Perfil de Egressos do Curso de Licenciatura em Pedagogia do Instituto Federal Catarinense: Campus Camboriú e Videira
Profile of the Graduate of the Degree in Pedagogy at the Instituto Federal Catarinense: Campus Camboriú and Videira
Perfil del Egresado de la Licenciatura en Pedagogía del Instituto Federal Catarinense: Campus Camboriú y Videira
Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis – SC, Brasil.
Marilândes
Mól Ribeiro de Melo
Instituto Federal Catarinense, Campus Camboriú – SC, Brasil.
Recebido em 09 de outubro de 2022
Aprovado em 04 de maio de 2026
Publicado em 15 de maio de 2026
RESUMO
Este artigo analisa o perfil de egressos do curso de Licenciatura em Pedagogia do Instituto Federal Catarinense, nos campus de Camboriú e de Videira. Objetiva-se caracterizar o perfil dos egressos recém-formados dos cursos de Pedagogia de ambos os campi, evidenciando, assim, o conhecimento desse grupo de professores. As análises foram avolumadas pelas pesquisas bibliográficas e pelo questionário elaborado e disponibilizado aos egressos para acesso e respostas por meio da ferramenta Google forms. Optamos pelo questionário como instrumento técnico de coletas de dados; ele foi esteado essencialmente pelas produções bourdiesianas que nos viabilizou a aproximação relacional com o objeto de pesquisa; por meio das respostas caracterizamos o perfil dos egressos. Para conferirmos credibilidade a essa pesquisa, foi necessário analisar o objeto relacionando-o com o contexto ao seu redor, com as condições objetivas de sua realidade, pois ele nada é fora de sua articulação com o todo. O estudo identificou que os egressos possuem características específicas que ajudam a explicar tanto suas escolhas profissionais, quanto o desenvolvimento de sua identidade docente durante a formação.
Palavras-chave: Egresso; Curso de Pedagogia; Instituto Federal Catarinense.
ABSTRACT
This article analyzes the profile of graduates of the Degree in Pedagogy at Instituto Federal Catarinense - Camboriú and Videira campus. The same aims to draw the profile of recent graduates of the Pedagogy Courses of both campuses, thus evidencing the knowledge of this group of teachers. The analyses, carried out in this writing, were increased by bibliographic research and by the questionnaire applied to the graduates through the tool provided by the Google form. We opted for the questionnaire as a technical instrument for data collection, which was supported by Bourdiesian analyzes that made it possible for us to approach the object of research, where through the answers it is possible to characterize the profile of the graduates. In order to give greater veracity to this research, it was necessary to analyze our object relating it to the context around it, to the objective conditions of its reality, since it is nothing outside its coexistence with the whole. The study showed characteristics of the graduates that stand out in their expressive peculiarities and that legitimize the chosen profession.
Keywords: Egress; Pedagogy Course; Federal Institute of Santa Catarina.
RESUMEN
Este artículo analiza el perfil de los egresados de la Licenciatura en Pedagogía del Instituto Federal Catarinense - Campus Camboriú y Videira. El mismo tiene como objetivo dibujar el perfil de los recién egresados de las Carreras de Pedagogía de ambos campus, evidenciando así los conocimientos de este grupo de docentes. Los análisis, realizados en este escrito, fueron aumentados por la investigación bibliográfica y por el cuestionario aplicado a los egresados a través de la herramienta proporcionada por el formulario de Google. Optamos por el cuestionario como instrumento técnico de recolección de datos, el cual se apoyó en análisis bourdiesianos que nos permitieron acercarnos al objeto de investigación, donde a través de las respuestas es posible caracterizar el perfil de los egresados. Para dar mayor veracidad a esta investigación, fue necesario analizar nuestro objeto relacionándolo con el contexto que lo rodea, con las condiciones objetivas de su realidad, ya que no es nada fuera de su coexistencia con el todo. El estudio mostró características de los egresados que se destacan en sus peculiaridades expresivas y que legitiman la profesión elegida.
Palabras-clave: Salida; Curso de Pedagogía; Instituto Federal de Santa Catarina.
Introdução
Este artigo versa sobre o perfil de egressos do curso de Licenciatura em Pedagogia do Instituto Federal Catarinense - campus Camboriú e Videira[1]. Está sustentado pela tríade: processos formativos, IFC e egressos. Este último se constitui em um dos ângulos que ganham uma tonalidade especial na pesquisa, pois “o acompanhamento de alunos egressos é fundamental para elaborar uma análise dos dados que possibilitam um diagnóstico da formação oferecida” (Hinterholz, 2021, p. 90). Tal conduta “pode prover uma contribuição para que as instituições formadoras possam avaliar e reorganizar seus cursos a fim de melhorar as condições ofertadas para a formação inicial dos profissionais do magistério” (Hinterholz, 2021, p. 90). Para conhecermos o perfil dos egressos que participaram do estudo, foi necessário percorrer os espaços por onde o objeto transitou: o campo educacional no IFC e seus campi, Camboriú e Videira[2], para que então tivéssemos acesso aos dados apresentados sobre esses agentes.
Logo, para conferirmos credibilidade a esse artigo, foi necessário analisar o objeto relacionando-o com o contexto ao seu redor, com as condições objetivas de sua realidade, pois ele nada é fora de sua convivência com o todo.
Procedimentos metodológicos
Inicialmente, o propósito desta pesquisa era ir a campo para estabelecer o primeiro contato com o objeto. Pretendíamos informar os egressos sobre o estudo, conforme os protocolos requisitados para a prática da pesquisa em Ciências Humanas; nesse contato, seriam entregues documentos importantes para essa prática, tais como o Termo de Anuência, o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), o Termo de Assentimento e o Projeto. Com o consentimento dos egressos, entregaríamos o questionário em mãos e, posteriormente, procederíamos às análises. Porém, a pandemia de Covid-19 exigiu mudanças na organização inicial. Assim, recorremos aos meios tecnológicos, que foram essenciais para a realização do estudo, no que diz respeito à coleta de dados.
Diante disso, a primeira escolha metodológica foi a adoção de uma abordagem qualitativa (Gil, 2008), considerando a necessidade de compreender, de forma relacional, os processos formativos e a socialização profissional dos egressos do Curso de Licenciatura em Pedagogia do IFC. Destacamos a relevância das interpretações dos eventos, da compreensão do contexto e da ênfase na subjetividade como elementos centrais na compreensão das experiências narradas por esses agentes.
