A Abordagem Desenvolvimentista da Educação Física na prática pedagógica da Educação Infantil

The Developmental Approach to Physical Education in the Pedagogical Practice of Early Childhood Education

El Enfoque Evolutivo de la Educación Física en la práctica pedagógica de la Educación Infantil

 

Rafaela de Pinho Oliveira

Universidade Federal do Rio Grande, Rio Grande, RS, Brasil

rafaeladepinhooliveira@gmail.com

Luciana Toaldo Gentilini Avila

Universidade Federal do Rio Grande, Rio Grande, RS, Brasil

lutoaldo@msn.com

Jean Michel de Melo Goularte

Universidade Federal do Rio Grande, Rio Grande, RS, Brasil

jeanmgoularte@outlook.com

Mario Landir Noguez Neto 

Universidade Federal do Rio Grande, Rio Grande, RS, Brasil

marioneto180598@gmail.com

Samuel Silveira Pereira

Universidade Federal do Rio Grande, Rio Grande, RS, Brasil

samucarspereira@gmail.com

 

Recebido em 14 de agosto de 2024

Aprovado em 18 de setembro de 2024

Publicado em 11 de abril de 2025

 

RESUMO

O objetivo desta pesquisa foi identificar as contribuições e/ou limitações da Abordagem Desenvolvimentista da Educação Física para orientar os planejamentos de brincadeiras na Educação Infantil. Participaram do estudo, desenvolvido por meio de um Projeto de Extensão, acadêmicos/as de cursos de Licenciatura em Educação Física e Pedagogia e professores formados nas mesmas áreas mencionadas. A produção dos dados foi desenvolvida em 2023 e se caracterizou como uma pesquisa-ação. A pesquisa-ação aconteceu a partir de seis encontros presenciais com os/as participantes, seguindo o ciclo de planejamento, ação, observação e reflexão. Nesses ciclos foi realizado o planejamento dos encontros, a ação e observação de estudo e elaboração de brincadeiras e a reflexão sobre os encontros do projeto. Os dados produzidos na pesquisa foram analisados pela análise de conteúdo, sendo possível a criação de três categorias que respondem aos objetivos desta investigação: 1. percepções em relação aos conhecimentos da Educação Física na Educação Infantil, a qual evidencia as percepções iniciais e os avanços finais dos/as participantes do projeto; 2. contribuições teóricas da abordagem desenvolvimentista, a qual demonstra o quanto o entendimento da abordagem proporciona intencionalidade pedagógica na docente; e 3. contribuições do projeto para a formação dos/as (futuros/as) professores/as, em que é possível destacar a importância da pesquisa-ação para a formação docente. Como conclusões, evidencia-se que a abordagem desenvolvimentista pode contribuir para o planejamento de brincadeiras pelo/a professor/a, assim como para a aprendizagem e desenvolvimento das crianças da Educação Infantil.

Palavras-chave: Educação Física; Educação Infantil; Abordagem Desenvolvimentista.

 

ABSTRACT

The research objective was to identify the contributions and/or limitations of the Developmental Approach to Physical Education to guide play planning in Early Childhood Education. The study, developed through an Extension Project, involved students from undergraduate courses in Physical Education and Pedagogy and teachers trained in the same areas mentioned. Data production was developed in 2023 and was characterized as action research. The action research took place from six face-to-face meetings with the participants, following the cycle of planning, action, observation, and reflection. In these cycles, the meetings planning, the action and observation of the study and elaboration of games, and the reflection on the project meetings were carried out. The data produced in the research were analyzed through content analysis, making it possible to create three categories that respond to the investigation objectives: 1. perceptions in relation to knowledge of Physical Education in Early Childhood Education, which highlights the initial perceptions and final advances of the project participants; 2. theoretical contributions of the developmental approach, which demonstrates how understanding the approach provides pedagogical intentionality in the teacher; and 3. contributions of the project to the training of (future) teachers, in which it is possible to highlight the importance of action research for teacher training. As conclusions, it is evident that the developmental approach can contribute to the planning of games by the teacher, as well as to the learning and development of children in Early Childhood Education.

Keywords: Physical Education; Early Childhood Education; Developmental Approach.

 

RESUMEN

El objetivo de esta investigación fue identificar los aportes y/o limitaciones del Enfoque de Desarrollo de la Educación Física para guiar la planificación del juego en la Educación Infantil. En el estudio, desarrollado a través de un Proyecto de Extensión, participaron académicos de las Licenciaturas en Educación Física y Pedagogía y docentes capacitados en las mismas áreas mencionadas. La producción de datos se desarrolló en 2023 y se caracterizó como investigación-acción. La investigación-acción se desarrolló a través de seis encuentros presenciales con los participantes, siguiendo el ciclo de planificación, acción, observación y reflexión. En estos ciclos se realizó la planificación de reuniones, acción y observación de estudio y preparación de juegos y reflexión sobre las reuniones del proyecto. Los datos producidos en la investigación fueron analizados mediante análisis de contenido, permitiendo crear tres categorías que responden a los objetivos de esta investigación: 1. percepciones sobre el conocimiento de la Educación Física en Educación Infantil, donde se resaltan las percepciones iniciales y los avances finales de la participantes del proyecto; 2. aportes teóricos del enfoque desarrollista, que demuestra cómo la comprensión del enfoque proporciona intencionalidad pedagógica en los docentes; y 3. contribuciones del proyecto a la formación de (futuros) docentes, en las que es posible resaltar la importancia de la investigación-acción para la formación docente. Como conclusiones, se evidencia que el enfoque desarrollista puede contribuir a la planificación de juegos por parte del docente, así como al aprendizaje y desarrollo de los niños en Educación Infantil.

