O corpo dançante na escola pela leitura do literário: uma experiência estética
The dancing body at school through the reading of the literary: an aesthetic experience
El cuerpo danzante en la escuela a través de la lectura literaria: una experiencia estética
Universidade do Vale do Itajaí, Itajaí, SC, Brasil
isleide@univali.br
Universidade do Vale do Itajaí, Itajaí, SC, Brasil
neitzel@univali.br
Recebido em 19 de julho de 2022
Aprovado em 08 de agosto de 2022
Publicado em 06 de fevereiro de 2024
RESUMO
Este artigo tem como objetivo tecer relações entre corpo, dança e a leitura do literário que são produzidas no espaço da escola, por meio da obra literária Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa. É um estudo de abordagem qualitativa, que utilizou a metodologia Pesquisa Educacional Baseada em Arte (PEBA): A/r/tografia. Os sujeitos da pesquisa foram alunos do contraturno escolar, do 6º ao 9º ano do Ensino Fundamental, de uma Escola Básica da Rede Municipal de Ensino de Itajaí, SC. A produção dos dados deu-se em 11 oficinas de dança, tendo como objeto propositor a literatura. Os resultados apontam que o corpo dançante pode fazer uma experiência pela leitura do literário com mediações culturais adequadas que provoquem a relação entre obra e corpo, motivando os sujeitos a pensar e a sentir em como seus corpos se movimentam e se relacionam com a obra, com os outros e com o espaço.
Palavras-chave: Dança; Experiência; Escola.
ABSTRACT
This paper aims to weave relationships between body, dance and the literary reading that are produced in the school space, through the literary work Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa. It is a study with a qualitative approach, which used the methodology Arts-Based Educational Research (ABER): A/r/tography. The research subjects were students of the extra hour classes, from the 6th to the 9th grade of Elementary School, from a Basic School of the Municipal Teaching Network of Itajaí, SC, Brazil. The production of data took place in 11 dance workshops, using literature as a propositional object. The results point that the dancing body can undergo an experience through the reading of the literary with appropriate cultural mediations that provoke the relationship between the literary work and body, motivating subjects to think and feel about how their bodies move and relate to the work, with others and with space.
Keywords: Dance; Experience; School.
RESUMEN
Este artículo tiene como objetivo tejer relaciones entre cuerpo, danza y lectura literaria que se producen en el espacio escolar, a través de la obra literaria Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa. Tratase de un estudio cualitativo, que utilizó la metodología de Investigación Educativa Basada en el Arte (PEBA). Los sujetos de la investigación fueron estudiantes extraescolares, de 6º a 9º año de la Enseñanza Primaria, de una Escuela Básica de la Red Municipal de Educación de Itajaí, SC. La producción de datos se llevó a cabo en 11 talleres de danza, teniendo como objeto propuesto la literatura. Los resultados indican que el cuerpo danzante puede tener una experiencia a través de la lectura de literatura con mediaciones culturales apropiadas que provoquen la relación entre trabajo y cuerpo, motivando a los sujetos a pensar y sentir sobre cómo sus cuerpos se mueven y se relacionan con la obra, con los demás y con el espacio.
Palabras clave: Danza; Experiencia; Escuela.
Introdução: O exercício poético do corpo dançante
Eu atravesso as coisas – e no meio da travessia não vejo! – só estava era entretido na ideia dos lugares de saída e de chegada. Assaz o senhor sabe: a gente quer passar um rio a nado, e passa; mas vai dar na outra banda é num ponto muito mais embaixo, bem diverso do em que primeiro se pensou. Viver nem não é muito perigoso?
Essa epígrafe de Grande sertão: veredas inicia nosso artigo porque essa obra foi um dos objetos propositores que selecionamos para efetuar nossa pesquisa, que teve como objetivo explorar possibilidades de o corpo dançante fazer uma experiência pela leitura do literário no ambiente escolar. Um objeto propositor é aquele que nos provoca a desvelar a poética da obra, seu projeto de estruturação, que é um projeto de pesquisa. Quando um texto literário é potente, pode nos desafiar a produzir significados diversos, ampliando nossa perspectiva de mundo, e, por meio desse movimento de compreensão de sua poética, reelaboramos sentidos e somos atravessados pelo texto. Nessa travessia, o mais importante não é o lugar de saída ou de chegada, mas o caminho percorrido, como sinaliza Rosa (1986).