Essa análise baseia-se em conhecimentos teórico-empíricos, conferindo-lhe rigor científico. A segunda escolha metodológica, em relação aos objetivos, foi operar com pesquisa explicativa e interpretativa. A abordagem permitiu identificar fatores determinantes ou que contribuíram para a ocorrência de fenômenos relacionados aos processos formativos e à socialização profissional dos egressos, possibilitando sua interpretação e explicação, além de aprofundar o conhecimento sobre essa realidade específica.
Com base nessas definições metodológicas, a terceira decisão foi a escolha do questionário como instrumento de coleta de dados. Assim, os aportes empíricos resultaram da elaboração e da distribuição eletrônica do questionário. Além disso, coletamos informações dos Projetos Político-Pedagógicos dos cursos de Camboriú e de Videira, bem como dos questionários respondidos no Portal do Egresso do IFC. Adaptamos a estrutura do questionário para o “Google Forms”. O questionário foi semiestruturado, com questões abertas e fechadas, o que favoreceu o diálogo com o objeto de estudo, abrangendo cinco eixos principais: dados pessoais, trajetória escolar e acadêmica, processos formativos, carreira profissional e socialização profissional.
O questionário e os demais documentos foram submetidos ao Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos (CEPSH) e aprovados pelo Parecer nº 3.985.762, em 23 de abril de 2020. Obtivemos autorização do Instituto Federal Catarinense, campus Camboriú e Videira, para contatar os setores responsáveis pelos documentos necessários e pelo registro das informações pessoais e acadêmicas. Foram enviados 197 e-mails: destes, 124 para egressos do campus Camboriú e 73 para egressos do campus Videira. Recebemos 32 respostas dos egressos: 23 do campus Camboriú e 9 do campus Videira. Para caracterizar os egressos, usamos variáveis dos eixos dados pessoais, trajetória escolar e carreira profissional. Para proceder às análises, dialogamos com o pensamento dos autores escolhidos como interlocutores para esse momento, dentre os quais destacamos Bourdieu (1989; 2005; 2007; 2015); Bourdieu e Passeron (2014a).
As formas distintas de se conhecer e vivenciar a cultura legítima e o mundo universitário, segundo os diferentes grupos sociais, de acordo com Bourdieu e Passeron (2014a) interferem nas experiências do futuro escolar que
[...] não pode ser a mesma para o filho de um executivo de nível superior que, tendo tido mais de uma chance sobre duas de ir para a faculdade, encontra necessariamente em seu entorno social, e mesmo em sua família, os estudos superiores como um destino banal e cotidiano, e para os filhos de um operário que, tendo menos de duas chances sobre cem de ascender, só conhece os estudos e os estudantes através de outras pessoas e por meios inteiros (Bourdieu; Passero, 2014a, p.12).
Catani (2013, p. 25) afirma que, nesse sentido, a cultura “legítima”, confirmada pelas análises de diplomas, “[...] vem a ser a pertencente às classes privilegiadas”. Sendo assim, as possibilidades de entrada nesse campo e em cada uma de suas áreas relacionam-se claramente ao pertencimento social desses indivíduos, em que, mesmo com políticas públicas voltadas ao campo acadêmico, as estruturas excludentes permanecem ocultas à percepção social.
A partir dos entendimentos descritos, consideramos a pesquisa com egressos como ação assertiva no atual cenário brasileiro. É preciso considerar que os egressos dos cursos de Ensino Superior apresentam percepções que descrevem como a sociedade compreende e avalia essas instituições. Isso possibilita que haja um conhecimento mais próximo sobre o curso, seu perfil acadêmico e, também, a inserção dos recém-formados no magistério.
O acompanhamento de alunos egressos é fundamental para elaborar uma análise de dados que permita diagnosticar a formação oferecida. Esse acompanhamento pode contribuir para que as instituições formadoras avaliem e reorganizem seus cursos, a fim de melhorar as condições de formação inicial dos profissionais do magistério. Logo, com base nos resultados dessas investigações, os cursos podem rever seus planejamentos, suas práxis, suas definições frente às políticas educacionais e, ademais, seus projetos pedagógicos.
O que esperar do perfil do Pedagogo?
A formação do pedagogo e sua relação com o magistério têm gerado grandes polêmicas diante das propostas dos cursos de Pedagogia e de seu modo de oferta autorizado pelo Ministério da Educação (MEC). Várias foram as resoluções e os pareceres reformulados quanto ao critério e ao estabelecimento da carga horária dos cursos de Formação de Professores da Educação Básica.
Ressaltamos que o Curso de Licenciatura em Pedagogia se adapta ao conjunto de diretrizes das licenciaturas: a Resolução CNE/CP nº 1, de 18 de fevereiro de 2002; a Resolução CNE/CP nº 2, de 19 de fevereiro de 2002; a Resolução CNE/CP nº 1, de 15 de maio de 2006; a Resolução nº 2, de 1º de julho de 2015. Mais recentemente, em 2019, foi aprovada a Resolução 02/2019, do Conselho Nacional de Educação, que definiu as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação Inicial de Professores para a Educação Básica e instituiu a Base Nacional Comum para a Formação Inicial de Professores da Educação Básica (BNC-Formação) e, por fim, em 2024, foi aprovada a Resolução CNE/CP nº 4, de 29 de maio de 2024. Todas retratam elementos peculiares previstos para o pedagogo licenciado em sua atuação profissional e que definem o perfil do egresso do curso.
O perfil do licenciado em Pedagogia deve ir além dos definidos por suas diretrizes; suas orientações deveriam estar voltadas para aspectos como a valorização social, ética e cultural, evidenciados numa pluralidade de organizações sociais, amparados na justiça, na ciência e na arte e que sejam edificados por meio da docência no ambiente contextualizado com ensino, pesquisa e construção do conhecimento.
Assim, os cursos de Pedagogia do IFC já “antecipavam” em suas propostas o que veio a lume na Resolução nº 2, de 1º de julho de 2015, no inciso primeiro do capítulo I, que definia as Diretrizes Curriculares Nacionais para a formação inicial em nível superior (cursos de licenciatura, cursos de formação pedagógica para graduados e cursos de segunda licenciatura) e para a formação continuada:
Compreende-se a docência como ação educativa e como processo pedagógico intencional e metódico, envolvendo conhecimentos específicos, interdisciplinares e pedagógicos, conceitos, princípios e objetivos da formação que se desenvolvem na construção e apropriação dos valores éticos, linguísticos, estéticos e políticos do conhecimento inerentes à sólida formação científica e cultural do ensinar/aprender, à socialização e construção de conhecimentos e sua inovação, em diálogo constante entre diferentes visões de mundo (Brasil, 2015, p. 3).