Palabras clave: Educación física; Educación Infantil; Enfoque de desarrollo.

 

Introdução

Nas últimas três décadas no Brasil, nota-se um movimento de reconhecimento maior, pelo menos em termos de legislação, da Educação Infantil como etapa importante e obrigatória da Educação Básica (Brasil, 1988; 1996; 2009).

Um dos marcos legais mais importantes para o reconhecimento da Educação Infantil foi a publicação das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil - DCNEI (Brasil, 2009). O principal objetivo das DCNEI, conforme o seu art. 2º, é o de “[...] orientar as políticas públicas na área e a elaboração, planejamento, execução e avaliação de propostas pedagógicas e curriculares de Educação Infantil” (Brasil, 2009).

Observar-se, a partir do que está estabelecido nas DCNEI (BRASIL, 2009), que a Educação Infantil é uma etapa da escolarização com características próprias, distinta em vários aspectos das etapas seguintes, como do Ensino Fundamental e Médio. Devido ao fato de atender crianças de 0 aos 5 anos, o seu currículo não deve se caracterizar como um conjunto de práticas preparatórias das crianças para as etapas da educação seguinte, mas deve “[...] articular as experiências e os saberes das crianças com os conhecimentos que fazem do patrimônio cultural, artístico, ambiental, científico e tecnológico, de modo a promover o desenvolvimento integral de crianças de 0 a 5 anos de idade” (Brasil, 2009).

Dentre os conhecimentos que as crianças têm o direito de aprender na Educação Infantil são os referentes à área da Educação Física. Conforme a legislação, a Educação Física é um componente curricular obrigatório em todas as etapas da Educação Básica (Brasil, 1996). Mesmo que não haja a obrigação de um professor especialista desta área na etapa da Educação Infantil, esse é um conhecimento que deve ser apresentado e construído com as crianças, de forma a colaborar com o seu desenvolvimento integral (Brasil, 2009). 

Desde o momento em que a Educação Física entra na escola e passa a contribuir com a educação das crianças e, consequentemente, com a construção da sociedade, enfrentou mudanças vinculadas às transformações sociais, as quais permitiram a criação de diferentes abordagens para embasar a atuação pedagógica. Com o avanço dos estudos na área da psicologia do desenvolvimento e na tentativa de romper com a visão tradicional de Educação Física (especialmente vinculada ao esporte), no final da década de 1980, surgem diferentes abordagens pedagógicas da Educação Física, dentre elas a abordagem desenvolvimentista (Darido; Neto, 2011).

Sendo assim, o objetivo geral desta pesquisa foi o de identificar e analisar as contribuições e/ou limitações da Abordagem Desenvolvimentista da Educação Física para orientar os planejamentos de brincadeiras pelos/as professores/as para as crianças da Educação Infantil.    

 

A abordagem desenvolvimentista da Educação Física na escola e a criança

            Como sujeitos de direitos (Brasil, 2009), entende-se nesta pesquisa que as crianças precisam ter acesso aos conhecimentos produzidos historicamente pela cultura brasileira relacionados à Educação Física. Observa-se que este campo vem, no decorrer dos anos, consolidando-se dentro da Educação Infantil, especialmente, pela importância dada pelas práticas pedagógicas desenvolvidas com o movimento das crianças (Mello, et al., 2016). Conforme o parecer nº 20 de 2009, o qual revisa a publicação das DCNEI, a organização das experiências de aprendizagem na Educação Infantil prevê que as crianças devem ter a possibilidade na escola de realizar deslocamentos e movimentos amplos com o corpo nos espaços, tanto internos como externos da sala de referência e da instituição, envolvendo-se em brincadeiras e propostas que permitam a elas explorarem os seus movimentos.

            Sendo assim, reconhecendo as brincadeiras e as interações como os eixos norteadores da prática pedagógica da Educação Infantil (Brasil, 2009) e, especialmente, a brincadeira como um dos conhecimentos de que trata o componente curricular da Educação Física, é que se reconhece a importância desta área estar colaborando para a construção de propostas pedagógicas que tragam mais sentido para as experiências de aprendizagem das crianças (Mello et al., 2016; Borre; Reverdito, 2019; Diedrich; Araújo; Rocha, 2020).

            Uma das abordagens pedagógicas criadas dentro do campo teórico da Educação Física e que pode colaborar para o oferecimento dessas experiências às crianças da Educação Infantil é a abordagem desenvolvimentista. Essa abordagem, proposta no Brasil pelos professores Tani, Manoel, Kokobun e Proença (1988), foi pensada inicialmente como uma referência teórica para os professores de Educação Física, numa época em que não havia propostas teorizando essa disciplina no ambiente escolar.

Conforme Gallhue e Donelly (2008), a finalidade básica da Educação Física na escola deve ser incentivar e desenvolver o aprendizado do movimento e o aprendizado através do movimento. No que tange o aprender a mover-se estão relacionados o aprendizado constante de habilidades motoras e o aumento da saúde física do indivíduo e o aprender através do movimento se entende a influência positiva que a aprendizagem do movimento pode proporcionar no aprendizado cognitivo e socioemocional das crianças.

Para a abordagem desenvolvimentista, o papel do professor de Educação Física é auxiliar que as crianças, entre os 2 e 7 anos, aprendam e aprimorem as habilidades motoras fundamentais, classificadas em movimentos de equilíbrio, locomoção e manipulação (Gallahue; Donelly, 2008), sendo esse o período ideal para as crianças aprenderem esses movimentos (Gallhaue; Ozmun; Goodway, 2013).