Neste artigo, buscamos, com Grande sertão, tecer as relações entre corpo, dança e leitura do literário que são produzidas no espaço da escola, no intuito de ampliarmos nossa compreensão sobre nosso próprio corpo, adentrarmos as fugas do texto literário, dialogarmos sobre elas e expressarmos nossos sentidos por meio de nosso corpo. Afinal, lemos também por meio dele, e o mundo é sentido e percebido através dele. Como afirma Petit (2019, p. 169): “Escrever ou ler começa no corpo”.
Quando interagimos com o texto literário, mobilizamos não apenas os olhos para o deciframento dos signos linguísticos, mas há todo um complexo movimento corporal poético que se sensibiliza nessa compreensão. Por intermédio de nosso corpo, passamos a ressignificar o texto literário. A linguagem poética que se mostra a nós pelo literário ressoa em nosso corpo, e a exploração do texto literário, quando se dá por meio de sensorialidades, amplia a interação do leitor com a obra.
No entanto, é preciso considerarmos, também, que há uma poética intrínseca em nosso corpo que é desvelada na sua escuta, e a leitura do literário como experiência estética, além de possibilitar que o sujeito adentre o texto, pode provocá-lo e por ele ser afetado. Além da poética da obra, há uma poética, que se reinventa ou ressignifica na leitura do literário, pela linguagem natural do nosso corpo, quando mediada pelas vias estésicas. Ela pode provocar o sujeito a rasgos poéticos, a um encontro sensível, capaz de afetá-lo e possibilitar outros olhares e entendimentos, pois o texto “[...] possui uma força que nos chama a alçar voos e descobrir os caminhos mais impensados” (Neitzel; Cruz; Weiss, 2017, p. 123). É no percurso de pensar, de sentir e de dizer que o homem encontra a sua linguagem e torna-se um corpo presente, consciente, original e poético na experiência com a linguagem. Nosso corpo é linguagem, e a linguagem fala, portanto o corpo fala, ele próprio se anuncia e é anunciado.
Petit (2009) afirma que a literatura nos empresta os olhos para ver o espaço que ela nos oferece: de paisagens, de emoções, de pensamentos, de atravessamentos, de passagens, “[...] uma verdadeira abertura para um outro lugar, onde o devaneio, e, portanto, o pensamento, a lembrança, a imaginação de um futuro tornam-se possíveis” (Petit, 2009, p. 76). A potência da literatura convoca o corpo a falar, pois ele é sempre campo de experiências. No entanto, é silenciado muitas vezes pela sociedade, pela universidade, pela escola. Aprendemos, desde que nascemos, regras de comportamento que vão nos ensinando que há gestos interditos, limitando nossos movimentos, conformando-os aos padrões sociais.
Na escola, ainda é muito presente, o enfileiramento, o aprender em carteiras e cadeiras, o silêncio e a escuta da voz do professor, o modo correto de se expressar. No entanto, há de lembrarmo-nos que a educação perpassa pelo corpo, pelo equilíbrio integrado entre o sentir e o pensar, pela exploração de movimentos que nos convidam a perceber as nuances do nosso corpo.
