Ensino do conteúdo de educação para a saúde nas aulas de Educação Física

Teaching health education content in Physical Education classes

Enseñanza de contenidos de educación para la salud en las clases de Educación Física

Paloma Cidade Cordeiro dos Santos

Universidade do Estado de Santa Catarina, Florianópolis, SC, Brasil

paloma.cidade@gmail.com

Raquel Krapp do Nascimento

Universidade do Estado de Santa Catarina, Florianópolis, SC, Brasil

quelkrapp@gmail.com

Alessandra Catarina Martins

Universidade do Estado de Santa Catarina, Florianópolis, SC, Brasil

alessandracatarinamartins@gmail.com

Andreia Pelegrini

Universidade do Estado de Santa Catarina, Florianópolis, SC, Brasil

andreia.pelegrini@udesc.br

Alexandra Folle

Universidade do Estado de Santa Catarina, Florianópolis, SC, Brasil

alexandra.folle@udesc.br

 

Recebido em 12 de dezembro de 2024

Aprovado em 24 de fevereiro de 2024

Publicado em 26 de agosto de 2025

 

RESUMO

O estudo teve como objetivo analisar o ensino da educação para a saúde nas aulas Educação Física de escolas públicas da Grande Florianópolis, Santa Catarina (SC), verificando-se as temáticas abordadas e as estratégias de ensino e de avaliação, de acordo com a rede de ensino. Participaram do estudo 180 professores de Educação Física da rede estadual de SC e de 11 redes municipais da Grande Florianópolis. Os instrumentos utilizados na coleta de dados foram: formulário de caracterização dos professores de Educação Física; Escala de Percepção do Professor sobre o Ensino da educação para a saúde nas aulas de Educação Física. A análise dos dados foi realizada por meio de estatística descritiva (frequência absoluta e percentual) e inferencial (qui-quadrado e exato de Fisher), no software SPSS. As evidências apresentadas revelaram que as temáticas da educação para a saúde mais trabalhadas pelos professores foram a aptidão física e a atividade física e saúde, temas tradicionais no contexto deste componente curricular. A estratégia de ensino mais utilizada foi aulas práticas e a de avaliação envolveu a linguagem corporal, reforçando-se questões culturais da área para o desenvolvimento da temática em tela. Os professores da rede estadual abordaram mais as temáticas relacionadas à saúde em suas aulas, em especial as temáticas conscientização corporal, sobrepeso e obesidade, aspectos anatômicos e fisiológicos do corpo humano, nutrição e qualidade de vida, utilizando-se mais de aulas teóricas para ensinar e das três linguagens para avaliar este conteúdo, em comparação aos professores da rede municipal.

Palavras-chave: Educação para saúde; Estratégias de ensino; Prática Pedagógica.

 

ABSTRACT

The study aimed to analyze the teaching of health education in Physical Education classes in public schools in the Greater Florianópolis area, Santa Catarina (SC), by examining the topics addressed as well as the teaching and assessment strategies used, according to the school system. The study included 180 Physical Education teachers from the state education system of SC and from 11 municipal school systems in the Greater Florianópolis region. The data collection instruments used were: a questionnaire for the characterization of Physical Education teachers; and the Teacher Perception Scale on the Teaching of Health Education in Physical Education Classes.. Data analysis used descriptive (absolute and relative frequency) and inferential statistics (chi-square and Fisher’s exact). The findings revealed that the most commonly addressed themes in Heath Education were physical fitness, physical activity, and overall health. Practical classes were found to be the most frequently used teaching strategy, and assessment primarily focused on body language. In conclusion, teachers from the state network have addressed more topics related to health in their classes, especially body awareness, overweight and obesity, anatomical and physiological aspects of the human body, nutrition, and quality of life. These teachers using more theoretical classes for teaching purposes and employed all three assessment languages (verbal, written, and body language) to evaluate the content.

Keywords: Health education; Teaching strategies; Pedagogical Practice.

 

RESUMEN

El estudio tuvo como objetivo analizar la enseñanza de la educación para la salud en las clases de Educación Física en escuelas públicas del Gran Florianópolis, Santa Catarina (SC), examinando las temáticas abordadas y las estrategias de enseñanza y evaluación utilizadas, de acuerdo con la red de enseñanza. Participaron en el estudio 180 profesores de Educación Física de la red estatal de SC y de 11 redes municipales del Gran Florianópolis. Los instrumentos utilizados para la recolección de datos fueron: un formulario de caracterización de los profesores de Educación Física y la Escala de Percepción del Profesor sobre la Enseñanza de la Educación para la Salud en las Clases de Educación Física. En el análisis de los datos se utilizó estadística descriptiva (frecuencia absoluta y relativa) e inferencial (chi-cuadrado y exacta de Fisher). Los resultados revelaron que los temas más abordados en Educación para la Salud eran la forma física, la actividad física y la salud en general. Las clases prácticas resultaron ser la estrategia de enseñanza más utilizada y la evaluación se centró principalmente en el lenguaje corporal. En conclusión, los profesores de la red estatal han abordado más temas relacionados con la salud en sus clases, especialmente la conciencia corporal, el sobrepeso y la obesidad, los aspectos anatómicos y fisiológicos del cuerpo humano, la nutrición y la calidad de vida. Estos profesores utilizaron más clases teóricas con fines didácticos y emplearon los tres lenguajes de evaluación (lenguaje verbal, escrito y corporal) para evaluar el contenido.