            No decorrer dos anos, desde a proposta desta abordagem no Brasil, algumas críticas foram formuladas por estudiosos de outros campos de investigação da Educação Física. Uma das principais críticas, evidenciadas por Tani (2008), é o de defender essa abordagem como essencialmente biologista. No momento que se estuda profundamente a abordagem, observa-se que ela entende a criança como um ser integrado nos domínios motor, cognitivo e afetivo. Para Gallahue e Donelly (2008), embora o desenvolvimento motor da criança esteja relacionado com a idade, ele não depende exclusivamente desta. O ambiente social e cultural em que a criança está imersa, influencia tanto quanto o seu amadurecimento biológico. Dessa forma, as decisões do professor sobre o quê, quando e como oportunizar a aprendizagem para as crianças, vai estar baseado na apropriação individual e por faixa etária, considerando as necessidades e interesses de cada uma delas (Gallhaue; Ozmun; Goodway, 2013).

Como consequência, é uma abordagem que entende que as crianças não são adultos em miniatura, sendo as suas necessidades e interesses diferentes da de adolescentes e adultos (Gallahue; Donelly, 2008). Destaca-se, especialmente, o quanto o brincar é uma das atividades mais importantes da vida de uma criança. A partir da brincadeira a criança aprende sobre o corpo e as possibilidades de movimento que pode realizar (Gallhaue; Ozmun; Goodway, 2013).

As brincadeiras são importantes para as crianças porque são capazes de auxiliar na aprendizagem e desenvolvimento de habilidades motoras amplas e finas, assim como no crescimento cognitivo e afetivo, contribuindo assim, para o desenvolvimento integral das crianças (Gallhaue; Ozmun; Goodway, 2013).

            Dessa forma, quando se pensa a Educação Física Escolar para crianças, entende-se não como um período em que há apenas a brincadeira livre, mas propostas de brincadeiras pelo professor para e com as crianças, tornando esse momento um laboratório de aprendizagens do movimento e através do movimento.).

 

Método de construção da pesquisa

Esta pesquisa, de abordagem qualitativa, surge de uma provocação oriunda, especialmente, das discussões estabelecidas no Grupo de Pesquisa e Formação em Educação Física Escolar (GRUPESF) - FURG, a qual gerou o seguinte problema de pesquisa: quais são as contribuições e/ou limitações do planejamento de brincadeiras a partir da Abordagem Desenvolvimentista da Educação Física para e com as crianças da Educação Infantil?

Tendo em vista este problema, optou-se para o seu desenvolvimento, o paradigma da pesquisa-ação. Segundo Thiollent (1992, p.14) entre as diversas definições da pesquisa-ação, ele considera que “[...] é um tipo de pesquisa social com base empírica que é concebida e realizada em estreita associação com uma ação ou com a resolução de um problema coletivo [...]”.

Ressalta-se que, de forma a cumprir as normas e exigências éticas do processo de investigação, o projeto desta pesquisa foi submetido, antes do início da produção dos seus dados, ao Comitê de Ética em Pesquisa da FURG e está orientado a partir da Resolução nº 510/16 (BRASIL, 2016). O parecer de aprovação está sob o número 6.055.412.

 

Contexto de desenvolvimento e participantes da pesquisa

Esta pesquisa foi desenvolvida no contexto de um Projeto de Extensão oferecido, de forma presencial numa instituição de ensino superior pública, no segundo semestre do ano de 2023. Este projeto foi promovido e divulgado, pelo GRUPESF - FURG, sendo convidados/as a participar acadêmicos, especialmente, dos cursos de Pedagogia e Educação Física e professores/as já formados nos cursos mencionados.

  Ao total foram 12 inscritos, entre acadêmicos/as do primeiro, sexto e oitavo semestre do curso de Educação Física da FURG, acadêmicos/as do sexto semestre do curso de Pedagogia da FURG, professoras formadas em Pedagogia e um professor formado em Educação Física, ambos na FURG. No entanto, devido principalmente, à incompatibilidade de horário entre os dias do projeto e as demais tarefas dos inscritos, participaram efetivamente dos encontros sete pessoas, denominados pela letra “P” de participantes e descritos no quadro 1 abaixo:

 

Quadro 1. Características dos participantes da pesquisa

Participante

Formação

P1

Acadêmica do 6º semestre do curso de Pedagogia

P2

Acadêmica do 8º semestre do curso de Licenciatura em Educação Física

P3

Acadêmico do 6º semestre do curso de Licenciatura em Educação Física

P4

Professor formado em Educação Física e Mestrando em Educação

P5

Professora Pedagoga formada e Mestranda em Educação

P6

Acadêmico do 6º semestre do curso de Pedagogia

P7

Acadêmica do 6º semestre do curso de Licenciatura em Educação Física

Fonte: Próprios autores

 

Observa-se, a partir do quadro 1, a formação de um grupo de pesquisa-ação heterogêneo, especialmente, pelo adiantamento nos semestres do curso ou graduação concluída. Nota-se, como ponto positivo, a participação de acadêmicos/professores de ambos os cursos (Pedagogia e Educação Física), fato que trouxe diferentes entendimentos e experiências prévias relação à temática discutida e ao problema a ser resolvido com a formação do grupo.  Todos os participantes estiveram efetivamente nos encontros do grupo, participando das etapas propostas e descritas a seguir.

Desde a possibilidade de formação do grupo, o projeto denominado “A Educação Física na Educação Infantil”, pode começar. O objetivo central deste foi oferecer um espaço de formação inicial/continuada, visando identificar as contribuições e/ou limitações da Abordagem Desenvolvimentista da Educação Física para orientar os planejamentos de brincadeiras para e com as crianças da Educação Infantil.

