Cyberbullying: interfaces e implicações nas escolas

Cyberbullying: interfaces and implications in schools

Ciberacoso: interfaces e implicaciones en las escuelas

 

Elaine Conte

Universidade La Salle, Canoas, RS, Brasil

elaine.conte@unilasalle.edu.br

Carla Dias da Silveira

Universidade La Salle, Canoas, RS, Brasil

carla.202213376@unilasalle.edu.br

 

Recebido em 23 de setembro de 2024

Aprovado em 19 de novembro de 2024

Publicado em 08 de julho de 2025

 

RESUMO

O artigo examina as mudanças digitais que, apesar de terem proporcionado inúmeros benefícios, como a ampliação das possibilidades de interação e socialização através das plataformas virtuais, apresentam desafios significativos, especialmente no contexto educacional. Em particular, o uso excessivo das redes sociais tem sido um problema recorrente. A pesquisa aborda a seguinte questão: Quais são os desafios atuais da educação escolar diante do cyberbullying? Para explorar essa questão, o estudo adota uma abordagem hermenêutica, analisando pesquisas teóricas contemporâneas, em plataformas e outros materiais, sobre as violências nas redes sociais e suas manifestações nas telas digitais dos estudantes, e como essas violências afetam o ambiente escolar. As investigações no campo educacional destacam as principais tendências teórico-práticas - educação digital e conscientização, políticas escolares e procedimentos, ambiente escolar e apoio psicológico, intervenções interdisciplinares, humanizando os olhares, projetos, debates e aprofundamentos teóricos e relacionais sobre o cyberbullying nas escolas. Apresentam-se, também, algumas estratégias de como o diálogo pedagógico aberto às situações concretas pode ser aprimorado pelo direito de aprender a conviver, objetivando combater intercorrências do cyberbullying nas escolas.

Palavras-chave: Cyberbullying; Violência escolar; Redes sociais; Tensões pedagógicas.


 

ABSTRACT

The article examines digital changes that, despite having provided numerous benefits, such as the expansion of possibilities for interaction and socialization through virtual platforms, present significant challenges, especially in the educational context. In particular, the excessive use of social networks has been a recurring problem. The research addresses the following question: What are the current challenges of school education in the face of cyberbullying? To explore this issue, the study adopts a hermeneutic approach, analyzing contemporary theoretical research on platforms and other materials about violence in social networks and its manifestations in students' digital screens, and how these violences affect the school environment. The investigations in the educational field highlight the main theoretical-practical trends - digital education and awareness, school policies and procedures, school environment and psychological support, interdisciplinary interventions, humanizing the Theoretical and relational projects, debates and aprobases on cyberbullying in schools. Some strategies are also presented of how the pedagogical dialogue open to concrete situations can be improved by the right to learn to live together, aiming to combat the intercurrent of cyberbullying in schools.

Keywords: Cyberbullying; School violence; Social networks; Pedagogical tensions.

 

RESUMEN

El artículo examina los cambios digitales que, a pesar de haber proporcionado numerosos beneficios, como la ampliación de las posibilidades de interacción y socialización a través de las plataformas virtuales, presentan desafíos significativos, especialmente en el contexto educativo. En particular, el uso excesivo de las redes sociales ha sido un problema recurrente. La investigación aborda la siguiente pregunta: ¿Cuáles son los desafíos actuales de la educación escolar frente al ciberacoso? Para explorar esta cuestión, el estudio adopta un enfoque hermenéutico, analizando investigaciones teóricas contemporáneas en plataformas y otros materiales sobre la violencia en las redes sociales y sus manifestaciones en las pantallas digitales de los estudiantes, y cómo estas violencias afectan el ambiente escolar. Las investigaciones en el campo educativo destacan las principales tendencias teórico-prácticas - educación digital y concientización, políticas escolares y procedimientos, entorno escolar y apoyo psicológico, intervenciones interdisciplinarias, humanizando los Proyectos, debates y profundizaciones teóricas y relacionales sobre el ciberacoso escolar. Se presentan, también, algunas estrategias de cómo el diálogo pedagógico abierto a las situaciones concretas puede ser mejorado por el derecho de aprender a convivir, con el objetivo de combatir las intercorrencias del ciberacoso en las escuelas.

Palabras clave: Ciberacoso; Violencia escolar; Redes sociales; Tensiones pedagógicas.

 

Introdução

          Hoje vivemos um cenário de cyberbullying1 e de violência em grande parte das escolas brasileiras, sendo um dos problemas cruciais na esfera das relações humanas e pedagógicas, influenciado pelos efeitos da violência na disseminação dos meios eletrônicos. Na investigação de Silva (2022), é abordado o fenômeno cyberbullying como uma forma recorrente de violência no Brasil. No campo miscigenado e veloz da produção de agressões, identificamos na escola o cyberbullying, cuja “violência se transformou do visível para o invisível, de física para psíquica (internalizada, psicologizada), do real para o virtual (invisível), de negativa para positiva (autorreferente)” (Habowski; Conte, 2021, p. 1). Ocorre que “o conceito de violência cria marcas ambíguas na história, por sua natureza psicossocial, de manipulação política, apresentando fortes tensões com a (des)educação, uma vez que aquele que violenta ou barbariza o outro acaba ferindo a si próprio ao produzir os efeitos da ignorância em ação” (Habowski; Conte, 2021, p. 1).

