Desafios da docência na educação superior brasileira: notas a partir de uma análise de literatura entre 2014 e 2024
Challenges of Teaching in Brazilian Higher Education: Notes from a Literature Analysis between 2014 and 2024
Desafíos de la docencia en la educación superior brasileña: notas a partir de un análisis de literatura entre 2014 y 2024
Universidade Federal de São João
del-Rei, São João del-Rei – MG, Brasil.
andriziagomespereira@gmail.com
Universidade Federal de São João
del-Rei, São João del-Rei – MG, Brasil.
cassiabeatrizb@ufsj.edu.br
Pontifícia Universidade Católica de
Minas Gerais, Belo Horizonte – MG, Brasil.
robsoncruz78@yahoo.com.br
Recebido em 23 de junho de 2025
Aprovado em 26 de março de 2026
Publicado em 15 de abril de 2026
RESUMO
A literatura a respeito da docência da educação superior é recente no Brasil, ganhando notoriedade a partir dos anos 2000, período no qual esse nível de ensino experimenta significativas mudanças em seu funcionamento. Nesse contexto, diversos desafios acerca do trabalho docente se transformaram em relevantes questões de pesquisa. Porém, a despeito do grande valor das pesquisas originadas a partir dessas questões, alguns temas se apresentam ainda de modo um tanto incipiente na literatura. É partindo desse cenário que o objetivo desta pesquisa foi apresentar um panorama dos principais desafios investigados no debate sobre a docência da educação superior na literatura nacional. Para isso, realizamos uma revisão de literatura a partir de artigos indexados nos últimos dez anos na Coleção Brasil da base de dados Scientific Electronic Library Online (SciELO). Selecionamos 29 artigos que foram organizados em cinco núcleos temáticos categorizados pela similaridade dos debates. Tais núcleos possibilitaram a análise por subtemas que resultaram nas sessões de discussão deste artigo. Os resultados indicaram que a temática da formação e da precarização tem angariado maior atenção na literatura. Outras categorias, como gênero, sentido e satisfação, e identidade e saúde, também têm sido apresentadas na literatura como desafios para a docência. Considerou-se que ainda existem lacunas que requerem maior aprofundamento nesse debate, em especial no que tange aos aspectos psicossociais, cotidianos e micropolíticos da docência na educação superior.
Palavras-chave: Trabalho docente; Educação superior; Revisão de literatura.
ABSTRACT
The literature on higher education teaching is relatively recent in Brazil, gaining prominence from the 2000s onward, a period during which this level of education has undergone significant changes. In this context, various challenges related to teaching work have become important research topics. However, despite the great value of research stemming from these issues, some themes still appear somewhat underdeveloped in the literature. Against this backdrop, the objective of this study was to present an overview of the main challenges investigated in research on higher education teaching in the national literature. To this end, a literature review was conducted based on articles indexed over the past ten years in the Brazilian Collection of the Scientific Electronic Library Online (SciELO) database. A total of 29 articles were selected and organized into five thematic clusters, categorized according to the similarity of their debates. These clusters enabled an analysis by subthemes, which structured the discussion sections of this article. The results indicated that the themes of teacher education and precarization have garnered the most attention in the literature. Other categories, such as gender, meaning and satisfaction, and identity and health, have also been presented as challenges for teaching. The findings suggest that gaps still remain and require further investigation, particularly regarding the psychosocial, everyday, and micropolitical aspects of teaching in higher education.
Keywords: Teaching work; Higher education; literature review.
RESUMEN
La literatura sobre la docencia en la educación superior es relativamente reciente en Brasil, ganando notoriedad a partir de los años 2000, período en el cual este nivel educativo ha experimentado cambios significativos. En este contexto, diversos desafíos relacionados con el trabajo docente se han convertido en importantes temas de investigación. Sin embargo, a pesar del gran valor de los estudios derivados de estas cuestiones, algunos temas aún aparecen de manera incipiente en la literatura. En este escenario, el objetivo de este estudio fue presentar un panorama de los principales desafíos investigados en la producción académica sobre la docencia en la educación superior en la literatura nacional. Para ello, se realizó una revisión de la literatura a partir de artículos indexados en los últimos diez años en la Colección Brasil de la base de datos Scientific Electronic Library Online (SciELO). Se seleccionaron 29 artículos, los cuales fueron organizados en cinco núcleos temáticos, categorizados según la similitud de los debates. Estos núcleos permitieron un análisis por subtemas, que estructuraron las secciones de discusión de este artículo. Los resultados indicaron que las temáticas de la formación docente y la precarización han recibido mayor atención en la literatura. Otras categorías, como género, sentido y satisfacción, e identidad y salud, también han sido presentadas como desafíos para la docencia. Los resultados sugieren que aún existen vacíos que requieren mayor profundización en este debate, especialmente en lo que respecta a los aspectos psicosociales, cotidianos y micropolíticos de la docencia en la educación superior.
Palabras clave: Trabajo docente; Educación superior; Revisión de la literatura.
Considerações iniciais
Debates sobre a educação superior brasileiro têm aumentado nas últimas décadas. Uma das razões para o fenômeno decorre da expansão desse nível de ensino a partir de meados de 1995, primeiro no governo de Fernando Henrique Cardoso, entre 1995 e 2002, e, significativamente, no governo Lula, a partir de 2003. Sobretudo, no primeiro caso, a expansão ganhou notoriedade pela criação do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) e, no segundo, pela implementação de políticas públicas federais como o Programa Universidade para Todos (Prouni), a Lei de Cotas e o Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni). Além disso, no governo Lula, identifica-se o aumento da criação de universidades públicas nas ‘mais diferentes regiões do país (Mancebo; Vale; Martins, 2015; Ferreira, 2019). Ao mesmo tempo, é perceptível o aumento da interiorização da educação superior, não apenas via o estabelecimento de novas universidades, mas também via o aumento do número de instituições privadas, que resultaram num processo crescente de matrículas naquele período (Barros, 2015; Reis; Pires, 2023).
