professores(as) a possibilidade de formação e autoformação, por meio da autorreflexão e das aprendizagens advindas de suas próprias experiências.
Fortuna (2019), ao tratar das experiências lúdicas que são vivenciadas no contexto de uma Brinquedoteca Universitária, descreve que os(as) professores(as), ao experienciarem essas ações, buscam subjetivamente a integração da experiência, pelo sensível e pelo vivido, num caminho para abrir portas para a brincadeira e se permitirem vivenciá-las em seus universos. A autora supracitada afirma que as experiências lúdicas vivenciadas nesse espaço
abrem uma porta para o mundo psíquico de cada um, proporcionando uma experiência de integração por meio da qual é possível sentir-se único e o mesmo ao longo da vida, entrando em contato com o que há de mais profundo e verdadeiro dentro de si. (Fortuna, 2019, p.15)
Fortuna (2019) evidencia a relação e o contato estabelecido pela integração entre os indivíduos numa perspectiva formativa das ações. Isso se concretiza pela cooperação, socialização e interação com o outro e com o ambiente da brinquedoteca, num panorama de(trans)formação dos indivíduos em suas ações lúdicas.
Com relação às práticas formativas estabelecidas no universo da brinquedoteca, Kraemer (2021, p. 103 e 104) afirma que os indivíduos,
[...] constituem processos de interação com o mundo e experimentam distintas possibilidades criativas. Trata-se de uma prática social, pois, além de incentivar a comunicação, cria experiências de convívio com crianças e adultos e correlações culturais. Por meio da brincadeira, as ações de cooperação, de partilha de funções, de trabalho em equipe, de organização espacial, temporal e coletiva passam a ser exploradas e dinamizadas. Assim, tal processo constitui-se importante elemento no processo formativo da criança, pela experiência com o lúdico e pelas possibilidades de descobertas próprias.
Cabe ressaltar que esse processo de interação, por meio das práticas lúdicas, é capaz de desenvolver, nos sujeitos que estão interagindo, experiências de convívio que propiciam a garantia das marcas subjetivas de cada indivíduo e que são validadas no ato de brincar e nas vivências nesse contexto. Essa ação lúdica, portanto, é caracterizada pela história individual de cada indivíduo e pelos sentidos que são trazidos por essas subjetividades, ao mesmo tempo em que concebe uma reconfiguração de significados que se estabelece por meio das trocas de saberes já experienciados. Isso se dá justamente porque,
A brinquedoteca é um espaço que permite o acontecer de múltiplas linguagens e experiências, fomentadas pelo lúdico, para a socialização e para a troca de saberes, fantasias e medos, pois possibilita o desenvolvimento intelectual, psicológico, social, afetivo e físico da criança. Tal espaço permeia a construção do conhecimento por meio do brincar. (Melo; Vargas, 2022, p. 36).
A partir do entendimento da Brinquedoteca Universitária como um território essencialmente lúdico, Melo e Vargas (2022) corroboram com essas ideias, ao afirmarem que as brinquedotecas universitárias possibilitam a socialização de linguagens e experiências que se dão, através das vivências fomentadas por ações lúdicas. Para além dessa socialização, as autoras ressaltam também a questão da construção de conhecimento e da transferência de saberes entre os sujeitos que participam desse ambiente. Assim, ressaltamos a contribuição das experiências lúdicas propiciadas pelo viés da ludicidade na brinquedoteca, no que se refere a alguns aspectos, tais como a socialização e o desenvolvimento intelectual.
Outro ponto a considerar, no que diz respeito à brinquedoteca enquanto espaço promotor de experiências lúdicas formativas, é apontado por Conti, Rosa e Onzi (2020, p. 141) que afirmam,
a brinquedoteca passa, assim, a fazer parte dos programas de formação de professores, e é nesse espaço que o futuro pedagogo tem a oportunidade de vivenciar experiências lúdicas, trabalhar vivências corporais, desenvolver imaginação, criatividade, entre outras experiências que ampliarão seu olhar, trazendo mais significado à sua prática, consequentemente, favorecendo sua formação.
As autoras supracitadas trazem contribuições quanto à relevância desse território brincante como parte dos programas de formação de professores(as), sejam elas iniciais ou continuadas, visto que, através das experiências práticas neste ambiente, principalmente, as que são propiciadas através da ludicidade, torna-se possível desenvolver nesses indivíduos atitudes de criação, imaginação, resolução de conflitos, dentre outras situações que são de extrema valia para a práxis pedagógica de quem atua com crianças e adolescentes.
