Mal-estar na docência: explorando fatores contemporâneos que afetam a qualidade de vida e a saúde dos professores
Teacher malaise: exploring contemporary factors that affect teachers’ quality of life and health
Malestar en la docencia: explorando factores contemporáneos que afectan la calidad de vida y la salud de los docentes
Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões, Frederico Westphalen - RS, Brasil.
Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões, Frederico Westphalen - RS, Brasil.
Recebido em 05 de junho de 2025
Aprovado em 23 de junho de 2025
Publicado em 10 de janeiro de 2026
RESUMO
Este estudo tem como objetivo compreender o conceito de mal-estar na docência e identificar, na literatura, fatores que contribuem para o desenvolvimento do mal-estar e adoecimento de professores na contemporaneidade. Baseia-se em uma abordagem qualitativa, utilizando a revisão bibliográfica da literatura científica sobre o mal-estar docente. Trata-se de uma revisão integrativa da literatura. A busca ocorreu nas bases Scielo e Portal de Periódicos CAPES, contemplando o período 2015–2025, com estudos em português, inglês ou espanhol, a partir do termo “mal-estar docente”. Incluíram-se artigos revisados por pares com foco na educação básica. A seleção seguiu etapas de identificação, triagem por títulos/resumos e elegibilidade por leitura de texto completo, com remoção de duplicatas; ao final, foram incluídos 24 estudos (6 Scielo; 18 CAPES). O estudo visa compreender as perspectivas e conclusões já estabelecidas no campo acadêmico, identificando os fatores que contribuem para o desenvolvimento do mal-estar entre os docentes. Os resultados indicam que as condições de vida e de trabalho têm provocado numerosas situações de estresse, devido às incertezas e às intensas exigências impostas aos profissionais. A educação, inclusive, tem se revelado uma das profissões com maior incidência de adoecimento, com muitos profissionais desenvolvendo a síndrome de burnout ou até mesmo a depressão. Os resultados indicam ainda que o fenômeno compromete não apenas a saúde e o bem-estar dos professores, mas também a qualidade da educação, reforçando a necessidade de políticas públicas eficazes e estratégias institucionais para promoção da saúde docente. Conclui-se que enfrentar o mal-estar docente demanda uma abordagem integrada, que articule dimensões objetivas e subjetivas, visando à valorização e ao cuidado integral dos educadores.
Palavras-chave: Mal-estar docente; Burnout; Saúde dos professores; Desafios educacionais.
ABSTRACT
This study aims to understand the concept of teacher malaise and to identify, in the literature, the factors that contribute to the development of malaise and illness among teachers in contemporary times. It is based on a qualitative approach, employing a bibliographic review of the scientific literature on teacher malaise. Specifically, it is an integrative literature review. The search was conducted in the Scielo and CAPES Journal Portal databases, covering the period 2015–2025, and included studies published in Portuguese, English, or Spanish, using the term “teacher malaise”. Peer-reviewed articles focusing on basic education were included. The selection process followed the steps of identification, screening by titles/abstracts, and eligibility through full-text reading, with duplicate removal; in the end, 24 studies were included (6 from Scielo and 18 from CAPES). The study seeks to understand the perspectives and conclusions already established in the academic field, identifying the factors that contribute to the development of malaise among teachers. The results indicate that living and working conditions have generated numerous stressful situations, due to uncertainties and the intense demands imposed on professionals. Education, in fact, has proven to be one of the professions with the highest incidence of illness, with many professionals developing burnout syndrome or even depression. The findings further suggest that this phenomenon compromises not only teachers’ health and well-being but also the quality of education, reinforcing the need for effective public policies and institutional strategies to promote teacher health. It is concluded that addressing teacher malaise requires an integrated approach that articulates both objective and subjective dimensions, aimed at valuing and ensuring the comprehensive care of educators.
Keywords: Teacher malaise; Burnout; Teacher health; Educational challenges.
RESUMEN
Este estudio tiene como objetivo comprender el concepto de malestar docente e identificar, en la literatura, los factores que contribuyen al desarrollo del malestar y del padecimiento de los profesores en la contemporaneidad. Se basa en un enfoque cualitativo, utilizando la revisión bibliográfica de la literatura científica sobre el malestar docente. Se trata de una revisión integrativa de la literatura. La búsqueda se realizó en las bases de datos Scielo y Portal de Periódicos CAPES, abarcando el período 2015–2025, con estudios en portugués, inglés o español, a partir del término “malestar docente”. Se incluyeron artículos revisados por pares con foco en la educación básica. La selección siguió las etapas de identificación, cribado por títulos/resúmenes y elegibilidad mediante la lectura del texto completo, con eliminación de duplicados; al final, se incluyeron 24 estudios (6 de Scielo y 18 de CAPES). El estudio busca comprender las perspectivas y conclusiones ya establecidas en el ámbito académico, identificando los factores que contribuyen al desarrollo del malestar entre los docentes. Los resultados indican que las condiciones de vida y de trabajo han generado numerosas situaciones de estrés, debido a las incertidumbres y a las intensas exigencias impuestas a los profesionales. La docencia, de hecho, se ha revelado como una de las profesiones con mayor incidencia de padecimientos, con muchos profesionales que desarrollan el síndrome de burnout o incluso depresión. Los hallazgos señalan además que este fenómeno compromete no solo la salud y el bienestar de los docentes, sino también la calidad de la educación, reforzando la necesidad de políticas públicas eficaces y de estrategias institucionales para la promoción de la salud docente. Se concluye que enfrentar el malestar docente exige un enfoque integrado, que articule dimensiones objetivas y subjetivas, orientado a la valoración y al cuidado integral de los educadores.
Palabras clave: Malestar docente; Burnout; Balud de los docentes; Desafíos educativos.
Introdução
As transformações provocadas pela globalização e pelo predomínio de políticas de perfil neoliberal nas sociedades contemporâneas têm afetado profundamente a vida das pessoas, incluindo os profissionais da educação. Essas mudanças impactaram os campos produtivo, profissional, educacional, além de impactar outros aspectos da vida das pessoas, como a maneira como se comunicam e se relacionam. Essas transformações interferem na saúde dos sujeitos, sendo os professores uma das categorias mais afetadas (Cunha et al., 2024; Esteve, 1992; 1999; Jesus, 1998; 2001; 2007; Picado, 2009). As novas exigências e responsabilidades atribuídas ao papel docente geram desafios que muitos professores têm dificuldade em enfrentar, resultando em sofrimento significativo e, em alguns casos, no desenvolvimento da síndrome de burnout, configurando o fenômeno conhecido como mal-estar docente (Esteve, 1992; 1999; Jesus, 2001; 2007; Picado, 2009). Nesse contexto, consolida-se uma cultura de responsabilização individual que intensifica sentimentos de insuficiência, frustração e culpa ao deslocar para o sujeito o peso pelos “fracassos”, ocultando dimensões estruturais do problema (Pereira; Serra, 2024).
A atividade laboral e sua relação com o processo saúde-doença têm sido motivo de crescente preocupação entre estudiosos, tanto a nível nacional como internacional, visto que o estresse ocupacional da carreira docente tem afetado a saúde mental de muitos professores (Trevisan et al., 2022). Pereira (2016), ao abordar sobre temática, ressalta que os transtornos psicológicos entre os docentes têm sido amplamente evidenciados, tanto pelos próprios profissionais da educação quanto pela sociedade ocidental em geral. Nesse sentido, Vieira e Silva (2021) apontam que os afastamentos de função e as licenças médicas entre docentes decorrem majoritariamente de agravos de ordem emocional, seguidos por problemas associados ao desgaste físico.
