The press and social networks: strategies for legitimizing the National Community Schools Campaign (1940-1950)
Prensa y redes sociales: estrategias de legitimación de la Campaña Nacional de Escuelas de la Comunidad (1940-1950)
Secretaria de Educação e Esportes do Estado de Pernambuco, Recife - PE, Brasil.
Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa – PB, Brasil.
Recebido em 10 de março de 2025
Aprovado em 10 de fevereiro de 2026
Publicado em 06 de abril de 2026
RESUMO
Este texto analisa a relação entre Felipe Tiago Gomes e a imprensa nas décadas de 1940 e de 1950, no que tange à produção da memória, a partir de uma narrativa laudatória e apologética sobre a Campanha Nacional de Escolas da Comunidade (CNEC). Para esta análise, e sob o campo das representações, far-se-á uso de recortes de publicações na imprensa diretamente relacionadas ao fundador, ou que dizem respeito a sua participação em atividades, que auxiliem no processo de mapeamento de representações e redes de sociabilidades. Analisou-se como a instituição foi palco de um emaranhado de relações em torno do debate sobre a questão educacional e a atuação institucional da CNEC, projetando a campanha em nível nacional, assim como os sujeitos a ela ligados. Além disso, a imprensa desempenhou um papel estratégico nessa atuação, ao contribuir para pensar como fonte para uma memória institucional da CNEC, evidenciando as relações de poder e sociabilidades.
Palavras-chave: Educação; Imprensa; Memória.
ABSTRACT
This text analyzes the relationship between Felipe Tiago Gomes and the press in the 1940s and 1950s, with regard to the production of memory, based on a laudatory and apologetic narrative about the National Community Schools Campaign (CNEC). For this analysis, and in the field of representations, we will use excerpts from press publications directly related to the founder, or that concern his participation in activities, which will assist in the process of mapping representations and networks of sociability. We analyzed how the institution was the scene of a tangle of relationships around the debate on the educational issue and the institutional performance of the CNEC, projecting the campaign at the national level, as well as the subjects linked to it. In addition, the press played a strategic role in this action, contributing to thinking about it as a source for the institutional memory of the CNEC, highlighting power relations and sociability.
Keywords: Education; Press; Memory.
RESUMEN
Este texto analiza la relación entre Felipe Tiago Gomes y la prensa en las décadas de 1940 y 1950, en lo que respecta a la producción de la memoria, a partir de una narrativa laudatoria y apologética sobre la Campaña Nacional de Escuelas de la Comunidad (CNEC). Para este análisis, y en el ámbito de las representaciones, se utilizarán recortes de publicaciones en la prensa directamente relacionadas con el fundador, o que se refieran a su participación en actividades, que ayuden en el proceso de mapeo de representaciones y redes de sociabilidades. Se analizó cómo la institución fue escenario de una maraña de relaciones en torno al debate sobre la cuestión educativa y la actuación institucional de la CNEC, proyectando la campaña a nivel nacional, así como a los sujetos vinculados a ella. Además, la prensa desempeñó un papel estratégico en esta actuación, al contribuir a pensar como fuente para una memoria institucional de la CNEC, poniendo de manifiesto las relaciones de poder y sociabilidad.
Palabras clave: Educación; Prensa; Memoria.
Introdução
As pesquisas em torno de Felipe Tiago Gomes e da Campanha Nacional de Escolas da Comunidade (CNEC) apresentam-se como uma seara ainda passível de diversos desdobramentos e análises, embora a CNEC, instituição idealizada por um paraibano, tenha existido em 36 unidades educacionais ligadas à Rede no estado da Paraíba (Henriques, 1985) e sido objeto de interesse de inúmeras pesquisas. Entre os estudos que se dedicaram a analisar a história dessa instituição, destacam-se os de Silva (2001), Assis (2016) e Duarte (2019).
Para tanto, buscamos suscitar novos questionamentos sobre a edificação da imagem da CNEC, a partir de publicações divulgadas na imprensa da época, que apresentaram uma narrativa laudatória e apologética sobre a instituição. Entendemos a importância dessa análise e exploração de possíveis contrapontos e interpretações alternativas, pois podem enriquecer o debate sobre a imprensa e a instituição educacional a partir das narrativas. Dessa forma, o objetivo dessa investigação é compreender como a imprensa possibilitou a projeção da CNEC no período entre 1940 a 1950.
Felipe Tiago Gomes nasceu no dia 01 de maio de 1921 no sítio Barra do Pedro, zona rural do município de Picuí na Paraíba, filho de Elias Gomes Correia e de Ana Maria Gomes. Inicialmente, foi alfabetizado por sua irmã, Francisca, que lhe oferecia aulas de reforço em casa e, posteriormente, estudou em uma escola primária na zona urbana. Com o intuito de continuar sua formação escolar, dada a ausência de escolas de ensino secundário em Picuí, mudou-se para Campina Grande onde obteve uma bolsa para estudar no Colégio Diocesano Pio XI.
Após a conclusão dessa etapa de ensino, Felipe Tiago Gomes migrou para o Recife, onde passou a residir na Casa do Estudante de Pernambuco, para cursar Direito na Faculdade de Direito do Recife. Em 1943, ao lado de colegas da Casa do Estudante, criou uma Campanha educacional voltada para o oferecimento de educação aos menos favorecidos, tomando como referência a sua difícil trajetória para prosseguir com os estudos. Assim, surgiu a Campanha do Ginasiano Pobre (CGP), posteriormente conhecida como Campanha Nacional de Escolas da Comunidade (CNEC), uma instituição educacional que, com o auxílio de subsídios do governo e das comunidades, organizava as unidades educacionais onde foram implantadas.
