Charges como retratos sociais: fomentando reflexões críticas no ambiente educacional

Charges as social portraits: fostering critical reflections in the educational environment

Charges como retratos sociales: fomentando reflexiones críticas en el entorno educativo

 

André Luís Rodrigues Costa

Instituto Federal do Triângulo Mineiro, Uberaba, MG, Brasil

andre.costa@uftm.edu.br

Hugo Leonardo Pereira Rufino

Instituto Federal do Triângulo Mineiro, Uberaba, MG, Brasil

hugo@iftm.edu.br

 

Recebido em 03 de abril de 2024

Aprovado em 09 de maio de 2024

Publicado em 02 de julho de 2025

 

RESUMO

No contexto acadêmico contemporâneo, a análise de gêneros textuais se apresenta como um componente importante para o entendimento da linguagem e sua interação com o meio sociocultural, particularmente em relação às charges, que se destacam pela concisão e teor crítico. Este estudo se propõe a explorar a charge enquanto recurso didático, avaliando seu potencial em fomentar o pensamento crítico entre estudantes. A linguagem, por meio dos gêneros textuais, permite construir sentidos e interagir socialmente. Na escola, ler e escrever devem promover a reflexão crítica e o uso social da linguagem. As oficinas pedagógicas incentivam a aprendizagem coletiva. A análise qualitativa revela categorias significativas nas práticas discursivas educativas. Adotando uma metodologia que mescla pesquisa bibliográfica e de campo, busca-se investigar como a interação com charges pode enriquecer a experiência educacional. Os resultados preliminares indicam que as charges, ao integrarem elementos verbais e visuais de forma engajadora, estimulam a reflexão crítica e ampliam a participação dos alunos em discussões pertinentes à realidade social em que estão inseridos. A pesquisa sugere que as charges, ao provocarem análise e debate sobre temáticas atuais, contribuem significativamente para a formação de um senso crítico nos estudantes, evidenciando a importância de abordar gêneros textuais diversificados no processo educativo. Assim, o estudo corrobora a ideia de que a inclusão de charges como ferramentas pedagógicas pode enriquecer o processo de aprendizagem, ao mesmo tempo em que promove o desenvolvimento de competências analíticas e a consciência social dos estudantes.

Palavras-chave: Gêneros Textuais; Pensamento Crítico; Recursos Didáticos.

 

ABSTRACT

In the contemporary academic context, the analysis of textual genres emerges as a crucial component for understanding language and its interaction with the sociocultural environment, especially in relation to charges, which are noted for their brevity and critical content. This study aims to explore the charge as a didactic tool, assessing its potential in fostering critical thinking among students. Language, through textual genres, enables meaning-making and social interaction. In schools, reading and writing should promote critical reflection and the social use of language. Pedagogical workshops foster collective learning. Qualitative analysis reveals meaningful categories within the discursive practices that shape educational experiences and interactions. Employing a methodology that combines bibliographic and field research, this study seeks to investigate how interaction with charges can enrich the educational experience. Preliminary results suggest that editorial charges, by integrating verbal and visual elements in an engaging manner, stimulate critical reflection and enhance student participation in discussions relevant to the social reality they are part of. The research indicates that editorial charges, by provoking analysis and debate on current themes, significantly contribute to the development of critical thinking in students, highlighting the importance of addressing diverse textual genres in the educational process. Thus, the study supports the notion that the inclusion of editorial charges as pedagogical tools can enrich the learning process while promoting the development of analytical skills and social awareness among students.

Keywords: Textual Genres; Critical Thinking; Didactic Resources.

 

RESUMEN

En el contexto académico contemporáneo, el análisis de géneros textuales se presenta como un componente importante para la comprensión del lenguaje y su interacción con el medio sociocultural, particularmente en relación a las charges, que se destacan por su concisión y contenido crítico. Este estudio se propone explorar la caricatura editorial como recurso didáctico, evaluando su potencial para fomentar el pensamiento crítico entre los estudiantes. El lenguaje, mediante géneros textuales, permite construir sentidos e interactuar socialmente. En la escuela, leer y escribir debe fomentar la reflexión crítica y el uso social del lenguaje. Los talleres pedagógicos promueven el aprendizaje colectivo. El análisis cualitativo revela categorías significativas en las prácticas discursivas educativas.      Adoptando una metodología que combina la investigación bibliográfica y de campo, se busca investigar cómo la interacción con las charges puede enriquecer la experiencia educativa. Los resultados preliminares indican que las charges, al integrar elementos verbales y visuales de manera atractiva, estimulan la reflexión crítica y amplían la participación de los alumnos en discusiones pertinentes a la realidad social en la que están insertos. La investigación sugiere que las charges, al provocar análisis y debate sobre temas actuales, contribuyen significativamente a la formación de un sentido crítico en los estudiantes, evidenciando la importancia de abordar géneros textuales diversificados en el proceso educativo. Así, el estudio corrobora la idea de que la inclusión de charges como herramientas pedagógicas puede enriquecer el proceso de aprendizaje, al mismo tiempo que promueve el desarrollo de competencias analíticas y la conciencia social de los estudiantes.

Palabras clave: Géneros Textuales; Pensamiento Crítico; Recursos Didácticos.

 

Introdução

No universo acadêmico, a análise de gêneros textuais configura-se como uma dimensão importante para a compreensão da linguagem e sua interação com o contexto social. “A leitura de gêneros textuais é uma forma de mostrar aos(às) alunos(as) que a leitura é uma atividade útil, com um propósito claro e que a linguagem se adapta ao contexto e intenção comunicativa” (Silva, 2019, p. 170). Dentre esses gêneros, a charge destaca-se por sua concisão e teor crítico, marcando sua presença como uma ferramenta potente para induzir reflexões sobre temáticas atuais.

Caracterizada pela fusão de elementos verbais e visuais, a charge oferece um campo fértil para o estudo das dinâmicas entre texto e imagem, bem como das estratégias retóricas empregadas para engajar o leitor. Silva (2019) traz que é importante os textos serem interessantes, inteligentes e emocionais, de forma a atrair o interesse de estudantes de todas as idades. As atividades interdisciplinares, incluindo o uso de desenhos animados, demonstram o interesse dos alunos por uma experiência de aprendizado agradável e dinâmica. A investigação deste gênero textual ultrapassa as fronteiras da linguística, adentrando o terreno do sociocultural, ao elucidar como os discursos são moldados e influenciados pelo contexto em que emergem.

No cenário brasileiro, a diversidade de gêneros textuais na língua portuguesa reflete as nuances culturais e sociais do país, com a charge ocupando uma posição de destaque. Esses gêneros, reconhecidos social e culturalmente, distinguem-se não apenas por suas funções comunicativas específicas, mas também pela organização, estrutura gramatical e vocabulário que os caracterizam. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) (2018) sublinha a importância de abordar os gêneros textuais de maneira contextualizada, integrando-os a diferentes áreas do conhecimento para enriquecer a compreensão e utilização dos estudantes em diversos contextos comunicativos.