O projeto foi desenvolvido presencialmente no segundo semestre de 2023, entre os meses de setembro e dezembro. A reunião do grupo aconteceu nas quintas-feiras, das 16 h até às 18 h 30, totalizando 6 encontros no semestre. Todos os encontros foram registrados por meio de um gravador de voz.

Os ciclos de pesquisa-ação que alicerçaram a organização do projeto foram: planejamento, ação, observação e reflexão (Alarcão, 2011). Relativamente ao planejamento este correspondeu ao primeiro encontro. Nele foi organizado o planejamento das ações seguintes do grupo. Dessa forma, os/as participantes, junto a coordenadora escolheram os temas de estudo dos próximos encontros do grupo constituído. Os temas escolhidos pelo grupo levaram em consideração a obra de Gallahue e Donnelly (2008), intitulada “Educação Física Desenvolvimentista para todas as crianças”. Com base no tempo em que o grupo manteria a sua formação, foram selecionados os seguintes capítulos do livro para estudo e discussão: capítulo 1 (Uma visão geral da Educação Física Desenvolvimentista), capítulo 3 (Aquisição de habilidades motoras), capítulo 5 (Aprendizagem Cognitiva), capítulo 6 (Crescimento Afetivo), capítulo 18 (Temas de Habilidade de Equilíbrio Fundamental), capítulo 19 (Temas de Habilidades Fundamentais locomotoras e não-locomotoras) e capítulo 20 (Temas de Habilidades Manipulativas Fundamentais). Ao mesmo tempo, nesse dia os participantes foram convidados a responderem às seguintes questões: quais são as suas percepções sobre os conteúdos da Educação Física na Educação Infantil e quais são os seus conhecimentos sobre a Abordagem Desenvolvimentista da Educação Física escolar.

  Em seguida, o cronograma dos próximos encontros foi organizado com o grupo, sendo três desses para estudo e aprofundamento teórico sobre a Abordagem Desenvolvimentista e a Educação Física na Educação Infantil, um para a elaboração e execução de brincadeiras planejadas para as crianças e um encontro final para avaliação do projeto.

  A próxima etapa, Ação e observação, correspondeu às leituras e discussões dos materiais acadêmicos selecionados no ciclo anterior.  Os/as participantes do grupo leram previamente os materiais combinados para cada encontro presencial e nas reuniões foi oportunizada uma roda de discussão sobre a temática abordada. No primeiro encontro dessa etapa, foram discutidos os capítulos 1 e 3 do livro de Gallahue e Donnely (2008), os quais oportunizaram ao grupo uma aproximação teórica com a abordagem discutida pelos autores e um entendimento de como pode se dar a aquisição das habilidades motoras na infância. No segundo encontro, o grupo discutiu sobre os capítulos 5 e 6. Nessas leituras o grupo pode entender que a abordagem desenvolvimentista, apesar de ter como principal objetivo a aquisição do movimento, não foca apenas no domínio motor da aprendizagem da criança, considerando, ao mesmo tempo, os domínios cognitivos e afetivos do aprendente. Já no terceiro encontro dessa etapa, o grupo aprofundou o estudo sobre os temas de habilidades motoras, compreendendo o que e quais são as habilidades fundamentais de equilíbrio, locomoção e manipulação próprias para se oportunizar para as crianças. A partir desse material escolhido pelo grupo para estudo, esses avaliaram de forma positiva as contribuições das leituras e discussões nos encontros do projeto para a resposta ao problema de investigação.

  Ao mesmo tempo, fez parte deste ciclo um encontro em que o objetivo foi a elaboração e apresentação de brincadeiras, tendo como base as categorias de movimento da Abordagem Desenvolvimentista (movimentos de equilíbrio, locomoção e manipulação) e a discussão sobre as brincadeiras planejadas. Os integrantes do projeto tiveram a tarefa de elaborar uma brincadeira, a qual deveria conter, no mínimo, uma das categorias de movimento da abordagem. A brincadeira foi elaborada anterior ao encontro de apresentação, como “tarefa de casa”. No dia do encontro de apresentação, os/as participantes apresentaram as brincadeiras elaboradas, as quais versaram em brincadeiras já existentes (como, variações do pega-pega) ou criadas a partir da criatividade do/a participante (estações de um circuito locomotor). Ao final desse encontro, os/as participantes avaliaram e escreveram como as brincadeiras planejadas se aproximam, a partir das suas percepções, dos interesses e necessidades das crianças da Educação Infantil (avaliação, essa, apresentada nos resultados deste estudo).

  A terceira etapa, Reflexão, foi constituída como o último encontro do grupo. Nele os participantes refletiram sobre as ações de planejamento e ação e observação, buscando identificar se ela foi capaz de responder ao problema que orientou as ações desta pesquisa.

  De maneira semelhante, buscou-se verificar as percepções finais (no projeto) dos/as participantes em relação as possíveis contribuições para a formação inicial ou continuada, no que tange a temática estudada.

Os dados produzidos nesta pesquisa foram analisados a partir da Análise Conteúdo (Bardin, 2011). Como primeiro procedimento, os encontros gravados foram transcritos. As transcrições de todos os encontros foram lidas repetidamente, selecionando  trechos ou falas completas dos/as participantes do estudo que representassem respostas aos objetivos desta investigação. Ao final dessa análise parcial, agrupou-se as falas/trechos selecionados, formando-se, assim, unidades de registro. Em seguida, as unidades de registro foram revisadas e agrupadas, conforme a proximidade de temáticas abordadas, em categorias, as quais são apresentadas a seguir na seção dos resultados e discussão.

