Diálogos sobre educação sexual no contexto da Educação de Jovens, Adultos e Idosos do campo
Dialogues on sex education in the context of youth, adult and elderly education in rural areas.
Diálogos sobre educación sexual en el contexto de la educación de jóvenes, adultos y ancianos en zonas rurales.
Cristiane
de Oliveira Cerqueira
Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, Feira de Santana – BA, Brasil.
cristianecerqueira99@hotmail.com
Maricleide
Pereira de Lima Mendes
Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, Feira de Santana – BA, Brasil.
Recebido em 19 de fevereiro de 2025
Aprovado em 23 de dezembro de 2025
Publicado em 16 de janeiro de 2026
RESUMO
O presente estudo teve como objetivo apresentar as ações desenvolvidas em um curso de formação continuada sobre educação sexual por meio dos Círculos Dialógicos Freireanos para professores da Educação de Jovens, Adultos e Idosos de uma escola do campo. Nosso foco foi refletir sobre a formação de professores da referida modalidade, buscando tecer algumas reflexões sobre os saberes gerados e adquiridos, com o intuito de compreender os processos formativos que permearam as etapas e atividades do curso de formação. O estudo enquadra-se numa pesquisa qualitativa, participante e descritiva e foi desenvolvido com dez educadores e dois gestores de uma escola do campo do município de Antônio Cardoso, Bahia, Brasil. A busca por conhecer os aspectos relacionados à prática docente sobre sexualidade proporcionou um exercício para superação de práticas de normalização e valorização da temática para a formação de docente do campo. O estudo também proporcionou o exercício de autoconhecimento dos participantes, revelando aspectos de seu cotidiano, como os conflitos geracionais e as vivências da sexualidade, numa perspectiva contemporânea. O uso do Círculo Dialógico Freireano instigou o protagonismo, visto que os professores discutiram temas polêmicos e relevantes e ainda mediaram o conhecimento entre seus pares. Atestamos que existe a necessidade de estudos que envolvam a participação dos jovens, adultos e idosos, por considerarmos que estes possuem improtantes contribuições sobre a temática.
Palavras-chave: Círculo dialógico; Educação sexual; EJA campo.
ABSTRACT
The present study aimed to present the actions developed in a continuing training course on sexual education through Freirean dialogic circles for Youth, Adult and Elderly Education teachers at a rural school. Our focus was to reflect on the training of teachers in the mentioned modality, seeking to weave some reflections on the knowledge generated and acquired, with the aim of understanding the training processes that permeated the stages and activities of the training course. The study is part of qualitative, participatory and descriptive research and was developed with ten educators and two managers from a rural school in the municipality of Antônio Cardoso, Bahia, Brazil. The quest to learn about aspects related to teaching practice on sexuality provided an exercise in self-knowledge and self-concept for the participants, revealing aspects of their daily lives, such as generational conflicts and experiences of sexuality, from a contemporary perspective. The use of the Freirean Dialogical Circle encouraged protagonism, as teachers discussed controversial and relevant topics and also mediated knowledge among their peers. We attest that there is a need for studies that involve the participation of young people, adults, and the elderly, as we believe they have important contributions to the topic.
Keywords: Dialogical circle; Sex education; EJA field.
RESUMEN
El estudio tuvo como objetivo identificar los posibles aportes de la metodología del Círculo Dialogico basada en los Círculos Culturales de Paulo Freire en la formación de docentes de Educación de Jóvenes, Adultos y Mayores en escuelas rurales para la educación sexual. Nuestro enfoque fue reflexionar sobre la formación de profesores de la modalidad mencionada, buscando tejer algunas reflexiones sobre los saberes generados y adquiridos, para comprender los procesos formativos que permearon las actividades del curso de formación. Se trata de una investigación participativa, desarrollada con 10 educadores y 2 directivos de una escuela rural del municipio de Antônio Cardoso, Bahía, Brasil, en la que se realizaron acciones de capacitación siguiendo los pasos propuestos en el Círculo de Cultura de Paulo Freire. La búsqueda por conocer aspectos relacionados con la práctica docente sobre sexualidad proporcionó un ejercicio de autoconocimiento y autoconcepto para los participantes, revelando aspectos de su cotidianidad, como conflictos generacionales y experiencias de sexualidad, desde una perspectiva contemporánea. El uso del Círculo Cultural fomentó el protagonismo, ya que los docentes discutieron temas controvertidos y relevantes, y también mediaron el conocimiento entre sus pares. Atestamos que existe la necesidad de estudios que involucren la participación de jóvenes, adultos y ancianos, por considerar que estos tienen importantes contribuciones sobre la temática.
Palabras clave: Círculo dialogico; Educación sexual; Campo EJA.
Introdução
O estudo em questão versa sobre a temática da Educação Sexual para os Anos Finais do Ensino Fundamental, na modalidade Educação de Jovens, Adultos e Idosos de uma escola do campo por meio dos Círculos Dialógicos Freireanos.
Os Círculos Dialógicos podem ser definidos como uma estratégia de educação libertadora, pois se constitui como um espaço onde todos têm a palavra e o interesse central é o da linguagem no contexto de uma prática social livre e crítica. Isso permite e proporciona momentos de aprendizagem individual e coletiva, produzindo formas próprias e renovadas, solidárias e coletivas de pensar e agir, por meio de uma interação do ser humano com a realidade, recriando-a e buscando a dinamização do seu espaço no mundo (Freire, 2013; Freire, 2011).
O marco da necessidade de estudar e propiciar formação continuada, bem como material didático sobre sexualidade e questões de gênero, é percebido pela pesquisadora desde muito cedo, pois as concepções ganham entendimentos para além do campo pessoal e, avançam no trilhar doutros percursos societários integrativos, como educacional, social, econômico, político e científico.
Para tanto este estudo está alicerçado em autores(as) que estudam com ética e robustez os temas, dentre eles destacamos Lauro (2007; 2016), Zanata (2016), Andrade (2013) e Flecha (2001), Cerqueira e Mendes (2023), Cerqueira (2024) entre outros.