Ainda, de acordo com o levantamento denominado Diagnóstico Participativo das Violências nas Escolas (Abramovay et al. 2016), essa modalidade de violência é comum entre adolescentes e supera até mesmo a agressão física, ameaça e violência sexual. A pesquisa realizada por Bozza (2021), acerca dos adolescentes e suas interações online traz observações interessantes, constatando, no ano de 2015, que o cyberbullying havia superado outros tipos de violência escolar.

A finalidade intrínseca da educação é o enfrentamento das práticas agressivas e regressivas da cultura pela autocrítica da realidade e do agir pedagógico. Nas palavras de Márcia Tiburi (2017, p. 23), “o diálogo é uma prática de não violência. A violência surge quando o diálogo não entra em cena”. As questões da violência escolar neste momento de cultura digital necessitam de reavaliação constante para a inserção das novas gerações no mundo da formação cultural, cabendo a nós, professores e comunidade escolar restaurarmos os vínculos de comunicação e afetividade no ambiente escolar como forma de resistir às manifestações concretas do cyberbullying. A barbárie ronda a nossa existência e a desbarbarização surge como uma questão de sobrevivência da educação, libertando os sujeitos dos tabus e das opressões existentes pelo sentimento do agir humano e da aventura cultural.

Theodor Adorno (2006) também expressou a experiência da sua geração com a regressão da humanidade para a barbárie, em seu sentido literal e inexprimível. Ele destacou que essa situação expõe a falência de todas as estruturas sociais nas quais a escola está inserida, visto que a geração espontânea da barbárie pela sociedade, faz com que a escola tenha condições mínimas de resistência a esse fenômeno, o que emudece as próprias narrativas autocríticas da educação para apenas explicar, via tendência à burocracia, às métricas, que a transformam em dispositivo cujo funcionamento há que administrar.

Tal cenário traz problemáticas sociais e desequilíbrios emocionais às vítimas que demandam ações das mais diversas nos espaços educacionais para restabelecer a convivência social segura. Ou seja, as escolas precisam construir experiências compartilhadas e redes de apoio que assegurem a erradicação da violência, no interior das instituições escolares, uma vez que é uma prática tão antiga quanto a escola. Ao retomarmos o conceito de cyberbullying visamos preencher algumas lacunas deixadas pela violência que não é elucidada e debatida na cultura  escolar e na própria ação educativa, sendo um desafio da intercomunicação no cotidiano escolar (Conte, 2016). Frente a isso, erguem-se alguns questionamentos sobre o tema: 1) Quais são os desafios atuais da educação escolar diante do cyberbullying? 2) Qual a importância de debater o fenômeno do cyberbullying no ambiente escolar neste tempo tão complexo e controverso que vivemos? 3) Quais as estratégias pedagógicas que os professores e a comunidade escolar poderiam desenvolver em relação aos atos de violência praticados via mídias sociais, que reverberam no ambiente educacional? Essas questões permanecem em aberto, uma vez que o cyberbullying é uma forma de violência que ocorre dentro, fora e contra a escola, desafiando-a a aprender e ensinar a convivência com as diferenças.

Nesse contexto plural de perguntas, projetamos os seguintes objetivos: A) Investigar em artigos, teses e dissertações do campo da educação, no período de 2017 a 2022, as produções científicas acerca do cyberbullying no ambiente escolar, para estabelecer uma compreensão das violências praticadas na vida escolar. B) Reunir os impactos e motivos desse fenômeno nas escolas, analisando as ações preventivas e interdisciplinares que os professores e a comunidade escolar podem desenvolver em relação a esse tema. C) Compreender as possíveis lacunas acerca do cyberbullying para potencializar caminhos de sensibilidade pedagógica e experiências do trabalho cooperativo nos diferentes mundos da cultura escolar e digital. A escrita orienta-se pela problematização hermenêutica, questionando tudo o que desrespeita a existência do outro, causa sofrimento ou limita sua potência de vida.

Sendo assim, é imprescindível um mapeamento das situações vigentes para acompanhar os condicionamentos desse tipo específico de violência do cyberbullying nas escolas, no sentido de encontrar caminhos de humanidade através de um olhar panorâmico acerca das produções científicas, identificando as principais tendências do fenômeno, assimilando as linguagens da cultura escolar e suas influências e desdobramentos no mundo da cultura escolar. Conforme diz Adorno (2006, p. 147), “penso ser necessário que, desde o início, na primeira educação infantil, o processo de conscientização se desenvolva paralelamente ao processo de promoção da espontaneidade”. Todos os sujeitos da educação presentes no ambiente escolar, bem como pais e estudantes devem estar aptos a identificar situações de desrespeito, descontrole, embrutecimento e opressão (Tognetta; Lepre, 2022).

A análise detalhada do cyberbullying no contexto educacional, como mencionado anteriormente, desempenha um papel crucial para abordar as formas de violência nas escolas. Afinal de contas, “sem um trabalho pedagógico para evitá-la, a barbárie continuará presente como um processo desumanizante” (Conte; Branco; Soares, 2019, p. 115). Essa organização teórica tem o intuito de possibilitar ao leitor a compreensão da temática abordada, a partir das problemáticas da prática do cyberbullying, dos objetivos traçados e da sua justificação na radical historicidade humana, hoje em constante intercâmbio online, que se sustenta no processo de elaboração das experiências e dos possíveis legados dessa pesquisa.