Este artigo se debruça sobre o gênero textual charge, explorando sua capacidade de servir como recurso didático e meio de fomento ao pensamento crítico e à consciência social entre os alunos. Através de uma abordagem metodológica que combina pesquisa bibliográfica e de campo, este estudo visa avaliar como a interação com charges pode enriquecer o processo educacional, estimulando a reflexão crítica e o engajamento dos estudantes com temas relevantes à sua realidade social.

 

Referencial teórico

A análise dos gêneros textuais emerge como uma esfera significativa para a investigação da linguagem e sua implicação social, com a charge figurando como um exemplar pertinente dentro dessa classificação. Distinta por sua brevidade e teor crítico, a charge é notória por sua capacidade de induzir reflexões acerca de questões contemporâneas. Esta forma de expressão, que integra componentes verbais e visuais, constitui um meio propício para o estudo da relação colaborativa entre texto e imagem, além das técnicas retóricas adotadas para instigar o leitor. A exploração do gênero textual charge não se limita ao estudo da linguagem, mas se estende também ao exame do contexto sociocultural em que se insere, elucidando os mecanismos pelos quais o texto exerce influência e é influenciado pelo ambiente de sua manifestação.

 

Dinâmicas sociais e culturais dos gêneros textuais: o papel educativo da charge

Os gêneros dizem muito do contexto no qual foram criados e podem caracterizar um tempo, uma situação, uma notícia ou um enunciado, a partir de uma estrutura já pré-estabelecida. Existem muitos gêneros textuais, além da charge, na Língua Portuguesa, dentre eles podemos destacar: a crônica, a biografia, o meme, autobiografia, artigo científico, bula, reportagem, letra de música, notícia etc.

Gêneros textuais são tipos de textos cuja função comunicativa é reconhecida social e culturalmente por uma determinada comunidade. Além de terem essa função comunicativa específica, os gêneros textuais se caracterizam por organização, estrutura gramatical e vocabulário específico – assim como pelo contexto social que ocorrem.” (Souza et al, 2005, p. 24).

 

De acordo com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) (2018), o estudo dos gêneros textuais deve ser realizado de forma contextualizada e integrada com outras áreas do conhecimento, possibilitando aos estudantes a compreensão das características específicas de cada gênero e a sua adequação aos diferentes contextos de uso. A BNCC (2018, p. 65) no tocante à Língua Portuguesa traz que:

[...] os conhecimentos sobre os gêneros, sobre os textos, sobre a língua, sobre a norma-padrão, sobre as diferentes linguagens (semioses) devem ser mobilizados em favor do desenvolvimento das capacidades de leitura, produção e tratamento das linguagens, que, por sua vez, devem estar a serviço da ampliação das possibilidades de participação em práticas de diferentes esferas/campos de atividade humanas.

 

Em relação ao estudo dos gêneros textuais, a BNCC (2018) determina que esse deve ser um dos eixos estruturantes do ensino de Língua Portuguesa, e que os estudantes devem ser capazes de compreender, produzir e analisar diferentes gêneros textuais. É importante ressaltar que ampliar o domínio dos gêneros textuais significa aumentar as oportunidades de participação nas práticas sociais que envolvem habilidades de leitura, escrita, produção e audição de textos. De acordo com Alves (2014, p. 107) “é por meio dos gêneros textuais que damos forma a nossas ações e intenções; é por meio deles que agimos no mundo, interagimos e influenciamos as pessoas para a mudança de pensamento e a ação na comunidade em que vivemos.”

De acordo com Brasil (1998) nos Parâmetros curriculares nacionais (PCNs) para o ensino de língua materna, a noção de gênero precisa ser tomada como objeto de ensino, “sendo necessário contemplar, nas atividades de ensino, a diversidade de textos e gêneros, e não apenas em função de sua relevância social, mas também pelo fato de que textos pertencentes a diferentes gêneros são organizados de diferentes formas” (Brasil, 1998, p. 23). Nesta perspectiva, um dos vários recursos que pode ser trabalhado, em sala de aula, é a utilização do gênero textual charge. Conforme Silva (2012, p. 307):

[...] esse termo charge é proveniente do francês ‘charger’ (carregar, exagerar). Sendo fundamentalmente uma espécie de crônica humorística, a charge tem o caráter de crítica, provocando o hilário, cujo efeito é conseguido por meio do exagero. Entre as principais características desse gênero estão a caricatura, a sátira e a ironia. Além disso, ele também se caracteriza por articular o verbal e o não-verbal para constituir os efeitos de sentidos para o discurso humorístico. Normalmente, esse gênero aparece em jornal e revista, mas, usualmente, vem ganhando espaço em sites específicos para a sua divulgação.

 

Nesse sentido, Pessoa (2011, p. 16) considera que “as charges são um material didático que podem ser trabalhados em sala de aula, pois permitem o aprimoramento da leitura e compreensão textual a partir do conhecimento de mundo dos estudantes”, ou seja, o professor pode enriquecer sua didática mediando este conhecimento prévio do aluno e o conteúdo a ser ministrado. As charges podem atrair a atenção dos estudantes já que elas possuem elementos humorísticos e sátiras. Este gênero pode contribuir para o fomento do senso crítico do aluno, estimular sua criticidade, “condição para o desenvolvimento do pensamento científico e a formação plena da cidadania” (Lima Filho; Maciel, 2016, p. 407).

Nessa perspectiva, a utilização da charge, além de contribuir para o desenvolvimento linguístico discursivo do aluno, leva-o a um letramento crítico propiciando também uma leitura mais crítica do mundo. Ela traz momentos de reflexão sobre o papel dos textos a fim de possibilitar a compreensão dos discursos produzidos na língua, contemplando o contexto sociopolítico do mundo o qual o aluno faz parte. “A charge nos faz refletir sobre as coisas do cotidiano, divulgadas ou não, em meios de comunicação de massa, por isso, há a necessidade de seus leitores terem conhecimento prévio do assunto sobre o qual é a charge para a produção de sentido” (Souza, 2010, p. 86).

Matias (2010) reitera que as charges apresentam os seguintes aspectos: são multimodais porque em sua construção, elas utilizam-se de variados modos para formular a mensagem, seja com base em palavras e imagens ou apenas com imagens; dessa maneira estimula o pensamento crítico do leitor, levando-o a se posicionar, mesmo de forma imperceptível, diante do texto. A autora ainda aponta que outro aspecto a considerar são os textos polifônicos, pois os temas discutidos podem gerar múltiplas discussões e interpretações. Dessa forma, o gênero charge quando bem direcionado, pode ser instrumento importante para a formação de alunos críticos, reflexivos e competentes leitores da realidade.

