Formação de professores em serviço: a instrução ao sósia como mediação contribui para a reapropriação crítica da práxis pedagógica?

 

In-service teacher education: does the instruction to the double serve as a mediation contributing to the critical reappropriation of pedagogical praxis?

 

Formación de docentes en servicio: ¿la instrucción al doble (ID) contribuye como mediación a la reapropiación crítica de la praxis pedagógica?

 

Davis Perez
Universidade Estadual Paulista, São Paulo – SP, Brasil.
dvs.prz@gmail.com

Marina Graziela Feldmann
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo – SP, Brasil.
feldmnn@uol.com.br

 

Recebido em 21 de maio de 2026

Aprovado em 06 de março de 2026

Publicado em 24 de julho de 2026

 

RESUMO

Este estudo bibliográfico analisou dissertações e teses produzidas entre 2014 e 2024 que investigaram experiências de formação docente em situação de trabalho mediadas pela instrução ao sósia (IS). A pesquisa foi desenvolvida no âmbito de um pós-doutorado vinculado à Pós-Graduação em Educação: Currículo da PUC-SP, com aporte teórico-metodológico no Materialismo Histórico-Dialético (MHD). O objetivo primário foi compreender como as formações contribuíram para a produção de saberes, a (re)apropriação e a transmutação da atividade docente, impactando a efetivação dos saberes curriculares no cotidiano escolar. Buscou-se, também, verificar se e como essas práticas influenciaram a instação de processos de resistência dos professores frente ao trabalho estranhado, marcado pela reificação e perda do sentido da prática educativa sob o capital. Foram examinadas onze investigações acadêmicas concluídas em diferentes universidades e, como resultado, é possível apontar que apresentaram uma limitada articulação entre a análise das contradições do trabalho pedagógico e a luta pela transformação das condições concretas da docência, com aplicação do dispositivo IS principalmente focalizado na coleta de dados para pesquisa. Observou-se que grande parte das teses e dissertações estudadas assinalou limitações teóricas e metodológicas, com apropriações despolitizadas da IS e que desconsideraram seu potencial dialético. Conclui-se que a ausência de compreensão crítica da totalidade das relações societárias capitalistas e das determinações históricas do labor docente restringiu o alcance potencialmente emancipador das atividades formativas, que, em muitos casos, de modo contraditório, terminaram por reforçar uma lógica individualizante e de adaptação dos professores às demandas do capital.

Palavras-chave: Educação; Método; Formação de professores.

 

ABSTRACT

This bibliographic study analyzed dissertations and theses produced between 2014 and 2024 that investigated teacher education experiences in the workplace mediated by the Instruction to the Double (ID). The research was developed as part of a postdoctoral project affiliated with the Graduate Program in Education: Curriculum at PUC-SP, and was grounded in the theoretical-methodological framework of Historical-Dialectical Materialism (HDM). The primary objective was to understand how these training experiences contributed to the production of knowledge, the (re)appropriation, and the transformation of teaching activity, impacting the implementation of curricular knowledge in everyday school life. It also sought to verify whether, and in what ways, these practices influenced the emergence of processes of resistance among teachers in the face of alienated labor, marked by reification and the loss of meaning in educational practice under capitalism. Twelve academic studies completed at different universities were examined. As a result, it was found that most presented a limited articulation between the analysis of pedagogical work contradictions and the struggle for the transformation of concrete teaching conditions, with the use of the ID device primarily focused on data collection for research. It was observed that a significant portion of the theses and dissertations pointed to theoretical and methodological limitations, with depoliticized appropriations of the ID and a disregard for its dialectical potential. It is concluded that the absence of a critical understanding of the totality of capitalist social relations and the historical determinations of teaching labor restricted the potentially emancipatory scope of the training activities, which, in many cases, paradoxically, ended up reinforcing an individualizing logic and the adaptation of teachers to the demands of capital.

Keywords: Education; Method; Teacher education.

RESUMEN

Este estudio bibliográfico analizó tesis y disertaciones producidas entre 2014 y 2024 que investigaron experiencias de formación docente en situaciones laborales mediadas por la Instrucción al Doble (ID). La investigación se desarrolló en el marco de un proyecto de posdoctorado vinculado al Programa de Posgrado en Educación: Currículo de la PUC-SP, con fundamentación teórico-metodológica en el Materialismo Histórico-Dialéctico (MHD). El objetivo principal fue comprender cómo dichas formaciones contribuyeron a la producción de saberes, a la (re)apropiación y a la transmutación de la actividad docente, impactando la efectivación de los saberes curriculares en la vida escolar cotidiana. Asimismo, se buscó verificar si, y de qué manera, estas prácticas influenciaron la instauración de procesos de resistencia por parte de los docentes frente al trabajo enajenado, caracterizado por la cosificación y la pérdida del sentido de la práctica educativa bajo el capital. Se examinaron doce investigaciones académicas concluidas en distintas universidades y, como resultado, se observó que presentaron una articulación limitada entre el análisis de las contradicciones del trabajo pedagógico y la lucha por la transformación de las condiciones concretas de la docencia, con un uso del dispositivo ID centrado principalmente en la recolección de datos para la investigación. Se constató que gran parte de las tesis y disertaciones señalaban limitaciones teóricas y metodológicas, con apropiaciones despolitizadas de la ID y una desconsideración de su potencial dialéctico. Se concluye que la ausencia de una comprensión crítica de la totalidad de las relaciones sociales capitalistas y de las determinaciones históricas del trabajo docente restringió el alcance potencialmente emancipador de las actividades formativas que, en muchos casos, de manera contradictoria, terminaron por reforzar una lógica individualizante y de adaptación de los docentes a las exigencias del capital.

Palabras clave: Educación; Método; Formación docente.

Introdução

A presente investigação, de natureza bibliográfica, dedicou-se ao exame de dissertações de mestrado e teses de doutorado brasileiras, concluídas entre 2014 e 2024, que elegeram como objeto de pesquisa experiências de formação de professores em serviço, utilizando o dispositivo nomeado instrução ao sósia (IS), tanto como mediação desse processo formativo e estratégia interventiva no âmbito laboral, quanto como instrumento metodológico e científico. O estudo foi realizado no contexto de um programa de pós-doutoramento vinculado à Pós-Graduação stricto sensu em Educação: Currículo da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). O objetivo principal foi analisar de que maneira as experiências formativas em situação de trabalho, que utilizaram a IS e foram registradas na literatura especializada, contribuíram para a produção de conhecimentos, a (re)apropriação e a transmutação da atividade docente e, consequentemente, para a efetivação dos saberes curriculares no cotidiano escolar.