Embora essa expansão represente o aumento do acesso a educação superior no Brasil, o debate sobre o tema sugere como o desenvolvimento da universidade brasileira nas últimas décadas apresenta inúmeros desafios (Sobrinho, 2010; Paula, 2017; Barbosa, 2019; Cruz, 2019; Moro; Gisi, 2023). É nesse contexto histórico que os estudos sobre a docência da educação superior ganham força, explicitando dilemas na carreira docente em tal nível do ensino no cenário nacional. Entre esses dilemas, destacam-se: a precarização do trabalho, o aumento do adoecimento mental, a falta de autonomia e possibilidade de participação dos docentes na construção das políticas norteadoras do trabalho acadêmico, o excesso de atividades administrativas e burocráticas na gestão universitária com expressiva presença das tecnologias de informação e comunicação (TICs), o baixo reconhecimento do trabalho e a remuneração (Bosi, 2007; Caran et al., 2010; Borsoi; Pereira, 2013; Silva, 2015; Souza et al., 2017; Melo; Campos, 2019; Penteado; Souza Neto, 2019; Leitão; Capuzzo, 2021; Broch; Breschiliare; Barbosa-Rinaldi, 2022; Gemelli; Closs, 2023).
O avanço do neoliberalismo sobre a educação e, consequentemente, a intensificação de modelos de gestão sustentados na lógica do mercado constituem motivos centrais para o surgimento e a perpetuação dos problemas que afetam a docência na educação superior (Bosi, 2007; Maués, 2010; Bernardo, 2014; Oliveira; Pereira; Lima, 2017; Locatelli, 2017; Souza et al., 2017; Rodrigues; Souza, 2018) – um problema também identificado na literatura internacional. Davies e Bansel (2005), por exemplo, expõem, ainda no início dos anos 2000, que dimensões neoliberais da economia de mercado já orientavam em grande medida o modo de vida acadêmico nos Estados Unidos e na Europa. O incentivo ao individualismo, o foco na acumulação de capitais econômicos e simbólicos, a naturalização do tempo do trabalho orientado mais para a geração de produtos intelectuais e menos para os processos da atividade acadêmica seriam apenas alguns exemplos da presença de uma gestão neoliberal da subjetividade acadêmica, tanto no setor privado quanto no setor público, como um análogo ao sistema econômico vigente.
Portanto, sendo esse um cenário já percebido no norte global, é esperado que, no Brasil (localizado, por sua vez, no sul global), essa relação cada vez mais íntima entre a educação e o neoliberalismo resulte em um cenário ainda mais desafiador para a docência. Logo, foi diante desse contexto que o debate a respeito da docência na educação superior, especialmente na relação com o trabalho, começou a ganhar maior notoriedade na literatura brasileira. Todavia, trata-se ainda de um debate recente, talvez como resultado dos problemas cada vez mais evidentes da vida acadêmica brasileira na última década.
Posto isso, o propósito deste estudo foi apresentar os resultados de uma revisão da literatura na qual se visou identificar os desafios sobre a docência da educação superior no país, evidenciando os principais temas debatidos e como estes têm sido retratados na literatura. A análise nos permitiu identificar que os temas mais recorrentes têm sido aqueles referentes aos problemas da formação para a docência na educação superior e à precarização do trabalho na área. Essas temáticas e as demais categorias identificadas neste estudo evidenciam o avanço da ideologia do produtivismo no ambiente universitário como uma das causas centrais para o surgimento, a intensificação e a preservação dos vários desafios presentes na docência da educação superior brasileira.
Como decorrência, a literatura tem enfatizado análises macroestruturais da conjuntura política e a incidência desta sobre questões como saúde, satisfação, motivação e sentido com o trabalho docente na educação superior. A despeito do valor teórico dessas análises macroestruturais, uma dimensão psicossocial do fenômeno tem sido subteorizada, a saber, como as relações mais próximas e evidentes entre macro e microestrutura têm se dado quando o tema são os problemas da docência na educação superior.
Metodologia
A análise da literatura empreendida nesta pesquisa foi realizada por meio de uma revisão de artigos a respeito da docência brasileira da educação superior. Nós nos inspiramos nas diretrizes do modelo Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (Prisma) 2020 para revisões sistemáticas. Esse modelo tem por finalidade auxiliar pesquisadoras(es) a construir e apresentar com maior qualidade e transparência os caminhos metodológicos trilhados em pesquisas de revisão. Para isso, esse modelo organiza o processo de revisão a partir de três etapas: identificação, triagem e inclusão.
Quanto à procura pelos artigos, optamos pela base Scientific Electronic Library Online (SciELO) Brasil, por ser uma das principais bases de indexação de artigos brasileiros. As buscas foram realizadas em julho de 2024, considerando duas combinações de palavras-chaves: (a) docência AND (operador booleano) “ensino superior”; (b) docência AND (operador booleano) “educação superior”. Optamos por utilizar tanto “ensino” como “educação superior”, pois, em buscas iniciais, observamos o uso das duas expressões nas produções. Haja vista o objetivo de investigar a literatura brasileira, selecionou-se o filtro “Coleção Brasil”. Quanto ao período temporal de publicação, elegeu-se uma década, ou seja, artigos indexados entre os anos de 2014 e 2024 – um momento no qual se identificam mudanças significativas dos rumos políticos no contexto brasileiro que afetaram também o ensino superior.