 

Resultados e discussões

De acordo com a análise dos dados produzidos, foi possível criar três categorias as quais respondem aos objetivos desta pesquisa, sendo elas: percepções em relação aos conhecimentos da Educação Física na Educação Infantil; contribuições teóricas da abordagem desenvolvimentista; e, contribuições do projeto para a formação dos (futuros) professores.

No que tange a primeira categoria, percepções em relação aos conhecimentos da Educação Física na Educação Infantil, reuniu-se as falas dos/as participantes da pesquisa que expressam as suas percepções iniciais e finais ao projeto sobre o conhecimento da abordagem desenvolvimentista da Educação Física.

Em relação aos conhecimentos dos/as participantes sobre essa abordagem, notou-se que, no início do projeto, existiam três linhas de entendimento dessa teoria entre os/as participantes. Na primeira linha se observou participantes com desconhecimento dela, na segunda alguns participantes com um conhecimento limitado e na terceira linha participantes demonstrando conhecimento de fato da abordagem.

Os/as participantes que demarcam desconhecimentos são os/as acadêmicos/as do curso de Pedagogia (P1 e P6). Conformem expressaram:

 

“Meus conhecimentos sobre essa prática se limitam ao nome. A percepção que tenho pelo nome me faz acreditar que é uma prática que visa o desenvolvimento integral das crianças em suas capacidades físicas, psicológicas e sociais” (P1, resposta à pergunta do primeiro encontro).

 

“Sobre meu conhecimento da abordagem desenvolvimentista, não conheço nada sobre, mas acredito que tenha relação com o desenvolvimento das atividades direcionadas às crianças.”  (P6, resposta à pergunta do primeiro encontro).

O desconhecimento dos acadêmicos sobre essa abordagem teórica é, de certa forma, esperado uma vez que se trata de uma abordagem que surge no campo da Educação Física (Tani et al., 1988). No entanto, os conhecimentos limitados percebidos das acadêmicas de Educação Física, P2 e P7, acadêmicas demarcaram que essa abordagem também não é foi muito explorada no decorrer do curso de graduação que estão realizando.

Segundo P7, essa é uma abordagem que explora as habilidades motoras e afetivas por meio das brincadeiras, mas esquece que a abordagem sugere a melhora das habilidades cognitivas da criança. Para P2, apesar de já ter tido a oportunidade de estudar no início do curso sobre a abordagem, não lembra muito bem sobre ela.

 

“A abordagem desenvolvimentista da Educação Física tem a finalidade de proporcionar, por meio de brincadeiras, a exploração das habilidades afetivas e motoras” (P7, resposta à pergunta do primeiro encontro).

 

“Sobre a abordagem desenvolvimentista, trabalhamos alguns conceitos e conteúdos durante o curso, mais precisamente nos primeiros anos, como bem mais de uma abordagem, para nós em algum momento as ideias precisam ser revistas, não lembro exatamente da abordagem, mas como o nome remete a algo que vai trabalhando a exigência de alguns passos para se chegar a um objetivo na dinâmica de jogos e brincadeiras.” (P2, resposta à pergunta do primeiro encontro).

 

De forma contrária aos entendimentos anteriores, percebeu-se que P3 e P4 demonstraram ter conhecimentos suficientes sobre a abordagem no início das atividades do projeto:

 

“[...] aprender o movimento e através do movimento. Também, foca em habilidades motoras fundamentais, como por exemplo correr, pegar, arremessar, girar, rolar, entre várias coisas. Para agregar em um desenvolvimento completo, também visa objetivos perceptivo-motores e afetivos. Ademais, possui enfoque em habilidades motoras especializadas, para crianças acima de 8 anos.” (P3, resposta à pergunta do primeiro encontro).

 

“Graças ao Projeto Movimenta pude me aprofundar nos conhecimentos da abordagem desenvolvimentista, indo além daquilo que eu já havia estudado na disciplina curricular de Pedagogias da Educação Física no curso de graduação.  Com isso, poder pensar de maneira sistematizada as habilidades motoras e, com isso, planejar/elaborar brincadeiras e jogos tanto no projeto de extensão, como também no âmbito profissional, entendendo a importância de variar e progredir os diferentes movimentos que o corpo pode realizar e a possibilidades de aprender e desenvolver não só os aspectos motores, mas também cognitivos e afetivos através do movimento” (P4, resposta à pergunta 2 do primeiro encontro).

 

Dessa forma, observa-se que a Abordagem Desenvolvimentista da Educação Física, mesmo compondo o quadro das principais tendências pedagógicas que surgiram na Educação Física, a partir da década de 1980, para orientar a prática pedagógica na escola, parece não ser aprofundada nas disciplinas obrigatórias do curso de Licenciatura em Educação Física em questão (Tani, et al., 1988). Uma vez que, aqueles participantes que registraram conhecimento sobre, participam de um projeto de extensão em que o enfoque da atuação pedagógica tem como base essa abordagem. No que diz respeito aos estudantes de pedagogia, isso se deve, como os mesmos participantes falaram, à ausência de estudos sobre a temática no curso de graduação, assim como outros estudos apontam (Borre; Reverdito, 2009; Guirra; Prodócimo, 2010).

Ao final do projeto, momento em que foram avaliadas as aprendizagens construídas pelos/as participantes sobre a abordagem desenvolvimentista, percebem-se avanços, como no caso de P1 e P6, e manutenção nos entendimentos de P3 e P4.

