Apresentação do dossiê temático
“Educação, Narrativa e Saúde em tempos de re-figurações”
Education, Narrative and Health in times of re-figurations
Educación, Narrativa y Salud en tiempos de re-figuraciones
Universidade do Estado da Bhaia, Salvador, BA, Brasil
esclementino@uol.com.br
Universidade Federal de Minas Gerais,Belo Horizonte, MG, Brasil
amalia.fae@gmail.com
Recebido em 24 de abril de 2023
Aprovado em 28 de abril de 2024
Publicado em 13 de maio de 2024
O dossiê busca aprofundar discussões e socializar estudos que articulam educação, narrativa e saúde (Souza, 2021, 2016; Souza e Souza, 2021; Souza e Delory-Mombeger, 2018), mediante processos de aprendizagens biográficas que os sujeitos constroem nas práticas cotidianas e como dispositvo de formação em educação e saúde, assim como questões de formação multipofissional em saúde, condições de trabalho e adoecimento docente. Neste sentido, este dossiê mobiliza apropriações teóricas da pesquisa (auto)biográfica como dimensão epistêmico-metodológica (Souza, 2014), através da diversidade de análise de narrativas em multiplos contextos. A noção de processos de aprendizagens biográficas e suas relações com as narrativas dos diferentes atores sociais, em uma perspectiva narrativo-biográfica, inscreve-se como terreno fértil para pensarmos processos de refiguração pessoal e profissional nos campos da saúde e da educação.
Outrossim, o presente dossiê resulta de uma pesquisa mais ampla, financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, intitulada Educação, narrativa e saúde: direito à vida e à educação em tempos de refigurações, ref. MCTI/CNPq nº 420371/2022-2, Chamada nº 40/2022 - Linha 3B - Projectos em Rede - Políticas públicas para o desenvolvimento humano e social (Pró-humanidades CNPq-Brasil), intentando indicar pistas para repensar políticas públicas de formação de profissionais de saúde, de políticas de alimentação escolar e, por fim, das condições de trabalho docente e saúde.
Os artigos que compõem o dossiê expressam, de alguma forma, o interesse na discussão de um dilema existencial que reflete a crise do antropoceno. A "crise do Antropoceno" refere-se à noção de que a atividade humana, especialmente a industrialização em larga escala e a exploração insustentável dos recursos naturais têm causado impactos significativos no sistema terrestre. Isso inclui mudanças climáticas, perda de biodiversidade, degradação do solo, poluição generalizada e outras consequências ambientais adversas. Todavia, essas consequências ligadas à crise climática estão profundamente entrelaçadas com a produção de outras desigualdades.
Pode-se dizer que os autores refletem sobre uma crise que tem implicações profundas para a sociedade, para a economia bem como para a governança global, levando a discussões sobre a necessidade de mudanças fundamentais nos padrões de consumo, produção e desenvolvimento. Isto quer dizer que só conseguiremos prospectar nosso futuro, se o nosso passado e o nosso presente estiverem também sob exame. Que futuro teremos se não reconhecermos que a chave para compreender a situação atual é que não existe mais um horizonte compartilhado? Para Latour (2020), essa constatação representa o fim de um certo arco histórico e, por isso, precisamos “aterrar” em algum lugar, reconfigurando o nosso modo de existir e re-existir. Para tanto, é urgente que desenhemos uma espécie de mapa das posições ditadas por essa nova paisagem na qual são definidos não apenas os afetos da vida pública, mas também as suas bases, pois a questão do clima, do meio ambiente, da educação e da alimentação como direito está diretamente ligada à questão das injustiças e das desigualdades.
É, pois, um tempo de re-figuração social. A re-figuração pode ser pensada como um conceito relacionado à narrativa e à forma como as histórias são reinterpretadas ou recontadas. Esse termo é também frequentemente utilizado em estudos literários e culturais, assim como em análises de narrativas em diferentes contextos sociais e históricos. A re-figuração pode ocorrer através de adaptações, releituras, remixagens ou outras formas de intervenção criativa na narrativa original.