Ademais, buscou-se compreender se, e de que maneira, essas experiências impactaram a luta individual e coletiva dos professores contra o trabalho estranhado, dado que sob o ethos do capitalismo o labor educacional é assinalado pela reificação do docente, que, ao ser reduzido a mero instrumento de reprodução do capital, vê a potência da sua atividade exaurida dos saberes distintivos da sua área de especialização, da sua função formativa de novas gerações e do sentido potencialmente transformador do ensino sobre o corpo discente. Esse processo reflete o cenário de desqualificação e desumanização dos trabalhadores, em que o professor, em particular, como agente educativo, encontra-se cada vez mais desprovido de controle sobre o fazer pedagógico, apartado dos meios e dos produtos do seu ofício.

A fim de compreender essa dinâmica, as teses e dissertações que integraram a base analítica desta investigação foram decifradas a partir dos aportes do Materialismo Histórico-Dialético (MHD), conforme Marx, Engels e outros autores que cooperaram para a construção e o aprimoramento desse referencial. O MHD forneceu a fundamentação teorética necessária para a apreensão das movimentações e das contradições da atividade docente na escola enquanto práxis humana, permitindo não somente depreender os impactos e resultados das experiências formativas, mas também desvelar os usos da IS, hipoteticamente, no ensejo de mudanças significativas nas condições de trabalho dos professores e nas relações educativas.

Essa abordagem, portanto, informou as análises das metamorfoses que, neste estudo, presumivelmente foram inscritas nas práticas individuais e coletivas dos docentes partícipes de formações em serviço com uso da IS, conforme registradas nas teses e dissertações examinadas. O MHD, ao localizar a educação como parte constituinte da totalidade das relações capitalistas, oportunizou entendê-la em sua dimensão histórico-ontológica, descortinando as suas mediações e condicionalidades imanentes. Dito de outra forma, tal perspectiva, conforme Duarte (2013), propiciou interpretar a educação a partir da totalidade tangível, o que implica reconhecer que a formação humana no bojo do capitalismo está traspassada pelas formas históricas concretas e simbólicas de dominação e exploração burguesas.

Cumpre notar que a IS aqui referida é aquela que foi apropriada pelos estudiosos da Clínica da Atividade liderados por Yves Clot, a qual concebemos enquanto dispositivo metodológico dialético dirigido à mediação dos processos de examinação e de produção de saberes sobre um ofício conduzidos pelos próprios trabalhadores sob a interposição de um formador ou analista do trabalho (Perez; Ercolano, 2017). Além do mais, tal estratégia de formação e desenvolvimento humano, conforme reputamos, encontra respaldo no MHD, orientando-se, portanto, à análise crítica do trabalho em sua historicidade concreta, voltada à restituição da potência de agir dos trabalhadores sobre a propria atividade que realizam.

De forma sumária, este estudo se concentrou na apreciação de pesquisas desenvolvidas na última década e que consolidaram modos de aplicação da IS por pesquisadores brasileiros em contextos de formação e metamorfose do trabalho docente. A análise teve como eixos principais: (1) a consideração das categorias centrais do MHD (totalidade, contradição e transformação) como fundamentos para a leitura crítica da atividade docente; e (2) a compreensão do trabalho estranhado, conforme delineado por Marx (1844/2004), como categoria explicativa das formas de expropriação da atividade dos professores.

Este escopo textual introdutório compendiou o percurso investigativo, cujo horizonte crítico consistiu em superar análises fragmentárias e individualizantes do trabalho dos professores, em favor de uma reflexão que compreenda a formação docente em serviço como processo coletivo de resgate do labor enquanto atividade humana emancipada, historicamente situada e socialmente comprometida com a classe trabalhadora. A seguir, o artigo está organizado em três seções, além das Conclusões, a saber: referencial teórico; metodologia; resultados e discussões.

Referencial teórico

Esta pesquisa, tal como já aludido, se fundamenta no Materialismo Histórico-Dialético (MHD), enquanto dimensão teórica e prática que permite apreender que os fenômenos socioculturais, econômicos e políticos se constituem de modo inter-relacionado, sendo engendrados e consolidados no quadro das contradições próprias do capitalismo. Neste ponto, salienta-se que não se intencionou unicamente descrever práticas ou representações registradas na literatura especializada, mas compreendê-las enquanto expressões históricas de um processo ampliado, mediado por um amplo sortimento de condicionalidades societárias. Em face do exposto, nesta seção textual são apresentados os princípios da dialética enquanto forma de apreensão das dinâmicas do real. Ato contínuo procede-se a explicitação das categorias que orientaram a análise do corpus documental, a saber: totalidade, contradição, transformação e trabalho estranhado.

A dialética, nesta investigação, comparece não como um método entre outros, mas como uma possibilidade de vislumbrar o movimento próprio do real, enquanto mediação ontológica abalizada para revelar as movimentações imanentes do capitalismo, cuja inteligibilidade se revela na contradição como aspecto fundante das dinâmicas sócio-históricas. Retomando Hegel, nos termos formulados no prefácio da obra publicada em 1807, Fenomenologia do Espírito, julga-se que os fenômenos estudados nas teses e dissertações não se reduzem a conceitos abstratos ou às representações mentais de um objeto, mas designam a sua própria existência em processo. A dialética é, deste modo, o movimento dos conceitos enquanto expressão do devir das coisas mesmas; não é apenas método científico, mas forma do real em sua processualidade objetiva e concreta. Cumpre acentuar que, com Marx e Engels, a dialética assumiu feições críticas e revolucionárias, pois, longe de se circunscrever à esfera da ideação abstrata, principia das contradições efetivas da experiência social, sobretudo da oposição entre capital e trabalho.