De maneira geral, os/as participantes tomam consciência (P1, P3, P4 e P6), a partir do estudo da abordagem, dos conhecimentos que ela propõe a Educação Física tratar no espaço da Educação Infantil. Conforme P3:

 

“[...] a abordagem parece que vai muito pra além daquilo de simplesmente ser o brincar por brincar da Educação Infantil, chegar lá e ‘ah tá, são crianças, vamos levar brincadeiras’, a gente leva brincadeiras, mas tem um objetivo por trás, tem uma intenção” (P3, último encontro).

 

Sendo assim, infere-se que o projeto possibilitou a alguns/mas participantes aprofundarem os seus conhecimentos sobe a teoria da abordagem desenvolvimentista. Com isso, eles identificaram que os momentos de Educação Física para grupos de crianças da Educação Infantil podem ser organizados a partir de brincadeiras que explorem o domínio motor, perceptivo-motor e afetivo, conforme a abordagem apresenta (Gallahue; Donnelly, 2008; Gallhaue; Ozmun; Goodway, 2013). Tendo isso em vista, eles/as passam a entender que as brincadeiras, nessa etapa da educação, podem representar mais do que o momento livre da criança para se comunicar com o mundo, mas como um espaço de intervenção do/a professor/a com o objetivo de compartilhar conhecimentos com as crianças. (Mello et al, 2016; Borre; Reverdito, 2019; Dietrich; Araújo; Rocha, 2020).

Entretanto, ao serem questionados sobre as possíveis limitações que a abordagem possa apresentar, P3 e P4 citam que é desafiador articular esses três domínios defendidas pela abordagem, especialmente, o domínio afetivo. Conforme Gallahue Donnelly (2008), os/as professores/as desempenham um papel importante no desenvolvimento afetivo das crianças quando conseguem as encorajar e motivar para aprenderem os movimentos e através deles. Porém, de acordo com P3 e P4, mesmo que o momento da Educação Física com um grupo de crianças da Educação Infantil possa possuir um planejamento e direcionamento pedagógico, não se tem como prever as interações que irão ocorrer entre as crianças no momento das brincadeiras e as necessidades afetivas que serão disparadas na ocasião. Assim sendo, é necessário estar atento às manifestações infantis, organizando tempos, espaços e atividades voltadas para as crianças, considerando-as como possuidoras de necessidades e desejos característicos ao seu estatuto social (Mello et al., 2014).

Logo, salienta-se em relação a essa categoria que a maioria dos/as participantes, ao final do projeto, passam a concordar que os conhecimentos da Educação Física na Educação Infantil colaboram para o desenvolvimento das habilidades motoras das crianças, a partir do momento que, através das brincadeiras, é oportunizado uma gama maior de movimentos amplos. Da mesma maneira, as respostas do último encontro ressaltam que os/as participantes percebem que a abordagem desenvolvimentista contribui exponencialmente para o planejamento do(a) professor(a) no espaço da Educação Infantil no momento que apresenta quais os conhecimentos que devem ser tratados por essa área com as crianças.

Em referência a segunda categoria, contribuições teóricas da Abordagem Desenvolvimentista da Educação Física, buscou-se apresentar e analisar os relatos dos/as participantes da pesquisa no que tange possíveis contribuições dessa abordagem para a atuação do/a professor/a com os conhecimentos da Educação Física na Educação Infantil.

Com relação às contribuições teóricas, tratando das etapas do desenvolvimento das crianças, P5 citou que a utilização da abordagem proporciona um desenvolvimento da criança para além da dimensão motora, considerando, a criança como um ser integrado, entre domínio motor, perceptivo-motor e afetivo (Gallahue; Donnelly, 2008). Por exemplo, em seu relato, P5 destaca a importância de a abordagem estimular a confiança das crianças por meio do domínio afetivo:

 

“Nos primeiros capítulos do livro da abordagem fala bastante sobre trazer essa confiança, essa autoestima da criança [...] porque depois a criança vai chegar lá mais adiante - claro, não que a Educação Infantil tenha somente esse papel - mas por ela anteceder outras etapas depois, a gente vê que tem crianças que falta só um estímulo [...].” (P5, primeiro encontro)

 

Em concordância, P4 demarcou que a abordagem não considera somente o desenvolvimento motor das crianças sob uma óptica mecânica e biológica, evidenciando que é possível considerar igualmente questões socioculturais desses sujeitos, dando a devida importância para a bagagem construída pelas crianças e o contexto ao qual estão inseridas. As falas desses/as participantes corroboram com Gallahue e Donnely (2008), os quais destacam que as crianças são seres multifacetados, com amplo conhecimento prévio e que aprendem por meio da interação entre os diferentes domínios do ser humano.

Além das contribuições em relação às ações proporcionadas por meio da utilização da abordagem, os/as participantes ressaltaram o subsídio teórico que ela possibilita aos/às professores/as que atuam com essa faixa etária. A partir das falas dos/as participantes, evidencia-se a importância do/a professor/a saber o que promover em termos de conhecimentos para as crianças, como ressaltado na primeira categoria, quando os avanços nas concepções dos participantes foram evidenciados.

Nesse sentido, P4 ressaltou que o conhecimento da abordagem lhe permite a utilização e adaptação a outros âmbitos profissionais os quais trabalha com crianças para além dos grupos de crianças das escolas da rede básica de Educação Infantil, como ele ressaltou:

 

“[...] E com isso eu pude pensar até, [...] uma maneira sistematizada digamos, para elaborar [...] brincadeiras para as crianças, buscando esse desenvolvimento integral, buscando essa questão das habilidades motoras, das habilidades cognitivas e afetivas também da criança. [...] e eu levei, não só pra ali pro projeto de extensão, mas também [...] pro âmbito profissional, onde eu trabalho, uma escolinha de futebol, [...]” (P4, primeiro encontro).

