From pandemics to pandemoniums: illness, healing, redemption from a black and feminist Latin American spirituality
De pandemias a pandemonios: enfermedad, curación, redención desde una espiritualidad negra y feminista latino-americana
Universidad Santo Tomás, Bogotá, Colômbia
maricelmena@usantotomas.edu.co
Recebido em 16 de abril de 2024
Aprovado em 21 de abril de 2024
Publicado em 17 de outubro de 2024
RESUMO
Partindo de uma aproximação contextual a situação de doença, violência e feminicídios agravadas após a pandemia da COVID 19 contra as mulheres, a autora analisa a ligação existente entre religião e saúde, cura e redenção com a finalidade de oferecer algumas pautas éticas na superação de pandemônios sociais, religiosos e culturais atuais que afetam principalmente a vida e a saúde das mulheres negras. Aproxima-se às categorias saúde, cura e redenção desde a tradição judaica e cristã na sua interseccionalidade com a espiritualidade negra e feminista. E a partir do conceito de inter-revelação vital acode as tradições ancestrais afro diaspóricas Bantu, Yoruba e afro-colombianas, resgatado a importância da terra e das plantas nesse processo de reestabelecimento da cura pessoal, comunitária e eco ambiental. Apela a uma espiritualidade negra e feminista de redenção de corpos doentes, estigmatizados, mutilados e fragmentados. Resgata o corpo como plenitude de vida, de transcendência e de experiências vitais que desafiam a episteme filosófica ocidental a uma nova aprendizagem a partir de saberes historicamente subalternizados.
Palavras-chave: Saúde; Cura; Redenção; Espiritualidade; Saberes Afro-Diaspóricos; Hermenêutica negra; Feminismo.
ABSTRACT
Starting from a contextual approach to the situation of disease, violence and feminicide aggravated after the COVID-19 pandemic against women, the author analyzes the link between religion and health, healing and redemption in order to offer some ethical guidelines to overcome the current social, religious and cultural pandemics that affect the life and health of black women in particular. It approaches the categories of health, healing and redemption from the Jewish and Christian traditions in their intersectionality with Black and feminist spirituality. Based on the concept of vital interrevelation, it draws on Afrodiasporic Bantu, Yoruba and Afro-Colombian ancestral traditions, emphasizing the importance of the earth and plants in this process of restoring personal, communal and eco-environmental healing. It appeals to a black and feminist spirituality of redemption of sick, stigmatized, mutilated and fragmented bodies. It rescues the body as fullness of life, of transcendence, of vital experiences that challenge the western philosophical episteme towards a new learning based on historically subalternized knowledge.
Keywords: Feminist theology; Body; Territory; Memory and spirituality.
RESUMEN
Partiendo de un enfoque contextual de la situación de enfermedad, violencia y feminicidio agravada tras la pandemia de COVID-19 contra las mujeres, la autora analiza el vínculo existente entre religión y salud, sanación y redención con el fin de ofrecer algunas pautas éticas para superar los actuales pandemonios sociales, religiosas y culturales que afectan la vida y la salud de las mujeres negras en particular. Aborda las categorías de salud, sanación y redención desde la tradición judaico-cristiana en su interseccionalidad con la espiritualidad negra y feminista. Basándose en el concepto de interrevelación vital, acude a las tradiciones ancestrales afrodiaspóricas bantú, yoruba y afrocolombiana, haciendo hincapié en la importancia de la tierra y las plantas en este proceso de restablecimiento de la sanación personal, comunitaria y ecoambiental. Apela a una espiritualidad negra y feminista de redención de los cuerpos enfermos, estigmatizados, mutilados y fragmentados. Rescata el cuerpo como plenitud de vida, de trascendencia, de experiencias vitales que desafían la episteme filosófica occidental hacia un nuevo aprendizaje basado en conocimientos históricamente subalternizados.
Palabras clave: Teología feminista; Cuerpo; Territorio; Memoria y espiritualidad.
