“Deixem as crianças em paz”: um estudo das representações da escola a partir de Pink Floyd The Wall
"Leave them kids alone": a study of school representations through Pink Floyd's The Wall
"Dejen a los niños en paz": un estudio de las representaciones de la escuela a través de Pink Floyd The Wall
Universidade Regional de Blumenau, Blumenau, SC, Brasil
jmmoraes@furb.br
Universidade Regional de Blumenau, Blumenau, SC, Brasil
cesarluizdeo@gmail.com
Recebido em 07 de julho de 2024
Aprovado em 18 de julho de 2024
Publicado em 30 de dezembro de 2024
RESUMO
As canções "The Happiest Days of our Lifes" e "Another Brick in the Wall pt. II", juntamente com seus clipes, são notáveis críticas à escolarização ocidental, parte da obra multimídia "The Wall" da banda inglesa Pink Floyd. Elas retratam a experiência escolar dos idealizadores, especialmente Roger Waters, conhecido por seu ativismo político e oposição à extrema direita mundial. O apoio de parte do público de Waters ao então candidato à presidência, Jair Bolsonaro, durante seu show em São Paulo, em 2018, causou estranhamento na imprensa e entre pesquisadores. Nossa hipótese é que esse fenômeno pode ser explicado também pela convergência no conteúdo das canções supracitadas e na retórica atual da direita brasileira. Nosso objetivo é investigar as representações da escola e da educação em "The Wall", relacionando-as ao debate educacional inglês da época. Procuramos compreender a possível apropriação dessas representações pela direita brasileira contemporânea. Este artigo se insere na História da Educação, com orientação teórica nas noções de práticas e representações de Roger Chartier na História Cultural. Concluímos que as representações em "The Wall" refletem disputas sobre modelos escolares ingleses dos anos 1970 e 1980, mas acabam criticando aspectos universais da escolarização, e sua apropriação pela direita pode servir à defesa do homeschooling e ao ataque a manifestações políticas contrárias nas escolas.
Palavras-chave: História da Educação; Representações; Pink Floyd.
ABSTRACT
The songs "The Happiest Days of our Lives" and "Another Brick in the Wall pt. II", along with their music videos, are notable critiques of Western schooling, part of the multimedia work "The Wall" by the English band Pink Floyd. They depict the schooling experience of the creators, especially Roger Waters, known for his political activism and opposition to the global far right. The support of part of Waters' audience for then-presidential candidate Jair Bolsonaro during his 2018 show in São Paulo caused surprise in the press and among researchers. Our hypothesis is that this phenomenon can also be explained by the convergence in the content of the aforementioned songs and the current rhetoric of the Brazilian right. Our goal is to investigate representations of school and education in "The Wall", relating them to the educational debate in England at the time. We seek to understand the possible appropriation of these representations by contemporary Brazilian right-wing. This article fits within the field of the History of Education, with theoretical guidance based on Roger Chartier's notions of practices and representations in Cultural History. We conclude that the representations in "The Wall" reflect debates about English school models of the 1970s and 1980s, but ultimately critique universal aspects of schooling, and their appropriation by the right may serve the defense of homeschooling and the attack on contrary political manifestations in schools.
Keywords: History of Education; Representations; Pink Floyd.
RESUMEN
Las canciones "The Happiest Days of our Lives" y "Another Brick in the Wall pt. II", junto con sus videos musicales, son críticas destacadas a la escolarización occidental, parte de la obra multimedia "The Wall" de la banda inglesa Pink Floyd. Representan la experiencia escolar de los creadores, especialmente Roger Waters, conocido por su activismo político y su oposición a la extrema derecha mundial. El apoyo de parte del público de Waters al entonces candidato presidencial Jair Bolsonaro durante su espectáculo en São Paulo en 2018 causó sorpresa en la prensa y entre los investigadores. Nuestra hipótesis es que este fenómeno también puede explicarse por la convergencia en el contenido de las canciones mencionadas y la retórica actual de la derecha brasileña. Nuestro objetivo es investigar las representaciones de la escuela y la educación en "The Wall", relacionándolas con el debate educativo en Inglaterra en ese momento. Buscamos comprender la posible apropiación de estas representaciones por la derecha brasileña contemporánea. Este artículo se enmarca en el campo de la Historia de la Educación, con orientación teórica basada en las nociones de prácticas y representaciones de Roger Chartier en la Historia Cultural. Concluimos que las representaciones en "The Wall" reflejan debates sobre los modelos escolares ingleses de los años setenta y ochenta, pero finalmente critican aspectos universales de la escolarización, y su apropiación por parte de la derecha puede servir para la defensa de la educación en el hogar y el ataque a manifestaciones políticas contrarias en las escuelas.
Palabras clave: Historia de la Educación; Representaciones; Pink Floyd.