Sob o olhar comunal, a educação sexual é entendida como um convite ao desfrute, pois é vista como uma ação desconcertante. A temática sempre se mostrou como um obstáculo aos docentes, principalmente para os que atuam na Educação de Jovens, Adultos e Idosos de escolas do campo (EJAI Campo), devido ao baixo nível de investimento na formação dos educadores nesta modalidade. Para Andrade (2013) pensar em educação sexual para Educação de Jovens, Adultos e Idosos é criar possibilidades de orientar as atitudes racionais desse público em relação ao comportamento sexual.
Para Cerqueira e Mendes (2023) a educação sexual é um tema de urgência social e por isso deve ser contemplada no currículo escolar de qualquer modalidade de ensino e não apenas ser tema para as aulas de ciências. Nesta mesma linha Zanata et al., (2016) apontam que dialogar sobre educação sexual apenas nas aulas de ciências e biologia não abrange a magnitude desta temática; é imprescindível que o tema da sexualidade seja transversal e assim assuma dimensões sociais e políticas.
A sexualidade é um dispositivo de poder e, as visões que circundam à temática abrangem de forma superficial tão somente saberes comunais e voltados a meras formas de prazer. Mas, o essencial a ser pontuado sobre a temática fica desfocado, que são as bases de forças que movem desde sempre a sociedade, acerca do corpo humano e, muito mais, da mulher, como objeto, desvalorizando as informações que permutam a temática. Essa abordagem, de cunho por vezes machista, é o berço de ausências de estudos sobre o assunto e, perdura no âmbito educacional porque são resquícios da sociedade patriarcal.
No tocante as questões de gênero, Louro (2010, p. 22) salienta que gênero é “uma construção que se dá com as relações sociais e seu significado está para além das diferenças biológicas entre os sexos”. Algumas concepções sobre as questões de sexualidade e gênero incutidas socialmente podem impossibilitar que determinadas discussões alcancem as mais variadas camadas sociais, principalmente, as mais vulneráveis. Assim sendo, discutir sobre a sexualidade humana é uma problemática, visto que algumas interpretações tortuosas de mundo por vezes polemizam, enfraquecem e impedem que esse diálogo possa alcançar os sujeitos.
A escola carrega em si uma função social de transmitir a informação de maneira a formar cidadãos responsáveis, críticos e conscientes da sua realidade. Sob essa perspectiva, Gadotti (1979 apud Paulo; Trombetta, 2021, p. 10) reforça que “educar é sempre um ato político”. Seguindo o campo político da temática, as orientações sobre sexualidade e questões de gênero na escola são postas em xeque por falácias referente a imoralidade e a maneira de porta-se socialmente. Visualiza-se este panorama nas abordagens que regem as políticas educativas, estas não atendem às demandas sociais e, tendem a não contemplar, nem mesmo no currículo oculto, os clamores da sociedade.
Trazendo a temática para o contexto da Educação do Campo, percebemos que a invisibilidade desse tema se intensifica. A Educação do campo é uma proposta educativa emancipadora que segundo Caldart (2005) se constitui um paradigma de educação que busca se fazer presente nas políticas educacionais. Ela envolve uma concepção e uma prática de educação com fundamentos filosóficos, sociológicos, epistemológicos, pedagógicos e uma proposta curricular que questiona e busca se diferenciar da educação hegemônica.
Considerando esta perspectiva, torna-se necessário visualizar a Educação do Campo como uma política pública primordial para a transformação da educação e da realidade social dos sujeitos do campo. Para podermos compreender melhor essa realidade e como é desenvolvida a temática educação sexual em escolas do campo, nos propusemos neste estudo apresentar as ações desenvolvidas em um curso de formação continuada sobre educação sexual por meio dos Círculos Dialógicos Freireanos para professores da Educação de Jovens, Adultos e Idosos de uma escola do campo. Para isso, partimos da seguinte pergunta: como a metodologia do círculo dialógicos baseado no círculo de cultura freireano pode contribuir para o desenvolvimento da práxis docente da EJAI Campo para educação sexual?
Estruturamos nosso artigo trazendo uma introdução, contendo apresentação do tema, objetivo e problema de pesquisa. Em seguida, apontamos o referencial teórico, com discussões da literatura pertinente ao tema, seguido da metodologia, resultados e considerações finais.
Círculos Dialógicos Freireanos, Sexualidade e Educação De Jovens, Adultos e Idosos do Campo
Idealizado pelo educador Paulo Freire no ano de 1960, os Círculos de Cultura caracterizam-se como uma proposta pedagógica inovadora baseado na construção da aprendizagem grupal e democrática no qual os saberes são partilhados de maneira horizontal, ou seja, não existem conhecimentos superiores ou inferiores, os sujeitos partilham de saberes diferentes constituídos em suas vivências e isso é enriquecido na construção do conhecimento. De acordo com Costa e Machado (2023, p. 290) “Nos Círculos de Cultura desenvolvem-se práticas de ensinar-e-aprender, baseadas na construção coletiva, nas interações pedagógicas, na dialogicidade e na vivência da aprendizagem como um processo dinâmico e vivo”.
Sob esse viés, Dantas e Linhares (2014), sinalizam que os círculos de cultura rompem com a fragmentação do saber e assumem um caráter democrático e libertador, no qual aprendizagem é proposta de modo integral para promover a horizontalidade do conhecimento entre o educador e o educando.
Nesta proposta freirena o aprendizado se constitui nas experiências vivenciadas pelos sujeitos envolvidos, que a partir dessas vivências constroem junto o conhecimento solidário, assim sendo, quem ensina aprende e nesse ambiente busca-se formar sujeitos reflexivos, críticos e conscientes de sua realidade por meio da ação dialógica.
Sendo assim, entendemos a educação como uma prática social que almeja não só a apreensão de conhecimentos e a mudança de práticas e atitudes, mas a mudança na forma de pensar, sentir e agir. Ademais, a prática educativa deve propor meios de aprendizagem que emancipem os sujeitos para a construção de um saber libertador.
