A pesquisa como experiência formativa: percepções e reflexões de um coordenador de pós-graduação em Educação. Uma entrevista

 

Research as a formative experience: perceptions and reflections of a postgraduate coordinator in Education. An interview

 

La investigación como experiencia formativa: percepciones y reflexiones de una coordinadora de posgrado en Educación. una entrevista

 

Lucídio Bianchetti  https://lh7-us.googleusercontent.com/h9Ojv87ptVEgwx8PXehJNWB6RbeDlpXgP9wEPNuQgEiN1MWZqOYypeCQ59qJzbAdKq2NWcCoCxu9ig7Uxj9DQGeZQd62p5GHyOeol1sBa83pp3fhKd6TWJ4p1GJxaptf9Bd5r7OgGMw4FOSfvYdyTA      

Universidade Federal de Santa Catarina, Brasil.

lucidiob@gmail.com

 

Recebido em 20 de maio de 2025

Aprovado em 05 de junho de 2025

Publicado em 09 de fevereiro de 2026

 

RESUMO

O espaço-tempo de coordenação de um programa de pós-graduação constitui-se em um locus privilegiado, uma espécie de belvedere de observação da dinâmica formativa de mestres e doutores, da influência dos órgãos de avaliação e financiamento e do protagonismo daqueles que assumem a incumbência da gestão. Conseguir avançar e aprofundar os debates acadêmico-pedagógicos no contexto formativo da PG stricto sensu, para além das imposições burocrático-administrativas, é um desafio para aqueles que se dispõem a assumir essa função. É nesse contexto que se insere a entrevista a seguir realizada com o professor Altair Fávero, coordenador do PPGEdu/UPF tendo como mote a pesquisa: Mal-estar na pós-graduação. O tensionamento entre o protagonismo e a invisibilidade dos doutorandos.  A entrevista está estruturada a partir de dois aspectos: a) principais desafios e dificuldades enfrentadas pelos doutorandos no desenvolvimento e conclusão do seu curso; e b) ações/estratégias desencadeadas pelo Programa para assegurar a afiliação intelectual e institucional (pertencimento) dos doutorandos para que concluam com êxito seu doutorado.

Palavras-chave: Pós-graduação stricto sensu em educação; Coordenação de PG; Pertencimento; Pesquisa.

 

 

ABSTRACT

The space-time of coordinating a graduate program is a privileged locus, a kind of belvedere for observing the dynamics of educating master’s and doctors, the influence of evaluation and funding bodies, and the protagonism of those who take on management roles. Being able to advance and deepen academic-pedagogical debates in the context of master’s and doctoral programs, beyond bureaucratic-administrative impositions, is a challenge for those who are willing to take on this role. The following interview with Professor Altair Fávero, coordinator of the Graduate Program in Education at the University of Passo Fundo, RS, takes place in this context. The discussion focused on the tension between the protagonism and invisibility of doctoral students.  The interview is structured around two aspects: a) the main challenges and difficulties faced by doctoral students in the development and completion of their course; and b) actions/strategies taken by the Program to ensure the intellectual and institutional affiliation (belonging) of doctoral students so that they successfully complete their doctorate.

Keywords: Masters and doctoral program in education; Graduate program coordination; Belonging; Research.

 

RESUMEN

El espacio-tiempo de coordinación de un programa de posgrado constituye un locus privilegiado, una especie de mirador para observar la dinámica formativa de maestros y doctores, la influencia de los organismos de evaluación y financiamiento y el protagonismo de quienes asumen la responsabilidad de la gestión. Poder avanzar y profundizar debates académico-pedagógicos en el contexto formativo del PG stricto sensu, más allá de imposiciones burocrático-administrativas, es un desafío para quienes estén dispuestos a asumir ese rol. Es en este contexto que se inserta la siguiente entrevista al profesor Altair Fávero, coordinador del Programa de Posgrado en Educación de la Universidad de Passo Fundo, RS, con el tema de investigación: malestar en el posgrado. La tensión entre el protagonismo y la invisibilidad de los doctorandos. La entrevista se estructura en base a dos aspectos: a) principales retos y dificultades que enfrentan los estudiantes de doctorado en el desarrollo y culminación de su curso; y b) acciones/estrategias impulsadas por el Programa para asegurar la afiliación intelectual e institucional (pertenencia) de los doctorandos para que puedan culminar exitosamente su doctorado.

Palabras clave: Posgrado stricto sensu en educación; Coordinación de PG; Pertenencia; Investigación.

 

Contexto da Entrevista

          Em 23 de março de 2021, Altair A. Fávero nos concedeu entrevista, em sua grande parte, reproduzida na sequência. Foi a primeira de uma série de 20 entrevistas que fizemos no processo da pesquisa Mal-estar na pós-graduação. O tensionamento entre o protagonismo e a invisibilidade dos doutorandos, desenvolvida entre 2019 e 2024, com subsídios do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. Além da entrevista com 20 Coordenadores/as de Programas de Pós-graduação em Educação e de 20 Secretários/as de PPGEs – dos 94 Programas avaliados pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior à época -, participaram 786 doutorandos/as em Educação – dos 7040 que frequentavam o doutorado à época -, respondendo a um questionário[1].

          No “roteiro da entrevista”, enviado previamente aos entrevistados – juntamente com o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), para ser lido, assinado e devolvido ao pesquisador - estavam explicitados elementos relacionados à temática, à justificativa, ao problema, aos objetivos da pesquisa e às questões em torno das quais foram realizadas as entrevistas.  Em relação ao problema de pesquisa, assim estava elaborado: “Quais os aspectos que vêm gradativamente tornando visível um crescente mal-estar na ambiência da pós-graduação, tornando evidente a invisibilidade dos pós-graduandos no processo, levando-os a encontrar dificuldades de se tornarem protagonistas e a promoverem sua afiliação institucional e intelectual?”  Informava-se também o objetivo geral, assim expresso: “Investigar as formas estratégicas de afiliação institucional e intelectual por parte dos doutorandos de PPGs em Educação e sua conexão com as dificuldades de concluir o curso com qualidade e nos tempos previstos.”

          A justificativa da entrevista, no contexto da pesquisa, voltava-se ao levantamento de dados relacionados à afiliação institucional e intelectual dos doutorandos do Curso, a partir da teorização e das pesquisas do pesquisador francês Alain Coulon[2]. As questões em relação às quais o entrevistado era instado a manifestar-se voltavam-se à percepção a respeito de: 1. Quais são os principais desafios e dificuldades enfrentadas pelos doutorandos no desenvolvimento e conclusão do seu curso? 2. Quais as ações/estratégias desencadeadas pelo Programa para assegurar a afiliação intelectual e institucional (pertencimento) dos doutorandos para que concluam com êxito seu doutorado?

          A entrevista transcorreu em um clima amistoso, dado que entrevistador e entrevistado já se conhecem há longo tempo; teve a duração de 01hs e 45min e foi realizada via google meet[3] uma vez que o país se encontrava em isolamento em função da pandemia de COVID-19.

          No desenvolvimento da entrevista, após uma breve apresentação do entrevistado, relacionada à sua formação e ao contexto de sua assunção à condição de Coordenador, foi instado a manifestar-se sobre as duas questões centrais da pesquisa: desafios e dificuldades enfrentadas pelos doutorandos e ações/estratégias desencadeadas pelo Programa para assegurar a afiliação intelectual e institucional dos doutorandos visando a conclusão, com êxito, do doutorado.

          Resumidamente, em termos de desafios e dificuldades, o entrevistado destacou a questão do financiamento, a necessidade de os/as doutorandos/as terem que conciliar o doutorado, com sua condição de trabalhadores e de pais/mães de família. Estendeu-se também, na análise da situação da Universidade de Passo Fundo, RS, como universidade comunitária, agravada pela emergência da pandemia. E, na especificidade do momento vivido no ano de 2021, destacou o mal-estar causado pela pandemia de COVID-19, somando-se e potencializando outros mal-estares que comumente acometem os/as pós-graduandos/as, como aparece na literatura e em alguns casos específicos no/do Programa que o entrevistado coordenava no momento da entrevista. 

No que diz respeito às iniciativas e estratégias para contribuir com o/a doutorando/a, no sentido de criar as condições para que os/as pós-graduandos/as ingressem, desenvolvam e concluam qualificadamente seu doutorado, deu destaque ao acolhimento por parte da Instituição e do Programa, à gestão democrática do Programa, à existência e inserção dos/as doutorandos/as nos grupos de pesquisa, à importância de uma boa relação orientador-orientando, ao incentivo e subsídios para a participação em eventos, bem como a organização de eventos por parte dos doutorandos, aspecto que “dá aos alunos essa ideia de pertencimento a um campo de saber, mas também a um Programa que os identifica”. Destacou ainda a importância do envolvimento dos/as doutorandos/as com a produção do conhecimento e sua socialização em eventos, revistas, coletâneas, em coautoria, seja com o/a orientador/a e/ou com colegas do grupo de pesquisa, bem como o potencial pedagógico representado pelo estágio de docência na constituição do professor. Ao explicitar a importância da internacionalização do Programa, deu especial ênfase aos estágios sandwiche dos/as doutorandos/as e os estágios pós-doutorais do corpo docente, seja no Brasil, seja em universidades de outros países, em especial da Europa e da América Latina. 