Felipe Tiago Gomes integrou a Geração de 45, a qual, diante dos debates em torno da Educação e da criação de uma nova legislação educacional na década de 1940, Lei orgânica do ensino primário (Decreto-Lei nº 8.529, de 2 de janeiro de 1946), Lei Orgânica do Ensino Secundário, de nº 4.244, de 9 de abril de 1942 e do ensino normal (Decreto-Lei nº 8.530, de 2 de janeiro de 1946) , idealizou, no Recife, um modelo de escola que tinha por finalidade auxiliar o Estado brasileiro na expansão de sua rede de ensino. De acordo com Dallabrida (2018, p. 103) “No campo do ensino secundário, muito lentamente começaram a ser feitos ensaios renovadores, especialmente a partir de modelos pedagógicos norte-americanos e franceses”. O grupo de intelectuais ao qual Felipe Tiago Gomes se integrava, em grande medida oriundos da Faculdade de Direito do Recife, ligava-se aos debates em torno da redemocratização do país, principalmente após a queda dos regimes totalitários na Europa, após 1945, que possibilitou o impulso modernizador nos países periféricos do pós-guerra, buscando-se formar mercados consumidores para as multinacionais explorarem. Essa geração encontrou, na imprensa, o mecanismo para divulgarem suas ideias e promoverem seus objetivos.
Os periódicos apresentam-se como indícios da relação que os intelectuais, membros da instituição educacional, em especial Felipe Tiago Gomes, construíram com a imprensa, as chamadas redes de sociabilidade. Para além disso, utilizaram-se desses veículos para publicizarem suas ações. No que diz respeito a Felipe Tiago Gomes, podem-se observar, também, as marcas do itinerário percorrido pelo fundador no campo educacional, desde meados do século XX, tais ações tornadas públicas, por meio de notas e matérias nos periódicos da época.
A periodicidade dos impressos nos permite acompanhar e analisar uma cronologia dos fatos, observar a distribuição espacial das informações, atentos ao movimento de que tais fatos se encontram inseridos em um contexto mais amplo. É importante ressaltar, todavia, que cada jornal, jornalista, escritor, editor e redator organiza e seleciona as notícias e informações de acordo com interesses, temáticas afins e com o próprio perfil do jornal (Luca, 2011).
Desse modo, essas relações de poder devem ser consideradas na análise, observando para o fato de Felipe Tiago Gomes ter concedido entrevistas, articulado publicação de notícias, notas, artigos e cartas, por vezes utilizando a imprensa como um canal de comunicação entre a instituição educacional, as instâncias governamentais e as comunidades escolares. Os periódicos configuraram-se em espaços para a publicação de relatórios sobre as atividades desenvolvidas pela instituição, das visitas realizadas pelo fundador como também congressos e conferências realizados.
O fundador soube aproveitar um contexto em que a impressa intensificava o seu processo de profissionalização, transformando-a em um canal na produção da representação de Felipe Tiago Gomes como alguém que, de forma incondicional, se colocava a serviço das unidades educacionais por ele criadas.
De acordo com Chartier (1991, p. 184), “a relação de representação é entendida entre uma imagem presente e um objeto ausente, uma valendo pelo outro porque lhe é homóloga”. Essa concepção de representação remete à construção de convenções e significados socialmente compartilhados, que são inculcados por meio de práticas e discursos. Nesse sentido, observa-se um embate que se desdobra em duas dimensões no processo de construção das identidades sociais: de um lado, as relações de força e as representações impostas por aqueles que detêm o poder de classificar e nomear; de outro, as formas de aceitação, negociação ou resistência das comunidades às quais essas representações são dirigidas.
Os periódicos, nesse contexto, configuram-se como espaços privilegiados para a teatralização dessas representações, especialmente aquelas direcionadas às comunidades escolares vinculadas à CNEC. Servem, portanto, não apenas como veículos de comunicação interna, mas também como instrumentos estratégicos de legitimação perante os grupos dos quais a instituição buscava reconhecimento. Assim, contribuíam para a construção da imagem pública da Campanha Nacional de Escolas da Comunidade e de seu fundador, Felipe Tiago Gomes, projetando uma narrativa de autoridade e comprometimento no campo da educação brasileira. Diante desse contexto, as notícias sobre a Campanha Nacional de Escolas da Comunidade e seu fundador não podem ser tomadas de forma ingênua, mas sim colocadas no contexto histórico de sua produção e das relações de poder nas quais se inseriam. Nessa perspectiva, a publicação em um periódico não é um mero reflexo das relações sociais, mas elemento delas. A presença dos intelectuais nos jornais e sua utilização como ferramenta de divulgação de seus ideais e posições políticas eram práticas comuns no espectro intelectual durante o século XIX e a primeira metade do século XX. Exemplo dessa prática são as publicações de Anísio Teixeira, Fernando de Azevedo e Gustavo Capanema (Martins, 2022). Esses sujeitos utilizaram a imprensa como mecanismo de projeção de si a partir da divulgação de suas causas.
Felipe Tiago Gomes fez parte de um grupo de intelectuais no Brasil que, tendo por base as mais diversas posições ideológicas e políticas, tomou a educação como bandeira civilizadora no início do século. De acordo com Martins (2022), Gustavo Capanema edificou-se como uma figura associada à gestão das políticas públicas relacionadas à educação e, como líder influente no Estado Novo atuou na idealização do espectro cultural da política varguista no período. Ao lado de Anísio Teixeira, ambos seriam polos de atração de figuras intelectuais de grande projeção nacional. Em seu ministério abrigou Carlos Drummond de Andrade, Mário de Andrade e Rodrigo Melo Franco de Andrade.
A inserção, nos quadros gestores da CNEC, de personalidades políticas e figuras públicas, que legitimassem os postulados defendidos pela Campanha e seus fundadores, foi uma característica da organização administrativa da CNEC como instituição educacional. Felipe Tiago Gomes trouxe para essa Campanha senadores, deputados, a Primeira-Dama da República, ministros, escritores e literatos, além de manter proximidade com diversos veículos de imprensa tornando-se polo de atração ou de confluência de tais figuras.