Qual o lugar que a linguagem poética possui em nossas vidas, em especial, na escola? Como nosso corpo se relaciona com a linguagem do mundo? Como a linguagem corporal se anuncia cotidianamente na escola? Segundo Gonçalves (2017, p. 610), quando olhamos “[...] para a escola pelas lentes da comunicação e da linguagem [...]” passamos a oportunizar “[...] que os percursos de investigação se caracterizem enquanto trilhas a percorrer, não estáticas, em processo permanente de construção”. Para ativar as lentes de comunicação do nosso corpo, buscamos experimentar, por meio da dança, formas de dizer, explorando o que se circunscreve na relação de corpo e mundo, de coisa e mundo, movimento que nomeamos de “corpo dançante”, que “[...] é um corpo no mundo que traz suas marcas da vida [...]; é a dramaturgia do corpo que busca sua singularidade e permite vir à tona a mais sincera dança que se desvela pelos movimentos da vida e no fazer uma experiência” (Autora, 2021, p. 108, grifo da autora). Entendemos que a escola pode ser o espaço para esse corpo dançante se mostrar, para esse saber corporal ser retomado, saber que carrega a sua história, a qual é construída pelas contaminações das informações, do ambiente e das relações estabelecidas.
Pela dança possibilitamos o fazer uma experiência que mobiliza a aprendizagem pelo corpo, no corpo, oportunizando o conhecimento pelo viés do sensível sem estar apartado do inteligível. Uma aprendizagem para além dos padrões habituais de ensino, pois “[...] na aula de dança, os corpos são distribuídos no espaço vazio, sem a segurança do comportamento naturalizado nas classes e cadeiras de uma sala de aula tradicional” (Falkembach, 2019, p. 133).
O diálogo do corpo com suas sensações, percepções, intenções e inquietações nomeia um corpo pensante e presente, um corpo atento e disponível para sentir, pensar e deixar aflorar sua linguagem e a sua história. Pelo reconhecimento desse saber corporal podemos dar a oportunidade para esse corpo dançante olhar para si, para suas percepções, suas sensações, seus entendimentos e suas possíveis relações com o outro, com o coletivo e com o mundo, de modo a provocar outros modos de olhar, de sentir e de atuar nos meios ao qual o sujeito está inserido, poetizando por meio do corpo. Para Heidegger (2015, p. 59):
Poetizar significa: dizer seguindo a proclamada harmonia do espírito do desprendimento. Antes de tornar-se um dizer, ou seja, um pronunciamento, poesia é na maior parte de seu tempo escuta. O desprendimento acolhe antes de mais nada a escuta em sua harmonia para que essa harmonia repercuta no dizer em que ela está a ressoar.
Considerar a escola como um espaço de poetizar é pensá-la como lugar de trocas e, também, de escuta do seu próprio corpo e do outro. Gonçalves (2017) traz à tona a questão da escola como um espaço que ainda “[...] precisa encontrar o lugar da diversidade, do diálogo e da busca de formas de produção do conhecimento que dissipem o protagonismo do professor, dando lugar a trocas simbólicas efetivas entre os sujeitos/agentes da educação” (Gonçalves, 2017, p. 611). É nesse espaço da educação que crianças e adolescentes se constituem por meio da construção de saberes, de indagações, de relações sociais e de conhecimento pessoal, visto que são vivências que contribuem para suas histórias de vida. Essa posição convida-nos a olhar para o corpo, promover o diálogo para dar vazão às subjetividades, espaço para a leitura das entrelinhas anunciadas nos movimentos e entrelugares que o corpo habita. Por isso, buscamos, neste artigo, dar relevo à linguagem dos corpos, fazendo uso da literatura como objeto propositor, para, por meio dela, provocar o fazer uma experiência.
Em seu texto A essência da linguagem, Heidegger (2015) convida-nos a refletir sobre a experiência, em fazer uma experiência com algo, que, para o autor, significa “[...] que esse algo nos atropela, nos vem ao encontro, chega até nós, nos avassala e transforma” (Heidegger, 2015, p. 121). Nesse contexto, o verbo “fazer” não significa uma ação de produzir ou realizar a experiência, mas acolher o que nos vem ao encontro e permitir-nos receber, sentir e perceber a experiência.