 

Ao se dialogar com o relato supracitado, P1 contribui com relação a intencionalidade do(da) professor(a), quando traz que a partir dos estudos da abordagem, percebe-se a importância do pensar, primeiramente, os conhecimentos proporcionados pelas brincadeiras, para, posteriormente, realizá-las na escola. Fato que demonstra que a intencionalidade do/professor/ possibilita sentido e direcionamento a prática pedagógica, possibilitando às crianças vivenciarem diversas formas de movimento (Borre; Reverdito, 2019).

Em contrapartida, P1 ao citar o “brincar livre”, ressaltou que a falta de intencionalidade pedagógica é resultado de pouco ou nenhum conhecimento, por parte dos/as professores/as, em relação ao desenvolvimento das habilidades motoras, perceptivo-motoras e afetivas.

Em vista disso, considera-se que ao ter consciência sobre quais os conhecimentos oportunizar aos grupos de crianças, os/as professores/as qualificam a prática pedagógica oportunizada a essa. Observa-se, de acordo com Guirra e Prodócimo (2010), que a diferença entre as instituições escolares dos demais ambientes em que a criança convive e é cuidada, é a intencionalidade pedagógica com que as oportunidades de aprendizagem são projetadas. Dessa forma, oferecendo experiências com um propósito, os/as docentes possibilitam as crianças o contato com diferentes formas de experiências motoras afetivas, sociais, psicológicas e culturais, auxiliando-a no seu desenvolvimento e interação com os outro e ampliando as maneiras de participarem na construção da sociedade (Guirra; Prodócimo, 2010).

Por fim, na terceira categoria, contribuições do projeto para a formação dos (futuros/as) professores/as, são destacadas e analisadas as contribuições que a participação no grupo de pesquisa-ação oportunizou para os aprendizados para a docência com os conhecimentos da Educação Física na Educação Infantil.

De acordo com P3, a participação no projeto permitiu o reafirmar a importância da Educação Física na Educação Infantil, considerando-a imprescindível nesta etapa, especialmente por possibilitar a ampliação do repertório motor das crianças por meio das brincadeiras. Destaca-se a importância da compreensão de P3, uma vez que, de acordo com Guirra e Prodócimo (2010), os movimentos com o corpo que as crianças pequenas executam são o instrumento utilizado por elas para fazer a mediação delas com o meio exterior, pode-se considerar a sua forma de linguagem. Essa forma de linguagem, proporciona a criança a autonomia para atuar no meio em que vive, uma vez que, a partir das brincadeiras que envolvem o movimento do corpo, as crianças podem explorar as interações que estabelecem com os outros (pares e adultos), com os objetos e com o meio ambiente, conhecer os espaços, entender conceitos, acompanhar ritmos e músicas, entre outros (Soares; Prodócimo; De Marco, 2016).

No que tange a algumas percepções iniciais superadas ao final do projeto, P1, estudante do curso de pedagogia, ressaltou seu entendimento anterior de que o ambiente da Educação Infantil como um espaço sem movimento e voltado para momentos monótonos com as crianças. Porém, com a participação no projeto e as discussões que esse proporcionou, P1 parece mudar essa percepção, enxergando outras possibilidades, percebendo que não existe uma forma de se constituir a Educação Infantil e demonstrando mais segurança para atuar com essa etapa:

 

[...] pensar que a gente pode sim fazerter outras possibilidades de Educação Infantil que nem tu diz, não é uma Educação Infantil, são várias Educações Infantis, a gente tem várias possibilidades dentro disso. Me fez até ter outro olhar pra Educação Infantil assim, porque eu tinha muito medo, medo assim, era medo de Educação Infantil. (P1, 6º encontro)

 

A fala da acadêmica dialoga com o entendimento das DCNEI (Brasil, 2009) que não existe uma forma de ser criança ou uma única maneira de se organizar a Educação Infantil. Para essa diretriz a criança, é entendida como um sujeito histórico e com direitos próprios, capaz de construir a sua própria identidade. Logo, as interações e vivências proporcionadas no dia a dia de cada criança dão possibilidade para que ela possa, individual e coletivamente, criar sua personalidade e seu entendimento de mundo. As crianças, pertencentes a diferentes sociedades, são capazes de contribuir para a produção de cultura e sentidos a partir de suas brincadeiras, imaginação, fantasias, desejos, aprendizagens, observações e experimentações (Brasil, 2009).

Dito isso, é possível observar um avanço significativo dessa futura professora (P1) ao participar desta pesquisa-ação. Ressalta-se que, a pesquisa-ação é uma modalidade de pesquisa aplicada e, ao mesmo tempo, uma estratégia de formação de professores/as, a qual procura promover mudanças sociais no campo educativo (Sanches, 2005). Logo, é possível notar que P1 ao entender mais sobre o conceito de criança desmistifica o espaço da prática docente na Educação Infantil, trazendo mais segurança para atuar.

Resultados semelhantes foram encontrados em outras pesquisas em que a pesquisa-ação foi adotada para a solução de problemas da prática docente. Como resultados principais, esses estudos demonstram o potencial da pesquisa-ação para a tomada de consciência dos/as (futuros/as) professores sobre temas importantes para as experiências de ensino e aprendizagem em salas de aula, tornando-os mais seguros e com sentimento de segurança para atuar (Zellermayer; Ronn, 1999; Cadório; Veiga Simão, 2013; Avila, 2017)

Ademais, voltando o olhar para as contribuições na formação, P3 destaca como muito importante este espaço de estudo ofertado aos estudantes e professores acerca da Educação Física na Educação Infantil, pois é a partir dele que o participante relata que consegue elaborar e executar com mais qualidade os planejamentos de brincadeiras para as crianças.