Assim, partimos dos pressupostos científicos e educativos para refletir e questionar, do ponto de vista hermenêutico, as possibilidades de ampliar a nossa interpretação e compreensão a respeito dos comportamentos violentos e intimidações no ambiente escolar, em consequência das redes sociais e da dificuldade de problematizar as violências desses meios. Estabelecemos como fontes documentais o relatório da Unesco (2019; 2020) e as pesquisas atuais que versam sobre a tríade cyberbullying, redes sociais e violência escolar, tendo por base as produções de teses, dissertações e artigos do Brasil, abordando as complexidades e controvérsias da sociedade contemporânea. Também, identificamos algumas palavras-chave e produções bibliográficas obtidas por meio de pesquisas nos portais de periódicos da Biblioteca Eletrônica Científica Online (SciELO) e da Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD). Essas plataformas oferecem uma coleção abrangente e de alta qualidade de periódicos, teses e dissertações brasileiras. Com os estudos selecionados dos últimos seis (6) anos4, procuramos compreender as interligações e principais tendências do fenômeno do cyberbullying, das concepções aproximadas, dos seus impactos e ações preventivas que podem ser desenvolvidas nas escolas em relação a tais atos (gatilhos de violência) e que repercutem de forma negativa no ambiente escolar.

A abordagem hermenêutica revela-se de extrema importância para as pesquisas acadêmicas e em práticas escolares, bem como à abertura de diálogos interdisciplinares, servindo como uma via essencial para alcançar a compreensão humana (Conte; Santos; Cardoso, 2024). Para auxiliar na compreensão sobre as contribuições da abordagem hermenêutica para pesquisas que versam sobre a temática das violências na escola, de modo especial, a violência do tipo cyberbullying, destacamos: Violências da escola: Refere-se às práticas, políticas e estruturas institucionais que contribuem para a ocorrência ou perpetuação do cyberbullying entre os estudantes. Exemplos incluem a falta de políticas claras de prevenção e combate ao cyberbullying, tolerância ou negligência de casos de bullying por parte da administração escolar, ou a ausência de programas de conscientização sobre o tema. Violências na Escola: Engloba os atos de cyberbullying que ocorrem dentro do ambiente escolar, envolvendo sujeitos como agressores e/ou vítimas. Exemplos incluem mensagens ofensivas ou ameaçadoras trocadas entre alunos por meio de redes sociais, disseminação de boatos ou rumores prejudiciais, ou exclusão social online. Violências contra a Escola: Refere-se a ações de cyberbullying direcionadas à instituição escolar como um todo, ou a membros específicos da comunidade escolar, como professores ou funcionários. Exemplos incluem a criação de perfis falsos para difamar a reputação da escola, disseminação de informações falsas sobre a instituição, ou ataques cibernéticos direcionados aos sistemas tecnológicos da escola (Tognetta; Lepre, 2022; Vinha et al., 2023).

Essas formas de violência estão interconectadas e podem ter impactos significativos no ambiente escolar, afetando não apenas o bem-estar emocional e psicológico dos estudantes e professores, mas também a reputação e a integridade da instituição educacional como um todo. Ao associarmos a abordagem hermenêutica, podemos desenvolver uma compreensão mais holística e profunda do cyberbullying na escola. Essa conexão permite interpretar os significados subjacentes às ações, construir conhecimentos e práticas educacionais contextualizadas, e situar o fenômeno dentro do contexto mais amplo da modernidade líquida, para criar estratégias preventivas e interventivas que promovam um ambiente escolar mais seguro e acolhedor.

 

Cyberbullying em tempos de urgências no contexto escolar

Há muitas fragilidades nas escolas referentes à prevenção do cyberbullying, especialmente porque alguns estados têm mais de uma legislação acerca do tema e algumas leis apresentam um caráter informativo, de natureza preventiva, chegando a manifestarem aspectos punitivos (Pereira; Fernandes; Dell’Aglio, 2022). Tais estudos contribuem para efetivar a proteção e o direito à educação, somados ao relatório da Unesco (2019), e ao novo relatório da Unesco (2022), Reimaginar nossos futuros juntos: um novo contrato social para a educação, que apontam como o uso da internet, em seus aspectos negativos, entendido como um imperialismo de plataforma necessita de novas orientações em relação às formas de resistência. Além disso, apresentam as dimensões mundiais da violência escolar e do bullying, servindo como um dos indicadores para atualizar a compreensão do conhecimento a respeito do cyberbullying na escola. Reforçando essas carências, Bozza e Vinha (2017) analisaram os programas educativos, a nível nacional e internacional, de prevenção ao cyberbullying nas escolas. Verificaram que existem iniciativas desenvolvidas em diversas partes do mundo ao diálogo do cyberbullying, no entanto, constataram que tais programas são escassos ou inexistentes no contexto escolar brasileiro.

A nota sobre o Brasil no relatório Talis2, publicado em 2019, aborda a percepção de professores sobre o ambiente de sala de aula, sendo que 94% dos respondentes concordam que, em geral, estudantes e professores “geralmente se dão bem. No entanto, 28% dos diretores relatam atos regulares de intimidação ou bullying entre seus alunos, o que é superior à média da OCDE (14%)”. (Schwabe, 2019, p. 2).