Esse aspecto formativo mediante experiências lúdicas é abordado por Affonso (2017, p. 170), quando declara que as
brinquedotecas têm sido implantadas em faculdades e universidades com o objetivo de favorecer experiências lúdicas entre a comunidade e os alunos [...] das licenciaturas, facilitando a reflexão, a pesquisa e a vivência de práticas pedagógicas que valorizem o brincar para o desenvolvimento infantil.
Ressaltamos ainda, que essas experiências permitem a compreensão e valorização, por parte de professores(as) sobre a importância do brincar e da ludicidade não apenas para o desempenho infantil, mas que se estende à todas as faixas etárias, já que as contribuições para o desenvolvimento, por meio de práticas lúdicas, são notáveis em crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos, sem exceção. Isso é descrito por Kishimoto (2011), uma vez que o brincar, tendo a brinquedoteca como um ambiente que traz protagonismo à aprendizagem relacional e vivencial, promove esse processo de apreensão e desenvolvimento de linguagens, tais como a comunicabilidade, o protagonismo, a análise e a resolução de situações do cotidiano em que os indivíduos interagem. E tal experiência de amadurecimento precisa ser propiciada por todos os sujeitos.
Almeida e Santos (2018, p. 499) tecem comentários para um aspecto relevante que se configura diretamente para a importância da promoção de experiências pautadas pela ludicidade, no contexto de uma Brinquedoteca Universitária. Eles afirmam que “como espaço promotor de aprendizagens enriquecedoras, a brinquedoteca possibilita, através de experiências lúdicas e criativas, a vinculação entre diferentes formas de conhecimento, a socialização e a troca constante desses conhecimentos.” Portanto, na formação inicial e continuada de professores(as), este território brincante se caracteriza oportunamente para o aprofundamento das teorias apreendidas vinculadas à práxis pedagógica desenvolvidas nesse ambiente. Tal ação garantirá a reflexão da importância da vivência da ludicidade pelos(as) professores(as), ao mesmo tempo em que terão a oportunidade de vivenciarem essas situações lúdicas, o que poderá garantir esse tipo de prática no processo formativo da Educação Básica, após compreender sua necessidade. Além disso, é por intermédio do brincar que se proporciona o acúmulo de experiências, que ocorrem através da experimentação de diferentes papéis vividos numa Brinquedoteca Universitária.
Por uma relação de socialização de experiências lúdicas durante vivências formativas no espaço de brinquedotecas universitárias
A relação de reciprocidade configura-se como um dos aspectos mais relevantes quando se trata de processos formativos dos indivíduos. Os aspectos socioculturais e as experiências que se entrelaçam são fundamentais para a efetivação e a construção de novos conhecimentos e abordagens para a práxis pedagógica. A propósito da Brinquedoteca Universitária, enquanto laboratório de formação de professores(as) e de vivências lúdicas, Reis, Araújo e Baptista (2021, p. 155), abordam que “os estudos que versam sobre o tema da ludicidade demandam a ação dos(as) professores(as) pelo fomento de práticas, no sentido de vivenciar essa transferência de conhecimentos e saberes”. Nesse contexto, essas práticas formativas são capazes de fornecerem um reencontro com experiências lúdicas que foram fundamentais no processo de desenvolvimento do indivíduo.
Rodrigues, Silva e Simão (2017) reverberam a relevância das vivências lúdicas no âmbito da Brinquedoteca Universitária, numa perspectiva significativa para os indivíduos, considerando que esse espaço brincante, poderá promover momentos de lazer, além de despertar habilidades sociais e culturais aos(às) frequentadores(as). As autoras anteriormente mencionadas ressaltam ainda que no território essencialmente lúdico da brinquedoteca, “[...] o jogo e a brincadeira exigem partilhas, confrontos, negociações e trocas de experiências, esses sistemas de interação promovem conquistas cognitivas, emocionais e sociais nos alunos.” (Rodrigues; Silva; Simão, 2017, p. 30). Ou seja, por meio de práticas que promovem a interação lúdica, a partilha de saberes cognitivos é colocada em pauta promovendo um processo formativo com mais abrangência aos(às) professores(as) que participam desse processo.
Rau (2017, p. 24441), sustenta que “as ações lúdicas da criança em situações de brincadeiras demonstram suas experiências o que, em interações com outras crianças, levam-na a reconhecer-se como sujeito integrante de um grupo social e de um contexto cultural”. Assim, a interação acontece por intermédio da brincadeira e possibilita o reconhecimento dos sujeitos integrantes de um grupo ou contexto social. Isso se dá por meio das experiências socializadas, à medida em que as crianças, jovens e adultos participam desses processos de interação que envolvem o contexto da ludicidade.