Os estudantes são estimulados a refletir sobre sua responsabilidade no mundo, o que pode resultar na formação de indivíduos mais engajados com a realidade em que vivem e mais comprometidos com o coletivo, incentivando-os a lutar por uma vida mais autônoma. Trazer os alunos para as discussões do cotidiano pode abrir novos horizontes no que tange à visão de mundo. Souza (2010, p. 88) preconiza que:

[...] ao mesmo tempo em que o discurso pode funcionar como perpetuação e reprodução de relações sociais existentes, ele pode também, transformar essa realidade, contribuindo para a construção de identidades sociais capazes de transformar essas relações.

 

Esses discursos podem trazer alguns elementos importantes que permearão essa construção de identidade, um deles é a intertextualidade. Neste chamamento para a discussão de um gênero textual como charge, por exemplo, o aluno pode trazer uma história lida ou conhecida de seu cotidiano que vá ao encontro daquilo que é proposto pelo professor.

Vários estilos podem se encontrar em um estilo da atualidade e a partir dali surgir um novo texto. Entretanto, este novo texto não será fruto de uma criação vinda do acaso, ele coexistirá com o discurso original em consonância com o discurso atual. Esta coexistência entre discursos traz a intertextualidade, ela permite ao leitor interpretar a charge a partir dos saberes e conhecimento de mundo dos quais dispõe e ao mesmo tempo recorrer a outros repertórios de informações. A intertextualidade não é um acontecimento isolado, individual. É um fato que provém da união e da troca de informações entre textos. É o que diz Bazerman (2021, p. 139):

[...] a intertextualidade constitui uma das bases cruciais para os estudos e a prática da escrita. Os textos não surgem isoladamente, mas em relação com outros textos. Escrevemos em resposta à escrita precedente e, enquanto escritores, usamos os recursos produzidos por escritores precedentes. Quando lemos, utilizamos o conhecimento e a experiência de textos que havíamos lido antes para construirmos os sentidos do novo texto e, enquanto leitores, observamos os textos que o escritor invoca direta e indiretamente. Nossa leitura e nossa escrita dialogam entre si à medida que escrevemos, em resposta direta e indireta ao que havíamos lido anteriormente; e lemos relacionando as ideias que havíamos articulado em nossa própria escrita.

 

Logo, os elementos intertextuais podem ser criados com o uso de palavras verbais ou não verbais, ou textos verbais e não verbais juntos, e proporcionam ao leitor uma interpretação variada com base no nível de conhecimento adquirido. Conclui-se, portanto, que o gênero textual charge, com seus elementos verbais e visuais, oferece um terreno fértil para a exploração da interseção entre linguagem, cultura e sociedade. A capacidade da charge de condensar questões complexas em representações acessíveis e impactantes revela seu potencial não apenas como um objeto de análise linguística e cultural, mas também como um recurso pedagógico no desenvolvimento do pensamento crítico e da consciência social. Essa compreensão nos conduz à seção seguinte deste estudo, a metodologia.

 

Metodologia

Nesta seção delinearemos os procedimentos e as abordagens empregadas para investigar a influência e a eficácia da charge como recurso didático no ambiente educacional. Nessa fase, será dada ênfase aos métodos de coleta e análise de dados que permitirão avaliar como a interação com o gênero textual charge pode enriquecer o processo de aprendizagem, estimulando a reflexão crítica e o engajamento dos estudantes com os temas explorados.

A presente pesquisa é de natureza qualitativa. “A metodologia qualitativa preocupa-se em analisar e interpretar aspectos mais profundos, descrevendo a complexidade do comportamento humano. Fornece análise mais detalhada sobre as investigações, hábitos, atitudes, tendências de comportamento […].” (Marconi; Lakatos, 2001, p. 143).

Quanto aos objetivos, ela é exploratória. Conforme pensamentos de Gil (2022, p. 41), a pesquisa exploratória tem como “objetivo proporcionar maior familiaridade com o problema, com vistas a torná-lo mais explícito ou a constituir hipóteses. Pode-se dizer que estas pesquisas têm como objetivo principal o aprimoramento de ideias ou a descoberta de intuições.”

Quanto aos procedimentos técnicos, esta pesquisa é de natureza bibliográfica e pesquisa de campo. De acordo com dizeres de Gil (2022, p. 44), a bibliográfica é um tipo de pesquisa “[…] desenvolvida com base em material já elaborado, constituído principalmente de livros e artigos científicos.” Já a pesquisa de campo, segundo Marconi e Lakatos (2021, p. 88), é:

[...] utilizada com o objetivo de obter informações e/ou conhecimentos sobre um problema para o qual se procura uma resposta, ou para uma hipótese que se queira comprovar, ou, ainda, descobrir novos fenômenos ou relações entre eles. A pesquisa de campo consiste na observação de fatos e fenômenos tal como ocorrem espontaneamente, na coleta de dados a eles referentes e no registro de variáveis que se presume relevantes, para analisá-los.

 

A pesquisa de campo se respalda na aquisição de informações por meio da observação in loco de um contexto específico, referido como 'campo'. Esta modalidade de investigação engloba uma série de técnicas, como entrevistas, aplicação de questionários e a condução de grupos de discussão focados com os indivíduos inseridos no domínio de estudo. Para o desenvolvimento do estudo, o projeto de pesquisa foi submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Universidade Federal do Triângulo Mineiro - UFTM em 07/08/2023 e aprovado em 15/09/2023, por meio do parecer sob o número 72860423.3.0000.5154.

 

Instrumentos para coleta de dados

A coleta de dados foi realizada durante o desenvolvimento de uma oficina pedagógica. A oficina pedagógica aconteceu em parceria com o professor Hélio da disciplina de Artes da turma do 1º ano do Ensino Médio Integrado do curso Técnico em Desenvolvimento de Sistemas do IFTM – Campus Uberaba Parque Tecnológico. Ao introduzir o senso crítico e a análise de charges já no 1º ano, há a possibilidade em plantar as sementes do pensamento crítico e analítico em uma fase inicial do ensino médio. Isso pode preparar o terreno para um desenvolvimento mais profundo dessas habilidades ao longo dos anos subsequentes.

Como a turma é focada em desenvolvimento de sistemas, integrar o estudo de charges na disciplina de artes pode criar uma ponte entre o raciocínio lógico-matemático e a expressão artística. Isso pode incentivar os alunos a verem a tecnologia e a programação não apenas como ferramentas técnicas, mas também como meios de expressão criativa e crítica. Trabalhar com charges permite que os alunos pratiquem a interpretação de imagens e textos, bem como a construção de argumentos baseados em suas interpretações. Estas são habilidades tanto no âmbito acadêmico quanto pessoal.