Introdução
No dia 9 de outubro de 2018, ocorreu o início da turnê Us+Them do ex-integrante da banda Pink Floyd, Roger Waters, no Brasil. O show realizado em São Paulo reuniu uma plateia de 45,5 mil pessoas. Conhecido por seu posicionamento político engajado, o artista não poupou críticas às figuras políticas mundiais ao longo da turnê, incluindo o então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Logo após a performance de Another Brick in the Wall pt. II, música que aborda uma crítica mordaz à educação institucional, o telão do espetáculo convocou o público a resistir ao “neo-fascismo” e citou Jair Messias Bolsonaro, na época candidato à presidência da República, como um dos representantes desse movimento no Brasil.
A manifestação política de Waters durante o show provocou uma reação significativa de vaias por parte do público. Esse acontecimento chamou a atenção da imprensa e de estudiosos, uma vez que o músico sempre foi conhecido por se posicionar contra diversas figuras políticas de direita ao longo de sua carreira, tanto em suas composições quanto em suas performances. Portanto, parece contraintuitivo imaginar a presença de apoiadores de Bolsonaro em seu show (Ortega, 2018; Silva, 2018). É sugerido, dessa forma, que uma parte do público faz uma dissociação entre o conteúdo musical e as mensagens ideológicas presentes na obra de Waters em sua carreira solo e no Pink Floyd.
O teórico Roger Chartier explica que as obras não possuem um sentido fixo, universal e imutável. Elas carregam múltiplos e variáveis significados, construídos na “negociação entre uma proposição e uma recepção”, no encontro entre as formas e os motivos que dão estrutura a elas e as habilidades ou expectativas do público que as apropria. Ainda que um artista queira estabelecer o sentido e enunciar a interpretação correta que deve restringir a leitura, a recepção sempre “inventa, desloca e distorce” (Chartier, 2002, p. 93). Assim, torna-se mais simplificada a questão das vaias dirigidas a Roger Waters devido à sua oposição à direita brasileira. O público do seu show não necessariamente fará uma associação direta entre a obra e as intenções originais do autor, e os indivíduos que compõem essa audiência podem atribuir significados diversos e pessoais às canções. O distanciamento gerado pelas diferenças de idioma e contextos históricos pode acentuar ainda mais essa dissociação.
No entanto, não seria descartada a possibilidade de considerar outra perspectiva: não poderia haver alguma convergência entre os discursos presentes nas obras do Pink Floyd e a retórica utilizada pela direita? Ou, pelo menos, não seria possível que ocorressem apropriações que tornassem esses dois elementos convergentes?
Uma parcela significativa do público brasileiro teve seu primeiro contato com o Pink Floyd por meio do videoclipe de The Happiest Days of our Lives e Another Brick in the Wall pt. II, retirado do filme Pink Floyd The Wall, dirigido por Alan Parker e lançado em 1982. Esse trecho foi amplamente exibido no canal MTV Brasil durante a década de 1990 (Callari, 2012). Tanto a música quanto o videoclipe apresentam uma crítica contundente à educação institucional. Na obra, as crianças que frequentam a escola são humilhadas pelos professores e padronizadas pela instituição. Na canção, as crianças entoam um coro enfático, afirmando sem reservas que não precisam de educação e não necessitam de controle mental (Pink, 1982).
Após sua eleição em 2018, Bolsonaro nomeou o economista Abraham Weintraub como Ministro da Educação. Em uma entrevista, o presidente defendeu Weintraub e afirmou que o projeto Escola Sem Partido já estava em prática no Brasil, mesmo sem uma lei específica (Costa, 2019). Esse movimento, que teve algumas tentativas frustradas de aprovação em âmbito estadual e federal, propunha que as convicções pessoais dos estudantes em relação a questões políticas, sociais, culturais e morais deveriam ser respeitadas, sem que os professores contrariassem aquilo que as famílias ensinaram, proibindo assim os docentes de expressarem suas opiniões pessoais em sala de aula, o que seria considerado doutrinação (Nicolazzi, 2016). Outro Ministro da Educação sob a gestão de Bolsonaro, Milton Ribeiro, defendeu em abril de 2021 uma maior facilidade para a prática de homeschooling, diminuindo a importância da escola como um ambiente de socialização para as crianças, sugerindo que essa socialização poderia ocorrer em igrejas (Ministro, 2021). Dessa forma, observa-se uma oposição a um suposto “controle mental” que poderia ocorrer nas escolas e a ideia de que as crianças não necessitam da educação institucional.
A popularidade de The Wall tanto em sua época de lançamento como nos dias atuais pode ser considerada um incentivo significativo para realizar uma investigação acadêmica das representações presentes nessa obra. Além desse aspecto, é interessante notar que a referência à música Another Brick in the Wall pt. II é frequentemente mencionada em trabalhos acadêmicos na área da Educação, mesmo que esses estudos não se dediquem especificamente a analisar essa obra como objeto de investigação[1]. No entanto, pouco tem se discutido a respeito desta peça em trabalhos de pesquisa em Educação no Brasil.
Diante disso, o nosso objetivo é investigar as representações em torno da escola e da educação em The Wall, em relação ao debate educacional inglês na época da sua produção e lançamento. Para tanto buscamos investigar sobre a sua produção, analisar o debate público sobre a educação na Inglaterra no final da década de 1970 e início da década de 1980 e interpretar as cenas do filme que dizem respeito estritamente à escola. A partir disso, procuramos compreender uma possível apropriação destas representações pela direita brasileira contemporânea.