Palabras clave: Educación para la salud; Estrategias Pedagógicas; Práctica docente.

 

Introdução

A abordagem do tema saúde no âmbito escolar é importante e indispensável, em se tratando da mudança de realidade, embora a responsabilidade seja atribuída principalmente a área da saúde, não deve se restringir somente a esta, cabendo a área educacional também tematizar a saúde, para que os estudantes aprendam sobre os diversos aspectos e determinantes sociais relacionados à uma vida saudável e ao bem-estar global (Burchard et al., 2020).

Para Guedes (1999), a educação para a saúde, enquanto conceito, tem subjacente a ideia de que a informação permite identificar comportamentos de risco, reconhecer os benefícios de comportamentos adequados e suscitar comportamentos de prevenção. Aponta-se ainda para o fato de que a saúde é educável e, portanto, deve ser tratada não apenas com base em referenciais de natureza biológica e higienista, mas sobretudo em um contexto didático-pedagógico.

Nesse sentido, refere-se a um conceito amplo que abrange os mais diversos aspectos da vida humana, desde as relações interpessoais, ou seja, como as pessoas se conectam, se comunicam, e influenciam uma a outra em um contexto social, até a inter-relação entre sociedade e meio ambiente (Ramos et al., 2023). Educar para a saúde envolve proporcionar aos estudantes a formação de hábitos e atitudes que devem ser incorporados no dia a dia, considerando aspectos biológicos, afetivos, sociais e culturais que permeiam as relações familiares e a comunidade escolar (Zancha et al., 2013).

O desenvolvimento desta temática, no contexto educacional, deve priorizar ações que considerem seu caráter multifatorial com vistas a superar a concepção de saúde reduzida apenas como oposição à doença (Zuge et al., 2020).  Assim, a escola constitui um ambiente favorável para a abordagem da educação para a saúde, e as aulas de Educação Física são essenciais na construção desse conhecimento, auxiliando os estudantes na promoção, recuperação e manutenção da saúde como um componente persistente para além do processo de escolarização (Assis; Santos, 2017; Coledam, 2018).     

          A relação em torno da Educação Física e saúde é destacada em alguns documentos, políticas e programas brasileiros, como a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), o Programa Saúde na Escola (PSE), entre outros (Oliveira, 2019). No Brasil, o governo federal lançou diretrizes para orientar o ensino escolar em diversas áreas do conhecimento, desde os Parâmetros Curriculares Nacionais – PCN (Brasil, 1997) e até mais recentemente a BNCC (Brasil, 2021).

Os PCN concebem a Educação Física como cultura corporal e apresentam os conteúdos organizados em três blocos: conhecimentos sobre o corpo; atividades rítmicas e expressivas; e esportes, jogos, lutas e ginástica (Brasil, 1997). Na BNCC, a Educação Física é um componente curricular que contextualiza as práticas corporais, distribuídas em seis unidades temáticas: brincadeiras e jogos; esportes; ginástica; danças; lutas; e práticas corporais de aventura (Brasil, 2021). Esses documentos indicam que o conteúdo voltado à saúde não aparece como um conteúdo específico nesta área do conhecimento, mas sim como um conceito a ser desenvolvido dentro dos grandes blocos temáticos.

          Os blocos de ginástica e conhecimentos sobre o corpo têm como objetivo o ensino e a aprendizagem de alguns conceitos relacionados à saúde (atividade física, hábitos posturais, relaxamento e manutenção e recuperação da saúde – Brasil, 1997), enquanto a consciência corporal e a ginástica de condicionamento físico abordam alguns elementos sobre saúde (Brasil, 2021). Observa-se nestes documentos que a saúde tem sido tratada como um componente de apoio nas aulas de Educação Física, uma vez que é apresentada como um tema secundário dentro dos conteúdos específicos da área, resultando em uma lacuna em relação à educação para a saúde, um conteúdo relevante para o processo de ensino e aprendizagem nesta área do conhecimento.

Entretanto, no desenvolvimento das práticas pedagógicas em Educação Física, reconhece-se que um dos conteúdos fundamentais a serem abordados é a saúde (Paiva et al., 2017), refletindo sobre o papel e a importância desse componente curricular no desenvolvimento da saúde dos escolares de maneira mais ampla. Sendo assim, a Educação Física, como componente pedagógico, pode contribuir para ampliação de sentidos, de concepções e de práticas de uma educação para a saúde, ressignificando as práticas corporais e atividade física com implicações nos modos de viver, na busca pelo bem-estar e pela potencialização da vida pessoal e coletiva (Rosas et al., 2024).         

          Alguns dos temas importantes a serem desenvolvidos na escola dentro da educação para a saúde envolvem aspectos anatômicos e fisiológicos do corpo humano, consciência corporal, sobrepeso, obesidade, atividade física, aptidão física, nutrição, qualidade de vida e saúde em geral (Palma; Oliveira; Palma, 2010). Além disso, enfatiza-se que o ensino e a aprendizagem desses temas são fundamentais para a mudança ou manutenção de hábitos favoráveis na busca por um estilo de vida mais saudável, o que pode reduzir comportamentos de risco e possíveis danos na vida adulta (Palma; Oliveira; Palma, 2010; Zancha et al., 2013).