Na aula expositiva, foram apresentados, aos participantes, alguns elementos presentes nas charges como ironia, sátira e caricatura, frequentemente utilizados para criticar ou questionar ideias, práticas e comportamentos presentes na sociedade. Ainda na aula, abordou-se o conceito e a importância do senso crítico e ao final analisou-se em conjunto com os alunos 05 (cinco) charges previamente selecionadas que abordam temas como rede, Internet, poder, dinheiro e desigualdade social. A oficina também ofereceu um espaço para que os participantes experimentem a criação de suas próprias charges, aplicando os conhecimentos adquiridos e exercitando a reflexão crítica acerca de temas pertinentes à sua realidade, porém a parte prática da oficina será tema de um outro artigo.

Dos 35 estudantes, 26 alunos participaram da pesquisa em todas as etapas da oficina pedagógica, entretanto, o foco deste artigo está na análise das respostas da avaliação final após aula expositiva. Segundo Vieira e Volquind (2002), as oficinas pedagógicas de ensino são uma modalidade de ação, sendo esta considerada como o fio condutor que se processa em uma realidade, em conjunto com a construção de conceitos. As oficinas promovem a investigação, a reflexão, a interface entre o trabalho individual e o trabalho em grupo, a unidade entre teoria e prática, e são “como um espaço e um tempo, provocadora de experiências, necessariamente socializadas” (Vieira; Volquind, 2002, p.13).

 

Análise de dados

Foi utilizada a análise temática de conteúdo que, segundo Minayo (2006), desdobra-se nas etapas pré-análise, exploração do material ou codificação e tratamento dos resultados obtidos/interpretação. Na etapa da pré-análise sistematização e tabulação dos dados dos questionários aplicados. Na etapa da exploração do material, o investigador busca encontrar categorias que são expressões ou palavras significativas em função das quais o conteúdo das informações será organizado. Nessa etapa, após a sistematização e tabulação dos dados, com base nas perguntas do questionário aplicado, foram elencadas quatro categorias na dissertação, porém, o foco deste estudo será o recorte de uma catergoria: explorando o gênero textual charges: subcategorias (conceito, objetivo e característica, elementos) e (habilidades de análise crítica, reflexão e pensamento questionador dos estudantes).

Na terceira etapa, o tratamento dos resultados obtidos e interpretação, tendo como base os dados coletados em nesta categoria foi possível realizar as inferências e interpretações referentes às temáticas de conteúdo permitindo inter-relacionar o quadro teórico com o propósito do objetivo previsto. Dessa forma, na próxima seção apresentamos os resultados e discussões da pesquisa realizada.

 

Resultado e discussões

Explorando o gênero textual charges

Nesta categoria foram elencadas 2 subcategorias para uma melhor apresentação e análise dos resultados. Vejamos a seguir.


 

Conceito, objetivo e característica e elementos

Nesta subcategoria tivemos a finalidade de verificar a percepção dos estudantes participantes da pesquisa referente ao conceito, objetivo, característica e elementos do gênero textual charge. A exploração sobre a charge foi realizada após a aula expositiva por meio do questionário com 18 questões dispostas nas tabelas 1, 2 e 3. Do total de 35 alunos da turma, 26 responderam ao questionário da aula expositiva. Na tabela 1 são apresentadas as questões 01, 02, 03, 04, 05 e 07 que representam a subcategoria desta seção(conceito, objetivo e característica e elementos) e para cada pergunta há uma alternativa correta que foi levada em consideração nas análises. O gabarito para conferência foi o seguinte:

Quadro 1 – Gabarito das questões referente à categoria explorando o gênero textual charges: conceito, objetivo e característica, elementos

1

2

3

4

5

7

A

C

C

C

C

A

Fonte: Elaborado pelo autor (2023)

Tabela 1 – Explorando o gênero textual charges: conceito, objetivo e característica, elementos

QUESTÕES E ALTERNATIVAS

RESULTADOS

01 – o que é uma charge?

Quantidade

Porcentagem

a) Um desenho humorístico que expressa críticas ou opiniões sobre determinado tema.

25

96%

b) Uma forma de poesia que utiliza rimas e métricas.

0

0%

c) Um tipo de narrativa ficcional com personagens e enredo.

1

4%

d) Um tipo de desenho animado.

0

0%

02 – Qual é o objetivo principal de uma charge?

Quantidade

Porcentagem

a) Entreter o leitor com histórias engraçadas.

1

4%

b) Informar sobre eventos históricos importantes.

0

0%

c) Abordar assuntos de forma crítica e reflexiva.

25

96%

d) Provocar risos e entretenimento.

0

0%

03 – Qual é a principal característica de uma charge?

Quantidade

Porcentagem

a) Apresentar uma narrativa longa e detalhada.

0

0%

b) Transmitir informações factuais de forma objetiva.

3

12%

c) Utilizar humor e sátira para criticar aspectos sociais.

22

85%

d) Ser um meio de entretenimento sem qualquer mensagem

1

4%

04 – Quais elementos costumam estar presentes em uma charge?

Quantidade

Porcentagem

a) Desenhos animados e personagens fictícios.

7

27%

b) Legendas descritivas e narração em primeira pessoa.

1

4%

c) Balões de diálogo e caricaturas de pessoas conhecidas.

18

69%

d) Cenários realistas e descrições detalhadas.

0

0%

05 – Como a charge utiliza recursos visuais para transmitir sua mensagem?

Quantidade

Porcentagem

a) Utilizando cores vivas e vibrantes.

1

4%

b) Utilizando uma linguagem formal e técnica.

0

0%

c) Utilizando caricaturas, expressões faciais e elementos visuais simbólicos.

18

69%

d) Utilizando história em quadrinhos.

7

27%

07 – Quais são as características do texto verbal em uma charge?

Quantidade

Porcentagem

a) É conciso, utiliza linguagem informal e contém trocadilhos e ironias.

22

85%

b) É longo e descritivo, utiliza uma linguagem formal e técnica.

1

4%

c) É narrativo, com início, meio e fim.

1

4%

d) É dissertativo, com introdução, desenvolvimento e conclusão.

2

8%

Fonte: Elaborado pelo autor (2023)

Os resultados da questão 1, na tabela 1, indicam que a maioria, 96%, uma margem expressiva dos participantes identifica corretamente a charge como "um desenho humorístico que expressa críticas ou opiniões sobre determinado tema." Isso sugere um alto nível de compreensão conceitual sobre o gênero textual. Dos participantes, 96%, reconhecem, na questão 2, o objetivo principal da charge como "abordar assuntos de forma crítica e reflexiva." Este resultado fortalece a percepção de que os estudantes participantes compreendem a charge como uma forma de expressão visual destinada a provocar reflexão sobre questões sociais. Na questão 3, 85% dos participantes identificaram corretamente a principal característica da charge como "utilizar humor e sátira para criticar aspectos sociais." Essa percepção ressalta a associação do gênero textual com elementos críticos e humorísticos.