Diversos estudos relatam que a saúde do professor impacta diretamente a qualidade da educação, “Os estudos atuais sobre agravos à saúde mental docente indicam a redução na atenção e na concentração, perda de autorrespeito e autocontrole em sala, além de reações exageradas com alunos em diversas situações” (Trevisan et al., 2022, p. 3). Portanto, os prejuízos do mal-estar docente não se restringem apenas à saúde dos educadores, mas se estendem a todo o ambiente educacional. Apesar dessa realidade, essa temática ainda parece não despertar a atenção dos governantes. Conforme analisam Fávero, Agostini e Rigoni (2021), a falta de políticas consistentes de formação pedagógica contribui para agravar o mal-estar docente, já que muitos professores permanecem sem o apoio necessário para enfrentar os desafios impostos pelo contexto neoliberal e pela precarização da profissão. Cunha et al. (2024) alertam que o sistema educacional sob a influência da lógica neoliberal, passou a se alinhar a esse modelo, promovendo a redução dos investimentos em políticas de bem-estar social, especialmente nas áreas de saúde e educação.
Em estudo sobre o mal-estar docente, Picado (2009) esclarece que esse fenômeno está associado a sentimentos negativos de desmotivação, desencanto com a profissão que começaram a surgir devido às transformações sociais, à desvalorização e ao alto nível de estresse que fazem parte do cotidiano escolar. Em perspectiva semelhante, Esteve (1999, p. 144), acentua que “[...] o mal-estar docente é uma doença social produzida pela falta de apoio da sociedade aos professores, tanto no que tange aos objetivos do ensino, como no que se refere às recompensas materiais e ao reconhecimento do status que lhes atribui”. Assim, destaca-se o agravamento constante dessa questão em diversas partes do mundo, onde a profissão docente sofre desgastes, relacionados às insatisfações dos professores, ao descontentamento dos alunos, à ineficácia do conhecimento (conhecida como baixa qualidade do ensino), à desconfiança em relação ao seu impacto social, bem como a fatores relacionados à aprendizagem e suas dificuldades (Stobäus; Mosquera; Santos, 2007; Vidal, 2023).
Através de uma revisão da literatura existente sobre o tema, este estudo busca compreender os fatores que contribuem para o desenvolvimento do mal-estar docente, prejudicando a saúde dos professores e interferindo negativamente no desempenho de suas funções. Essas interferências comprometem o cumprimento do papel docente e, consequentemente, diminuem a qualidade da educação. A motivação da pesquisa é que, com base nos resultados obtidos, seja possível produzir subsídios para a proposição de políticas públicas e estratégias para reverter essa situação, valorizando o professor, oferecendo assistência psicológica e combatendo o quadro de adoecimento, desinteresse e falta de atratividade pela profissão docente.
Método
Esta pesquisa adota uma abordagem qualitativa, e está organizada na forma de uma revisão bibliográfica da literatura científica sobre o mal-estar docente, na forma de uma revisão integrativa. A revisão integrativa é um método de pesquisa que reúne e sintetiza, de forma sistemática, o conhecimento disponível sobre uma temática, constituindo um corpus teórico que aprofunda a compreensão do fenômeno estudado (Ercole; Melo; Alcoforado, 2014). Para orientar a formulação da pergunta de pesquisa, utilizou-se o acrônimo PICo (População – Interesse – Contexto), apropriado para revisões integrativas em Educação e estudos qualitativos (Araújo. 2020). A pergunta norteadora foi definida nos seguintes termos: Quais fatores contemporâneos influenciam o mal-estar e a qualidade de vida dos professores da educação básica? No acrônimo PICo, estabeleceu-se: P – professores da educação básica; I – fatores associados ao mal-estar docente (adoecimento, sofrimento, estresse, burnout e impactos); Co – educação básica.
Nesta revisão integrativa, procedeu-se uma articulação entre as contribuições teóricas de autores de referência na área, como Esteve (1999), Jesus (2007), Pereira (2016), Picado (2009) e Timm, Stobäus e Mosquera (2014), entre outros e as produções mais recentes acerca da temática. Para mapear as produções recentes foi realizado um levantamento sistemático de estudos nas bases Scientific Electronic Library Online (Scielo) e Portal de Periódicos CAPES, no recorte 2015–2025.
A metodologia foi estruturada nas seguintes etapas: formulação da pergunta; definição e aplicação de critérios de inclusão e exclusão; seleção; avaliação; análise dos dados e discussão dos resultados. Para organizar o processo de identificação, triagem, elegibilidade e inclusão dos estudos, utilizou-se o fluxograma PRISMA, conforme recomendação para revisões integrativas.As buscas foram realizadas nos meses de maio e agosto de 2025, assegurando a atualização do levantamento e a inclusão das publicações mais recentes.
Nesta revisão integrativa, além da literatura consagrada sobre o tema, realizou-se uma revisão integrativa nas bases Scielo e Plataforma de Periódicos CAPES, abrangendo o intervaloo temporal 2015–2025. Incluíram-se apenas artigos revisados por pares, em português, inglês ou espanhol, pesquisados com o descritor “mal-estar docente”. Na identificação inicial foram recuperados 50 registros (6 na Scielo e 44 na CAPES). Após a triagem por títulos, permaneceram 34 (6 Scielo e 28 CAPES). Procedeu-se à remoção de duplicatas, excluindo 2 registros da CAPES por duplicidade com os da Scielo, resultando em 32 artigos para leitura de resumos e texto completo (6 Scielo e 26 CAPES). Na elegibilidade, dos 26 da CAPES, 2 foram excluídos por inacessibilidade do texto completo e 6 por não terem a educação básica como foco principal; os 6 da Scielo foram mantidos. A amostra final foi composta por 24 estudos (18 CAPES e 6 Scielo).
Os critérios de inclusão adotados foram: estudos que abordassem diretamente o mal-estar docente; pesquisas centradas em professores atuantes em sala de aula; e investigações voltadas à educação básica. Estabeleceram-se, também, os critérios de exclusão para orientar a seleção, tais como: estudos que não tivessem o mal-estar docente como foco central, pesquisas direcionadas a profissionais de funções distintas da docência e investigações realizadas fora do contexto da educação básica. Em um primeiro momento procedeu-se à análise dos títulos; em seguida, realizou-se a leitura dos resumos dos artigos, para verificar se atendiam aos objetivos da pesquisa. Confirmou-se, então, que os seis artigos selecionados poderiam compor o corpo do estudo. A coleta de dados foi realizada em etapas sequenciais: inicialmente, procedeu-se à leitura dos títulos; em seguida, dos resumos; e, por fim, dos textos completos dos artigos elegíveis. A análise dos artigos foi conduzida de forma independente por duas pesquisadoras, assegurando maior rigor e confiabilidade no processo. Numa etapa posterior, as análises foram discutidas conjuntamente para a produção do texto final. Para o tratamento dos dados, utilizou-se a análise temática de conteúdo, que possibilitou a identificação de categorias recorrentes relacionadas aos fatores que contribuem para o mal-estar docente.