Assim, identificamos inicialmente 116 artigos na base de dados SciELO, dos quais 12 foram excluídos por duplicidade. Realizamos a leitura dos títulos e resumos dos 104 artigos restantes, processo que resultou na exclusão de outros 67, que não correspondiam ao interesse da pesquisa e que eram referentes à realidade de outros países, ainda que publicados em revistas brasileiras. Após essa triagem, lemos 37 artigos na íntegra. Deste quantitativo, excluímos 4 artigos que não apresentaram em seu conteúdo uma discussão pertinente para o objetivo central desta pesquisa, além de 4 artigos de revisão. Isso resultou, portanto, no total de 29 artigos que compuseram esta revisão, de acordo com o fluxograma apresentado na Figura 1.
Figura 1 - Fluxograma Prisma de pesquisa
Fonte: autoras
A análise dos dados foi realizada mediante a leitura íntegra dos artigos selecionados que possibilitou elencar os temas mais recorrentes na literatura a respeito dos desafios da docência do ensino superior. Com base nesta primeira análise, ou seja, categorização dos temas principais, construímos núcleos temáticos considerando as similaridades das discussões apresentadas nos artigos. A nomeação dos núcleos foi escolhida a partir dos próprios temas centrais apresentados nos artigos e com base em revisões sistemáticas e revisões de literatura já publicadas sobre o tema, buscando manter certa proximidade com a área de pesquisa. Portanto, foram construídos cinco núcleos temáticos que contemplaram os artigos selecionados, conforme demonstrado na Tabela 1:
Tabela 1 – Núcleos temáticos
Fonte: autoras
Tais núcleos temáticos possibilitaram então a sistematização dos resultados e discussões apresentadas na próxima seção deste artigo. Além disso, visando apresentar uma seção de resultados e discussão não restrita à mera descrição dos artigos oriundos da revisão, por vezes recorremos a outros estudos que compõem a literatura ampla sobre o tema e que se mostraram propícios para complementar as análises aqui realizadas.
Formação e desenvolvimento docente
Nos últimos anos, a temática da formação tem sido predominante nas revisões de literatura sobre a docência na educação superior do país (Cintra, 2018; Silva; Pinto, 2019; Gemelli; Closs, 2022). Entre os achados mais recorrentes nesse cenário está a crescente percepção do aumento dos desafios da docência na educação superior, como resultado de mudanças substanciais no mundo do trabalho. Essa é uma percepção que é mais recente na literatura nacional do que na internacional, especialmente nos Estados Unidos e na França. Para Vasconcellos e Sordi (2016), esse quadro sugere que, a despeito da significativa menção ao tema, ainda estaríamos não só numa fase embrionária, de compreensão dos problemas, mas também numa fase incipiente, de identificação e propostas de resolução dos desafios na área.
Essa fase embrionária é observada na própria legislação da educação, na qual a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) (Brasil, 1996) apenas institui que a preparação para docência da educação superior acontecerá, prioritariamente, por meio dos programas de pós-graduação. Essa legislação se tornou alvo de críticas na atualidade, devido às suas limitações, uma vez que não enfatiza a formação para docência universitária como processo continuado, assim como não é clara acerca de critérios relativos a carga horária e desenvolvimento da qualificação em tal atividade (Pimenta; Anastasiou; 2010; Joaquim; Vilas Boas; Carrieri, 2013; Mattos; Monteiro, 2017; Forte; Angelo, 2022). Nesse sentido, compreende-se que, a respeito da educação superior, a LDB ainda apresenta muitas lacunas, gerando certo desamparo legal para a dimensão da formação e da prática da docência universitária no país.
Além disso, a literatura sugere que a pós-graduação, eminentemente voltada para a pesquisa, tem apresentado poucos recursos para o desenvolvimento das habilidades essenciais para desempenhar as atividades docentes na educação superior (Pimenta; Anastasiou, 2010; Cunha, 2014; Junges; Behrens, 2016; Mattos; Monteiro, 2017; Forte; Angelo, 2022). Tendo em vista esse problema, Oliveira (2010) alerta para a “formação” de uma série de “docentes em potencial” que podem nunca ter tido um único contato com a prática da docência. Essa dinâmica reflete um debate que tem sido reiterado a respeito da pós-graduação stricto sensu: a priorização da pesquisa e da formação de pesquisadoras(es) em detrimento dos eixos de ensino e extensão. Ou seja, o eixo da pesquisa, muito associado também à produtividade que possibilita a avaliação dos programas, tem sido cada vez mais valorizado no universo acadêmico, o que diminui, por sua vez, a atenção para a discussão da formação, em especial considerando a prática do ensino (Vasconcellos; Sordi, 2016; Sordi, 2019).
Na mesma linha de raciocínio, Paiva (2010) argumenta que a formação pedagógica e o preparo para o trabalho docente ocupam, quando presentes, um lugar mais marginalizado, quando não subvalorizado na trajetória acadêmica. A autora acrescenta que a falta de investimento na formação docente é sustentada por uma presunção equivocada de que um pesquisador(a) qualificado se torna, naturalmente, um bom professor ou professora. Tal presunção relembra a ideologia vocacional histórica dessa profissão, que se ancora na ideia de que tais profissionais não necessitam de uma formação específica, pois, sendo um destino quase transcendente, tais competências são naturais ou imanentes aos próprios sujeitos. Nesse quadro, Cunha (2014, p. 797) argumenta haver uma concepção social de que “Todos sabem o que faz um professor e como esse profissional atua no cotidiano de seu trabalho. Então, por reprodução dessas práticas, qualquer pessoa crê que pode exercer a docência”.