          Nesse contexto, é fundamental que os professores de Educação Física incluam conceitos sobre educação para a saúde em suas aulas e compreendam que as estratégias utilizadas no ensino são a chave para o sucesso desejado no processo de ensino e aprendizagem desse conteúdo na escola (Barros, 2013). Assim, espera-se que abordem e reflitam sobre questões relacionadas à educação para a saúde, desenvolvam estratégias e avaliem o ensino desse tema, de modo que os estudantes adquiram hábitos saudáveis ao longo da vida (Darido; Souza Júnior, 2007; Palma; Oliveira; Palma, 2010).

          Um mapeamento dos conteúdos trabalhados nas aulas de Educação Física revelou que 29% dos professores priorizam os esportes, 22% brincadeiras e jogos, 17% danças, 11% ginástica, 3% capoeira, 2% lutas e 16% outros conteúdos (Matos et al., 2013). Esses dados mostram que o conteúdo relacionado à educação para a saúde tem uma frequência bastante reduzida nas abordagens ao longo do ano letivo, recebendo um tratamento pedagógico com menor visibilidade e tornando-se uma questão a ser debatida na produção científica.

          Considerando a importância da pesquisa sobre saúde nas aulas de Educação Física, alguns estudos investigaram os temas abordados (Zancha et al., 2013; Fogaça; Jesus; Copetti, 2015; Silva; Silva; Lürdorf, 2015; Fernandes et al., 2021) ou o conhecimento dos professores sobre saúde na escola (Zancha et al., 2013; Fogaça; Jesus; Copetti, 2015). Esses estudos concluíram que os temas mais frequentemente trabalhados são corpo, obesidade, alimentação saudável, aptidão física, atividade física e higiene pessoal, em suas dimensões conceituais. No entanto, não há consenso sobre a percepção dos professores em relação ao próprio conhecimento. Enquanto alguns estudos apontam que os professores se consideram bem-informados e conscientes sobre o tema (Fogaça; Jesus; Copetti, 2015), acreditando estar preparados para trabalhá-lo, outros indicam que há dificuldades por parte dos docentes em expressar suas opiniões sobre o conceito de saúde, e que, muitas vezes, estes se sentem despreparados para o ensino desses temas na educação física escolar (Zancha et al., 2013; Mantovani; Maldonado; Freire, 2021).

          As pesquisas sobre estratégias de ensino (Knuth; Azevedo; Rigo, 2012; Bisconsini; Rinaldi; Barbosa-Rinaldi, 2015; Sagredo; Almeida, 2021) e estratégias de avaliação (Knuth; Azevedo; Rigo, 2012; Mendes; Costa, 2018) mais utilizadas pelos professores para ensinar sobre saúde revelaram que tanto aulas teóricas (textos informativos, livros, discussões, telejornais, filmes, seminários, cadernos, folders, produções textuais, livros didáticos, debates e pesquisas) quanto práticas (circuitos e caminhadas) têm sido empregadas para apresentar esse conteúdo no ambiente escolar. Por sua vez, a linguagem corporal (participação nas aulas, testes físicos) tem sido mais avaliada do que a linguagem escrita (provas, autoavaliação escrita, confecção de folders, registros em cadernos) e a linguagem oral (debates, seminários) quando se trata da educação para a saúde na Educação Física escolar.

          Este estudo teve como objetivo analisar o ensino da educação para a saúde nas aulas de Educação Física em escolas públicas da região metropolitana de Florianópolis (SC), buscando contribuir com propostas para o ensino do tema, avaliando as questões abordadas e as estratégias de ensino e de avaliação utilizadas de acordo com as redes de ensino.

 

Método

Este estudo se caracteriza quanto a abordagem do problema, como um estudo quantitativo, quanto ao objetivo como descritivo e quanto ao delineamento como uma investigação transversal. A população do estudo era composta por 374 professores de Educação Física da Grande Florianópolis. A amostra foi do tipo censo, na qual todos os professores foram convidados a participar da pesquisa. A amostra final consistiu em 180 professores de Educação Física atuantes em escolas estaduais vinculadas à Coordenação Regional de Educação da Grande Florianópolis, que abrange 13 municípios (Águas Mornas, Angelina, Anitápolis, Antônio Carlos, Biguaçu, Florianópolis, Governador Celso Ramos, Palhoça, Rancho Queimado, Santo Amaro da Imperatriz, São Bonifácio, São José e São Pedro de Alcântara), além de 11 redes municipais ligadas às Secretarias Municipais de Educação dessas cidades (duas redes municipais não concordaram em participar da pesquisa).