E, para finalizar, mencionou a importância da continuidade do pertencimento dos/as doutorandos/as ao Programa por meio do reforço dos vínculos com os egressos, em especial, na sua permanência nos grupos de pesquisa e na participação das atividades desenvolvidas pelo Programa. 

Com a palavra o entrevistado

Lucídio Bianchetti (LB): Bom dia Altair! Gostaria de agradecer-te imensamente a disponibilidade para participar da nossa pesquisa, particularmente por você ser o primeiro dos 20 coordenadores de Programas que vou entrevistar no contexto da pesquisa relacionada ao mal-estar na pós-graduação, com recorte para o tensionamento entre o protagonismo e a invisibilidade dos doutorandos na pós-graduação stricto sensu. Peço-te que inicies falando brevemente sobre a tua formação acadêmica e a inserção profissional, destacando a tua condição de coordenador do PPGEdu, em termos de tempo que você está coordenando, para depois passarmos à questão da afiliação intelectual e institucional dos doutorandos na perspectiva da teorização de Alain Coulon. Numa primeira parte, gostaria também que você ressaltasse quais são os principais desafios e dificuldades enfrentados pelos doutorandos no ingresso, desenvolvimento e conclusão do curso e quais são as estratégias utilizadas pelo Programa para a recepção dos pós-graduandos visando garantir sua afiliação institucional e intelectual?

 

Altair Alberto Fávero (AF): Primeiramente, um bom dia oficial, Lucídio! Quero manifestar aqui a minha satisfação e minha alegria de poder estar contribuindo de alguma forma com a sua pesquisa, com o grupo que você coordena, e dizer de imediato que acredito profundamente na ideia de pesquisa não como atividade solitária, mas como um espaço conjunto, que vai sendo construído com os pares, com as pessoas que se somam na trajetória investigativa. Iniciando rapidamente pela minha formação, eu tenho graduação em Filosofia (1986-1989) e em História (1990-1993) na Universidade de Passo Fundo (UPF). Fui professor de História, Ensino Religioso, Sociologia e Filosofia no Ensino Médio e no Ensino Fundamental, tanto na rede estadual quanto em escolas particulares. Depois eu fiz uma especialização na própria Universidade de Passo Fundo (UPF), em Epistemologia das Ciências Sociais (1992-1993). Realizei o meu Mestrado na Pontifícia Universidade Católica do RS (PUC) em Filosofia do Conhecimento (1996-1998), defendi uma dissertação sobre o problema da causalidade em David Hume[4], principalmente por ter sido convidado para trabalhar na UPF com a disciplina de Filosofia da Ciência, e comecei a trabalhar em 1992 na UPF. Portanto, sou vinculado como professor à UPF desde 1992, nos primeiros quatro anos como professor contratado e, em 1996, realizei concurso público e passei a ser professor de carreira na instituição. O concurso realizou-se justamente no período em que eu estava iniciando o mestrado (1996-1998) em Porto Alegre, na PUC. Ainda durante o mestrado, logo após o concurso na UPF, ingressei com um projeto de pesquisa, tornando-me pesquisador da instituição, tendo horas de pesquisa desde 1997. Em 2003, eu entrei no doutorado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em Porto Alegre, na Faculdade de Educação, sob a orientação da professora Dra. Nadja Hermann e acabei defendendo a tese um pouco antes dos quatro anos previstos, mais exatamente em três anos e 10 meses (2023-2027), com uma pesquisa sobre Richard Rorty, tendo como título Redescrição de mundo e Educação[5]. Logo após o meu doutorado, no ano seguinte, abriu credenciamento de duas vagas no Programa de Pós-Graduação em Educação: uma vaga na linha de Políticas Educacionais e outra para a linha de Fundamentos da Educação aqui do PPGEdu/UPF. Eu me inscrevi para a vaga de Políticas Educacionais e acabei sendo credenciado como professor permanente do Programa. Estou no PPGEdu/UPF desde o mês de agosto de 2008 e tenho ministrado disciplinas, realizado pesquisas e orientado neste Programa, desde então. Já, em 2008, eu tive as minhas primeiras duas orientandas de mestrado. Eu não cheguei a fazer um cálculo, mas acredito que orientei por volta de 26 dissertações e oito teses de doutorado, que foram defendidas nesse período até o presente momento. Atualmente estou com seis orientandos de doutorado, quatro de mestrado e mais as orientações de iniciação científica etc.

 

LB: E como foi seu acesso a essa atividade de coordenador, que eu denomino como um (co)ordenador de processos?

 

AF: O nosso Programa, numericamente, é pequeno, do ponto de vista do corpo docente. Atualmente, somos 11 professores permanentes e um professor colaborador. Desde 2014, 2015 o Programa começou a pensar que era importante que a sua coordenação passasse por um processo de planejamento. Em 2016, quem assumiu a coordenação foi o professor Cláudio Dalbosco, que conduziu magistralmente o Programa naqueles três anos, sendo que não existia a figura do vice-coordenador. Em termos de Programa, achávamos que era importante preparar um próximo coordenador. Nesse sentido, tacitamente assumi como vice-coordenador da gestão do Cláudio Dalbosco para ser o coordenador na gestão seguinte. Agora, no último regimento da instituição e também no regimento do Programa, foi instituída a figura do vice-coordenador. Nós acordamos que o vice seria o próximo coordenador, porque é uma forma de dar continuidade, de não haver rupturas desnecessárias e, ao menos, há um entendimento, por parte do colegiado, que seja dessa forma. Desse modo, a minha condução na coordenação do Programa foi meio natural, porque eu fiquei durante três anos como vice-coordenador, mesmo que de forma tácita, não oficial e, no início de 2019, eu me tornei o coordenador do Programa, tendo agora como vice-coordenadora a professora Cleci Werner da Rosa. Nós tentamos fazer, na medida do possível, um certo rodízio entre as três linhas de pesquisa na coordenação. O professor Cláudio foi da linha 1 (Fundamentos da Educação), eu sou da linha 3 (Políticas Educacionais), e a professora Cleci é da linha 2 (Processos Educativos e Linguagens). O Programa atualmente está com estas três linhas de pesquisa, desde 2007, se não me engano. Quando eu entrei já tinham essas três linhas de pesquisa delimitadas, e continuamos com elas, com uma distribuição mais ou menos igualitária de docentes permanentes. Apenas a linha 2 tem três professores permanentes, as outras duas têm quatro professores permanentes cada uma.

 

LB: Entre a função de vice e de coordenador, então, você está há seis anos envolvido com a Coordenação do Programa. Passo agora a formular-te a questão central da pesquisa: na tua opinião quais são os principais desafios e dificuldades enfrentados/as pelos/os doutorandos/as no ingresso, desenvolvimento e conclusão (tese) do seu curso? Ressalto que nós estamos pesquisando somente com os/as doutorandos/as, em função de um tempo maior, de uma exigência que é muito mais intensa em termos de um trabalho que se supõe de autoria com autonomia. Então, quais são as principais dificuldades dos/as doutorandos/as a partir do momento em que ingressam, até a finalização, conclusão do seu curso?

 