É partindo do entendimento supracitado que, neste estudo, foram realizadas as análises das teses e dissertações, tomando a educação e o labor docente em seus liames tanto com a lógica da reprodução sociocultural, política e econômica vigente quanto como ambiências de resistência, produção de saberes e zonas de enfrentamentos concretos e simbólicos ao capital. À vista disso, a dialética foi mobilizada para a decifração da tessitura contraditória do real, sendo capaz de auxiliar no desenredamento dos mecanismos de dominação e exploração, bem como na identificação da potência emancipatória das práticas formativas analisadas.

Entre os constructos centrais adotados para a verificação das teses e dissertações destacam-se as categorias totalidade, contradição e transformação. A totalidade é concebida como expressão da unidade das múltiplas dimensões da realidade e como categoria indispensável tendo em conta que “[...] implica uma complexidade em que cada fenômeno só pode vir a ser compreendido como um momento definido em relação a si e em relação aos outros fenômenos” (Cury, 2000, p. 36). A contradição, por sua vez, revela-se como impulsionadora da movimentação sócio-histórica, configurando-se isocronicamente como categoria interpretativa dos fenômenos e como esfera constitutiva da realidade (Cury, 2000). A contradição se manifesta nas tensões existentes entre as distintas classes sociais: de um lado, os sujeitos que integram a força de trabalho; de outro, os detentores do capital. Além disso, ela se revela também nas relações e mediações que são estabelecidas entre sujeito e objeto na atividade de trabalho. A categoria transformação não deve ser interpretada como mero ajuste ou adaptação ao existente, tampouco como manifestação de discordâncias que, embora celebradas, resultam em conformação ao real da modernidade burguesa, mas como efetiva superação qualitativa das formas alienadas da vida social e laboral registradas no capitalismo.

Ainda, nesta pesquisa, foi conferida cuidadosa ênfase ao conceito de trabalho estranhado, formulado por Marx em seus Manuscritos Econômico-Filosóficos (1844). Tal constructo refere-se à atividade produtiva alheada, na qual o trabalhador não detém o próprio labor, os seus meios e produtos, afastando-se, por conseguinte, do objeto de trabalho, de si mesmo e da sua essência genérica. Conforme explicam Perez e Ercolano (2019), o trabalho estranhado existe somente no interior de uma lógica econômica, política e (re)produtiva social específica, o sistema capitalista, cuja centralidade acha-se no dinheiro, na valorização do valor, na produtividade e no acúmulo perenal de capital, em detrimento da humanidade dos sujeitos que compõem e sustentam os modos de produção e de relações engendrados pela burguesia para si. Tal configuração, despótica e opressiva, não apenas reduz o trabalhador à condição de mercadoria, mas o rebaixa à mais paupérrima dentre elas.

Em consonância com Feldmann (2003), a dimensão dramática que se injunge às pessoas e às coletividades da classe trabalhadora sob o capital, marcadas pela vivência do estranhamento, é evidenciada pelo fato de que o trabalho deixa de se realizar como efetivação da mais elevada vontade humana de transformação da natureza, para se converter em mecanismo vulgar de expansão indefinida do capital, orientado à intensificação contínua da exploração da força laboral e, portanto, dos próprios trabalhadores. Como assinalou Marx (1844/2004), o processo de objetivação do trabalho, sob o capitalismo, implica a desefetivação do sujeito: o objeto do trabalho torna-se estranho, hostil e independente do trabalhador, impondo-se a ele como força forânea. Concisamente, o trabalho deixa de configurar-se como exercício de autoafirmação e realização humanas, sendo destituído de seu caráter ontológico e convertido em mercadoria.

No campo educativo, o ofício do professor não escapa à estrutura de estranhamento. A crescente burocratização, a intensificação do controle institucional e a lógica da produtividade imposta às práticas educativas aprofundam a alienação docente, despotencializando sua atividade e restringindo sua atuação a uma função tecnicista e subordinada aos interesses mais ou menos explícitos da burguesia. A elaboração curricular, nessa conjuntura, frequentemente reflete os interesses de reprodução do capital, operando como instrumento de normatização e docilização de indivíduos e grupos populacionais, em lugar de se constituir como mediação emancipadora entre o saber historicamente produzido e a formação integral das pessoas. Neste cenário, ao mesmo tempo desafiador, aterrador e ameaçador para os professores, uma educação escolar orientada para o enfrentamento das mazelas capitalistas solicita que a ação educativa profissional seja compreendida, conforme Saviani (2007), como prática social mediadora da produção da existência humana, assumindo posicionamento ético-político delineado no interior dos embates historiais contra o capital. Nesse sentido, a atividade educativa não é neutra e se encontra emoldurada pelas lutas de classe, podendo operar ora como instrumento de reprodução do ordenamento capitalista, ora como locus de contestação e metamorfose social em favor da classe trabalhadora. A escola, na leitura de Duarte (2000), se institui como lugar privilegiado da mediação entre os mais altos e significativos saberes sistematizados historicamente e a formação dos indivíduos, cabendo-lhe o papel de democratizar o acesso aos conhecimentos que permitam a cada indivíduo da classe trabalhadora construir uma consciência crítica de si e do mundo, além de buscar a organização coletiva como forma de facear o capitalismo e sua classe.

Sob tal perspectiva, a formação de professores, como aquela realizada em situação de serviço e mediada pela IS, a qual foi foco desta pesquisa, não pode restringir-se à adaptação técnica às exigências do mercado ou às políticas educacionais hegemônicas, tampouco à mera recolha de dados para o cumprimento dos requisitos para a confecção de teses e dissertações. É indispensável que a formação docente vá além disso, uma vez que, para ser eficaz para a libertação e emancipação dos trabalhadores, deve ocasionar a apropriação crítica do conhecimento e impulsionar os movimentos de transformação do real por meio da própria laboralidade docente, que se consubstancializa em mediações educativas cotidianas com o corpo discente direcionadas para a oposição ao capitalismo.

Para tanto, é fundamental entender as condições materiais de produção da atividade educativa como parte da totalidade do capital. Como adverte Michael Apple (2006), os processos formativos são campos de disputa política, em que se decide que saberes serão legitimados e que projetos societários serão reproduzidos ou contestados. As atividades formativas, em vista disso, devem assegurar, entre os docentes, o entendimento do ensino como práxis. Salienta-se que, consoante com Feldmann (2003), diversos autores marxistas convergem para a percepção da práxis como uma dimensão fundamental da vida social, tal concepção implica não apenas a adequada interpretação do mundo, mas, sobretudo, a ação transformadora e revolucionária, cujo sujeito histórico é o conjunto da classe trabalhadora. Neste cenário também se situa o currículo, percebido não como um artefato neutro ou mormente técnico, mas uma criação histórica atravessada pelas relações de poder e pela luta de classes.