As características pessoais (sexo e idade), acadêmica (titulação) e profissionais (rede de ensino e vínculo empregatício) dos professores foram coletadas por meio de um formulário autoaplicável. As informações sobre o ensino da educação para a saúde foram obtidas por meio da Escala de Percepção dos Professores sobre o Ensino da Educação para a Saúde nas aulas de Educação Física (EPPESEF), construída e validada para este estudo. A EPPESEF é composta por 39 itens, elaborados com base em três categorias indicadas por uma escala ordinal de 1 (Nunca) a 5 (Sempre):

·        "Temas abordados": 19 itens referentes ao ensino de diferentes temas relacionados à educação para a saúde, distribuídos nas dimensões de aspectos anatômicos e fisiológicos do corpo humano, consciência corporal, sobrepeso e obesidade, atividade física e saúde, aptidão física, nutrição e qualidade de vida;

·        "Estratégias de ensino": oito itens referentes às formas como o professor ensina o conteúdo de saúde, distribuídos nas dimensões de aulas teóricas e práticas;

          O processo de validação foi realizado por oito especialistas na área, selecionados de acordo com os seguintes critérios: (1) Possuir doutorado na área de Educação Física; (2) Ser ou ter sido professor do Ensino Superior; (3) Atuar ou ter atuado como docente na Educação Física Escolar; (4) Ser pesquisador e possuir publicações na área de educação para a saúde e/ou saúde na escola e/ou práticas pedagógicas escolares; (5) Ter publicações relacionadas à construção e validação de instrumentos de mensuração. Dentre os especialistas incluídos, três não atenderam ao Critério 3, um não atendeu ao Critério 4 e dois não atenderam ao Critério 5. No entanto, todos foram mantidos no estudo, pois atenderam a pelo menos 80% dos critérios estabelecidos.

          Com base na matriz analítica do instrumento, os especialistas avaliaram as dimensões de clareza de linguagem (linguagem utilizada nos itens), relevância prática (avaliando se cada item tem importância prática para o que o instrumento propõe avaliar) e relevância teórica (nível de associação entre o item e a teoria - respectivo construto - Cassepp-Borges; Balbinotti; Teodoro, 2010), atribuindo um conceito a cada uma das percepções para determinar sua adequação no estudo: 1 - inadequado a 5 - muito adequado.

          O V de Vaiken foi utilizado como índice de validade de conteúdo (Penfield; Giacobbi, 2004), empregando o programa Visual Basic. O valor mínimo aceitável para a validação de conteúdo foi determinado a partir do número de especialistas (0,72; p= 0,55) e o valor máximo permitido pelo índice de validade de 1,00 (Aiken, 1985), utilizando um nível de confiança de 95%. A medida de concordância entre os especialistas, referente às dimensões teóricas da EPPESEF, foi obtida a partir do coeficiente Kappa (multi-taxas de marginais fixos), utilizando a fórmula de variação de Gwet (2010): clareza de linguagem - índice de 0,91; relevância prática - índice de 0,95; relevância teórica - índice de 0,97; e avaliação geral - índice de 0,94, considerando os itens do instrumento como fortes e a EPPESEF como um instrumento cientificamente validado.

Quanto aos procedimentos para coleta de dados, devido a quantidade e as diferentes características políticas e administrativas das instituições escolares participantes do estudo, a coleta ocorreu a partir de três opções: por intermédio da gestão escolar; via mala direta; e/ou em cursos de formação continuada. Os procedimentos seguiram o interesse demonstrado pelas próprias Secretarias Municipais e Coordenadoria Regional de Educação.

A opção predominante para coleta foi por intermédio da gestão escolar, este formato foi escolhido por oito redes municipais e pela rede estadual de SC (Coordenadoria Regional de Educação). Agendou-se um horário com cada o gestor(a) escolar por telefone para a entrega dos envelopes contendo os questionários e o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), estes foram distribuídos pelos gestores aos professores de Educação Física de suas escolas. Posteriormente, os envelopes lacrados foram recolhidos pelos pesquisadores nas escolas, conforme agendamento prévio com a gestão escolar.

          Duas Secretarias de Educação optaram pela coleta durante os cursos de formação continuada. Ambas ofertavam o curso de formação, organizados em encontros mensais que reuniam todos os professores de Educação Física de suas redes de ensino. Os pesquisadores foram presencialmente em um encontro de cada rede de ensino e tiveram um tempo disponível para apresentação da pesquisa, em seguida os professores leram e assinaram o TCLE e preencheram os questionários.

          A coleta por mala direta foi realizada em uma rede municipal, nesta opção, os envelopes contendo os questionários e o TCLE foram entregues pelos pesquisadores à Secretaria Municipal de Educação, que os distribuiu para as suas unidades educacionais. Os envelopes retornaram lacrados pelos professores de Educação Física que participaram da pesquisa e posteriormente foram retirados pessoalmente pelos pesquisadores na data previamente agendada com a Secretaria.

A análise descritiva foi realizada utilizando frequências absolutas e relativas. Os testes qui-quadrado e exato de Fisher foram usados para identificar possíveis associações entre as variáveis, adotando um nível de significância de 5% (p<0,05). Os dados foram analisados utilizando o software IBM SPSS versão 20.0.

 

Resultados

          Participaram do estudo 180 professores de Educação Física, com média de idade de 38,14 anos e de tempo de docência de 12,39 anos. Entre os participantes, 47,1% eram homens e 52,9% mulheres, a maioria tinha formação a nível de especialização (62,8%). Além disso, o grupo apresentou uma distribuição equilibrada em relação às redes de ensino, sendo que 49,7% dos professores atuavam na rede estadual e 50,3% nas redes municipais.

A análise dos temas trabalhados (Tabela 1) mostrou que os professores priorizaram as dimensões de aptidão física, atividade física e saúde. Por outro lado, mais de 30% dos professores "nunca" ensinam elementos relacionados à nutrição e aos aspectos anatômicos e fisiológicos do corpo humano.