O quantitativo de estudos identificados, embora represente contribuições relevantes para a compreensão do tema, ainda se mostra relativamente restrito diante da complexidade e da urgência que envolve o mal-estar docente. Essa limitação torna-se ainda mais evidente quando se considera a extensão territorial do Brasil e as profundas diferenças regionais que atravessam o exercício da docência, o que reforça a necessidade de ampliar as investigações na área, de modo a contemplar a diversidade de contextos presentes na educação básica.
Os artigos selecionados foram organizados na Tabela 1, de acordo com autores, título, ano e periódico. O gerenciamento das referências foi realizado manualmente, sem o uso de softwares específicos, assegurando a padronização das citações e referências.
Tabela 1 – Artigos selecionados na revisão integrativa sobre mal-estar docente (2015–2025) – Base Scielo
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Nº |
Título do Artigo |
Autores |
Ano |
Revista |
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1 |
Vivências, condições de trabalho e processo saúde-doença: retratos da realidade docente |
Cunha, S. D. M.; Matos Sobrinho, J. A.; Silveira, A. R.; Sampaio, C. A. |
2024 |
Educação em Revista |
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2 |
Políticas públicas em educação e o mal-estar docente |
Abreu, R. M. A.; Cruz, L. B. S.; Soares, E. L. S. |
2023 |
Revista Brasileira de Educação |
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3 |
Satisfação com a profissão docente: reflexões iniciais com base nos questionários do Saeb 2019 |
Campos, A. C. O.; Palma, R. C. D. |
2023 |
Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos |
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4 |
O mal-estar docente nas discussões sobre ensino nutrição: falas de professoras da educação básica em fóruns virtuais |
Martins, N. H. S. P.; Salvador, D. F.; Luz, M. R. M. P. |
2020 |
Trabalho, Educação e Saúde |
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5 |
A atividade curricular e pedagógica dos professores como fonte de tensões e dilemas profissionais |
Cosme, A.; Trindade, R. E. |
2017 |
Revista Brasileira de Educação |
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6 |
Trabalho docente e saúde das professoras de educação infantil de Pelotas, Rio Grande do Sul |
Vieira, J. S.; Gonçalves, V. B. M.; Duarte, M. F. |
2016 |
Trabalho, Educação e Saúde |
Fonte: Elaborado pelas autoras com base nos dados coletados da base Scielo (2025).
Tabela 2 - Artigos selecionados na revisão integrativa sobre mal-estar docente (2015–2025) – Portal de periódicos base CAPES
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Nº |
Título |
Autores |
Ano |
Revista |
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1 |
Desenvolvimento profissional, vida e carreira: história de professores atingidos pelo mal-estar docente |
Jurema Rosendo dos Santos; Lúcia Gracia Ferreira |
2016 |
Revista Educação e Emancipação |
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2 |
O mal-estar docente no ensino de Física: perspectivas e desafios |
Matheus Dias Aguiar; Fernanda da Silva Coêlho de Sá Sousa; Fabrícia da Silva Machado; Antonio Marques dos Santos |
2020 |
Pesquisa, Sociedade e Desenvolvimento |
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3 |
Ditos e não escritos sobre o mal-estar docente: a potência do ler e do escrever em ateliês |
Carla Gonçalves Rodrigues; Josimara Wikboldt Schwantz |
2016 |
Revista Digital do LAV |
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4 |
Saúde mental docente: um olhar para o profissional da rede pública de ensino |
Luana Mara Pinheiro Almeida; Erislene Rayanne Moreira Cruz; et al. |
2021 |
Brazilian Journal of Development |
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5 |
Trabalho e adoecimento do professor da educação básica no interior da Bahia |
Benedito Eugênio; Raquel Souzas; Angela Dias Di Lauro |
2017 |
Laplage em Revista |
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6 |
Mal-estar docente e políticas de formação pedagógica |
Altair Alberto Fávero; Camila Chiodi Agostini; Larissa Morés Rigoni |
2021 |
Revista Pedagógica |
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7 |
Mal-Estar Docente: reflexões sobre os desconfortos presentes no desempenho da profissão |
Terezinha do Socorro Lira Pereira; Alessandra Lima Aguiar; Sinara Almeida da Costa |
2015 |
Educação e Emancipação |
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8 |
Mal-estar docente: fatores de risco de adoecimento e sofrimento de professores em decorrência do trabalho |
Lenir Rodrigues Minghetti; Nilzo Ivo Ladwig; Lilia Kanan; Juliano Bitencourt Campos |
2022 |
Research, Society and Development |
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9 |
Mal-estar docente: das contribuições da literatura à compreensão de um problema de pesquisa |
Marlova Gross da Silva; Gilberto Ferreira da Silva |
2022 |
Revista Triângulo |
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10 |
Adoecimento docente nas escolas públicas do estado do Paraná |
Alboni Marisa Dudeque Pianovski Vieira; Elza Fagundes da Silva |
2021 |
Espaço Pedagógico |
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11 |
Mal-estar docente, e a perda de si |
Emerson Pessoa Vidal |
2023 |
Revista Latinoamericana de Estudos Educacionais |
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12 |
O mal-estar docente na Educação Infantil |
Jeciane Silva Pereira; Lia Silva Fonteles Serra |
2024 |
Caderno GPOSSHE
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13 |
Satisfação com a profissão docente: reflexões iniciais com base nos questionários do Saeb 2019 |
Alexandre
Cândido de Oliveira Campos; |
2023 |
Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos |
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14 |
A trajetória docente de mulheres que lecionam Ciências da Natureza: os desafios da docência |
Gardenia Oliveira Muniz; Talamira Taita Rodrigues Brito |
2021 |
Diversidade e Educação |
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15 |
Impactos das Condições de Trabalho na Saúde dos Professores em uma Escola Pública de Paranaíta - MT |
Alice Brito de Souza; Mariliane de Castro Pereira Marques; Eunice Brito de Souza; et. al. |
2021 |
Revista multidisciplinar e de psicologia |
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16 |
Saúde do professor em Dourados-MS: o habitus docente em foco |
Tiago Alinor Hoissa Benfica |
2017 |
Interfaces na Educação |
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17 |
O mal-estar docente: percepções a partir de uma escola da periferia de Goiânia |
Sullyvan Garcia-Silva; Reycilaine Carvalho Silva; Jordana Silva Boba; et. al. |
2025 |
Doxa Revista Brasileira de Psicologia e Educação |
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18 |
Trabalho e adoecimento do professor da educação básica no interior da Bahia |
Benedito Eugênio; Raquel Souzas; Angela Dias Di Lauro |
2017 |
Trabalho e adoecimento do professor da educação básica no interior da Bahia |
Fonte: Elaborado pelas autoras com base em dados do Portal de periódicos base CAPES (2025).
A partir dos artigos selecionados e das contribuições de autores de referência sobre a temática, buscou-se compreender as perspectivas e conclusões já consolidadas no campo acadêmico, identificando os fatores que contribuem para a disseminação do mal-estar entre os docentes e que impactam na realização de suas funções. Esses fatores podem comprometer o desempenho profissional e, consequentemente, a qualidade da educação.