Por fim, nesta seção teórica, é de referir que a presente investigação se alicerçou na abordagem crítica da instrução ao sósia (IS), conforme delineada por Perez e Ercolano (2019) no texto Notas acerca da dialética como método e o caso contemporâneo do seu uso na mediação da transmutação social. Nesse trabalho, os autores propõem uma apropriação da IS como dispositivo dialético marxiano, cuja finalidade não se esgota na descrição ou análise funcionalista da atividade laboral, mas se inscreve no horizonte da transformação crítica da realidade objetiva. Fundamentada nos princípios do Materialismo Histórico-Dialético e inspirada na tradição da Psicologia e da Educação Histórica-Cultural de Vigotski, essa concepção compreende o trabalho como atividade humana historicamente estabelecida, atravessada por contradições, e a IS como meio de favorecer a (re)apropriação da atividade pelos sujeitos que a executam. Foi essa visão que orientou a análise das dissertações e teses que compõem a base desta investigação. A IS, concebida como dispositivo dialético de mediação laboral para a restituição da potência de agir dos professores sobre sua prática educativa, tal como lida por Perez e Ercolano (2019),  opera como ferramenta analítico-interventiva situada no âmago das tensões entre o capital e o trabalho, orientada à emancipação dos trabalhadores da educação. Cumpre notar que, para o exame das teses e dissertações nesta investigação, adotou-se como referência a sistematização da IS proposta por Clot (2010), composta por seis fases articuladas: (1) identificação do contexto e análise dos documentos prescritivos; (2) convite aos trabalhadores-voluntários e explicitação da IS; (3) instrução propriamente dita, com base na simulação da substituição por um sósia, papel desempenhado pelo pesquisador, na qual o trabalhador-voluntário assume a posição de instrutor; (4) atividade conversacional entre sósia e instrutor; (5) transcrição e decifração coletiva dos conteúdos da IS; e (6) restituição dos achados dos trabalhadores-voluntários ao coletivo laboral. Tal sistematização, em sintonia com os fundamentos teórico-metodológicos anteriormente delineados, subsidiou analiticamente esta pesquisa, encerrando, assim, os aportes teóricos que a sustentam.

Metodologia

Nesta pesquisa, a opção pela abordagem qualitativa decorreu da necessidade de interpretar as práticas formativas e o trabalho docente em sua complexidade, historicidade e totalidade, de acordo com a propositura de Stake (1995, apud André, 2003). O corpus analítico foi constituído por dissertações de mestrado e teses de doutorado concluídas entre 2014 e 2024 em Programas de Pós-Graduação stricto sensu, as quais se dedicaram à investigação de processos de formação de professores em serviço com o uso da IS como dispositivo metodológico. No decurso da pesquisa, foi elaborado um artigo com base na análise das obras (teses e dissertações) dos pioneiros no uso da IS para a formação e transmutação do trabalho docente, considerando os trabalhos seminais produzidos no Brasil (2008-2013). Neste estudo a seleção dos trabalhos ocorreu mediante levantamento sistemático no Banco de Teses e Dissertações da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e na Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD), considerados os principais repositórios digitais do país. Os critérios de inclusão contemplaram produções que aplicassem explicitamente a IS como método de investigação ou de intervenção formativa no contexto do trabalho docente.

No que tange à análise dos dados, adotaram-se as orientações de Bardin (2015) para ordenamento da apreciação do conteúdo das obras examinadas, a qual se estruturou em três etapas: pré-análise, exploração do material e tratamento dos resultados. Na fase de pré-análise, procedeu-se à leitura flutuante dos trabalhos, seguida pela seleção dos materiais pertinentes ao objetivo da pesquisa. Posteriormente, na exploração do material, foram identificadas as categorias teóricas oriundas do MHD, totalidade, contradição e trabalho estranhado. O exame crítico buscou apreender, em cada dissertação e tese, o grau de apropriação da IS enquanto instrumento dialético de formação e restituição da potência de agir dos docentes, bem como as maneiras pelas quais o trabalho educativo e o currículo escolar foram compreendidos e problematizados. Particular atenção foi conferida à presença (ou ausência) de articulações entre a atividade docente concreta, as condições materiais de trabalho e as determinações sociopolíticas do capitalismo contemporâneo.

Resultados e discussões

A base analítica desta investigação foi composta por onze produções acadêmicas, sendo três teses de doutorado e oito dissertações de mestrado, todas utilizando a IS como dispositivo no contexto da formação docente em serviço. Essas produções tiveram uma distribuição relativamente estável ao longo do período. Os anos de 2016, 2021 e 2023 concentram o maior número de dissertações, com dois trabalhos cada. Já os anos de 2014, 2015, 2018, 2019 e 2024 apresentam um trabalho cada.

As produções estão divididas entre diversas áreas de concentração, com predominância no campo da Linguística Aplicada (6). Quanto às instituições, os trabalhos estão vinculados a sete diferentes universidades: Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Universidade de Taubaté (UNITAU), Universidade de São Paulo (USP), Universidade Estadual do Ceará (UECE), Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) e Universidade Federal do Ceará (UFC). Essa diversidade institucional reflete o alcance da IS em múltiplos contextos acadêmicos e destaca a abrangência da sua aplicação no campo da formação de docentes. Nas páginas seguintes, as apreciações qualitativas das dissertações e teses permitirão compreender os desafios, impactos e possibilidades de transformação do trabalho docente revelados nas experiências investigadas.