Apesar de não discutida pelos artigos que compuseram esta revisão, uma preocupação em relação à formação docente na educação superior nas duas últimas décadas é atuar com públicos diversos, como estudantes das camadas mais populares, até então pouco presentes na universidade brasileira. Essa condição, no mínimo, introduz uma nova dimensão ao problema da formação para docência, uma vez que esse público apresenta especificidades até então pouco presentes na educação superior, conforme Cunha e Pinto (2009). Em conjunto com essa mudança, as autoras ainda destacam o avanço daquilo que se convencionou chamar de “sociedade do conhecimento”, como período de mudanças por causa do desenvolvimento especialmente de tecnologias da informação, que têm imposto dificuldades crescentes e imprevistas devido àquilo que parecia, até há pouco tempo, ser apenas um facilitador da educação: o acesso rápido e fácil a informações de todos os tipos (Cunha, 2014; Sordi, 2019).
Esses dois fenômenos produzem inúmeros desafios para a docência, que tem sido pressionada a inovar suas práticas didáticas, a se manter continuamente atualizada e a aprender a lidar com as novas diversidades e adversidades no trabalho. Talvez seja possível dizer que, mais que nunca, a posição de detentor do saber, há tempos já criticada em prol de um ensino mais horizontal, tem sido colocada em xeque, agora, especialmente pelo fácil acesso a informações, tensionando a docência a construir novos processos de ensino e aprendizagem, num cenário marcado pela sobrecarga oriunda da precarização do trabalho e, muitas vezes, sem suporte no que tange à formação.
Ainda sobre os limites da formação para docência na educação superior, uma outra dimensão do debate que tem ganhado atenção diz respeito ao início da carreira docente (Pryjma; Oliveira, 2016; Mattos; Monteiro, 2017; Sordi, 2019), quando muitas(os) jovens pesquisadoras(es) experimentam percalços profissionais, uma vez que se veem demandados a exercer habilidades para as quais não foram necessariamente formados.
A despeito dos debates e constatações sobre os limites da formação para docência na educação superior, que parece se explicitar ainda mais na figura dos docentes de início de carreira, também parece haver uma resistência, inclusive entre os próprios profissionais, à ideia de que é necessária uma formação específica para o ofício da docência (Junges; Behrens, 2016; Felden, 2017).
Quanto às iniciativas que têm sido implementadas, os artigos indicam que muitas dessas têm sido circunscritas a ações fragmentadas e por vezes descontextualizadas da realidade de trabalho das(os) docentes, geralmente como parte de uma lógica de formação secundária para a docência (Vasconcellos; Sordi, 2016; Junges; Behrens, 2016; Felden, 2017; Sordi, 2019). Outra questão que tem sido levantada é a desresponsabilização institucional para efetivação e preservação dessas iniciativas, o que pode ser visto como uma transferência da responsabilidade pela formação para os próprios docentes (Cunha, 2014; Vasconcellos; Sordi, 2016; Sordi, 2019).
Nessa lógica, pautada pela iniciativa individual, espera-se que os docentes assumam, sozinhos e pela via da informalidade, seu desenvolvimento e sua formação (Cunha, 2014; Felden, 2017). Por mais que o apoio dos pares possa acontecer como uma estratégia, especialmente para profissionais iniciantes, Pryjma e Oliveira (2016) indicam que nem sempre os pares se mostram disponíveis, o que pode estar associado tanto ao excesso de demandas como à cultura neoliberal de competição em detrimento da cooperação, que intensifica a insegurança nas relações de trabalho. Sobre isso, ainda vale acrescentar o extenso trabalho de Robert Boice, que investigou um quadro similar nos Estados Unidos, entre as décadas de 1970 e 1990, com a hipótese de que haveria, na socialização acadêmica, uma significativa propagação da ideia de que um verdadeiro docente universitário teria que ser naturalmente capaz de lecionar. Porém, se precisasse de auxílio para tanto, isso significaria uma suposta incapacidade intelectual para a docência.
Identidade profissional do docente
Assim como em outras revisões sobre a docência na educação superior, a temática da identidade na carreira docente, em comparação às demais categorias elencadas neste estudo, é a que se faz presente de forma mais dispersa na literatura (Silva; Pinto, 2019; Gemelli; Closs, 2022) – algo explicado pela própria complexidade do conceito, quando nos voltamos para a definição de identidade. Por exemplo, Dubar (2005), um dos autores mais citados pelos artigos que compuseram este núcleo, conceitua a identidade como processo de socialização e articulação entre dimensões biográficas e história social. Portanto, trata-se de um processo amplo e de difícil conceituação.
Considerando essa concepção dinâmica de identidade, a literatura tem discutido esse processo analisando a trajetória de docentes ao longo do tempo. Para isso, pesquisadoras do tema partem da compreensão de que a imagem sobre a docência e sobre a identidade que envolve essa profissão se transforma conforme as experiências do cotidiano de trabalho. Assim, para discutir a temática da identidade, os artigos desta revisão privilegiaram uma análise dos fatores que motivaram a escolha pela docência e, especialmente, das narrativas apresentadas pelos profissionais a respeito de suas trajetórias.