AF: A lista dos desafios e das dificuldades poderia ser gigantesca, mas no sentido de tentar organizar um pouco a minha percepção, eu vou direcionar a partir de cinco pontos que considero como dificuldades e, ao mesmo tempo, desafios centrais dos nossos doutorandos, na minha percepção obviamente. Esses cinco pontos que vou apresentar não significa dizer que há uma hierarquia entre eles, então vou começar por um deles e vou seguindo nos demais. O primeiro deles, eu apontaria como uma dificuldade e, ao mesmo tempo, um desafio de ordem econômica e financeira. Eu digo isso porque a gente conhece bem os nossos doutorandos. Atualmente nós temos mais de 50 doutorandos no Programa, que é um número alto, dado o número de professores. Nós temos tido muita procura nos processos seletivos, claro, guardadas as proporções com a universidade pública para a nossa condição de universidade comunitária é um número expressivo, pois tem dado, em média, de três até cinco candidatos por vaga, dependendo do ano. Dentro da nossa universidade não tem nenhum outro Programa que tenha tantos candidatos como o da Educação. Eu acompanhei os três últimos processos seletivos de doutorado e, nas entrevistas dos candidatos, é quase unânime, quase todos apontam essa dificuldade. Muitos deles vêm com a expectativa de bolsa ou, ao menos, um percentual de desconto, mas nem sempre é possível, porque não existem bolsas para todos e também não têm bolsas institucionais de desconto para todos. Então, a dificuldade financeira dos nossos alunos do doutorado e também do mestrado torna-se um desafio bem importante. Quem são eles? Alguns dos nossos alunos do doutorado já estão trabalhando no ensino superior. Não é um número expressivo, mas tem um número razoável de pessoas que estão vinculadas aos Institutos Federais, a Universidades Federais novas ou estão trabalhando em alguma IES privada. Já fizeram o mestrado e agora vêm fazer o doutorado. Nós temos também alguns alunos da educação básica, mas esses têm a condição precária muito maior por conta de muitos serem professores da rede estadual, por exemplo, sendo que o seu salário, muitas vezes, não pagaria nem a mensalidade do Programa. E temos também alunos que vêm do mestrado e ingressaram direto no doutorado. São aqueles alunos que se dedicaram à pós-graduação, conseguiram fazer um mestrado com bolsa e gostaram de se envolver com pesquisa/pós-graduação e ingressaram direto. Têm, inclusive, alunos que concluíram o mestrado e imediatamente fizeram o processo seletivo para o doutorado. Estes, quase todos, estão com expectativa de bolsa. O Programa tem um número razoável de bolsas, dado a nossa condição, mas não é o suficiente para atender a demanda de todos os alunos que precisam. Assim, eu ressaltaria esse primeiro desafio, essa primeira dificuldade de ordem econômica/financeira. De 2012 a 2016, quando a UPF assumiu o protagonismo regional de investir na pós-graduação, havia muitas bolsas institucionais. Inclusive teve uma política muito interessante, que foi desenvolvida pela gestão deste período, de dar gratuidade ao aluno que havia feito graduação e mestrado na instituição. Então nós tivemos em 2017, 2018 alguns alunos do doutorado que tiveram gratuidade por conta dessa política da instituição, mas que hoje se tornou um grande problema porque, como não há ingresso de receita e como houve mudanças na forma de gerenciar o orçamento do Programa em função da crise da instituição, nós acabamos ficando com um grande problema porque agora nós temos vários alunos que têm gratuidade e não há receita, e isso se torna um rombo para o orçamento do Programa. Fizemos um exercício gigantesco no último ano para conseguir apresentar um orçamento para 2021 que pudesse ser aprovado pelo conselho diretor, por exemplo, por conta dessa política que foi muito interessante no início, mas que se tornou desastrosa do ponto de vista da mudança das regras agora. Então, uma coisa que eu destacaria neste primeiro desafio, nesta primeira dificuldade é que há uma diferença muito grande entre os alunos do doutorado que ingressam com bolsa e os alunos que não têm bolsa, no sentido de dedicação para o Programa, porque os alunos que têm bolsa, principalmente a PROSUC, que é a bolsa remunerada, são alunos que, de fato – até porque a comissão de bolsas, a coordenação é muito exigente com os bolsistas porque é dinheiro público que está aí – eles se dedicam integralmente ao Programa. Isso eu considero importante destacar porque o fato de termos alunos com bolsa remunerada, alunos que têm bolsa taxa, alunos que têm apenas um pequeno desconto e outros que não têm nenhum tipo de desconto, acaba se traduzindo numa diferença do empenho deles no curso, para a tese, para a pesquisa, para as atividades do Programa, e assim por diante.

Daria para falar muito mais nesse ponto, mas eu gostaria de passar para o segundo ponto que está, de uma certa maneira, conectado a esse primeiro, que é o tempo de dedicação ao Programa. Então, da mesma forma que eu colocava há pouco sobre a questão financeira que determina, de uma certa maneira, obviamente não de uma forma absoluta para todos, mas de um modo geral é possível perceber essa diferença. Os alunos, principalmente os que têm que pagar a sua mensalidade, precisam conciliar trabalho e estudo, trabalho e pesquisa. É visível a dificuldade que aqueles que precisam trabalhar apresentam – e às vezes uma jornada de trabalho muito dura, muito extensa – para conciliar as exigências feitas ao doutorando, seja na questão das leituras para as disciplinas, das orientações, da participação nos grupos de pesquisa, das atividades dos Programas, e assim por diante. Outro elemento nesse fator tempo e dedicação ao Programa é sobre termos alunos que vêm de longe. Temos alunos que vem de Santa Catarina, que vêm da região de Joaçaba, de Videira, de Chapecó. Esses alunos, principalmente no período em que cursam as disciplinas, precisam se deslocar toda semana, alguns fazem 250, 300 quilômetros de estrada para vir estudar em Passo Fundo. Esse deslocamento faz com que os alunos acabem gastando um tempo de estrada. Têm alunos que levantavam às quatro horas da manhã, pegavam estrada, chegavam às oito horas em Passo Fundo, tinham aula de manhã, de tarde e depois voltavam para as suas cidades, cumprindo mais 250, 300 quilômetros para retornar, porque tinham atividades por lá. Mas, ao mesmo tempo, são alunos extremamente dedicados. Agora mesmo, no mês de dezembro, eu tive um orientando que vinha de Joaçaba e ele defendeu, inclusive antes do prazo, isso está gravado inclusive na defesa da sua tese, ele fez um depoimento que é de encher os olhos de lágrimas, quando relatou todo o percurso que ele fez e destacou que escolheu o Programa porque sabia da qualidade, ele disse que faria tudo novamente pela formação que teve aqui. São depoimentos que mostram, de certa maneira, como os alunos se sentem identificados com o Programa. São todos? Não, não são todos. Há “alunos” e “alunos”. Há muitas contingências nesse processo, de como foram orientados, como se envolveram nos grupos de pesquisa, mas também é determinante esse fator de ter ou não bolsa, de estar integrado ao Programa ou não, e assim por diante. Outro fator ainda ligado à questão do tempo de dedicação ao doutorado, é sobre termos alguns alunos que são jovens, principalmente naquele grupo que eu identifiquei anteriormente, que ao terminar o mestrado já ingressaram no doutorado, mas têm outros que têm seus 40, 45 anos e que já são pais e mães de família. O fator tempo também é importante para conciliar o doutorado com as tarefas da família, dar atenção aos filhos etc., e acaba se tornando determinante em como eles conseguem se envolver ou não com o Programa.

No terceiro ponto, que eu coloco de modo bem geral porque tem a ver com desafios e dificuldades, diz respeito a perspectiva do futuro no pós conclusão do doutorado. Penso que esse também é um ponto importante de ser conversado e abriria margem, por assim dizer, para fazer uma análise mais panorâmica da pós-graduação no Brasil, no nosso caso, da pós-graduação em Educação. Porque se olharmos o crescimento da pós-graduação, que foi visível, os números mostram isso e foi um crescimento, também, em termos quantitativos. Houve também um outro movimento, que eu considero extremamente importante, que é a questão da interiorização dos doutorados. A minha geração só podia fazer doutorado se deslocando para as capitais. Aqui o nosso doutorado mais próximo em educação era Porto Alegre ou Santa Maria, que dá a mesma distância em termos de quilometragem. E essa interiorização da pós-graduação, induzida pela CAPES foi algo muito significativo porque eu tenho dito para os meus alunos, principalmente na acolhida quando ingressam no Programa, que hoje é possível fazer um doutorado de qualidade em Passo Fundo. Não é para menos que aqui temos o conceito 5. Não é conceito 5 por benevolência de alguém: foi um conceito 5 conquistado com muito trabalho, com muita dedicação da instituição, mas principalmente do corpo docente, discente e daquilo que constitui os critérios de avaliação da CAPES. Mas, por outro lado, esse crescimento também foi por conta do crescimento da educação superior, de um modo geral, e que hoje percebemos claramente um processo invertido, digamos assim. Há um processo visível da diminuição da educação superior e, por consequência, vai ter ressonância também na pós-graduação. Eu levanto isso como um panorama de fundo para falar que muitos dos doutorandos têm essa preocupação: “o que vou fazer depois que terminar o doutorado?”. Isso porque aqueles que vieram de uma trajetória de maior dedicação à pós-graduação, que terminaram o mestrado e já fizeram o doutorado, estão muito contentes por estarem se qualificando. Temos alguns alunos jovens, por volta de 27, 28 anos, o que é relativamente jovem para fazer um doutorado, mas que já está na sua linha de horizonte essa preocupação. E, então, eu destacaria três grupos de doutorandos e avalio que fora desses grupos ficariam algumas situações mais específicas, mas, de modo geral, acredito que agregaria cerca de 80% dos nossos doutorandos, porque temos um grupo de deles que já são professores da educação superior, como eu já apontei. Eu fiz um levantamento recente por conta do Relatório Sucupira, da quadrienal, o Programa de Educação da UPF começou a funcionar em 2012, já tivemos 48 teses defendidas, e temos agora mais de 50 doutorandos em processo. Esse ano de 2021 vai ter aproximadamente 12 teses defendidas. É um número alto tomando por referência o número de professores do Programa. Hoje quase todos os professores estão com uma média de 9 a 11 orientandos, somando mestrado e doutorado. Os doutorandos que já são professores e estão concursados em instituições federais constituem um grupo mais tranquilo, porque já estão com sua carreira bem encaminhada. Dos que estão trabalhando em instituições privadas, em sua grande maioria são professores contratados. Estes estão um pouco angustiados porque o que tem acontecido, e a pandemia veio acelerar ainda mais, é a diminuição do tamanho das instituições. Aquele suposto crescimento que alguns achavam que ia ser infinito está se mostrando arrefecido nesse momento. As instituições estão a cada semestre perdendo alunos e isso significa diminuição do espaço de trabalho para esses professores, que já estão atuando na educação superior. Há um segundo grupo que são os professores da educação básica, e aqui eu penso que há um elemento importante que precisa ser pensado como política educacional. Muitos desses professores que vêm da educação básica, no nosso caso, no nosso Programa, não são muitos, alguns vêm com a expectativa que após o doutorado poderão ir atuar na educação superior, mas quando olham para o horizonte e percebem que a educação superior está encolhendo, eles dizem “bom, vou continuar na educação básica”. Mas a grande pergunta é: “de que adianta ter feito doutorado se isso não representa absolutamente nada em termos de mudança de carreira?”. Eu conversei com alguns orientandos ou mesmo alguns alunos na coordenação que o doutorado não muda a condição no plano de carreira, mas uma especialização mudaria. É algo muito contraditório porque boa parte dos planos de carreira dos municípios estão defasados. No passado estava posto que a mudança se daria se o professor fizesse especialização, mas não estava previsto o mestrado e, muito menos, o doutorado. Então, talvez, um trabalho interessante que deveria, e precisa ser feito, é de que os municípios consigam mudar os seus planos de carreira porque, ao fazer isso, poderia torná-lo atrativo. Eu não tenho dúvidas de que o acréscimo de formação para o professor da educação básica que faz o mestrado, e principalmente o doutorado, possibilita a presença de um outro profissional na escola. Mas isso passa, necessariamente, pelas políticas constituídas nessa direção. O terceiro grupo de alunos, que são aqueles que eu já falava anteriormente, são os alunos que se dedicaram a ser alunos de pós-graduação, que fizeram mestrado e emendaram o doutorado. Talvez esses sejam os mais preocupados, porque a grande dúvida é “e depois que eu terminar o doutorado?”. Alguns deles não têm experiência de escola porque emendaram direto a graduação, o mestrado e o doutorado. Alguns deles têm um currículo de causar inveja porque se dedicaram, muitos deles pelo fato de terem bolsa e ter feito um bom mestrado, um bom doutorado. Têm alunos, inclusive, que têm produção melhor que professores de Programa de Pós-Graduação. Eu mesmo tenho orientandos que estão nessa condição, com artigos aprovados em Revistas A1, com livros, com boas pesquisas, com boas dissertações. Eu coloco isso como um grande desafio de fundo na perspectiva de futuro no pós-conclusão do doutorado.

