Expressão criativa das crianças a partir de práticas de desenhos na educação

Children’s criative expression from drawing practices in education

 

La expresión creativa infantil a partir de las prácticas de dibujo en la educación

 

Márcia Cristina Palheta Albuquerque https://lh7-us.googleusercontent.com/h9Ojv87ptVEgwx8PXehJNWB6RbeDlpXgP9wEPNuQgEiN1MWZqOYypeCQ59qJzbAdKq2NWcCoCxu9ig7Uxj9DQGeZQd62p5GHyOeol1sBa83pp3fhKd6TWJ4p1GJxaptf9Bd5r7OgGMw4FOSfvYdyTA

Universidade Federal do Pará, Belém – PA, Brasil.

mcppalhetaalbuquerque@gmail.com

 

Carlos José Trindade da Rocha https://lh7-us.googleusercontent.com/h9Ojv87ptVEgwx8PXehJNWB6RbeDlpXgP9wEPNuQgEiN1MWZqOYypeCQ59qJzbAdKq2NWcCoCxu9ig7Uxj9DQGeZQd62p5GHyOeol1sBa83pp3fhKd6TWJ4p1GJxaptf9Bd5r7OgGMw4FOSfvYdyTA

Secretaria de Estado de Educação do Pará, Belém – PA, Brasil.

carlosjtr@hotmail.com

 

João Manoel da Silva Malheiro https://lh7-us.googleusercontent.com/h9Ojv87ptVEgwx8PXehJNWB6RbeDlpXgP9wEPNuQgEiN1MWZqOYypeCQ59qJzbAdKq2NWcCoCxu9ig7Uxj9DQGeZQd62p5GHyOeol1sBa83pp3fhKd6TWJ4p1GJxaptf9Bd5r7OgGMw4FOSfvYdyTA

Universidade Federal do Pará, Belém – PA, Brasil.

joaomalheiro@ufpa.br

 

Renan Ferreira de Freitas https://lh7-us.googleusercontent.com/h9Ojv87ptVEgwx8PXehJNWB6RbeDlpXgP9wEPNuQgEiN1MWZqOYypeCQ59qJzbAdKq2NWcCoCxu9ig7Uxj9DQGeZQd62p5GHyOeol1sBa83pp3fhKd6TWJ4p1GJxaptf9Bd5r7OgGMw4FOSfvYdyTA

Universidade Federal do Pará, Belém – PA, Brasil.

renanferreira2@yahoo.com

 

Recebido em 03 de abril de 2025

Aprovado em 02 de janeiro de 2025

Publicado em 16 de janeiro de 2026

 

RESUMO

Este artigo investiga práticas educacionais com desenhos infantis como formas de expressão criativa presentes em publicações científicas. Com base em uma revisão integrativa da literatura e análise de dados qualitativos, buscou-se compreender como as crianças utilizam o desenho para expressar suas vozes, sentimentos e percepções em meio a desafios sociais e ambientais. Diante das diversas perspectivas teóricas sobre a criatividade e os contextos educacionais em que ela pode ser estimulada esta pesquisa questiona: de que maneira a literatura aborda o desenvolvimento criativo na infância através de desenhos na educação? Para isso, uma revisão sistemática da literatura (RSL) foi elaborada seguindo o protocolo PRISMA. Utilizamos as seguintes bases de dados: Plataforma SciElo, Web of Science (WOS) e Banco Digital de Teses e Dissertações (BDTD) da Capes, foram encontrados 89 estudos no período entre os anos de 2008 a 2023. Foram excluídos 63 trabalhos por não se enquadrarem no escopo desta investigação, totalizando uma amostragem de 18 publicações. Os resultados encontrados apontam que a criatividade se desenvolve principalmente em ambientes formais de ensino, mas é importante explorar e ampliar pesquisas sobre esta temática em espaços não formais de ensino, que oferecem experiências que promovem a criatividade e a imaginação das crianças. Este estudo enriquece a compreensão sobre o valor dos desenhos infantis como forma de comunicação e expressão em contextos educacionais contemporâneos, especialmente motivando a criatividade.

Palavras-chave: Criatividade; Desenhos; Infância; Educação.

 

ABSTRACT

This article investigates educational practices with children's drawings as forms of creative expression present in scientific publications. Based on an integrative literature review and qualitative data analysis, we sought to understand how children use drawing to express their voices, feelings and perceptions in the midst of social and environmental challenges. Given the diverse theoretical perspectives on creativity and the educational contexts in which it can be stimulated, this research asks: how does literature address creative development in childhood through drawings in education? To this end, a systematic literature review (SLR) was prepared following the PRISMA protocol. We used the following databases: SciElo Platform, Web of Science (WOS) and Digital Bank of Theses and Dissertations (BDTD) from Capes. 89 studies were found in the period between 2008 and 2023. 63 works were excluded because they were not fall within the scope of this investigation, totaling a sample of 18 publications. The results found indicate that creativity develops mainly in formal teaching environments, but it is important to explore and expand research on this topic in non-formal teaching spaces, which offer experiences that promote children's creativity and imagination. This study enriches the understanding of the value of children's drawings as a form of communication and expression in contemporary educational contexts, especially motivating creativity.

Keywords: Creativity; Drawings; Infancy; Education.