Sobre o processo de escolha, as pesquisas apresentam três características centrais dos participantes: um perfil investigativo, ou seja, orientado para pesquisa; a necessidade financeira; e certa ideia de “acaso” ou, como retratado por alguns estudos, de resultado de uma predestinação, e não de uma escolha refletida (Fernandes; Souza, 2017; Rech; Boff, 2021). Quanto ao perfil investigativo, compreendemos ser uma característica coerente com a supervalorização da pesquisa no contexto acadêmico. Assim, a pesquisa pode ser tida como um dos principais fatores de motivação por permitir uma maior mobilidade no universo acadêmico, mas também por ser um espaço considerado mais livre e propício ao contato com valores como aprendizagem e mudanças sociais. Portanto, como já discutido, a formação para docência tem sido muito atrelada ao envolvimento com pesquisa, o que já se reflete na constituição identitária profissional.
A respeito da necessidade financeira como critério de escolha para a profissão docente, apenas um artigo que analisou a percepção de docentes citou esse aspecto como fator de motivação. Contudo, tal questão era pouco aprofundada naquele texto (Rosa et al., 2021). Já quanto à ideia de acaso e predestinação, podemos relacioná-la com uma herança histórica na qual a docência é tida como um trabalho vocacionado, destinado a pessoas que supostamente já apresentam essa predisposição como algo natural e que, em função do seu propósito, sacrificam-se para exercer tal ofício, visando à missão da transformação social (Lengert, 2011; Tardif, 2013).
Por mais que compreendamos que diferenças individuais e contextuais interferem diretamente na motivação pelo ingresso na docência, no que tange à identidade, esse processo de escolha nos permite identificar as expectativas que esses profissionais apresentam quando ainda não estão inseridos na realidade do trabalho. Nesse sentido, Huberman (2013), referência apresentada nos artigos para analisar o ciclo de vida das(os) professoras(es), indica, por exemplo, que a fase inicial da profissão docente é marcada por um choque de realidade entre o que se esperava e o que de fato acontece, e isso vai sendo amenizado com a experiência.
Assim, o debate na literatura tem apontado a identidade profissional e a percepção dos docentes sobre sua própria imagem como processos em constante transformação. Eles seriam construídos a partir das experiências cotidianas de trabalho e a partir das interações com pares e discentes, relações que propiciam descrições, feedbacks e reconhecimento a respeito da imagem desses trabalhadores (Rech; Boff, 2021; Fernandes; Souza, 2017).
Todavia, por mais que esse debate exista, observamos que ele tem se debruçado pouco sobre como esse processo tem sido construído, trazendo também poucos elementos e exemplos cotidianos a respeito da identidade profissional docente na educação superior. Essa ausência de conceituação, descrição e exemplificação pode estar atrelada a um problema no discurso das ciências humanas e sociais que, de acordo com análises de autores como Mills (2009), Billig (2013), Sword (2016) e Becker (2016), demonstram uma propensão a construção de afirmações autoevidentes que impedem o detalhamento do fenômeno psicossocial, mesmo quando estas ciências se propõem a serem críticas.
Motivação, sentido e satisfação na docência
Motivação, satisfação e sentido são aspectos fundamentais para pensarmos a relação com o trabalho e para identificarmos ideais e expectativas construídos sobre uma profissão. Tais aspectos são considerados, na literatura, categorias que envolvem tanto fatores extrínsecos – como organização do trabalho, condições e estrutura – quanto fatores intrínsecos – como sentimentos, experiências e expectativas individuais.
O fator de satisfação com a docência mais recorrente nos estudos é o reconhecimento por parte dos discentes e a possibilidade de contribuir para a formação dessas pessoas e para o desenvolvimento da sociedade (Araújo et al., 2015; Cardoso; Costa, 2016; Davoglio; Spagnolo; Santos, 2017; Santos; Batista, 2018; Rosa et al., 2021). Esse fator também se relaciona diretamente com o sentido do trabalho discutido por D’Arisbo et al. (2018), para os quais a perspectiva de mudança, transformação social e compromisso com os discentes representa o sentimento de relevância e vinculação com o trabalho docente para os participantes.
Além da relação com os discentes, outros fatores de satisfação têm sido observados nos relatos, como estabilidade, autonomia, flexibilidade e possibilidade de estar em espaços de aprendizado contínuo (Cardoso; Costa, 2016; Davoglio; Spagnolo; Santos, 2017; Santos; Batista, 2018; Rosa et al., 2021).
Chama nossa atenção que o artigo mais recentemente publicado deste núcleo (Rosa et al., 2021) indica, em seus resultados, que a estabilidade tem sido percebida pelos docentes como um dos principais fatores de satisfação, o que nos leva a pensar o quanto esse fator econômico, refletido no discurso da busca pela estabilidade, irá se tornar mais frequente nas pesquisas. Isso, porque cada vez mais a crise no mundo do trabalho tem se intensificado, resultando no aumento da informalidade e na precarização de contratos de trabalho que garantam maior senso de estabilidade.
Porém, podemos refletir também o quanto essa ideia de estabilidade se sustentará como um fator de satisfação para permanência ou ingresso na profissão diante do avanço da precarização na própria educação – que, não imune aos conflitos do mundo do trabalho, também pode sofrer com desafios como a falta de oportunidades de emprego formal para a quantidade de pessoas qualificadas para docência.
Por fim, em relação à insatisfação e aos fatores que se mostram deletérios à relação de sentido com o trabalho, destacam-se: ausência de orientação e formação, especialmente para os iniciantes; precariedade da estrutura de trabalho; desinteresse dos alunos; falta de reconhecimento e valorização; e desafios impostos pela heterogeneidade das turmas (Araújo et al., 2015; Cardoso; Costa, 2016; Davoglio; Spagnolo; Santos, 2017; Santos; Batista, 2018; D’Arisbo et al., 2018; Pivetta et al., 2019; Rosa et al., 2021). Sobretudo, um fator que se mostra preponderante é a sobrecarga do trabalho aliada à falta de valorização, tanto pelo Estado como pelas instituições educacionais, bem como a visão limitada da sociedade sobre a multiplicidade das atividades docentes (D’Arisbo et al., 2018).