Introdução
A nível latino-americano e caribenho, a violência contra mulheres e meninas disparou-se perante a pandemia do coronavírus e após dela. Os registros de feminicídios, violações e estupros nos espaços privados e fora deles continuam somando vítimas ainda hoje depois de três anos do fim do confinamento. As áreas do Pacífico e Atlântico colombiano perante a pandemia apresentaram o maior número desses feminicídios e, claro, as faces visíveis dessas mortes foram as de mulheres negras, indígenas e mestiças dos setores populares das principais cidades como Cali, Cartagena e Barranquilla.
A pandemia além de globalizar a doença, acelerou as lacunas da exclusão, demonstrando que as fronteiras sociais, étnicas, culturais e de gênero, de ontem continuam ainda hoje com uma maior dose de perversidade. Um exemplo disso percebesse nas cifras estadísticas colombianas, segundo a Conselheira da Equidade da Mulher até agosto do 2020 se registraram 115 casos de feminicídios (Nación, 2021) esse número foi triplicado somente do 01 de janeiro ao 03 de julho do 2023 cujo número de vítimas é de 320 casos (Radio Nacional, 2023). Este fenômeno que perante a pandemia estava majoritariamente localizado nas regiões costeiras hoje se estende por todo o território nacional, sendo as regiões de Antioquia e do Vale do Cauca as que que registraram as cifras mais altas em 2023.
A pandemia globalizou não somente a doença, senão também os pandemônios sociais e estruturais, foi um caldo de cultivo para sacar a luz todos os ódios encrustados na alma. Assim, não são apenas os pobres do Terceiro Mundo os que sofrem ainda hoje os efeitos da fome, dos precários serviços de saúde, mas também as chamadas “minorias étnicas”: as mulheres, os movimentos sociais, as comunidades LGTBQIA+, as potencias mundiais, como Rússia e Israel e sobre tudo, seus vizinhos ou colonos os que sofrem hoje os efeitos das guerras, dos feminicídios, dos assassinatos de líderes sociais, dos estigmas e genocídios. Assistimos espantados as duas guerras genocidas atuais, sem que os entes internacionais possam fazer algo e muito menos os gritos, os discursos, as orações das comunidades ao redor do mundo.
A globalização não se limita então, a um modelo económico global, mas afeta a saúde, a cultura, a religião e a geopolítica. Ela ataca modelos culturais contextuais que são essenciais, tais como: a ancestralidade, a natureza e o ser humano como um ser integral e integrado. A globalização utilizou a categoria da identidade, mostrando as identidades híbridas e o discurso do multiculturalismo, falsificando a questão da identidade a qual em muitas ocasiões raia com os fanatismos (Priego, 2018) e tirando da nossa atenção as macro-destruições com repercussões económicas em todo o ecossistema e nas pessoas.
Esta situação evidencia o déficit dos sistemas de saúde locais e globais, cujos efeitos se sente hoje com maior veemência. Os motivos vão desde a insuficiência de recursos para o setor saúde dos estados, a falta de insumos e tecnologias, o aumento das doenças crónicas que não existiam antes da pandemia, o desequilíbrio entre o número de afiliados ou beneficiários do setor saúde e o dinheiro necessário para o atendimento de cada paciente, até o atraso dos pagamentos dos funcionários do governo (Suárez, 2017).
Diante dessas constatações até parece impossível sair dos colonialismos antigos e modernos que matam mulheres e povos sob uma premissa da soberania territorial que muitas vezes está amparada abaixo a linguagem religiosa. Nos podemos repensar fora desse modelo neoliberal para uma nova era pós-pandemia? E quais desafios epistemológicos se apresentam desde a espiritualidade negra e feminista latino-americana nos âmbitos da saúde integral das mulheres e dos ecossistemas para uma mística de justiça e paz? Estas perguntas serão abordadas neste estudo centrada na análise da doença, da cura e da espiritualidade das mulheres afro-diaspóricas na sua interseccionalidade com os feminismos críticos.