Este artigo se insere dentro da área da História da Educação e nossa orientação teórica está calcada nas noções de práticas e representações utilizadas por Roger Chartier no âmbito da História Cultural. Compreendemos as práticas e representações como elementos fundamentais na construção do mundo social e na definição das identidades individuais e coletivas (Chartier, 2002).
As representações são ferramentas de disputa utilizadas por diversos atores sociais, que se apropriam delas e as transformam em práticas culturais, estabelecendo uma dinâmica cultural na sociedade. Essa dinâmica permeia todos os aspectos da experiência humana, incluindo a Educação, onde as práticas e representações são utilizadas para disputar diferentes concepções (Chartier, 1991). As práticas e representações estão impregnadas de relações de poder e são atravessadas por questões e conflitos dos sujeitos que as produzem (Oliveira, 2018). No contexto das sociedades ocidentais, em que a violência é cada vez mais substituída por lutas baseadas em representações (Chartier, 2002), a linguagem musical e audiovisual se apresenta como uma fonte histórica relevante para a História da Educação, uma vez que a produção cultural está inserida no universo das práticas e representações (Barros, 2005). A cultura é um terreno de disputas, em que grupos sociais e ideologias políticas lutam pela hegemonia, e o ambiente escolar não está isento desses conflitos (Valim, 2012).
Nossa metodologia de investigação está pautada na análise do filme enquanto uma fonte histórica. De acordo com Napolitano (2006) e Moretin (2003), esse procedimento deve levar em conta a relação do caráter objetivo da imagem com seu caráter subjetivo, característica intrínseca da linguagem cinematográfica. Para tanto, é necessário observar o contexto de produção da obra na tentativa de se aproximar das intenções dos autores (Valim, 2012). Contudo, uma vez que um filme é distribuído e recebido pelo público, torna-se ele mesmo um agente histórico (Barros, 2007). Assim, não exploraremos Pink Floyd The Wall como uma fonte documental sobre as escolas britânicas, mas como parte de um debate público sobre a educação institucional.
Os muros da escola
Durante a gravação do álbum The Wall em 1979, o produtor Bob Ezrin reconheceu o potencial da faixa Another Brick in the Wall pt. II para se tornar um sucesso. Ele convenceu Roger Waters a repetir os versosda música para transformá-la em um single, mas sentiu que faltava algo para diferenciar a primeira estrofe da segunda. A origem da ideia de incluir um coral de crianças na faixa é motivo de controvérsia, embora seja mais aceito que tenha sido uma sugestão de Ezrin, que já havia trabalhado com vozes infantis em produções com Alice Cooper e Lou Reed.
Eles contataram Nick Griffiths, na Britannia Row Studios em Londres, para encontrar um grupo de crianças que cantaria a segunda estrofe. Ele entrou em contato com a escola Islington Green, conhecida por sua abordagem educacional progressista na época. O professor de música Alun Renshaw, considerado anarquista, foi convidado para participar do projeto. Renshaw tinha métodos de ensino peculiares, como levar os alunos para fora da sala de aula para ouvir e desenhar os sons ao redor.
Quando Griffiths propôs a Renshaw a ideia de levar as crianças para o estúdio, ele aceitou prontamente. O professor, que não havia obtido permissão da diretora, percebeu que poderia enfrentar problemas quando se deparou com a letra da música (Blake, 2012; Wintermann, 2007): “We don’t need no education! We don’t need no thought control! No dark sarcasm in the classroom! Teachers leave them kids alone! Hey, teachers, leave them kids alone! All in all you’re just another brick in the wall!” (Pink Floyd, 1979)[2]. De fato, a gravação não foi bem recebida pela direção da escola. No entanto, Renshaw se afastou da educação britânica por outros motivos. Alegou que se notava, na época, as “nuvens do conservadorismo” pairando sobre as escolas.
Segundo o relato do baterista Nick Mason, quando a música começou a tocar nas rádios, a imprensa se aglomerou em frente aos estúdios do Britannia Row (sem saber que a banda não estava presente), ávida por relatar a suposta exploração de crianças estudantes inocentes por astros do rock sem escrúpulos. Até a primeira-ministra, Margaret Thatcher, afirmou que odiava a música. Apesar de toda a controvérsia, o hino de protesto contra a educação institucional, que os estudantes ajudaram a gravar, se tornou a canção mais ouvida no Natal daquele ano (Blake, 2012; Mason, 2012; Walthall, 2022).
Que disputas ocorriam em torno da educação institucional inglesa nesse período? Há relações entre essas disputas com a produção e a recepção da faixa Another Brick in the Wall Pt. II?