Conforme a Unesco (2019, p. 8), crianças e adolescentes “[...] estão expostas a brigas nos pátios escolares [...]. Novas manifestações de violência também afetam a vida destas crianças, especialmente o fenômeno do bullying virtual (cyberbullying) por meio de celulares, computadores, sites e redes sociais”. O relatório traz também um número de 83% de professores que se consideram capacitados para trabalhar temáticas da violência escolar por conteúdos, pedagogias e práticas pedagógicas, mas não menciona uma formação sobre como lidar com esses atos regulares de violência ou sobre cultura e transformação digital. Corroborando com os relatórios, Flôres (2022) destaca que os professores se sentem despreparados e inseguros em trabalhar com essa temática, considerando as dúvidas, inseguranças, os medos e a falta de formação continuada. Em concordância a esse cenário, Reis (2021) menciona que se os gestores e professores tivessem o conhecimento sobre os riscos do uso das tecnologias nas diversas dimensões humanas, contribuiriam melhor em práticas de orientação adequada ao uso, prevenindo os efeitos prejudiciais e riscos dos artefatos culturais.

Tokunaga (2010) afirma que tais violências estão associadas a sérios problemas psicossociais, afetivos e acadêmicos, cujas escolhas comunicacionais operam, por vezes, como meios para ampliar práticas sociais negativas, como comportamentos que se direcionam a hostilizar e/ou perseguir outros. Tais práticas podem ser caracterizadas, conforme Brandão (2020, p. 19), como cyberbullying que é “todo tipo de violência intencional com o interesse de causar danos, envergonhar, excluir socialmente, ameaçar indivíduos por meio das tecnologias de informação e comunicação (as TIC)”. Reis (2021) também reforça e valida esse pensamento, ao referir que para essa nova classe de jovens se faz necessário re(aprender) a conviver, sendo uma tarefa educativa que almeja construir a ética da alteridade (alter-ética), buscando criar vínculos entre as pessoas e superar o individualismo gerado pelas conexões em rede.

Frente a tudo isso, Gonçalves (2020) menciona situações e estudos conduzidos com crianças e adolescentes israelenses, os quais constataram que 70% dos estudantes relataram ter sido expostos ao cyberbullying em suas classes escolares via WhatsApp. Quando o cyberbullying ocorre nestes grupos, é comum a presença de testemunhas e estas podem reagir de diferentes maneiras: encorajando o ataque por meio do apoio passivo ou ativo; apenas observando o que ocorre no grupo; encorajando o ofensor; transmitindo mensagens ofensivas ou intervindo nos bastidores.

As mudanças que o mundo vem passando nos fazem refletir a respeito das obras de Zygmunt Bauman (1998), pois dialogam com a pesquisa acerca das relações conflituosas e tensas dos constrangimentos dos artefatos culturais que monopolizam certas violências entre os sujeitos. No livro O mal-estar da pós-modernidade, Bauman (1998) considera que as intensas transformações sociais da era pós-moderna são marcadas pelos desejos de liberdade e de felicidade dos sujeitos através de um mundo constituído por uma infinidade de identidades. Entretanto, estamos vivendo em um tempo cheio de conflitos, estranhamentos e contradições. Bauman (1998) destaca alguns dos estranhamentos através da exclusão, confinamento ou destruição, tratando os diferentes como ameaças à ordem. Hoje, no entanto, os estranhos são tanto subprodutos quanto meios de produção na construção contínua da identidade. A questão central não é mais eliminar a diversidade humana, mas aprender a conviver com a alteridade de maneira diária e permanente.

É nesta perspectiva que os estranhos de Bauman nos fazem pensar acerca das práticas educativas, reforçando o quanto está sendo complexo e controverso o ensino na contemporaneidade. Logo, se faz necessário compreendermos melhor os comportamentos violentos e excludentes normalizados pelo cyberbullying, para que possamos conduzir ações coletivas e de uma cultura de paz dentro do ambiente escolar. A Unesco (2017, p. 9) considera que “não raro, os que declaram praticar cyberbullying também declaram sofrer cyberbullying”, mostrando o quanto essas ofensas são prejudiciais e repercutem no fenômeno antigo de que a violência simbólica gera violência.

Recentemente, após a sanção da Lei 14.811/2024, que incluiu o bullying e o cyberbullying no Código Penal e endureceu penas para crimes contra crianças e adolescentes, o Brasil registrou aumento nos crimes virtuais (Brasil, 2024). Segundo o Colégio Notarial do Brasil (CNB), em 2024 foram emitidas 145,3 mil atas notariais para comprovar cyberbullying - alta de 14% em relação a 2023 e quase o triplo do número de 2015, início da série histórica (IBDFAM, 2025). A nova lei não só tipificou bullying e cyberbullying, prevendo penas de 2 a 4 anos de reclusão para crimes virtuais, como também classificou como hediondos crimes do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), incluindo tráfico de crianças, sequestro e indução ao suicídio ou automutilação via intimidação sistemática virtual. Além disso, criou a Política Nacional de Prevenção e Combate ao Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes e estabeleceu medidas protetivas em ambientes educacionais, que envolvem a efetivação de direitos em contextos complexos. Na verdade, “a radicalização digital de crianças não é apenas uma ameaça à segurança, mas um desafio profundo às instituições de proteção, exigindo políticas públicas intersetoriais e uma revisão crítica dos mecanismos de controle e educação digital” (Moura; Mattar, 2025, p. 246).