Ao falar da importância de uma proposta pedagógica significativa sobre a sexualidade, Figueiró (2001), sinaliza que é preciso oportunizar os educandos vivenciarem a possibilidade de “ver, rever, discutir e tornar a discutir um tema, pois educar sexualmente é um processo formativo, portanto longo.” Nesse contexto, a educação sexual se constitui ao longo da vida e deve ser encarada como um meio de reflexão e de emancipar os sujeitos que a está tiveram acesso.
A falta de acesso a informações sobre sexualidade deixa o sujeito mais vulnerável a problemas como as infecções sexualmemte transmissivei (IST’s) e a gravidez precoce ou indesejada. Nesse contexto, fica evidente a necessidade de oferecer uma leitura mais objetiva sobre a questão e despertar no educando da EJAI Campo uma visão mais crítica e fundamentada na construção de um saber próprio acrescido de conhecimento intervencionista.
Para Gadotti (2003) o conceito da Educação de Jovens, Adultos e Idosos se aproxima da educação popular, à medida que se faz necessário sensibilidade docente para compreender a realidade dos seus educandos. Assim sendo, é preciso que o educador compreenda essa modalidade de estudo como aquela que transcende a questão educacional de promover o domínio do conhecimento, portanto ela busca acolher e humanizar seu público, e torná-los cientes de suas escolhas ética e cidadã.
A educação sexual na EJAI Campo não deve surgir só como uma estratégia para promover informações, pois reconhecemos que a informação sozinha não é suficiente para promover mudanças. O processo educativo deve ser ético e transparente e estar atento aos valores, opiniões, tradições, culturais e crenças dos sujeitos da EJAI Campo, pois é por meio da interação social e do diálogo que o indivíduo busca as soluções para os seus problemas construindo seus saberes externos articulados aos seus internos já adquiridos no cotidiano.
São vários os desafios da educação sexual na EJAI Campo, sendo um deles o de orientar os educandos para a liberdade, pois o ser humano está sempre em evolução, transformando-se e adquirindo novos costumes. A sexualidade é uma construção de todos os seres humanos e pode ser compreendida como a identidade social, sexual e de gênero do sujeito modelada por instâncias culturais e sociais.
Pensar a Educação de Jovens, Adultos e Idosos na perspectiva da Educação do Campo (EdoC) contribui para analisar o território campo e entendê-lo como político, organizado pelos inúmeros movimentos sociais e considerar os avanços de uma difícil caminhada sobre as reflexões para uma educação sexual diante da resistência de uma sociedade impregnada de visões conservadoras.
Para Augusto e Mendes (2022) na Educação do Campo, o conhecimento não é descontextualizado, ou seja, não é desligado das raízes e origens dos educandos, pois conhecer e respeitar a identidade, a cultura e os valores que caracterizam os sujeitos do campo, é princípio fundamental para o desenvolvimento e a aprendizagem destes sujeitos.
Vale lembrar que nas escolas do campo, as práticas pedagógicas a serem desenvolvidas precisam assumir a identidade camponesa e levar em consideração a valorização de todo o contexto histórico da comunidade. Segundo Caldart (2005) a Educação do Campo é uma educação dos e não para os sujeitos do campo, sujeitos estes que tiveram/tem seus direitos negados.
Assim como a Educação do Campo, a Educação de Jovens, Adultos e Idosos (EJAI) pode ser compreendida como uma educação em defesa dos direitos humanos, uma educação libertadora, emancipatória e capaz de romper com um ensino hegemônico. Por muitos anos, essa modalidade, tinha um estigma de ensino compensatório, destinado àqueles que não conseguiram terminar a educação básica. Hoje a EJAI procura se reconfigurar, tentando superar seu estigma negativo, de ensino aligeirado, baseado no paradigma compensatório, e atingir seu objetivo de reparação social desses longos séculos de analfabetismo e exclusão (Souza; Barbosa, 2024).
Essas duas modalidades de ensino devem pautar-se num modelo pedagógico que vise à transformação social e que assegure a equidade do ensino e o respeito às diversidades. Diante dessa realidade, consideramos que além da educação formal, os sujeitos jovens, adultos e idosos do campo precisam de orientações sobre aspectos da sexualidade humana, uma vez que questões sobre sexualidade sempre atravessaram as relações no âmbito escolar, pois ela permeia todos os seres humanos, apesar do tabu frente a essa temática.
A importância do debate sobre educação sexual na EJAI Campo se dá por que entendemos que para compreender o conceito de sexualidade existe a necessidade de ter um olhar sobre a mesma para além dos órgãos genitais. Conforme Cerqueira (2024) a sexualidade é um conceito amplo, relaciona-se à manifestação dos desejos, os relacionamentos, o gênero, a expressão dos afetos, as emoções, o relacionamento com o corpo, a orientação sexual e entre outros. Porém, essa concepção é pouco trabalhada nos espações escolares e em especial nos espações escolares do campo. Ainda para Cerqueira (2024) a educação sexual é um tema que possui urgência social e deve ser posta no currículo escolar. Por se tratar de um tema polêmico, este sempre foi um desafio para os docentes, principalmente para aqueles que atuam na EJAI Campo, haja vista o baixo nível de investimento na formação dos profissionais enquadrados nesta modalidade.
Consideramos pertinente apontar que a EJAI Campo é negligenciada pela literatura especializada no contexto da educação sexual. No intuito de tentar sanar um pouco dessa negligência, apresentamos neste estudo um curso de formação continuada para professores que atuam na EJAI Campo por meio de dos círculos dialógicos baseados nos círculos de cultura freireanos. Os Círculos dialógicos freireanos são estratégias pedagógicas que contribuem para o desenvolvimento da práxis docente da EJAI Campo em educação para a sexualidade.
Metodologia
Neste estudo, utilizamos como procedimento metodológico a pesquisa qualitativa. Para Ludke e André (1986) a pesquisa qualitativa prioriza dados descritivos, obtidos pelo contato direto do pesquisador com a situação estudada. Essa abordagem é ancorada pelos pressupostos da pesquisa participante, que segundo Brandão e Streck (2006), adquiriu características próprias e está ligada historicamente a movimentos sociais, mesmo aproveitando tradições norte-americanas e europeias.