Após a Segunda Guerra Mundial, a reforma educacional proposta pelo presidente do Conselho de Educação, Richard Austen Butler, indicado por Churchill, visava melhorar a coesão social e elevar a escolaridade da população britânica. A reforma estabeleceu o aumento da escolaridade obrigatória, a abolição das escolas privadas e o acesso gratuito à educação secundária para crianças acima de 11 anos. O sistema de ensino secundário foi dividido em grammar schools (voltadas para a formação acadêmica), secondary technical schools (ensino técnico-profissionalizante) e secondary modern schools (formação geral). O ingresso dos estudantes em uma destas categorias de escola era determinada por meio de um teste chamado 11-plus (Mazza; Mari, 2021; Ferreira Jr.; Bittar, 2014). Embora a proposta fosse realizar uma seleção meritocrática e vocacional dos estudantes, é necessário considerar o papel dos exames no sistema educacional, como expressões dos “valores escolares e de escolhas implícitas do sistema de ensino”, como apontam Bourdieu e Passeron (1992, p. 153). A forma como os estudantes foram distribuídos nas diferentes partes do ensino secundário não pode ser vista como isenta de arbitrariedade, como demonstraremos mais adiante.
Os membros do Pink Floyd estudaram no sistema 11-plus. Waters e Barret frequentaram a mesma escola de ensino fundamental, a Cambridgeshire High School for Boys, que era conhecida por seus professores “sádicos”, de acordo com ex-alunos. Blake afirma que a escola tinha um alto desempenho acadêmico. No entanto, Waters relata que, apesar dos bons resultados acadêmicos da escola, os alunos enfrentavam um ambiente insuportável e métodos antiquados (Blake, 2012). É essa a situação retratada em The Wall, como veremos mais adiante, apesar de não ser mais o sistema de ensino vigente na época de seu lançamento.
Até o final dos anos 1970, durante o período do Estado de bem-estar social britânico, o National Union of Teachers aumentou sua influência sindical sobre as Autoridades Educacionais Locais e os Conselhos Escolares (Ferreira Jr.; Bittar, 2014). Em relação aos métodos de ensino opressivos, de acordo com o historiador britânico Brian Simon, houve uma mudança no cenário ao longo da década de 1960. Avanços abriram o caminho para uma abordagem renovada na educação primária, com um afastamento decisivo das estruturas rígidas e dos métodos de ensino tradicionais do passado. Essa mudança, embora difusa, refletia os novos ideais dos anos 1960, que eram “talvez mais relaxados, mas certamente mais humanistas”. Novas políticas pareciam oferecer espaço para novas perspectivas, especialmente com a aceitação oficial do conceito de “discriminação positiva”, no qual uma proporção muito maior de recursos foi direcionada a crianças que viviam em áreas de maior necessidade (Simon, 1999, p. 389).
No entanto, durante a década de 1970, o Estado de Bem-Estar Social entrou em crise na Europa, e a questão da educação se tornou central para os britânicos. A queda nos padrões educacionais era frequentemente mencionada nos chamados black papers, uma série de artigos publicados por membros do Partido Conservador, que defendiam a controle e escolha das escolas pelos pais e competição entre as escolas. Esse movimento coincidiu com o mandato de Thatcher como secretária de Estado da Educação e Ciência, entre 1970 e 1974, posição que acompanhou sua ascensão como representante da nova direita.
Embora ela e o primeiro-ministro Edward Heath estivessem comprometidos com o sistema tripartite, esse modelo foi rejeitado tanto pela classe trabalhadora quanto pela classe média. Os trabalhadores vinham exigindo, desde o final da Segunda Guerra Mundial, um sistema abrangente (comprehensive system), com o livro The Rise of the Meritocracy do ativista, sociólogo e escritor britânico Michael Young (1967) como seu principal manifesto. Enquanto isso, a classe média observava suas crianças sendo obrigadas a frequentar as secondary modern schools, instituições estigmatizadas como destinadas a jovens pouco talentosos (Mazza; Mari, 2021; Hall; Gunter, 2015).
Tal sistema consistia na oferta de um mesmo curso secundário para todas as crianças em uma mesma escola, podendo apresentar um currículo principal comum e um paralelo de livre escolha ou apenas um currículo comum. Seus defensores eram contra a segregação dos estudantes em escolas com currículos diferentes a partir de testes aplicados na precoce idade de 11 anos (Bellaby, 1977).
Mesmo tendo implantado o sistema abrangente por pressão, este era objeto de crítica para a direita neoliberal, que o associava às metodologias progressistas que supostamente avançavam ao longo da década de 1960 e à consequente subversão da juventude, à sindicalização dos professores e ao nível excessivamente alto de autonomia do qual a categoria estaria usufruindo (Mazza; Mari, 2021; Hall; Gunter, 2015).
Dentre os diversos elementos que consolidaram a retórica conservadora em torno da educação na Inglaterra, damos destaque a dois: o caso da William Tyndale Junior School e a publicação do artigo “I Blame the Teachers” no jornal conservador Times, em 1976.
De acordo com as informações apresentadas pelo pesquisador John Davis, a escola secundária William Tyndale, localizada em Islington, foi o epicentro da maior polêmica educacional pós-guerra na Inglaterra entre 1974 e 1975. Essa controvérsia teve origem na implementação de métodos didáticos inovadores por parte de uma parcela significativa da equipe escolar. Os experimentos democráticos em sala de aula, que buscavam ampliar a liberdade das crianças para brincar ou estudar quando desejassem, foram alvo de críticas por parte de uma professora de leitura corretiva em meio período chamada Anne Walker. Ela argumentava que a educação fundamental das crianças estava sendo negligenciada e que seu progresso acadêmico estava sendo negado.