Para a revisão de literatura acerca dos trabalhos mapeados, inicialmente, lemos os artigos, seguidos das dissertações e, finalmente, das teses. Durante essas leituras, destacamos frases e trechos relevantes, anotando palavras-chave para identificar os temas abordados pelos autores. Organizamos essas informações em tabelas distintas e selecionamos doze trabalhos: quatro artigos, cinco dissertações e três teses. A maioria dos estudos concentrou-se nas questões de cyberbullying, redes sociais e violência escolar. Após a leitura completa dos resumos, as pesquisas foram categorizadas em três enfoques principais: fatores que desencadeiam o cyberbullying, impactos do cyberbullying e fragilidades do ambiente escolar. As buscas foram realizadas em duas coleções: a Biblioteca Eletrônica Científica Online (SciELO) e a Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD), bem como na SciELO, utilizando a palavra-chave cyberbullying, e encontramos 133 artigos de diversas áreas (psicologia, sociologia, políticas públicas, direito, etc.). Diante disso, refinamos as busca, testamos pares de descritores, ampliamos o recorte temporal das pesquisas, etc. Observamos várias falhas, como a classificação incorreta de artigos em áreas não correspondentes no sistema, artigos duplicados e pesquisas em outros idiomas. Além disso, há limitações na abrangência dos dados sobre o tema no contexto escolar e a necessidade de incluir outras temáticas, como homofobia e vigilância tecnológica.

Os dados indicam que Espanha, Colômbia e Brasil são os maiores produtores de publicações científicas sobre cyberbullying, com um aumento significativo de publicações entre 2018 e 2022. As ciências da saúde lideram a produção científica, seguidas pelas ciências humanas. Para delimitar melhor o panorama das pesquisas, aplicamos filtros específicos: artigos publicados no Brasil nos últimos seis anos, em português e na área da educação. Observamos que a produção científica sobre cyberbullying em contextos escolares teve início em 2017, indicando que é um tema recente em periódicos. Após ajustar os critérios de busca, identificamos quatro artigos relevantes sobre o tema, conforme detalhado no quadro 1.

 

Quadro 1 - Síntese das produções no campo específico

Fonte: Autoria própria (2024).

 

Os artigos de número dois (2) e três (3) são pesquisas portuguesas que apareceram no catálogo mesmo após delimitarmos a busca para artigos brasileiros, devido ao fato de estarem escritos em português. Foram capturados pensadores que orientam temas como cyberbullying, tecnologias digitais, educação, teoria crítica, violência e formas de poder, também, na Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD) com a mesma palavra-chave. Encontramos cinquenta e cinco (55) resultados entre teses e dissertações, abrangendo áreas como Enfermagem, Psicologia, Sociologia, Comunicação e Direito3. Entre esses, duas (2) publicações eram repetidas e três (3) estavam sob confidencialidade até fevereiro de 2025. Os dados mostraram que os estados do Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e São Paulo são os maiores produtores de pesquisas sobre cyberbullying e violência escolar. As pesquisas começaram em 2010, com um pico de publicações entre 2019 e 2022, predominantemente dissertações de mestrado (43), com apenas dez (10) teses de doutorado. As áreas mais pesquisadas foram Educação, Psicologia e Saúde. Para refinar ainda mais a busca, aplicamos filtros específicos: documentos em português, publicados nos últimos seis (6) anos (2017 a 2022), na área da educação. Com isso, identificamos dezessete (17) produções relevantes, das quais selecionamos oito (8) para análise, incluindo três (3) teses e cinco (5) dissertações. As produções na área da educação começaram em 2017, indicando que é um tema recente, conforme mostramos no quadro 2.


 

Quadro 2 - Síntese das produções - Dissertações - BDTD

Fonte: Autoria própria (2024).

         

Cabe notar que as dissertações número dois (2) e três (3) não são apenas da área da educação, mas também dialogam de forma interdisciplinar com a área da saúde. Diante disso, entendemos que deveríamos deixá-las no rol de dissertações para fazer a revisão teórica, no sentido de colaborar com o campo científico. O trabalho quatro (4) traz as análises do cyberbullying na visão dos professores, sendo de extrema relevância as considerações acerca dessas indagações, visto que dialogam com os pensadores do campo. Pensamos que o intercâmbio com outras áreas, instituições e autores diferentes nos trazem novas possibilidades e horizontes inclusive para repensar o tema. Apresentamos, no quadro 3, as teses encontradas no buscador da BDTD e revisadas.

 

Quadro 3 - Síntese das produções - Teses – BDTD

Fonte: Autoria própria (2024).

 

Cabe notar que a tese número três (3) aparece no repositório da BDTD e estava com o acesso negado. Então, tivemos que ir no buscador do google para podermos localizá-la e fazer download para posterior leitura desta tese. Mesmo tendo como amostra estudantes do ensino médio e universitários, ela dá visibilidade a dados importantes para o nosso trabalho. A tese número quatro (4) mesmo não tendo nenhum componente do cyberbullying no título, fomos buscar referências e notamos que contém a expressão com fatos consistentes, plurais e diversos no corpo do texto que são inspiradores para as pesquisas do campo.