Para a pesquisa participante, a Ciência não é neutra, pois toda pesquisa científica encontra-se ancorada em interesses e, também, é importante considerar que “a pesquisa participante não cria, mas responde a desafios e incorpora-se em programas que colocam em prática novas alternativas de métodos ativos em educação e, de maneira especial, de Educação de Jovens e Adultos” (Brandão; Streck, 2006, p. 25).
Para a busca das informações, foram utilizados círculos dialógicos baseados nos círculos de cultura freireano, que são constituídos por grupos, com foco na interação por meio da ação dialógica. Os sujeitos da pesquisa foram doze (12) sendo dez (10) docentes e dois (2) gestores que atuam na EJAI de uma escola do campo na cidade de Antônio Cardoso-Ba e que aceitaram os termos da pesquisa. Com o intuito de preservar a identidade dos professores, adotamos a letra P seguida de numeral (P1) para denominar o professor 1, P2 para denominar o professor 2, e assim, sucessivamente. As faixas etárias dos participantes variavam de 46 a 56 anos, sendo seis (06) participantes do sexo masculino e seis (06) participantes do sexo feminino.
A coleta das informações buscou seguir as etapas propostas por Paulo Freire na realização do Círculo de Cultura (Freire, 2013) por meio da gravação das falas e da observação participante, com registros em diário de campo. Foram planejados e executados quatro encontros/ações formativas. No primeiro encontro houve um momento de apresentação da proposta de trabalho e contato inicial. Os três encontros subsequentes foram realizados com base nas palavras geradoras, que envolveram a sexualidade, buscando-se sempre utilizar meios criativos e lúdicos na construção de momentos reflexivos e participativos envolvendo o facilitador e os docentes. Conforme apresentado no Quadro 1, foi proposto um plano de ação para o desenvolvimento das intervenções.
Quadro 1 - Plano de intervenção com os docentes
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Atividade |
Ação |
Recursos |
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Encontro inicial: universo vocabular e dinâmica de descontração e sensibilização. |
Identificar quais os temas que são de interesse dos docentes para serem trabalhados em outros momentos (nos demais círculos dialógicos). |
Papeis A4 coloridos, caneta e uma pequena caixa de papelão. |
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2o Círculo dialógicos: desvelar o significado de sexualidade |
Criar um espaço para explorar e compreender a concepção de sexualidade de maneira saudável e informada |
Cartolina, revista, tesoura, cola, fita adesiva e piloto |
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3o Círculo dialógicos: gravidez na adolescência |
Apresentar aos docentes pequeno texto de narrativa fictícia com o tema gravidez na adolescência para provocar discussão sobre a temática. |
Caixa de papelão e papel A4 |
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4o Círculo dialógicos: Gênero e Sexualidade saberes dizíveis |
Discussão das questões de gênero e auto avaliação da formação. |
Data show, Balões coloridos e piloto
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Fonte: Autoras, (2023).
Antes da aplicação dos círculos dialógicos, foi fornecido a cada docente participante o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), como garantia do comprometimento com as questões éticas da pesquisa. As informações coletadas foram sistematizadas e analisadas com base no referencial de Análise de Conteúdo, sendo trabalhada apenas a análise temática por meio de categorização e descrição de cada etapa dos círculos e, por fim, sua interpretação (Minayo; Delandes; Gomes, 2016). Após a análise temática, emergiram os seguintes eixos de análise: (i) círculo dialógico: universo vocabular e dinâmica de descontração e sensibilização; ii) círculo dialógico: desvelando o significado de sexualidade; iii) círculo dialógico: gravidez na adolescência e iv) círculo dialógico: gênero na perspectiva docente.
Foi garantido, a cada participante, a liberdade de opinião e o direito de não se manifestar, caso não se sentisse confortável, durante o processo. O trabalho foi aprovado ao Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) sob o CAAE: 69854523.7.0000.0056.
Os Relatos Experenciados nos Círculos Dialógicos Freireanos
Encontro inicial: universo vocabular e dinâmica de descontração e sensibilização
O primeiro Círculo Dialógico foi o “momento quebra-gelo” por meio da leitura “Semeadores de sonhos” do autor, Aluísio Cavalcante Júnior, que convida os leitores a repensar sobre a necessidade de sonhar e de fazer a devida manutenção dos sonhos. Após a leitura, notadamente, a linguagem não verbal perdurou um tempo, olhares fixos, pensamentos a voar, aparência de reflexão e, um momento de convite ao repensar o que estava posto, houve posteriormente o levantamento dos conhecimentos dos participantes acerca do enredo da sexualidade e perguntou-se qual seria o assunto de maior interesse para o momento formativo.
Em meio a esta onda de pensamentos, o participante (P6) trouxe uma reflexão, que evidenciamos na íntegra, vejamos:
Existem momentos em que na atuação docente, podemos viver de forma imperceptível, o sonho alheio, quero dizer: sonhar o sonho do estudante. Mas, a maior surpresa é que, ele mesmo nunca sonhará alçar este lugar ainda desconhecido. Noto que, ocupamos o lugar de sonhadores deles, porque muitos vivem sem nenhuma perspectiva de futuro.
A cosmovisão da pesquisadora diante do exposto passa por perceber que o aspecto humano do educar pode estar fragilizado, já que, as funções sociais agregam valores e, somam-se como degraus na cadeia evolutiva do ser humano. Cabe aqui destacar que, o docente seja por vezes este farol. Notadamente, o sujeito da pesquisa enfrenta nuances do aspecto social e possivelmente, humanitário que, também, devem ser acolhidos.
Deste modo, Freire (2011), reflete que é preciso motivar na educação. Quando não há motivação resultado pode ser o baixo nível de aprendizado, fato este que reflete na vida dos sujeitos. Partindo desse pressuposto, o educador precisa ser um incentivador de seus alunos, criar meios para que estes possam se sentir motivados em dar seguimento e posteriormente concluir seus estudos.