Durante o verão de 1974, a professora redigiu um manifesto atacando os métodos da escola e entrou em contato com os pais, que, por sua vez, criticaram severamente os "professores radicais" e transferiram seus filhos para outras escolas. Esse caso recebeu ampla cobertura midiática, o que levou as autoridades locais a iniciarem investigações sobre os métodos da escola. Os professores tentaram estabelecer uma alternativa próxima, conhecida como "escola de greve" (strike school). Em outubro de 1975, a equipe retornou à escola, mas apenas 55 estudantes permaneceram.
A repercussão desse caso levantou dúvidas na população sobre a qualidade do ensino público e contribuiu para a estigmatização dos métodos de ensino progressistas (Davis, 2002).
No ano seguinte, um industrial inglês chamado Barão Weinstock publicou um artigo no jornal conservador The Times, que ficou conhecido como um “manifesto neoliberal”. O título do artigo era “Eu Culpo os Professores”. Segundo os pesquisadores Ferreira Jr. e Mariluce Bittar, vários autores britânicos atribuem grande importância a esse artigo e o consideram um ataque ideológico direcionado ao sistema educacional britânico. Nele, o Barão Weinstock reclamava que os empresários do setor tecnológico nas áreas industrializadas da Inglaterra não conseguiam contratar a quantidade necessária de profissionais porque os estudantes estavam concluindo sua formação sem alcançar padrões educacionais adequados. Ele também afirmava que o sistema educacional empregava mais pessoas do que o necessário, especialmente em cargos não docentes.
Para reverter essa situação, a sua empresa, a General Electric Company, iria patrocinar um projeto de pesquisa para avaliar as atitudes dos adolescentes após um ou dois anos de trabalho. Os resultados dessa investigação seriam utilizados para promover um melhor entendimento mútuo entre a indústria e as escolas sobre essa situação (Ferreira Jr.; Bittar, 2014).
As críticas feitas por Weinstock não estavam desconectadas do contexto de ascensão do neoliberalismo. O conteúdo do artigo publicado por ele no The Times apresentava semelhanças com as teses educacionais defendidas por Milton Friedman no livro “Capitalismo e liberdade”, publicado pela primeira vez em 1962. Nesse livro, Friedman argumentava a favor da privatização das escolas como um mecanismo econômico para regular os salários e a qualidade do ensino (Friedman, 1984).
Segundo Cristian Laval, o neoliberalismo traz uma visão simplista da educação, retratando-a como uma atividade assimilada a um mercado competitivo. Nesse modelo, empresas ou entidades especializadas na produção de serviços educacionais buscam satisfazer os desejos dos indivíduos livres por meio da oferta de mercadorias ou serviços semelhantes a mercadorias. A concepção neoliberal implica que as instituições educacionais devem ser “gerenciadas” de acordo com as demandas individuais e as necessidades sociais de mão de obra, em vez de seguir uma lógica política de igualdade, solidariedade ou redistribuição em nível nacional. Nessa nova abordagem, a educação é tratada como um bem capitalista (Laval, 2004, p. 89).
Em uma reportagem exibida em maio de 1977, o jornalista e apresentador Tony Bastable, da Thames Television, destacou a controvérsia em torno do sistema abrangente de ensino. O professor Maurice Preston, do Queen Mary College, em Londres, defensor do sistema, argumentou que a sua implementação não teve origem em razões ideológicas. Ele afirmou que o sistema tripartite falhou, pois muitas crianças que não foram selecionadas para as escolas de elite aos 11 anos provaram ter tanto potencial quanto aquelas que foram selecionadas. Preston também enfatizou que é importante evitar hostilidades entre classes sociais, defendendo que filhos de trabalhadores, sindicalistas e empresários frequentem as mesmas escolas.
Por outro lado, o professor C. B. Cox, da Universidade de Manchester, criticou o sistema abrangente da época. Ele expressou a opinião de que um sistema totalmente abrangente não conseguiria manter padrões de ensino especialmente para crianças academicamente talentosas e, principalmente, para crianças de origem trabalhadora. Cox argumentou que, para manter padrões elevados, seria necessário contar com professores adequados, com formação sólida em ciências, matemática e literatura. Ele também afirmou que as crianças de origem trabalhadora poderiam se sentir excluídas ao estudarem com colegas mais ricos, enquanto em um sistema seletivo estariam com colegas do “mesmo tipo” (same kind). Nota-se que essa preocupação não se limitava apenas à separação com base nas aspirações e habilidades intelectuais dos estudantes, mas também à separação com base em suas classes sociais (British, 2021, n.p.).
Diante dessa controvérsia, questionamos: em que medida e de que maneira a banda Pink Floyd se posiciona em relação ao sistema abrangente ao retratar as grammar schools em Another Brick in the Wall pt. II, e por que esse posicionamento foi tão amplamente aceito pelo público britânico diante das controvérsias em questão?