Para o desenvolvimento dos argumentos num primeiro momento se analisa as relações existentes entre a doença, a cura e a redenção desde a tradição religiosa cristã na sua interseccionalidade com a espiritualidade negra e feminista. Num segundo momento, o item “inter-revelação vital afrodiaspórica para uma mística de justiça e paz” tem como finalidade descrever a importância do prefixo “inter” numa relação dialógica entre espiritualidades diversas. A partir de ali os três seguintes itens tem por objetivo apresentar a experiencia de cura e cuidado desde as culturas Bantú, Yorubá e desde das comunidades do pacífico colombiano, resgatando a importância da terra e das plantas nesse processo de reestablecimento da cura pessoal, comunitária e eco-ambiental. Finalmente, à guisa de conclusão se plantea pautas éticas na superação de pandemônios sócio-religiosos atuais as que poderiam se integrar num prograda de educação e inclusão, já que o reconhecimento de saberes das comunidades historicamente subalternizadas podem ajudar a saír dos limites de uma educação monocultural e estandardizada e dos preconceitos sociais em torno das práticas religiosas das afro-americas. (Nawroski, 2024).
Religião doença, cura e redenção
Existe uma ligação estreita entre religião e doença, cura e redenção. Os processos de cura dos estigmas por doença e morte começam com a autopercepção da necessidade de uma fonte externa que proporcione a cura e a restauração, ou seja, da necessidade de salvar, libertar ou resgatar a alguém de um castigo. Essa experiência pessoal e social de redenção deve convidar-nos à prática da solidariedade plena com as mulheres marginalizadas e estigmatizadas. É nesse momento que devemos estar alertas como cristãs, pois não podemos continuar sendo espectadoras passivas dos diversos males que temos à escala global como: a escravatura, as guerras fratricidas, as múltiplas violências contra as mulheres (que hoje, mais do que nunca, vêm à tona como sequelas da experiencia de confinamento perante a Covid 19 e mais recentemente perante o contexto das duas guerras fraticidas). A questão da saúde do corpo da mulher deve ser tratada de forma não individualista, não podendo mais ser entendida como um problema privado e íntimo, visto que sua saúde constitui um bem comum e portanto abrange contextos sociais e emocionais mais amplos.
Muitos dos fantasmas que cercam a vida das mulheres vêm de pressupostos religiosos. A religião é uma das maiores promotoras da submissão das mulheres e até mesmo da falta de atenção precoce às doenças e abusos intrafamiliares, já que utiliza a justificativa que a oração por si só é suficiente. Nesse sentido, evocamos uma espiritualidade negra e feminista capaz de nos transformar por dentro e a partir da qual é possível imaginar um novo mundo. Por isso, quando falamos de espiritualidade, não falamos apenas em termos religiosos, mas como instrumento político de transformação. Em que o autocuidado e o atendimento preventivo sejam parte das bandeiras dos movimentos populares, religiosos e terapêuticos onde nos movimentamos.
Hoje mais do que nunca em tempos de crise global, a compreensão da saúde como um direito nos remete ao resgate da importância da cura e da redenção de nossos corpos doentes, mutilados e fragmentados. Doença, sofrimento, exclusividade, exclusões e morte levam a perguntas como essas: Por que isso está acontecendo comigo? O que eu fiz de errado? Quem é responsável? Por que Deus permite isso?”. Diante das doenças individuais e sociais as pessoas buscam primeiro a cura de suas angústias antes que a cura de seus próprios corpos. Por esse motivo, a religião desempenha um papel importante na conquista do bem-estar integral das pessoas, mas não de uma perspectiva utilitarista, maniqueísta e sobrenatural.
A espiritualidade negra e feminista está em uma relação de interdependência com o que chamamos de cura. A cura individual ou autocura refere-se às concepções e sentimentos que adquiro em relação a mim mesma. Essa cura individual é realizada em "confluência com a família, o social, o cultural, o étnico, o religioso, o profissional, etc., com a cadeia de transmissão e constituição biológica" (Robayo, 2008, p. 4). Por sua vez, a cura também é, em si mesma, um veículo de transmissão intergeracional tanto étnica quanto ancestral.