A tese de Adriana Bortolini (2014), Programa de Pós-Graduação em Letras da UFSM, analisou o agir docente representado na fala de uma professora do sistema de ensino militar, utilizando a IS articulada ao Interacionismo Sociodiscursivo (ISD), à Ergonomia da Atividade e à Clínica da Atividade. A pesquisa teve como cenário o Colégio Militar de Porto Alegre, organização marcada por forte normatividade, hierarquia e padronização de procedimentos educacionais. A IS foi aplicada como dispositivo de explicitação das normas de trabalho, revelando a diversidade de tarefas e os múltiplos agentes que participam dos processos pedagógicos, mas permaneceu centrada numa leitura discursiva da atividade, haurida de enfrentamento às determinações estruturais que conformam a docência sob o capitalismo. Embora reconheça a complexidade do agir docente, o estudo não incidiu sobre o trabalho como atividade alienada, tampouco abordou o estranhamento do professor diante expropriação de seus produtos, meios e finalidades. A opção teórica privilegiou a representação linguístico-discursiva do agir em detrimento da apreensão materialista da docência como função reificada de reprodução da lógica capitalista. Dessa forma, a IS foi usada como instrumento acadêmico de acesso às representações do trabalho, mas não como dispositivo dialético de restituição da potência de agir. As contradições de classe e os mecanismos escolares de perpetuação da obediência e da produtividade não foram desvelados, apontando os limites de abordagens desprovidas de densidade crítica e reforçando a necessidade de articulação entre teoria e método à altura das determinações da alienação do trabalho docente sob o capital.

A tese de Francieli Martiny (2015), Pós-Graduação em  Linguística da UFPB, investigou o trabalho de professores iniciantes de língua estrangeira, privilegiando as representações sobre a atividade docente por meio do uso da IS. Fundamentada no ISD, na Teoria Instrumental de Rabardel e nas Ciências do Trabalho, com destaque para a Clínica da Atividade, a pesquisa acompanhou três docentes em primeiro ano de carreira, submetidos a sessões sucessivas de IS. A apropriação do dispositivo, no entanto, se restringiu à análise linguística das representações dos profissionais, sem mobilizar sua dimensão dialética e potencialmente transformadora, nem efetivar a restituição coletiva da atividade. As dificuldades vivenciadas pelos professores; como angústia diante do imprevisto, fragilidade na gestão da sala de aula, incertezas quanto ao domínio das ferramentas; foram interpretadas em nível subjetivo, sem articulação com a exigências de produtividade, a precarização e a intensificação do trabalho impostas pelo capital. O conceito de trabalho assumiu atributo funcionalista, direcionado à autoconstrução da experiência e às mediações simbólicas, eclipsando o estranhamento como núcleo constitutivo da relação entre sujeito e atividade na sociedade burguesa. O estudo não problematizou criticamente a cisão entre o professor e o produto de seu trabalho, nem abordou a submissão da formação inicial docente aos imperativos do capital e da racionalidade técnico-mercantil. A ausência de uma abordagem dialética da laboralidade limitou o alcance do estudo, impedindo-o de reconhecer a necessidade de estratégias formativas voltadas à (re)apropriação coletiva do trabalho pedagógico.

A dissertação de Gisele Barachati (2015), Programa de Pós-Graduação em Linguística Aplicada da UNITAU, investigou representações docentes sobre o ensino da escrita, com base em textos produzidos por professores em formação continuada. Utilizando o ISD e a Clínica da Atividade, a pesquisa empregou a IS apenas como técnica de acesso ao discurso docente, esvaziando seu caráter dialético e sua potência formativa voltada à (re)apropriação da atividade pelos trabalhadores. Embora tenha identificado abordagens processuais da escrita, a análise não avançou para uma crítica das determinações sociopolíticas e econômicas que condicionam o trabalho pedagógico sob o capitalismo. As tensões entre currículo prescrito e práticas docentes concretas foram tratadas de maneira descritiva, sem aprofundamento nas contradições que geram o estranhamento docente e a fragmentação curricular. A relação entre política educacional, precarização do trabalho e expropriação da atividade docente permaneceu latente, sem ser tematizada criticamente. Assim, apesar de contornar tentativas de reapropriação da prática por parte professores, a pesquisa não articulou totalmente a Clínica da Atividade com o referencial do Materialismo Histórico-Dialético, deixando de abordar a alienação docente e a negação da práxis como manifestações objetivas da logicidade capitalista. A alienação docente e a negação da práxis foram intuídas, mas não reveladas como expressões objetivas da racionalidade capitalista. A análise desta dissertação expõe a necessidade de articular teoria e método de forma crítica, para que dispositivos como a IS possam efetivamente contribuir para a emancipação do trabalho educativo.

A dissertação de Ewerton Duarte (2016), Programa de Pós-Graduação em Linguística Aplicada da UNITAU, examinou o trabalho de professores com base nas interpretações produzidas por um docente de língua inglesa do ensino médio em uma escola estadual paulista. O autor usou a IS como dispositivo metodológico, alinhado com os pressupostos da Clínica da Atividade, para a coleta e análise de registros orais e escritos do educador. O aporte teórico se situou no ISD e foi adotada a noção de linguagem como mediação constitutiva da atividade. Embora tenha vislumbrado o ensino como trabalho concreto e valorizado a narrativa docente, a aplicação da IS se reduziu à descrição individualizada do fazer pedagógico, sem avançar para a restituição coletiva ou a coanálise da atividade com vistas à transformação substancial das condições laborais. As falas do professor revelaram manifestações do estranhamento, como descompasso entre expectativas e possibilidades, sobrecarga e frustrações em relação à inoperância institucional, sinais de um trabalho despotencializado e sujeito às forças reificantes do capital. A interpretação das experiências, contudo, limitou-se ao plano subjetivo, sem associar as determinações que configuram o trabalho docente enquanto atividade estranhada. A crítica às formas de exploração e precarização, típicas da sociabilidade capitalista, foi apenas insinuada, sem explicitação das mediações econômicas, ideológicas e políticas que sustentam o esvaziamento da práxis educativa. Assim, a dissertação contribuiu pontualmente para a escuta do docente e o mapeamento dos impasses cotidianos, mas não ativou o potencial dialético da IS, tampouco instaurou um movimento efetivo de (re)apropriação da atividade docente como práxis emancipadora.