 

Tabela 1 - Temas de educação para a saúde abordados por professores de Educação Física

Temas abordados

Nunca

Às vezes

Sempre

n (%)

n (%)

n (%)

Aspectos anatômicos e fisiológicos do corpo humano

57(31,7)

85(47,2)

38(21,1)

Consciência corporal, sobrepeso e obesidade

22(12,2)

88(48,9)

70(38,9)

Atividade física e saúde

10(5,6)

65(36,1)

105(58,3)

Aptidão física

3(1,7)

53(29,4)

124(68,9)

Nutrição

65(36,1)

76(42,2)

39(21,7)

Qualidade de vida

50(27,8)

78(43,3)

52(28,9)

Fonte: Elaborada pelas autoras com base nos dados da pesquisa (2021).

 

               Quanto às estratégias de ensino, as aulas práticas são utilizadas "às vezes" por 69,4% dos professores, enquanto 36,1% "nunca" utilizam aulas teóricas. A linguagem corporal é a mais utilizada para avaliar os alunos (49,4%), com maiores porcentagens de professores que "nunca" avaliam por meio das linguagens oral (43,9%) e escrita (36,1%) (Tabela 2).

 

Tabela 2 - Estratégias de ensino e de avaliação utilizadas por professores de Educação Física

Estratégias de ensino

Nunca

Às vezes

Sempre

n (%)

n (%)

n (%)

Aulas teóricas

65 (36,1)

76 (42,2)

39 (21,7)

Aulas práticas

8 (4,4)

125 (69,4)

47 (26,1)

Estratégias de avaliação

 

 

 

Linguagem corporal

14 (7,8)

77 (42,8)

89 (49,4)

Linguagem escrita

65 (36,1)

72 (40,0)

43 (23,9)

Linguagem oral

79 (43,9)

78 (43,3)

23 (12,8)

Fonte: Elaborada pelas autoras com base nos dados da pesquisa (2021).

 

Quanto à rede de ensino (Tabela 3), em sua maioria, os professores que atuam na rede estadual "às vezes" abordam em suas aulas temáticas sobre aspectos anatômicos e fisiológicos do corpo humano (p<0,001), nutrição (p=0,001) e qualidade de vida (p=0,019), enquanto os professores da rede municipal "nunca" abordam esses temas. Além disso, os professores das escolas estaduais "sempre" ensinam temas relacionados à consciência corporal, sobrepeso e obesidade (p<0,001), enquanto os professores da rede municipal "às vezes" abordam esses conteúdos em suas aulas.

 

Tabela 3 - Relação dos temas trabalhados de acordo com a rede de ensino dos professores

Temas trabalhados

Estadual

Municipais

 

p*

n (%)

n (%)

Aspectos fisiológicos e anatômicos

Nunca

14 (15,9)

43 (46,7)

<0,001

Às vezes

51 (58,0)

34 (37,0)

Sempre

23 (26,1)

15 (16,3)

Consciência corporal, sobrepeso e obesidade

Nunca

4 (4,5)

18 (19,6)

<0,001

Às vezes

36 (40,9)

52 (56,5)

Sempre

48 (54,5)

22 (23,9)

Atividade física e saúde

Nunca

2 (2,3)

8 (8,7)

0,158

Às vezes

33 (37,5)

32 (34,8)

Sempre

53 (60,2)

52 (56,5)

Aptidão física

Nunca

0 (0,0)

3 (3,3)

0,133#

Às vezes

23 (26,1)

30 (32,6)

Sempre

65 (73,9)

59 (64,1)

Nutrição

Nunca

21 (23,9)

44 (47,8)

0,001

Às vezes

43 (48,9)

33 (35,9)

Sempre

24 (27,3)

15 (16,3)

Qualidade de vida

Nunca

15 (17,0)

35 (38,0)

0,019

Às vezes

46 (52,3)

32 (34,8)

Sempre

27 (30,7)

25 (27,2)

Legenda: * referente ao valor de p >0,05; # Exato de Fisher.

Fonte: Elaborada pelas autoras com base nos dados da pesquisa (2021).

 

A relação das estratégias de ensino e de avaliação, de acordo com a rede de ensino dos professores foi apresentada na Tabela 4. Observou-se um maior percentual de professores da rede estadual que "às vezes" (43,2%) ou "sempre" (31,8%) utilizam aulas teóricas para ensinar os temas de educação para a saúde, enquanto um maior percentual de professores da rede municipal "nunca" (46,7%) e "às vezes" ensinam esses tópicos por meio de estratégias teóricas. Além disso, como forma de avaliação, a maioria dos professores da rede estadual "sempre" utiliza linguagem corporal (61,4%) e "às vezes" utiliza linguagem escrita (47,7%) e falada (53,4%), enquanto a maioria dos professores da rede municipal "às vezes" utiliza linguagem corporal (54,3%) e "nunca" utiliza linguagem escrita (53,3%) e falada (57,6%).