Organização e condições precarizadas de trabalho
Mesmo tratado aqui como um núcleo por reunir os estudos diretamente associados à precarização e às condições de trabalho, cabe destacar que, assim como a formação, este é um tema que permeia grande parte dos artigos analisados nesta revisão. Essa abrangência está associada à notoriedade que a mercantilização do ensino tem ganhado frente ao intenso avanço do neoliberalismo e de seus imperativos nas instituições de ensino privadas e públicas. Tal avanço tem sido discutido, especialmente, pela dinâmica do produtivismo, caracterizado como um dos principais fatores para a precarização da docência.
Nessa cultura produtivista, a literatura chama atenção para o papel dos indicadores, das avaliações de desempenho e das formas de reconhecimento que, sobretudo, têm se sustentado na análise quantitativa, valorando assim o número de publicações, pesquisas, produtos e patentes. Consequentemente, tem sido observado um esvaziamento dos eixos de ensino e extensão, visto que, imersos nessa cultura, cada vez mais os docentes têm buscado investir apenas nas atividades de pesquisa (Leonello et al., 2014; Costa, 2016; Vosgerau; Orlando; Meyer, 2017; Gatto Júnior et al., 2020).
Essa mesma literatura aponta que o trabalho docente tem ficado muito sob controle de avaliações produtivistas, conduzidas por agências de fomento que tendem a valorizar apenas o desempenho quantificado, por exemplo, por meio dos indicadores, invisibilizando outra série de atividades desenvolvidas por esses profissionais. Frente a esse contexto, a literatura tem apontado o ambiente acadêmico como um espaço de pressão contínua, no qual a docência tem sido submetida a uma intensificação do trabalho. Assim, além de “dar conta” do trabalho “invisível”, ou seja, aquele não passível de quantificação, precisam se mostrar competitivos em termos de publicações, emissão de pareceres e patentes de pesquisa, por exemplo, como explicam Vosgerau, Orlando, & Meyer (2017). Para estas autoras, esse fenômeno, nomeado como produtivismo acadêmico, tem impossibilitado uma formação intelectual integral dos docentes e, consequentemente, o desenvolvimento da ciência e da educação.
Atrelado a isso, é possível observar uma dinâmica de transformação das(os) docentes em empreendedoras(es), visto que, para angariar recursos para as pesquisas – recursos esses muitas vezes escassos –, cada vez mais esses profissionais têm aderido a uma lógica de trabalho individual e autônomo (Costa, 2016). Como descrevem Vosgerau, Orlando e Meyer (2017, p. 236), “Os professores trabalham sozinhos, protegidos pela iniciativa pessoal e pela liberdade acadêmica, confundindo solidão com autonomia, e temendo o julgamento de seus pares”. Portanto, uma das consequências desse modelo de educação tem sido a degradação das relações e da consciência de classe em prol da valorização de uma lógica de concorrência, desafio significativo à manutenção da cooperação no contexto acadêmico.
Cabe destacar que espaços onde se imagina haver um potencial para articulação, apreciação e construção de propostas de melhorias das condições e da realidade do trabalho, como os espaços de gestão, têm sido cooptados pelo excesso de atividades burocráticas. Não à toa, em vez de estar angariando prestígio por representar um espaço de liderança, a gestão tem sido vista pelos docentes como uma posição na qual o trabalho fica restrito a atividades administrativas e de gestão, quase sempre invisibilizadas e destituídas de reconhecimento e de poder decisório. Isso gera uma aversão a essa função por parte desses trabalhadores, que têm evitado assumi-la (Santos; Pereira; Lopes, 2018).
Por fim, destaca-se que, apesar do aumento das discussões sobre a precarização do trabalho docente no ensino superior, o fator econômico – ou seja, dinheiro e salário –, central a essa questão, foi subdimensionado nos artigos analisados. Menções a perda salarial, perda do poder aquisitivo dos salários, incompatibilidade entre o salário e a carga horária foram realizados pelas autoras Leonello et al. (2014) e Costa (2016); todavia, sem receber aprofundamento. Esse fato não deve ser visto como fortuito, visto que, há décadas, debates sobre uma moralidade acadêmica associada às condições econômicas e de trabalho, apontavam para uma tendência de silenciamento desses dilemas (Kuhn, 1997; Shapin, 2008). Numa extensa análise da questão, Shapin (2008) levanta, por exemplo, a hipótese de que haveria um conflito, especialmente nas ciências humanas e sociais, em assumir que parte da determinação da motivação e do envolvimento com o trabalho do conhecimento é de ordem econômica.
Saúde do trabalhador docente
Ainda que representando um número menos expressivo de estudos que compuseram esta revisão, temas como adoecimento, saúde e qualidade de vida têm sido crescentes na literatura sobre a docência, acendendo um alerta quanto à relação entre trabalho e saúde para essa categoria (Cintra, 2018; Silva; Pinto, 2019; Gemelli; Closs, 2022). Além de fatores atrelados à saúde física, observa-se que a literatura tem destacado um significativo agravamento da saúde mental no contexto do trabalho docente, evidenciado especialmente por quadros de burnout, ansiedade, depressão e estresse (Neme; Limongi, 2020).