Na prática, a re-figuração envolve a mudança na representação ou na compreensão de uma história ou de seus elementos, muitas vezes com o objetivo de dar a ela um novo significado ou perspectiva. É a partir desta chave interprertativa, a de prospectar um novo mapa de posições de nossas paisagens, que reunimos neste dossiê artigos que discorrem sobre o lugar da relação entre a Educação, a Narrativa e a Saúde em um cenário de re-figuração social.
Assim, o artigo intitulado Re-habitar a escola na era do antropoceno: contribuições da mesologia para um novo olhar sobre as condições de trabalho docente, de Valerin Melin (Universidade de Lille) e Carolina Kondratiuk (Gis – Le Sujet dans la Ciré-França), traça brevemente as origens e debates em torno da noção de antropoceno para afirmar a necessidade que esta noção convoca, no sentido de buscar outras maneiras de pensar a educação. O artigo discute as reconfigurações do espaço na contemporaneidade, em suas incidências sobre o espaço da escola para, por fim, propor o conceito de si mesológico. Tal conceito, oriundo da mesologia, revela ser uma potente ferramenta teórica para o enfrentamento da urgência de transformações profundas na relação consigo mesmo e com o outro, bem como ao mundo natural e social que se encontra no cerne dos desafios antropocênicos e de seus impactos no meio escolar, que pode ser re-habitado enquanto instituição de vínculos.
No mesmo sentido, o artigo intitulado Fazer ciência de forma diferente para um desenvolvimento humano e social saudável? Relato e análise de uma experiência, dos autores Martine Janner-Raimondi (Universidade Sorbonne Paris Nord-França), Sophie Arborio Universidade de Lorraine-França) e Bruno Hubert (Universidade de Lille-França), discute a necessidade de considerarmos outras relações do homem com a natureza, à medida que entramos no Antropoceno. Tal como Stengers (2023) e Latour (2020), os autores consideram que as relações entre os seres humanos e o mundo da vida deve ser refeita, para que possamos trabalhar juntos para encontrar um modus vivendi que seja viável para todos nós. Isso implica mudanças epistemológicas, metodológicas, éticas e políticas que reconheçam diferentes formas de verdade, entre o conhecimento médico nosográfico, por um lado, e, por outro, as aprendizagens singulares das pessoas que vivem com uma doença/incapacidade crônica, suas famílias e os cuidadores que as apoiam diariamente.
A forma como a sociedade moderna se relaciona com a natureza e com os recursos naturais tem gerado desequilíbrios ecológicos significativos, ameaçando a estabilidade dos sistemas naturais e a diversidade biológica. Stengers (2023) destaca as desigualdades globais que tornam algumas comunidades mais vulneráveis aos efeitos das mudanças climáticas e da degradação ambiental. É preciso, pois, reconfigurar a forma como os viventes se relacionam com o mundo, repensando a nossa relação com o planeta e com outras formas de vida, buscando alternativas que promovam a sustentabilidade e o respeito pela diversidade biológica.
Todavia, novas formas de reconexão com o mundo que habitamos somente serão possíveis se reconhecermos a necessidade de adotarmos práticas que levem em consideração o impacto de nossas ações sobre a vida na terra.
Pensar em uma nova política da vida, a partir de outras narrativas, é o que pretende igualmente o artigo O sujeito singular/plural na alta modernidade – narrativas de vida, identidade narrativa, educação continuada e desenvolvimento humano de Maria Helena Menna Barreto Abrahão, da Universidade Federal de Pelotas. O artigo, trabalhado em três tempos/narrativas, discute como estas narrativas se inserem na perspectiva das práticas geradoras de desenvolvimento humano e proporcionam aportes metacognitivos, via exercício da reflexividade autobiográfica praticada pelo sujeito da própria formação.