 

RESUMEN

Este artículo investiga las prácticas educativas con dibujos infantiles como formas de expresión creativa presentes en publicaciones científicas. A partir de una revisión integradora de la literatura y un análisis de datos cualitativos, buscamos comprender cómo los niños usan el dibujo para expresar sus voces, sentimientos y percepciones en medio de desafíos sociales y ambientales. Dadas las diversas perspectivas teóricas sobre la creatividad y los contextos educativos en los que puede ser estimulada, esta investigación se pregunta: ¿cómo aborda la literatura el desarrollo creativo en la infancia a través del dibujo en la educación? Para ello se elaboró una revisión sistemática de la literatura (RSL) siguiendo el protocolo PRISMA. Se utilizaron las siguientes bases de datos: Plataforma SciElo, Web of Science (WOS) y Banco Digital de Tesis y Disertaciones (BDTD) de la Capes. Se encontraron 89 estudios en el período comprendido entre 2008 y 2023. Se excluyeron 63 trabajos por no estar incluidos. el alcance de esta investigación, totalizando una muestra de 18 publicaciones. Los resultados encontrados indican que la creatividad se desarrolla principalmente en ambientes de enseñanza formal, pero es importante explorar y ampliar las investigaciones sobre este tema en espacios de enseñanza no formal, que ofrezcan experiencias que promuevan la creatividad y la imaginación de los niños. Este estudio enriquece la comprensión del valor del dibujo infantil como forma de comunicación y expresión en los contextos educativos contemporáneos, especialmente motivando la creatividad.

Palabras clave: Creatividad; Diseños; Infancia; Educación.

 

Introdução

Através do desenho, a expressão criativa é uma forma potente de comunicação que oferece insights significativos sobre sua visão de mundo, emoções e experiências. Segundo Gobbi (2014) o desenho é uma forma das crianças falarem e expressarem sua visão de mundo, cultura e política. Ainda de acordo com a autora o desenho não é apenas uma evolução motora, ele merece ser visto como uma produção cultural que representa o pensamento infantil. Em meio à antropizações e mudanças abruptas na educação, as crianças podem recorrer ao desenho como uma ferramenta para processar e expressar seus sentimentos e pensamentos.

Segundo Pereira e Santiago (2020), o ato de desenhar constitui uma das expressões singulares do protagonismo infantil, reverberando a experiência de vida pela qual as crianças materializam e compartilham suas indagações frente ao mundo. O saber, o sentir, o lúdico, o poético, enfim, um caminho para o criativo, para a imaginação que venha favorecer ao homem e a construção do seu mundo interior e exterior de tal forma que o habita e o diferencia como um indivíduo único que é (Stori, 2003). Nessa perspectiva, o desenho ultrapassa o caráter meramente estético e assume-se como uma prática social carregada de sentidos, por meio da qual a criança interpreta, comunica e produz cultura.

Desse modo, compreendemos o desenho infantil como como uma linguagem expressiva e simbólica por meio da qual a criança comunica sentimentos, ideias, experiências e formas próprias de compreender o mundo. Trata-se de uma manifestação que articula o lúdico, a imaginação e a criatividade, permitindo à criança representar a realidade a partir de seu repertório cultural, social e afetivo em consonância com (Lowenfeld; Britain, 1977; Vygotsky, 2007).

Já a criança entendemos como um ator social capaz de produzir sentidos sobre o mundo, o que o torna um sujeito histórico-cultural, convergindo com as definições de Sarmento (2008) e Corsaro (2011). Essa concepção dialoga com as Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação Infantil, que compreendem “a criança como um sujeito histórico e de direitos que, nas interações, relações e práticas cotidianas que vivencia, constrói sua identidade pessoal e coletiva” (DCNEI, 2010). Ao assumir essa concepção de infância, torna-se imprescindível repensar as práticas educativas e as linguagens que possibilitam à criança expressar, criar e produzir significados, entre as quais se destaca o desenho.

Neste sentido, diversos estudos (Cassol, et al. 2021; Rocha, 2021; Runco; Walia, 2019; Hernandez-Torrano; Ibrayeva, 2019; Jaeger, 2012; Kozbelt; Beghetto; Runco, 2010; Stables, 2009; Grainger; Goouch; Lambirth, 2005), sinalizam um constante movimento de busca, pesquisa e estudos para ressignificações necessárias do desenho infantil à prática educativa e suas relações com a criatividade.

Conforme Stables (2009) os sistemas educacionais em muitos países visam desenvolver a criatividade a fim de proporcionar nas crianças a solução de problemas de forma criativa e autônoma. Há uma relação entre as práticas pedagógicas que fomentam e estimulam os processos criativos e os professores possuírem estas habilidades motivar o comportamento e a imaginação que permite a inspiração criativa das crianças.

Cada indivíduo tem uma orientação criativa, alguns dos estudos (Cassol, et al. 2021; Rocha, 2021; Grainger; Goouch; Lambirth, 2005) nesta área sugerem que as habilidades e atitudes do professor, aliadas com uma vontade de agir e consciência das necessidades dos alunos, bem como abordagens flexíveis para currículo e estrutura de aula, proporcionando o desenvolvimento dos processos criativos tanto na sala de aula como também em espaços não formais de aprendizagem.

A criatividade pode ser caracterizada pelo seu pluralismo, que, basicamente, é a existência de diversas perspectivas teóricas, tendo também diferentes pressupostos e métodos, sendo que estes, coletivamente fornecem uma compreensão mais robusta, porém ainda contestável, da criatividade humana (Runco; Jaeger, 2012).