Vou passar agora para o quarto ponto. Eu separei didaticamente esses cinco pontos, mas é possível perceber que todos eles se atravessam, por assim dizer, mas eu apontaria como quarto ponto o que eu chamaria de publicização da pesquisa. E, novamente, eu volto a dizer, as coisas estão, de certa maneira, alinhadas porque existe a seguinte situação: temos alunos de doutorado que já conseguiram, alguns deles já no processo do mestrado, avançar significativamente no campo da publicização das suas pesquisas. Têm artigos publicados, alguns inclusive publicaram sua dissertação em forma de livro, mas são, principalmente, aqueles alunos do doutorado que têm uma maior dedicação ao Programa. São alunos que têm bolsa, que conseguem viver, de fato, de forma mais intensa a pós-graduação. É interessante porque, talvez, uma das coisas que a indução da CAPES fez foi exatamente isso, se olharmos como eram os alunos egressos do Programa que eu coordeno atualmente há 10 anos atrás, e como são os alunos egressos de hoje, nós vemos uma diferença estrondosa. Alunos de 10 anos atrás, você olhava os currículos e não encontrava quase nada, no máximo, apresentação de trabalhos em eventos científicos. Agora há pouco, eu fiz uma visitação nos currículos em função do Relatório Sucupira, e fiquei impressionado com a quantidade de artigos publicados pelos alunos, do doutorado principalmente, com a quantidade de artigos publicados por alunos egressos dos últimos dois, três anos. Isso mostra que o Programa, e creio que não seja apenas o que eu estou coordenando, mas outros Programas também, mas este levou muito a sério essa questão da publicização da pesquisa. Eu diria que, ao mesmo tempo, é algo a ser sublinhado, mas também é um desafio, principalmente para aqueles que têm muita dificuldade para se dedicar a um tempo de maior qualidade. Então, a pergunta básica é: todos os alunos estão publicando? Não. Obviamente, também seria necessário olhar para outra característica - e penso que isso também mereceria até um estudo, que as tuas pesquisas, Lucídio, ajudam a compreender por dentro essa dinâmica. Estou me referindo ao tipo de orientador que os alunos têm. Porque você olha para os currículos dos alunos e você vê que mesmo alguns que não têm bolsa, mas tiveram envolvimento, de certa maneira, com o grupo de pesquisa, estão com uma boa produção (artigos, capítulos de livros, trabalhos em eventos). E, outros, que estão com bolsa, mas não tiveram envolvimento forte com o grupo de pesquisa, até pela forma como o próprio orientador organiza o seu trabalho, e assim por diante, estão com seus currículos quase zerados em termos de produção acadêmica. Então aqui, Lucídio, eu chamaria a atenção de que a orientação faz a diferença nesse quesito da produção científica dos doutorandos. Por isso eu vejo que a orientação não é apenas um detalhe, é um elemento fundante de como os alunos se sentem ou não, para usar a expressão do teu projeto, vinculados institucionalmente com a pesquisa, com a pós-graduação, com o próprio Programa. Outra coisa que me chama a atenção, e que ao mesmo tempo é um desafio, uma dificuldade, é essa ideia da publicação conjunta, orientador, orientando. Da mesma forma, se olharmos para as produções de 10 anos atrás, vemos que era muito raro haver esse tipo de iniciativa de orientador publicar junto com orientando. Inclusive alguns professores do Programa foram muito resistentes em concordar que orientador e orientando devem publicar juntos. Acredito que, nesse sentido, a CAPES acabou induzindo um pouco a produção em conjunto. Hoje não dá para dizer que está cem por cento, ainda não está cem por cento no Programa, mas já caminhamos a largos passos nessa direção. Nós vemos hoje muitos trabalhos – e falo isso porque estou elaborando o Relatório Sucupira e há elementos relacionados a esse aspecto na ficha de avaliação – que não ocorre a produção conjunta entre orientador/orientando; então ainda constitui um desafio para alguns professores de conseguir avançar um pouco nessa direção, mas já se avançou muito e eu acredito que isso é uma coisa interessante. A fala do coordenador da Área de Educação junto à Capes, o Bob (Robert Evan Verhine) - salvo engano, foi em Belo Horizonte, num seminário de 2018, quando o Cláudio ainda era coordenador e eu fui representá-lo no encontro de coordenadores - dizia que talvez, num futuro próximo, a produção científica mais avaliada nos Programas seria a avaliação dos discentes e não dos docentes, porque os docentes, para estarem nos Programas, deveriam já estar consolidados como pesquisadores, se não, não deveriam estar no Programa. Agora, o discente tem que mostrar e o Programa vai mostrar se está fazendo a formação de novos pesquisadores a partir da sua produção. Então, nesse sentido, eu acho que o programa já avançou bastante, mas ainda constitui um desafio.

E, por fim, para não nos estendermos e conseguir dar um espaço para a outra pergunta, eu apontaria como uma dificuldade e também como um desafio geral, da seguinte forma:  como enfrentar a crise institucional da universidade? Eu penso que, talvez, esse seja o maior desafio e a maior dificuldade como pano de fundo. Por que eu digo isso? Por conta de vários elementos que eu já fui apontando aqui nos outros aspectos abordados anteriormente. A pergunta que se faz é: qual o futuro da universidade num tempo de desmonte de políticas importantes que aconteceram nos últimos 20 anos e que hoje, sistematicamente, estão sendo destruídas? Seja na questão de financiamento da universidade, seja no sucateamento, nessa invasão predadora do espírito empresarial na universidade. E, eu diria mais, de forma mais pontual quanto ao nosso Programa, quanto à nossa universidade, qual o futuro da universidade comunitária? Eu acho que esse é um dos maiores desafios e uma das maiores dificuldades que nós teremos que enfrentar nos próximos anos. Porque a universidade comunitária hoje, de forma mais expressiva, está numa grande encruzilhada, de manter inclusive a sua identidade de universidade comunitária. Então, internamente, creio que isso não está mais claro porque hoje, talvez por conta da crise ou por conta da situação limite que a instituição se encontra, há um forte grupo que não tem mais papas na língua, inclusive para dizer que tem que se tornar uma empresa mesmo e que não há outro jeito. Então, as vozes que ainda ressoam ideias sobre “nós precisamos nos manter como uma instituição comunitária”, sobre o que ela se formou como instituição e quanto ao que ela tem que se atualizar, certamente, são cada vez menores. Isso é preocupante porque, possivelmente, quem vai sofrer mais com essa desestabilização ou destruição de uma identidade comunitária são, de fato, as humanidades. A própria Educação, apesar de ser o Programa que hoje mais tem alunos, é o Programa que tem o melhor conceito de todos os Programas, mas também vai se fragilizar na medida que se destrói essa ideia de universidade comunitária. Então ela se torna um desafio nesse sentido. E, talvez, eu coloco como desafio porque é necessário que se faça um movimento para que a comunidade entenda o que é uma universidade comunitária. Claro que esse discurso não é de hoje, é desde sempre. Eu estou quase completando 30 anos de UPF como professor e me lembro que isso sempre foi pauta de discussão e preocupação. Mas eu avalio que ainda não foi uma pauta suficientemente levada a sério para fazer com que a comunidade regional, de fato, abrace a universidade como uma universidade comunitária. A ideia de universidade comunitária é muito distorcida porque quando você observa o empresariado, por exemplo, ele faz questão de dizer que a universidade é comunitária, mas para ele se beneficiar dela. Mas o mesmo não acontece quando poderia dar o contributo para que essa instituição se mantenha como comunitária. Da mesma forma, eu diria dos poderes políticos regionais, os prefeitos. Hoje eu vejo com muita tristeza, por exemplo, eventualmente alguns prefeitos de algumas pequenas prefeituras da região fazendo convênios com instituições pouco sérias, de qualquer lugar do Brasil, abrindo polos EaD, apenas para fazer propaganda política, e fazendo com que muitos desses alunos sejam, literalmente, ludibriados por fazerem um curso de baixíssima qualidade que, certamente, não vai colocá-los no mercado de trabalho. Isso tem impactos direto nos futuros alunos do doutorado porque na medida que você vai desestabilizando essa ideia da universidade como um lugar importante de formação, você também vai desqualificando a ideia de que é importante ter bons cursos de doutorado como é, por exemplo, o doutorado em Educação que atualmente eu estou coordenando.