Essa formação científica e cultural do ensinar e aprender resulta de aprendizados das práticas formativas da docência, que, na pesquisa, têm como verticalização a formação de professores, sendo essencial para o crescimento profissional desses agentes. Isso torna-se um elemento indispensável ao desenvolvimento da habilidade investigativa, contribuindo para sua formação profissional, científica e política.
No processo formativo anteriormente destacado, é possível compreender que o perfil do egresso, proposto pelos cursos de Pedagogia do IFC, e materializado em seu PPC, evidencia a constituição de uma identidade docente relacionada ao exercício do magistério na Educação Básica como eixo sustentador desses cursos. O gráfico 1, abaixo, ratifica essa defesa ao revelar que, dos 32 egressos que responderam ao questionário, 28 atuam na área.
Gráfico 1 – Egressos que atuam na área e carga horária de trabalho
Fonte: Elaborado pela autora a partir da pesquisa, 2021.
Torna-se relevante identificar, a partir do perfil do
egresso, em quais sentidos o curso contribui para a constituição dos saberes
docentes e para sua prática pedagógica. As descrições das reestruturações
ocorridas nos cursos de Pedagogia inserem-se em um conjunto de diretrizes
legais[3]
comuns aos cursos de licenciatura; ambas apresentam um conjunto de
características esperadas para o pedagogo licenciado em sua atuação
profissional, que determinam o perfil para o egresso do curso.
Em consequência às reformulações anteriores e à Resolução CNE/CP1 nº 01, de 15 de maio de 2006, o curso de Pedagogia adapta-se ao conjunto de diretrizes das licenciaturas e é direcionado a habilitar seu aluno para atuar na Educação Infantil, nos anos iniciais do Ensino Fundamental, nos cursos de Ensino Médio, na Modalidade Normal, e em curso de formação profissional, na área de serviços e apoio escolar, bem como em outras áreas nas quais sejam previstos conhecimentos pedagógicos. Sendo assim, baseados nessa Diretriz, além de estar apto para atuar nas etapas e modalidades de ensino referidas pela lei, o egresso do curso de Pedagogia deve ter a docência como base de sua formação e identidade profissional, apresentar um perfil crítico-reflexivo, capaz de atuar no ensino, na pesquisa, planejamento e gestão de projetos educacionais, bem como na construção e propagação do conhecimento em que o campo da educação se faz presente.
Tais ideias e esclarecimentos também se encontram expostos no perfil do egresso dos cursos de Pedagogia do IFC, presente no PPC, de modo a refletir o contexto em que o egresso se encontra ao trilhar seu caminho para exercer a função.
Sobre egressas/os do IFC campus Camboriú e Videira
Para compor o perfil dos egressos, a partir da disposição de ouvi-lo dizer sobre si, utilizamos os seguintes aspectos: atuação na área e carga horária de trabalho, sexo; faixa etária; cidade em que nasceu; religião; etnia; estado civil; número de filhos; grau de instrução do pai; grau de instrução da mãe; renda familiar; atuação na educação básica; escolha de uma segunda opção profissional. Tais aspectos compõem o questionário aplicado aos egressos por meio da ferramenta “formulário do Google”[4]. Esse item do estudo discorre sobre questões que ocasionaram a análise dos aspectos, como os dados pessoais. Como marca das pessoalidades, as análises dos questionários mostraram as seguintes características para os egressos no que se refere ao aspecto sexo:
Fonte: Elaborado pela autora a partir da pesquisa, 2021.
Evidenciamos, no gráfico, que, em sua maioria, os egressos do Curso de Pedagogia dos dois campi são constituídos por mulheres. Rabelo e Martins (2006, p. 6167), ao analisar a mulher no magistério brasileiro, destacam que “[...] o magistério se tornou um ‘gueto’ profissional feminino [...]” e que, em seus primórdios, o exercício do magistério era profissão masculina.
Sobre esse cenário Valle (2003, p. 130), esclarece que “[...] a feminização da profissão docente decorre da escolarização progressiva das meninas e de um amplo recrutamento de professores, efetuado no momento em que diversas ocupações e profissões, tradicionalmente reputadas masculinas, tornavam-se acessíveis às mulheres”. A autora, ao analisar as consequências mais visíveis da feminização do magistério, considera que a escolha do magistério pelas mulheres tem acontecido massivamente, mesmo que o alcance da escolarização das mulheres e sua representatividade no magistério estejam relacionados a diversos aspectos. Valle (2003) entende também que esses fenômenos não são espontâneos e, muito menos, ocorrem nas mesmas proporções em todos os lugares. Sendo assim, “[...] como consequência da abertura do magistério às mulheres, desqualifica-se e desvaloriza-se a mulher através do discurso da falsa igualdade dos gêneros”, limitando suas qualidades profissionais, “[...] invocando um papel feminino, um suposto ‘dom’ de um comportamento emocional e moral” (Rabelo; Martins, 2006, p. 6168). Outro aspecto observado nas análises está relacionado à faixa etária dos egressos.
Fonte: Elaborado pela autora a partir da pesquisa, 2021.
Quanto à faixa etária desses agentes, o gráfico mostra que mulheres de 20 a 30 anos compõem o maior percentual desse grupo. Considerando os aspectos de sexo e faixa etária, podemos afirmar o fato de que, no decorrer da história da educação brasileira, a atividade docente tem sido reconhecida como um ofício do sexo feminino.
De acordo com Valle (2003, p. 130), as mulheres apoderaram-se das “[...] profissões intelectuais tardiamente”, visto que ganharam destaque no exercício da docência com a propagação do ensino público primário, no final do século XIX, quando começaram a ser selecionadas para o magistério das primeiras letras, acentuando sua participação ao longo do século XX. Valle (2003, p. 124) ainda revela, em seus estudos, que
A escolarização das meninas apresenta uma dupla face: elas são favorecidas pela aquisição e desfavorecidas pela orientação. Isto quer dizer que as meninas viram-se, durante muito tempo, afastadas das escolas ou escolarizadas em áreas subordinadas, onde tudo era posto em prática para lembrar-lhes seu lugar certo, privado ou subalterno.