 

Tabela 4 - Relação das estratégias de ensino e de avaliação, de acordo com a rede de ensino dos professores

Estratégias de ensino

Estadual

Municipais

p*

 

n (%)

n (%)

 

Aulas teóricas

 

Nunca

22 (25,0)

43 (46,7)

<0,001

 

Às vezes

38 (43,2)

38 (41,3)

 

Sempre

28 (31,8)

11 (12,0)

 

Aulas práticas

 

Nunca

5 (5,7)

3 (3,3)

0,193#

 

Às vezes

65 (73,9)

60 (65,2)

 

Sempre

18 (20,5)

29 (31,5)

 

Estratégias de avaliação

 

 

 

 

Linguagem corporal

 

 

 

 

 

Nunca

7 (8,0)

7 (7,6)

0,003

 

Às vezes

27 (30,7)

50 (54,3)

 

Sempre

54 (61,4)

35 (38,0)

 

Linguagem escrita

 

Nunca

16 (18,2)

49 (53,3)

<0,001

 

Às vezes

42 (47,7)

30 (32,6)

 

Sempre

30 (34,1)

13 (14,1)

 

Linguagem oral

 

 

 

 

 

 

Nunca

26 (29,5)

53 (57,6)

<0,001

 

Às vezes

47 (53,4)

31 (33,7)

 

Sempre

15 (17,0)

8 (8,7)

 

Legenda: * referente ao valor de p >0,05; # Exato de Fisher.

Fonte: Elaborada pelas autoras com base nos dados da pesquisa (2021).

 

Discussão

O ensino de educação para a saúde nas aulas de Educação Física tende a enfatizar que os temas abordados, as estratégias de ensino e de avaliação estão relacionadas aos temas mais tradicionais e aos procedimentos desse componente curricular nas escolas brasileiras, refletindo as normas culturais no desenvolvimento dos temas. Em pesquisa realizada com professores e coordenadores de uma escola pública de São Paulo, identificou-se que estes profissionais apresentavam, principalmente, uma compreensão ampliada do conceito de saúde, a partir da perspectiva do bem-estar e do autocuidado (Silva; Oliveira 2024).

A educação para a saúde, vinculada à grande área da saúde, historicamente tem se preocupado com questões sobre atividade física e saúde e aptidão física, que acabam sendo o principal foco do ensino nas escolas de educação básica (Bisconsini; Rinaldi; Barbosa-Rinaldi, 2015; Fogaça; Jesus; Copetti, 2015; Fernandes et al., 2021).

Esses conteúdos são tradicionalmente mais abordados nas aulas de Educação Física, possivelmente devido à sua relação direta com a saúde, já que alunos com boa aptidão física e bons níveis de atividade física podem se tornar indivíduos com hábitos e estilos de vida mais ativos e saudáveis (Ferreira, 2001; Zancha et al., 2013), destacando a importância de seu ensino em todas as etapas da educação básica.

Por outro lado, a constatação de que o conteúdo de nutrição é menos ensinado pode ser justificada, inicialmente, pelo fato de pertencer a uma área específica do conhecimento, a Nutrição, que também está vinculada à área da saúde. Esse tema não é tradicionalmente caracterizado como um conteúdo da Educação Física. No entanto, é relevante que os alunos tenham acesso aos conteúdos importantes de outras áreas do conhecimento, como a nutrição, para que possam desenvolver maior autonomia e a possibilidade de fazer escolhas mais saudáveis (Ferreira; Castiel; Cardoso, 2011).

Chama atenção o baixo percentual de professores que trabalham com os aspectos anatômicos e fisiológicos do corpo humano. Esses temas fazem parte do domínio de ensino dos profissionais de Educação Física na escola e são respaldados pelos documentos norteadores da área. No caso da BNCC, há recomendações indicando que esses elementos podem ser ensinados por meio da consciência corporal e do condicionamento físico na ginástica (Brasil, 2021).

Outro aspecto que apresenta um alto percentual de professores que nunca ou apenas às vezes o abordam em suas aulas é o tema da qualidade de vida. Com a aprendizagem desses conteúdos, evidencia-se a possibilidade de os alunos adquirirem melhores condições para fazer escolhas saudáveis de forma crítica e reflexiva para suas vidas, tornando a escola um espaço orientador para a articulação entre educação e saúde (Oliveira; Martins; Bracht, 2015).

Em relação às estratégias de ensino, um baixo percentual de professores ‘sempre’ utiliza estratégias teóricas para ensinar temas de educação para a saúde nas escolas investigadas. Diferente do observado neste estudo, professores de outras redes de ensino brasileiras (Knuth; Azevedo; Rigo, 2012; Bisconsini; Rinaldi; Barbosa-Rinaldi, 2015; Fogaça; Jesus; Copetti, 2015; Azambuja, 2018) priorizaram o ensino sobre a saúde por meio de aulas teóricas, utilizando textos informativos, livros, debates, pesquisas, oficinas, teatro, telejornais, simulação de tribunal e filmes, criando espaços para reflexão nas aulas, além das tradicionais palestras.

Por outro lado, outros professores (Sagredo; Almeida, 2021), assim como observado aqui, utilizaram estratégias mais práticas, como circuitos e caminhadas. Nesse cenário, reforça-se a importância da diversificação dos conteúdos e das estratégias de ensino, enfatizando que o ensino deve fornecer recursos para que os alunos possam tomar suas próprias decisões quanto à adoção de um estilo de vida saudável no futuro (Palma; Oliveira; Palma, 2010).