As composições e performances do Pink Floyd frequentemente dialogavam com o contexto político inglês, revelando uma postura combativa em relação à nova direita. Mesmo nos anos mais recentes, especialmente por parte de Roger Waters, há um ativismo contínuo contra o neoliberalismo e o que ele chama de neofascismo. Essa postura também é evidente em The Wall. Embora o álbum não faça referências específicas aos grupos dominantes, conforme aponta o pesquisador David Boza Méndez (2017), ele ainda apresenta alvos para críticas em sua abordagem floydiana. Tanto o disco quanto o filme abordam questões relacionadas à educação e à controvérsia em torno do comprehensive system e a possível volta do sistema tripartite. Waters não se absteve do debate público nessas questões, como veremos a seguir.
Em 1979, após o lançamento do álbum, em entrevista para a BBC Radio, o baixista foi provocado pelo entrevistador: “A faixa The Happiest Days of our Lives, como eu a vejo, como eu a ouvi no álbum, é uma completa condenação da carreira escolar de alguém”. Ao que Waters responde:
Mmmm. Bem, minha vida escolar foi bem dessa maneira. Oh, foi horrível, foi realmente terrível. Quando ouço pessoas choramingando agora sobre trazer de volta as grammar schools, isso me deixa mal, porque eu frequentei uma grammar school para meninos e apesar… eu quero deixar claro que alguns dos homens que lecionavam nela [...] tinha alguns muito legais, sabe, eu não… não é pra ser uma condenação vazia pra todos professores em qualquer lugar, mas os ruins podem realmente fazer estrago - e tinha alguns na minha escola que eram muito maus e tratavam as crianças muito mal; só as reprimindo, reprimindo, sabe? O tempo todo. Nunca as encorajando a fazer coisas, sem tentar despertar o interesse delas em nada, só tentando deixá-las quietas e paradas, esmagá-las no formato correto, para que fossem pra universidade e se saíssem bem (Pink, 2013).
De fato, a faixa a qual o entrevistador se referia descreve uma rotina escolar cheia de sofrimento para o estudante: “Quando crescemos e fomos pra escola, havia certos professores que machucariam as crianças da maneira que pudessem. Derramando seu escárnio sobre qualquer coisa que fizéssemos e expondo cada fraqueza, mesmo que bem escondidas pelos meninos [...]”(Pink Floyd, 1979).
É importante ressaltar que a crítica presente no álbum não se volta para o sistema educacional vigente na época de seu lançamento, mas sim para as grammar schools, nas quais os membros do Pink Floyd estudaram. No entanto, é crucial compreender que evocar certos cenários do passado é uma maneira de se engajar com questões contemporâneas. Portanto, é necessário não considerar as representações criadas pelo Pink Floyd e outros colaboradores da obra como retratos precisos do modelo educacional em questão. Essas representações funcionam principalmente como comentários sobre as disputas que ocorriam no final dos anos 1970 e início dos anos 1980.
O relato de Waters revela o quanto esse comentário é uma forma de se opor às críticas reacionárias direcionadas ao comprehensive system. A banda faz isso apresentando a escola das décadas anteriores como uma instituição em que a “educação é igual a controle mental [...] e não mais um meio de atingir a emancipação mental e moral, mas um sistema opressor cujo único propósito é manter indivíduos sob controle, para que obedeçam às regras da sociedade” (MÉNDEZ, 2017, p. 369). No filme, essa ideia é apresentada por meio de uma imagem: a escola como moedor de carne (figura 1).
Figura 1
Fonte: PINK (1982).
Os estudantes ingressam na escola como indivíduos com alguma individualidade, mesmo que uniformizados. No entanto, o professor os oprime e a instituição os transforma em uma massa homogênea, sem características individuais. A escola os torna em um produto amorfo e mensurável. Como esse processo ocorre?
De acordo com o historiador Franco da Silva (2020), a figura do muro, presente tanto no álbum quanto no filme, aparece fisicamente pela primeira vez na parte correspondente a Another Brick on the Wall pt. II. Antes desse momento, somos apresentados ao jovem Pink durante sua infância, se divertindo com amigos nas proximidades da escola. Uma das brincadeiras envolve colocar balas de revólver nos trilhos do trem para ouvir o barulho ao passar. Enquanto Pink posiciona cuidadosamente as balas no túnel, seus amigos o alertam sobre a chegada do trem. Quando o trem passa, Pink está sozinho no túnel e observa o comboio cheio de crianças aparentemente aprisionadas. No primeiro vagão, vemos os braços das crianças desesperadas para serem vistas e para sair dali (figura 2). No vagão seguinte, outras crianças apenas olham para fora usando máscaras (figura 3). Nesse momento, Pink ouve a voz de seu professor chamando-o, embora ele não esteja presente. De repente, Pink é mostrado usando a mesma máscara das crianças do vagão. Era hora de ir para a escola (figura 4).
Figura 2
Fonte: PINK (1982).
Figura 3
Fonte: PINK (1982).
Figura 4
Fonte: PINK (1982).