Neste contexto, os intelectuais se valem de muitas estratégias para se comunicarem e tornarem amplas suas ideias. Encontros em espaços sociais de manifestação de opinião ganham destaque; as universidades, grêmios estudantis... tudo isso alimentou a troca de pontos de vista e a circulação de ideias. A imprensa foi, por excelência, um espaço para essa socialização, de modo que os fundadores se utilizaram desse veículo como ferramenta para atraírem mais colaboradores para a causa como também para evidenciarem os problemas educacionais que motivaram a criação da instituição.
Felipe Tiago Gomes e a imprensa
Em Escolas da Comunidade, Felipe Tiago Gomes recorda que: “para difundir a idéia [sic] da criação de um ginásio gratuito, foi lançado o Boletim da C.G.P., publicação da Campanha do Ginasiano Pobre. Apareceu no dia 30 de agosto de 1943. O Boletim trouxe-nos valiosas adesões” (Gomes, 1994, p. 39). Estas palavras sinalizam mais uma interface entre o fundador da CNEC, Felipe Tiago Gomes, e a imprensa. No processo de fundação da Campanha, ainda em 1943, foi idealizada uma publicação denominada Boletim da C.G.P. De caráter panfletário, a inciativa tinha como objetivo divulgar a criação da instituição como também obter apoio político e econômico para subsidiar as ações articuladas por Felipe Tiago Gomes e os demais jovens que participaram da fundação do Ginásio Castro Alves. Este ginásio, inaugurado em 1º de agosto de 1944 e instalado à Rua Aurora, 363, 1º andar., tornou-se o primeiro “Ginásio Gratuito” da Campanha. A sala onde funcionava o curso noturno foi cedida pelo Sindicato dos Contabilistas de Pernambuco (Faustino, Silva, Medeiros Neta, 2018).
De acordo com Joel Pontes: “[...] não foi vendido. Foi bem recebido...Seu fruto mais notável foi a adesão, à Campanha, de Genivaldo Wanderley, estudante secundarista na época, tornou-se, ao lado de Hermílio Borba Filho, um dos fundadores do Teatro do Estudante de Pernambuco (TEP), e José Irineu” (Pontes, 1994a, p.39). Estes senhores, ao lado de Carlos Luís de Andrade, Eurico José Cadengue e Florisval Silvestre Neto se tornaram os pioneiros da Campanha do Ginasiano Pobre. Durante o processo de pesquisa, não se obteve acesso a qualquer exemplar do referido boletim, mas apenas a alguns excertos inseridos nos impressos institucionais.
Pelo caráter das narrativas, observa-se, todavia, que se tratava de uma publicação artesanal, com intuito de divulgar a Campanha então iniciada. A partir do efeito causado pelo boletim, os jovens fundadores perceberam a importância de ocuparem espaço nos veículos de imprensa da época.
Ao tomar como como ponto de partida o Boletim da CGP, a Comissão dos fundadores buscou estabelecer contatos e obter apoio de pessoas simpatizantes à causa, que atuassem ou favorecessem a presença da campanha em periódicos, artigos e notícias. Esse foi o modus operandi dos fundadores, a partir do Recife, em sua ação em nível nacional na administração da instituição.
Com o Boletim da CGP, o primeiro artigo sobre a instituição foi publicado em uma fase em que os jovens fundadores necessitavam de apoio financeiro para a organização do Ginásio Castro Alves como também de apoio político para a obtenção do reconhecimento da entidade por parte do governo federal. A imprensa tornou-se relevante espaço de atuação dos membros ligados à Campanha.
Felipe Tiago Gomes chamou a atenção do público já no primeiro jornal, O Rebate (1932-1960) de Campina Grande, em que publicou um artigo sobre a sua iniciativa juntamente aos jovens de Recife, no dia 04 de setembro de 1943, de autoria do jornalista Epitácio Soares, e reproduzido na Coletânea Cenecista. Nesse artigo, o jornalista exalta a iniciativa dos jovens e manifesta apoio à causa, dado o contexto histórico da educação e do ensino secundário no Brasil no período.
[...] não vejo em que se possa ser mais útil à Pátria do que se lhe educando a juventude. Por isso mesmo, eis-nos a bater palmas a esse pugilo de moços que teve a lembrança feliz de fundar a C.G.P., cujo programa de ação vem delineando nas páginas do Boletim. São jovens brasileiros com pleno conhecimento das necessidades inadiáveis do País, procurando cooperar com o governo na obra de construção da nacionalidade, solucionando um dos problemas mais fundamentais de nossa estrutura social. O ensino secundário tem-se tornado muito oneroso no Brasil para que as pessoas em situação econômica inferior possam educar seus filhos, já por se exigir dos alunos fardamento caríssimo, já pelas taxas cobradas pelos colégios, que são elevadíssimas. Somente uma campanha como essa, promovida pelos estudantes pernambucanos, arquitetada por gente moça e cheia de entusiasmo patriótico, poderá abrir novos caminhos e acender novas luzes a centenas de brasileiros cujas inteligências, posto que promissoras, estavam condenadas a um miserável estiolamento só pelo fato de, não tendo cursos bastantes, não lhes ser permitido ir além da instrução primária (Soares, 1943, p. 20).
O artigo assinado por Epitácio Soares aborda o cenário do ensino secundário no Brasil, na época. Não sendo visto como obrigação por parte do governo federal, o ensino secundário sofria com a ausência de verbas e políticas públicas. Neste sentido, as pessoas com menores condições financeiras não tinham condições de arcarem com os custos dos ginásios que, por sua vez, também estavam localizados nos centros urbanos, aumentando as dificuldades para quem residia no interior. A realidade compartilhada pelos fundadores motiva a iniciativa de criação do Ginásio Castro Alves e é endossada pelo jornalista de O Rebate.