Mal-estar na docência: contexto e fatores associados
A preocupação com o fenômeno do mal-estar docente é internacional e não se limita apenas a nações em desenvolvimento (Stobäus; Mosquera; Santos, 2007). As primeiras discussões sobre a síndrome do mal-estar docente surgiram na França, em 1984, com a publicação dos livros Tant qu’il y aura des profs (Enquanto houver professores) e Les enseignants (Os docentes perseguidos). Inicialmente, no mundo acadêmico, não se acreditava que algo de errado estaria acontecendo com a profissão docente. Porém, nos anos seguintes, observou-se que a profissão docente não estava mais atraindo a população jovem, o que gerou uma preocupação com a possibilidade de não haver professores suficientes para substituir os profissionais que se aposentassem, uma realidade constatada também por outros países como Alemanha e Inglaterra (Boicko; Poli, 2020).
No Brasil, o primeiro estudo abrangente sobre o adoecimento dos profissionais da educação foi realizado por Codo no ano de 1999, a pedido da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação, que registrou um índice de 48% de professores apresentando sintomas de mal-estar docente (Penteado; Souza, 2019). De acordo com Stobäus, Mosquera e Santos (2007) o fenômeno do mal-estar docente não é um conceito recente na literatura psicopedagógica. Há tempos, ele tem sido utilizado para dar nome aos efeitos negativos duradouros que incidem sobre a subjetividade do professor, muitas vezes como consequência direta das pressões psicológicas e sociais que atravessam o cotidiano da docência. Contudo, atualmente, apesar de décadas de discussão, ainda se percebe uma certa “invisibilidade” em relação à saúde mental dos professores (Penteado; Souza, 2019).
As transformações ocorridas em todos os setores sociais devido aos novos meios de produção, à globalização e ao surgimento das tecnologias, juntamente com a massificação da educação, impuseram novas exigências ao papel do professor e demandaram uma (re)construção da identidade docente. Zacharias et al. (2011, p. 28) enfatizam:
[...] herdamos um sistema educacional contraditório, que garante o acesso de todos à educação, mas sem qualidade e com grandes defasagens. Um sistema que exige do professor uma postura de permanente aprendiz, que deva estar sempre se atualizando frente às novas demandas, mas que não garante as condições necessárias de trabalho para que isto se concretize.
O trabalho do professor tornou-se mais intenso e exaustivo (Jesus, 2001). Nesse sentido, Barbosa et al. (2023) argumentam que as transformações ocorridas no campo educacional impuseram aos professores a necessidade de desenvolver um conjunto ampliado de competências, exigindo habilidades cada vez mais diversificadas para lidar com os desafios contemporâneos. Contudo, essas demandas surgiram sem o apoio adequado da sociedade e sem formação de qualidade que os capacitasse para tais desafios. Há a necessidade, inclusive, de rever o distanciamento existente nos cursos de licenciatura em relação às condições do trabalho na educação básica, que não refletem a diversidade do cotidiano docente (Zacharias et al., 2011). Assim, muitos professores tornaram-se suscetíveis ao adoecimento, tanto físico como psicológico (Minghetti et al., 2022; Silva, 2017). Jesus (2001, p. 7) já alertava “é a própria Organização Mundial de Saúde que considera o stress como ‘uma pandemia mundial’ [...]”. Cunha et al. (2024) acrescentam que o adoecimento dos professores já constitui um problema de saúde pública, exigindo a compreensão desse fenômeno e a articulação entre os processos de saúde-doença, condições sociais e laborais e sua relação existente com a esfera política. Outro ponto relevante é reconhecer que, enquanto a sociedade, em constante transformação, impõem uma adaptação quase imediata dos educadores, é igualmente necessário que lhes seja garantido o suporte necessário para que eles possam enfrentar tais exigências de forma saudável e sustentável.
Esteve (1999) destaca que o termo mal-estar docente (malaise enseignant, teacher burnout) emergiu como uma forma de descrever as diversas reações dos professores diante das mudanças sociais e educacionais. O termo engloba os sentimentos negativos que surgiram devido às transformações na sociedade e às novas demandas educacionais. Esses sentimentos incluem desmoralização, falta de motivação e desencanto, os quais passaram a fazer parte da vida de muitos professores (Jesus, 1998; 2001; Pereira, 2016; Picado, 2009). As origens do mal-estar docente são diversas e complexas, envolvendo fatores econômicos, políticos, sociais e profissionais, além de dimensões subjetivas ligadas aos próprios professores, como emoções, frustrações diante das expectativas e conflitos de valores (Stobäus; Mosquera; Santos, 2007). De acordo com Esteve (1999) o mal-estar docente está relacionado a dois grupos de fatores. Os de primeira ordem, que incluem os fatores internos da sala de aula, que dizem respeito às interações afetivas existentes entre o professor e o aluno durante todo o processo de ensino e de aprendizagem. E os de segunda ordem, que englobam fatores ambientais, externos à sala de aula e à escola, mas que afetam a eficiência da atuação docente.
Jesus (2001) relata que a profissão docente é aquela em que os profissionais mais vivem situações de estresse. O autor destaca, inclusive, que a Organização Internacional do Trabalho a classifica como uma profissão de risco. Em sua análise, distingue os fatores estressores em dois níveis: macro e micro. No nível macro, estão os aspectos sociopolíticos, como o excesso de alunos por sala, a ampliação do acesso à escola que trouxe uma diversidade maior ao público atendido, a presença de estudantes desmotivados e, muitas vezes, indisciplinados, além da pressão para que os docentes elevem os índices de desempenho escolar a padrões internacionais, mesmo sem melhorias significativas nas condições de trabalho e formação. Soma-se a isso as alterações na estrutura familiar, que têm levado à transferência de diversas funções e responsabilidades para os professores.
Impactos do mal-estar docente na saúde, na carreira e no cotidiano professional
O mal-estar docente vai além do ambiente escolar, refletindo-se em dimensões físicas e psicológicas. As pressões cotidianas, quando persistentes, fragilizam a saúde dos professores e enfraquecem o vínculo com a profissão, comprometendo sua continuidade na carreira.
Penteado e Souza (2019) destacam que, no Brasil, no que se refere ao processo de adoecimento dos docentes e ao desenvolvimento do mal-estar docente, predominam os transtornos mentais e comportamentais, além dos distúrbios de voz, doenças osteomusculares e referente ao tecido conjuntivo. De acordo com Silva (2017) existem manifestações de ordem física, dentre as quais se destacam: distúrbio na voz, problemas músculo-esqueléticas, cardiovasculares e musculares, problemas de colunas e membros inferiores, entre outros. Segundo Franco, Murgo e Costa Filho (2022), as mazelas físicas ocorrem devido a condições físicas e aos esforços realizados durante o trabalho, como posturas inadequadas e desconfortáveis, tais como ficar longos períodos em pé ou corrigindo trabalhos, que são identificados como fatores que contribuem para o desgaste e dores lombares. Além disso, o barulho excessivo e a necessidade de elevar a voz foram apontados como causas de disfonia e condições inflamatórias, como faringite e amigdalite. Isso, muitas vezes, leva a necessidade de os professores se readaptarem, ocupando outros cargos.
As manifestações de ordem psicológica incluem estresse, burnout e até mesmo a depressão. Além disso, os professores relatam outros problemas recorrentes relacionados à memória, tais como esquecimento, impaciência, irritabilidade, desânimo, desmotivação, insônia (Morais; Palma; Gondim, 2020). A síndrome de burnout, que faz parte da realidade de muitos professores, provoca vários danos psicológicos, sentimentos de esgotamento, tristeza e fracasso, associados ao ambiente de trabalho. Nogaro e Veroneze (2022, p. 1674) complementam que a “[...] persistência de emoções negativas como ansiedade e estresse [...] prejudicam o funcionamento do cérebro, podendo até destruir neurônios”.