É importante ressaltar que as análises derivadas desses estudos forneceram resultados distintos de pesquisas conduzidas em outras nações, destacando-se pela sua significância em preencher as lacunas existentes na literatura brasileira sobre o assunto. As carências identificadas nessas produções, em termos de contribuição para o campo específico desta investigação, nos levam a pensar que as escolas vivem um momento em que é necessário compreender melhor os diferentes discursos existentes na comunicação mediada pelas redes sociais, possibilitando novos olhares ao fenômeno do cyberbullying na educação, investindo em novas abordagens para pensar práticas educativas e seus processos na construção do conhecimento, da comunicação e da problematização da realidade, em virtude do aumento do cyberbullying no ambiente escolar.

Conforme destaca Silva (2022), em sua dissertação sobre o cyberbullying entre adolescentes nas escolas públicas a comunicação virtual, há um espaço para a troca de mensagens em uma perspectiva inovadora, na qual as pessoas criam e compartilham conteúdos em plataformas abertas e nas mídias sociais, expressando suas opiniões, podendo estas gerar confrontos, assim como avanços e retrocessos.

 

Fatores que desencadeiam o cyberbullying - impactos socioculturais

Tudo indica que há raízes profundas da violência no Brasil, pois, desde a década de 80 e 90 repercutiam as relações violentas na escola por questões de vigilância entre os estudantes como um recurso de relacionamento, punição e depredação do ambiente escolar, práticas violentas e vandalismos contra os prédios escolares, mas pouco era discutido sobre as violências contra os professores e profissionais da escola (Guimarães, 1984; Santos, 2002; Zuin et al., 2020). A escola é um local privilegiado de interação social, mas também de formação e elaboração de projetos, de direitos e deveres, de manifestação de múltiplas vozes em cocriação, amizades, cooperação, solidariedade e de sonhos possíveis com o outro. Nesse sentido, agir contra o (cyber)bullying é uma forma de refletir sobre a violência entre estudantes, professores e gestores na vida em sociedade. Cabe lembrar que o comportamento dos pais, adultos ou responsáveis, reflete na formação da criança e dos jovens, tanto para conferir seus direitos, como para assegurar a dignidade humana e o reconhecimento de si como um ser humano.

Além disso, com a globalização veio o crime organizado e a barbárie se instaurou fortemente na difusão das violências entre gangues (Adorno, 2006). Estudos que abordam as causas e implicações da violência nas escolas referem que a instituição escolar acaba por ser mais um espaço social em que a violência e a desresponsabilização se apresenta (Adam; Fonseca, 2020). Para Abramovay et al. (2016), o furto praticado nas escolas aparece como microviolência ou incivilidade compromete a organização do ambiente escolar e em consequência as relações sociais estabelecidas. As agressões físicas quando aceitas como uma comunicação (na convivência impositiva) preocupa pela dificuldade de separar o que é brincadeira e o que não é, apresentando a fragilidade dos códigos de convívio. O cyberbullying, quando praticado por meio de xingamentos e expressões preconceituosas, expõe a importância do papel da escola em ensinar a convivência com as diferenças étnicas, linguísticas, de gênero, culturais, entre outras. Além disso, denotam que o cyberbullying requer um olhar aguçado e atento sobre comportamentos como manifestações de desinteresse nos estudos e rompantes de agressividade na escola.

Mais recentemente, outras formas de violência têm sido impostas à escola, como o aumento progressivo de matrículas, o empobrecimento e a sobrecarga dos professores e dos equipamentos escolares. Isso tem levado ao aumento dos índices de indisciplina em sala de aula e às reclamações de diretores de escolas públicas, que relatam ter visto estudantes portando armas no ambiente escolar, prejudicando a dialogicidade e a solidariedade humana (Tognetta; Lepre, 2022; Vinha et al., 2023). Ainda, é evidente o aumento da violência de forma geral, como também a sua banalização por parte de seus atores, cuja inter-relação entre a violência social e a violência escolar cria um intercâmbio de atos violentos, sendo a escola influenciada e coparticipante deste processo de desajuste de regras socioculturais.

Embora a escola possa ser um cenário de violência e sofrimento emocional, ela também pode se tornar um espaço privilegiado para a prevenção de violências, proteção e promoção da convivência democrática. Além das respostas de atenção e preservação, as abordagens dialógicas para a redução da violência em instituições educativas são aquelas que promovem a confiança, a segurança e o sentimento de pertencimento. A educação é aquela que permite promover a humanização, a transformação e a solidariedade por meio da dialogicidade, resistindo aos comportamentos que seguem estereótipos de uma socialização fora da escola e, por isso, mantém tal (in)diferença nas práticas violentas. Os problemas de convivência na escola são múltiplos e inter-relacionados, cada um com características específicas que demandam intervenções diferenciadas (Tognetta; Lepre, 2022; Vinha et al., 2023).

A violência na sociedade contemporânea é uma realidade evidente, penetrando tanto subjetiva quanto objetivamente na vida de todos, influenciando desejos, ações e decisões individuais e institucionais. Constitui um desafio social a ser confrontado, dada a complexidade dos diversos tipos existentes e suas múltiplas manifestações. Portanto, é necessário refletir sobre as formas de violência presentes nas escolas brasileiras: aquelas que têm origem em diversos contextos sociais e que permeiam o ambiente escolar, bem como aquelas que surgem dentro da própria escola e têm impactos que se estendem para além do cotidiano, afetando a vida social de forma mais ampla.