Runco (2004) também já havia identificado quatro categorias que compõe a criatividade são essas: a pessoa, o processo, o produto e o ambiente. Segundo o autor a pessoa diz está relacionada à curiosidade, à capacidade de diferentes ideias, intuição e autonomia. O processo refere-se aos insights de processamento das respostas durante o processo criativo. O produto emerge das soluções criativas que surgem durante o processo. E ambiente criativo está diretamente ligado às inferências externas assim como os recursos disponíveis que podem tornar o ambiente criativo, favorecendo a criatividade.

Diferentes classificações têm sido propostas para categorizar as inúmeras teorias existentes sobre a criatividade. Kozbelt, Beghetto e Runco (2010) agrupam as teorias da criatividade em dez categorias dentre elas destacamos a Teoria Sistêmica em que os autores argumentam que a criatividade emerge de três componentes: o domínio, o indivíduo e o campo, esses elementos convergem entre si por meio de interações que reforçam o processo criativo dos indivíduos.

Os autores descrevem o domínio como sendo a ação do professor ao transmitir novos conhecimentos, o indivíduo centra-se no estudante que busca associar a contribuição desses conhecimentos aos que ele já possui e o campo relaciona-se a escola com sua estrutura, regimento e suporte que pode promover a criatividade dos estudantes. Todavia, de modo geral, o desenvolvimento da criatividade dentro dos contextos educacionais tem sido parceiros silenciosos, sendo que a prioridade de um silencia o outro, deliberadamente ou não (Walia, 2019).

Esse interesse pelo desenvolvimento da criatividade se deve principalmente às evidências cientificam acumuladas que apontam para a correlação positiva da criatividade com resultados acadêmicos e sociais relevantes, como o desempenho escolar (Hernandez-Torrano; Ibrayeva, 2019).

Mozer e Borges (2008, p. 2) “ao buscarem na literatura científica, trabalhos que discutem a criatividade infantil, tanto na literatura nacional como internacional, constatam que não é fácil encontrar artigos e livros que tratem de forma específica este tema”. Ligados à criatividade na infância, encontramos textos que se referem ao brincar; à importância do brinquedo no desenvolvimento da criança; à imaginação e à fantasia ligadas à aquisição da linguagem; e à infância de um modo geral.

Assim, este estudo se justifica pela importância pela qual apontamos a necessidade de estudar a criatividade infantil, e sua polarização constatada na maior parte dos estudos sobre criatividade que seguem, basicamente, como enfatiza Davis e Oliveira (1994) em duas direções: a concepção inatista e a concepção ambientalista da psicologia.

Compreendendo a criatividade como um processo psíquico que se constrói na criança desde muito cedo, interessou-nos o fato de compreender melhor de que maneira a literatura aborda o desenvolvimento criativo na infância através de desenhos na educação. E é a partir deste contexto criativo investigativo que este artigo se ancora, estabelecendo relações com produções gráficas considerando o desenho como elemento essencial no desenvolvimento da imaginação e da criatividade das crianças.

Portanto, o presente artigo se propõe destacar a importância de reconhecer os desenhos infantis não apenas como artefatos visuais, mas como formas de comunicação que merecem ser interpretadas e valorizadas dentro de contextos educacionais. Esperamos contribuir para uma compreensão mais significativa do potencial do desenho como instrumento de reflexão e expressão e para as crianças.

 

Metodologia

Este estudo é de natureza qualitativa que segundo Flick (2017) se propõe a interpretar e compreender a lógica do fenômeno observado a partir de características como dos significados, o autor ainda destaca que essa abordagem, infere sobre a credibilidade aos resultados, devido ao amplo embasamento teórico descritivo, além disso, os dados validam as informações encontradas.

Neste sentido a Revisão Sistemática de Literatura (RSL) elaborada teve como intuito de mapear, analisar e discutir sobre temáticas que possibilitem perspectivas futuras de estudos que podem favorecer o entrelaçamento de pesquisas a partir de combinações de títulos, autoria e tipos de documentos.

Logo, a RSL é um modo de investigação científica que aproveita como fonte de dados a bibliografia existente sobre um determinado tema, bem como busca resumir as informações recuperadas mediante a utilização de métodos sistematizados de busca (Sampaio; Mancini, 2007). Além disso, baseiam-se em evidências científicas, por isso são úteis para identificar assuntos contraditórios ou coincidentes.

As etapas de elaboração deste estudo permearam o processo de organização da investigação, desde o início da definição do objeto de estudo a partir das reflexões a priori que convergiram principalmente para alcançar a validade e confiabilidade de pesquisa. Assim como, para a construção da pergunta norteadora, escolha de palavras-chave e base de dados, elementos pertinentes envolvidos nos termos centrais que envolvem a temática.

Considerando como ponto de partida a questão: de que maneira a literatura aborda o desenvolvimento criativo na infância através de desenhos na educação? Que norteou a busca pela constituição dos dados, destacando os descritores e as plataformas utilizadas.

A revisão sistemática foi conduzida seguindo os princípios descritos pelas diretrizes PRISMA (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses) (Moher et al., 2009). Os elementos dispostos na figura 1 compõem os resultados encontrados nas bases dados: Scientific Electronic Library Online (SciElo), Web of Science (WoS) e a Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD), de acordo com os descritores e marcadores boleanos utilizados: ((Criativ*) AND (desenho)) AND (infan*)), "Creativ*" AND "Children's drawings, (criatividade) e (infância) e (desenho).