Referente aos elementos comuns em uma charge, na questão 4, os resultados apontam que 69% dos participantes reconhecem a presença de "balões de diálogo e caricaturas de pessoas conhecidas". Isso indica uma compreensão dos elementos visuais característicos desse tipo de comunicação. Sobre os recursos visuais para a charge transmitir sua mensagem, 69% dos estudantes, na questão 5, percebem que a charge utiliza "caricaturas, expressões faciais e elementos visuais simbólicos", para transmitir sua mensagem. Essa compreensão evidencia a sensibilidade dos participantes para a linguagem visual e simbólica empregada nas charges. Em relação às características do texto verbal em uma charge 85% dos estudantes identificaram corretamente, destacando que "é conciso, utiliza linguagem informal e contém trocadilhos e ironias." Isso pode ser um indicativo de uma compreensão adequada da natureza concisa e humorística do texto verbal presente nas charges.

Deste modo, nesta subcategoria, constatamos que os participantes demonstraram uma compreensão conceitual consistente do que constitui uma charge, identificando corretamente suas características essenciais. A alta porcentagem de respostas corretas nas questões relacionadas à definição, objetivo e características da charge sugere que o grupo possui um entendimento sobre o tema. De acordo com Silva (2012, p. 307):

[...] o termo "charge" é proveniente do francês ‘charger’ (carregar, exagerar). Sendo fundamentalmente uma espécie de crônica humorística, a charge tem o caráter de crítica, provocando o hilário, cujo efeito é conseguido por meio do exagero. Entre as principais características desse gênero estão a caricatura, a sátira e a ironia. Além disso, ele também se caracteriza por articular o verbal e o não-verbal para constituir os efeitos de sentidos para o discurso humorístico.

 

Notavelmente, a compreensão destacada pelos participantes coincide com os elementos apresentados por Silva (2012), confirmando a precisão do entendimento do grupo sobre as características fundamentais da charge. É válido ressaltar que, mesmo não mencionando explicitamente a articulação do verbal e não-verbal, a alta pontuação nas respostas corrobora a ideia de que os participantes reconhecem a importância desse aspecto na construção do humor na charge. Essa consistência na compreensão evidencia a eficácia do conhecimento teórico na interpretação prática, destacando a integração bem-sucedida entre a teoria apresentada por Silva (2012) e a percepção dos participantes sobre o tema.

A maioria dos participantes reconhece o propósito primário da charge como sendo crítico e reflexivo. Isso indica uma consciência generalizada de que as charges são ferramentas destinadas a provocar análise e reflexão sobre questões sociais, em vez de apenas entreter ou informar de maneira direta. Dentro deste raciocínio, Lima Filho e Maciel (2016) frisam que ao utilizar imagens em atividades, os alunos podem desenvolver suas habilidades linguísticas, escritas e argumentativas, além de adotar uma postura crítica em relação aos temas abordados, ativando seus conhecimentos prévios.

A percepção dos participantes, ao reconhecerem o propósito crítico e reflexivo da charge, está alinhada com a teoria de Lima Filho e Maciel (2016). Os autores destacam a utilização de imagens, como as presentes em charges, como os recursos que promovem o desenvolvimento de habilidades linguísticas, escritas e argumentativas. A consciência dos participantes sobre o caráter crítico da charge sugere que estão aptos não apenas a compreender visualmente o conteúdo, mas também a se engajar em análises reflexivas, corroborando a ideia de que as charges não são apenas meios de entretenimento, mas sim instrumentos pedagógicos que estimulam o pensamento crítico.

Além disso, a ênfase de Lima Filho e Maciel (2016) na adoção de uma postura crítica em relação aos temas abordados conecta-se diretamente à percepção dos participantes de que as charges são destinadas a provocar análise e reflexão sobre questões sociais. A congruência entre os resultados da análise e a teoria de Lima Filho e Maciel (2016) ressalta a importância do entendimento crítico das charges como uma ferramenta educacional eficaz, alinhada com os objetivos pedagógicos propostos pelos autores.

Os resultados indicam uma sensibilidade significativa dos participantes em relação aos elementos visuais e ao texto verbal presentes nas charges. A identificação adequada de elementos como caricaturas, expressões faciais, balões de diálogo, e as características do texto verbal reflete uma compreensão aprofundada da linguagem específica desse meio de comunicação. A identificação majoritária pelos participantes das características do texto verbal como sendo conciso, informal, e contendo trocadilhos e ironias sugere uma preferência geral por uma abordagem humorística e leve na comunicação através de charges. A respeito disso, Silva (2019) traz que é importante os textos serem interessantes, inteligentes e emocionais, de forma a atrair o interesse de estudantes de todas as idades. As atividades interdisciplinares, incluindo o uso de desenhos animados, demonstram o interesse dos alunos por uma experiência de aprendizado agradável e dinâmica.

A compreensão dos participantes sobre o tema das charges sugere um potencial significativo para a utilização pedagógica eficaz desse gênero textual. A familiaridade com os elementos-chave das charges pode contribuir para a aplicação bem-sucedida desse recurso no contexto educacional, promovendo o desenvolvimento de habilidades críticas e visuais. Estas constatações são validadas por Pessoa (2011, p. 16) que considera as charges sendo “um material didático que podem ser trabalhado em sala de aula, pois permite o aprimoramento da leitura e compreensão textual a partir do conhecimento de mundo dos estudantes”.

A capacidade dos participantes de reconhecer elementos simbólicos e visuais em charges indica uma alfabetização visual e cultural adequada, necessária para interpretar eficazmente mensagens complexas transmitidas por intermédio desse meio. As inferências ainda sugerem que o grupo analisado não apenas compreende os conceitos fundamentais relacionados a charges, mas também possui uma apreciação da linguagem visual e textual associada a esse meio de comunicação específico. Isso pode ser um indicativo de que estes estudantes passam por um bom processo de ensino-aprendizagem. Tal conclusão revalida o que Carvalho (2014, p. 17) assinala:

[...] a escola pública do século XXI não deve negar ao aluno a oportunidade de se preparar para a vida pessoal e profissional e isso se completa com o ensino de língua materna que inclua em suas atividades escolares, a adequada sistematização da leitura, da interpretação e da produção de textos úteis em suas práticas sociais. […] a ampliação do universo da leitura e de escrita dos estudantes pode ser feita com o apoio de gêneros textuais, dentre eles a charge e, consequentemente, ajudando-os a escrever com mais segurança, propriedade e desenvoltura.