Sem ainda separar o liame entre educação, narrativa e saúde, o artigo intitulado Construção da identidade docente na saúde, de autoria de Alessandra Martins dos Reis (Universidade do Estado da Bahia) e Elizeu Clementino de Souza (Universidade do Estado da Bahia), discute a construção da identidade docente na pós-graduação em saúde, a partir das narrativas de sete educadoras de programa de Residência em Saúde na Bahia, no Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil, utilizando princípios da pesquisa (auto) biográfica e da pesquisa narrativa. A docência também é tema do artigo intitulado A inovação educacional entre o bem-estar e o mal-estar do professor: uma revisão sistemática da literatura, escrito por Diego Luna (Unviersidade de Sevilha), Conceição Leal da Costa (Universidade de Évora) e Maria Amália de A. Cunha (Universidade Federal de Minas Gerais). Nele, os autores discutem os desafios que se apresentam aos professores a partir de novos discursos educacionais e seus efeitos no trabalho docente e na sala de aula. Assim, a partir de uma revisão de literatura, os autores nos convidam a rever causas e concepções do bem-estar docente e as relações estabelecidas com a inovação em educação. Também tendo o professor como objeto central, o artigo Saúde docente no contexto das escolas rurais: o que apontam os professores?, escrito por Michael Dian Pacheco Ramos (Universidade do Estado da Bahia) e José Antonio Serrano Castañeda (Universidade Pedagógica Nacional – México), analisa a saúde dos docentes de escolas rurais do Território de Identidade do Piemonte da Diamantina-Bahia, considerando as transformações oriundas das recentes reformas educacionais, as políticas de globalização e as condições de trabalho. A pesquisa empreendida pelos autores apontou o quanto as condições muitas vezes extenuantes de trabalho vivenciadas pelos professores têm contribuído para aumentar as taxas de afastamento das atividades, embora haja ainda um número significativo de docentes que continuam trabalhando adoecidos.
Seja no campo ou na cidade, o neoliberalismo trouxe impactos significativos sobre o trabalho docente em diversas partes do mundo. Com a ênfase na privatização, na competição e na busca por eficiência, as políticas neoliberais muitas vezes resultaram em cortes de financiamento para a educação pública, aumento da carga de trabalho para os professores, diminuição de salários e precarização das condições de trabalho.
Além disso, o neoliberalismo frequentemente promoveu a ideia de que a educação deve ser vista como um serviço a ser consumido, o que pode afetar a autonomia dos professores e a qualidade do ensino.
Os impactos do neoliberalismo sobre o trabalho docente têm sido objeto de debate e resistência por parte de educadores e sindicatos ao redor do mundo. Esta espécie de nova ordem, ou "nova razão do mundo", expressão cunhada por Dardot e Laval (2016) para descrever a lógica do neoliberalismo e suas implicações em diferentes aspectos da sociedade, como o clima, a economia, a política, a educação etc., representa uma mudança na forma como as relações sociais, políticas e econômicas são compreendidas e organizadas. Ela enfatiza a competição, o individualismo, a busca pelo lucro e a privatização de setores antes considerados como bens comuns, como a educação e a saúde.
Os artigos aqui coligidos evidenciam que aquilo que está por traz desta nova razão, não é apenas uma política econômica, mas sim algo que busca redefinir as relações sociais e a própria noção de coletividade. Ao utilizar essa expressão, Dardot e Laval (2016) destacam a abrangência e a profundidade das transformações promovidas pelo neoliberalismo na sociedade contemporânea.
O artigo intitulado A potência educativa do saber e do comer na escola: interfaces entre os direitos à educação e à alimentação, escrito por Ligia Amparo da Silva Santos (Universidade Federal da Bahia), Micheli Dantas Soares (Universidade Federal da Bahia) e Edleuza Oliveira Silva (Universidade Federal do Recôncavo da Bahia) problematiza a potência educativa do comer na escola e os desafios de sua conjunção com o direito à escola, partindo, de um lado, do pressuposto da indivisibilidade dos direitos humanos e, de outro, das possibilidades de sua materialização em convergência com a humanização dos saberes sobre alimentação e das práticas do comer na escola na direção da garantia da dignidade humana e da promoção da justiça social e escolar.