Silva et al. (2016, p. 9) estabelecem concepções, quanto às possibilidades de reelaboração das experiências individuais que tomam forma, à medida em que estas se encontram com as experiências de outros sujeitos nesse processo de troca. As autoras afirmam que na vivência dessas práticas lúdicas os indivíduos,
trazem como referência seu cotidiano, as histórias que ouviram, as pessoas que conhecem, as coisas que gostam; nas linhas, formas, cores e sons as crianças expressam seu imaginário e ressignificam suas produções, ao mesmo tempo observam, interagem, conversam, questionam, aprendem. Ou seja, brincando neste espaço, a criança retrata suas experiências, suas memórias afetivas, relacionando suas vivências com a sua imaginação, criando.
Por isso, Silva et al. (2016) evidenciam que nas experiências lúdicas formativas propiciadas pelo espaço da brinquedoteca, os indivíduos que participam dessas ações trazem consigo suas vivências subjetivas estabelecidas durante seu desenvolvimento e, ao mesmo tempo, coletivizam essas experiências por intermédio da interação pela brincadeira, através dos jogos, dos sons, das cores e das expressões que são ressignificadas nesse território brincante.
Quanto a esse aspecto formativo que se dá com a interação e a troca de experiências durante as vivências lúdicas, Diogo (2022, p. 15-16) reflete que,
ao possibilitar interações lúdicas, estéticas e valorizar as culturas da infância, a brinquedoteca expande as experiências e a capacidade imaginativa – tanto das crianças como dos(as) licenciandos(as) – por meio do compartilhamento de sensações, significados e sentimentos, respeitando ritmos, interesses e peculiaridades, bem como repensando perspectivas [...].
Essa afirmação de Diogo (2022) nos faz compreender a possibilidade formativa que ocorre nesse ambiente essencialmente lúdico quando, por meio das interações brincantes, há uma expansão das experiências através da socialização mútua que acontece no compartilhamento dos interesses e significados que cada indivíduo atribui àquela ação. Diogo (2022) ainda refere que, tanto as crianças quanto os(as) professores(as), quando imersos nessas experiências lúdicas, se tornam capazes de repensarem suas perspectivas durante esse entrelace de vivências subjetivas.
A partir da compreensão da brinquedoteca universitária como um ambiente essencialmente lúdico e propiciador de socializações, destaca-se para a relevância desse espaço na socialização de experiências lúdicas na medida em que suas ações são capazes de proporcionar aos sujeitos partilhas e interações que favorecem os aspectos sociais e cognitivos, tanto em ações brincantes, como também, em vivências formativas iniciais e continuadas.
Em síntese, as experiências lúdicas vivenciadas através das práticas formativas nesse contexto, demonstram sua relevância a partir da compreensão dessa relação de troca das experiências individuais com as dos outros indivíduos, numa perspectiva que promove o desenvolvimento nessa coletivização que se efetiva a partir das interações, das brincadeiras, dos jogos e das ações transformadas nesse espaço brincante.
Experiências lúdicas em práticas formativas: uma análise das vozes de coordenadores(as) que as vivenciam
Experienciar alguma prática, ou ação, consiste, por vezes, numa possibilidade de compreender e ser tocado por tal atividade. Isso acontece, visto que essa experiência, permite aos indivíduos a vivência de uma intencionalidade que é única e intransferível. Além disso, envolve qualidades emocionais, subjetivas e proporciona uma série de sensações que trazem muito mais significado e apreensão por parte dos sujeitos. Nesse viés é que se estabelece a importância de experiências lúdicas vivenciadas durante as práticas formativas no contexto das Brinquedotecas Universitárias, de maneira que estas sejam capazes de possibilitarem a todos(as) um processo de transformação individual e coletiva que se consolida, por meio da troca de conhecimentos entre os sujeitos.
Com isso, a partir do objetivo da pesquisa, cujos resultados são apresentados neste artigo, foi realizada uma entrevista online com coordenadoras de diferentes Brinquedotecas Universitárias brasileiras, com o objetivo de conhecer as experiências lúdicas que têm sido proporcionadas nesses territórios brincantes. Ressaltamos que as coordenadoras participantes dessa pesquisa, nos autorizaram a revelar os seus nomes. Por isso, as mesmas serão aqui identificadas com os seus nomes próprios.