Ainda sobre o texto motivador, alguns posicionamentos dos participantes estão elencados com o intuito de demostrar a devolutiva do primeiro círculo:
Eu estou me sentindo impotente de não estar conseguindo motivar meus alunos (P03).
O material didático da EJA, explana o conteúdo descontextualizado da realidade em que é empregado. Isso tende a desmotivar, porque o estudante não vê sua realidade sendo exposta enquanto estuda, encontra quase sempre o contexto da região Sudeste. Um exemplo é teleférico do Pão de Açúcar exposto como lugar de destaque turístico (P02).
Diante do exposto, nos deparamos com uma realidade vivida dentro da escola da EJAI Campo, em que os materiais didáticos contemplam apenas uma parte do Brasil, como se ela fosse um espelho, ao aparentar desprezar a notoriedade dos outros lugares que são abrangidos pelo país. Esta visão traz à tona a necessidade de representatividade. Educar com diversidade. A desconexão do ser desmotiva a busca pelo saber.
Em meio a esse cenário de aparente desmotivação, Freire (2021) nos leva a refletir que é preciso esperançar, esperançar para que a escola inclua e não exclua, esperançar para que respeito a diversidade dos alunos da EJAI Campo, esperançar para compreender os processos formação política, ou seja, esperançar para além do ato da escolarização.
Nessa conjuntura Di Pierro et al., (2001) ressaltam que a EJAI não deve se limitar apenas a escolarização, ou seja, as práticas conteudistas. Essa modalidade de ensino abarca aos diversos processos formativos, como; preparo dos educandos para o mundo do trabalho; formação política e humana. Sob esse viés, a educação não deve estar pautada apenas no processo de transmitir conhecimento, de adquirir códigos, ela se constitui como um processo formativo humano que prepara os seus educandos para o desenvolvimento de uma visão crítica, reflexiva e consciente da sua realidade e das diversas realidades existentes.
Dando seguimento, após um breve momento de escuta, com a sala organizada em semicírculo, iniciou-se a dinâmica denominada de “Caixinha Arco-íris”, (como podemos observar na Figura 1) cujo objetivo era propiciar a escolha das temáticas dos círculos vindouros. Nesse momento, foi ofertado papéis coloridos aos participantes, momento em que, cada um deveria escrever no papel os assuntos que lhes fosse interessante e, diante disso, pudéssemos dialogar sobre eles nos Círculos.
Figura 1 - Evidência da aplicação do primeiro círculo dialógico
Fonte: Autoras, (2023).
Assim sendo, cada participante deveria colocar na “Caixinha Arco-íris” o papel contendo as informações e em seguida o colega ao lado faria a leitura em voz alta para os demais, o participante justificaria o motivo da sua escolha. Durante a execução da dinâmica proposta pode-se notar que os docentes participantes demostraram dificuldade em escolher um tema.
Neste momento, os professores expuseram que gostariam de relembrar e obter novas informações sobre a concepção de sexualidade, questão de gênero, gravidez na adolescência, IST’s, principalmente, no que diz respeito ao HIV/Aids e as medidas preventivas, anatomia, fisiologia. Conforme podemos perceber nas falas abaixo:
Gênero tem relação direta com a questão do respeito às diversidades (P4).
Sinto-me preocupada para trabalhar com a discussão sobre sexualidade na EJA, visto que existem muitas opressões sociais em torno dessa discussão (P7).
Acho importante a inserção da temática gênero na educação básica, principalmente na modalidade de ensino EJA.
Os alunos da EJA, já possuem uma certa maturidade, então, acho que daria para levar essa discussão. Contudo, confesso que fico temendo ser “barrado”, ou até mesmo ser tachado, por conta de toda visão negativa que se tem referente a esse assunto socialmente (P2).
Minha escolha foi o assunto anatomia humana, e argumentou: Olha, foi a primeira coisa que me veio à cabeça referente a sexualidade; então escrevi. Escolhi uma das opções mais comuns de serem ditas em se tratando da sexualidade (P5)
A etapa da descoberta do universo vocabular dos docentes permitiu constatar que a temática sexualidade, ainda é polêmica, uma vez que alguns professores se sentem envergonhados para a discussão e outros ainda pensam a educação sexual vinculada ao determinismo biológico e desta perspectiva surgem às abordagens voltadas para a reprodução humana, planejamento familiar, infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), ações de promoção à saúde etc (Louro, 2016).
Ressaltamos que não somos contra a abordagem biológica, o que problematizamos é o efeito higienizador daí decorrente. Por isso, chamamos a atenção para o modo de como é feita a incursão da temática na escola, pois não concordamos com o modo reducionista que o tema aparece no currículo.
Cabe ressaltar que a escolha do nome da dinâmica Caixinha “Arco-Íris”, fazia referência às questões de gênero, os papéis coloridos representavam a diversidade. Durante a aplicação nenhum dos participantes se atentou a esse fato ou associaram a possibilidade dessa discussão.
Quando questionados sobre a associação dos papéis coloridos a possibilidade da discussão de gênero alguns participantes demonstraram surpresos, conforme frisam:
Não havia me atentado a esse fato, somente agora me dei conta! (P1).
Se você não nos dissesse, talvez nem perceberia! Agora entendo o motivo dos papeizinhos coloridos, eles representam a diversidade de gênero (P12).
Acho importante essa discussão, mas a grande questão é a falta de conhecimento sobre (P7).
A falta de conhecimento docente acerca do assunto reflete a ausência da formação sobre o conteúdo e, esse é um dos fatores que impedem que esse diálogo adentre aos muros da escola. Sobre a importância da formação docente, Imbernón (2022) sinaliza que assim sendo, a formação continuada é necessária, pois possibilita o aperfeiçoamento de seus conhecimentos, com isso o docente otimiza sua práxis, possibilitando aos seus educandos tornem sujeitos críticos, reflexivos e conscientes da sua realidade.
Com base nas informações obtidas no primeiro círculo dialógico, foram elencados os temas geradores. Entende-se que o tema gerador é o ponto de partida para o processo de construção da descoberta, em especial por emergir das necessidades e anseios de uma comunidade (Oliveira et al., 2017). No Quadro 2 estão descritos os temas geradores encontrados para os demais círculos dialógicos.