A dissertação de Mariana Barioni (2016), Programa de Pós-Graduação em Estudos Linguísticos, Literários e Tradutológicos em Francês da USP, intencionou compreender a atividade de professoras iniciantes de francês como língua estrangeira numa escola privada no interior paulista, aplicando a IS e diários reflexivos como dispositivos metodológicos. A pesquisa mobilizou como aportes o ISD, a Clínica da Atividade e a Ergonomia da Atividade dos Profissionais da Educação. O exame da dissertação sinalizou que, conquanto a pesquisadora tenha se proposto a investigar a relação entre professores iniciantes e suas prescrições laborais, tal relação não é aprofundada, tendo em consideração as contradições imanentes entre o prescrito e o real sob o ponto de vista da historicidade e da totalidade das condições do trabalho sob o capitalismo. A examinação permaneceu circunscrita ao plano das interações linguageiras e das experiências subjetivas, sem indagar dialeticamente as mediações históricas, econômicas e políticas que instituem o estranhamento do trabalho docente. A aplicação da IS foi configurada de maneira técnica, porém despolitizada, isso porque, apesar de o dispositivo ter sido usado com preocupações formativas e de recolha de dados para o estudo, as suas potencialidades dialéticas não foram objeto de interesse e nem consideradas no transcorrer do processo investigativo. As etapas da IS, especialmente a efetiva restituição ao coletivo docente, bem como a apreciação de aspectos que retrataram as conflituosidades entre o real, as prescrições e as idealizações, expostas pelas voluntárias da pesquisa, foram reduzidas a momentos de reflexão individual e microdebates entre pares, sem que se buscasse decididamente a coletividade ampliada de professores. Não se verificou, na dissertação, o uso da IS como meio de ensejar a (re)apropriação crítica da atividade laboral, tampouco como recurso eficaz para fomentar a consciência coletiva das contradições do trabalho do professor em instituições privadas de ensino de línguas, caracterizadas por forte lógica mercantil e precarização das condições de trabalho.

Sob o prisma do conceito de trabalho estranhado, é manifesto que a dissertação de Barioni não problematizou como o labor docente é esvaziado de sentido ao se submeter às prescrições institucionais e às expectativas mercatórias que organizam e subordinam o ensino no campo privado. O relato das dificuldades enfrentadas pelas professoras; como insegurança, pressão por resultados, ausência de formação prática; foi apresentado como desafio individual, e não como expressão concreta da expropriação da atividade docente, da fragmentação do saber profissional e da perda da autoatividade que caracterizam o estranhamento descrito por Marx (1844/2004). A análise, portanto, não atingiu o nível de totalidade e não contemplou o debate sobre contradições, conforme exigido de uma leitura fenomênica crítica no âmbito acadêmico que se pretenda histórica, política e socialmente situada. Ademais, a relação entre currículo e prática pedagógica também apareceu destituída da dimensão política. As prescrições curriculares foram abordadas como orientações técnicas que produzem efeitos na ação das professoras, mas não foram estudadas como instrumentos de controle ideológico da atividade docente, nem como mediações produzidas no interior da lógica de reprodução do capital. O currículo não foi perscrutado como campo de disputas, atravessado pelas lutas de classe, mas como um conjunto de orientações que devem ser apropriadas de maneira eficiente pelo professor iniciante. Em suma, não obstante a investigação de Barioni represente um esforço para compreender a inserção profissional de docentes iniciantes no ensino de francês, ela careceu de fundamentação teórico-metodológica direcionada para deslindar a estrutura concreta das condicionalidades do trabalho docente sob o capitalismo. A ausência de uma análise dialética e de uma rejeição à lógica do trabalho estranhado limitou o potencial crítico da pesquisa. A IS, nesse contexto, foi despojada de sua politicidade transformadora e utilizada apenas como ferramenta de análise introspectiva e dispositivo de recolha de dados.

A dissertação de Luciana Bessa (2018), Programa de Pós-Graduação em Linguística Aplicada da UECE, utilizou a IS como dispositivo para analisar a atividade docente no ensino da comunicação oral em língua inglesa no ensino médio público. A pesquisa dialogou com a Clínica da Atividade, integrando também elementos da filosofia bakhtiniana da linguagem e da teoria histórica-cultural de Vigotski. A IS foi aplicada em quatro fases: instrução ao sósia, observação de aula, produção de texto-comentário e coanálise da atividade. A autora evidenciou que, apesar das prescrições curriculares limitarem a promoção da oralidade, o professor participante empregava estratégias para explorar a comunicação oral em sala, embora de forma restrita. Entretanto, a análise da dissertação revelou que a IS foi majoritariamente utilizada como instrumento de coleta de dados e reflexão individual, sem promover uma restituição coletiva da atividade ou provocar uma transformação objetiva das práticas laborais. A pesquisa destacou as tensões entre o currículo prescrito e as práticas concretas, mas não avançou para uma crítica das determinações materiais e históricas que estruturam o currículo e o trabalho docente sob o capitalismo. Ainda que a abordagem teórica tenha sido substancial, ela não integrou categorias essenciais do Materialismo Histórico-Dialético, como totalidade, contradição e transformação, que são centrais para a compreensão do trabalho estranhado e da alienação na prática educativa. A despeito disso, a dissertação permitiu vislumbrar os limites das iniciativas individuais de reflexão em contextos de precarização e estranhamento do trabalho, reforçando a necessidade de práticas formativas que favoreçam a (re)apropriação coletiva da atividade docente e a luta contra as condições que fragmentam e alienam o trabalho pedagógico.