Ao lidar com estratégias de avaliação, os professores utilizam majoritariamente a linguagem corporal. Esse dado é respaldado pela predominância da avaliação da saúde e da capacidade física por meio de testes físicos (linguagem corporal), conforme apontado em estudos anteriores (Darido; Souza Júnior, 2007; Knuth; Azevedo; Rigo, 2012).

Dessa forma, destaca-se a baixa porcentagem de utilização das linguagens escrita e falada na avaliação dos conteúdos voltados para essa temática. Knuth, Azevedo e Rigo (2012) demonstraram que a compreensão dos alunos sobre o conceito de saúde foi avaliada por meio de provas escritas (linguagem escrita) e debates (linguagem falada), enquanto Sagredo e Almeida (2021) identificaram que a maioria dos professores utilizava estratégias nas três linguagens: corporal (participação em atividades práticas), falada (apresentação em seminários e elaboração de panfletos) e escrita (provas escritas e registros em cadernos).

Ao observar os temas abordados na educação para a saúde em relação à rede de ensino, deve-se considerar a constituição brasileira da educação básica. Os municípios são responsáveis, prioritariamente, pela Educação Infantil e pelo Ensino Fundamental, enquanto os Estados devem ofertar, com foco no Ensino Médio, garantindo, em parceria com os municípios, o Ensino Fundamental (Brasil, 1988). Além disso, a BNCC, ao orientar as unidades temáticas a serem desenvolvidas nas escolas, estabelece que os professores devem desafiar os estudantes do Ensino Médio a refletir e aprofundar “[...] conhecimentos sobre as potencialidades e os limites do corpo, a importância da assunção de um estilo de vida ativo e os componentes do movimento relacionados à manutenção da saúde” (Brasil, 2021, p. 484).

Reflete-se, assim, que o desenvolvimento de conteúdos como aspectos anatômicos e fisiológicos, nutrição e qualidade de vida, principalmente nas escolas estaduais, pode estar relacionado ao fato de que esses temas são discutidos com maior frequência nos anos finais do Ensino Fundamental e no Ensino Médio. Essas etapas apresentam características mais adequadas para a aprendizagem e apropriação desses conhecimentos, tornando-os mais presentes nas escolas estaduais. Dessa forma, esses conteúdos não são priorizados nas etapas da Educação Infantil e nos anos iniciais do Ensino Fundamental (foco das escolas municipais), pois envolvem subjetividades que tornam a conceitualização dos termos mais desafiadora para os estudantes dessas faixas etárias (Devide, 2002).

Fernandes et al. (2021) também observaram que, quanto menores os níveis de escolaridade, menor é a contextualização do tema saúde nas aulas de Educação Física. Quando abordado, isso ocorre de forma transversal, sem especificações precisas dos objetivos e propósitos desse ensino. De maneira similar, Paiva et al. (2017) identificaram que as propostas curriculares estaduais para o ensino da Educação Física contemplam o tema saúde com maior ênfase nos anos finais do Ensino Fundamental do que nos anos iniciais.

Por sua vez, Borges, Silva e Oliveira (2023) evidenciaram, a partir da análise sobre o tema saúde nas competências e habilidades da área de Educação Física da BNCC, que na parte específica que trata da etapa do Ensino Fundamental, o tema aparece de maneira bem simplificada, deixando de incentivar a tematização tanto nos anos iniciais, assim como, nos anos finais desta etapa. Essas evidências podem estar relacionadas às diferenças observadas no presente estudo em relação aos temas abordados entre as escolas municipais e estaduais da região metropolitana de Florianópolis.

A dimensão de consciência corporal, sobrepeso e obesidade é um dos temas "sempre" trabalhados pelos professores da rede estadual. Vale destacar que, na BNCC, a consciência corporal e a ginástica de condicionamento físico são abordadas de forma objetiva nos anos finais do Ensino Fundamental e no Ensino Médio (Brasil, 2021), o que pode levar os professores desses níveis de ensino (principalmente na rede estadual) a tratar mais sistematicamente elementos dessa dimensão. Em pesquisa realizada com professores de Educação Física do ensino fundamental da rede federal de ensino, evidenciou-se que os professores abordavam os conteúdos das seis unidades temáticas da BNCC, sendo que além dos esportes, alguns professores ensinavam os conteúdos: dança; lutas; práticas corporais de aventura e; ginástica, englobando a ginástica de condicionamento físico, na qual tratavam transversalmente sobre saúde e qualidade vida (Martins et al., 2024).

Assim como os resultados mostraram que alguns temas relacionados à saúde são mais trabalhados pelos professores da rede estadual, esses também indicam que utilizam mais aulas teóricas para ensinar, como aulas expositivas-dialogadas, seminários, leituras e discussões de textos. Resultados de outros estudos brasileiros (Rufino; Darido, 2013; Maldonado; Bocchini, 2014) também verificaram o uso de aulas teóricas para ensinar conteúdos de saúde nas aulas de Educação Física nos anos finais do Ensino Fundamental e no Ensino Médio. As principais estratégias de ensino utilizadas foram palestras, leituras, brainstorming, produção de material audiovisual, uso de mídias e tecnologias, e a criação de grupos de estudo e discussões textuais, o que reforça o uso de aulas teóricas para ensinar sobre saúde nas aulas de Educação Física nas etapas de ensino em que a rede estadual tem maior representatividade.