Quadro 2 - Relação dos temas geradores encontrados
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Temas Geradores |
Círculos de Cultura |
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Sexualidade |
Círculo dialógico: desvelar o significado de sexualidade |
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Gravidez na adolescência |
Círculo dialógico: gravidez na adolescência |
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Gênero |
Círculo dialógico: Gênero e Sexualidade saberes dizíveis |
Fonte: Autoras, (2023).
O segundo ciclo dialógico: desvelar o significado da sexualidade
A aplicação do segundo círculo propôs ao participante um convite à reflexão para desvelar o significado da sexualidade. Esse encontro iniciou-se ao som da canção “Amor e Sexo” cantada por Rita Lee. Após uma breve reflexão sobre a canção os participantes foram instigados a expressar sobre o significado da sexualidade que detinham. No momento elencamos os seguintes relatos:
A sociedade vê a sexualidade como o sexo, o ato de acoplar e isso já se naturalizou tanto que nós, muitas vezes, nos remetemos a essa visão social [...] e ratifica para a pesquisadora: Você é uma desbravadora dentro da educação por transcender essa discussão[...]Gostaria de enfatizar também a importância da presença feminina em volta dessa temática, é comum a presença masculina, quando uma mulher, cria coragem para falar sobre a sexualidade ela encoraja outras mulheres. Acredito que muitas pessoas devem te olhar e pensar que você é uma sexóloga (P1).
Para mim a sexualidade está para além da procriação, ela diz respeito aos lugares que a mulher ocupa socialmente, em relação aos direitos, ao respeito com o outro e tantas outras questões que se alicerçam na sexualidade [...] ela está presente em nossas vidas, mas vive camuflada por conta da aceitação da sociedade [...] penso que por muitas vezes falar sobre esse assunto é se indispor com o outro e isso nem todo mundo tem coragem de fazer (P10).
Enxergo a sexualidade como o ato da reprodução humana, a relação de prazer entre os pares. Acredito que talvez por isso a sociedade a veja como uma promiscuidade, agora consigo notar a sua magnitude (P7).
Percebemos que as principais ideias socializadas pelos docentes sobre sexualidade estavam atreladas ao corpo, as questões biológicas, as relações sexuais entre pares, o prazer durante o sexo e a orientação sexual dos indivíduos, deixando claro a visão restrita e física sobre o sexo, sem aprofundamento na compreensão dos contextos sociais, culturais e afetivos. Os professores mostram conhecimento restrito quanto à concepção do termo sexualidade, compreendendo-a a partir dos aspectos relativos ao prazer e as manifestações ligadas diretamente ao sexo, com uma limitação da visão multidimensional dos fatores que a envolvem (Louro, 2016).
Para a organização Mundial de Saúde (2006) a sexualidade não é sinônimo e nem se resume apenas a sexo, é um termo mais abrangente, é uma dimensão fundamental que perpassa por todas as etapas da vida de homens e mulheres e envolve ações e desejos relacionados à satisfação, ao prazer, aos sentimentos, ao exercício da liberdade e a saúde.
Neste sentido, a sexualidade humana é uma construção social, histórica e cultural que se modifica conforme as relações sociais, entretanto, em nossa sociedade, a sexualidade humana é coberta por mitos, tabus, relações de poder e preconceitos (Cerqueira; Mendes, 2023).
Nesse segundo círculo a aplicação da dinâmica se deu por meio da construção de um cartaz contendo informações sobre o significado da sexualidade para cada um deles. Os participantes se organizaram em dois grupos para montagem de um cartaz denominado “Desvelando o significado da sexualidade”, os grupos receberam revistas atuais, tesoura, cola e piloto. Após a elaboração, individualmente cada um dos membros dos grupos deveriam apresentar o significado da sexualidade segundo suas concepções de mundo, conforme a Figura 2 nos mostram.
Figura 2 - Evidência da aplicação do segundo círculo dialógico
Fonte: Autoras, (2023).
Durante a aplicação dessa dinâmica, alguns dos participantes associaram à discussão de gênero e outras questões que são pertinente a sexualidade:
Escolhi a figura feminina como representando o significado da sexualidade para mim, sei da importância do papel da mulher socialmente, e principalmente que vivem buscando reconhecimento (P04).
Lembrei do que conversamos no encontro passado sobre gênero e diversidade, por isso escolhi a imagem do mapa do Brasil ilustrado nas cores do arco-íris (P09).
No tocante, as respostas dos docentes traziam referência a possibilidade da discussão de gênero e diversidade, abordando a questões relacionadas à temática, contudo a sexualidade abre caminhos para vários outros temas que a mesma pertence, que encontra-se camuflado socialmente. Cerqueira e Mendes (2023) sinalizam que esse é um tema abrangente, nele há possibilidade de discutir vários outros subtemas que são pertencentes a sexualidade.
Assim como a religião, a política, as tecnologias estão presente na sociedade, a sexualidade também está. Contudo, ocupa um lugar de invisibilidade. Abordar sobre política e sobre os avanços tecnológicos, é mais comuns na sociedade atual, mas tratar sobre a sexualidade ainda é considerado uma “imoralidade”. Este assunto foi trancafiado no porão da consciência humana.
Terceiro círculo dialógico: a gravidez na adolescência
Neste momento a temática abordada foi gravidez na adolescência, em virtude de alguns relatos dos participantes, dos índices de evasão dos estudantes tanto das turmas de Ensino Regular quanto da Educação de Jovens, Adultos e Idosos. O círculo iniciou com a leitura de uma situação hipotética “Larissa, mais uma mãe adolescente!”, seguindo a Figura 3, após a realização da leitura, os participantes foram convidados a tecer suas impressões acerca do caso apresentado.
Figura 3 - Evidência da aplicação do terceiro círculo dialógico
Fonte: Autoras, (2023).
Observemos:
nunca abordei essa discussão nas minhas aulas [...] para mim falar sobre a gravidez na adolescência seria responsabilidade dos profissionais da saúde [...] volta e meia presenciamos um caso parecido como esse na EJA, quando temos abertura chamamos e conversamos, mas em particular (P11).