Quanto à síndrome de burnout, Moreira (2021) esclarece que ela também pode ser denominada de Síndrome do Esgotamento Profissional ou Síndrome do Estresse Docente. Manifesta-se em trabalhos em que há muitas interações e algum tipo de serviço diário às pessoas, como os professores, profissionais da saúde, bombeiros e policiais. Picado (2009, p. 13), ao revisar vários estudos, define:
[...] burnout como um processo lento e gradual, resultante do stress prolongado, que compreende primeiramente a ‘Exaustão Emocional’ (descrevendo sentimentos de drenagem e exaustão pelo contacto com os outros); a ‘Despersonalização’ (atitude de indiferença face ao outro); seguidamente, a ‘Perda da Realização Pessoal’ (diminuição dos sentimentos de competência e de sucesso no trabalho) [...]. Trata-se de um processo que acaba por atingir os professores inicialmente motivados e esforçados, que ao longo do tempo de serviço sofrem a perda progressiva do idealismo, acabando na resignação e apatia.
Em referência a essas doenças e ao absentismo que elas provocam, Barbosa et al. (2023) revelam que o afastamento de professores do trabalho, por problema de saúde estão associados ao estresse do ambiente escolar e à sobrecarga de trabalho, sendo que, muitas vezes, o absentismo (atestado médico), são uma forma utilizada pelos professores para diminuir a tensão, o estresse e conseguirem se manter na profissão. No entanto, existe também o presenteísmo, onde professores, mesmo adoecidos, exercem sua função, sem se ausentarem do trabalho para tratamento de saúde, valendo-se, às vezes, da automedicação. O estudo de Eugênio, Souzas e Di Lauro (2017) evidencia essa realidade, em que muitos docentes continuam lecionando por dificuldade de obter licença e por receio de perdas salariais; contudo, postergar o cuidado degrada a prática pedagógica e aprofunda o mal-estar docente.
Sem desconsiderar a necessidade de novos estudos, Penteado e Souza (2019) sugerem que esse cenário pode estar associado à permanência de discursos que ainda reforçam uma concepção idealizada da docência, entendida como missão vocacionada, pautada pela lógica da doação e do sacrifício, sustentada por um ethos pastoral que atribui ao educador a responsável de salvar as crianças. Segundo esses autores, essa visão tem causado muitos danos à saúde do professor, visto que muitos docentes naturalizam o mal-estar como inerente à carreira docente, o que dificulta o reconhecimento dos impactos do trabalho em sua saúde e retarda a procura por serviços da saúde[1].
Todo esse contexto de associação da profissão docente ao sofrimento, algumas vezes, desperta o desejo de abandonar a docência, como argumenta Boicko; Poli (2024, p. 20) “muitos professores, inclusive, mudam de área, procurando uma nova ocupação e, outros tantos, que também gostariam de mudar, se veem obrigados a continuar, por não terem outra opção”. Esse fenômeno de permanecer na profissão, mesmo diante da insatisfação ou do desejo de mudança, pode ser compreendido a partir do conceito de entrincheiramento na carreira (Carson et al., 1995). O entrincheiramento refere-se à situação em que a continuidade no cargo não ocorre por realização ou desejo, mas pela ausência de alternativas viáveis (Aráujo et al., 2020). Segundo Carson et al. (1995), os trabalhadores entrincheirados podem ser aqueles que se sentem aprisionados em suas funções, por não vislumbrarem outra perspectiva de mudança, ou ainda aqueles insatisfeitos, mas que permanecem na carreira devido ao receio das incertezas inerentes a uma transição profissional.
O entrincheiramento, no contexto organizacional, decorre de múltiplas inseguranças, como o medo de perder a estabilidade financeira, o receio de fracassar em novas oportunidades, a percepção de falta de qualificação para outras áreas, o apego a benefícios adquiridos, o temor do etarismo e de enfrentar ambientes desconhecidos. De acordo com Carson et al., 1995; Aráujo et al., 2020, esses fatores contribuem para a acomodação e a percepção de impotência diante das possibilidades de mudança, fortalecendo uma lógica de sobrevivência e dificultando iniciativas de transformação profissional. Esse quadro de entrincheiramento, ao prolongar a permanência em um contexto profissional adverso, tende a intensificar o mal-estar docente, uma vez que perpetua sentimentos de insatisfação, desmotivação e impotência, agravando o desgaste físico e emocional, comprometendo a qualidade de vida e o sentido atribuído à profissão. Além disso, os profissionais tornam-se mais suscetíveis ao entrincheiramento quando escolhem uma carreira pela qual não possui identificação ou afinidade, ou ainda quando enfrentam condições precárias de trabalho, mas, por diferentes motivos, permanecem na mesma ocupação, mesmo diante da insatisfação (Carson et al., 1995).
Conforme os dados observados na pesquisa de Barbosa et al. (2023), há uma percepção maior sobre sua saúde negativa em mulheres que trabalham na educação básica há mais de 20 anos, as quais relataram os seguintes estressores ocupacionais: ruído elevado, indisciplina em sala de aula, episódios de violência verbal ou violência física praticada por estudantes, alta exigência das tarefas e tempo insuficiente para realizá-las.
Penteado e Souza (2019) ao discorrem sobre os problemas relacionados à saúde do professor, argumentam que há um agravamento devido ao fato de que, na cultura docente, o professor deve assumir o papel de cuidador dos alunos, mas frequentemente não é visto como alguém que também necessita de cuidados. Dessa forma, a promoção da saúde docente é negligenciada na organização do bem-estar dos professores, tanto pela sociedade quanto por eles próprios.
Outro ponto recorrente na literatura é que a promoção do bem-estar docente é negligenciada nas políticas públicas e reformas educacionais (Fávero; Agostini; Rigoni, 2021). Enquanto as escolas implementam diversos programas voltados à saúde dos discentes, com os professores como mediadores, os próprios docentes não são reconhecidos como sujeitos ativos no cuidado com sua saúde. Penteado; Souza (2019, p. 151) explicam: “O mal-estar docente comporta narrativas da docência e encontra-se vinculado aos desinvestimentos sociais e políticos na educação pública e na carreira docente”. Os efeitos do mal-estar docente enfrentado pelos professores resultam em custos elevados para os alunos e para o sistema educacional (Rausch; Dubiella, 2013). Assim, é imperativo que as políticas educacionais e as práticas institucionais sejam revisadas e fortalecidas, visando não apenas melhorar as condições de trabalho, mas também valorizar e apoiar os profissionais da educação.
Ao discorrer sobre os fatores que contribuem para o adoecimento do professor, Barbosa et al. (2023) apontam que há uma grande exigência no papel do professor, pois ele precisa conciliar múltiplas tarefas, coordenar atividades pedagógicas, participar da gestão escolar, elaborar projetos, alcançar metas de qualidade e lidar com a sobrecarga emocional de gerir as interações com estudantes, pais e com seus pares. Outros fatores incluem a falta de participação dos pais, a indisciplina e o desinteresse dos alunos, a baixa remuneração, a escassez de materiais didáticos, o déficit na formação, a gestão autoritária, entre outros (Silva, 2017). Abreu (2023, p. 17) argumenta ainda que o excesso de burocracia, a exigência de elaboração de múltiplos relatórios, o preenchimento de plataformas e a pressão para preparar os alunos para as avaliações em larga escala têm resultado em “uma espécie de maquiagem sofrível e sofrida da realidade escolar, o que, consequentemente, potencializa o mal-estar”.