Diante do exposto, percebemos balizadas nas análises bourdisenianas, a materialização de uma violência simbólica que se institui de forma neutra e que se efetiva pela dominação masculina, a qual se evidencia de fato pela dispensa da justificação (Bourdieu, 1995). A dominação masculina assegura-se por ser suficiente a ponto de não necessitar de justificativa, pois “[...] ela pode se contentar em ser e em se dizer nas práticas e discursos que enunciam o ser como se fosse uma evidência, concorrendo assim para fazê-lo ser de acordo com o dizer” (Bourdieu, 1995, p. 137).
Sobre esse ponto, o autor afirma que “[...] ela está presente, em estado objetivado, no mundo social e também, em estado incorporado, nos habitus, onde ela funciona como um princípio universal de visão e de divisão, como um sistema de categorias de percepção, de pensamento e de ação” (Bourdieu, 1995, p. 137). Ou seja, as variáveis sexo e faixa etária, eminentemente femininas, instalam o desprestígio da profissão docente, desenhada a partir de um referencial feminino, em especial, na educação básica. Já no ensino superior, essa posição se inverte: como é mais prestigiosa essa docência, ela é exercida pelo sexo masculino, como revelam os números do documento Notas Estatísticas, emitido pelo INEP/MEC (Brasil, 2019). Outro aspecto com o qual trabalhamos na composição do perfil do egresso é o local de nascimento, conforme abordado no Gráfico 4 a seguir.
Fonte: Elaborado pela autora a partir da pesquisa, 2021.
Ao analisarmos o lugar de origem dos egressos, considerando a amostra de 32 respondentes, verificou-se a sua distribuição por diferentes estados e municípios, conforme apresentado no Quadro 1.
Quadro 1 – Lugar de origem dos egressos
|
Estado |
Município |
Nº de egressos |
|
Santa Catarina |
Balneário Camboriú (SC) |
4 |
|
Santa Catarina |
Camboriú (SC) |
1 |
|
Santa Catarina |
Itajaí (SC) |
4 |
|
Santa Catarina |
Tangará (SC) |
2 |
|
Santa Catarina |
Videira (SC) |
5 |
|
Santa Catarina |
Indaial (SC) |
1 |
|
Santa Catarina |
Concórdia (SC) |
1 |
|
Santa Catarina |
Urupema (SC) |
1 |
|
Rio Grande do Sul |
Canoinhas (RS) |
1 |
|
Rio Grande do Sul |
Horizontina (RS) |
1 |
|
Rio Grande do Sul |
Porto Alegre (RS) |
2 |
|
Rio Grande do Sul |
Passo Fundo (RS) |
1 |
|
Paraná |
Curitiba (PR) |
1 |
|
Paraná |
Cândido de Abreu (PR) |
1 |
|
Paraná |
Pato Branco (PR) |
1 |
|
São Paulo |
São Paulo (SP) |
1 |
|
São Paulo |
Franca (SP) |
2 |
|
São Paulo |
Santos (SP) |
1 |
|
São Paulo |
Santo André (SP) |
1 |
Fonte: elaborado pela autora a partir da pesquisa, 2021.
Nessa perspectiva, Melo (2014, p. 168) compreende que “[...] o lugar de origem é o espaço no qual se realizam experiências corporais profundamente inconscientes e imediatas com o mundo, em que gerações se sucedem e cravam suas marcas, arquitetam e elaboram suas representações”. Além disso, percebe-se também uma movimentação regional em que as condições sociopolíticas, geográficas e estruturais, dentre outros aspectos, podem ser indicadores das interfaces entre as possibilidades e/ou impossibilidades de se desenvolverem determinados fatores, que impulsionam o agente a conhecer e construir o mundo, tendo por base as práticas pertencentes ao lugar de origem (Escobar, 2005). Considerando a ideia de interface, defendida por (Escobar, 2005), um dos aspectos percebidos, como parte da diversidade cultural, é a religião, a qual se manifestou entre os egressos quando, dos 32 que responderam ao questionário, 23 se reconheceram como cristãos, ainda que a partir de diferentes denominações que abraçam o cristianismo como prática.
Fonte: Elaborado pela autora a partir da pesquisa, 2021.
A sociedade brasileira constitui-se historicamente por suas características étnicas, demonstrando uma imensa diversidade de culturas. Essa temática é uma das mais delicadas no que se refere às diversidades e discutirmos sobre ela nos faz considerar as diferenças culturais em suas pluralidades. As religiões fazem parte da cultura humana, presente em todos os povos e em todas as épocas históricas; embora diferentes todas tem algo em comum: a busca de uma relação com um saber fundamentado na realidade e no conhecimento do mundo. Nessa questão, não foi especificada uma religião como escolha, pois o intuito era saber a que contexto do sistema das diversidades culturais, de crenças e práticas o egresso se sentia pertencente.
Um sistema de educação pode refletir a diversidade em sua variedade de contextos, o que torna necessárias práticas educativas que respondam a essa demanda. Assim, saber em qual contexto das diversidades culturais o egresso está inserido ajuda a analisar seu perfil enquanto agente atuante no campo educacional. Esse âmbito tem como uma de suas funções promover possibilidades de interações interculturais, neste caso, relacionadas às questões da cultura religiosa. Isso se confirma quando Fleuri (2003, p. 35) demonstra que “[...] a escola não é espaço para ensinar a religião ou convicções de uma determinada confessionalidade, mas lugar de construção de conhecimentos sobre a diversidade cultural religiosa brasileira e mundial”.
Ao professor cabe propor e oferecer condições pedagógicas para debater sobre diversas experiências religiosas e suas tradições, construídas como modo de “[...] lidar com os desafios da vida cotidiana e, acima de tudo, execrar toda e qualquer forma de discriminação e preconceito” (Fleuri et al, 2003, p. 232). Sua contribuição para a reflexão sobre a maneira como a escola pode estar inserida na comunidade diversa, em seus aspectos culturais e religiosos, e sobre seu papel, junto às práticas pedagógicas da escola, proporcionará discussões construtivas para o aprendizado das relações interculturais.
Schäffer (1999, p. 166), ao analisar a questão dos entrelugares da cultura, em Bhabha (1998), mostra que estar em tal condição, de “[...] um entre-lugares; demanda que se ocupe o lugar intersticial que não está, a priori, demarcado”. Bhabha (1998, p. 59) desloca a diferença cultural da condição da “[...] terrível batalha disciplinar, no qual ela própria não terá mais espaço e poder [...]”; ou seja, transpõe a ideia de diferença enquanto “[...] reflexo de traços culturais ou étnicos preestabelecidos, inscritos na lápide fixa da tradição” (Bhabha, 1998, p. 59). Diante disso, as experiências advindas da religião, com suas tradições, podem, ao impor seu poder de imprimir significados, abalar as diferenças culturais como lugar do não preestabelecido, do que se “desmancha no ar”.