Há dias que fui pego de surpresa com a pergunta de uma aluna – “professor, como uma mulher fica grávida?” No momento passou inúmeras possibilidades pela minha mente que poderia estar se passando na vida daquela adolescente, menos de como responder aquela pergunta, não sabia como lidar com tudo aquilo, principalmente pelo fato de ser um homem, como responder aquela menina de 13,14 anos? Passei o ocorrido para a direção. [...] aquela pergunta poderia ser um grito de socorro, um pedido de ajuda! (P3).
Sim, com toda certeza abordaria, às vezes nos deparamos com casos parecidos aqui na escola, mesmo nas turmas da EJA (P8).
O componente que leciono não é de ciências, não me sinto preparado para abordar essa temática (P12).
De acordo com os relatos dos participantes, a falta de uma orientação para a educação sexual pode proporcionar aos sujeitos vivenciarem situações de vulnerabilidade sexual. Enquanto as informações sobre a sexualidade são cerceadas, jovens, adolescentes, adultos e até mesmo idosos, podem enfrentar situações que tendem a impactar nas suas saúdes físicas e psicológicas. Uma pergunta inocente de um aluno pode estar camuflando algo grave que muitas vezes a família não percebe por falta de diálogo.
A vulnerabilidade sexual para os jovens e adultos do campo, por exemplo, no tema da gravidez na adolescência, perpassa por questões que levam evasão escolar, não só em função da mãe adolescente, mas também do pai adolescente, perpassa por questões como a a falta de um planejamento familiar e universo do trabalho. A gravidez pode gerar uma pressão social e financeira sobre os adolescentes, que pode ter que abandonar a escola e trabalhar em condições precárias.
A dificuldade de falar sobre o tema na sociedade e na família, reforçam ainda mais a importância da escola tratar desta temática, de forma aprofundada, sem moralismo e sem tabu com o intuito de garantir cuidados com o corpo e com as IST´s, entre outras questões relacionadas a sexualidade.
Na fala do professor P5 percebemos a (des)aparição de discussões recentes acerca das dimensões da sexualidade nos documentos oficiais, o que fragiliza ainda mais a abordagem do tema:
A gravidez na adolescência é resultante da fragilidade da educação sexual, ela caminhava em passos lentos, porém o último cenário político que atravessamos contribuiu para o seu retrocesso [...] o resultado é esse que nós estamos discutindo aqui, desestrutura familiar por falta de informação, acredito que deva impactar diretamente na economia do país (P5).
Este pensamento do professor coaduna com os achados de Cerqueira e Mendes (2023) quando elas pontuam que a abordagem sobre sexualidade vem sendo censurada nos documentos oficiais e passando por um desmonte nos últimos tempos, pois os documentos oficiais buscam impor um padrão de invisibilidade e silenciamento de controle e regulamentação da temática sexualidade, o que reflete o quanto é preciso um olhar cuidadoso e mais atencioso nas propostas curriculares no Brasil.
A aparente sutileza educativa de que a escola orienta sobre a educação sexual, esta insensível com algumas questões sociais e com isso, o direito à informação é negado em alguns casos. Quando uma informação não é transmitida nos meios formais, é possível que os sujeitos busquem na informalidade as respostas dos seus questionamentos e, ao acessar a internet, podem recair em dados desconexos e inverídicos e ainda, obter visualizações de imagens que tendem a enfatizar o ato e não o conhecimento.
Neste cenário, já abastecidos destes constructos, partimos para o último Círculo. Trata-se da consolidação dos dados angariados e, da explanação do repetitivo enfoque dos docentes acerca da necessidade de aprender sobre os pontos estudados. Nosso intuito perpassou por romper com os impeditivos de ordem preconceituosa, em seguida, ganhamos o espaço a partir da abertura em todo instante para os diálogos e, os motivadores formaram a ponte que faltava para ratificar a extrema necessidade de aprender para si e para educar sobre as questões de gênero e sexualidade.
Quarto círculo dialógico: gênero e sexualidade saberes dizíveis
O último encontro foi organizado em dois momentos: o primeiro, reservado para a discussão das questões de gênero e o segundo para a autoavaliação da formação. O encontro teve início com a exibição de uma entrevista dada pelo educador Paulo Freire ao programa Altas Horas, da emissora de televisão Rede Globo, no ano de 1989. Nessa entrevista, Freire nos convida a sermos sujeitos tolerantes em uma sociedade intolerante, que ainda respira resquícios do período da Ditadura Militar, que normaliza até os dias atuais o vazio e opacidade de pensamentos, sem fundamentação científica e sem priorizar a educação e, nos convida a sermos educadores críticos e reflexivos, ressaltando que isto é um ato de rebeldia.
Incorporados desse olhar após uma breve analise da entrevista, aconteceu um momento “provocativo” com a exibição de slides produzido pela pesquisadora, contendo informações sobre como se define gênero e sexualidade. Durante a exibição dos slides os participantes interagiram da seguinte maneira:
Quando falamos em gênero a primeira coisa que vem a minha mente são os gêneros da língua portuguesa[...] agora, quando diz questões de gênero, penso na maneira de alguém se identificar socialmente [...] e, essa é a grande questão, porque nem todo mundo sabe respeitar o modo de viver do outro (P12).
Em sala de aula não teria como abordar essa temática, me falta conhecimento! Mas sem dúvidas abordaria o respeito ao outro. Não podemos normalizar certas atitudes (P09)
.O preconceito está impregnado em todas as camadas da sociedade, mas a escola pode e deve quebrar com essa barreira. A grande questão é que muitas vezes, nós professores não estamos preparados para essa abordagem [...] em uma oportunidade, escutei o termo homossexualismo, corrigi imediatamente, não se trata de doença [...] estamos falando sobre a maneira que o outro se identifica socialmente (P07).