Assim, ao falar de uma cultura do autocuidado, “não podemos continuar entre o dilema de assumir o masculino como nosso ou de assumir o feminino como superior. Temos que acabar com a dicotomia homem / mulher, promovendo atitudes e valores verdadeiramente inclusivos” (Facio, 2003, p.3). Sendo o direito à saúde um imperativo para todas as pessoas, nesta ordem de ideias acreditamos que o retorno a nossas raízes ancestrais desde os saberes de África e da sua diáspora podem nos ajudar na interconexão vital com a diversidade e possivelmente a propor uma mística de justiça e paz redentora com a corporeidade feminina e o planeta.
Inter-revelação vital afrodiaspórica para uma mística de justiça e paz
Com o objetivo de levar mais a sério a vida e as aspirações religiosas das mulheres, a hermenêutica negra e feminista tem-se aproximado das tradições ancestrais. A questão da mulher nas religiões de matrizes africanas é bastante desafiante para as mulheres cristãs de ascendência africana. Desafiadora pelo fato de termos aprendido desde a infância que estas religiões só praticam o mal, mas então, como é que uma religião demoníaca para a minha tradição pode contribuir para uma mística de justiça e paz entre diferentes tradições religiosas?
O conceito de inter-revelação tem como objetivo descrever a inter-relação entre duas ou mais manifestações religiosas e/ou espirituais de forma sinérgica e horizontal. Pressupõe que nenhum dos pressupostos religiosos da revelação seja colocado acima do outro. Esta condição favorece a aprendizagem mútua, a integração, a convivência harmoniosa, o reconhecimento e o respeito pelos saberes ancestrais. Nesse sentido, o sopro vital que se manifesta na diversidade religiosa e cultural será o fio condutor desse trabalho que tem como único objetivo oferecer-nos um caminho para descobrir a bondade e a beleza da diversidade da vida para uma mística de justiça e paz.
Assim, o ser, a vida, a inter-relação e a integralidade são palavras-chave para o cristianismo na era da globalização de feminicídios, genocídios e ecocídios a escala global. Estas categorias remetem-nos precisamente para as frentes onde se travam os conflitos políticos, sociais e culturais do mundo atual. Perceber e articular o sofrimento das pessoas e do planeta é a condição necessária para qualquer futura política de paz e para todas as formas de integração social com vista a reduzir cada vez mais as inequidades entre ricos e pobres e entre estes e a natureza.
A morte da natureza estáno centro da ameaça à sobrevivência. Em “nome do progresso”, a destruição das florestas, da água e da terra estamos a perder os sistemas dos que depende a vida. Neste modelo neoliberal, à medida que o mercado se expande, as fronteiras sociais e geográficas estão cada vez mais fechadas. Como afirma Wandana Shiva, "deve haver algo de muito errado com um conceito de progresso que ameaça a sobrevivência" (1988, p. 21).
Quando falo de espiritualidade negra e feminista, me refiro a um re-encantamento do mundo que tem em conta formas de conhecimento alternativas para um futuro ecologicamente mais equilibrado. Por conseguinte, não estou a referindo a uma denominação eclesial específica, pois estou ciente de que as espiritualidades da diáspora africana se movimentam entre diversos universos ancestrais do candomblé, santeira, budú, lumbalú, católico, protestante, pentecostal, juntamente com ameríndios, muçulmanos, judeus e outros (Thornton, 2012). No meio desta pluralidade religiosa, estamos unidos por um passado comum e um desejo de reconstrução social da realidade.
A espiritualidade da diáspora negra é entendida como uma forma de ser e de viver. É É um eu interior, chamado espírito ou Axé, uma força vital, um poder gerador de vida, que nos convida a assumir uma postura ética perante a vida e os ecossistemas. A diáspora gestou na sua história de resistência, a herança, os costumes de diferentes culturas africanas, incluindo a Yorubá e a Bantu , na música, na poética, na tradição oral o respeito pela natureza e pela humanidade (Megnifer, 2010).