Para Heidegger (2015), o fazer uma experiência com algo necessita que esse algo nos venha ao encontro, nos atravesse e nos sensibilize para possibilitar o nosso consentimento de ir ao encontro desse algo, possibilitar o estar a caminho ou em busca de alguma coisa. É um movimento que perpassa pelo trilhar de um caminho, pela busca de algo que transcorre pelo pensar e pelo sentir do corpo, pois o pensar leva-nos a questionar e a consentir a escuta, o que nos abre para as percepções e anuncia um novo caminho. “Fazer uma experiência com alguma coisa significa que, para alcançarmos o que conseguimos alcançar quando estamos a caminho, é preciso que isso nos alcance e comova, que nos venha ao encontro e nos tome, transformando-nos em sua direção” (Heidegger, 2015, p. 137).
Para fazer uma experiência, o corpo necessita recolher-se no acontecimento do encontro com algo, na escuta do que o ser diz e da relação que se produz. Foi esse movimento que buscamos oportunizar na escola, pela exploração da linguagem corporal, pela dança e pela literatura, que produzisse acontecimentos pelo recolhimento, pelo sentir, e, ao dizermos o que pensamos e sentimos, o corpo se mostra. Contudo, não é qualquer dizer, é o exercício do dizer poético, produzido pela razão e pela sensibilidade.
A exploração da linguagem corporal pode possibilitar o fazer uma experiência quando os sujeitos se deixam atravessar por ela, quando os movimentos lhes acontecem. Para isso, é necessário que esse corpo sujeito se aproprie daquilo que desconhecia e renuncie preconceitos. Para Heidegger (2015), estabelecer uma relação com a linguagem significa renunciar algo, ver e caminhar por outras travessias, abdicar de hábitos estabelecidos, um conceito que nos impulsiona a pensar nas conexões com o corpo nunca percebidas, ou, até mesmo, nas possibilidades de expressarmo-nos por um olhar, um toque, um gosto, um som ou outro movimento. A partir dessa renúncia é que podemos nos apropriar do novo, nos transformar, um movimento que Heidegger (2015) denomina de “re-anunciar”.
O fazer uma experiência pela dança oportuniza um constante movimento de reconhecimento do corpo, de movimentos que nos atravessam, que nos vêm ao encontro, nos provocam, nos intimidam a pensar, nos afetam. Fazer uma experiência com a linguagem da dança oportuniza aos adolescentes um olhar para seu íntimo, um diálogo entre pensamento e sensibilidade, despertando um corpo presente, atento, sensível, criativo, que se mostra pelo movimento dançante a partir do que o corpo lhe diz, sente. Esse corpo permite-se encontrar com o outro, com o espaço, com o coletivo, e, nessa relação, pode entender outros modos de ver a dança e suas possibilidades de ação no mundo. Nesses movimentos, desabita-se o cotidiano, os hábitos estabelecidos, as formas de mover-se diariamente e adentra-se outros modos de expressar-se, de dançar e de relacionar-se com o outro, possibilitando um encontro com sua linguagem corporal. “É no corpo a corpo, na criação coletiva [...] em dança, no convívio em grupo sem pisar no pé do outro que se produz o maravilhamento que nos afasta de nossas zonas de hábito, fazendo que [...] possamos nos abrir a outras possibilidades de ser e existir” (Coutinho; Soter, 2019, p. 75).
Heidegger (2015) discute sobre a linguagem do homem, porém não a discute a partir da linguística em seus aspectos fonéticos, morfológicos, sintáticos ou semânticos, e nem se refere a ela como uma forma de comunicação, expressão ou ação do homem. A linguagem que Heidegger (2015) busca é diferente da ação de falar do indivíduo, pois o filósofo anuncia que essa é uma função do corpo que propicia ao homem pronunciar sons, e ele se utiliza desse recurso para expressar-se sonoramente. Entendemos a linguagem como um modo de ser, o que possibilita ao sujeito pensar, sentir, revigorar-se, transformar-se, educar-se, atuar, ser homem.