 

LB: Muito bem Altair. Excelente exposição, com muitos detalhes a respeito dos principais desafios e as principais dificuldades enfrentadas pelos doutorandos. Podemos passar agora para a segunda questão?

 

AF: Perfeito.

 

LB: Quais são as ações e as estratégias desencadeadas pelo programa para assegurar a afiliação intelectual e institucional? Isto é, o que é feito para garantir o pertencimento dos doutorandos ao Programa para que entrem, se sintam partícipes e concluam o seu doutorado?

 

AF: Eu aqui vou ser um pouco mais sucinto, embora vá focar mais aspectos. Separei nove pontos que eu gostaria de falar sobre essa sua pergunta. Claro que novamente volto a dizer que esses pontos não são hierárquicos e também se complementam.

 

LB: É interessante que na outra questão você relacionou cinco, aqui você aponta para nove aspectos. Na verdade, o peso da entrevista ou a sua âncora é essa questão da construção do sentimento do pertencimento do aluno ao Programa. Mas evidentemente esta questão está interconectada com aquela dos empecilhos e dificuldades que o/a doutorando/a se defronta no ingresso, no desenvolvimento e na conclusão do doutorado.

 

AF: Eu vou começar pelo primeiro, que eu chamaria de acolhimento dos alunos, e acredito que esse é um elemento que salta aos olhos desde a coordenação do Programa. Agora, em função da pandemia e a necessidade do isolamento, eu sinto uma falta imensa de estar na UPF, estar lá circulando pelos corredores. Nos tempos de presencialidade eu estava todos os dias na universidade, nunca trabalhava em casa, era de segunda a sexta e, às vezes, até no sábado de manhã. O Programa funciona mais nas quintas e sextas-feiras, mas nos outros dias, por exemplo, na quarta-feira tem reunião de colegiado, na segunda e terça eu tinha aulas na graduação, então, eu praticamente vivia dentro da universidade. Geralmente de manhã eu me dedicava em casa, mas de tarde e de noite eu estava direto na universidade. Mas, começando pela coordenação, passando pela secretaria e pelo corpo docente, todos os anos nós fazemos uma espécie de avaliação não identificada com os alunos e é impressionante como eles avaliam bem o trabalho da secretaria do Programa. Eles se sentem de fato bem-informados. Agora a pandemia acabou desorganizando um pouco isso por várias razões, mas sempre foi uma das nossas grandes características esse trabalho de acolhimento. Começando pelo processo seletivo. Nós sempre colocamos no Programa a ideia de que os alunos precisam se sentir bem nele. Nós tivemos a felicidade de conseguir uma verba da Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP) para construir uma nova instalação (não sei se chegaste a conhecer as novas instalações), mas ficou um prédio bem bacana que conseguimos construir com poucos recursos, fazer uma infraestrutura de altíssima qualidade, com duas salas de aula boas, com gabinetes para orientação, com salas para as linhas de pesquisa, com espaços para os alunos poderem descansar um pouco e o projeto não está cem por cento concluído porque o projeto era para aproveitar o térreo para, inclusive, fazer instalações para uso dos alunos, principalmente para os que vêm de fora. Isso, querendo ou não, acaba sendo determinante para os alunos se sentirem bem acolhidos aqui. Eu sinto que, de modo geral, os alunos estão muito satisfeitos com a forma como são recebidos e pela forma como são atendidos no Programa. Eu vou dizer que são cem por cento dos alunos? Creio que não, porque se o aluno não vive o Programa, ele não o percebe. Se o aluno vem apenas para cumprir tabelas, disciplinas etc. E aqui poderíamos novamente fazer uma longa discussão entre o aluno que, de fato, vem buscar uma formação e o aluno que vem buscar apenas uma titulação. Eu acho que são pouquíssimos os que vêm buscar apenas uma titulação, um ou outro acho que sim, mas, de modo geral, não. Acho que, em sua grande maioria, os alunos estão preocupados em buscar uma formação no sentido bem abrangente e integral do termo formação.

Um segundo aspecto, que avalio como sendo uma ação e uma estratégia muito poderosa, é o que eu chamaria de trabalho coletivo e gestão democrática. Eu vejo que o Programa, logo no início quando falei da ideia do comprometimento, de estar abraçando o Programa como pertencimento. Por exemplo, até hoje, desde que eu entrei no Programa em 2008, nós nunca tivemos eleição; não sei antes; antes não posso dizer por que eu não estava lotado administrativamente na Faculdade de Educação e sim no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH). Mas, desde que ingressei no corpo docente permanente no Programa, e já são 13 anos, nunca precisamos fazer eleição para coordenador. Isso é um elemento importante porque significa que há um consentimento, diríamos assim, de que assume a coordenação alguém que se dispõe a fazer um “serviço para o grupo”. Então, quando falo em trabalho coletivo e gestão democrática, eu falo desde o grupo comprometido de professores, apesar de sermos um grupo pequeno, mas professores altamente comprometidos. É raro, por exemplo, um professor faltar a uma reunião de colegiado.

 

LB: Sempre colegiado pleno?

 

AF: Sempre colegiado pleno. Nós temos, em termos de gestão, a coordenação do Programa, o conselho de pós-graduação, que é formado pelo coordenador, pelos coordenadores das três linhas e pelos representantes discentes. Assim, mensalmente, nós temos sempre uma reunião do colegiado, duas reuniões do conselho de pós-graduação (CPG) e um encontro dos professores integrantes das linhas de pesquisa. Então, praticamente, toda semana tem uma reunião, o coordenador está com quatro reuniões semanais, digamos assim, ligadas a essa questão da gestão. Os professores são muito comprometidos com o Programa e os novos que vão chegando imediatamente se adéquam ao nosso perfil. É um colegiado que se respeita muito. Isso não significa que não haja divergências, às vezes alguns atritos, isso também acontece no programa, mas acredito que, de modo geral, o espírito coletivo se sobrepõe ao espírito individualista, por assim dizer. Eu considero que as reuniões do colegiado são, de fato, espaços de decisão democrática porque tudo é decidido no colegiado, ou no CPG, nós seguimos o regimento do Programa. O CPG é mais deliberativo, os processos etc. É no CPG que são gestadas as grandes políticas e, nesse sentido, a política não é do coordenador, mas é do CPG, do conselho de pós-graduação. É impressionante, inclusive, a participação dos alunos porque eles também se fazem presentes em todas as reuniões. Então, pelo regimento, os alunos participam tanto do CPG quanto do colegiado. E é interessante porque a escolha é feita pelos alunos, inclusive em assembleia. No ano passado os próprios alunos elaboram uma espécie de minuta regimental para a escolha dos seus representantes. Assim, nós temos uma participação muito ativa dos alunos na própria gestão do Programa. Há diversas comissões discentes e eu acho que isso é um elemento importante de formação para os doutorandos porque, assim, além da representação discente, existe um representante dos doutorandos e um representante dos mestrandos, com os respectivos suplentes, que participam das reuniões do colegiado e do conselho de pós-graduação. A representação discente na comissão de bolsas também é muito ativa, tem participado nas discussões, toda vez que há troca de bolsistas, quando há processos seletivos a comissão atua bravamente para distribuir as bolsas, para se basear nos critérios dos processos seletivos, para elaborar edital. Há uma representação do Programa no Conselho de Unidade que é escolhido pelos pares. Faz uns quatro ou cinco anos, quando foi instituído o novo plano de metas do último quadrienal, se não me engano foi 2016, que foi instituído algo que foi chamado de comissão de produção discente. O que faz essa comissão? Todos os anos ela é renovada, então há um grupo de alunos do mestrado e do doutorado que permanecem na comissão para fazer a memória da comissão e ela é renovada todos os anos, quando entram os novos alunos. Ela faz uma espécie de monitoramento da produção dos alunos, de tempos em tempos apresenta o que os alunos produziram, faz oficinas com os alunos sobre como produzir artigos, como submeter aos periódicos. É muito ativa essa comissão. Há também uma comissão, que é a comissão de comunicação do Programa e é ela a responsável, por exemplo, por enviar as notícias do Programa no site da instituição. Nós sempre procuramos ter representatividade das três linhas, então são mestrandos ou doutorandos que são renovados anualmente. Inclusive eu recebi da divisão de graduação, no ano passado, que o Programa de Educação foi o que mais teve matérias no site oficial da UPF, também por conta da atuação dessa comissão que tem trabalhado proficuamente para divulgar as atividades do programa. Nesse trabalho coletivo da gestão democrática, que também, de certa maneira, está associado ao primeiro ponto do acolhimento dos alunos, eu gostaria de chamar a atenção para as disciplinas obrigatórias do doutorado, porque os alunos consideram muito importante: têm quatro disciplinas obrigatórias que toda a turma realiza, são duas disciplinas de caráter mais teórico e duas disciplinas de caráter de investigação. Duas acontecem no primeiro semestre e duas acontecem no segundo semestre, no ingresso do curso. É bem significativo porque os alunos acabam tendo uma identidade de turma e, inclusive, se ressentem que depois do terceiro semestre já não tem mais uma disciplina que engloba a todos. Claro que não é possível porque eles têm que tocar suas teses, suas dissertações, mas é bem significativo porque eles se sentem muito identificados. E é interessante porque no primeiro e no segundo semestre há muita diferença, nós recebemos alunos que fizeram mestrado em outros lugares, alguns que fizeram mestrado já faz muito tempo, então essas disciplinas acabam sendo, eu não gosto da expressão, mas uma espécie de nivelamento. Dessa forma, elas são bem interessantes, eu mesmo trabalho uma das disciplinas. Elas são trabalhadas com dois professores simultaneamente, para dar conta do conjunto das linhas de pesquisa. Então, essas disciplinas obrigatórias acabam instituindo no grupo dos doutorandos o que eu chamaria de senso de coletividade.