Para as culturas africanas, Yorubá e Bantu prejudicar o ambiente é se prejudicar a si próprio, assim mesmo, cuidar da terra é cuidar dos nossos irmãos e irmãs, e dos nossos filhos, a ética é fundamental em relação ao desenvolvimento e proteção da vida a partir do cuidado da natureza (Megnifer, 2010). O prefixo “inter” que está na revelação, conexão e dependência nos possibilita pensar o mundo desde outras lógicas, nos invita a exercer um lugar de enunciação como um “eu-nos” ou “um-multiplo” da cosmovisão africana Ubuntu a partir do que algumas feministas negras como Bell Hooks, 2015 ou Audré Lorde, 2003 chamaram de margens. Desde essas margens é possível ouvir a voz daquelas que historicamente foram privadas do grito, da voz e do dizer. Neste caso, o lugar de enunciação é assumido, à maneira de Djamila Ribeir, como o espaço de legitimação das produções intelectuais orais, escritas e as práticas das mulheres afro-diaspóricas, como via de desestabilização das verdades literárias e poéticas, partindo, como faz Ribeiro, da "equação: quem possui privilégio social, possui privilégio epistémico, uma vez que o modelo valorizado e universal de ciência é o branco" (2020, p. 31). Isto também se reflete no campo das tradições orais e míticas e no cânone hegemónico de escrita eurocêntrica que tem colonizado o ensino, a academia e a investigação, entendendo-se que só há determinados temas, metodologias e formas de abordar problemas e escrever cientificamente correto (Balanta, 2023).
Neste sentido, integrar saberes e práticas de África e sua diáspora pode trazer novas aprendizagens para nós. Pensar numa mística de justiça e paz desde as corpas de mulheres, que hoje clamam por sua vida e sua saúde integral.
Mulheres, doença e cura entre os Bantus de Moçambique
A concepção de doença e cura entre os bargwhes de Moçambique, pode ter semelhanças com outros contextos da África e sua diáspora. Não se pode falar de doença e cura prescindindo do paradoxo que envolve sua concepção do ser humano, o qual é visto como um ser finito e infinito ao mesmo tempo. Finito num tempo espaço temporal limitado e infinito enquanto a continuidade infinita com os ancestres ou antepassados protetores da comunidade presentes nas arvores. Nesta visão de mundo os mortos continuam sendo parte da família, mais numa dimensão diferente. Eles estão ali para ajudar aos humanos a viver uma espiritualidade e uma ética entre humanos e a natureza, de modo que isto garanta o acesso a imortalidade ancestral. Neste sentido, o ser humano tem um corpo, um sopro vital e uma sombra dada pela natureza. “Os bargwhes vivem de tal sorte que essa interação, a força vital, não fica enfraquecida. O enfraquecimento dela produz doença e morte” (Capossa, 2004, p. 70).
Os bargwhes também acreditam que nas doenças há uma certa pedagogia corretiva divina. A finalidade não é enfraquecer, mas fortalecer o que a transgressão pode provocar. Quando esses espíritos do além notam que os humanos se esquecem do essencial, manda-lhes alguma doença. O doente procura curar sua enfermidade. Com uma curandeira. E a curandeira diz que a doença está aí porque a família ou a pessoa enferma não foi fiel a sua tradição. A pessoa enferma não fará outra coisa a não ser procurar restabelecer a comunhão com os antepassados procurando observar fielmente o que manda a tradição. (Caposa, 2004)
As mulheres também se envolvem no processo de cura como protagonistas, como curandeiras (Maia, 2012). Aliás, elas são ligadas à cura, “não só porque concebem a vida e a levam dentro de si, mas também porque a cuidam, a alimentam com o seu próprio corpo e a fazem autônoma” (Capossa, 2004, p. 73).
O processo de cura não está destituído do caráter espiritual, religioso e da invocação aos espíritos protetores, ou seja, dos parceiros invisíveis. Quando uma pessoa adoece e vai se tratar junto a uma curandeira, esta, para além de diagnosticar a doença e a sua causa mediante o processo de transe que é uma das formas de comunicação com o espírito que a ilumina no seu trabalho, exorciza todo o corpo do paciente enquanto pronuncia palavras de autoridade contra a doença e palavras de expulsão do feitiço que poderia ser a causa do sofrimento da pessoa doente (Capossa, 2004, p. 73).