Zancha et al. (2013) destacam a importância das aulas teóricas, enfatizando que quanto mais os alunos têm contato com essas estratégias, mais reflexões conseguem fazer para compreender temas relacionados à saúde, considerando que quanto mais numerosas as experiências, maiores são as possibilidades de interiorização e entendimento dos conteúdos.

A avaliação da capacidade dos alunos em expressar seus conhecimentos deve ocorrer por meio de diferentes linguagens — corporal, escrita e falada (Darido; Souza Júnior, 2007). Assim, o desenvolvimento da saúde na escola destaca a importância de sua avaliação, pois, em alguns casos, há pouca consistência entre os objetivos desejados e a condução do processo de intervenção e avaliação (López, 2009). No entanto, o presente estudo observou uma coerência entre as unidades temáticas, as estratégias de ensino e avaliação entre os professores das redes de ensino investigadas.

          Ao abordar mais conteúdos sobre saúde em suas aulas, os professores da rede estadual utilizam mais estratégias teóricas e avaliam com mais frequência o conhecimento dos alunos sobre esses conteúdos, seja "sempre" ou "às vezes", nas três linguagens de avaliação. Por outro lado, os professores da rede municipal não abordam esses conteúdos com a mesma frequência e, consequentemente, não os avaliam da mesma forma, independentemente das linguagens de avaliação. Os professores de Educação Física podem utilizar diferentes métodos e instrumentos de avaliação neste processo, desde abordagem tradicionais até mais atuais como avaliação formativa e diversificar as estratégias pode contribuir para o ensino-aprendizado dos conteúdos abrangendo as dimensões conceitual, procedimental e atitudinal (Paula et al., 2022).

          Em conclusão, a saúde é ensinada com base em temas tradicionais (atividade física e saúde, aptidão física), estratégias de ensino (aulas teóricas) e avaliação (linguagem corporal) nas aulas de Educação Física nas escolas brasileiras investigadas, reforçando as questões culturais na área para o desenvolvimento do tema. Os professores da rede estadual abordam mais temas relacionados à saúde em suas aulas, em particular, a consciência corporal, sobrepeso e obesidade, aspectos anatômicos e fisiológicos do corpo humano, nutrição e qualidade de vida, utilizando mais estratégias de aulas teóricas para ensinar e as três linguagens para avaliar esses conteúdos, em comparação com os professores da rede municipal.

Em relação às aplicações práticas, a recomendação é uma inserção mais significativa dos temas relacionados à educação para a saúde nas aulas de Educação Física nas escolas, considerando que o ensino desses temas pode ajudar diretamente na formação de hábitos e estilos de vida saudáveis. Sugere-se uma maior diversificação das estratégias de ensino (teóricas e práticas) para expandir as possibilidades de aprendizado pelos alunos, oferecendo uma abordagem mais abrangente e dinâmica, que favoreça uma compreensão mais profunda e reflexiva sobre a saúde e bem-estar.

Como limitação deste estudo, destacam-se aspectos relacionados à coleta de dados, tais como recusa de participação por parte de duas Secretarias Municipais, a devolução parcial dos questionários dentro do prazo estabelecido e o preenchimento incompleto por parte dos professores, bem como, a distância entre escolas situadas em zonas rurais e urbanas de municípios mais afastados. Tais aspectos não comprometeram o objetivo da pesquisa, mas evidenciam pontos que podem ser aperfeiçoados em investigações futuras. Nesse sentido, sugere-se a adoção de estratégias metodológicas que incluam a coleta de dados por meio digital, visando ampliar o alcance da pesquisa e facilitar o acesso aos participantes.


 

Conclusões

Em conclusão, o estudo revelou que os temas mais frequentemente abordados pelos professores de Educação Física na Grande Florianópolis (SC) são a aptidão física e a atividade física e saúde, que são temas tradicionais da área. Além disso, as aulas práticas e as estratégias de avaliação baseadas na linguagem corporal são as mais utilizadas, reforçando as normas culturais da disciplina.

          Os professores da rede estadual tendem a abordar mais temas relacionados à saúde, como conscientização corporal, sobrepeso e obesidade, aspectos anatômicos e fisiológicos do corpo humano, nutrição e qualidade de vida. Eles também utilizam mais estratégias de ensino teóricas e empregam uma gama mais ampla de linguagens de avaliação em comparação com seus colegas da rede municipal.

          Os resultados deste estudo trazem contribuições importantes para a Educação Física escolar, ao incentivar reflexões pedagógicas dos professores e seus efeitos na formação integral dos estudantes na perspectiva da educação para a saúde. A pesquisa aponta para a necessidade de ampliar os conteúdos trabalhos nas aulas, valorizando práticas que consideram as diferentes dimensões da saúde e do corpo, e não apenas os aspectos técnicos e biológicos. Dessa maneira, reforça-se a importância de uma Educação Física mais crítica, contextualizada e integrada a outras áreas do conhecimento, que esteja alinhada com as necessidades dos alunos e a promoção da cidadania e da qualidade de vida, fortalecendo assim a Educação Física enquanto componente curricular fundamental da educação básica.

 

Financiamento

Este trabalho foi realizado com o apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES), código 001 e da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC).


 

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