Indo para o terceiro ponto, que eu acho de altíssimo valor para o Programa, são os grupos de pesquisa.  Eu penso que se você entrevistar os 11 professores, no mínimo oito vão dizer que a alma do Programa são os grupos de pesquisa. E por quê? Eu não tenho condição de falar por todos os grupos, até porque eu não vivencio todos eles, mas eu posso falar do grupo de pesquisa que eu coordeno e de alguns outros que, eventualmente, fazemos algumas atividades em conjunto. Há uma participação muito ativa dos doutorandos nos grupos de pesquisa, parece que eles são quase uma espécie de espaço sagrado de participação. É interessante porque varia muito de orientador para orientador. Têm orientadores que fazem de forma muito sistemática, têm alguns grupos que são formados por vários professores, por exemplo, a Linha de Fundamentos tem quinzenalmente um encontro com todos os orientandos da Linha, até por conta da natureza da Linha de Pesquisa 1 em que há uma certa convergência de temáticas. Outras linhas, que é o meu caso, por exemplo, já não é mais tão tranquilo dessa forma, porque as pesquisas são agregadas a uma linha, mas o que um professor pesquisa, o que outro pesquisa, não tem tanta convergência como seria na Linha 1. Então, por exemplo, eu tenho um trabalho de um grupo com os meus orientandos e alunos de outros professores da Linha também participam do meu grupo. Mas é interessante porque no meu grupo participam doutorandos, mestrandos, alunos de iniciação científica, egressos e professores da educação básica e alguns do ensino superior. O meu grupo tem uma participação de 25 a 30 estudantes, e nos encontramos quinzenalmente, nas sextas-feiras à tarde, das duas às cinco horas. O grupo se torna realmente o laboratório de escrita, de estudos, de discussão, de temáticas. São grupos muito perenes, o meu grupo se reúne há dez anos e a cada ano o grupo consegue produzir uma coletânea. Então, nós estamos comemorando esse ano 10 anos do grupo e tem algumas orientandas que estão organizando uma série de vídeos para recontar a nossa história a partir dos livros. Nesse sentido, eu considero que os grupos de pesquisa – eu estou falando do meu porque eu conheço melhor, mas eu poderia falar de outros grupos do Programa, talvez sejam uma das ações mais fortes para dar a identidade do Programa aos estudantes. Nós consideramos assim. Tanto é que a participação no grupo de pesquisa conta crédito para integralização curricular porque é a vivência da pesquisa na sua mais pura seriedade. É interessante porque é no Grupo de Pesquisa que muitos acabam se entusiasmando para fazer mestrado e doutorado. Então quando recebemos e-mails sondando o Programa, sobre como ingressar, a primeira coisa que eu digo, como coordenador, é se tem tempo para se envolver em algum grupo de pesquisa, porque o grupo de pesquisa é quase uma espécie de preâmbulo, de sala de entrada para o Programa.

 

LB: Uma espécie de antessala do espaço-tempo de ingresso no Programa.

 