A profissão de curar é basicamente do domínio das mulheres há todo um conjunto de sabedoria que se transmite de mãe para a filha. Em cada povoado há também mulheres mais sábias que transmitem alguns segredos. Por isso, tantas vezes na história os homens tiveram medo da capacidade das mulheres em matéria de saúde, vida ou de morte. As mulheres têm sim um dom especial: sabem lidar com a morte. Deve ser talvez essa capacidade de saber lidar com a vida e com a morte que a história testemunha o trato bárbaro feito às mulheres. La caça às bruxas durou séculos, pois os homens, vendo a maneira com que as mulheres sabiam usar os poderes, tanto dos remédios como as forças sobrenaturais, sempre temeram que usassem esses conhecimentos para matá-los. (Vesga, 2012).
Como se observa, os cuidados tem sido uma garantia da supervivência humana e consequentemente para todas as espécies incluindo os animais, as plantas e incluso os espíritos protetores da comunidade. As curandeiras foram conhecedoras das plantas e seus benefícios para a cura de doenças físicas e espirituais. Para elas, o êxito do bem-estar concentrava-se em todas as atividades da vida que favoreciam o cuidado do corpo e da alma mediante rituais ou normas de comportamento para alcançar o equilíbrio, o bem-estar e a preservação da espécie. (Vesga, 2012).
Não obstante, desde a Idade Média com a declaração do cristianismo como religião do estado. O cuidado do corpo ficou baixo a lente da inquisição quem baixo a premissa de que este é a prisão da alma, porém algo pecaminoso, especialmente o corpo das mulheres foi considerado imoral. Como forma de condenação as mulheres foram catalogadas como bruxas, feiticeiras e demoníacas, foi tirado de estas seu poder sobre a preservação da natureza humana. Durante o período colonial, esta ideologia do corpo feminino foi reforçada com relação as mulheres indígenas e negras que ainda hoje carregam com estes estereótipos. Possivelmente, desde uma mirada coletiva, holística, relacional e espiritual a lição que podemos trazer para os dias de hoje é o reconhecimento da sabedoria de estas sabias curandeiras.
Mito de Ossaim sobre as curas entre os Yorubás
"Quando Obatala distribuiu os domínios da terra entre os orixás (santos), Ossaim, escolheu as plantas, que passou a estudar e conhecer profundamente. Aprendeu que elas são o segredo da cura e da vida. Um dia Xangó ordenou que Yansá, com seus ventos, soprasse as folhas para seu palácio, para que todos pudessem ter poderes como os de Ossaim. Yansá fez o que Xangó pediu, gerando um vendaval, que soprou todas as folhas para o palácio de Xangó. Ossaim, percebendo o que estava acontecendo, chamou as folhas de volta para a floresta com suas palavras mágicas. E as folhas obedeceram. As poucas que haviam entrado no palácio de Xangó perderam seu axé (força vital). Ossaim, para evitar a inveja dos Orixás, deu uma folha para cada um e ensinou-lhes o segredo delas e de seus poderes, sem os quais as folhas não funcionam”[1]
Neste mito da tradição Yorubá vemos um exemplo daquilo que pode causar o desequilíbrio nas relações humanas e com a natureza. Ossaim é o grande médico que tem o poder sobre a cura das pessoas ao possuir o dom das plantas medicinais. Éaquele que tem o dom sobre a cura, a saúde e a proteção. Esses dons causaram inveja em Xangó, o deus do fogo e do trovão, símbolo da justiça, mas também representa a teimosia, a rebelião e a violência, além dos dons que já possui quer se apoderar dos domínios de Ossaim e acue a Iansã, senhora dos ventos e das tempestades, sua conjuguê.
O desequilíbrio causado nas relações pela ambição, inveja e o poder somente é restaurado quando as folhas voltam para a natureza, porém aquelas que ficaram no palácio de Xangô perderam sua força vital. O segredo das folhas e seu poder foram transmitidos aos outros orixás. Assim como muitos dos seus segredos foram tomados pelos médicos ocidentais, aqueles que hoje tem o poder de curar sem dar o reconhecimento as curandeiras tradicionais. Vemos como o oficio da medicina passou a ser um ofício dos homens e para executar aquelas funções próprias do cuidado as mulheres adquiriram o rol de enfermeiras. Hoje assistimos aos monopólios do setor saúde do qual a maioria dos pobres não contam com condições ótimas para seus cuidados devido a precariedade deste setor nos dias atuais. O aprendizado que podemos tirar deste mito é que os segredos e benefícios da medicina seja um direito também para as mulheres pobres, negras e indígenas.