A Figura 1 ilustra os procedimentos da RSL constituída neste estudo de acordo com os critérios de inclusão e exclusão considerando os descritores e marcadores boleanos.

Figura 1 – Constituição da RSL

 

Fonte: Autores (2024).

Foram identificados (Filtro 1) 89 estudos nas respectivas bases de dados. Como critérios de inclusão, primeiramente, consideramos os artigos completos, sendo aqueles que continham os descritores no título, resumo ou palavra-chave. As teses e dissertações que se enquadrassem nesses termos também foram consideradas. Os resultados encontrados a partir de seus anos de publicação demarcam a limitação temporal deste estudo.

Na primeira triagem (Filtro 2) 8 trabalhos foram excluídos considerando como critérios de exclusão artigos apresentados em eventos científicos, resumos de eventos e resenhas de livros. Como elegibilidade (Filtro 3) desta RSL foram revisados 81 estudos encontrados, sendo que destes foram excluídos 63 obedecendo os seguintes critérios, trabalhos foram do escopo desta revisão e estudos sem acesso ao texto completo. Resultaram (Filtro 4) como amostra 18 trabalhos para análises e discussões que atenderam ao foco desta pesquisa.

Destacamos que os trabalhos resultantes estavam inseridos no período de 2008 a maio de 2023. E que os novos descritores foram reajustados a partir dos elementos iniciais por meio utilizados considerando como ponto de partida os termos “criatividade investigativa”, considerando que não foram encontrados nenhum trabalho a partir deste contexto nesta pesquisa.

A partir dos resultados encontrados exportamos os dados nas respectivas bases, todos em formato .csv ou .xlsx para extração dos metadados dos artigos como, título, ano de publicação e tipo de documento, bem como a remoção de informações não relevantes para essa revisão. Posteriormente, analisamos os títulos, resumos e textos completos, para filtrar aqueles que não atendessem o escopo dessa revisão, ou seja, trabalhos sem qualquer foco nos desenhos infantis, criatividade, ou que não se pudesse ter acesso à versão integral do trabalho.

A partir da organização dos resultados, separamos as discussões em quatro categorias de análises emergentes: Aspectos bibliométricos, A criatividade em ambientes de ensino, O papel do desenho na promoção da criatividade, Métodos e atitudes de ensino não criativos. As discussões foram realizadas de acordo com a análise de conteúdo (Bardin, 2011) que tem seus alicerces fundamentados na pré-análise a partir da leitura e escolha dos documentos, exploração, tratamento e interpretação dos estudos encontrados nesta pesquisa associando-os nas discussões a referenciais teóricos relacionados à criatividade.

 

Resultados e discussões

Apresentamos os dados encontrados que foram sistematizados em um quadro, gráfico e tabela, compostos com os elementos como autores, ano de publicação e tipo de documento. Além da distribuição temporal e espacial das referências encontradas em 4 categorias de análises a seguir.

Aspectos bibliométricos

Após aplicação dos critérios de inclusão, exclusão e a leitura inicial dos trabalhos, 18 estudos foram selecionados e incluídos nesta RSL, alguns metadados dos manuscritos podem ser observados no Quadro 1, que é composto de identificação, título, referência e tipo de documento, estes foram organizados em ordem cronológica seguindo a ordem decrescente partir do ano de publicação.

Quadro 1 –  Estudos selecionados para RSL.

TÍTULO

REFERÊNCIA

DOCUMENTO

Understanding Children's Drawings As Sociomaterial Assemblages of Voice During Pandemic Times

Burke, A. 2023

Artigo

Imagine A School: Children Draw And Explain The Ideal Environmental School

Gal, A; Gan, D. 2021

Artigo

Tagging Tabletops: How Children's Drawings On School Furniture Offer Insight Into Their Learning

Rufo, D. 2020

Artigo

My Rocket: Young Children'S Identity Construction Through Drawing

Hall, E. 2020

Artigo

Inteligencia Fluida Y Creatividad: Un Estudio En Escolares De 6 A 8 Años De Edad

Gática e Bizama, 2019

Artigo

Observing And Drawing The Sun: Research-Based Insights To Assess Science Communication Practices Aimed At Children

Anjos, S; Albéo, A; Carvalho, A. 2019

Artigo

Can Guided Play And Storybook Reading Promote Children'S Drawing Development?

Saweyr, J; Goldstein, T. 2019

Artigo

Draw(Me) And Tell: Use Of Children'S Drawings As Elicitation Tools To Explore Embodiment In The Very Young

Martin, G. 2019

Artigo

The Role Of Art Practice In Elementary School Science

Caiman, C; Jakobson, B. 2019

Artigo

Gender Difference In The Linear Relationship Among Factors of Drawing-Related Creativity in Second-Grade Primary School Students

Duh, M; Budefeld, A. 2018

Artigo

Indicadores de Criatividade No Desenho Da Figura Humana

Oliveira e Wechsler, 2016

Artigo

Sources of Variability in Children's Drawings

Simon, L; Stokes, P. 2015

Artigo

Using Art to Assess Environmental Education Outcomes

Flowers, A. et al. 2015

Artigo

Os Significados das Práticas de Promoção da Sala de Na Infância: Um Estudo do Cotidiano Escolar Pelo Desenho Infantil

Lucas, E. 2013

Tese

Linguagem Dos Quadrinhos E Culturas Infantis: "É Uma História Escorridinha"

Silva, M. 2012

Tese

How Drawing is Taught in Chinese Infant Schools

Jolley, R; Zhang, Z. 2012

Artigo

Desenhar É Preciso: Um Estudo Sobre A Contribuição Da Linguagem do Desenho Como Um Fazer Educação Ambiental

Dutra, L. 2011

Dissertação

O Lugar do Ato Criativo Na Aprendizagem da Criança Na Educação Infantil

Gonçalves, L. 2008

Dissertação

Fonte: Autores (2024).