A dissertação de Soelene Modolo (2019), Programa de Pós-Graduação em Letras da UTFPR, analisou a atividade docente por meio da IS, dialogando com a Ergonomia da Atividade, o ISD e a Clínica da Atividade. O estudo privilegiou a dimensão implícita do trabalho, com atenção à gestão do tempo, aos ajustes pedagógicos cotidianos e às dificuldades didáticas enfrentadas pela professora participante. A IS foi mobilizada como técnica de descrição individualizada da experiência, sem se constituir como dispositivo coletivo de restituição de saberes nem como meio de reapropriação crítica do trabalho. A examinação limitou-se à superfície das práticas imediatas, sem integrar categorias do Materialismo Histórico-Dialético (MHD), como totalidade, contradição e alienação, fundamentais para apreender o trabalho docente como atividade estranhada. Ainda, sob a ótica do MHD, a ausência de uma crítica rigorosa à política educacional e ao ordenamento do trabalho impediu a compreensão do trabalho docente enquanto labor estranhado. A dissertação apontou que os professores realizam migrações funcionais e ajustes nos instrumentos de trabalho, buscando atender criativamente as demandas contraditórias impostas pelo contexto escolar. Entretanto, essa criatividade necessária para sobreviver no ambiente ocupacional não foi interpretada como luta contra a alienação e a coisificação do trabalho educativo, como explicitado por Marx nos Manuscritos econômico-filosóficos de 1844. Embora atenta à complexidade da prática docente, a pesquisa de Modolo não avançou na crítica das determinações capitalistas da fragmentação, superexploração e alienação do trabalho. A IS foi tratada como técnica descritiva individual, sem promover reapropriação coletiva nem resistência à mercantilização do professor. Além disso, embora a autora mobilize Vigotski e a Psicologia Histórica-Cultural, notou-se um afastamento de conteúdos materialistas-dialéticos, negligenciando o referente revolucionário da teoria vigotskiana. Sua filiação a um grupo de pesquisa afastado do MHD parece ter resultado na assimilação de um discurso que neutraliza a crítica vigotskiana ao capitalismo. Essa tendência, cada vez mais comum, como denuncia Duarte em Vigotski e o “aprender a aprender”, converte a teoria do estudioso russo em ferramenta adaptativa, limitando seu uso como instrumento de transformação radical da prática docente.

A dissertação de Andréa Santa’Ana (2021), Programa de Pós-Graduação em Linguística Aplicada da UECE, investigou, por meio da IS e entrevistas narrativas, como as prescrições da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e do Documento Curricular Referencial do Ceará (DCRC) impactam a prática de um professor de inglês no Ensino Fundamental. Ainda que esse docente demonstrasse domínio prático e capacidade de adaptação, as imposições curriculares e as condições precárias de trabalho limitaram a efetivação de um currículo emancipador. A análise, centrada na experiência individual, não aprofundou as contradições estruturais do trabalho docente sob o capitalismo, negligenciando a historicização da BNCC e seus vínculos com a lógica do capital. A autora menciona brevemente autores críticos, como Michael Apple, mas sem explorar as determinações econômicas e políticas que conformaram a reforma curricular no país. Falta à pesquisa uma apreciação questionadora sistemática à função ideológica da BNCC enquanto instrumento de formação de massas de trabalhadores adaptados às ambições do capital e, portanto, alienados dos seus interesses de classe.

A dissertação de Inaée Ribeiro (2021), Programa de Pós-Graduação em Linguística da UFPB, utilizou a IS como eixo metodológico articulada à Clínica da Atividade, ao ISD e à Linguística Aplicada crítica. Embora a aplicação da IS tenha sido rigorosa, a ausência de restituição coletiva e de ativação crítica dos professores limitou as potencialidades de uso do método enquanto instrumento de transformação. A pesquisa evidenciou a precarização do trabalho docente, marcada pela falta de prescrições institucionais e pela influência de plataformas estrangeiras, o que acentuou o estranhamento da atividade e a alienação dos sujeitos. Apesar de reconhecer a relevância da IS na formação docente, a dissertação carece de uma abordagem dialética que explicite as determinações do trabalho no capitalismo. Ao se limitar ao registro de dificuldades individuais, a análise enfraquece a crítica ao processo de mercantilização do ensino. Em síntese, a pesquisa contribuiu para o campo da educação bilíngue, mas seu exame diligente aqui realizado reafirmou a urgência de análises que articulem criticamente as condições materiais do trabalho com a luta por um currículo emancipador e por estratégias coletivas de superação do trabalho estranhado.

A dissertação de Aline Parente (2023), Programa de Pós-Graduação em Linguística Aplicada da UECE, investigou a prática docente de uma professora de Literatura do Ensino Médio, utilizando a IS e adotando uma combinação de abordagens teóricas como a Clínica da Atividade e o ISD. A pesquisa sinalizou que o trabalho da professora era marcado pela coexistência de diferentes paradigmas pedagógicos, tensionados pelas prescrições institucionais (Base Nacional Comum Curricular/BNCC e Documento Curricular Referencial do Ceará/DCRC) e pela tentativa de promover uma formação leitora crítica. No entanto, a ausência de mediações adequadas dificultou a efetivação de um currículo emancipador, resultando em práticas docentes fragmentadas e precarizadas. A partir do Materialismo Histórico-Dialético, é possível perceber que a dissertação não explorou adequadamente as condições estruturais que impõem o estranhamento do trabalho docente. O estudo relatou contradições entre o discurso pedagógico e a realidade da sala de aula, mas não contextualizou essas contradições nas determinações sociais e econômicas que marcam o labor docente no capitalismo. Embora a IS tenha proporcionado reflexões individuais sobre a prática pedagógica, a ausência de um processo coletivo de restituição restringiu o potencial transformador da pesquisa. A crítica marxista exige uma análise que vá além da subjetividade e que aborde as contradições do sistema educacional como um reflexo da lógica capitalista, o que faltou na dissertação. A análise não problematizou suficientemente a influência das reformas curriculares, como a BNCC, no processo de alienação do trabalho docente. Em resumo, a dissertação colaborou para a compreensão das dinâmicas do trabalho pedagógico, mas, à luz do MHD, destacou-se a necessidade de uma crítica ampliada das contradições estruturais que marcam o trabalho docente no capitalismo, buscando a superação do estranhamento e a construção de um currículo verdadeiramente emancipador.