Na sala dos professores, o sinal toca e todos se levantam para iniciar o trabalho, enquanto a música The Happiest Days of Our Lives começa a tocar. Na sala de aula, a música para e o professor percebe que Pink não está fazendo a atividade proposta, mas sim escrevendo poemas. Ele humilha Pink diante da turma, bate em seus dedos com um bastão e continua a lição.
Essas representações retratam como o personagem Pink se sente em relação à escola. Além disso, o depoimento de Waters indica como os criadores da obra se sentiam de forma parecida em relação às grammar schools. O filme destaca a relevância da estrutura física da escola na uniformização dos corpos dos alunos, enfatizando a importância de seus muros.
De acordo com a análise de Phillipe Ariès, a partir do século XVII, a educação das crianças passou a implicar o seu afastamento do mundo adulto. Segundo ele, a escola assumiu o papel de educar no lugar da aprendizagem direta com os adultos. Isso resultou na separação da criança dos adultos e em sua reclusão na escola, antes de ser liberada para o mundo. Esse processo de reclusão, conhecido como escolarização, tem sido aplicado às crianças ao longo dos anos, assim como acontece com os loucos, pobres e prostitutas (Ariès, 1981).
Os estudiosos Fernando Alvarez-Uria e Julia Varela, ao dialogarem com Ariès, ressaltam não apenas o aspecto físico, mas também o aspecto moral dessa "quarentena" escolar. Segundo eles, esses espaços de enclausuramento, como colégios e conventos, servem como barreiras que separam completamente as gerações jovens do mundo adulto, de seus prazeres, das tentações carnais e das artimanhas do demônio (Alvarez-Uria; Varela, 1991). Foucault, ao estudar os espaços disciplinares, destaca a importância de dividir o espaço em parcelas para controlar os corpos, estabelecendo presenças e ausências, monitorando comportamentos e medindo méritos. A disciplina não se limita apenas ao espaço, mas também abrange o tempo, exigindo que os corpos sejam aplicados e dedicados às atividades designadas, com exatidão, regularidade e qualidade (Foucault, 2014).
Assim, a escola retratada em The Wall é representada como um labirinto, onde o tempo é controlado pelo relógio (figura 5). Em cada corredor, as crianças marcham em filas, enclausuradas, enquanto são supervisionadas pelo professor e guiadas pelos ponteiros (figura 6).
Figura 5
Fonte: PINK (1982).
Figura 6
Fonte: PINK (1982).
Para o personagem Pink, dessa forma, a rebelião contra a escola implica em sua destruição. Em sua imaginação, as crianças se erguem de seus assentos, quebram as carteiras, derrubam as paredes e acumulam os destroços. Para se libertar da educação e do controle mental dos quais não precisam, é necessário que as crianças derrubem as paredes da escola e até mesmo incendeiem-na. A libertação da disciplina implica na destruição do espaço disciplinar (figura 7 e 8).
Figura 7
Fonte: PINK (1982).
Figura 8
Fonte: PINK (1982).
Como podemos perceber, as representações floydianas produzem um ataque contundente à educação institucional e, embora tenham como alvo principal as grammar schools, terminam por atingir aspectos universais da escolarização ocidental em um sentido mais amplo ao evocar elementos paradigmáticos das escolas. Retomando os questionamentos levantados na introdução deste artigo, cabe investigar brevemente o quanto esta crítica pode extrapolar as intenções dos seus autores ao serem apropriadas por outros agentes.
Resgatando a obra de Chartier, a pesquisadora Letícia Krilow afirma:
[…] as representações são colocadas num campo de concorrências e de competições, assim, o trabalho de construção de representações sociais não é algo simples, nem livre de conflitos. Ao contrário, ocorre mediante uma verdadeira disputa entre os grupos sociais e entre os profissionais especializados na produção de bens simbólicos (Krilow, 2022, p. 65).
Diante disso, podemos usar como um exemplo das apropriações que a direita brasileira fez de Another Brick in the Wall pt. II o artigo publicado no site da Brasil Paralelo, uma empresa privada de jornalismo e entretenimento com uma orientação política identificada com a exrema direita no Brasil.
De acordo com os pesquisadores Picoli, Chitolina e Guimarães (2020), nos últimos anos, a produtora emergiu como um destacado grupo criador de conteúdo para a internet, tendo o YouTube como seu principal meio de disseminação. Segundo seus idealizadores, a Brasil Paralelo é uma empresa formada por jovens empreendedores que, motivados pelo cenário político de 2014 e descontentes com a suposta hegemonia cultural de esquerda, optaram por criar conteúdo sobre uma nova abordagem política, oferecendo ao público acesso a "versões ocultas" da história do Brasil. Apesar de se autodenominar isenta de "ideologia” e se apresentar como um canal "puramente informativo", o conteúdo produzido tem como objetivo "resgatar" o sentimento nacionalista, segundo os próprios integrantes da iniciativa.