Outro traço que contribui para o desenho do perfil dos egressos do Curso de Pedagogia do IFC é a etnia; a esse respeito, os egressos responderam, como mostra o gráfico 6 a seguir:
Fonte: Elaborado pela autora a partir da pesquisa, 2021.
Observa-se, no cenário das pesquisas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA, 2010), que, nos tempos atuais, os estudos sobre temas como cultura, identidade, raça e etnia destacam-se, impulsionando a valorização do campo das Ciências Sociais. São também essas temáticas que se destacam na elaboração de ações afirmativas nas políticas públicas educacionais, as quais visam à integração social dos indivíduos pertencentes aos grupos citados. De acordo com o Ipea (2010)[5], 2% do corpo discente das universidades brasileiras, públicas ou privadas, é composto por estudantes negros. O que nos chama a atenção em nossa pesquisa é que, dos 32 egressos que responderam ao questionário, apenas três (9%) se declararam negros.
Picanço (2016), ao analisar a juventude e o seu acesso ao ensino superior, na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD, 2015)[6], de 1993 a 2012, observa um aumento das matrículas de negros e de jovens de menor renda. Esse pesquisador considera os resultados dos grupos desfavorecidos que conseguiram concluir o ensino médio e dos programas de ações afirmativas direcionados às instituições de ensino superior tanto as públicas, quanto as privadas que recebem esses agentes em seus contextos.
Nessa perspectiva, ao refletirmos sobre a relação entre educação, raça e etnia, constatamos que essa tríade é envolvida por lutas e significados, tanto políticos quanto sociais e culturais. Apple (1993; 1990) contribui para a compreensão de que, tanto em nossa sociedade quanto em outras, apenas alguns significados são considerados “legítimos”; somente algumas formas de compreender o mundo acabam por tornar-se “conhecimento oficial”. Fiske (1989, p. 1), ao se reportar a esses significados, relaciona-os como forma de poder.
A produção de cultura (e a cultura está sempre em processo, nunca acabada) é um processo social: todos os significados sobre o eu, sobre as relações sociais, todos os discursos e textos que exercem esses importantes papéis culturais podem circular, apenas, quando relacionados ao sistema social, no nosso caso, o capitalismo branco, patriarcal. Qualquer sistema social necessita de um sistema cultural de significação que sirva seja para mantê-lo, seja para desestabilizá-lo, para fazê-lo mais receptivo à mudança. Cultura [...] e significados [...] são, portanto, inerentemente políticos. Estão centralmente envolvidos na distribuição e possível redistribuição das várias formas de poder social.
No entanto, por mais que o campo educacional esteja alicerçado em ações afirmativas voltadas às questões de raça e cor, ainda existem barreiras estruturais que dificultam a permanência do negro no campo acadêmico, como os fatores da estrutura político-econômica e suas condicionantes.
No cenário desta investigação, no que se refere ao campo social dos egressos, os aspectos: estado civil; número de filhos; grau de instrução dos familiares (cônjuge, pai e mãe); profissão dos familiares (cônjuge, pai e mãe); renda familiar; atuação profissional e escolha de uma segunda opção profissional foram interpretados sob a égide de concepções sociológicas bourdiesianas como aportes para representar a constituição desses agentes pesquisados. De acordo com esta inspiração, consideramos que a herança familiar e cultural representa a constituição desses agentes, de maneira que toda a dimensão de seu capital o faz distinto, segundo o ambiente e a relação social que ele mantém. Bourdieu (2007) ratifica as possibilidades de configuração do capital cultural em suas formas de estado incorporado, objetivado e institucionalizado, conforme exemplificado anteriormente.
Assim, o autor considera que as práticas culturais, associadas a escolhas direcionadas a temas, como arte, comunicação, educação, políticas, grupos sociais, entre outros, e somadas à condição de conhecimento, sujeitas a uma intensidade completa de capital acumulado, medida pelos diplomas escolares ou pelo tempo de estudos, complementam a herança familiar que, por sua vez, influencia a trajetória de seu herdeiro. Esses podem também funcionar como mecanismos de eliminação que
[...] agem durante todo o cursus, é legítimo apreender o efeito desses mecanismos nos graus mais elevados da carreira escolar. Ora, vê-se nas oportunidades de acesso ao ensino superior o resultado de uma seleção direta ou indireta que, ao longo da escolaridade, pesa com rigor desigual sobre os sujeitos das diferentes classes sociais (Bourdieu, 2015, p. 95).
As situações de existência, como a posição no sistema econômico, geram disposições distintas. Os grupos com os quais o agente convive servem como referências que especificam os estilos de vida (ou seja, as práticas e as propriedades) de uma posição social ocupada por um dado agente. Sendo assim, de acordo com as considerações de Bourdieu (2015), no que se relaciona à herança familiar e cultural, dos trinta e dois (32) egressos participantes da pesquisa, metade é solteira. Quando analisada a condição de solteiros, casados ou de não terem filhos, considera-se que esses egressos possuem condições de usufruir plenamente de sua identidade de estudante. Podemos encontrar similaridade no aspecto do Gráfico 7 quando questionados sobre o número de filhos.
Gráfico 7 – Número de filhos
Os resultados apontados nesse aspecto mostram uma mudança no perfil dos estudantes: o que antes tínhamos nos cursos de licenciatura e Pedagogia como maior número de pessoas casadas e com filhos, conforme embasamento histórico já debatido nos primeiros capítulos, no caso dos egressos, que responderam ao questionário, observamos a maioria sendo solteiros e sem filhos; isso condiz com análises sociológicas que nos permitem afirmar que, em tese, esses egressos podiam usufruir da condição de estudante no que diz respeito a esse aspecto.
Essas, por sua vez, são favorecidas por condições próprias ao processo de formação da identidade do estudante. No entanto, esse aspecto não desvela as “[...] condições econômico-sociais e culturais que concedem tanto a liberdade quanto a gratuidade de escolher [...]”, pois “[...] os estudantes de classes superiores podem transformar o que se constitui em desvantagens para ‘os outros’ em privilégio escolar (Melo, 2014, p. 78). Bourdieu e Passeron (2014a, p. 34) destacam que as consagrações são propriedade daqueles que mais cultivam “[...] a arte de se distanciarem dos valores e das disciplinas escolares”. A categoria social estudante exige “[...] as condutas e as aptidões apresentadas [...]” inscritas com “[...] intensidade a marca das aquisições passadas” (Bourdieu; Passeron, 2014b, p. 29).