Observamos a partir da amostra de estudos (Quadro 1) que a maioria das publicações são artigos internacionais sugerindo que ainda temos uma lacuna acerca de pesquisas neste campo de conhecimento a nível nacional. Também constatamos que ainda há um número discreto de pesquisas na área na Educação em relação à criatividade por meio de desenhos considerando o percurso temporal percorrido nesta pesquisa.

A partir dos trabalhos apresentados no Quadro 1 podemos constatar que na sua maioria, eles foram desenvolvidos em contextos educacionais, dentre eles destacamos Gática e Bazana (2019) que investigaram 94 crianças de uma escola na cidade de Biobío no Chile, o estudo de Burke (2023) que analisou os desenhos de crianças matriculadas no ensino fundamental em duas escolas no leste do Canadá.

Silva (2012) investigou a produção gráfica das crianças para compreender como elas criam, inventam ou reinventam a partir das histórias em quadrinhos em uma escola de São Paulo. Dutra (2011) faz uma reflexão sobre contribuição da linguagem do desenho a partir de uma oficina sobre o fazer não formal ambiental para estudantes em formação inicial docente.

A distribuição temporal dos estudos analisados nesta pesquisa está apresentada no Gráfico 1. Destacamos que no ano de 2019 ocorre o maior número de publicações sobre a temática (n=5). Assim como, existem lacunas nos anos de 2009, 2010, 2014 e 2022, onde observação não haver publicações para os respectivos anos.

 

Figura 2 – Distribuição temporal dos estudos sobre criatividade em desenhos infantis.

 

Fonte: Autores (2024).

Considerando que nesta distribuição temporal não estabelecemos um período específico de busca para dos estudos apresentados. Ainda assim, conseguimos perceber que os estudos sobre criatividade por meio de desenhos infantis são recentes, apesar de o desenho infantil ser um elemento essencial para o desenvolvimento da criança, quer seja na escola, quer seja em suas rotinas em casa. Percebemos que apesar do pico de publicações está centrada no ano de 2019 há um equilíbrio nas produções ao longo da distribuição temporal desta pesquisa. Além disso, ressaltamos a importância de mais estudos nesta área de conhecimento.

Porém, apontamos dentro da amostra de estudos analisados nesta pesquisa, evidenciamos a importância dos trabalhos de Anjos, Albéo e Carvalho (2019) que examinaram os desenhos das crianças a partir de observações do Sol por meio de telescópio, e perceberam que o aprendizado delas foi evoluindo significativamente à medida que iam criando novas formas solar a cada observação. Lucas (2013) que ressalta a importância das produções gráficas por meio dos desenhos como representações simbólicas da criatividade.

Assim como, o estudo Gonçalves (2008) que evidenciou a criança como produtora cultural, devido construir símbolos por meio de imagens afetivas presentes em seu cotidiano que podem ser exercitadas a partir das atividades de desenhos.

Consideramos que os estudos da criatividade ou os processos criativos que envolvem desenhos infantis podem apontar inúmeros aspectos da criança e seu desenvolvimento na aprendizagem sem sala de aula e pode indicar uma ferramenta importante que possibilite ao professor desenvolver estratégias de ensino e até mesmo compreender como a criança estabelece as relações de sua imaginação e sua forma de criar.

Em relação à distribuição dos trabalhos nos países, destacamos os estudos realizados no Brasil (n=5) acerca da criatividade e desenhos infantis, seguido dos Estados Unidos (n=4), e n=1 para os demais países (Canadá, Chile, China, Israel, Malta, Portugal, Eslovênia, Suécia e Inglaterra) conforme Tabela 1.

Tabela 1 – Distribuição de trabalhos por países.

Fonte: Autores (2024).

Nos estudos brasileiros, destacamos duas teses de doutorado (Lucas, 2013; Silva, 2012) e duas dissertações de mestrado (Dutra, 2011; Gonçalves, 2008). Ressaltamos ainda que esses estudos acadêmicos foram desenvolvidos em instituições da região sudeste e centro oeste do Brasil. Já as 5 publicações nos Estados Unidos são em formato de artigos científicos (Rufo, 2020; Saweyr; Goldstein, 2019; Simon; Stokes, 2015; Flowers, et al. 2015). E quanto aos tipos de documentos analisados nesta pesquisa produzidas nos outros países, destacamos 9 artigos.

O contexto apresentado sugere caminhos para o desenvolvimento de novas pesquisas, ampliando as possibilidades para a compreensão da criatividade por meio dos desenhos das crianças. Mas apresentaremos alguns estudos feitos nesses países que sinalizam a importância dos desenhos como elementos que podem contribuir para o desenvolvimento da expressão criativa na Educação.

Dentre eles destacamos as análises de Rufo (2020) que discute sobre os efeitos de permitir que os alunos do ensino fundamental exponham por meio de desenho sua criatividade e como esse elemento pode impactar significativamente no seu desenvolvimento cognitivo.