Os impactos do cyberbullying nas escolas violam os direitos das crianças e adolescentes, incluindo seus direitos à educação, à saúde e à diversidade cultural, porque as comunicações eletrônicas representam uma extensão do ambiente escolar. É notório o impacto negativo deste tipo de violência, seja em decorrência de problemas de autocontrole, de dificuldades em prestar atenção no cotidiano das aulas, de falta de amparo social, negligência no tratamento dado ao fenômeno no trabalho escolar e até conflitos familiares, que acaba prejudicando a saúde física, mental e o bem-estar emocional das vítimas de cyberbullying, trazendo impactos irreparáveis ao psiquismo e à vida social (Azevedo; Miranda; Souza, 2012). Algumas reações físicas comprovadas do cyberbullying incluem dores de estômago e de cabeça e dificuldades para comer e dormir. Os que sofrem cyberbullying estão mais propensos a terem dificuldades interpessoais, depressão, solidão ou ansiedade, autoestima baixa, pensamentos suicidas ou a tentarem o suicídio (Ferreira, 2018; Ribeiro, 2018; Tokunaga, 2010).

De acordo com Gonçalves (2018), observamos os impactos do cyberbullying com um teor destrutivo na saúde mental, cognitiva, emocional e comportamental dos adolescentes no ambiente educacional. Tal fenômeno é causado por sentimentos de isolamento social devido a perda de vínculos, a experiências de cyberagressão cometidas pelos seus pares na escola, agravando as fontes de sofrimento psíquico com a depressão e a baixa autoestima, causando assim, as autolesões (atos de se ferir) e as ideações e tentativas de suicídio.

Ferreira (2018) complementa que aqueles que sofrem com o cyberbullying têm aproximadamente oito vezes mais chances de levar uma arma para a escola do que outros estudantes que não passaram por essa experiência. A agressão virtual traz consequências psiquiátricas que afetam a saúde mental e o desenvolvimento global na escola. Os impactos educacionais sobre as vítimas deste tipo de violência, também é significativo porque cria uma atmosfera de ansiedade e insegurança incompatíveis com o ambiente de ensino e de aprendizagem social da escola. O sentimento de medo de ir à escola, bem como das testemunhas e vítimas, interfere na capacidade de concentração em sala de aula e na participação das atividades escolares. Ferreira (2018) também enfoca que as testemunhas são os espectadores, os ignorantes pluralistas, que correspondem ao comportamento grupal (em bando), onde sujeitos de um dado grupo ao terem divergências de opinião preferem se calar diante de injustiças porque são contrárias do grupo ao qual pertencem.

Estudantes e professores correm o risco de faltar às aulas, evitar atividades escolares ou abandonar de vez a escola, o que produz um impacto negativo nas formas de sociabilidade, de justiça social e de abertura aos outros e às possibilidades futuras no mercado de trabalho. O cyberbullying não possui paredes e acarreta inseguranças, instabilidades, conflitos, impulsividade, vulnerabilidade e altos custos sociais e econômicos (Unesco, 2019). O problema surge quando percebemos que os meios de comunicação eletrônicos fornecem visões da vida adulta associadas à violência, ao consumismo, à corrupção, mostrando às crianças distorções, mentiras e desonestidades, faltando exemplos de como problematizar a violência comercializada e outros tipos de banalização da violência na escola5. Mais do que coordenar esforços, é essencial agregar empenho e envolvimento no diálogo e nos afetos, como antídotos contra a violência e o medo. “Nascido na relação, o cyberbullying precisa ser trabalhado também na relação, sobretudo quando os próprios sentem que, juntos, têm capacidade de controle sobre as situações” (Caetano et al., 2017, p. 1032).

As exposições à violência compreendida como um ato de excesso, força ou coerção na vida cotidiana e nos meios midiáticos instantâneos atribuem uma espécie de livre curso aos sentimentos anestesiados e violentos da cultura do espetáculo (Sibilia, 2012). Conforme a BNCC, por exemplo, compete à escola não apenas a socialização de conteúdos, mas também, o desenvolvimento socioemocional através de memórias formativas. Para isso, deve “promover o diálogo, o entendimento e a solução não violenta de conflitos, possibilitando a manifestação de opiniões e pontos de vista diferentes, divergentes ou opostos” (Brasil, 2017, p. 467). Cabe agora não apenas questionar as possibilidades de representar a violência e os limites dessa representação em arquivos, mas principalmente explorar a relação entre violência, memória e linguagem, tomando como referência as grandes violências que marcaram o século XX (Trevisan, 2022).

Como destacado anteriormente, precisamos fazer valer os direitos humanos e debater as práticas de cyberbullying no cotidiano escolar, para compreendermos os motivos pelos quais não conseguimos reagir a estas situações por meio do estabelecimento de relações pedagógicas e dialógicas. Abaixo, apresentamos uma síntese crítica dos registros com as principais tendências, ações preventivas e lacunas do cyberbullying na escola.

 

Quadro 4 - Síntese das tendências, ações preventivas e lacunas do cyberbullying na escola

Aspectos

Diagnóstico

Ações preventivas e interdisciplinares

Possíveis lacunas

Principais Tendências

a) Aumento da frequência devido ao uso intensivo de tecnologias digitais. b) Diversificação dos métodos. c) Impacto psicológico significativo nas vítimas. d) Desafios no monitoramento e detecção.

 

- Formação insuficiente para a mediação de conflitos e convivência

escolar, pela falta de escuta e diálogo acerca das microviolências e assédios cotidianos.