As umbigadas como manifestação de uma espiritualidade afro-feminista
As umbigadas são ritos de iniciação presentes nas comunidades da diáspora afro-colombiana e consistem no seguinte: quando a criança nasce, as parteiras fazem dois nós no cordão umbilical e, no meio dos dois nós, cortam-o com uma lâmina de barbear com um centímetro de comprimento e atam-o firmemente com um fio. Sobre o umbigo se coloca uma gaze com iodo misturado com óleo e álcool e um pedaço de algodão.
Esta prática ancestral está fortemente associada aos iniciados da confraria da Aranha (Ananse), dos povos Fanti-Ashanti do Golfo do Benim. Das umbligadas emerge uma espiritualidade de resistência, pois esta prática possibilitou entender, agir e recriar a cultura no novo mundo.
A espiritualidade refere-se a tudo aquilo que move as pessoas e as comunidades a fazer ou a não fazer coisas em prol da vida. Sem espiritualidade não há vida. Sem a espiritualidade o desenvolvimento integral dos indivíduos e das comunidades é impossível. A terra é um elemento primordial dessa espiritualidade, e tem a ver com formas de pensar, sentir e agir. Os afro-colombianos estão imersos numa relação sentimental e afetiva com a terra. Perder a terra é perder parte da vida, da cultura e da identidade.
Elementos da natureza como: a espinha de peixe, a raspagem da banana, a formiga conga, entre outros. Esses elementos também são sinais proféticos reveladores de Deus que se manifestam na umbigada, é como uma purificação de todos os elementos que a curandeira coloca no recém-nascido, e que está relacionado com o dever ser da pessoa. O cosmos é a criação de Deus e nele manifesta-se a sua revelação. Os restos da umbigada são depositados no território ancestral e isso implica enraizamento, pertencimento e cultivo da terra.
A espiritualidade que se apresenta para os afrodescendentes é constituída a partir da herança africana que é recriada nos novos territórios onde se instalaram, experimentando um Deus itinerante. É uma espiritualidade fora de normas, dogmas, hierarquias e doutrinas. Esta prática nos deixa três desafios importantes: o antropológico, o teológico e o pedagógico-metodológico.
No que diz respeito ao desafio antropológico, é necessária uma aprendizagem da espiritualidade afro-diaspórica e compreender que a revelação e a manifestação de Deus passam por essa prática ancestral. O desafio teológico aponta para a compreensão do que é revelação nas umbigadas, entendida como uma afirmação fundamental da sua história e das práticas ancestrais. O desafio pedagógico-metodológico, parte da complexidade do contexto de discriminação, globalização e guerra em que as nossas comunidades se encontram, bem como a imposição educativa religiosa monocultural que ignora a sacralidade da vida da comunidade. O desafio é a mudança de paradigma de uma educação tradicional imposta para uma educação libertadora que interage com os saberes pré-existentes das comunidades ancestrais.
A espiritualidade evocada por esta prática não é um simples acessório do prefixo afro. O que se propõe nela é a redescoberta de uma realidade histórica com suas luzes e sombras. Reforçar o que ela tem de luz, mas ao mesmo tempo como um processo de reconhecimento e sanção das feridas (sombras). Curar e reconhecer, para enfrentar a vida a partir das próprias práticas tradicionais, assumindo as suas próprias evoluções.
A espiritualidade de cada indivíduo e de cada povo reside nos seus processos históricos. Para o povo afro-americano, o encontro com a sua história tem sido muito importante. Nela encontramos processos de erradicação e exploração, mas também de luta, rebelião e resistência, com o único objetivo de resgatar a sua própria liberdade e dignidade. Ao longo dos séculos, a comunidade afro tem sabido dar provas de uma imensa fé no Deus da Vida, cuja presença na inexprimível dor da escravidão, lhes deu a coragem de resistir apesar de tudo.