 

Essas habilidades podem ser aproveitadas para promover uma compreensão mais profunda de questões sociais e desenvolver a capacidade crítica entre os participantes. Neste aspecto o papel do professor se torna primordial, dado que ele norteará os indivíduos a aprimorarem suas habilidades e capacidades. Nessa linha de argumentação, Paulo Freire (1996) sublinha a profunda influência que as ações e atitudes de um educador podem ter na vida de um aluno, enfatizando aspectos como a dimensão afetiva e a postura do docente.

O grande número de respostas corretas indica uma eficácia no entendimento do gênero textual, demonstrando um nível apropriado de alfabetização visual e competência interpretativa em relação às charges. Isso é importante para o processo de aprendizagem do estudante, já que segundo Souza (2010, p. 86):

[...] a charge nos faz refletir sobre as coisas do cotidiano, divulgadas ou não, em meios de comunicação de massa, por isso, há a necessidade de seus leitores terem conhecimento prévio do assunto sobre o qual é a charge para a produção de sentido.

 

A competência interpretativa demonstrada pelos participantes, como indicado pelos resultados, reflete a ênfase de Souza (2010) na necessidade de os leitores terem conhecimento prévio para compreenderem o significado das charges. Isso ressalta a eficácia do processo de aprendizagem dos estudantes no contexto das charges, conforme destacado pelo autor. A correlação entre os resultados da análise e a teoria de Souza (2010) fortalece a compreensão do papel educacional das charges e como sua interpretação é facilitada por um conhecimento prévio adequado por parte dos leitores.

Logo, essa compreensão pode contribuir positivamente para a utilização eficaz desse recurso pedagógico, ressaltando a importância do desenvolvimento de habilidades de leitura visual e crítica entre os participantes.

 

Habilidades de análise crítica, reflexão e pensamento questionador dos estudantes

Em relação à subcategoria habilidades de análise crítica, reflexão e pensamento questionador dos estudantes que é representada pelas questões 6, 8, 9, 10, 11, 13, 16 e 17. Destacamos que há uma alternativa correta para as questões 6, 8, 9, 10 e 11 (Tabela 2) que foram levadas em consideração nas análises. O gabarito para conferência foi o seguinte:

 

Quadro 2 – Gabarito das questões referente à categoria explorando o gênero textual charges: habilidades de análise crítica, reflexão e pensamento questionador dos estudantes

6

8

9

10

11

A

A

C

D

A

Fonte: Elaborado pelo autor (2023)

E as perguntas 13, 16 e 17 (Tabela 3) foram agrupadas por meio de uma escala parecida com a de Likert de acordo com as variáveis.

Tabela 2 – Explorando o gênero textual charges: habilidades de análise crítica, reflexão e pensamento questionador dos estudantes

QUESTÕES E ALTERNATIVAS

RESULTADOS

06 – Quais são os temas mais comuns abordados nas charges?

Quantidade

Porcentagem

a) Política, sociedade, meio ambiente, esportes, entre outros.

24

92%

b) Literatura, música, cinema, moda, entre outros.

0

0%

c) Ciência, matemática, história, geografia, entre outros.

0

0%

d) Promove uma visão unilateral sobre um tema.

2

8%

08 – Qual é a relação entre o gênero textual charge e a liberdade de expressão?

Quantidade

Porcentagem

a) A charge é uma forma de expressão artística protegida pela liberdade de expressão.

26

100%

b) A charge não está relacionada à liberdade de expressão.

0

0%

c) A charge é censurada e não pode expressar opiniões pessoais.

0

0%

d) A charge permite a livre construção de desenhos e de textos.

0

0%

09 – Como podemos identificar o tom humorístico em uma charge?

Quantidade

Porcentagem

a) Pela presença de personagens fictícios.

0

0%

b) Pelo uso de imagens realistas e sérias.

0

0%

c) Pelo uso de caricaturas, trocadilhos e ironias.

25

96%

d) Pela desconexão com a atualidade.

1

4%

10 – Quais são os possíveis temas abordados em uma charge?

Quantidade

Porcentagem

a) Eventos esportivos e atividades de lazer.

0

0%

b) Política e questões sociais.

0

0%

c) Questões ambientais e de sustentabilidade.

1

4%

d) Uma ampla variedade de assuntos relevantes para a sociedade.

25

96%

11 – Em sua opinião, qual é o poder da charge na sociedade atual?

Quantidade

Porcentagem

a) Contribuir com o debate público e a crítica social.

22

85%

b) Entreter as pessoas sem transmitir mensagens importantes.

3

12%

c) Não tem influência significativa na sociedade.

1

4%

d) Nenhum.

0

0%

Fonte: Elaborado pelo autor (2023)

 

Nos resultados da Tabela 2, na questão 6, 92% reconhecem corretamente os temas mais comuns abordados nas charges como sendo "política, sociedade, meio ambiente, esportes, entre outros." Essa percepção destaca a abrangência temática desse gênero textual, refletindo a variedade de assuntos que podem ser abordados de maneira humorística e crítica.

Este entendimento está em conformidade com os dizeres de Matias (2010), onde ela reitera que as charges apresentam os seguintes aspectos: são multimodais porque em sua construção, elas utilizam-se de variados modos para formular a mensagem, seja com base em palavras e imagens ou apenas com imagens; dessa maneira estimula o pensamento crítico do leitor, levando-o a se posicionar, mesmo de forma imperceptível, diante do texto. A autora ainda aponta que outro aspecto a considerar são os textos polifônicos, pois os temas discutidos podem gerar múltiplas discussões e interpretações. Dessa forma, o gênero charge quando bem direcionado, pode ser recursos educativos importante para a formação de alunos críticos, reflexivos e competentes leitores da realidade.

A respeito da relação entre o gênero textual charge e a liberdade de expressão, na questão 8, todos os participantes, ou seja, 100%, identificaram corretamente como a charge sendo “uma forma de expressão artística protegida pela liberdade de expressão." Esse resultado indica uma compreensão unânime da charge como uma manifestação artística que goza de proteção legal para expressar opiniões e críticas. Já, 96% dentre os participantes na questão 9, reconhecem que o tom humorístico em uma charge pode ser identificado "pelo uso de caricaturas, trocadilhos e ironias." Essa percepção ressalta a compreensão dos participantes sobre os elementos específicos que identificam o caráter humorístico a esse gênero textual.