Os estudos de Sawyer e Goldstein (2019) acerca dos desenhos das crianças e suas implicações na sua experiência emocional, cognitiva, artística e semiótica, destacando esses fatores como aspectos relevantes para estimular a criatividade. Já o trabalho de Martin (2019) explora o desenho a partir do uso de uma atividade intitulada, “Desenhe (Eu) e Conte” que posicionou a criança em um lugar partindo de sua realidade, este movimento promoveu o processo reflexivo das crianças sobre suas próprias formas corporais.

Compreendemos que essa ação criativa do professor neste estudo auxilia a criança a explorar sua individualidade assim como, favorece também com ela entenda as transformações que ocorrem em seu corpo. Ressaltamos também que a sala de aula pode ser um ambiente propício para o desenvolvimento da criatividade desde que os momentos vivenciados pelos sejam estimuladores e promovam discussões e interações que podem contribuir para o desenvolvimento dos estudantes. Esses ambientes cheios de ideias e saberes mútuos podem favorecer o aprendizado, pois as trocas são contínuas e intensas.

A criatividade em ambiente de ensino

Quanto à aplicação desses estudos, destacamos que os ambientes formais de ensino são os mais representativos nesta pesquisa com 72% (n=13) dos trabalhos desenvolvidos nesse tipo de ambiente, enquanto que, 28% (n=5) dos estudos foram realizados em espaços como acampamentos infantis e museus.

Esses resultados destacam a necessidade de investigações com maior representação em espaços não formais de ensino nesse tipo de estudo. Observamos nos estudos de Gal e Gan (2021) os desenhos das crianças foram utilizados para que os autores pudessem compreender as percepções delas acerca da escola ambiental ideal, a partir de atividades desenvolvidas em áreas verdes.

Neste sentido esses estudos revelam a importância da utilização de espaços extracurriculares para a promoção da criatividade. Destacamos a importância de espaços não formais de ensino, haja vista que eles também podem oferecer um ambiente cheio de experiências interativas e possibilidades expressivas, que podem ser elementos fundamentais para a promoção da criatividade. Assim como, compreendemos que o processo criativo começa à medida que estimulamos a imaginação e a capacidade de reconstruir novas ideias a partir das suas subjetividades.

White e Lorenzi (2016) sugerem que escolas no âmbito da criatividade, poderiam se beneficiar de um modelo derivado da educação não formal, para o ensino e a aprendizagem, pois a educação não formal tende a ter uma abordagem mais centrada no aluno. Esse aspecto pode ser também um fator que favorece o processo criativo já que as crianças estabelecem relações de interação mútua entre si e a socialização durante as tarefas proporcionam uma aprendizagem com significados, principalmente quando elas relacionam suas atividades práticas ou teóricas com seu cotidiano.

A escola é um espaço no qual as expressões criativas podem surgir de forma espontânea, considerando que, na sala de aula, o professor deve atuar como agente motivador do processo de criação dos estudantes, proporcionando ações didáticas que valorizem um aprender criativo, prazeroso e significativo para as crianças. Nesse sentido, tanto os ambientes de aprendizagem formais quanto os não formais podem promover a criatividade, desde que haja intencionalidade pedagógica, abertura ao diálogo, valorização das experiências infantis e condições que favoreçam a experimentação, a imaginação e a construção de sentidos.

Quanto ao nível de escolaridade dos trabalhos a maioria foi realizado na educação básica e seus equivalentes em outros países com 72% (n=13). Ressaltando que níveis de ensino que consideramos para esse estudo, foram à educação infantil e o ensino fundamental.

Para tanto, destacamos a importância de se trabalhar a criatividade, sobretudo com desenhos, nos primeiros cinco anos escolares. O estudo de Walia (2019), por exemplo, envolvendo os alunos do 3º ano do ensino básico, destaca a importância de promover a criatividade, haja vista a existência de uma correlação positiva e significativa entre a criatividade e o desempenho escolar dos alunos.

Consideramos que o desempenho escolar pode estar relacionado a inúmeros fatores que envolvem o aprender e um deles pode ser o ambiente criativo desde o momento inicial de uma abordagem didática até os exercícios de complementares acerca de determinado objeto do conhecimento. Favorecendo o engajamento dos estudantes, a construção ativa do saber, o desenvolvimento da autonomia e a atribuição de sentido aos conteúdos trabalhados, o que contribui para uma aprendizagem mais significativa e duradoura.

Com isso, torna-se essencial que a criatividade seja desenvolvida no contexto educacional nas séries iniciais, mas também deve ser integrada ao processo de aprendizado, sobretudo também em espaços não formais, onde os facilitadores podem proporcionar ambientes de aula criativos, com contextos que estimulem a autonomia e a participação ativa dos alunos.

O papel do desenho na promoção da criatividade

Compreender o papel dos desenhos na promoção da criatividade e do ensino é fundamental para explorar o potencial das formas de expressão e vivências dos estudantes. Neste sentido, os desenhos têm sido usados como ferramenta educacional ao longo da história, tanto para crianças quanto para adultos (Oliveira; Wechsler, 2016). Consideramos também que através do ato de desenhar, as pessoas são incentivadas a desenvolver sua imaginação, habilidades motoras e capacidade de observação, que podem favorecer o aprender criativo.