Analisando a literatura, observa-se que diversos fatores têm sido indicados como prejudiciais à saúde dos docentes, contribuindo assim para o aumento de casos de adoecimento e sofrimento. Os artigos desta revisão destacam alguns deles, como: acúmulo de demandas (especialmente administrativas e tecnoburocráticas), pressão por produtividade, sobrecarga, dilatação da carga horária, falta de reconhecimento, dinâmicas de gerenciamento da organização do trabalho, frustração com expectativas, conflitos interpessoais e má remuneração (Hoffmann et al., 2017; Ferreira; Pezuk, 2021). Grande parte desses fatores têm sido associados à cultura do produtivismo, apresentada no núcleo temático anterior. Ambos os estudos que compuseram este núcleo destacam como esse contexto – caracterizado pela demanda intensa de produção, pelo consumo e pela mensuração quantitativa do desempenho – tem gerado uma precarização, da qual um dos desdobramentos tem sido a deterioração da saúde das(os) docentes.
Além de chamarem atenção para fatores de risco atrelados às condições e à organização do trabalho nesse contexto, Hoffmann et al. (2017), Ferreira e Pezuk (2021) também apontam como essa dinâmica do produtivismo tem intensificado o individualismo e a competitividade, resultando em aumento de conflitos interpessoais. Essa dimensão é fundamental para pensar a saúde desses profissionais, haja vista que, inseridos em um contexto de menor solidariedade e cooperação, a possibilidade de uma construção coletiva de rede de apoio, importante tanto para prevenção quanto para promoção da saúde, tem se mostrado cada vez mais suprimida por uma lógica inevitável de concorrência entre pares.
Ainda, Hoffmann et al. (2017) acrescentam à discussão como o envolvimento com trabalho, por um lado importante para satisfação e engajamento, pode, em excesso, facilitar uma submissão irrefletida à lógica do produtivismo, dificultando com que os docentes percebam fatores de risco à saúde. De acordo com tais autoras, esse envolvimento excessivo com o trabalho é mais comum entre docentes mais novos, por se mostrarem mais aguerridos e competitivos para alcançarem reconhecimento, tendo assim um gasto afetivo e emocional mais intenso que os docentes com maior experiência.
Compreendemos, por outro lado, que essa propensão também pode estar associada a um quadro já apresentado por Carlotto (2002) em discussão sobre a síndrome de burnout em docentes. Segundo esse estudo, docentes mais novos tendem a cultivar maiores expectativas a respeito de transformações e mudanças por meio da prática docente, propensão esta que se mostra mais arrefecida nos profissionais com maior tempo de experiência.
Outra dimensão a respeito desse envolvimento mais intenso e, por vezes, prejudicial à saúde é a expectativa de transformação social atrelada a aspectos ético-políticos entre os docentes. De acordo com Silva (2015), tais docentes, majoritariamente inseridos na área de humanas e de orientação política de esquerda, mostraram-se mais suscetíveis a processos de estresse e sofrimento, justamente pelo conflito dos ideais com a realidade de possibilidades presentes no trabalho docente.
Por fim, um indicativo importante para pensar a saúde e o adoecimento na docência é o fator de gênero. Sobre isso, Hoffmann et al. (2017) apresentam em seus resultados um quadro mais agravante para as mulheres, pois tendem a lidar com um custo cognitivo mais elevado do que os homens, bem como a vivenciar uma maior sensação de esgotamento em relação ao trabalho. Esses dados nos levam então ao próximo núcleo temático, ligado a gênero e docência.
Mulheres na docência
O aumento da presença de mulheres docentes na educação superior é tido como uma conquista recente em termos históricos. Consequentemente, debates sobre gênero na literatura têm sido considerados ainda incipientes, como argumentam Gemelli e Closs (2022) ao analisarem a produção científica sobre a docência na educação superior brasileiro. Todavia, também é possível observar que, cada vez mais, esses debates vêm ganhando espaço num momento social no qual há um crescimento de discussões a respeito do patriarcado, do sexismo e da desigualdade de gênero. Assim, inserida nessa sociedade, a universidade também tem sido analisada como uma instituição que reproduz essas dinâmicas, tornando tais discussões imprescindíveis (Furlin, 2016; Souza et al., 2021; Reis; March, 2021; Bonelli, 2021; Ferreira; Teixeira; Ferreira, 2022).
Os estudos que compuseram esta revisão e debruçaram-se sobre essa discussão concordam com a concepção de que o campo científico permanece sendo um universo que reproduz uma cultura machista e patriarcal, que privilegia e preserva crenças, valores e códigos que supostamente estariam restritos à experiência masculina, como a objetividade, a racionalidade e a capacidade de decisão. Em decorrência dessa cultura, uma série de estereótipos reforçam uma visão de inferiorização das mulheres (Furlin, 2016; Bonelli, 2021; Ferreira; Teixeira; Ferreira, 2022; Almeida; Almeida; Amorin, 2022).
Bonelli (2021) reitera ainda que o próprio neoliberalismo, racionalidade que avança cada vez mais na esfera da educação, vivifica essa valorização de códigos, dando ênfase a imperativos como competição, eficiência, pressão e racionalidade, símbolos associados à socialização masculina. Nesse sentido, os artigos apontam para uma deslegitimação das mulheres, especialmente em cursos da área de exatas, nos quais se exalta a racionalidade. Além disso, a literatura sobre o tema tem demonstrado que, apesar da crescente presença das mulheres nas universidades, funções hierarquicamente superiores ainda têm sido ocupadas majoritariamente por homens (Moschkovich; Almeida, 2015; Oliveira-Cruz; Wottrich; 2023).