Os resultados da questão 10 também apontam que 96% concordaram que os possíveis temas abordados em uma charge podem envolver "uma ampla variedade de assuntos relevantes para a sociedade." Isso destaca a flexibilidade desse meio de comunicação em abordar uma diversidade de questões, reforçando sua utilidade como recurso pedagógico de expressão crítica. E que 85% dos participantes acreditam, na questão 11, que o poder da charge na sociedade atual está em "contribuir com o debate público e a crítica social." Essa percepção sugere uma visão positiva sobre o potencial impacto da charge como meio de influenciar a opinião pública e promover a reflexão sobre questões sociais. Esta conclusão vai ao encontro do que é preconizado por Souza (2010, p. 88):

[...] ao mesmo tempo em que o discurso pode funcionar como perpetuação e reprodução de relações sociais existentes, ele pode também, transformar essa realidade, contribuindo para a construção de identidades sociais capazes de transformar essas relações.

 

A ideia de que o potencial da charge está em contribuir com o debate público e a crítica social reflete a perspectiva de Souza (2010) sobre como o discurso pode transformar relações sociais existentes. Os dados indicam que os participantes percebem a charge não apenas como um recurso educativo de expressão crítica, mas também como um meio eficaz de influenciar a opinião pública e promover a reflexão sobre questões sociais, o que está alinhado com a visão de Souza (2010) sobre o potencial transformador do discurso. A correlação entre os dados e a teoria fortalece a compreensão do impacto das charges como instrumentos de mudança e construção de identidades sociais.

Nesta subcategoria os achados indicam uma compreensão similar entre os participantes em relação aos temas, propósito e impacto da charge. Destaca-se a percepção unânime sobre a relação entre charge e liberdade de expressão, enfatizando a importância atribuída à proteção da expressão artística por meio desse gênero textual. A identificação precisa dos temas comuns, do tom humorístico e do potencial de abordagem de uma ampla variedade de assuntos reforça a versatilidade e relevância social das charges. Esses resultados respaldam a visão de que as charges não apenas refletem, mas também contribuem para a construção e o questionamento da dinâmica social.

Portanto, a análise indica que os participantes ao compreenderem profundamente as charges, estão indo além do ato de decodificar palavras. Eles estão utilizando eficazmente a tecnologia da leitura e escrita presente nas charges para transformar sua compreensão e participação na sociedade.

Dando continuidade na análise a seguir abordaremos na Tabela 3 os resultados das questões 13, 16 e 17.

 

Tabela 3 – Explorando o gênero textual charges: habilidades de análise crítica, reflexão e pensamento questionador dos estudantes

QUESTÃO

PORCENTAGENS

Sim, de forma significativa

Sim, em certa medida

Não contribuem

Não sei/não tenho opinião

13 – Após a aula, você acredita que as charges podem contribuir para o debate público de questões como manipulação de massas, desigualdade social, economia e conscientização social?

65%

23%

8%

4%

QUESTÃO

PORCENTAGENS

Sim, com certeza

Sim, em certa medida

Não, não acredito

Não sei/não tenho opinião

16 – Você percebeu algum aumento na sua capacidade de identificar críticas sociais por meio das charges?

42%

42%

4%

12%

QUESTÃO

PORCENTAGENS

Sim, de forma significativa

Sim, em certa medida

Não consegui

Não sei/não tenho opinião

17 – Você conseguiu relacionar as charges apresentadas na oficina com situações reais do contexto em que vivemos?

54%

46%

0%

0%

Fonte: Elaborado pelo autor (2023)

Na Tabela, as questões 13 e 16 sugerem que os estudantes consigam saber fazer uso do ler e do escrever. Os resultados apresentam uma percepção positiva sobre o papel influente das charges na discussão de temas relevantes e na promoção da conscientização social, bem como indica que a exposição às charges pode ter um impacto positivo na habilidade dos participantes em reconhecer e interpretar críticas sociais presentes nesse meio de comunicação. Na esteira dessas reflexões, a resposta da questão 17 sugere que a experiência prática com charges em uma oficina pode facilitar a aplicação dessas interpretações no contexto da vida cotidiana.

A maioria acredita que as charges têm um papel significativo na discussão de questões relevantes, como manipulação de massas, desigualdade social, economia e conscientização social. Lopes e Rossi (2006) postulam que o estudo de um gênero discursivo deve começar pela leitura uma vez que esta possibilita sua exploração nos aspectos que o constituem socialmente e nos aspectos materializados, como elementos composicionais, estilo, marcas linguísticas e enunciativas. Não se trata apenas de expor ideias, mas principalmente de construir uma argumentação embasada sobre um pensamento relacionado a elas.

A positividade dos participantes em relação à contribuição das charges para o debate público e à identificação de críticas sociais sugere que, ao analisarem as charges, os participantes estão realizando uma leitura atenta e crítica desses elementos. Eles não estão apenas expondo ideias, mas também construindo uma interpretação embasada sobre os pensamentos relacionados a charges apresentadas na aula expositiva. A análise das charges parece envolver uma reflexão sobre os aspectos sociais e composicionais presentes nesse gênero discursivo, o que está alinhado com a abordagem proposta por Lopes e Rossi (2006).

Além disso, a menção na teoria de Lopes e Rossi (2006) sobre a produção de texto no ensino médio requer um escritor criativo e reflexivo. Em relação ao uso da linguagem, esta pode ser associada à capacidade dos participantes de interpretar e compreender criticamente as charges, que são uma forma particular de expressão linguística e visual. A positividade geral expressa pelos participantes sugere um envolvimento reflexivo e criativo ao lidar com as charges, reforçando a importância do entendimento profundo desses elementos discursivos.

Essas conclusões sugerem que o uso de charges como recurso pedagógico pode não apenas enriquecer a compreensão teórica, mas também contribuir efetivamente para o desenvolvimento de habilidades práticas, como a aplicação de interpretações críticas em situações do dia a dia. Destacamos que ler não se resume apenas a percorrer as palavras com os olhos ou verbalizar o que está escrito, mas também envolve a exploração do texto e a identificação de possíveis interpretações durante uma leitura mais crítica. Segundo Helbel (2014), os gêneros textuais são manifestações concretas das práticas sociais que permeiam as ações do ser humano, sendo organizados de maneira essencial para a vida em sociedade.

Logo, o engajamento com charges parece ter um impacto positivo tanto na compreensão conceitual quanto na capacidade prática dos participantes em analisar e relacionar as mensagens presentes no contexto social.

 

Considerações

O presente estudo investigou o papel do gênero textual charge na promoção de reflexões críticas e desenvolvimento de habilidades analíticas entre os estudantes. Através de uma abordagem metodológica que integrou análise teórica e prática pedagógica, exploramos como as charges, com sua natureza híbrida de texto e imagem, servem como catalisadores para o engajamento crítico. Os resultados indicam que a charge, enquanto ferramenta didática, possui o potencial de enriquecer o processo educativo, ao instigar a reflexão, fomentar o senso crítico e estimular a capacidade de análise dos alunos em relação a questões sociais, políticas e culturais.