Participaram deste estudo as seguintes coordenadoras de diferentes brinquedotecas universitárias no Brasil: Professora Samantha Lima - coordenadora da Brinquedoteca Universitária do Curso de Licenciatura em Pedagogia, do Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS) – Campus Farroupilha; Professora Milene Bartolomei - coordenadora da Brinquedoteca Universitária Aberta Centro de Formação, da Faculdade de Educação (FAED); Professora Marlene Burégio - coordenadora da Brinquedoteca Universitária da Universidade de Pernambuco – Campus Mata Norte; Professora Isaura Fontes- coordenadora da Brinquedoteca Universitária CriAção, da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) – Campus XI; Professora Claudia Panizzolo- coordenadora da Brinquedoteca Universitária Laboratório de Brinquedos e Materiais para a Educação Infantil (LABEI), da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) – Campus Guarulhos; Professora Sirlândia Reis- coordenadora da Brinquedoteca Universitária Cirandas do Saber, da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) – Campus Amargosa; Professora Kadydja Karla- coordenadora da Brinquedoteca Universitária de Cultura Popular, do Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN) – Campus Natal – Cidade Alta; Professora Lidiane Evangelista- coordenadora da Brinquedoteca Universitária Professora Mestra Maria do Rosário Sales, da Universidade de Pernambuco (UPE) – Campus Garanhuns e a Professora Marília Nunes- coordenadora da Brinquedoteca Universitária da Faculdade de Educação (FACED), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Assim, quando indagadas sobre que experiências lúdicas têm sido realizadas no contexto das brinquedotecas por elas coordenadas, as coordenadoras relataram da seguinte forma:
Samantha Lima: A gente acredita que essa experiência lúdica tem essas duas dimensões: para os nossos estudantes, que é esse resgate de um lúdico que muitas vezes ficou lá na infância e também a manutenção desse lugar, e ela se dá principalmente através de espaços formais do curso, para que eles possam explorar esse brincar. Esse brincar livre, dirigido, com os recursos que a gente tem. A gente fez um cesto de tesouros a partir desse espaço lúdico, com brinquedos, usando os artefatos estruturados ou não estruturados, que são possíveis para brincar. E, tem esse outro segmento dessas ações lúdicas que são dirigidas também à nossa comunidade como um todo. O objetivo inicial dela é, de fato, ser esse espaço de laboratório do brincar para os cursistas. Então, um dia por semana para exploração, de conhecer os brinquedos de forma livre e uma vez por semana com atividades dirigidas.
Claudia Panizzolo: A ação número um foi receber a escola pública do entorno com agendamento e fazer dias de brincadeiras organizados em três espaços físicos. Propriamente dentro da brinquedoteca, do lado externo da brinquedoteca e numa quadra que a gente tem do lado também. A gente conseguiu dividir as crianças em grupos menores, sempre com várias monitoras, com as professoras, e poder propiciar brincadeiras com qualidade, com interação. Porque a brinquedoteca em si, ela tem o mobiliário, ela tem um monte de coisa, mas não consegue colocar 30 crianças lá dentro. Então é o que eu falo pra elas, é da brinquedoteca pra fora. Brinquedoteca é o convite ao brincar. E foi feita uma outra ação também bem legal, que foi um curso que teve na Universidade de Promotoras Legais, que discute o papel da mulher, o papel do feminismo, o empoderamento feminino. E aí muitas das alunas, professoras e interessadas que vieram fazer esse curso, tinham as crianças e onde elas deixariam as crianças? Foi feita uma parceria com a brinquedoteca e as monitoras assumiram as crianças com contação de história, com brincadeiras, com atividades criativas, com tinta, etc. enquanto as mães faziam esse curso. Acho que são todas essas experiências que eu já relatei com criança, filho de quem está estudando, quem está fazendo um curso, criança que está passando na rua, criança da escola, vizinha. Mas também experiência lúdica com adulto. Por exemplo, uma ação legal que a gente promove na época da calourada, faz um tipo de uma caça ao tesouro no campus. Tem as pistas, eles vão descobrindo e eles entram pra brinquedoteca e vão lá conhecer.Parece que a pessoa entra no mundo da fantasia, ela vai para uma outra esfera. O adulto também brinca, dá risada, se diverte, tira sarro do outro, quer boicotar o outro na brincadeira para ele ganhar.
Sirlândia Reis: Nós fizemos atividades de extensão com os estudantes [...]. A gente fez uma oficina de música, atividade de formação voltado para essa questão da ludicidade. Tem uma pesquisa que eu participei como colaboradora, que fez um levantamento de dados sobre como as crianças estavam brincando na pandemia. A gente fez oficina de jogos, brinquedos e brincadeiras com as crianças e com as famílias. Tivemos 300 participantes. Nessas oficinas a gente ensinou a montar jogos e brinquedos com material reutilizado. Teve uma colega que ela ensinou a montar e depois nós pedimos para tirar fotos brincando com os materiais. E procuramos trabalhar com brincadeiras tradicionais, na tentativa de resgatar essa questão cultural lúdica.