Hoje, esta é a espiritualidade que o povo negro da América é chamado a reinterpretar e a assumir para que renasça a esperança de um povo, que ressuscitado, nos impulsione para um mundo mais humano, belo e digno, uma sociedade que se reconheça plural. Estes elementos são válidos para a reconstrução de uma espiritualidade da memória e da resistência, mas também é necessário ter consciência de que as nossas comunidades também são patriarcais e também fazem parte do mercado neoliberal.
Pautas éticas na superação de pandemônios sócio-religiosos
Finalizando, proponho desafios éticos nas políticas de saúde no sentido de reduzir a lacuna do déficit de saúde a partir de uma perspectiva de gênero e de algumas abordagens éticos para a superação dos pandemônios sociais com relação a vida e saúde das mulheres:
· Garantir a melhoria e otimização dos modelos de gestão. Garantia da qualidade da saúde dos estados de forma que seja gerado um impacto real na saúde e na qualidade de vida das pessoas.
· Fornecer ferramentas e práticas inovadoras para que as organizações de saúde possam desenhar, implementar e avaliar programas de auditoria como fonte de melhoria contínua, potencializando seus pontos fortes e minimizando os riscos derivados da assistência à saúde.
· Resgatar a importância da qualidade dos serviços de saúde, atendendo às especificidades e necessidades da população, especialmente das mulheres vítimas de violência.
· Recupere a dimensão comunitária da saúde. Esta estratégia está em total coerência com a compaixão, a misericórdia como opção radical pelo sofrimento. Nesse sentido, é necessária a denúncia dos sistemas religiosos que por meio da intimidação geram sofrimento e morte.
Por fim, é preciso pensar também em uma teologia para a era pós-pandêmica, neste caso, é preciso:
· Promover espaços terapêuticos para a cura em nossas igrejas. Pois como bem se sabe uma religião autêntica deve proporcionar uma saúde física, psicossocial e existencial adequada para o fortalecimento da vida em sua plenitude.
· Voltar para a teologia da criação e entender que fomos feitos à imagem e semelhança de Deus nas suas diversidades, pelo todes somos chamados a construir um mundo fora da lógica patriarcal.
· Corrigir os nossos erros em relação às guerras, massacres, holocaustos e feminicídios.
· Educar para um mundo que não idolatre o dinheiro.
· Fomentar um mundo que preserve o planeta, que nutra os mais fracos.
· Fomentar uma religião que não promova o ódio entre irmãos por intolerância.
· Pensar a vida com o coração e não com a razão que nos instrumentalizou.
· Fortalecer o Espírito da compaixão e da misericórdia.
· Recuperar a politicidade a ternura, pois a privatização da família não é um valor. O cuidado é político.
· Favorecer o diálogo simétrico com as diversidades de vozes independentemente do credo, ideologia, cultura, preferência sexual, origem étnica, estatuto socioeconômico e entre outros.
· Valorizar o aporte criativo das mulheres e suas espiritualidades que nutrem e alimentam uma ética em favor da vida das mulheres e das meninas que estão sendo assassinadas pelas violências.
· Entender que a vulnerabilidade nos fortalece e nos reconstrói por dentro. A escuridão também merece gratidão, pois nem todo crescimento ocorre sob o sol. A escuridão é o ponto em que entendemos que não podemos continuar como estamos, que nem tudo está bem e que somos chamados a transformar o mundo.
Finalmente acreditamos com Joan D. Chittester que a espiritualidade feminista sem uma vida de oração não é espiritualidade e não vai durar além das primeiras derrotas. A oração é uma abertura vital para que a inter-revelação entre e nos faça novos durante as diversidades.. A oração desmascara os ídolos de morte. A oração nos transforma. A oração nos impulsiona. A oração nos sustenta ao longo do caminho. Rezemos pela graça necessária para continuar vivendo e para compreender que a vida que nos foi preservada perante a pandemia é uma nova oportunidade de fazer diferentes.
Referências
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Notas