No artigo “Qual o significado de Another Brick In The Wall da banda Pink Floyd?”, é apresentada uma análise do canção e do seu clipe dentro da perspectiva política desta empresa. Chega-se à conclusão que “o tipo de professor criticado [na obra] é aquele que explora a fraqueza dos alunos, os humilha e até mesmo pode chegar à agressão física” (Qual, 2023, n.p.). Esta frase é seguida por um hyperlink para o artigo “Professores militantes em sala de aula. O que fazer?”, que abora o suposta doutrinação por um viés de esquerda que acontece nas escolas brasileiras (Professores, 2022, n.p.).
Embora enxergue no conteúdo da canção e do filme uma provável aproximação com uma perspectiva marxista, revolucionária, o artigo reconhece uma crítica pertinente aos sistemas de ensino, mas propõe um complemento a ela:
Para o doutor Alexandre Magno, especialista em educação e defensor do homeschooling, a afirmação feita na música oferece uma boa oportunidade de reflexão. Diz-se que não precisamos de educação, controle de pensamento ou de ser apenas mais um tijolo na parede. Para ele, a banda de fato fez uma profunda crítica ao sistema escolar. E acrescenta dizendo que poderiam ter dito: “We don’t need no schooling” (Nós não precisamos de escolarização) (Qual, 2023, n. p.).
Dessa forma, percebemos que é, sim, possível uma convergência ou uma apropriação das representações floydianas sobre as escolas pela direita brasileira: consiste em reinterpretá-las para corroborar a defesa do homeschooling e a luta contra a manifestação de posições políticas contrárias nas escolas.
Considerações finais
Como observamos, essas representações foram desenvolvidas durante um amplo debate sobre a educação, que, embora crítico, não era novo na sociedade britânica. Os criadores da obra tinham em mente sua própria experiência escolar, que não correspondia mais ao modelo educacional vigente na época. No entanto, não devemos concluir que, ao criticarem as grammar schools, os realizadores necessariamente defendiam o comprehensive system, como poderia sugerir a controvérsia em torno do assunto. Na verdade, os elementos enfatizados na representação da escola pelo Pink Floyd - o confinamento, a segmentação, o controle do tempo, a falta de liberdade, a homogeneização dos alunos - são bastante paradigmáticos.
O fato de Another Brick in the Wall pt. II ter se tornado um sucesso número um no Natal de 1979 não necessariamente favorece o sistema educacional daquela época, pelo menos na perspectiva dos estudantes. Além disso, o fato de a música ser uma das mais ouvidas da banda nas plataformas de áudio atualmente não depõe a favor dasescolas contemporâneas.
Neste estudo, buscamos analisar as motivações e o conteúdo de uma das críticas mais famosas e contundentes ao sistema educacional no mundo ocidental do século XX. No entanto, é importante notar que essa crítica e suas representações podem ser apropriadas e reinterpretadas de várias maneiras, inclusive pelos próprios criadores. Roger Waters, ao longo de sua carreira, reformulou The Wall mais de uma vez. Embora não tenha sido o foco desta pesquisa, seria interessante investigar como essa obra evoluiu ao longo do tempo.
Conforme discutido na introdução deste artigo, as palavras de protesto presentes nessa obra podem, à primeira vista, ser entoadas pelas mesmas figuras que estão sendo criticadas por seus criadores. Essa aparente contradição despertou o interesse em desvendar essas representações, analisá-las cuidadosamente, buscando compreender as condições que as qualificam como uma crítica significativa.
Observamos que essa obra congrega questões factuais, traumas reais e fictícios, e está em diálogo com debates públicos sobre os modelos educacionais na Inglaterra e aspectos universais da educação institucional contemporânea. Ela apresenta uma escola cuja estrutura física oprime, e a resposta implícita é sua destruição. Como educadores, é importante que critiquemos a educação institucional, mas devemos estar atentos aos perigos de uma crítica superficial e apressada. Em outras palavras, é necessário evitar que a autocrítica se torne autodestrutiva. Reconhecemos que a estrutura física da escola é relevante, mas também destacamos o papel dos profissionais que nela trabalham, especialmente os professores. Compreender isso nos convida não a destruir, mas transformar a educação institucional.
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Notas
[1] Por exemplo, o artigo “Just Another Brick in the Wall? Construindo e desvendando práticas de educação popular em uma favela carioca” (LOBO; MARCONDES; MUNIZ; KOURY, 2011); ou a menção feita por Sílvio Gallo, no seu artigo “Em torno de uma educação menor”: “Não consigo aqui me livrar das fortes imagens do filme The Wall, de Alan Parker, quando sob os sons de Another Brick in the Wall, do Pink Floyd, a escola inglesa é mostrada como uma imensa máquina que transforma crianças em bonecos sem face e que pouco a pouco são triturados num imenso moedor de carne. Cada estudante é, nada mais, nada menos, do que um outro tijolo no muro; ou uma outra engrenagem na máquina” (GALLO, 2002, p. 174).
[2] Tradução livre: “Não precisamos de educação! Não precisamos de controle mental! Chega de sarcasmo obscuro na sala de aula! Professores, deixem as crianças em paz! Ei, professores, deixem as crianças em paz! Em suma, vocês são só mais um tijolo no muro!”.