Marlene Burégio:A brinquedoteca teve, na sua programação, encontros com a comunidade externa, desde a sua inauguração, e continuou oferecendo às crianças momentos de interação e de brincadeira, nas visitas que a gente pôde propiciar. Depois a gente começou, ao mesmo tempo que fazíamos isso, a gente continuou com os estudos, na perspectiva do brincar, como um elemento de formação para a professora. Porque o brincar, no meu entendimento, é um saber da profissionalidade docente. Então, no momento que a gente estudou [diversos autores], a gente foi tendo a oportunidade de perceber essa peculiaridade do brincar, que para a criança é um espaço de vida. Para a professora, é um espaço de ressignificação e de aprendizagem na sua profissão. Para o estudante, eu acho que a gente pôde propiciar isso. Inclusive, mesmo no curso de especialização, eu tive a oportunidade de levar estudantes para a brinquedoteca e foi um momento de muita interação e aprendizagem.
Isaura Fontes: Por exemplo a UNEBRINQ, que é um convite que se faz a comunidade pra vir à Universidade brincar. É uma semana geralem que a gente faz várias ações, algumas em espaços internos, alguns espaços externos. E há também um movimento de ir às escolas através dos estágios. Tem umas ações que foram feitas na praça, em frente ao centro de pesquisa. Essa praça é um espaço aonde as pessoas vão para se divertir normalmente, para conviver, etc. E como a gente fica em frente a essa praça, algumas ações foram feitas nessa praça, da gente pedir a prefeitura, pedir ao Corpo de Bombeiros para fechar a rua e a gente poder promover momentos de lazer nesse espaço, de fechar o tempo para brincar. Então, são ações públicas de promover o brincar, e é extremamente interessante para nós. E que são marcantes, que são exclusivamente, vamos dizer assim, lúdicas. Que elas saem do espaço e da ideia de formação para ir para uma ideia do lúdico, de uma manifestação mais espontânea, mais específica da ludicidade.
Milene Bartolomei: Todas as atividades são lúdicas. Essa é a grande diferença da brinquedoteca para a instituição escolar. Enquanto a instituição escolar está preocupada com os aspectos de aprendizagem, com os aspectos pedagógicos, a brinquedoteca está preocupada com a ludicidade. A criança aprende automaticamente por meio da ludicidade. Então, todas as práticas pedagógicas desenvolvidas dentro da brinquedoteca são lúdicas. Qualquer brincadeira é lúdica.
Lidiane Evangelista: Em 2019, [eu] dividi mais uma vez os alunos em turnos e em classes para estarem recebendo um agrupamento de crianças advindas de instituições infantis. Essa formação foi específica para os estudantes do curso, que tiveram que planejar para lidar com a imprevisibilidade, no sentido de observar o que existe no espaço, os livros de literatura, os jogos, os brinquedos, considerando as dimensões do que vai ser um jogo de exercício, o jogo simbólico. Uma vivenciada em 2021 com uma unidade de acolhimento. Me ocorreu de conhecer a instituição pessoalmente. Na época não era possível. Então eu conversei com a assistente social do espaço, nós planejamos uma exposição guiada por meio das obras do Cândido Portinari no contexto de brincadeiras lúdicas. Mas foi de forma online. Promovemos esse momento em que as crianças da unidade estiveram lá, agrupadas, nos ouvindo, interagindo conosco, conhecendo as obras, para, no final, desenharem as obras nas telas que nós doamos. Então, além dessa visita guiada [...] que a gente vai conversando com as crianças, nós vimos que elas ficaram bastante envolvidas porque as obras que eram expostas eram brincadeiras infantis e depois elas reproduziram as suas brincadeiras preferidas nas telas.
Kadydja Karla:A própria Semana do Brincar que funciona de uma maneira muito intensa e bem diversificada. Uma das mais recentes que a gente está trabalhando é a questão da alimentação, da feirinha que foi incorporada. Existe algo que a gente trabalha experiências lúdicas conectado ao contexto manual, que desenvolve atividades no sentido manual. O público tem a oportunidade de desenvolver construções de brinquedos, pintura, desenvolvimento, tudo voltado ao nicho manual, que é um dos interesses da área do lazer. Experiências artísticas, voltadas também a esse desenvolvimento, em que as crianças têm a oportunidade de ter essa autonomia pela via das artes, ligado e conectado pelo prazer do lúdico e do brincar. Então, além de todo esse desenvolvimento, também a gente não esquece do meio virtual. [...] no momento principal da pandemia, [...] a gente desenvolveu experiências lúdicas, principalmente nas ações de indicações de filmes, de séries, de livros. [...] até mesmo brincadeiras e jogos que foram disponibilizados pela mídia.Além disso, ela é itinerante. A gente sai daqui do campus, como a gente já foi para um município vizinho e levamos uma estrutura para desenvolver lá. E nós temos os brincantes culturais, que a gente chama assim. Nós temos o Dr. Brinquedo, nós temos o Palhaço Sol. E aí a brinquedoteca funciona com esses brincantes que passam a ser personagens dentro da brinquedoteca, que é um projeto que corre paralelo, para a formação desses brincantes também.E recentemente, a gente fez uma oficina de construção de peteca. Foi presencial aqui no campus, onde a gente pôde falar um pouco sobre a história da peteca para uma turma de técnico em lazer, e no final, construiu a peteca e [fomos] pra quadra brincar.Tem um projeto de teatro que está em andamento, o projeto de sensibilização à música, um projeto do circo, tem um projeto das mídias, identidade visual muito ligado também a não se perder, somente no físico, mas também se conectar ao momento virtual.