Analisando o problema do mal-estar docente, os estudos de Morais, Palma e Gondim (2020) apontam que um dos fatores que mais prejudicam a saúde e o bem-estar dos professores, muitas vezes levando a sentimentos negativos, estresse e burnout, são as atitudes relacionadas ao comportamento inadequado dos alunos, como os episódios de falta de respeito, agressividade e indisciplina comportamental. Franco, Murgo e Costa Filho (2022) argumentam que a violência que permeia o cotidiano escolar como o vandalismo, as ameaças por parte de estudantes ou pais tem gerado efeitos negativos que comprometem o bem-estar e a qualidade de vida dos docentes.
Morais, Palma e Gondim (2020) esclarecem que professores iniciantes são especialmente afetados por fatores relacionados ao comportamento inadequado dos alunos, devido à falta de experiência e habilidade emocional, além do fato de que essas situações levam o professor a questionar sua competência e sua carreira profissional. Jesus (2001) acrescenta que a inexperiência torna os docentes em início de carreira mais vulneráveis. Outro ponto elencado, por Morais, Palma e Gondim (2020), é que a dificuldade de gerir uma sala de aula aumenta a exaustão emocional; assim, quanto mais baixo o nível de competência emocional e menor eficiência na sala de aula, maior é a propensão ao mal-estar na profissão. Nesse sentido, Bodião e Formosinho (2010) em pesquisa realizada com professoras de educação básica de Portugal, apontam que as participantes relataram a ausência de apoio no período inicial da carreira, realidade que, assim como no Brasil, se manifesta como um período marcado por maior insegurança e vulnerabilidade, tornando-o ainda mais desafiador:
[...] percebe-se também que se depararam com a inexistência de estratégias institucionais de acolhimento aos novatos, o que, para piorar, era acompanhada de uma dinâmica perversa, própria da carreira docente nas redes públicas: os iniciantes, no geral, eram indicados para as turmas mais difíceis (Bodião; Formosinho, 2010, p. 414).
Corroborando essa análise, Jung, Mira e Fossatti (2017) acrescentam que os professores recém-formados, em vez de serem devidamente acolhidos, frequentemente enfrentam grandes desafios, pois, além de lhes serem atribuídas as turmas mais difíceis, também recebem os horários menos favoráveis, o que faz com que sua trajetória profissional já se inicie de forma ainda mais adversa e desgastante.
Outro fator relevante, é que a profissão docente é predominantemente feminina e existe uma tendência cultural, em nossa sociedade, de a mulher ser a responsável pelas atividades domésticas. Assim, as professoras enfrentam uma dupla jornada de trabalho e têm pouco tempo para lazer, descanso e a realização de atividades físicas. Essa diferenciação que existe entre os gêneros corrobora para o adoecimento, sendo que, para o gênero masculino, existe uma chance maior de, no tempo livre, praticar esportes e ter mais momentos de lazer (Barbosa et al., 2023; Jesus, 1998; 2001; Muniz; Brito, 2021).
Estudos comprovam a importância dos momentos de relaxamento para a saúde mental do professor (Boicko; Poli, 2020; Jesus, 1998; 2001; 2007). No entanto, existem fatores estruturais que dificultam que os docentes possam usufruir, com qualidade, os momentos fora do ambiente escolar, como discorrem Franco, Murgo e Costa Filho (2022, p. 2198)
os motivos da insatisfação com o uso do tempo mais citados foram: o excesso de trabalho, o tempo dedicado ao trabalho que invadiu a vida pessoal, a falta de apoio institucional ou governamental [...], a falta de dinheiro para o lazer e as excessivas demandas de produção.
Esses fatores sublinham a necessidade urgente de repensar as condições de trabalho docente e de promover uma cultura que valorize o equilíbrio entre vida profissional e pessoal.
Para Silva (2017) as mudanças provocadas pela globalização, o desenvolvimento tecnológico e as reformas educacionais das últimas décadas, contribuíram significativamente para o adoecimento da categoria docente. O papel do professor foi amplamente modificado, com a atribuição de novas funções, muitas das quais eram de responsabilidade da família e da sociedade, gerando sobrecarga de trabalho e promovendo sentimentos de desânimo, desencanto e falta de prazer com a profissão (Boicko; Poli, 2020; Stobäus; Mosquera; Santos, 2007). Além disso, esse esforço exigido para além dos muros da escola não foi acompanhado de contrapartida financeira, reconhecimento social, tampouco resultou em melhores condições de trabalho ou em valorização profissional, o que contribui para o desenvolvimento do mal-estar e a desmotivação entre os docentes (Martins; Salvador; Luz, 2020; Vieira; Gonçalves; Duarte, 2016).
Outra consequência da globalização, na contemporaneidade, foi o estabelecimento de um regime de responsabilização, com ênfase na individualidade, em que cada um é responsável por si, além de uma cultura focada no desempenho e na produtividade, que incorpora a cobrança por performatividade e resultados, gerando controle, inspeções, julgamentos e competitividade entre os pares (Penteado; Souza, 2019; Ziliotto; Poli, 2024; Silva; Silva, 2022). Stobäus, Mosquera e Santos (2007, p. 263) destacam que isso resulta em um ciclo de declínio da eficácia docente, citando “esta idéia é bastante significativa, pois expressa algo que está presente entre nós: basta examinar os climas de ódio e de competição desnecessária, freqüentes nos centros educacionais”. Esse ambiente é agravado pelo aumento de ouvidorias infundadas entre professores, pela falta de apoio mútuo, de torcida e de companheirismo, dificultando a transformação da escolar em um espaço acolhedor.
Sob o ponto de vista de Franco, Murgo e Costa Filho (2022) o grande número de professores ACTs (Admitido em Caráter Temporário) acaba por aumentar esse problema. “O vínculo temporário [...] gera um ambiente de competição e tensão psicológica entre os docentes e prejudica a criação de um compromisso afetivo com a organização e de um espaço de crescimento pessoal e profissional” (Franco; Murgo; Costa Filho, 2022, p. 2198). Além disso, a instabilidade vivida pelos professores ACTs, juntamente com a necessidade de realizar provas praticamente todos os anos, gera um grande estresse. Esse contexto não favorece a construção de redes de apoio, ambiente de colaboração e amizade, essenciais para a prevenção do mal-estar docente.
Nas últimas décadas, sob o predomínio da lógica neoliberal, observa-se a precarização das condições de trabalho, impulsionada por uma lógica mercantil que prioriza o baixo custo e a produtividade. Essa dinâmica resultou na depreciação das condições escolares: redução do quadro de profissionais, aumento do número de alunos por sala e sobrecarga de tarefas. Muitos professores, diante dos baixos salários, precisam atuar em mais de uma escola e dedicar horas em casa para planejamento, correções e cumprimento de demandas burocráticas, que se intensificaram nos últimos anos. Esses fatores elevam significativamente os níveis de estresse e contribuem para o adoecimento docente (Silva, 2017). Além disso, esse contexto compromete o processo de ensino e aprendizagem, provocando déficits no desempenho dos estudantes e comprometendo a qualidade da educação. Silva (2017) destaca que o estresse vivenciado pelos professores impacta diretamente sua saúde física e mental, refletindo também em seu desempenho profissional.