Na mesma direção e ressaltando a importância de espaços nas instituições de ensino superior de formação entre os/as (futuros/as) professores/as, Oliveira, et al. (2023) ressaltam a potencialidade da troca de conhecimentos e experiências entre as áreas da Educação Física e Pedagogia na Educação Infantil.  De acordo com os autores, especialmente quando se fala sobre a presença dos conhecimentos da Educação Física na Educação Infantil, faz-se necessário a atuação conjunta entre essas duas áreas de forma a se complementarem e, consequentemente, proporcionarem experiências de aprendizagem com mais significado para as crianças.

Na mesma direção, P4 além de agradecer a oportunidade do estudo da Abordagem Desenvolvimentista, destacou a união dos cursos (Educação Física e Pedagogia) e a importância disso dentro da universidade. Uma vez que, no que tange um cenário ideal da prática docente na Educação Infantil, não se defende uma forma correta de atuar com os conhecimentos da Educação Física na Educação Infantil. Porém, é inegável a potencialidade das áreas envolvidas de forma conjunta, em prol do desenvolvimento integral da criança como um ser crítico e produtor de cultura (Oliveira, et al., 2023; Ferreira, et al., 2023).

Dessa forma, pode-se inferir que a participação nesta proposta de pesquisa-ação possibilitou aos/às (futuros/as) professores/as reverem percepções iniciais e, por meio do estudo e discussão com o grupo constituído para tal propósito, alterarem entendimentos construídos sobre a temática da Educação Física na Educação Infantil. Reforça-se, por consequência, os benefícios das propostas de pesquisa-ação para a formação docente, uma vez que essa estratégia de pesquisa e formação se caracteriza pela participação, ação, assim como, pela produção de conhecimento sobre a questão abordada (Thiollent, 1992).

 

Considerações Finais

Este estudo buscou, a partir da promoção da formação de um grupo de pesquisa-ação, identificar e analisar as contribuições e/ou limitações da Abordagem Desenvolvimentista da Educação Física para orientar os planejamentos de brincadeiras pelos/as professores/as para as crianças da Educação Infantil.

A partir da promoção de um projeto de extensão puderam compor esse grupo acadêmicos/as de graduação em Educação Física e Pedagogia e professores/as formados nos cursos mencionados. Considera-se que a diversificação no público que constituiu esta investigação trouxe resultados importantes na solução do problema a ser resolvido nos estudos e discussões do grupo.

Sendo assim, em relação aos conhecimentos dos/as participantes sobre a abordagem desenvolvimentista, percebe-se que o projeto conseguiu proporcionar aprendizagens significativas. No encontro inicial do projeto, observou-se que alguns/mas participantes tinham conhecimentos limitados no que concerne à abordagem. Porém, ao final do projeto, identificou-se que a maioria deles/as demonstrou entender o quanto essa pode auxiliar o professor a partir do esclarecimento de quais os conhecimentos a Educação Física podem contribuir para a aprendizagem e desenvolvimento das crianças na Educação Infantil.

No que tange o discutido e mencionado pelos/as participantes a respeito das contribuições da Abordagem Desenvolvimentista para a prática pedagógica do/a professor/a, o conhecimento teórico dessa pode permitir, por meio da utilização de brincadeiras e incentivo ao movimento, proporcionar às crianças seu desenvolvimento integral, para além do domínio motor. Ademais, os relatos evidenciaram que o domínio teórico da abordagem oportuniza à prática docente benefícios acerca da intencionalidade pedagógica, quando destacado a importância do/a professor/a planejar quais brincadeiras serão proporcionadas às crianças, incluindo-as de maneira coerente em seu planejamento.

Por fim, a partir da análise das contribuições do projeto para a formação dos/as (futuros/as) professores/as, infere-se que a pesquisa-ação proporcionou aos/às participantes estudarem e reverem percepções iniciais com o grupo. Nota-se esse avanço a partir dos entendimentos finais ao projeto demonstrado por alguns/mas participantes quando revelam mudanças de entendimento sobre as crianças e necessidade das áreas de Educação Física e Pedagogia atuarem de maneira conjunta em prol da qualidade das práticas docentes oferecidas na Educação Infantil.

Em suma, a partir dos resultados apresentados se defende nesta pesquisa que a Educação Física tem potencial para contribuir com uma educação de mais qualidade para as crianças. Porém, ressalta-se que a defesa aqui vai na direção da construção de trabalhos em parceria entre professores/as de Educação Física, pedagogia e outras áreas que constituem o currículo da Educação Infantil. Essa união de áreas poderá contribuir para a elaboração de propostas interdisciplinares a serem oferecidas para e construídas com as crianças, incentivando e promovendo o desenvolvimento integral delas.

Destaca-se que esse estudo apresenta limitações como a falta de oportunidade dos/as participantes em transferirem suas aprendizagens teóricas para momentos de prática de planejamento e execução de brincadeiras a partir do que relataram ter aprendido. Esse fato se deu pelo tempo curto em que o projeto de extensão foi promovido. Sendo assim, sugere-se que novas pesquisas, adotando a pesquisa-ação, sejam conduzidas com momentos de estudo, planejamento, execução e avaliação de brincadeiras pelos/as participantes de forma que se possa ter resultados mais conclusivos sobre percepções e aprendizagens dos/as (futuros/as) docentes.

 

Referências

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