Criado em Campina Grande-PB, O Rebate foi um dos periódicos que mais tempo permaneceu em circulação na cidade. Tendo sido lançado em 04 de outubro de 1932, permaneceu em atividade até a década de 1960. Idealizado pelos jornalistas Luiz Gil, Pedro de Aragão e Eurípides de Oliveira, foi um espaço de divulgação, formação e expressão de ideias e posição política dos campinenses e paraibanos. Para Silva (2006), o periódico estava relacionado a uma elite atrelada à defesa da ideia de moralidade e progresso de Campina Grande, questões também abordadas pela Igreja Católica na cidade; neste sentido, as pautas que ganhavam destaque no periódico diziam respeito aos valores desse espectro.
Com a ascensão de Getúlio Vargas ao poder, gerou-se um movimento de alinhamento da imprensa nacional entre duas esferas de influência, o integralismo e o comunismo, este último em ascensão na época. Tal esfera de influência também atuou sobre os jornais do interior do país. O Rebate se classificava como um periódico cuja principal motivação era o combate ao comunismo e rivalizava, no período, com o A Batalha, idealizado por Arlindo Correia e Isidoro Aires, de tendência comunista (Gaudêncio, 2014), dando suporte a um debate ideologicamente antagônico.
A publicação supracitada apresenta uma representação do grupo de fundadores, a partir do espírito “patriótico e de civilidade” que os motivava. Esse espírito também norteava um movimento nacional em torno da defesa das ideias do sentimento nacional, família, pátria e civismo. A publicação de Epitácio Soares em O Rebate enxergava a educação como uma forma de trazer luz àquilo que estava nas trevas.
Os jovens fundadores procuravam um periódico que coadunasse com sua visão de mundo e posição política, em especial quanto à causa da educação. De acordo com o periódico, os jovens fundadores também compartilhavam do mesmo ideal educacional defendido por Epitácio Soares, que apresentava, em seu artigo, a educação vista como forma de redenção. Não é insignificante o fato de ter sido O Rebate o primeiro a destacar a iniciativa lançada em Pernambuco.
O nome que se destacou nesse conturbado contexto político foi o de Epitácio Soares, um dos intelectuais que produziram, no Rebate, artigos e reflexões em torno da ideia das tradições e do desenvolvimento da cidade. Epitácio Soares postulava a civilidade associada, por exemplo, a uma educação que reforçasse os valores patrióticos e a identidade nacional. Nesse contexto, a campanha dos jovens de Recife encontrou espaço em suas páginas. De posse do primeiro Boletim publicado pela C.G.P., o jornalista lançou em seu artigo as premissas sobre o futuro da iniciativa.
Por todos os motivos expostos e por outros que falarão mais alto do cunho eminentemente nacionalista da campanha, ela que, por enquanto, se restringe ao Estado de Pernambuco, merece a simpatia de todos os brasileiros, e que a sementeira desse ideal da mocidade pernambucana germine e produza frutos noutras unidades da Federação (Soares, 1943).
O periódico campinense foi apenas o primeiro a dedicar espaço e divulgar os postulados e posições ideológicas dos fundadores da Campanha. Como aponta Epitácio Soares em seu artigo, a articulação realizada pelos jovens da Casa do Estudante colabora para que a Campanha se difunda em diversas unidades da federação, tornando-se uma instituição educacional de envergadura e articulação nacional. Com a instalação da sede da Campanha Nacional de Educandários Gratuitos (CNEG), na Rua Silvio Romero, no Rio de Janeiro, as redações dos periódicos locais tornaram-se ponto de visitas obrigatória para os membros da Instituição.
Para Sirinelli (2003), os periódicos e revistas são lugares de fermentação intelectual, de relação afetiva dos intelectuais, viveiros de sociabilidade, lugares de adesões, debates, cisões e arrebanhamento de fidelidades. Nesse lugar se exerce influência sobre a opinião pública, legitimando ou deslegitimando discussões e debates. Felipe Tiago Gomes compreendia o poder político e social exercido pelos jornais como mecanismo útil para alcançar seus objetivos.
De acordo com o fundador (1994a), a Campanha ganhou notoriedade nas folhas dos jornais. Ele e José Rafael de Menezes concederam entrevista à Folha da Manhã, no dia 28 de março de 1944, que foi republicada no Diário da Manhã no dia 26 de abril de 1944, a fim de divulgarem a realização da Primeira Semana de Cultura Nacional, evento idealizado pelos fundadores, no Recife, para obterem apoio financeiro e darem visibilidade política à Instituição. “A Campanha ganhou fortes aliados: a imprensa e o rádio. E as correspondências começaram a chegar de diversos pontos” (Gomes, 1994, p. 50).
Felipe Tiago Gomes reproduz, em seu escrito, correspondência encaminhada por Tibiriçá do Brasil, em 30 de maio de 1944, no qual afirma:
Meu caro Felipe: Também tenho ouvidos, olhos, coração e já percebi a campanha de vocês desde que era apenas um murmúrio. E gostei de ver o fogo na alma de vocês, incendiando tudo e derretendo temores e descrenças. [...] Apesar de, como vocês, não encontrar a solução da Instrução no Brasil na criação de ginásios e, sim, na de Institutos de conhecimentos gerais (letras, artes, matemáticas, técnicas, etc.), espalhadas pelo interior do País, cumpro um dever em louvar tão altruísta e humana iniciativa no setor nacional mais carecido – A EDUCAÇÃO (Gomes, 1994, p. 50, sic).
A presença dos fundadores nos jornais promoveu um debate ideológico em torno dos possíveis caminhos para o problema da educação secundária no Brasil. Felipe Tiago Gomes reforçou sua posição, na abertura de ginásios gratuitos para os menos favorecidos, os quais seguiam funcionando principalmente com a ajuda e articulação das próprias comunidades, experiência inspirada em Haya de la Torre, no Peru.