O desenvolvimento tecnológico também se apresenta como um fator de tensão, sendo que muitos professores não se sentem seguros para integrá-lo no seu cotidiano. A cultura digital, cada vez mais presente no ambiente educacional, oferece novas formas de mediação pedagógica e interação com o conhecimento. No entanto, muitos professores não se sentem preparados para integrar as tecnologias digitais ao currículo, o que pode se tornar mais um fator de estresse (Araújo; Silva, 2021). Por isso, é essencial que os docentes sejam devidamente formados para integrá-las ao currículo. Outro ponto é a imagem social da profissão, construída pela mídia que, frequentemente, só ganha visibilidade quando algum professor comete um erro ou associa a imagem do professor de forma pejorativa.
Os fatores micro estão diretamente relacionados às atividades diárias do contexto escolar. Uma grande queixa é a indisciplina dos alunos. Jesus (2001, p. 11) afirma: “são cada vez mais graves e frequentes as situações de indisciplina na escola, inviabilizando toda a planificação das aulas e a qualidade do processo ensino-aprendizagem pretendida pelos professores”. O fato de que a indisciplina, frequentemente, obriga o professor a interromper a aula para organizar a turma torna-se uma grande fonte de estresse. Isso, juntamente com a sobrecarga de trabalho e a atmosfera de conflito e competitividade entre os pares, contribui para a tensão no ambiente escolar.
Esteve (1999) menciona outros fatores externos que contribuem para o aumento da ansiedade entre os professores e que os leva à desmotivação com a carreira. Entre eles, destaca a percepção equivocada do público sobre a profissão docente, a imposição de planos educacionais sem a participação efetiva dos professores na elaboração e as frequentes mudanças ideológicas que desvalorizam a educação. Campos e Palma (2023), ao analisarem o nível de satisfação docente com base na pesquisa Talis (2018)[2], destacam que os professores brasileiros afirmaram se sentir menos valorizados pela sociedade em comparação aos de outros países. Segundo os dados, enquanto a média de valorização nos demais países é de 32%, no Brasil esse índice foi de apenas 11,7%. Esteve (1999) enfatiza ainda que a culpabilização em relação aos revezes da educação, também deprecia o ego do professor, ignorando que, na maioria das vezes, o sucesso escolar depende da combinação diversos fatores externos fora do controle docente. Esses elementos, entre outros, contribuem para desmotivar ainda mais os educadores.
Boicko e Poli (2024), também destacam, dentre os fatores associados ao desenvolvimento do mal-estar docente, as transformações em curso, devido à modernização tecnológica, que exigiram uma (re)construção da identidade docente, com uma ampliação do papel do professor. Esses autores enfatizam: “as suas incertezas, as pressões, a concorrência e o culto do desempenho são fatores que geram conflito e sofrimento” (Boicko; Poli, 2024, p. 15). Destacam, ainda, a ocorrência de uma mudança na construção e organização do conhecimento. Antes, a escola que era a responsável por levar o conhecimento para a comunidade, o professor era visto como uma fonte de conhecimento altamente respeitada. No entanto, na contemporaneidade, ninguém é capaz de armazenar e processar tanta informação devido à descentralização e democratização do saber. Com isso a escola deixa de ter o monopólio do saber e passa a concorrer com outros espaços de informação.
Corroborando essa perspectiva, Stobäus, Mosquera e Santos, 2007) destacam que a autoridade do docente como especialista vem sendo questionada, contribuindo para o aumento do mal-estar. Araújo e Silva (2021) acrescentam que, atualmente, é o mundo que invade a escola com uma infinidade de informações. Essa mudança, porém, não é tão simples e torna-se, para muitos professores, um grande desafio, pois, apesar de estarmos na era da informação, isso não implica, estarmos necessariamente, na era do conhecimento. Mesmo com amplo acesso a informações, cabe ao professor ajudar os alunos a processar, interpretar e elaborar o verdadeiro conhecimento, que vai além da mera memorização.
Analisando sobre esse mesmo prisma, da realidade contemporânea, Mattos e Timm (2021, p. 4) salientam que “A complexidade das sociedades atuais, a existência de um volume sem precedentes de informação ou a centralidade do conhecimento e da sua valorização social e econômica colocam os professores perante tarefas a que não podem responder sozinhos”. Portanto, é fundamental que o governo e todo sistema educacional de suporte e capacite os professores para enfrentarem esses desafios. Além disso, a formação inicial e continuada precisa ser de qualidade para que os professores estejam melhor preparados para os novos desafios do século XXI.
Referindo-se aos múltiplos papeis acumulados na profissão docente, Silva (2017) salienta que o exercício da docência exige saberes que vão além daqueles adquiridos em sua formação inicial, implicando um constante movimento de atualização e reinvenção diante das demandas cotidianas da escola. Um curso de formação eficaz e abrangente pode ser fundamental para preparar os professores de maneira adequada, prevenindo o estresse profissional e contribuindo para a promoção do bem-estar docente.
Existem também questões subjetivas que influenciam no desenvolvimento da síndrome do mal-estar docente. Picado (2009), em seus estudos ressalta a importância do bom relacionamento professor-aluno e da afetividade. A falta dessa conexão pode levar ao desenvolvimento do mal-estar docente, uma vez que a ausência de influência positiva no comportamento dos alunos pode gerar frustração e desmotivação. Da mesma forma, a falta de uma autoimagem positiva e de autoestima pode contribuir para o aumento do mal-estar (Timm; Stobäus; Mosquera, 2014). Por outro lado, a falta de resiliência, que é a capacidade de se recuperar de adversidades, agrava ainda mais esse quadro, dificultando o enfrentamento dos desafios diários inerentes ao contexto educacional (Boicko; Poli; Marques, 2023).
Um outro conceito que pode contribuir com a análise sobre como os professores lidam com os desafios do trabalho é o conceito de locus de controle. Rotter (1966), indica a existência de dois modos de agir diante das situações: o Locus de Controle Interno (LCI) e o Locus de Controle Externo (LCE). Professores com LCE tendem a acreditar que fatores fora de seu controle, como políticas educacionais ou comportamento dos alunos, determinam seus sucessos e fracassos, o que pode aumentar o sentimento de impotência e mal-estar. Por outro lado, aqueles com LCI, que acreditam que podem influenciar diretamente seus resultados através de seus esforços, têm maior probabilidade de desenvolverem o bem-estar docente.
Devido à profissão docente envolver intensas relações interpessoais, é exigido dos professores que gerenciem suas emoções o tempo todo, tanto para fins pedagógicos, quanto para controlar e regular o comportamento dos alunos (Hargreaves, 1998). Isso inclui demonstrar emoções negativas, como desaprovação diante de atitudes inadequadas, e vice-versa, mostrar emoções positivas para incentivar os alunos. Em outros momentos, é necessária a neutralidade, como forma de controlar e modificar situações de violência (Morais; Palma; Gondim, 2020). Essa demanda emocional e o contexto instável que faz parte do cotidiano escolar também estão associados à exaustão e ao burnout. Morais, Palma e Gondim (2020, p. 19) afirmam:
Os programas de formação precisam ajudar os docentes a identificar e compreender as demandas emocionais e a enfrentar situações de trabalho cuja interação social é intensa e rotineira, gerando tensões que colocam em risco o bem-estar pessoal e alheio, impedindo de o docente vir a cumprir de modo efetivo o seu desempenho profissional.