Por fim, o artigo Medicalização Infantil no Contexto Escolar: implicações no processo de cuidar e educar, dos autores Clarívia Fontana Possamai, Lara Beatriz Fuck e Fábio Macado Pinto, aborda uma certa “naturalização” de uma tendência à medicalização na educação formal, fenômeno que frequentemente transforma situações de dificuldades escolares com origem pedagógica ou social em condições patológicas. Assim, os autores propõem, como possibilidade de superação deste discurso, uma discussão a partir da psicologia sócio-histórica, que entende que o indivíduo se constrói em processos relacionais e enfatiza a importância de se compreender a criança, as atividades e o ambiente escolar de forma interdisciplinar, antes de optar por um diagnóstico patológico. Desta sorte, todos os artigos aqui enlencados, de uma forma ou de outra, sugerem um deslocamento do olhar para outras paisagens. A compreensão de novas paisagens somente será possível, segundo Latour (2020), se tivermos consciência de que entramos em um novo regime climático e que este não opera em um vazio sociológico. O clima é apenas parte de uma nova razão de mundo e somente ela é capaz de explicar, em parte, a explosão das desigualdades, o crescimento das desregulamentações, a globalização e a precarização dos servições públicos.
Re-figurar novas paisagens exige que compreendamos como são redefinidos não apenas os afetos da vida pública, mas também as suas bases (Latour, p.i). Colocar as paisagens em escrutínio nos ajuda a refletir de que forma pesam sobre nós os efeitos do desmantelamento de um Estado mínimo e a progressiva investida neoliberal, bem como a extensão vertiginosa das desigualdades.
Assim, os artigos contidos neste dossiê tematizam os efeitos de uma crise ampla que nos convoca a mudar a paisagem que vem sendo desenhada se quisermos prospectar um horizonte compartilhado. Os aspectos relacionais e subjetivos que permeiam as interações, decisões e dinâmicas dentro do espaço público e político surgem amalgamados às dinâmicas das urgências climáticas, educacionais, do trabalho, da educação e da saúde, re-figurando a necessidade de novos valores, crenças e relações humanas nas esferas da governança e das questões públicas.
Referências
DARDOT, Pierre e LAVAL, Christian. A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Boitempo Editorial, 2016.
LATOUR, Bruno. Onde aterrar? Como se orientar politicamente no antropoceno. Rio de Janeiro: Editora Bazar do Tempo, 2020.
STENGERS, Isabelle. Uma outra ciência é possível: manifesto por uma desaceleração nas ciências. Rio de Janeiro: Editora Bazar do tempo, 2023.
SOUZA, Elizeu Clementino de. Diálogos cruzados sobre pesquisa (auto)biográfica: análise compreensiva-interpretativa e política de sentido, Revista Educação, Santa Maria, v. 39, n. 1, p. 39-50, jan./abr., 2014. Disponível em: https://periodicos.ufsm.br/reveducacao/article/view/11344 Acesso em: 26 ago. 2018.
SOUZA, Elizeu Clementino de. Existir para resistir: (auto)biografia, narrativas e aprendizagens com a doença. Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 25, n. 46, p. 59-74, mai./ago. 2016. Disponível em: http://educa.fcc.org.br/pdf/faeeba/v25n46/0104-7043-faeeba-25-46-00059.pdf. Acesso em: 1º ago. 2022.
SOUZA, Elizeu Clementino de. O que será o amanhã?? Narrativas, pandemia e interfaces vida-morte. Espacios en Blanco (online), v. 2, p. 351-364, 2021. Disponível em: https://www.redalyc.org/journal/3845/384566614003/html/. Acesso em: 22 nov. 2022.
SOUZA, Elizeu Clementino de; SOUSA, Rosiane Costa de. Pesquisa (auto) biográfica, educação e saúde docente: escritas de formação e refiguração identitária. Cadernos CERU, [s. l.], v. 32, n. 1, p. 99-126, 2021. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/ceru/article/view/189276. Acesso em: 15 ago. 2022.
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