Para Bourdieu (1989), o campo educacional assume um significado fundamental no processo de construção da identidade, pois se estabelece num ambiente de produção de saberes e conhecimentos, constituindo um espaço privilegiado de aprendizagem cultural específica e de produção de sentido para as várias práticas sociais. A condição de estudante é uma categoria social “[...] na qual as condutas e as aptidões apresentadas [...]” carregam intensas marcas do passado. Mais um aspecto que impacta a constituição do desenho do perfil do egresso é o grau de instrução e profissão dos familiares, cujos quadros 2 e 3 evidenciam:
Quadro 2 – Grau de instrução dos familiares (pai, mãe, cônjuge)
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Grau de instrução[7] |
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*Pai |
**Mãe |
***Cônjuge |
|
Fundamental |
incompleto completo |
12 4 |
12 5 |
- - |
|
Ensino Médio |
Incompleto completo |
3 5 |
1 5 |
1 5 |
|
Não alfabetizado |
- |
2 |
- |
- |
|
Superior |
Incompleto |
- |
1 |
4 |
|
completo |
1 |
4 |
3 |
|
|
Pós Graduação |
Strictu Especialização |
- - |
1 - |
2 - |
|
Total de respondentes |
|
27(*5) |
29 (**3) |
15 (***17)
|
Fonte: Elaborado pela autora a partir da pesquisa, 2021.
Quadro 3 – Profissão dos familiares (pai, mãe, cônjuge)
|
Profissões citadas |
Pai |
Mãe |
Cônjuge |
Total |
|
Agente de saúde |
- |
1 |
- |
1 |
|
Agricultor (a) |
3 |
2 |
- |
5 |
|
Aposentado (a) |
1 |
1 |
1 |
3 |
|
Autônomo (a) |
2 |
1 |
- |
3 |
|
Borracheiro (a) |
1 |
- |
- |
1 |
|
Caseiro (a) |
1 |
- |
- |
1 |
|
Comerciante |
2 |
- |
- |
2 |
|
Corretor (a) de seguros |
1 |
- |
- |
1 |
|
Costureira (o) |
- |
1 |
- |
1 |
|
Dona (o) de casa |
- |
3 |
- |
3 |
|
Empresário |
- |
- |
1 |
1 |
|
Estofador |
1 |
- |
- |
1 |
|
Funcionário (a) público |
- |
2 |
- |
2 |
|
Mecânico de refrigeração |
1 |
- |
- |
1 |
|
Mestre de obras |
1 |
- |
1 |
2 |
|
Monitora educacional |
- |
1 |
- |
1 |
|
Motorista |
1 |
1 |
1 |
3 |
|
Publicitário |
- |
- |
1 |
1 |
|
Professor (a) |
- |
1 |
3 |
4 |
|
Profissional de logística |
- |
- |
1 |
1 |
|
Secretária (a) doméstica (o) |
- |
1 |
- |
1 |
|
Técnico em eletrônica |
1 |
- |
- |
1 |
|
Vendedor (a) |
1 |
2 |
- |
3 |
|
Vigilante |
- |
- |
1 |
1 |
Fonte: Elaborado pela autora a partir da pesquisa, 2021.
Tendo em vista o capital escolar e as profissões do pai e da mãe dos egressos, importa refletir sobre a aquisição do capital escolar como um importante fator que permite implementar estratégias de reprodução social, propiciadas pela educação e pela socialização escolar dos filhos. Bourdieu (2005) afirma que
[...] a reprodução da estrutura e da distribuição de capital cultural se opera na relação entre as estratégias das famílias e a lógica específica da instituição escolar. Esta tende a proporcionar o capital escolar, que outorga em forma de títulos (credenciais), ao capital cultural detido pela família e transmitido por uma educação difusa ou em curso da primeira educação (Bourdieu, 2005, p. 108).
Tendo em vista que o capital escolar dos pais e das mães dos egressos foi adquiro no ensino fundamental, observamos que a aquisição do capital cultural parece ter se operado na contramão do que seria o provável: os pais acessaram o prestígio social a partir do capital escolar adquirido pelos filhos no ensino superior.
Gimeno e Callejo (2014, p. 374) contribuem para entendermos que “[...] deste modo o capital cultural se transformou, mediante aquisição do capital escolar, em credenciais objetivas com valor de mercado, constituindo-se assim um fator fundamental para entender a reprodução social intergeracional”. Martin Criado (2010, p. 254 apud Gimeno; Callejo, 2014), afirma que, “[...] o capital escolar é uma forma de fechamento social que não assegura de forma automática a reprodução intergeracional de privilégios, uma vez que dependem de uma instituição externa, o sistema escolar”. Ou seja, a necessidade de um trabalho contínuo de manutenção do capital escolar fragiliza a própria condição da continuidade, tendo em vista que os progenitores dos egressos não são detentores “legítimos” de herança cultural e do capital econômico, que pode ser convertido em outros capitais. Isto é, não podem se distanciar da necessidade de aquisição do capital escolar para a aquisição do capital cultural. Outro aspecto analisado para compor a fisionomia dos egressos é o capital econômico propiciado pela renda familiar.
Os “achados” apontam que, com relação à renda familiar[8], 41% dos egressos apresentam renda acima de três salários mínimos. Bourdieu (2005, p. 17) considera que:
[...] despojadas de toda a aparelhagem técnica do discurso econômico (a ponto talvez de parecerem ingênuas àqueles que somente avançam armados de abstrações econômicas), é que elas mostram que tudo o que a ortodoxia econômica considera como um puro dado, a oferta, a demanda, o mercado, é o produto de uma construção social.
Toda riqueza econômica funciona como capital quando está relacionada ao campo econômico. Ao estabelecer relações objetivas com os diferentes campos, o capital econômico pode funcionar no processo de economia de trocas, adquirindo ou avolumando diferentes tipos de capital. O espaço social configura-se, no pensamento de Pierre Bourdieu (1996), como um campo de luta, no qual os agentes, sejam individuais ou grupais, organizam diferentes estratégias que fazem com que sua posição social seja mantida ou melhorada; tais estratégias estão sempre relacionadas aos diversos tipos de capital acumulado pelos agentes.