- Aumento do cyberbullying por meio do mau uso das tecnologias, do assédio,

do anonimato do agressor e dos extremismos na sociedade brasileira.

Educação Digital e Conscientização

 

- Programas educacionais sobre cidadania digital e comportamento online seguro. - Workshops e palestras para estudantes, pais e professores.

- Formação continuada insuficiente de professores e administradores.

- Engajamento limitado dos pais.

Políticas Escolares e Procedimentos

 

- Desenvolvimento de políticas específicas contra o cyberbullying. - Implementação de sistemas de denúncia seguros e confidenciais.

- Necessidade de atualização constante das políticas escolares.

- Subnotificação de casos.

Ambiente Escolar e Apoio Psicológico

 

- Promoção de atividades que incentivem respeito, confiança e empatia.

- Disponibilização de serviços de apoio psicológico e socioemocional.

- Falta de integração efetiva entre diferentes disciplinas e profissionais.

Intervenções Interdisciplinares

 

- Colaboração multidisciplinar entre psicólogos, assistentes sociais, educadores e administradores.

- Formação de equipes de mediação de conflitos.

- Integração limitada de ações preventivas e intervenções em prol da saúde mental.

Fonte: Autoria própria (2024).

 

Notas conclusivas

Como vimos até aqui, trata-se de um debate interessante e necessário, mas que está longe de ser esgotado. Com as análises empreendidas no campo de pesquisa sobre cyberbullying nas escolas, elencamos algumas das principais tendências: 1) As pesquisas indicam um crescente reconhecimento da gravidade do cyberbullying no ambiente escolar, por isso elas têm investigado como as plataformas de mídia social influenciam as dinâmicas do cyberbullying e quais mecanismos de controle e educação digital para lidar com esse problema. 2) Estudos têm mostrado as consequências sérias do cyberbullying para a saúde mental dos estudantes, visto que a exposição a ataques online pode levar a problemas como ansiedade, depressão, baixa autoestima e até mesmo ideação suicida devido à radicalização digital. 3) As investigações também se concentram no papel dos espectadores ou testemunhas do cyberbullying para entender como os colegas reagem e participam (ou não) do processo de cyberbullying e desenvolver intervenções adequadas. 4) Pesquisas sugerem que meninas e meninos podem estar sujeitos a diferentes formas de cyberbullying e a compreensão dessas disparidades é essencial para a criação de estratégias de prevenção e apoio adequados. 5) Diversos trabalhos destacam o desenvolvimento de programas de prevenção e intervenção no cyberbullying, buscando estratégias para preveni-lo e oferecer suporte às vítimas. No entanto, é fundamental examinar as políticas escolares, leis e normativas vigentes para criar estratégias pedagógicas que promovam ambientes pautados na não violência diante da radicalização extremista, vulnerabilidades e inseguranças travadas no ambiente digital (Moura; Mattar, 2025).

A análise deixa espaço para estudos futuros que possam explorar mais profundamente as estratégias pedagógicas que se reúnem para dialogar sobre os mecanismos de prevenção e intervenção no ambiente escolar, numa perspectiva anunciada de cultura escolar da paz, conduzida por professores sensíveis pedagogicamente. Afinal de contas, a violência e o descontrole humano se resolvem com inteligência emocional, com criatividade, com atenção ao sujeito e depende, fundamentalmente, da lógica dos comportamentos humanos e da capacidade de se colocar no lugar do outro. Portanto, sinalizamos a importância de estudos subsequentes para retomar as relações humanas e sociais fragmentadas no contexto escolar devido a situações de desrespeito por invisibilidade ou por agressões via cyberbullying, que precisam ser trabalhadas na sociabilidade, explicitando novas iniciativas e encaminhamentos para o enfrentamento educacional do cyberbullying nas escolas.

 

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Notas

______________________________

[1] O cyberbullying, devido à sua natureza virtual, é um agir agressivo que se propaga dentro e fora do espaço geográfico da escola, de modo atemporal, fluído e por meio da internet (Azevedo; Miranda; Souza, 2012). O cyberbullying serve para criar cenas constrangedoras, para incitar violência e depreciar pessoas, causando constrangimentos psicossociais (Brasil, 2023).

2  Link: https://www.gov.br/inep/pt-br/areas-de-atuacao/pesquisas-estatisticas-e-indicadores/talis/resultados

Uma síntese das buscas, com todas as produções rastreadas, pode ser acessada em Silveira (2023, p. 43-45).

4 A escolha do período de 2017 a 2022 visa garantir a atualidade dos dados, refletindo as formas contemporâneas de cyberbullying e as respostas educacionais às mudanças tecnológicas, como o aumento do uso de dispositivos móveis e redes sociais. Esse recorte temporal captura não apenas essas mudanças, mas o impacto da pandemia, que acelerou a digitalização e aumentou a exposição dos estudantes ao cyberbullying no ambiente escolar.

5 “Os fenômenos do bullying e do cyberbullying também desempenham um papel importante, promovendo a intolerância e a hostilidade no ambiente virtual, que muitas vezes se manifestam em violência física e psicológica nas escolas, com caráter capacitista, racista, misógino e LGBTQIA+fóbico” (Brasil, 2023, p. 124). Filmes também abordam essas questões com um olhar sensível, refletindo sobre as diferenças e suas implicações na cultura escolar (Habowski; Conte; Branco, 2018).