É fundamental demarcar que a sinceridade foi expressiva nos relatos. Quando pensamos em gênero na Língua Portuguesa estamos pensando e vinculando a feminino e masculino, já as questões de gênero, estão voltadas para percepção de cada indivíduo tem de se socialmente. E o explanar desta constatação pode vir à tona para os demais ou não, cabe sempre seguir com o respeito a tudo e a todos.
Dando continuidade aplicamos a dinâmica dos “Balões”. Em uma mesa haviam balões de cores diversificadas e pilotos, cada participante deveria dirigir-se até a mesa, pegar um dos balões, encher e em seguida anotar nos balões o motivo, ou os motivos pelos quais acreditavam que as questões de gênero são debatidas raras vezes ou nunca em aula, após fazer a leitura em voz alta, justificar e estourá-lo. Durante o desenvolvimento da atividade proposta algumas respostas chamaram atenção como dos participantes a seguir:
Anotei preconceito, o último momento político que atravessamos contribuiu ainda mais para o cerceamento dessa discussão (P5).
Para mim é o medo! Medo de abordar em aula e ser filmado, isso pode ganhar uma proporção gigantesca, visto que vivemos em uma sociedade conservacionista (P11).
Falta de conhecimento, não me sinto preparado para essa discussão. É algo muito delicado (P9).
Louro (2016) reflete sobre o conceito de gênero como sendo o que constitui em um processo biológico de homem e mulher ao longo da vida. Faz parte de um processo psíquico e comportamental, ou seja, a maneira de se identificar na sociedade.
No tocante aos discursos heteronormativos existentes socialmente são carregados por concepções preconceituosas e sem fundamentação teórica, o sufixo “ismo” faz alusão a doença, e se é doença, subtende-se que exista a cura. Fomos bombardeados de falácias referentes a “cura gay”, sem o mínimo de embasamento teórico científico.
Ainda sobre esse discurso Louro (2016) destaca que as falácias acerca da sexualidade vêm sendo modificadas por discursos que se multiplicam cada vez mais, até mesmo, por novos tipos de intervenções sociais e políticas. Os apelos velados de valores tradicionalistas e conservadores ganharam novas roupagens e assim interpelam os sujeitos nos últimos anos.
Os professores foram unânimes em concordar que não podem impedir que se fale de questões de gênero nas escolas, por compreenderem que a escola é um ambiente para criar meios de debates para promover a igualdade de gênero na sociedade. A abordagem sobre gênero e sexualidade na escola precisa contribuir para o processo de humanização, sendo fundamental romper tabus e ideias cristalizadas da sociedade conservadora, formando sujeitos conscientes das relações sociais a que está submetido.
Destacamos que não se pode perder de vista, o lugar do educador na abordagem do tema sexualidade, pois a depender da concepção e da prática docente o estudante pode se sentir reprimido e julgado em colocar as suas dúvidas e angústias, portanto o/a professor/a tem um papel crucial para que a educação sexual se dê de forma livre e ampla.
Por isso, os momentos de estudo, exposição dos constructos nesse processo formativo foram profícuos e contundentes, porque o objetivo foi alcançado. Buscávamos estimular a participação dos docentes; valorizar o que os participantes tinham a dizer; fazer o grupo se sentir parte do estudo; identificar quais os temas que eram de interesse dos docentes para ser trabalhados em outros momentos e, todos estes foram devidamente contemplados.
A finalização desse último Círculo se deu por meio de um momento auto avaliativo denominado “O que trouxe de bom”, como a Figura 4 retrata:
Figura 4 - Evidência da aplicação do segundo círculo dialógico
Fonte: Autoras, (2023).
Nessa etapa cada participante deveria tecer contribuições acerca da aplicação do presente encontro e dos anteriores:
Gostaria de agradecer pelos momentos formativos, graças a eles tomei conhecimento da importância de inserir o tema sexualidade nas minhas aulas (P08).
Faz muitos anos que tivemos uma formação sobre a sexualidade, ela era ministrada por um profissional da saúde e uma sexóloga. Pensava que falar sobre a sexualidade era responsabilidade dos profissionais dessa área e do professor de ciências. Hoje vejo que é responsabilidade minha também! (P12).
A falta de formação docente e o conservadorismo existente socialmente contribuem para a inexistência dessa abordagem na escola. A amplitude da abordagem em torno da sexualidade possibilita aos sujeitos o autoconhecimento de si o do mundo que o cerca, possibilita também refletir sobre os impactos da ausência de uma orientação sexual socialmente. Por isso é necessário a inserção dessa problemática na rotina da escola, mas para isso é importante a formação docente.
Considerações Finais
Apresentamos neste estudo o Círculo Dialógico Freireano como meio metodológico para trabalhar a educação sexual, pois estes procuram valorizar a história de vida dos participantes, de tal modo que sempre tem como ponto de partida os conhecimentos prévios dos sujeitos.
A ação formativa com os docentes apontou que o Círculo dialógico Freireano mostrou todo o seu potencial como método de ensino e aprendizagem, pois nos mostrou a capacidade de apresentar e trazer novos temas geradores e novas oportunidades de ensino, que relaciona o saber ao viver. Os Círculos dialógicos vivenciados neste estudo se constituíram como excelente aporte de trabalho e de debates, sobre questões relativas às práticas pedagógicas de docentes em relação à educação sexual na sala de aula.
Os pressupostos da metodologia os Círculos Dialógico contribuem para que os participantes constituíssem seus saberes a partir da dialogicidade, da troca de experiências e de uma descoberta coletiva e solidária, compactuando do saber em horizontalidade. A visão sem miopia possibilita abrir as lentes do conhecimento de um dado tema gerador e assim, contribui para que este se abra ao mundo e enxergue novas maneiras de se pensar e desenvolva a visão crítica acerca do que foi debatido.
Justificam-se, portanto, cada vez mais, as ações de educação sexual na formação de docentes que atuam em qualquer modalidade de ensino, para que os mesmos possam ser protagonistas de suas práticas pedagógicas, compartilhando saberes e respeitando os direitos de todos. Como pesquisas futuras, pontuamos a necessidade de estudos que envolvam a participação dos jovens, adultos e idosos, por considerarmos que estes possuem improtantes contribuições sobre a temática.
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