Nesses termos, não é possível abstrair a origem “das disposições econômicas do agente econômico” de tudo o que a elas está relacionado, tal como suas preferências, gostos, necessidades, aptidões e muito menos da origem “do próprio campo econômico, isto é, da história do processo de diferenciação e de autonomização que conduziu à constituição deste jogo específico” (Bourdieu, 2005, p. 18). Pierre Bourdieu (2005) afirma que
[...] as pressões estruturais, que pesam sobre os agentes econômicos, sejam eles simples consumidores, sejam responsáveis de unidades de produção mais ou menos amplas, não se reduzem as necessidades inscritas, num dado momento do tempo, nas disponibilidades econômicas imediatas ou na instantaneidade das interações: assim além do fato de que a marca e o domínio do campo estão inscritos nas disposições dos agentes (Bourdieu, 2005, p. 16).
A questão econômica não representa um dado puro no contexto dos agentes, mas é produto de uma construção social, como já afirmado. Nesse aspecto, o Estado contribui de modo decisivo para a constituição de demandas, que ocorrem por meio da produção das disposições individuais e dos sistemas de preferências individuais (Bourdieu, 2005). O capital econômico está, dessa maneira, enraizado no passado sob a forma de disposições ou de rotina por meio da história incorporada pelos agentes por ela responsáveis. As estratégias econômicas estão relacionadas a um “sistema complexo de estratégias de reprodução, estando, portanto, plenas de história de tudo o que visam perpetuar” (Bourdieu, 2005, p. 18).
Essa construção social, legitimada pelo Estado, junto às estratégias econômicas, configura-se em “um poder sobre a necessidade dominada” (Bourdieu, 2017, p. 56). Para o autor,
Não basta invocar o fato de que a aprendizagem escolar fornece os instrumentos linguísticos e as referências que permitem exprimir a experiência estética e, por essa mesma expressão, constituí-la: de fato, nessa relação, afirma-se a dependência da disposição estética em relação às condições materiais da existência, passadas e presentes, que são a condição tanto de sua constituição, quanto de sua implementação, além do acúmulo de um capital cultural (sancionado ou não do ponto de vista escolar) que só pode ser adquirido mediante uma espécie de retirada para fora da necessidade econômica (Bourdieu, 2017, p. 54).
Tendo os agentes pesquisados, neste estudo, como pertencentes a essa construção social e econômica dependente, posto que não podem se distanciar das necessidades e que se trata de renda familiar, evidencia-se a importância de analisar a renda familiar articulada à atuação profissional e à escolha de segunda opção profissional, como condição de traços que compõem o perfil do egresso.
Assim, analisamos os aspectos relacionados aos fatores de atuação profissional e à escolha de uma segunda opção profissional. Sobre o primeiro, o gráfico 8 destaca as informações de que os egressos, participantes desta pesquisa, em sua maioria, estão atuando em sala de aula e que os egressos, em sua grande parte, atuam na esfera administrativa pública.
Gráfico 8 – Atuação Ed. Básica e Instituição
Fonte: Elaborado pela autora a partir da pesquisa, 2021.
Sobre esse aspecto, para compreendermos os entornos que circunscrevem essas configurações, pertencentes ao corpo docente, observamos que
A configuração do corpo docente, é preciso descrever a configuração do sistema de educação nacional. Consideramos que as características do primeiro repousam sobre a estrutura organizacional do segundo, formando cadeias complexas de interdependência (Valle, 2003, p. 121).
Ao considerar a autonomia relativa das redes de ensino e as formas de compor seu corpo profissional, distinguem-se, entre elas, os meios de seleção para recrutar os profissionais. Enquanto a rede pública designa a seleção do pessoal por concursos, a rede privada elege seus próprios critérios para o recrutamento. Sendo assim, as evidências, apontadas no gráfico da esfera administrativa, em que o egresso atua, devem-se à formação sucessiva do “[...] corpo docente, exigida pelo movimento de escolarização pública, cuja noção de corpo profissional foi decisiva no processo de estatização da educação, sem dúvida nenhuma compatível com as expectativas da profissionalização” (Valle, 2003, p. 121).
Desse modo, o interesse na investidura da carreira profissional notabiliza a procura pela empregabilidade no setor público de ensino, pois a carreira no magistério, nesse âmbito, institui-se em premissas fundamentadas por legislação e estatuto específicos, que empregam requisitos para o profissional do magistério, como o Plano Nacional de Educação (PNE) e suas metas, no que diz respeito às metas de investidura no quadro profissional do magistério.
A escolha de uma segunda opção profissional também foi um dos aspectos utilizados no questionário. Conforme o gráfico 9, abaixo, os egressos manifestaram seus pensamentos sobre o aspecto, sendo que, dos 32 egressos participantes, 49% mostram-se satisfeitos com sua profissão e 38% disseram que, sim, teriam uma segunda opção profissional.
Gráfico 9 – Escolha
de segunda opção profissional
Conforme as observações do Gráfico 9 e diante das respostas dos questionários respondidos, a formação em Psicologia foi a mais apontada como uma segunda escolha profissional. Refletimos, diante dessa evidência, que, pelas conjunturas socioeconômicas e regionais, os egressos que indicaram o curso de Psicologia não dispunham de condições objetivas de oportunidade para a realização dessa escolha, diante do seu volume de capital econômico. Ao mesmo tempo, de modo mais lato, quando a Pedagogia é associada à Psicologia, ela desponta em posição submissa: Psicopedagogia; isso denota, de certo modo, a frágil capacidade de refratar sobre a Psicologia, recebendo uma maior interveniência.
Observamos ainda que 13% dos egressos afirmaram uma segunda opção profissional, uma espécie de escolha da “licenciatura por acaso”, como mostram Miranda, Lisbôa e Rezende (2015): um “acaso”, nesse estudo, notabilizado pelas esperanças que não puderam se materializar em oportunidades, diante dos volumes de capital econômico, restringidos a três salários mínimos como renda familiar. Sobre tal aspecto, Gatti (2010, p. 1361), em seus estudos, demonstra: no que se refere à escolha pelo curso de Licenciatura, exceto a Pedagogia, a opção pela docência aparece como “[...] uma espécie de ‘seguro-desemprego’, ou seja, como uma alternativa no caso de não haver possibilidade de exercício de outra atividade”. Ocorre sobretudo a licenciatura como segunda opção para os licenciandos de outras áreas.
Considerações possíveis
Frente a tantos desafios, percebe-se a importância da instituição de ensino superior assumir as responsabilidades perante seu currículo e sua matriz curricular de uma carga horária que abranja, com qualidade de tempo e conteúdos, o acompanhamento, bem como o exercício docente. Nas reflexões deste estudo, debatemos o perfil do egresso a partir da triangulação dada pela tríade: processos formativos, Instituto Federal Catarinense e egressos. Os fatores nela debatidos foram necessários para que pudéssemos delinear o desenho do perfil do egresso.