Para além dessas dimensões emocionais, é importante destacar que o cotidiano docente também é atravessado por dilemas e tensões pedagógicas, que contribuem para o desgaste emocional. Cosme e Trindade (2017), baseados em Ana Paula Caetano (1997), identificam categorias de dilemas que marcam a prática docente. Esses dilemas expressam as tensões permanentes como decidir entre ser mais ou menos diretivos, obedecer às normas legais ou adaptar-se às circunstâncias e convicções, priorizar a transmissão de conhecimentos ou promover a formação pessoal e social, atender aos alunos mais vulneráveis ou aos mais avançados, bem como transmitir valores ou estimular sua descoberta. No campo da avaliação, os dilemas se manifestam, conforme citado por Cosme e Trindade (2017), com base em Caetano (1997), na decisão de reprovar ou não estudantes que não alcançam os objetivos mínimos, reduzir ou manter o nível de exigência, valorizar o esforço ou a capacidade, seguir critérios institucionais ou adotar critérios próprios, além de avaliar igualmente alunos com trajetórias desiguais.
Boicko; Poli (2020) complementa essas reflexões ao evidenciar que os professores vivenciam paradoxos constantes: espera-se que sejam acolhedores, compreensivos e ofereçam todo o apoio necessário, porém ao final do ano letivo decidam quem poderá ou não avançar de série, conciliando ações frequentemente contraditórias no processo de avaliação contínua. Soma-se a isso o desafio de desenvolver a autonomia individual, enquanto se promove a integração social, com regras iguais para todos. Há ainda as contradições das políticas educacionais, que direcionam o trabalho docente segundo demandas políticas e econômicas do momento. Hargreaves (1998) também acrescenta outros paradoxos, como a expectativa de que os professores sejam gentis e atenciosos, mas, ao mesmo tempo, exigentes e severos, mantenham um estado de espírito otimista e entusiasmados, mesmo convivendo com dúvidas e receios diante de um contexto repleto de incertezas. Esses dilemas intensificam o estresse, ao colocarem os professores diante de escolhas ambíguas, muitas vezes sem apoio ou condições institucionais necessárias.
Esses elementos dialogam com Rausch e Dubiella (2013), ao afirmarem que os fatores que contribuem para o mal-estar docente são diversos e contextuais. Geralmente refletem uma disfunção estrutural, na qual os docentes têm dificuldades de cumprir a demanda que a sociedade contemporânea lhes impõe. Como resultado, já existem locais onde há falta de professores em diversas áreas. Diante de tais questões, evidencia-se a complexidade do papel docente e a necessidade de uma discussão bem fundamentada sobre os fatores que influenciam como os professores enfrentam os desafios e mantêm uma atitude positiva em relação ao seu trabalho. Promover esse debate é essencial para reduzir os índices de mal-estar docente e construir um ambiente de apoio que favoreça o bem-estar dos professores e, por consequência, a qualidade da educação.
Considerações finais
O fenômeno do mal-estar docente é uma realidade preocupante no cenário educacional, trazendo consigo consequências graves para a saúde física e psicológica dos professores. As exigências impostas pelo novo cenário mundial, devido à globalização e ao avanço tecnológico, transformaram profundamente o papel do professor, exigindo novas competências e gerando uma sobrecarga de responsabilidades. No entanto, a falta de preparação adequada e o apoio insuficiente para enfrentar essas mudanças resultaram em uma crise de identidade profissional, levando ao adoecimento e à desmotivação.
Os resultados da revisão apontam que entre as questões objetivas que contribuem para o mal-estar docente, destacam-se, entre outros fatores, a precarização das condições de trabalho, associada com a desvalorização salarial e o pouco prestígio social da profissão, a massificação da educação, com salas de aula superlotadas e a presença de alunos desmotivados e indisciplinados e o excesso de burocracia. A falta de políticas públicas eficazes que promovam o bem-estar dos professores também reforça essa situação de precariedade. Além disso, a formação inicial e continuada dos professores, muitas vezes, não os prepara adequadamente para os desafios contemporâneos, resultando em uma desilusão generalizada com a carreira. Tais fatores repercutem não apenas na saúde dos docentes, mas também na qualidade da educação oferecida, já que o estresse ocupacional, os afastamentos e o presenteísmo comprometem o processo de ensino-aprendizagem e ampliam os índices de desmotivação profissional.
Por sua vez, no campo das questões subjetivas, os estudos evidenciam a relevância da qualidade da relação entre professor e aluno, entre professor e seus pares. A autoimagem e a falta de resiliência, também desempenham um papel significativo no desenvolvimento do mal-estar docente. A ausência de apoio emocional e a pressão para cumprir múltiplas funções, frequentemente além do escopo original da profissão, contribuem para o esgotamento e o burnout. Além disso, a sobrecarga feminina com a dupla jornada de trabalho e a ausência de políticas de equidade de gênero reforçam desigualdades que impactam diretamente o bem-estar docente.Contudo, considerando a complexidade e a interdependência dos diversos fatores, entende-se que as dimensões objetiva e subjetiva influenciam-se reciprocamente de forma constante.
A análise demonstrou ainda que o mal-estar docente não é apenas um problema individual, mas um fenômeno social e estrutural, vinculado às transformações neoliberais que intensificaram a lógica da performatividade, da competição e do individualismo nas escolas. Esse contexto favorece o entrincheiramento profissional, no qual professores permanecem na carreira por falta de alternativas, mesmo insatisfeitos, perpetuando ciclos de desmotivação e adoecimento.
Diante desse cenário, é urgente que políticas educacionais sejam reformuladas e que práticas institucionais sejam fortalecidas para melhorar as condições de trabalho dos professores. É necessário um maior investimento na formação continuada, no apoio psicológico e na valorização da profissão docente, para que os professores possam exercer suas funções de maneira saudável e eficaz. A promoção do bem-estar docente é essencial não apenas para a saúde dos profissionais, mas também para garantir a qualidade da educação e o futuro da sociedade.
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Notas
[1] É importante destacar que a noção de vocação não precisa estar necessariamente atrelada a esse imaginário de abnegação e martírio Pode ser compreendida como uma forma de identificação subjetiva com a profissão, resultante de escolhas conscientes, afinidades éticas e do prazer de ensinar, e não como um chamado idealizado para o sacrifício pessoal. Nesse sentido, Hargreaves (1998, p. 835) afirma que “ensinar é uma vocação apaixonada” (tradução do autor), ressaltando o envolvimento emocional como legítimo e inerente a prática pedagógica. Jesus (2024), em entrevista concedida em Portugal a uma das autoras, destacou que um dos fatores que muito predispõem ao mal-estar docente é justamente a ausência dessa identificação com a profissão. Esse quadro suscita algumas reflexões: é possível sustentar uma prática pedagógica significativa sem gostar de ensinar? Que marcas deixa na saúde emocional de um professor o fato de atuar desconectado de seu propósito? E que políticas poderiam favorecer a construção de vínculos mais autênticos entre o sujeito e sua escolha profissional?
[2] A Pesquisa Talis (Teaching and Learning International Survey), realizada pela OCDE, coleta dados sobre as condições de trabalho docente. Em 2018, contou com a participação de 48 países.