A autora também alerta que até mesmo os avanços conquistados pelas mulheres na esfera acadêmica podem servir à lógica de assimetria de gênero. Um exemplo disso seria o aumento da presença de mulheres nos espaços de liderança, como as coordenações de curso – que por um lado é considerado uma conquista, haja vista que esses lugares por muito tempo ficaram restritos aos homens, mas por outro pode estar associado à manutenção dos estereótipos de gênero. Assim, Bonelli (2021) destaca que, por vezes, as mulheres são vistas nesses espaços de liderança mais por serem aquelas que “colocam a casa em ordem”, e não necessariamente por sua capacidade profissional e intelectual.
A consequência dessa assimetria tem sido a perpetuação dos homens nas posições de poder, decisão e reconhecimento. Já para as mulheres, têm restado não apenas a sobrecarga de trabalho, inclusive aqueles invisíveis nessa lógica de “colocar a casa em ordem”, mas também um sentimento de constante vigilância, dada a impossibilidade do erro, já que os erros entre as mulheres tendem a ser mais ressaltados em função dos estereótipos de gênero em contextos diversos, assim como no acadêmico (Furlin, 2016; Furlin, 2021; Almeida; Almeida; Amorim, 2022).
Cabe acrescentar quanto a este eixo a importância de pensar no aspecto de racialização, já que docentes mulheres negras sofrem uma dupla discriminação: de gênero e de raça. Sobre isso, um dado interessante apresentado por Ferreira, Teixeira e Ferreira (2022) a partir do Censo da Educação Superior de 2018 foi que entre as mulheres docentes, tanto em instituições públicas, como privadas, predomina-se um maior número de mulheres brancas. Ao mesmo tempo, quando observamos os dados a respeito das mulheres não brancas, percebemos que a maioria destas estão vinculadas a instituições privadas que, em comparação com as públicas, apesar dos seus desafios, apresentam condições mais favoráveis de trabalho, bem como maior reconhecimento público. Portanto, as mulheres negras têm sido reservadas às piores posições em termos de hierarquia de poder e reconhecimento (Bonelli, 2021; Ferreira; Teixeira; Ferreira, 2022).
Esta revisão apresentou um panorama a respeito dos desafios presentes na literatura sobre a docência na educação superior brasileira, desafios estes que refletem questões atuais debatidas no mundo do trabalho, de modo geral. Isso nos permite refletir que, a despeito de uma dinâmica de resistência no universo acadêmico em se reconhecer, também, como um ambiente laboral, ele não está imune às crises comuns ao mundo do trabalho. Todavia, com os evidentes avanços dessas crises, parece impossível no momento silenciar o problema, também presente no contexto acadêmico.
Em suma, assim como em outras revisões sobre a docência, este trabalho identificou que a temática da formação segue sendo uma das mais pesquisadas, seguida pela discussão a respeito da precarização, da organização e das condições de trabalho. Por mais que a temática da saúde esteja ganhando notoriedade em todos os setores da sociedade, o núcleo referente à saúde em nossa revisão foi composto por um pequeno número de artigos, o que pode estar associado aos limites dos critérios utilizados para busca. Além desses limites, entendemos que outra possível justificativa para isso reside no fato de ainda termos poucas iniciativas, especialmente institucionais e governamentais, direcionadas para o levantamento de dados mais específicos sobre a saúde das(as) docentes universitários, movimento que tem sido mais presente nas pesquisas sobre discentes. Compreendemos que essa ausência não necessariamente decorre do acaso, mas relaciona-se a uma cultura de silenciamento do sofrimento entre os docentes, categoria que parece ter pouca permissão social para explicitar dificuldades, frustrações e até mesmo processos de adoecimento, refletindo a ideologia vocacional que ainda ecoa nessa cultura.
Ainda, observamos algumas lacunas que também carecem de aprofundamento e podem vir a ser desenvolvidas em pesquisas futuras, como os desafios decorrentes do avanço tecnológico, que implica em debates como: o dilema entre “sociedade do conhecimento” e a noção de autoridade intelectual, a intensa inserção de TICs no trabalho docente, a sensação de conexão e disponibilidade ininterrupta, o excesso de exposição a telas, as novas modalidades de interação e comunicação, os benefícios e prejuízos desse avanço para os processos pedagógicos, entre outros. Além desse debate, observamos que, por mais que a precarização tenha sido um tema recorrente, pouco se discute a questão financeira na docência, ou seja, o salário, a remuneração, o desenvolvimento de carreira e outros aspectos relacionados a isso.
Por fim, esse panorama nos permitiu refletir que as pesquisas têm dado maior ênfase a categorias de análise mais amplas, de ordem macropolítica, como o debate a respeito do neoliberalismo, enquanto pouca atenção tem sido dada a dimensões mais microestruturais e de ordem psicossocial a respeito da docência, como: os conflitos decorrentes das relações sociais na vida acadêmica, as representações e imagens construídas a respeito do ofício docente, as regras e políticas implícitas que organizam o cotidiano desse universo, bem como as frustrações e as expectativas decorrentes do fazer docente.
Essa constatação sugere uma hipótese ainda a ser explorada, a saber, que talvez a parca existência na literatura nacional a respeito dos fenômenos microssociais relativos à docência na educação superior denote um sintoma psicossocial: a evitação em explicitar radicalmente um modo de vida profissional em crise. Essa hipótese parece fazer sentido quando consideramos que a explicitação radical do universo microssocial da vida docente na universidade implica lidar com problemas ideológicos os quais muitas vezes o universo acadêmico supõe não reproduzir.
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