É fundamental observar que os jornais também passaram a tornar conhecidos os membros da instituição, e Felipe Tiago Gomes, com a realização de viagens pelos diferentes estados da federação, gradativamente, tornou-se conhecido como um dos líderes do que viria se tornar a Campanha Nacional de Escolas da Comunidade (CNEC). Essa visibilidade propiciou que portas fossem abertas para que pudesse se aproximar de figuras públicas, com o intuito de alcançar seus objetivos políticos e ideológicos.
Em 1945, o fundador realizou sua primeira viagem ao Rio de janeiro, então capital da República, na companhia de Genivaldo Wanderley e de Juarez Gomes, com o objetivo de obter o reconhecimento oficial do Ginásio Castro Alves, junto ao Ministério da Educação e Saúde. A visita não obteve os frutos desejados, pois a Campanha não estava adequada ao que preconizava a Lei Orgânica do Ensino Secundário, de nº 4.244, de 9 de abril de 1942. Esse resultado lhes foi dado por Lúcia Magalhães, diretora do ensino secundário, que, ao invés do então chefe de gabinete do ministro, Carlos Drummond de Andrade, os recebeu (Gomes, 1994).
Essa negativa fez com que, um ano depois, em 1946, o fundador retornasse ao Rio de Janeiro. Em 1949, ele levou os membros da Campanha a criarem a sede da instituição na capital federal, no intuito de estarem mais próximos do centro das decisões políticas. Segundo Felipe Tiago Gomes, Nahum Sirotsky, repórter do jornal O Globo, na edição do dia 27 de fevereiro de 1945, noticiou as atividades da Comissão na capital federal, chamando-os de “Os Três mosqueteiros”.
Esse episódio demonstra a compreensão de Felipe Tiago Gomes sobre a importância estratégica da visibilidade pública e das redes de sociabilidade na consolidação de seu projeto educacional. O retorno ao Rio de Janeiro e a posterior instalação da sede da instituição na capital federal expressam não apenas uma busca por reconhecimento político, mas também o entendimento de que o êxito de uma iniciativa educacional dependia de sua inserção nos circuitos de poder e de comunicação. Ao mobilizar a imprensa e estabelecer vínculos com jornalistas como Nahum Sirotsky, o fundador construiu uma narrativa simbólica em torno de sua atuação e da Campanha, projetando-a como uma causa de alcance nacional.
O primeiro artigo é um texto do escritor Rubem Braga, publicado no dia 12 de julho de 1949, no Diário de Notícias do Rio de Janeiro, com o título Os Milionários, ainda nos primeiros anos de atividade da então CNEG. A finalidade do artigo atrela-se à estratégia de fazer com que a instituição educacional se torne conhecida nacionalmente, principalmente quando inicia sua primeira fase de expansão com a abertura de ginásios no Amazonas, em Pernambuco, na Paraíba, no Paraná e no Rio de Janeiro. Essa primeira expansão partiu de visitas aos estados, realizadas por Felipe Tiago Gomes após a criação e implantação do Ginásio Castro Alves, na cidade do Recife. Rubem Braga ressalta a necessidade de movimentos que auxiliassem o estado na tarefa educacional (Diário de Notícias, 12 de julho de 1949).
No recorte em questão, Rubem Braga motiva personalidades políticas a conhecerem a CNEG e a iniciativa de Felipe Tiago Gomes. Havia um pedido de concessão de créditos, à Campanha, no valor de 5 milhões e 300 mil cruzeiros, enviado à Câmara dos deputados, o que almejava sensibilizar as autoridades. O artigo também menciona as figuras de Felipe Tiago Gomes e da professora Zilma Coelho Pinto, responsável pela implantação de um ginásio noturno em sua terra natal, Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo, como “pobres, mas milionários de humanidade”.
O excerto acima, na íntegra abaixo, assim como os demais periódicos que publicaram notícias sobre o fundador e a instituição também atuaram como mecanismos de idealização da pobreza vivida por Felipe Tiago Gomes durante a infância e os primeiros anos de atividades da Campanha. O fundador sempre foi representando como uma pessoa humilde e repleta de solidariedade. Um sujeito que, por seu carisma, sensibilizava as pessoas para sua causa.
Tendo sua publicação localizada nos primeiros anos de atividades da instituição educacional, o artigo em questão colaborava na afirmação de Felipe Tiago Gomes como uma liderança na Campanha frente à opinião pública, em detrimento de outros personagens que são esquecidos ou que não tiveram o mesmo destaque que o paraibano de Picuí na memória institucional da Campanha. O periódico, como um influenciador da opinião pública, projeta representações que visam legitimar o lugar de Felipe Tiago Gomes no campo educacional.
Em artigo da década de 50, presente no caderno “Diário Escolar”, do periódico Diário de Notícias, página 04, segunda seção, do dia 26 de julho de 1957, há um texto que fala sobre a iniciativa como “idealista e promissora”. De acordo com o editor do caderno, os jovens fundadores, liderados por Felipe Tiago Gomes, conheciam bem a frase: “Querei e sereis onipotentes” (Diário de Notícias, 12 de julho de 1949, p. 04), sendo assim atuavam na distribuição daquilo que “seria mais precioso, a educação gratuita”. Ao completar 14 anos de atividade da Campanha, o artigo enaltece a entidade reconhecida como de utilidade pública, pelo Decreto 36.505 de 30 de novembro de 1954.
Assim, oficialmente reconhecida, a instituição educacional teria menores dificuldades no que dizia respeito à concessão de verbas – fundamentais para a manutenção de suas atividades. O Diário de Notícias, de 26 de julho de 1957, reproduziu um cenário no qual, a partir da liderança de Felipe Tiago Gomes, todos estariam irmanados em trabalhar em favor da Instituição educacional. A ideia era a de que, e mesmo nos lugares onde a Campanha ainda incipiente sofria com desistências, novas pessoas surgiriam para colaborar com suas atividades.