AF: Isso mesmo. Um quarto ponto é sobre a participação nos eventos e eu queria falar, de modo especial, sobre um evento que é organizado pelos estudantes. Claro que agora, em função da pandemia, a maioria dos eventos acabaram se tornando virtuais, on line, ou quase todos virtuais, mas os eventos que são organizados pelo Programa têm uma participação muito forte, muito intensa dos alunos. Nós consideramos que os eventos têm um papel formativo bem importante para os doutorandos, porque o evento… Pena que, por várias razões, a própria CAPES meio desqualificou os eventos, então eu não sei se o fato de ter transformado as apresentações de trabalho, a própria publicação dos eventos como um trabalho técnico não vai acabar matando boa parte dos eventos. Não se sabe muito sobre o que vai ser no pós-pandemia, nem quando vai ser, mas, de qualquer forma, eu sempre vi com bons olhos os eventos porque os nossos alunos sempre foram muito incentivados a participar não apenas nos que acontecem na casa, mas outros eventos também, como a ANPEd, a ANPAE, o EDUCERE. Nós sempre tivemos muitos alunos que foram para a EDUCERE. As ANPEds Sul, por exemplo, o Programa inclusive financia o ônibus, o transporte para os alunos irem para este evento. Nós praticamente participamos de todas, apenas esta última, em função da pandemia, não. Mas se tivesse tido presencialmente, o Programa teria patrocinado o ônibus para os alunos irem, porque nós consideramos que esses eventos são de extrema importância para os alunos sentirem pertencimento ao campo de conhecimento. Eu tenho o retorno de muitos alunos que disseram que os eventos, principalmente os eventos maiores e mais consolidados da educação, foram divisores de água, no sentido de dizer, “foi lá no evento que eu defini melhor o meu projeto de tese, de dissertação”, e assim por diante. Então eu considero que os eventos têm um caráter formativo bem importante e que dá aos alunos essa ideia de pertencimento a um campo de saber, mas também a um Programa que os identifica. Mas eu queria falar de modo especial, ainda sobre esse ponto, sobre o que, carinhosamente, apelidamos de MEDUC, para ser uma abreviação de Mostra da Educação. É um evento, criado em 2015, que acontece a cada dois anos, esse ano vai ser a quarta realização, e toda a organização do evento é feita por mestrandos e doutorandos, mas são principalmente os doutorandos que tomam a linha de frente. Ele foi projetado dentro do Programa como sendo um evento que deveria se diferenciar dos outros porque são os estudantes os protagonistas, desde pensar a concepção da temática até a organização no todo do seu funcionamento. Constituímos uma comissão geral que organiza, e que é eleita pelos próprios estudantes, depois são criadas subcomissões pelos próprios estudantes, e são eles que fazem todo o processo de pensar, fazer o formato do evento, montar os comitês científicos para avaliação dos trabalhos etc., até a execução. Então agora, eles estão preparando o quarto evento que vai acontecer em novembro, já tem inclusive a data marcada, vai ser de 10 a 12 de novembro. É impressionante como eles se envolvem nesse evento, talvez por serem os protagonistas de todo o processo. O último que teve, em 2019, foi algo que todos ficaram impressionados com a seriedade com que assumiram a proposta, desde a abertura, a organização das mesas, a apresentação dos trabalhos, dos relatórios e, depois, a apresentação do relatório no colegiado. Os professores ficaram muito encantados com a forma como os estudantes conseguiram conduzir. Nós acreditamos que esse evento, de fato, é um evento formativo de altíssima grandeza. Indo para o quinto ponto, eu tinha colocado como desafio, mas aqui eu coloco também como uma estratégia, que é a questão da produção científica. Claro que tem muito a ver com o estilo ou a indução que a CAPES fez nos últimos tempos, principalmente, mas eu vejo que esse desejo, essa vontade de os alunos poderem não só escrever, mas também ver publicado o seu trabalho, também acabou se constituindo em um elemento forte de pertencimento ao Programa. Eu tenho acompanhado muitos orientandos, mas também percebendo os orientandos dos outros professores, e há um forte empenho dos doutorandos, principalmente no que tange a eles poderem, durante o seu curso, o seu doutoramento, poderem produzir bons trabalhos e submeter os seus trabalhos a bons periódicos. Isso tem levado a muita produção de artigos e também tem avançado naquela direção que eu colocava anteriormente sobre a relação entre orientador e orientando. A produção científica, ao menos olhando de forma mais horizontal para os doutorandos, tem sido um elemento muito definidor do pertencimento dos alunos no Programa. Parece que a maioria dos alunos não se sente satisfeita, não se sente de missão cumprida se ao terminar o Programa não conseguirem, ao menos, produzir um bom artigo. E acho que isso é um elemento importante para ser sublinhado. Talvez possamos até dizer que isso foi muito por conta da indução da CAPES para isso, ou coisa do gênero. Mas essa questão da produção científica eu gostaria de destacar uma outra coisa importante, que eu acho que também é uma estratégia e uma ação de assegurar a afiliação, que é o envolvimento de doutorandos no trabalho da revista Espaço Pedagógico. A revista Espaço Pedagógico, conheces bem, já publicaste vários artigos nela, avançou bastante, conseguimos inclusive subir de qualis, mas fomos, nos últimos tempos, perdendo a força institucional de suporte técnico e hoje não tem praticamente ninguém da instituição que faça isso. Houve épocas em que havia funcionários que se dedicavam 20 horas semanais para isso, mas hoje não tem mais nada. Esse trabalho foi sendo assumido pelos doutorandos, então, hoje, há uma equipe de doutorandos, a maioria deles são bolsistas que se dedicam a ajudar o Telmo, que é o atual editor chefe, têm mais três editores adjuntos, eu sou um deles, porque somos tão poucos que temos que fazer várias coisas. Mas a equipe que trabalha junto com o Telmo, que começou com a editora anterior, que foi a professora Flávia, que fez um trabalho belíssimo na qualificação da revista, pois agregou formação para esses doutorandos que foram envolvidos na equipe de trabalho. Tanto é que esses alunos que passam por esse período de trabalho na equipe saem altamente qualificados para poder, inclusive, assumir periódicos de boa qualidade. Nós temos um doutorando (Regiano Bregalda), um dos que mais se envolveu antes de ir fazer o doutorado sanduíche, que se ele não tiver espaço na educação superior, qualquer revista que contrate ele vai fazer uma qualificada contratação porque ele conhece o sistema por dentro como poucos o conhecem. Eu conversei muitas vezes com ele, ele está terminando agora o doutorado, vai defender agora no mês de julho, fez um doutorado sanduíche na França. Ele tem muito conhecimento agregado sobre o funcionamento dos periódicos, pois estudou os periódicos, tem um profundo domínio do sistema, da parte técnica e da dimensão acadêmica. Consumo dizer quando me dirijo a equipe da revista: “olha, eu queria ter feito esse percurso no meu doutorado, para ter toda essa expertise sobre os periódicos”. O sexto ponto, então, é o envolvimento com a graduação e aqui eu vejo o papel do estágio docência, nós já falávamos um pouco sobre isso ontem no colegiado, porque eu penso que esse trabalho de estágio docência, é função também do coordenador ler os relatórios de estágio docência e eu tenho lido todos os relatórios que os alunos produzem depois de fazerem o estágio docência. Eu vejo nisso um elemento de extremo valor em termos de afiliação ao programa. Esse trabalho, bem conduzido, faz com que os alunos se sintam bem mais próximos a essa ideia de formação para a educação superior. Então, eu considero muito importante e central no processo formativo o envolvimento com a graduação, que se dá pelos grupos de pesquisa por meio da presença dos alunos da iniciação científica. Eu vejo, por exemplo, hoje, alunos da iniciação científica escrevendo junto com os doutorandos. Há alguns orientadores que inclusive estão trabalhando com a estratégia de encostar um aluno de iniciação científica com um doutorando, que eu vejo que é extremamente importante porque isso é o que que tu trabalhavas em textos, se não me engano em 2011, 2012, sobre como se formam os orientadores. Eu acho que a melhor forma de formar orientadores é fazer esse exercício de encostar um doutorando, que ajuda no trabalho da iniciação científica, de olhar o relatório da iniciação científica, de ajudar a revisar os textos da iniciação científica. No sétimo ponto, eu dou como tópico a inserção social, que eu acho que está no plano de metas do Programa. A inserção social também tem sido um elemento importante que aponta para várias direções, mas eu vou destacar algumas delas. Agora mesmo, na semana passada, o Programa inteiro se envolveu enormemente na formação dos professores da rede municipal aqui de Passo Fundo. Esse envolvimento se deu nas mais variadas instâncias, desde uma conferência, que eu e o Cláudio fizemos para todos os professores, até mesas temáticas em que foram apresentadas para os professores algumas pesquisas da educação básica feitas no Programa, até oficinas que os doutorandos ministraram nas três linhas de pesquisa. Então essa inserção social se dá no trabalho de assessoria a secretarias municipais, no trabalho de formação de professores das redes, no trabalho com o sindicato dos professores. Um pouco antes da pandemia, nós estávamos já com um projeto prontíssimo, depois acabamos interrompendo, vamos retomar esse ano porque estávamos esperando que a pandemia passasse para começar a executar o projeto, mas como não vai passar vamos ter que pensar de outro formato, mas a presidência do sindicato dos professores do município nos procurou para pensarmos um projeto de formação para os professores pelo viés do sindicato. Assim, eu fiz uma chamada para os alunos e, na primeira chamada, compareceram 22 alunos para contribuir gratuitamente nessa formação. Então fizemos o lançamento em março do ano passado e duas semanas depois a pandemia fechou as portas. Tudo o que tínhamos planejado foi em vão, mas agora no início deste ano vamos tentar retomar. O oitavo ponto é a questão da internacionalização. Eu vejo que desde a aprovação do doutorado e o fato de o Programa ter tido bolsas de doutorado sanduíche foi algo muito agregador porque os alunos que conseguiram realizar essa experiência – nós tivemos em quase todos os anos um aluno que foi fazer doutorado sanduíche, nós tivemos alunos que foram para Alemanha, Portugal, Espanha, Itália, França e, agora, tem um que está se preparando para ir para a Espanha, não sei se vai ser aprovada a bolsa, essa semana foi encaminhado o projeto - quando  voltam têm o compromisso de devolver para o Programa, para os colegas que não foram, a sua experiência. Então sempre fazemos um evento em que os alunos contam as suas vivências, é muito agregador nesse sentido. Nós tivemos também nos últimos tempos a presença de alunos estrangeiros aqui. Tivemos, no ano passado, dois alunos do México que vieram fazer doutorado sanduíche e, agora, estamos com três alunos regulares da África. Temos um aluno de doutorado da Angola que está fazendo, viria para o Brasil se não tivesse a pandemia, mas por esse motivo ainda não veio. Assim que abrir presencialmente ele vem para o Brasil e vai ficar um tempo aqui. Temos dois alunos no mestrado, que são de Guiné-Bissau, são alunos regulares fazendo o curso. Então, essa experiência com a internacionalização também vai dando aquilo que consideramos importante. Eu estou falando dos alunos, mas poderia falar aqui dos projetos que todos se envolvem, todas as linhas têm inserção internacional com parcerias, com produções, e assim por diante. E, para finalizar, eu falaria do vínculo com os egressos. Eu vejo que o Programa tem um vínculo muito salutar com os egressos, por exemplo, entre os primeiros que terminaram o doutorado, o primeiro doutorando foi meu orientando, e defendeu em 2015, inclusive um pouco antes do prazo. São alunos que continuam nos grupos de pesquisa, no meu grupo de pesquisa tem cinco egressos do doutorado, mas que continuam no grupo de pesquisa. Dois deles, inclusive, nem foram meus orientandos, só que como há professores que não têm grupo de pesquisa, ou talvez por se sentirem mais familiarizados com a temática discutida neste grupo, continuaram conosco. Mas isso não acontece apenas no meu grupo, no grupo do professor Cláudio, do professor Angelo e de outros professores também acontece. Nós temos uma parte dos professores do Programa que são egressos do próprio Programa. Do doutorado só temos um, no último credenciamento tivemos o primeiro doutorando do Programa que se credenciou, ele já era professor da instituição e se credenciou aqui para ser professor permanente. Mas eu posso dizer que a participação dos egressos é muito significativa em todas as atividades do Programa. Bom Lucídio, sobre essa questão é isso que eu penso.

 

LB: Muito bom Altair. Eu acabei fazendo poucas interrupções porque tua exposição fluiu bem. Você foi se mantendo no script, aspecto que atribuo ao fato de ter tido acesso antes às questões e ter se preocupado, previamente, com um certo ordenamento. Na sequência, para irmos encerrando a entrevista, gostaria que você focasse um pouco na questão da conclusão do doutorado, isto é, se registram desistência de doutorandos, abandono ou desligamento do curso, aspecto que acaba tangenciado a questão do pertencimento. Vocês registram situações de mal-estar, de angústia, casos de depressão? Como te falei, na literatura estão emergindo situações dramáticos que, no extremo, registram-se casos de suicídio de doutorandos. Você chamou a atenção e descreveu um modo de trabalhar com os pós-graduandos, principalmente com os doutorandos, a fim de que eles se sintam acolhidos, envolvidos, pertencentes ao Programa, aspecto que favorece a afiliação intelectual e institucional. Certamente um Programa com um corpo docente tão reduzido e com um corpo discente tão envolvido, essas questões do apoio, do suporte, do sentimento de acolhimento - que agora na pandemia se fala em teleacolhimento -, é uma questão bastante importante. Enquanto você ia falando, em determinado momento fez referência aos diversos espaço de acolhimento, referindo-se até à instituição como “espaço sagrado”... Fiquei pensando em como, vamos dizer assim, o Elli Benincá[6] está onipresente nessa forma de trabalho por parte de docentes e discentes, bem como da sua influência no próprio surgimento do mestrado e do doutorado e o quanto ele continua sendo essa ânima que anima esse coletivo. Enfim, são diversas subquestões dentro de uma questão, que, de certa forma, resumem as reflexões sobre as dificuldades, empecilhos e estratégias implementadas no dia-a-dia o PPGEdu.