Primeiramente, os desenhos desempenham um papel crucial na promoção da criatividade e na propensão a investigação, pois ao criar um desenho, as pessoas são encorajadas a explorar diferentes ideias, perspectivas e soluções visuais (Simon; Stokes, 2015). Ressaltamos que esse processo estimula o pensamento criativo, permitindo que os indivíduos expressem suas emoções, imaginação e visões de mundo de forma visual. Além disso, o desenho possibilita a experimentação e o desenvolvimento de novas técnicas, incentivando a inovação artística.

Além disso, os desenhos são uma ferramenta valiosa no processo de ensino, eles podem ser usados em sala de aula para tornar os conceitos abstratos mais tangíveis e acessíveis aos alunos, por exemplo, ao ensinar anatomia, um professor pode utilizar desenhos detalhados para ilustrar a estrutura do corpo humano, facilitando a compreensão do tema abordado. Para Oliveira e Costa (2021) ensinar conteúdos de Matemática por meio de desenhos pode contribuir para formação integral dos estudantes, dentre os benefícios eles apontam a motivação e a concentração nas aulas e além do desenvolvimento da criatividade e da expressão em sala de aula.

A literatura revisada para este artigo traz evidências de que um conjunto de atitudes também podem ajudar a promover a criatividade por meio de desenhos, destacamos o estudo de Caiman e Jakobson, 2019, os autores sustentam a tese de que ao misturarmos expressões da arte a partir de desenhos associados ao ensino, facilita o aprendizado e estimula a curiosidade, criatividade e imaginação dos alunos. Entendemos também, que os desenhos podem ser importantes para demonstrar as compreensões das crianças em torno de uma atividade, de uma situação problema, de um fato ou experiência vivenciada em seu cotidiano. Considerando este contexto, os desenhos criativos podem expressar as diversas formas de enxergar a realidade que as cercam.

Nesse sentido, Lucas (2013) afirma que é necessário desenvolvimento de ações simbólicas de promoção da criatividade com desenhos, atendendo a dimensão lúdica e destacando o papel da postura crítico-reflexiva que deve ser mantida nas crianças. E Hall (2020, p.1) “os desenhos refletem identidades únicas, poderosas e lúdicas das crianças e o seu desejo de comunicá-las com outras pessoas de forma criativa”.

Já para Gonçalves (2008), desenhar é também uma forma de estímulo criativo não apenas para a criança praticante do ato, mas também para a criança que observa. O autor também revela que em seu estudo, a criatividade e ação da um indivíduo estimulou outra criança a desenhar e ser mais criativa, inclusivo na formação de seus argumentos em sala de aula.

Anjos, Albéo e Carvalho (2019) apontam a importância dos desenhos no desenvolvimento cognitivo de crianças, além de indicarem os desenhos como uma estratégia para acessar as opiniões e experiências de crianças. Esses resultados corroboram com o trabalho de Silva (2012) que investigou como os desenhos das crianças podem ser empregados para narrar suas histórias em formato de quadrinhos e também como elas podem criar soluções coletivas para os seus problemas gráficos compartilhando entre si e também com os adultos seus achados.

Gal e Dan (2021) afirmam que a falta de imaginação nos desenhos das crianças indica a necessidade de desenvolver essa habilidade importante para a promoção do processo de ensino e aprendizagem, ou seja, os desenhos podem ser um veículo ideal para que as crianças possam começar a desenvolver as habilidades criativas, contudo requer mais prática de imaginação em geral e de apoio nos âmbitos de ensino formal e não formal.

Outra dimensão da pesquisa revisada é a discussão dos fatores que facilitam o desenvolvimento da criatividade, abordando o desenvolvimento de ambientes de aprendizagem propícios à criatividade, métodos de ensino baseados em brincadeiras em domínios artísticos, ambientes de educação não formal e aprendizagem digital.

Métodos e atitudes de ensino não criativos

O processo criativo ou simplesmente criatividade está presente no ambiente escolar. Quer seja para adjetivar o aluno quer seja para caracterizar um professor. As dinâmicas de sala de aula muitas vezes despertam aspectos criativos que estabelecem relações com o imaginar das crianças a partir de suas experiências vividas.

Entendemos que a criatividade na infância por meio de desenhos é um campo de estudo essencial para o desenvolvimento cognitivo e criativo das crianças, no entanto, atitudes inadequadas e métodos de ensino ineficazes podem impactar negativamente esse processo.

Entre as principais dificuldades na promoção da criatividade e do ensino por meio de desenhos, está na lacuna de conhecimento dos educadores, na ocorrência de desencontros percepção-comportamento e na falta de orientação dos educadores em relação à educação para a criatividade.

Flowers e colaboradores (2015) revelaram que os professores pesquisados em seu estudo não estavam suficientemente familiarizados com os fatores que estimulam a expressão criativa e a criatividade dos alunos. Essas lacunas de conhecimento e esses equívocos indicam que os conhecimentos científicos não convergem suficientemente nas percepções inicias aceca deste conceito e que é necessária uma compreensão mais profunda das evidências científicas sobre criatividade.

Em muitos casos, a criatividade é reprimida em ambientes educacionais que valorizam mais a memorização e a reprodução de informações do que o pensamento criativo e a exploração de ideias inovadoras. Isso pode levar as crianças a se sentirem desencorajadas e com medo de expressar suas ideias através dos desenhos.