E assim vai caminhando a passos rápidos a CNEG. Já é um movimento respeitável para o qual se voltam parlamentares a fim de conceder-lhe verbas, autoridades para ceder-lhe prédios, professores para lhe ofertar seus préstimos, e o nosso bom povo para auxiliá-la na medida de suas posses. [...] Queremos apenas aqui lembrar que o seu idealizador investe muito para a formação de uma equipe de dirigentes a altura do movimento, para que, no dia em ele faltar, o empreendimento não sofra qualquer descontinuidade (Diário de Notícias, 26 julho de 1957).
O trecho do artigo mencionado evidencia a preocupação da instituição em oferecer formação específica aos dirigentes e ao corpo administrativo de suas unidades educacionais, de modo que atuassem em consonância com os princípios e ideais defendidos pelo fundador. Simultaneamente, esperava-se que desse processo emergissem novas lideranças cenecistas, capazes de dar continuidade ao projeto quando de sua ausência. A imprensa, por sua vez, colaborava para a construção simbólica de Felipe Tiago Gomes como “um herói da educação nacional, capaz de servir tanto de arquétipo ideológico-político quanto de marco intelectual e moral” (Haydn, 2022, p. 62).
A análise do texto publicado pelo Diário de Notícias evidencia o papel ativo da imprensa na consolidação de uma imagem pública de Felipe Tiago Gomes e da Campanha Nacional de Escolas da Comunidade (CNEC) como expressões de um ideal educacional pautado pelo civismo e pelo altruísmo. Ao caracterizar o movimento como “idealista e promissor”, o periódico não apenas exaltava uma iniciativa filantrópica, mas também legitimava um projeto alinhado ao discurso nacional-desenvolvimentista dos anos 1950, no qual a educação era concebida como instrumento de progresso moral e social.
Essa narrativa, ao enaltecer o empenho do fundador e a adesão espontânea de seus colaboradores, produzia uma representação harmônica e coesa do movimento, ocultando as tensões internas e as disputas por reconhecimento que o atravessavam. Ao defender a formação de novos dirigentes “à altura do movimento”, o texto reforçava a ideia de continuidade institucional sustentada na autoridade carismática de Felipe Tiago Gomes. Desse modo, a imprensa não apenas registrava e divulgava ações, mas atuava como mediadora na construção de uma memória idealizada da CNEC — transformando seu fundador em símbolo de virtude cívica e educacional, e a instituição em emblema de uma pedagogia nacional orientada para a coesão social e o bem comum.
Um dos jornais cariocas que mais destaque ofereceram à instituição e aos seus membros ao longo do século XX foi o Correio da Manhã (1901-1974), do Rio de Janeiro, cuja imagem de abertura da seção consta em um recorte do referido periódico. Nos primeiros anos de circulação, o Correio da Manhã produzia 30 mil exemplares, tonando-se o maior matutino carioca, que, em seus melhores anos, nas edições de domingo, chegou a ter acima de 150 mil exemplares (Neiva, 2018).
No que diz respeito ao Correio da Manhã, entre os anos de 1953 e 1971, foram catalogados, na Hemeroteca Digital Brasileira, 62 recortes que traziam referências diretas a Felipe Tiago Gomes, fosse por meio da participação em eventos, entrevistas e declarações concedidas, fossem homenagens recebidas. A última notícia coletada refere-se à participação do fundador na premiação do concurso Hino Cenecista, evento em que o compositor Marlos Nobre foi premiado pela composição da chamada Canção Cenecista.
Entre os 62 recortes relacionados à instituição e Felipe Tiago Gomes, em três ocasiões o matutino relata a visita do fundador à redação do periódico. Em 27 de fevereiro de 1954, após a realização da I Maratona Intelectual da CNEG, o fundador visitou a sede do jornal acompanhado dos alunos que participaram de um concurso que tinha por finalidade eleger os alunos de melhor rendimento acadêmico das unidades ligadas à Instituição (Correio da Manhã, 27 de fevereiro de 1954).
No dia 02 de outubro de 1954, o fundador visitou a sede do Periódico acompanhado de um grupo de estudantes do Ginásio de Vitória, no Espírito Santo. Os referidos alunos encontravam-se na capital para uma visita às cidades fluminenses, conhecendo museus, escolas da CNEC e outros espaços culturais. Felipe Tiago Gomes, então diretor técnico da Campanha e presidente do Teatro cenecista, faz com que possam conhecer o Correio da Manhã. (Correio da Manhã, 02 outubro de 1954). O matutino registrou, no Caderno de Ensino, uma fotografia da referida visita.
Com sua postura, almejava trazer para sua esfera de influência o grupo de alunos na visita divulgada por um dos mais importantes periódicos do país no período. Tal fato contribuiu para que os professores e membros da referida instituição guardassem na memória o gesto realizado pelo fundador. Essal atitude postula que os valores por ele defendidos encontrem eco e capilaridade nos estudantes e professores que por ele eram recebidos.
Sendo assim, ao regressarem para sua unidade educacional, os estudantes teriam, conforme as expectativas do fundador, a função de relatar a visita e propagarem os postulados ideológicos defendidos por ele. Por meio dessas estratégias de sociabilidade, buscava legitimar seu lugar de modelo de liderança e expandir sua esfera de influência na formação de novos líderes para a instituição.
O primeiro recorte sobre a visita realizada pelo fundador da CNEC à redação do Correio da Manhã traz a notícia do dia 30 de julho de 1957, em que Felipe Tiago Gomes buscava agradecer ao redator do Caderno de Ensino pela cobertura realizada sobre o IX Congresso da CNEG. O referido Congresso teve como pauta a adequação da então CNEG à reforma do ensino secundário como também os desafios para que a instituição continuasse seu processo de expansão.
Na ocasião, foi escolhida a nova diretoria da instituição para o biênio 1957-1958, tendo sido eleita, como presidenta da entidade, a Primeira-Dama da República, Sara Lemos Kubitschek. Sob a presidência da Primeira-Dama, a instituição vivenciou um dos momentos de maior expansão nacional, que culminou com a fundação da nova sede da instituição em Brasília. Felipe Tiago Gomes atuou, então, como Diretor de finanças da instituição, todavia exerceu um papel de embaixador, a visitar estados e municípios no processo de ampliação da Instituição.