Metodologia
Esta pesquisa, submetida e aprovada pelo Comitê de Ética da XXX, respeitou todas as salvaguardas éticas necessárias e requisitos da Resolução CNS Nº 466, de 12 de dezembro de 2012 (BRASIL, 2013) e suas complementares. É um estudo de caráter qualitativo e se utiliza da metodologia Pesquisa Educacional Baseada em Arte (PEBA): Artografia. O objetivo foi tecer relações entre corpo, dança e a leitura do literário que são produzidos no espaço da escola. Foi desenvolvida com alunos do 6º ao 9º ano do Ensino Fundamental, no contraturno escolar, no espaço do auditório de uma Escola Básica da Rede Municipal de Ensino de XXX, XXX, durante seis meses, quinzenalmente, tendo cada encontro cerca de 1 hora e 50 minutos, e teve a literatura como objeto propositor para o desenvolvimento da dança pelo viés da experiência. A produção dos dados deu-se em 11 oficinas de dança, em práticas voltadas à percepção do corpo e à criação em dança, tendo como objeto propositor a literatura como provocadora de sentidos e de movimentos.
Esta pesquisa é um recorte de uma tese de Doutorado e seus dados foram coletados antes do distanciamento social imposto pela pandemia da Covid-19. Ela se utilizou de vários elementos propositores para explorar o conceito de corpo dançante; no entanto, para este artigo, escolhemos focar na literatura como objeto propositor, explorando trechos da obra literária Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, os quais eram lidos e discutidos no grupo, repercutindo em movimentos dançantes. A escolha por essa obra justifica-se tendo em vista que Grande Sertão: Veredas é uma obra com potência para a experiência estética, aberta, atemporal, que nos permite entrar nela por várias lentes, uma vez que seu projeto literário se revela plurissignificante, com vários estratos, a saber: filosóficos, metafísicos, metalinguísticos, entre outros. É uma obra que nos exige adentrá-la, não apenas pela racionalidade, mas, principalmente, pela sensibilidade; é uma leitura que se desdobra em múltiplos sentidos, que provoca a fruição e a experiência estética, pois “[...] há uma face afetiva em toda experiencia literária: um modo de nos aproximarmos das obras por meio de sensações físicas e emoções” (Diniz, 2017, p. 478). A PEBA é uma metodologia de pesquisa que envolve a arte na construção de saberes e busca “[...] deslocar intencionalmente modos estabelecidos de se fazer pesquisa e conhecimentos em artes, ao aceitar e ressaltar categorias como incerteza, imaginação, ilusão, introspecção, visualização e dinamismo” (Dias, 2013, p. 23). Já a A/r/tografia é uma prática da PEBA, que coloca a criatividade frente ao processo de ensino e de pesquisa. É considerada uma Pesquisa Viva “[...] porque se trata de estar atento à vida ao longo do tempo, relacionando o que pode não parecer estar relacionado, sabendo que sempre haverá ligações a serem exploradas” (Irwin, 2013, p. 29). Ademais, ela aceita as percepções como produtoras de significados pessoais e coletivos e identifica as redes de relações.
Os instrumentos de produção de dados foram fotografias e vídeos dos encontros, assim como o diário de campo da pesquisadora. Todas as imagens apresentadas neste estudo foram tratadas para o desfoque dos rostos com o objetivo de preservar a identidade dos sujeitos envolvidos nesta pesquisa. A análise de dados deu-se também pela PEBA que é uma metodologia que caminha em um movimento constante na busca de transformações, conceitos, sentidos, interpretações, deslocamentos, relações e que considera a sensibilidade das pessoas. Dessa maneira, a dança aproxima-se da PEBA: A/r/tografia por ser um constante movimentar, não somente do corpo, mas também dos sentidos, dos sentimentos, das percepções e das trocas que ressignificam o estar, o fazer e o criar do ser humano.
A literatura e o corpo dançante
O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta (Rosa, 1986, p. 278).