Marília Nunes: As experiências lúdicas que a gente tem proporcionado nesses dois anos de 2020, 2021 foram muito nas redes sociais. Então, tentando movimentar as redes para essas atividades lúdicas do início da pandemia, que estivessem vinculadas também a esse espírito inventivo e de aprendizagem, tendo em vista que as crianças estavam em afastamento da escola e motivando os adultos que tinham rede social a criar no seu cotidiano, a partir de materiais do cotidiano, para tornar esse cotidiano [...] mais brincante. E na rede social, a gente também procura mobilizar para o estudo do tema da ludicidade. Então, procurando divulgar artigos que são estudados pela nossa equipe de bolsistas na nossa reunião. E a rede social divulga a referência, uma citação, uma provocação para as pessoas talvez irem em busca.É importante te dizer que nessa primeira semana de aula a gente queria recuperar esse espírito. Então, nos andares da nossa faculdade, a gente tem colocado cada dia um recurso lúdico, tentando motivar as pessoas a brincarem. Então os bolsistas construíram objetos lúdicos do tipo: um basquete feito com copinhos que as pessoas fazem a bolinha e jogam. A gente hoje pendurou uma corrida de foguetes que é com fio de nylon. Então cada dia dessa semana a gente estava tentando fazer uma atividade lúdica para provocar os graduandos que estão retornando para a faculdade.
As coordenadoras Samantha, Marlene e Isaura relatam que as experiências lúdicas desses territórios são proporcionadas por intermédio de ações dirigidas e livres, encontros com a comunidade externa e com eventos que convidam a comunidade para virem à brinquedoteca brincar. Todas essas práticas envolvem essa interação entre Brinquedoteca Universitária e comunidade externa.
Tais ações são de grande relevância a partir da compreensão, conforme compactuado por Almeida e Santos (2018, p. 493) em que
a Brinquedoteca é um espaço acolhedor destinado a brincadeiras e descobertas, um lugar onde a imaginação e a criatividade são convidadas a emergir, lugar onde é possível conhecer a si mesmo e a perceber o outro, onde potencialidades podem ser descobertas e aprimoradas.
Como um espaço acolhedor e destinado à descoberta e às brincadeiras, este ambiente revela-se aberto a todos(as) que queiram mergulhar no universo do brincar e da ludicidade. Para tanto, precisa ter em seu repertório atividades brincantes que possam envolver toda a comunidade interna e externa à universidade. Por conseguinte, “esse espaço é destinado a crianças, adultos, idosos, a todos aqueles que querem e gostam de se aventurar em brincadeiras e atividades lúdicas.” (Almeida; Santos, 2018, p. 493). Para além disso, é preciso compreendermos que “a brinquedoteca não deve ser um espaço de pedagogização do brincar, mas deve ser um lugar de experiências com as brincadeiras, espaço de encontros entre crianças e crianças com adultos em torno das brincadeiras.” (Santos, 2022, p.31).
Por outro lado, a coordenadora Milene relata que, justamente pelo caráter lúdico em que se caracteriza as Brinquedotecas Universitárias, todas as experiências lúdicas promovidas em seu território são lúdicas e têm essa concepção. E isso se dá pelo fato de a brinquedoteca estar preocupada com a promoção da ludicidade em suas práticas.
Bitencourt e Santos (2021, p. 150) inferem que,
As brinquedotecas são lugares propícios para estimular a criatividade, o desenvolvimento da comunicação, da expressão e da imaginação, bem como da construção, socialização e do incentivo às brincadeiras de faz de conta, haja vista que colocam à disposição das crianças diversas atividades que permitem a ludicidade coletiva e individual, possibilitando que elas estruturem seus conhecimentos próprios.