Cabe aos educadores explorarem e identificarem estratégias efetivas para incentivar e fortalecer a autoexpressão criativa em crianças, notavelmente, o ensino eficaz para fomentar a criatividade deve ser apoiado por treinamento e habilidades apropriados (Dutra, 2011). Em uma meta-análise de 12 estudos de caso canadenses, Reilly et al. (2011) descobriram que professores criativos tendem a enfatizarem fortemente o aprendizado criativo.

Já em Rocha (2021) as ações criativas e investigativas dos professores fomentam o seu desenvolvimento profissional e este sujeito que atua criativamente em sala de aula amplia seu repertório conceitual, procedimental e atitudinal.

O estudo de Jolley e Zhang (2012) destaca a importância do papel do professor/mediador, sobretudo na instrução direta, pois essa intervenção pode ser prejudicial à criatividade individual de uma criança, mas ainda sim ressaltam o cuidado para a ausência de intervenção, pois sem essa ação, há o perigo de que os desenhos e o ensino se tornem desprovidos de elementos substanciais que envolvem a aprendizagem dos estudantes.

Além disso, algumas atitudes inadequadas por parte dos educadores, como a crítica excessiva e a falta de valorização da expressão artística das crianças, podem minar sua confiança na criatividade. O medo do julgamento e a busca pela perfeição podem inibir a capacidade das crianças de experimentar, arriscar e explorar novas abordagens criativas em seus desenhos.

Outro fator que pode comprometer a criatividade por meio de desenhos na infância é a adoção de métodos de ensino ineficazes, quando as aulas são excessivamente estruturadas, com pouca liberdade para a expressão artística, as crianças podem se sentir limitadas e desestimuladas a explorar sua imaginação e criatividade (Hernandez-Torrano; Ibrayeva, 2020).

Em contraste, métodos de ensino que promovem a autonomia, a experimentação e a resolução de problemas são fundamentais para incentivar a criatividade investigativa por meio dos desenhos. Segundo Menezes e Moser (2020) a autonomia estimula o potencial criativo dos estudantes que não se contentam em se apropriar de conteúdos prontos, mas sim construir seu próprio referencial, motivando-os a criar soluções criativas para os problemas apresentados. E para alcançar essas construções de saberes é fundamental que os educadores sejam sensibilizados sobre a importância da criatividade na educação infantil, eles devem ser capacitados a adotar abordagens pedagógicas que estimulem a criatividade e valorizem a expressão artística das crianças.

Além disso, é crucial que os currículos escolares incluam atividades que incentivem a investigação criativa por meio dos desenhos, proporcionando oportunidades para as crianças explorarem suas ideias e desenvolverem habilidades investigativas desde cedo (Rousell; Cutter-Mackenzie-Knowles, 2020).

É importante envolver também os pais nesse processo, destacando a importância de valorizar e apoiar a criatividade de seus filhos. Ao criar um ambiente positivo e encorajador em casa e na escola, onde a expressão criativa é valorizada, as crianças terão mais confiança para se engajar na criatividade investigativa por meio de seus desenhos, construindo uma base sólida para o desenvolvimento intelectual e emocional ao longo da vida.

 

Considerações finais

A literatura científica sobre práticas educacionais com desenhos infantis como formas de expressão criativa presentes em publicações científicas fornecem evidências encorajadoras sobre a importância dos desenhos como ferramenta na construção da criatividade e como facilitadores do processo de ensino na infância, considerando principalmente que os desenhos podem engajar os estudantes nas diversas atividades propostas quer seja em sala de aula ou fora dela. E ao reconhecer o valor dos desenhos como uma forma de expressão criativa, os educadores podem aproveitar essa poderosa ferramenta para estimular a imaginação, a experimentação e o pensamento inovador das crianças.

A RSL também apontou que ao incorporar atividades de desenho em ambientes educacionais, as crianças podem desenvolver habilidades de resolução de problemas, comunicação visual e autoexpressão, ao mesmo tempo em que aprendem de forma mais significativa e envolvente.

O desenho não é apenas uma atividade lúdica para as crianças, mas também uma forma de comunicação significativa e uma ferramenta para construir identidade e aprendizagens. Ao considerar a relação entre os desenhos das crianças e seu ambiente escolar, podemos obter insights valiosos sobre suas necessidades, interesses e experiências de aprendizado. Além disso, os desenhos como prática social, reconhece a complexidade das interações entre as crianças, seu ambiente e as tecnologias que as cercam.

Dessa forma, o estímulo à criatividade investigativa por meio de desenhos durante a infância pode ter um impacto significativo no desenvolvimento global dos indivíduos, preparando-os para se tornarem adultos criativos, críticos e capazes de enfrentar os desafios do mundo contemporâneo.

Esse estudo também evidencia que é preciso rever os métodos de ensino com o objetivo de superar o esquema de ensino-aprendizagem que não valorizam as habilidades de desenvolvimento reflexivas a partir da criatividade. Bem como destaca a importância de espaços não formais de ensino para a promoção da criatividade por meio de desenhos.

Ressaltamos também as atividades de criação nas quais os alunos se tornam protagonistas ativos de um processo criativo, são úteis para o desenvolvimento de competências didáticas como a criatividade. Portanto, a contribuição geral deste estudo é mostrar a importância de entrelaçar criatividade, desenhos e educação científica, mas especificamente, o estudo traz a luz que existem possibilidades das crianças de ampliar e aprofundar sua construção criativa, sobretudo nos anos iniciais tanto em ambientes formais e não formais de ensino.

 

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