A epígrafe desta seção foi um dos excertos de Grande Sertão: Veredas que foi selecionado como objeto propositor para provocar a experiência com o corpo dançante. Buscamos explorar a potência estética de alguns excertos dessa obra para ressignificar o olhar do grupo sobre seu corpo, sua própria história, sobre seu contexto, entrecruzando as histórias pessoais dos adolescentes com a do texto por meio de seus corpos. Apostamos que a potência do texto literário poderia desafiar os adolescentes a terem um acontecimento, conforme anunciam Neitzel, Cruz e Weiss (2017). Para as autoras, a leitura do literário como acontecimento “[...] trata sempre de devir-outro, de devir outra coisa, de um devir mundo” (Neitzel; Cruz; Weiss, 2017, p. 135). Nesse devir, ao ressignificar o texto, além da criação de outros sentidos na relação entre texto, leitura e vida, o corpo dançante revela suas marcas da vida e, na dramaturgia do corpo, na sua singularidade, deixa vir à tona movimentos dançantes da vida que potencializam saberes sensíveis e inteligíveis, os quais podem levá-los a fazer uma experiência.
A relação que se estabelece entre sujeito e obra depende de como este adentra a leitura ou como a literatura chega a ele. Neitzel, Cruz e Weiss (2017) pensam a leitura do literário como um acontecimento, por meio do qual a literatura busca explorar o sensível ao trazer a obra para a vida dos leitores, ao agir na subjetividade e na racionalidade, de forma integrada, provocando, no leitor, deslocamentos e ressonâncias. Nesta pesquisa, a literatura foi abordada como objeto propositor para provocar o fazer uma experiência. Assim, a leitura do literário, impregnada no corpo, reverbera em movimento dançado.
Além de um objeto propositor potente para que esse corpo dançante se mostre, é importante que a mediação do professor esteja aberta para o diálogo, que provoque os alunos a refletirem, a questionarem, a pesquisarem sobre seu próprio corpo, a redescobrirem seus saberes, para que o corpo dançante possa ser propulsor de experiências sensíveis na escola. Refletir sobre a vida por meio da literatura disparou no grupo percepções que foram aprimoradas e geraram movimentos dançados.
Da leitura, da compreensão e da discussão do excerto da obra Grande Sertão, passamos a pensar em ações como embrulhar, esquentar, esfriar, apertar, afrouxar, sossegar e desinquietar. Esses verbos foram temas de criação de movimentos dançantes. Os adolescentes relacionaram o trecho da obra apresentada com suas vidas, discutiram sobre como cada um se comporta em diferentes situações e pesquisaram como cada ação reverberava nos seus corpos. Relacionaram a ação de embrulhar com as palavras “misturar”, “apertar” e “segurar”. Além disso, a partir da reflexão do texto, buscaram expressar seus entendimentos por meio da dança, conforme mostram as imagens da Figura 1.
Figura 1 – Sujeitos em processo de pesquisa
Fonte: Autora (2021, p. 65).
A produção de saberes corporais a partir do texto literário apresenta outras possibilidades de significações que se transformam no processo da pesquisa. É o que transita entre a poesia do texto literário, as sensações e os movimentos, pois “[...] no palco das sensações poéticas, o corpo se move, amplia-se, se expressa, agiganta-se, cria relevos nas ondulações dos gestos, movimenta-se nas expressões e ganha plenitude, mostrando a existência em vários ângulos” (Ferreira, 2017, p. 89).
Adentrar o texto de forma fruitiva pela leitura, pelo diálogo e pelo experimentar no corpo produz outros sentidos porque a experiência se deu por meio de afetamentos que invocaram uma nova poética. O estudo deu-se de forma gradual, do particular para o todo, respaldado na troca de experiências, na leitura coletiva, na discussão sobre o texto, na exploração corporal das ações e seguiu para uma performance, na qual corpo e poesia se entrelaçaram na melodia da música, conforme mostram as imagens da Figura 2. A leitura como acontecimento permitiu uma exploração do corpo de forma individual e coletiva, e o texto foi declamado pelo corpo dançante.
Figura 2 – Sujeitos em performance
Fonte: Autora (2021, p. 66).