As descobertas sugerem que a inclusão de charges no currículo educacional não apenas captura o interesse dos estudantes, mas também os motiva a participar ativamente das discussões em sala de aula. Este engajamento ativo é fundamental para a construção de conhecimentos e para o desenvolvimento de uma consciência crítica. Observou-se que a interação com charges promove uma maior confiança entre os estudantes para expressarem suas próprias opiniões e interpretarem críticas sociais de maneira mais aprofundada. Além disso, a capacidade das charges de incorporar humor e sátira em suas representações de eventos atuais e questões sociais contribui para uma aprendizagem mais dinâmica e envolvente, facilitando a compreensão e a retenção de conhecimentos complexos.

Em conclusão, os achados deste estudo reforçam a relevância do gênero textual charge como recurso pedagógico valioso no contexto educacional. Ao promover uma aprendizagem mais interativa, reflexiva e significativa, as charges contribuem para a formação de indivíduos críticos, conscientes e capazes de navegar com discernimento no cenário social e político contemporâneo. Portanto, recomenda-se uma maior integração das charges nas estratégias de ensino, visando não apenas ao desenvolvimento de habilidades linguísticas e críticas, mas também à formação de cidadãos ativos e reflexivos na sociedade.

 

Referências

ALVES, Maria do Rosário do Nascimento Ribeiro. Gêneros textuais no ensino médio em uma abordagem interdisciplinar. In: APARÍCIO, Ana Sílvia Moço; SILVA, Sílvio Ribeiro (org.). Gêneros textuais e perspectivas de ensino. Campinas: Pontes, 2014. p. 99-120.

 

BAZERMAN, Charles; Angela Paiva Dionisio (Organizadora), Judith Chambliss Hoffnagel (Organizadora e Tradutora). Escrita, gênero e interação social. 2. ed. Recife: Pipa Comunicação, Campina Grande: EDUFCG, 2021. v. 3. 328 p.

 

BRASIL. MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. Base Nacional Comum Curricular: Educação é a base. Brasília, 2018. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_EI_EF_110518_versaofinal_site.pdf. Acesso em: 29 set. 2023.

 

BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: terceiro e quarto ciclos do ensino fundamental: língua portuguesa. Secretaria de Educação Fundamental. Brasília: MEC/SEF, 1998. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/portugues.pdf. Acesso em: 29 set. 2023.

 

CARVALHO, José João de. Letramento e retextualização: uma análise no ensino médio. 2014. 223 p. Tese (Doutorado em Linguística) – Universidade de Brasília, Brasília, 2014. Disponível em: https://repositorio.unb.br/handle/10482/16842?mode=full.  Acesso em: 22 mar. 2023.

 

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: Saberes necessários à prática educativa. Paz e Terra,1996.

 

GIL, Antonio Carlos. Como Elaborar Projetos de Pesquisa.7. ed. Barueri-SP: Atlas, 2022.

 

HELBEL, Dioneia Foschiani et al. Práticas de leitura e de produção de textos na educação profissional agrícola por meio da interdisciplinaridade. 2014. 104 p. Dissertação (Mestrado em Educação Agrícola). Instituto de Agronomia, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Campus Seropédica, Rio de Janeiro, 2014. Disponível em: https://tede.ufrrj.br/handle/jspui/2853. Acesso em: 22 mar. 2023.

 

LIMA FILHO, Adalberon Moreira de; MACIEL, Maria Delshirts. Sequência didática com emprego da argumentação como estratégia de ensino e do gênero charge sobre alimentos transgênicos como recurso didático. Indagatio Didactica, Portugal, v. 8, n. 1, p. 406-421, jul. 2016. Disponível em: https://proa.ua.pt/index.php/id/article/view/3244/2557. Acesso em: 13 nov. 2022.

 

LOPES-ROSSI, Maria Aparecida Garcia. Procedimentos para estudo dos gêneros discursivos da escrita. Revista Intercâmbio, São Paulo, v. 15, p. 1-10, 2006. Disponível em: https://revistas.pucsp.br/index.php/intercambio/article/view/3680/2405. Acesso em: 26 de abr. 2023.

 

MARCONI, Marina de Andrade; LAKATOS, Eva Maria. Técnicas de pesquisa.  9. ed. São Paulo: Atlas, 2021.

 

MATIAS, Avanúzia Ferreira. Intertextualidade e ironia na interpretação de charges. 2010. 128 p. Dissertação (Mestrado em Linguística) - Universidade Federal do Ceará. Fortaleza, 2010. Disponível em: https://repositorio.ufc.br/bitstream/riufc/3596/1/2010_dis_afmatias.pdf. Acesso em: 01 abr. 2023.

 

MINAYO, Maria Cecília de Souza.  O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. 10. ed. São Paulo: HUCITEC, 2006.

 

PESSOA, Martha Bulcão. Trabalhando a educação ambiental através de charges e artigos jornalísticos online: uma experiência com relatos dos estudantes do curso de extensão de leitura e compreensão de textos em língua francesa.  2011. 51 p. Monografia (Graduação em Letras) – Universidade Federal da Paraíba - Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes, João Pessoa, 2011. Disponível em: https://repositorio.ufpb.br/jspui/handle/123456789/3175?locale=pt_BR. Acesso em: 22 mar. 2023.

 

SILVA, Josimar Soares da. Práticas de compreensão leitora no Ensino Médio: leitor, sentido, texto e módulo didático na sala de aula. 2019. 319 p. Dissertação (Programa de Pós-Graduação Profissional em Formação de Professores - PPGPFP) - Universidade Estadual da Paraíba, Campina Grande, 2019. Disponível em: http://tede.bc.uepb.edu.br/jspui/handle/tede/3594. Acesso em: 22 mar. 2023.

 

SILVA, Telma Cristina Gomes da. O Interdiscurso no gênero charge: um estudo do discurso humorístico sob a perspectiva da Análise do Discurso francesa. Revista Eletrônica de Linguística, v. 6, n. 1, p. 302-321, 2012. Disponível em: https://seer.ufu.br/index.php/dominiosdelinguagem/article/view/14742/9604. Acesso em: 24 mar. 2023.

 

SOUZA, Vera Lúcia Guimarães de. A Charge e o ensino de língua inglesa em curso de ensino médio integrado em meio ambiente. Intertexto, Uberaba, v. 3, n. 01, p. 82-90, 2010. Disponível em: https://seer.uftm.edu.br/revistaeletronica/index.php/intertexto/article/view/100. Acesso em: 30 jan. 2023.

 

VIEIRA, Elaine; VOLQUIND, Léa. Oficinas de ensino: o quê? Por quê? Como? Porto Alegre: EDIPUCRS, 2002.

 

Interface gráfica do usuário

O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.

This work is licensed under a Creative Commons Attribution- NonCommercial 4.0 International (CC BY-NC 4.0)