Nesse entendimento, ressalta-se, tanto pela disposição dos objetos quanto pelo leque de ofertas experienciais lúdicas, que as Brinquedotecas Universitárias são capazes de propiciarem experiências lúdicas com vistas ao estímulo do brincar, do desenvolvimento da imaginação e da socialização de brincadeiras e atividades essencialmente lúdicas. Dessa forma,
Ressaltamos a relevância das brinquedotecas universitárias, esses lugares dinâmicos e interativos, que por si só fazem com que seus usuários tenham esse despertar para uma melhor interação com os pares e os distintos brincantes, pela promoção de vivências e experiências relacionadas as habilidades sociais, que por sua vez, atingem tanto os brinquedistas quanto os diferentes brincantes, usuários desses espaços. (Silva; Fernandes, 2021, p. 65594).
Assim sendo, para que haja a vivência dessas experiências lúdicas, se faz necessário a compreensão da sua relevância e das contribuições quanto ao desenvolvimento individual e coletivo que se efetiva através dessas práticas. Por isso é que se deve garantir a presença das brinquedotecas nos contextos universitários para que se estabeleça tais discussões.
Mais adiante, as coordenadoras Lidiane, Claudia, Marlene e Kadydja, relataram que as experiências lúdicas em seus territórios têm sido proporcionadas pela recepção de crianças no espaço, com o objetivo de que os(as) monitores(as) consigam lidar com as imprevisibilidades, através de parceria com a universidade, em que há a recepção de crianças que são filhos(as) de mães que participam de cursos no Campus, por meio da propiciação de momentos de interação e brincadeiras durante as visitas lúdicas, como também, por intermédio de experiências lúdicas voltadas a atividades manuais, com a construção de brinquedos e outros objetos.
Tais atividades revelam um aspecto formativo que se desenvolve durante essas experiências, tanto para os que frequentam este ambiente quanto para os que promovem as práticas brincantes. E isso acontece justamente por intermédio da interação com o outro. Silva et al. (2018, p. 368) destacam que “com esse projeto o pedagogo em formação tem a oportunidade de vivenciar experiências diversas, planejar, dirigir e aprender a observar e evidenciar o desenvolvimento da criança através das atividades lúdicas, possibilitando sua formação integral.” Isso nos revela uma potência formativa significativa que ocorre através das experiências lúdicas desenvolvidas nesses territórios brincantes, uma vez que “o brincar promove experiências cognitivas, motoras, criativas e, consequentemente, aprendizagens que podem se dar em meio ao ato de brincar." (Lima; Souza, 2022, p. 61).
Outrossim, as autoras (2022, p. 61) inferem que a “perspectiva da brinquedoteca universitária é ser um laboratório de experiências brincantes, promovendo transformações no modo como este adulto em formação pedagógica se relaciona com o brincar.”. Dessa forma, esse espaço promove, através das experiências lúdicas, vivências interacionais formativas entre professores(as) e crianças, como também, entre crianças e crianças em suas socializações.
Quanto às coordenadoras Lidiane, Marília, Sirlândia e Kadydja, estas revelaram ainda um compromisso importante de promoção de experiências lúdicas online durante a pandemia em que milhares de pessoas estavam impossibilitadas de saírem de suas casas.
Nesse contexto, as coordenadoras objetivaram, através dessas atividades, motivar crianças e adultos a brincarem com os objetos do cotidiano que tinham em suas casas, através da divulgação pelas redes sociais,com a oferta de oficinas online de jogos, brinquedos e brincadeiras, com a divulgação de construção de jogos com materiais recicláveis e, com ações de indicação de filmes e séries para que houvesse uma dinamização e movimentação daqueles(as) que estavam em suas casas. Tais ações brincantes trazem importantes contribuições para a promoção de experiências lúdicas visto que, “por meio das brincadeiras, as crianças podem vivenciar, descobrir, inventar, estimular a curiosidade, desenvolver o pensamento e a linguagem, interagir com os brinquedos e proporcionar-lhes muitas experiências de aprendizagem.” (Sobral et al., 2022, p. 1908). Nesse entendimento, os brinquedos e as brincadeiras tornam-se importantes aliados para a vivência da ludicidade e para a interação com o outro no brincar. Ademais, o resgate da ludicidade por meio da criação de brincadeiras com objetos que, em sua gênese, não são brinquedos, provoca nesses indivíduos a sensibilização, o olhar criativo e a estimulação do faz-de-conta para todas as faixas etárias.