A leitura e a discussão dos textos literários ativaram a escuta do corpo, que passou a expressar a poesia da dança. A estesia da performance foi além do texto e do movimento, foi uma junção de sentidos, significados e sensações que afloraram nos movimentos dançantes. As interações e as criações na dança foram frutos da potência do texto de Guimarães Rosa, da mediação do professor e da leitura estesiante, o que possibilitou um expressar-se de modo genuíno e sincero com suas percepções, uma ressignificação textual e corpórea, a partir da relação poesia e corpo. Como afirma Ferreira (2017, p. 92):
Os movimentos da poesia fazem o corpo dançar a música dos sentidos por meio de uma coreografia que se constrói a cada momento, despertando a sinergia, que rege todo o movimento com a batuta da sensibilidade, envolvida com o solo do violino corpóreo, o qual diversifica cada som produzido pela dimensão dos sentidos para um concerto universal, composto a partir da relação poesia e corpo, como uma ampla e profunda melodia da experiência estética.
O corpo dançante pode ser propulsor de experiências sensíveis na escola com mediações culturais adequadas. “Mediar é antes propor desafios que o levem a perfurar o texto para elaborar outras maiores perguntas, um exercício de reflexão sobre o lido, mas também de sentidos, de afetamentos” (Neitzel; Cruz; Weiss, 2017, p. 131, grifo das autoras). Uma mediação cultural adequada é aquela que possibilita a pesquisa, a interação, a troca, a reflexão, o diálogo, que instiga o desenvolvimento de um corpo sensível, que se percebe e percebe o outro, que se movimenta não de forma automatizada, condicionado, como objeto, mas que se constitui como corpo sujeito, corpo vivo. A escola mostra-se como espaço de produção do conhecimento que dá lugar a trocas simbólicas efetivas, como aponta Gonçalves (2017).
Assim, a reflexão aconteceu durante todo o processo de pesquisa, e, quando exteriorizada, apresentou como se deu a relação entre corpo e literatura. Como a experiência é sempre um movimento singular, individual, que é vivido pelo sujeito (Heidegger, 2015), não podemos afirmar que alguém fez uma experiência, mas podemos buscar indícios de como as percepções foram se construindo e anunciadas pela dança, pela fala e pela escrita. Os adolescentes criaram um painel com palavras-chave (Figura 3) ao responderem a seguinte provocação: Como foi dançar o texto?
Figura 3 – Como foi dançar o texto?
Fonte: Autora (2021, p. 67).
O painel exterioriza os pensamentos dos alunos, a sua relação com o movimento dançante, os quais se formaram na leitura, na troca com os pares, na dança. Inicialmente, demonstraram seus pensamentos pela fala ao discutirem sobre suas impressões do texto; depois, com o corpo ao pesquisarem, individualmente, movimentos relacionados as ações retirados do excerto, e dançaram no coletivo o contexto do trecho literário; e finalizaram com as palavras escritas no painel. A palavra exterioriza aquilo que foi vivido pelo corpo dançante. Cada corpo ressignifica o texto de uma maneira, e, assim, a potência da leitura provoca diferentes sensações e percepções, e talvez essa relação com a linguagem os leve a ver e a caminhar por outras travessias, a produzir com o corpo formas e expressões que revelem seus gostos e, também, criem outros gostos, no movimento de renúncia e de re-anunciar. No painel, surgiram palavras como desafio, alegria, desconforto, reflexão, emoção, estranho, ótima experiência, inovador, criativo e teatro. Os modos como cada sujeito organizou as relações de leitura e de corpo foram expressos nos movimentos e, posteriormente, registrados nas palavras (Figura 4). Tanto as palavras como o corpo apontaram para o fazer uma experiência de modo semelhante, corpo e palavras traduzem o mesmo sentido. Greiner (2005) anuncia o movimento corporal como fundamento da comunicação – o ser comunica-se pelo movimento que expressa tudo o que perpassa e atravessa o corpo de modo cognitivo e sensível. “Os diferentes estados corporais modificam o modo como a informação será processada [...]” (Greiner, 2005, p. 64).
Figura 4 – Corpos e palavras em relação
Fonte: Autora (2021, p. 68).