A interpretação dada pelas análises dos aspectos demonstrados nos gráficos e tabelas nos auxiliou com o desenho do perfil dos egressos que se manifestou pelas características: 75% são do sexo feminino; o estado civil da totalidade dos participantes apontou que metade são solteiros e a outra metade não; em sua maioria a faixa etária encontra-se 20 a 40 anos; a maior parte advém do estado de Santa Catarina; a religião predominante é a Católica; a etnia predominante é a de brancos sendo um total de 66%; metade possuem renda com até 3 salários mínimos; quanto ao campo profissional dos 32 egressos respondentes, 28 atuam no magistério e 25 em escolas públicas.
Referências
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BHABHA, Homi Kharshedji. O local da cultura. Belo Horizonte: UFMG, 1998.
BOURDIEU, Pierre. A escola conservadora: as desigualdades frente à escola e à cultura. In: NOGUEIRA, M. A.; Catani, A. (org.). Pierre Bourdieu: escritos de educação. 16. ed. Petrópolis: Vozes, 2015. p. 45 -72.
BOURDIEU, Pierre. O campo econômico.Tradução de Suzana Cardoso e CécileRaud-Mattedi. Política & Sociedade, v. 4, n. 6, p. 15-58, 2005. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/politica/article/view/1930/1697. Acesso em: 15 mar. 2020.
BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. S.A., 1989.
BOURDIEU, Pierre. Os três estados do capital cultural. In: CATANI, Afrânio;
NOGUEIRA, Maria Alice. Escritos da educação. 9. ed. Petrópolis: Vozes, 2007.
BOURDIEU, Pierre; PASSERON, Jean-Claude. A reprodução: elementos para uma teoria do sistema de ensino. 7. ed. Petrópolis: Vozes, 2014a.
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BRASIL- Conselho Nacional de Educação. Conselho Pleno. Resolução CNE/CP nº 2, de 1º de julho de 2015. Define as Diretrizes Curriculares Nacionais para a formação inicial em nível superior (cursos de licenciatura, cursos de formação pedagógica para graduados e cursos de segunda licenciatura) e para a formação continuada. Brasília, DF: MEC, 2015. Disponível em: https://www.gov.br/mec/pt-br/cne/resolucoes/resolucoes-cp-2015, acessado em: 06 de março de 2026.
BRASIL. Conselho Nacional de Educação. Conselho Pleno. Resolução CNE/CP nº 1, de 15 de maio de 2006. Institui Diretrizes Curriculares Nacionais para o curso de graduação em Pedagogia, licenciatura. Diário Oficial da União: Brasília, DF, 16 de maio de 2006. Disponível em: https://www.gov.br/mec/pt-br/cne/resolucoes/resolucoes-cp-2006. Acessado em: 06 de março de 2026.
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VALLE, Ione Ribeiro. A era da profissionalização: formação e socialização profissional do corpo docente de 1ª a 4ª série. Florianópolis: Cidade Futura, 2003.
This work is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial 4.0 International (CC BY-NC 4.0).
Notas
[1] Pesquisa realizada para a dissertação do mestrado em educação.
[2] O questionário, assim como os demais documentos desta pesquisa (Termo de Anuência, Termo de Consentimento de Uso de Dados, Termo de Assentimento e Projeto), tramitou pelo Comitê de Ética, sendo aprovado pelo Parecer nº. 3.985.762.
[3] A Resolução CNE/CP nº 1, de 18 de fevereiro de 2002, institui Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores da Educação Básica, em nível superior, curso de licenciatura, de graduação plena; e a Resolução CNE/CP nº 1, de 15 de maio de 2006. (*) Institui Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso de Graduação em Pedagogia, na Licenciatura. Resolução CNE/CP nº 2, de 19 de fevereiro de 2002. (*) Institui a duração e a carga horária dos cursos de licenciatura, de graduação plena, de formação de professores da Educação Básica em nível superior. Resolução CNE/CP nº 2, de 1º de julho de 2015 (*) (**) (***), define as Diretrizes Curriculares Nacionais para a formação inicial em nível superior (cursos de licenciatura, cursos de formação pedagógica para graduados e cursos de segunda licenciatura) e para a formação continuada.
[4] Devido à pandemia da COVID-19, houve a necessidade de reorganizar os métodos de pesquisa. Os egressos participaram da pesquisa por meio do formulário enviado aos seus endereços de e-mail. O formulário do Google é uma ferramenta interativa, disponibilizada pelo Google Aplicativo, que permite a construção de questionários por meio do formulário.
[5] IPEA, Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, é uma fundação pública federal vinculada ao Ministério da Economia, criada em 1964. Suas atividades de pesquisa fornecem suporte técnico e institucional às ações do governo na formulação e na reformulação de políticas públicas e de programas de desenvolvimento. Os trabalhos do Ipea são disponibilizados à sociedade por meio de publicações, seminários e de um programa semanal de TV (Panorama Ipea, no canal NBR). O Ipea tem por finalidade realizar pesquisas, estudos sociais e econômicos. Ele oferece apoio técnico e institucional ao Estado brasileiro na avaliação e formulação, bem como no acompanhamento, de políticas públicas e programas de desenvolvimento. Disponível em: https://www.ipea.gov.br/, acessado em: 02 de novembro de 2020.
[6] Pesquisa feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em uma amostra de domicílios brasileiros que, por ter propósitos múltiplos, investiga diversas características socioeconômicas da sociedade. A PNAD foi substituída, com metodologia atualizada, pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua - PNAD Contínua. Disponível em: https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/educacao, acessado em: 09/11/2020.
[7] Os asteriscos denotam as questões abertas que não foram respondidas, algumas relatando apenas nota de falecimento.
[8] De acordo com o site da Agência Brasil, o valor atual do salário mínimo, no início de 2019, era de R$ 954,00 (novecentos e cinquenta e quatro reais). No Projeto de Lei Orçamentária Anual (Ploa) de 2019, o valor fixado para o mínimo, a partir desse mesmo ano, 2019, passaria a R$ 1.006,00 mil e seis reais). No ano de 2020, conforme a Medida Provisória nº 919, de 30 de janeiro de 2020, o salário mínimo passa a ser de R$ 1.045,00 (mil e quarenta e cinco reais).