Por ocasião da visita ao periódico, Felipe Tiago Gomes foi acompanhado de membros das delegações estaduais da Instituição que participaram do conclave. Neste, foram homenageados não apenas o Correio da Manhã, mas demais veículos de imprensa que fizeram a cobertura, como os jornais O Globo e Diário de Notícias. Oferecendo destaque aos membros das delegações estaduais, Felipe Tiago Gomes se coloca às margens na fotografia realizada na redação do matutino, sendo o primeiro da esquerda para a direita, atrás de uma mesa, como a demonstrar humildade.
O fundador assume o papel de protagonista na instituição, ao articular uma série de inciativas relacionadas à restruturação administrativa e à expansão nacional da Campanha. Embora passando a presidência para outras personalidades, não deixava de ser presença ativa em sua trajetória institucional. Desse modo, buscou reforçar a representação de um “líder democrático e aberto a mudanças”, ao mesmo tempo que garantia e reafirmava seu espaço na complexa rede de sociabilidades tecida em torno da instituição.
Em 12 de dezembro de 1959, Oziel Peçanha e Gesner Morgado redatores do periódico foram homenageados em almoço oferecido na sede da CNEG. Em 06 de novembro de 1964, alunos do Ginásio Comercial Leopoldo Hoff, em Porto Alegre, visitaram a sede do jornal para anunciarem que o motivo de tal visita à capital federal foi convidar Felipe Tiago Gomes para ser o patrono da turma de formandos daquela escola (Correio da Manhã, 06 de novembro de 1964).
A seção “O Ensino” do Correio da Manhã, como o próprio nome diz, era destinada à discussão sobre esse tema. Nela, o periódico carioca trazia à tona notícias e discussões relacionados ao debate educacional no período. Sendo assim, para uma iniciativa que estava germinando, obter espaço em um veículo da dimensão do Correio da Manhã era ponto fulcral, e parece que Felipe Tiago Gomes tinha consciência disso.
Os veículos de imprensa poderiam auxiliar a Campanha na comunicação com a sociedade, a fim de apresentar seu plano de trabalho e legitimá-lo. Esses olhares sobre o mundo são arquitetados por meio de inúmeras materialidades do plano da expressão das linguagens que constituem o texto do jornal, como a visual e a verbal (Gomes, 2009), para que se estabeleçam relações de sentido.
Entre os anos de 1929 e 1963, o Correio da Manhã esteve sob a direção de Paulo Bittencurt, filho de Edmundo Bittencurt, que, em 1901, havia fundado o periódico. De acordo com Neiva (2018), nesse período, o jornal adquiriu forte presença de anúncios publicitários e assumiu o caráter industrial das fábricas de notícias. A partir desse viés, seu público passou a ser, em grande parte, a alta burguesia e pessoas de maior poder aquisitivo. Com a presença cada vez maior dos anúncios, a circulação dos números do periódico aumentou, o que tornava o Correio da Manhã muito atrativo para os membros da Campanha, já que os ajudaria a divulgarem suas ações.
Em declarações a esse periódico, em 26 de novembro de 1959, Felipe Tiago Gomes divulgou suas viagens pelo país e, paralelamente, divulgou o nome da instituição, com o fito de abrir novas unidades da entidade. Contando com 257 estabelecimentos já em funcionamento, o fundador articulou reuniões na região Sul do Brasil, em busca de sensibilizar e firmar parcerias com lideranças políticas locais, fosse na esfera estadual, fosse municipal – nos estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul (Correio da Manhã, 26 de novembro de 1959).
Felipe Tiago Gomes ressalta a importância da realização de encontros com lideranças educacionais e eclesiásticas, atentando para o fato de que a Igreja poderia ser um elemento de importante apoio para os desígnios da Instituição, dado que muitos padres e bispos foram responsáveis pela criação de algumas de suas unidades educacionais, a exemplo de Alagoas, estado onde o Cônego Teófanes Augusto de Barros foi responsável pela criação da então Campanha Nacional de Educandários Gratuitos (CNEG) e durante muitos anos seu presidente estadual. Este exemplo repercute em inúmeras outras comunidades, onde vigários locais, bispos, atuaram na implantação de escolas da Instituição educacional ou integraram seus quadros administrativos (Gomes, 1989).
Na mesma entrevista já anteriormente citada, Felipe Tiago Gomes afirma: “[...] como demonstração clara do prestígio que nosso trabalho adquiriu nos últimos quinze anos de atuação em quase todo o país” (Correio da Manhã, 26 de novembro de 1959, p. 2), é que a Campanha Nacional de Educandários Gratuitos (CNEG) seria contemplada por meio de um projeto de lei apresentado na Assembleia Legislativa de Santa Catarina, a qual destinaria, no ano de 1960, 30 mil cruzeiros por turma de ginásio da CNEG. Ao mesmo tempo, aponta que um dos objetivos da visita aos estados sulinos seria prestar homenagens ao trabalho desempenhado pelos “abnegados cenegistas” que, em ginásios modestos, se dedicavam a “educar os jovens desprovidos por um Brasil forte” (p. 2).
Observa-se que os elogios ao trabalho da instituição se fundem ao agradecimento pela dedicação do fundador em atuar nacionalmente na articulação e fundação de novos ginásios como também em sua atuação política pela manutenção dos ginásios em atividade. De um modo ou de outro, Felipe Tiago Gomes coloca-se como centro da notícia, fabrica-se como um sujeito digno de homenagens e reconhecimento.