A potência do texto literário, juntamente à mediação da professora, possibilitou um outro olhar, tanto para o texto quanto para a dança, bem como um outro pensar esentir para esses objetos propositores, o que permitiu aos adolescentes se afetarem pelo texto poético, e o corpo, por meio da dança, mostrou sua poesia. Ambos apontaram para o acontecimento da experiência, para o deleite da prática, evidenciando que oficinas de dança, quando voltadas a práticas de percepção do corpo e da criação em dança, podem ser provocadoras de sentidos e de movimentos criadores. A exploração da arte pelo viés do estético (neste caso, a literatura) pode oportunizar que o corpo dançante seja propulsor de experiências sensíveis na escola, um corpo atento e consciente de seus movimentos, que, na relação com o outro, constrói sentidos, percepções e entendimentos, no exercício do dizer poético produzido pela razão e pela sensibilidade, sem apartamentos.
Considerações finais
Este artigo teve como objetivo tecer relações entre corpo, dança e a leitura do literário que são produzidas no espaço da escola. Esse percurso oportunizou um constante movimento de relações do corpo consigo, com a obra literária, com o outro e com grande grupo, oportunizando o desvelar do corpo dançante. Por meio de movimentos que os atravessaram, os provocaram, os intimidaram a pensar e a sentir a dança, os adolescentes olharam para seu íntimo, estabeleceram um diálogo entre pensamento e sensibilidade, mostraram um corpo presente, perceptivo, criativo, que se expressou pelo movimento dançante.
Eles permitiram-se encontros que a relação entre a obra literária e a dança possibilitaram, e, nessa relação, entenderam outros modos de ver a dança, o corpo e suas possibilidades de ação no mundo; nesse sentido, permitiram-se fazer uma experiência com a linguagem da dança. Como a experiência é um movimento interior, íntimo, singular e individual não podemos afirmar que o grupo fez uma experiência, mas podemos declarar que criamos um ambiente propício para que eles se afetassem e que produzissem sentidos pela experiência estética.
O corpo dançante pode fazer uma experiência pela leitura do literário com mediações culturais adequadas que provoquem os sujeitos a pensar e a sentir como se movimentam e se relacionam com a obra, com os outros e com o espaço. Nesses movimentos dançantes, acontecem partilhas, percepções, estranhamentos, descobertas, e a poesia dos corpos mostra-se por meio da experiência estética.
Por meio desta pesquisa, pudemos refletir sobre como nosso corpo pode assumir o estatuto de corpo sujeito, de corpo habitável, um modo de pensar e de sentir-se vivo, pela arte; de pensar nosso corpo não como um corpo objeto que reproduz movimentos prontos, mas como um corpo que sabe se relacionar com o mundo e sua complexidade. A experiência estética pode ser pensada como princípio educativo, tendo em vista que ela tem uma força ética, afetiva e política, isto é, ela implica um movimento de formação integral de nossos alunos.
Como são constituídas as relações em sala de aula? Essas relações passam pela experiência corporal, pois nosso corpo não é um receptáculo de ideias, de conteúdos, nós somos corpo, um corpo que não é objeto, mas sujeito! Um corpo que se move, que se relaciona com o outro, e a cada relacionamento manifestamos por meio de sorrisos, olhares, gestos nossas intenções. Somos corpos vivos! Corpos potentes na sua expressão, ocupamos espaço com nossos corpos, e ele é um signo cultural.
Reconhecer-se como um corpo dançante é anunciar a experiência pela dança, é renunciar a saberes estereotipados e apropriar-se dos conhecimentos outros que estavam dentro de si obnubilados, reanunciando-os. Por meio dessa apropriação, o sujeito percebe a si, ao outro com o qual se relaciona e desenvolve sua autonomia intelectual. Desse modo, é pela poética do movimento corporal consciente que fazemos uma trajetória de percepção de si e do outro em um duplo movimento. O olhar atento para o corpo, a percepção aflorada, a permissão de ir ao encontro do outro pode possibilitar o fazer uma experiência.
Referências
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