A tese de doutorado de Fátima Marques (2024), Programa de Pós-Graduação em Linguística da UFC, investigou as representações sociais sobre o ensino de língua/linguagem entre professores do ensino fundamental, utilizando a IS como método de coleta e análise de dados. A pesquisa foi realizada com uma professora do quinto ano e um coletivo de professores de Língua Portuguesa dos anos iniciais, visando compreender como suas concepções e escolhas didáticas se mobilizam durante a atividade linguageira. A metodologia combinou questionário de sondagem, aplicação da IS, transcrição dos diálogos, produção de texto-comentário e rodas de conversa. O exercício de se colocar no lugar do outro (sósia) proporcionou às professoras uma reflexão crítica sobre sua prática, revelando aspectos que não eram evidentes à primeira vista. A análise da tese, no entanto, permitiu notar limitações ao não aprofundar as contradições estruturais do trabalho docente no contexto do capitalismo. Mesmo que tenha promovido uma reflexão crítica sobre a prática pedagógica, o estudo não esquadrinha as questões materiais e sociais que determinam a realidade do trabalho docente. A abordagem adotada pela estudiosa, ao mobilizar autores como Maurice Tardif, que não têm uma crítica contundente ao sistema capitalista, deixou de considerar as tensões e contradições que marcam a atividade docente na sociedade capitalista. A ausência de uma análise crítica das condições materiais da laboralidade educativa e a não tematização do estranhamento no trabalho, no sentido marxista, refrearam a compreensão das contradições vividas pelos professores. Não se considerou que o estranhamento, no quadro da dialética marxista, manifesta-se quando os professores são alienados de sua própria atividade, transformando-a em um trabalho fragmentado, como se observa nos dados registrados pela tese. A pesquisa não explorou a totalidade do contexto educacional, nem as contradições entre o discurso pedagógico e a realidade material da escola pública, subordinada às lógicas do capitalismo. Por fim, apesar da IS proporcionar momentos de reflexão, a tese poderia se beneficiar de uma análise mais robusta das condições materiais e sociais do trabalho docente, incorporando categorias do MHD, como totalidade, contradição e estranhamento. Essas categorias poderiam oferecer uma compreensão dialética da prática pedagógica, iluminando as tensões e desafios enfrentados pelos professores no exercício de sua profissão no contexto da educação capitalista.

considerações finais

As análises empreendidas acerca das dissertações e teses que mobilizaram a Instrução ao Sósia (IS) no campo da formação docente em serviço revelaram a complexidade de apropriações teórico-metodológicas em relação dispositivo por parte dos pesquisadores brasileiros, evidenciando tanto sua potência como ferramenta crítica quanto os limites impostos por sua utilização em contextos acadêmicos e institucionais que, em muitos casos, operam em dissonância com uma perspectiva transformadora do trabalho pedagógico. Observou-se que, embora a IS seja com frequência acolhida como estratégia de intervenção formativa, na maioria dos estudos examinados não se notou um enraizamento efetivo na lógica dialética e nos fundamentos ontológicos do trabalho humano, tal como formulados pelo MHD. A IS, enquanto mediação possível entre o vivido e o pensado, entre a ação individual e a reconstrução coletiva da atividade, guarda um potencial subversivo quando articulada à crítica radical das determinações históricas e sociais do trabalho docente. Entretanto, nas pesquisas analisadas, a apropriação da IS revelou-se, em geral, restrita ao plano da reflexividade individual ou ao âmbito de aprimoramentos pontuais da prática pedagógica, sem que fosse efetivada a restituição coletiva da experiência nem a desnaturalização das contradições que fundam e tensionam a docência em sociedades capitalistas.

Ao privilegiar abordagens interacionistas, fenomenológicas ou ergológicas, muitas dessas investigações acabaram por exaurir o conteúdo crítico da IS, afastando-se de uma análise da totalidade societária e das mediações objetivas que configuram o estranhamento no quadro do trabalho educativo. A ausência de uma leitura dialética da prática docente resultou na invisibilização dos antagonismos de classe, da subsunção da escola à lógica do capital e da alienação pedagógica que se expressa na perda de sentido, na intensificação do trabalho e na diluição da autonomia dos professores. Nestes termos, a IS correu o risco de se converter em dispositivo de ajuste subjetivo ao sofrimento laboral, reforçando a adaptação do sujeito às condições impostas, e não sua superação. Além disso, embora a questão curricular esteja intrinsecamente relacionada ao trabalho docente, poucas pesquisas analisadas articularam a IS a uma problematização crítica robusta do currículo escolar. Ainda, o currículo como mediação entre os condicionantes históricos da educação e a organização rotineira da prática pedagógica foi, em geral, negligenciada ou abordada de modo fragmentário, sem explorar suas determinações socioeconômicas e políticas. A compreensão do currículo como expressão das lutas de classe e campo de disputa entre projetos societários distintos esteve ausente dos estudos, o que limitou a potência teórico-crítica da IS enquanto instrumento de desvelamento das contradições educativas. A escassa tematização do currículo nos estudos examinados aponta para a necessidade de ampliar o debate sobre a formação em serviço como momento de crítica e reinvenção curricular tendo em consideração o materialismo histórico-dialético.

Em contrapartida, defendemos que, quando compreendida à luz da dialética marxista, a IS pode funcionar como disparadora de um movimento de transformação do trabalho docente enquanto práxis, ou seja, como processo em que a consciência das determinações alienantes se converte em ação coletiva e potencialmente emancipada. Nessa perspectiva, a atividade de instruir o sósia desloca-se do nível técnico-descritivo para o plano político-ontológico da retomada do gesto profissional, da construção de saberes sobre o trabalho e da crítica à ordem social que o submete. No entanto, observamos que a leitura crítica da totalidade, a explicitação das contradições internas à organização escolar, a tematização das mediações entre política educacional, currículo e prática docente, bem como o enfrentamento da alienação e do esvaziamento do trabalho vivo, não foram assumidos como eixos centrais das pesquisas analisadas. A recusa da neutralidade epistemológica e o engajamento com a transformação das condições materiais de trabalho apareceram, quando muito, de forma periférica, o que evidenciou a necessidade de avançar na constituição de um campo investigativo capaz de articular a IS a uma crítica radical do trabalho pedagógico.

Em síntese, o balanço analítico das produções acadêmicas que empregam a IS na mediação da formação docente aponta, por um lado, para a confirmação de sua potência metodológica como dispositivo de acesso indireto ao psiquismo e de análise da atividade; por outro, evidencia os riscos de sua despolitização quando descolada da crítica marxista ao trabalho estranhado. A IS somente realiza seu potencial transformador quando adotada como instrumento de mediação da construção de consciência crítica acerca das condições objetivas da docência sob o capital  e de afirmação da função social da escola como espaço de mediação e difusão dos saberes historicamente produzidos. Para tanto, é necessário que o processo formativo nela engendrado extrapole os limites da mera adaptação técnica e se configure como um movimento de crítica ao trabalho estranhado, de fortalecimento da consciência de classe e de reinvenção da prática pedagógica, orientada pela possibilidade histórica de superação do modo de produção capitalista.

 

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