 

AF: Certo. Eu vou começar com o último ponto que eu acho que foi bem importante tu teres mencionado porque tudo isso que eu falei, desde o primeiro ponto mencionado, esse espírito de acolhimento, essa questão sistemática dos grupos de pesquisa, que eu chamei de “alma do Programa”, há uma inspiração e essa inspiração é claramente visível em todos nós, que é o professor Elli Benincá. Eu sou profundamente reconhecedor desse mestre maior, que foi o nosso grande mentor intelectual. Eu, ainda hoje, me vejo seguindo, não com tanta maestria, porque não tem como ter os qualitativos que o Benincá tinha, mas muito do que eu faço com meus orientandos, no grupo de pesquisa, e não sou apenas eu, meus colegas que foram alunos do Benincá (professores Cláudio, Ângelo, Eldon, Telmo), mesmo os outros professores que não são da Filosofia, a própria Flávia Caimi e a Adriana Dickel que agora se aposentaram, fizeram parte do grupo do Elli Benincá. Eu digo que a alma do Benincá está presente nesse Programa. Ele foi professor aqui, foi um grande mestre de grande parte dos professores que estão no Programa. Assim, eu quero aqui, nessa entrevista, fazer esta referência fundamental que foi a presença do espírito do Benincá na nossa formação como professores, como corpo docente e como estruturante do próprio Programa. Nós temos poucas desistências do doutorado, inclusive agora nós fizemos o desligamento de um aluno, que é professor da casa, ele vem da área da Fisioterapia. Ele teve muita dificuldade desde o início, desde o ingresso, até por conta da própria área dele, ele fez as disciplinas obrigatórias etc., mas ele teve muita dificuldade de mergulhar na sua tese. Então ele trancou por um semestre, trancou por um segundo semestre e então, regimentalmente, ele estaria nessa situação de desligamento. Nós fizemos todos os contatos, e até pela questão financeira pessoal dele ele tomou a iniciativa de se desligar do Programa. Talvez ele volte mais adiante a fazer o processo seletivo de novo. Nós tivemos, logo na segunda turma, se não me engano, uma aluna que vinha, inclusive, do campo da Psicologia, que também entrou em depressão na época e acabou depois também pedindo desligamento, mas por questões muito pessoais: teve uma separação, um monte de confusões na vida dela. E, novamente, um pouco daquela ideia, se não me engano ela era de Santa Rosa, da dificuldade em função da distância para poder se envolver mais nas atividades do Programa, o que também fez com que, talvez, ela não tivesse entusiasmo suficiente para continuar o doutorado. Tivemos agora, recentemente, uma estudante que também teve problemas sérios de saúde, teve que pedir o afastamento temporário, mas está retornando agora, mas é por questões de saúde, teve um problema cardíaco, então o médico sugeriu que ela trancasse por um semestre o doutorado. Mas fora isso nós não tivemos desistência no doutorado. Isso é uma coisa importante, uma coisa boa. Agora, sobre esse outro aspecto – talvez no mestrado pode ter mais casos, até pelo fato de ser mais curto o período – não há dúvidas de que essa angústia, a angústia da escrita, angústia de não conseguir se dedicar à pesquisa como se deveria e como é exigido para fazer uma tese, para fazer uma boa pesquisa de tese, acontece em vários alunos. Nesse sentido, aqui vem novamente o papel importante do orientador, da orientadora, de poder conseguir acompanhar esses estudantes. Mas o fato de termos poucas desistências mostra que não temos grandes problemas dessa natureza. Eu não posso dizer que eles não existam, em maior ou menor grau em alguns dos alunos, principalmente no período decisivo da parte de escrita da tese. Alguns alunos que acabam prorrogando o processo de defesa devido ao texto não ficar suficientemente bom também acontece, temos casos de prorrogação, mas não tantos. Alguns por conta de saúde, outros por conta de envolvimento demais com o trabalho, então a tese não andou como deveria. Mas não é tão explícito, digamos assim. Agora, eu gosto muito dessa expressão, mal-estar, até escrevi uma vez um texto sobre isso, fui visitar o texto do Freud, o Mal-estar da Civilização ou Mal-estar da Cultura, dependendo da tradução, e é interessante porque o próprio conceito mal-estar é um conceito ambíguo, digamos assim. É ambíguo no sentido de que não é a mesma coisa que doença, é um indicativo de que algo não vai bem, mas que não se sabe exatamente o porquê, ou não se sabe ainda suficientemente o porquê. Eu acho que não poderia ter uma expressão mais feliz para a tua pesquisa do que essa. Eu vejo que tudo aquilo que foi falado na primeira parte pode ser indicativo de um mal-estar, mas não são indicativos suficientes para dizer que, às vezes, o mal-estar existe. E existe nesse clima todo, a pandemia causou e vai causar muitos mal-estares não apenas na pós-graduação, mas nos doutorandos, nos professores do doutorado, na sociedade brasileira. Para usar uma expressão da Eliane Brum “nós estamos doentes de Brasil”, doentes de Brasil nesses tempos difíceis.

 

LB: Altair, na pesquisa nós temos trabalhado o conceito de mal-estar como um desencontro entre as expectativas e a materialização dessas expectativas na ambiência da pós-graduação.

 

AF: Perfeito.

 

LB. Muitíssimo obrigado, Altair, pela tua disponibilidade, pelo tempo que você dedicou à nossa pesquisa. Fica o desafio e o compromisso de socialização dessas contribuições dos/as entrevistados/as e dos resultados dos questionários aplicados aos/às doutorandos/as.

 

This work is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial 4.0 International (CC BY-NC 4.0)

 

 

 



[1] A interessados em ter acesso ao processo e resultados desta pesquisa indicamos a leitura do relatório que se encontra no site do CNPq ou também podem entrar em contato diretamente através do e-mail lucidiob@gmail.com que o enviaremos, bem como indicaremos outros textos que decorreram da pesquisa, em forma de artigos para revistas e coletâneas e de trabalhos socializados em eventos.

[2] Dentre as principais obras deste autor, traduzidas e disponíveis no Brasil, destacamos: COULON, A. A condição de estudante. A entrada na vida universitária. Salvador/BA: EDUFBA, 2008. ________. Etnometodologia e educação. São Paulo: Cortez, 2017a. ________. O ofício de estudante: a entrada na vida universitária. Educ. Pesqui., São Paulo, v. 43, n. 4, p. 1239-1250, out./dez., 2017b.

[3] As entrevistas foram gravadas. Após a transcrição a versão impressa foi devolvida aos entrevistados a fim de contarmos com sua revisão e aval para utilização dos pesquisadores. A transcrição foi feita pela mestranda Morgana Dreon, a quem ficam aqui registrado os agradecimentos pelo qualificado trabalho que foi por ela feito.  

[4] O problema da causalidade em David Hume. Uma versão modificada da dissertação foi publicada em livro autoral pela editora da UPF (FÁVERO, Altair Alberto. Conhecimento e experiência: o problema da causalidade em David Hume. Passo Fundo: Editora UPF, 2002).

[5] Um parte da tese foi publicada em três capítulo numa coletânea que saiu para editora Mercado de Letras (FÁVERO, Altair Alberto; TONIETO, Carina. Leituras sobre Richard Rorty e a educação.  Campinas/SP: Mercado de Letras, 2013).

[6] Referência ao educador, filósofo e teólogo Elli Benincá (1936 - 2020), intelectual engajado que plasmou a educação de gerações de professores que se formaram, atuaram e continuam atuando na Faculdade de Educação da UPF e em tantas outras frentes em instituições de ensino superior, de escolas de ensino fundamental e médio, de secretarias municipais e estaduais de educação e de movimentos sociais etc. Para interessados em conhecer a contribuição de Benincá, indicamos. 1. MARCON, Telmo (Org.). Educação e universidade. Práxis e emancipação. Uma homenagem a Elli Benincá. Passo Fundo: EDUPF, 1998. 2. MUHL, Eldon H.; MARCON, Telmo (Orgs.). Formação de educadores-pesquisadores: contribuições de Elli Benincá. Passo Fundo: UPF Editora, 2022. Coleção Práxis Benincaniana. A primeira dissertação sobre o legado de Benincá foi apresentada no PPGEdu/UPF no ano de 2023: SCARTEZINI, Angela Trombini. Exercícios formativos da práxis benincaniana: diálogo e memória em sala de aula. Dissertação (Mestrado em Educação). Universidade de Passo Fundo.  Passo Fundo, 2023.