Ao lado da entrevista de Felipe Tiago Gomes, o Caderno de Ensino do Periódico divulgou uma matéria cuja manchete trazia o seguinte título: “Mais de 400 mil analfabetos no Rio. Apenas 5% a campanha pode alfabetizar”. A matéria fazia referência a uma pesquisa realizada na capital federal em torno da questão do analfabetismo e à efetividade de uma campanha de enfrentamento ao analfabetismo então desenvolvida.
De acordo com os dados apresentados, aproximadamente 15% da população carioca era analfabeta. A Campanha de alfabetização de adultos sofria com a falta de investimentos e com uma reduzida quantidade de cursos. Enfrentar o analfabetismo de forma efetiva seria, de acordo com o periódico, uma “missão de civilidade, patriotismo e evolução administrativa, política, econômica e social” (Correio da Manhã, 26 de novembro de 1959, p. 12).
Nota-se que o periódico aborda, em paralelo, em sua página, uma campanha que enfrentava dificuldades e outra que, em seu olhar, poderia apresentar uma solução para os problemas educacionais. O fundador da CNEG acabou, posteriormente, também se engajando como membro na campanha de enfrentamento ao analfabetismo. Observa-se, a partir disso, como Felipe Tiago Gomes e os demais fundadores utilizavam a imprensa como uma forma de pautarem o debate educacional em torno de seus interesses.
Ao longo dos anos, Felipe Tiago Gomes estabeleceu uma relação com o Correio da Manhã, buscando assegurar que o periódico assumisse o papel de veículo de divulgação das ações e projetos educacionais desenvolvidos pela instituição. O fundador, por sua vez, por meio da rede de sociabilidade enovelada em torno dos redatores do referido matutino, projetou sua atuação no campo educacional. O “Caderno de Ensino” do Correio da Manhã tornou-se um espaço constante da presença do Fundador e da Instituição educacional – as visitas à redação e os almoços oferecidos fomentaram espaços de sociabilidade, homenagens e distinções, todos mecanismos de formação de parcerias fundamentais com uma imprensa cada vez mais industrializada e com foco em anúncios e propagandas.
Faz-se necessário destacar ainda os sujeitos que escreveram na imprensa sobre Felipe Tiago Gomes e a CNEC. Os artigos foram escritos por personalidades políticas que exerceram cargos de gestão na Instituição, ex-alunos, cofundadores da CNEC, jornalistas e literatos, os quais se referem à trajetória histórica da campanha, de Felipe Tiago Gomes e de tais personalidades na CNEC. Alguns abordam o trabalho da instituição na educação nacional, outros se referem a sua presença em estados específicos. Identificar esses autores e os campos de atuação respectivos na interface com a educação permite constatar algumas das “estruturas de sociabilidade” (Sirinelli, 2003), nas quais se inseria Felipe Tiago Gomes.
De acordo com Sirinelli (2003, p. 249), as “estruturas de sociabilidade variam, naturalmente, com as épocas e os subgrupos intelectuais estudados”. Assim, analisar solidariedades de origem, estudo, idade, pode se configurar em elementos importantes no inventário dos itinerários intelectuais. Lançar mão de traços prosopográficos pode se tornar um caminho interessante no processo de mapeamento da paisagem ideológica e do microclima das redes de que participam os intelectuais.
Outra característica desse grupo que pode ser explicitada é o seu pertencimento a espaços de sociabilidade os quais reforçavam uma certa forma de solidariedade horizontal, permeada não só por vínculos profissionais, mas também de amizade, de dependência e de cooperação. A ação política desenvolvida por Felipe Tiago Gomes aglutinou, de forma direta ou indireta, em torno da CNEC, figuras públicas que pudessem auxiliar no alcance de seus objetivos. Essas figuras, por sua vez, eram beneficiadas com a presença de unidades educacionais da CNEC em seus estados ou municípios ou integrando o quadro administrativo da instituição, repercutindo, assim, em seu capital político.
Considerações finais
Os jornais tornaram-se, ao longo dos anos de atividade da CNEC, um locus de divulgação das ações desenvolvidas e do papel desempenhado por Felipe Tiago Gomes nesse processo. A análise crítica desses enunciados auxilia no processo de apreensão de como esses periódicos contribuíram na divulgação e no processo de expansão da Campanha Nacional de Escolas da Comunidade, além de também colaboraram para a projeção de seus membros. Nesse sentido, compreender os jornais aqui tratados como representação implicam reconhecê-los não apenas como um veículo de informação, mas como um espaço de produção de sentidos e de construção simbólica da realidade social, participando dos processos de elaboração de identidades, valores e narrativas coletivas e, assim, atuando como mediador entre os acontecimentos e o imaginário social que os interpretam.
Dito isto, a imprensa foi instrumento apropriado para o fundador e os membros da campanha, por meio da qual atuavam como “arquitetos” na formação de uma imagem pública da Instituição educacional. Esta foi utilizada de modo a servir como canais para divulgarem os interesses e necessidades da Campanha, aglutinarem apoios fundamentais para a sobrevivência da instituição e como veículos para divulgações de suas comunicações internas destinadas às seções estaduais e unidades educacionais, sendo esses periódicos muitas vezes utilizados como órgãos de “comunicação oficial” a seu serviço.
No emaranhado de representações produzidas, Felipe Tiago Gomes foi visualizado na produção dessas narrativas em detrimento de outros personagens que fizeram parte da fundação da Campanha. Esse aspecto se deve ao movimento elaborado pelo fundador no sentido de colocar-se em posições estratégicas no âmbito administrativo da Campanha e, por meio dela, circular entre redes de sociabilidade que tinham por finalidade fazer com que os diferentes atores políticos trabalhassem em prol de suas necessidades e, assim, publicizar a instituição.
Com efeito, este trabalho buscou contribuir para a História da Educação, a partir da análise da presença de Felipe Tiago Gomes na imprensa nacional, divulgando a Campanha Nacional de Escolas da Comunidade, de modo que as relações de poder e jogos de sociabilidades envolvidos na produção dessa visibilização possibilitasse pensar a história de um sujeito como fonte para uma memória institucional.
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