Na sequência, as coordenadoras Marília, Claudia, Isaura e Kadydja, relataram também a vivência de experiências lúdicas que se dão fora do contexto da Brinquedoteca Universitária, com a movimentação da universidade com recursos lúdicos espalhados que provocam o desejo de brincar, com a recepção de crianças das escolas do entorno para o brincar dentro e fora do território, com brincadeiras em praças públicas no entorno da universidade no sentido de sair do espaço de formação e ir para uma ideia de manifestação do lúdico através das interações e, pelo movimento da brinquedoteca itinerante, com ações sendo levadas para serem desenvolvidas em outros municípios. Essas práticas que acontecem para além do território brincante, propriamente dito, caracterizam-se por promoverem uma interação entre universidade e comunidade externa muito significativa, visto que há diversas pessoas que nunca saberão o que é estar em uma universidade, pelos mais variados motivos. Oliveira et al. (2020, p. 15) inferem que, as marcas da ludicidade,
devem ser explicitadas pelas ações de crianças brincando no parque, na sala de referência, embaixo da árvore, na casinha de bonecas, na brinquedoteca da escola, na chegada, na saída [...] Para isso, o cenário precisa ser marcado por várias situações lúdicas, que podem ser pensadas com ações de pular corda, pular amarelinha, brincar de lenço atrás, esconde-esconde, ciranda-cirandinha, fui pela horta e, ainda, rodas de conversa, produções de narrativas, passeios temáticos, enfim, vivenciar experiências de aprendizagem que, com certeza, são de grande significância para o processo humanizador da pequena infância à luz de um tempo educativo organizado e intencionalmente pensado.
Portanto, as experiências lúdicas promovidas pela Brinquedoteca Universitária em ambientes fora dos muros da universidade revelam uma vivência extremamente criativa que é efetivada nos mais variados territórios,num processo de estreitamento das relações entre o que é imaginário e o que é real.
Para finalizar, a coordenadora Marlene ainda descreve que há a propiciação de experiências lúdicas que acontecem ao mesmo tempo das visitas lúdicas no espaço da brinquedoteca e, com estudos vivenciados na perspectiva do brincar para a formação inicial e continuada de professores(as). Sobre isso, Santos, Silva e Santos (2021, p. 115) reiteram que, na Brinquedoteca Universitária, “o empenho posto em prática se dá, também, em termos de formação para monitores-brincantes”, pela compreensão de que
os educadores precisam ser ludicamente inspirados para que completem sua formação, principalmente se almejam pôr em prática uma cultura lúdica que os tornem capazes de brincar e valorizar o brincar em suas práticas pedagógicas(Santos; Silva; Santos, 2021, p. 115).
Com isso, as experiências lúdicas desses espaços brincantes e formativos, encaminham-se para possibilitar a compreensão da importância da ludicidade e de suas práticas por parte dos(as) professores(as). Só a partir da compreensão de suas contribuições é que os(as) professores(as) poderão vivenciar tais experiências em sua práxis. Tal perspectiva é descrita por Soares e Bizarro (2021, p. 76437) ao passo que
os estudos realizados sobre os vários tipos de brinquedoteca revelaram que é importante o lúdico nas práticas educativas, haja vista o seu poder motivador sobre a aprendizagem e o desenvolvimento integral da criança.
Portanto, as experiências lúdicas propiciadas pelas Brinquedotecas Universitárias cumprem uma função significativa na vivência da ludicidade a diversas faixas etárias, dentro e fora do contexto universitário e, na promoção do conhecimento acerca da relevância formativa dessas experiências estabelecidas tanto na Educação Básica quanto no Ensino Superior.
Considerações finais
Nesta parte deste artigo tecemos algumas considerações finais, recordando o objetivo da pesquisa que foi conhecer experiências lúdicas proporcionadas por práticas formativas, no âmbito da Brinquedoteca Universitária da Universidade de Pernambuco – Campus Mata Norte e de outras brinquedotecas universitárias.
Reiteramos que uma Brinquedoteca Universitária é concebida como um laboratório para as licenciaturas, especialmente para o Curso de Pedagogia. Isso se dá pela compreensão deste espaço em um processo científico, educativo e cultural que perpassa pelo tripé formativo da universidade e reverbera para uma viabilização da relação transformadora entre universidade e comunidade externa.
Este estudo nos revelou também o compromisso das Brinquedotecas Universitárias na promoção de ações contínuas com a comunidade interna e externa, de ações brincantes que visam a interação e a socialização de experiências numa perspectiva que favorece, principalmente aos(às) professores(as), uma ressignificação de sua formação lúdica nesse contexto brincante.
Por fim, os resultados da pesquisa possibilitaram a conclusão de que as experiências lúdicas, proporcionadas por práticas formativas, desenvolvidas no contexto das brinquedotecas investigadas estão direcionadas para a propiciação da vivência do lúdico por públicos de diferentes faixas etárias e para a troca de experiências formativas. Concluímos que essas experiências têm favorecido o resgate da ludicidade em professores(as) em formação inicial e continuada e têm contribuído para uma formação significativa que se dá pela interação entre criança-adulto durante essas experienciações.
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Notas
Foi autorizada a identificação pelas entrevistadas.