Competências diagnósticas dos professores: uma análise da literatura[i]
Teachers’ diagnostic competences: a literature analysis
Competencias Diagnósticas de los Docentes: un Análisis de la Literatura
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS, Brasil
evelin_assis@hotmail.com
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS, Brasil
beatriz.dorneles@ufrgs.br
Recebido em 19 de julho de 2022
Aprovado em 16 de setembro de 2022
Publicado em 24 de setembro de 2025
RESUMO
Este ensaio visa realizar uma reflexão sobre as competências diagnósticas de professores com a finalidade de compreender e refletir acerca das relações entre tais competências e o desempenho dos estudantes. Para isso, foi utilizado o método de pesquisa bibliográfica, recorrendo-se às abordagens conceituais e às evidências de pesquisa na área. Foram estabelecidas quatro categorias de análise, a partir de uma análise livre do material encontrado: comparação dos julgamentos em diferentes áreas acadêmicas; comparação entre diferentes níveis de desempenho; influências nos julgamentos; e julgamentos de habilidades não acadêmicas. Tais categorias atuaram como meios para categorizar os artigos incluídos e oportunizar as reflexões com a finalidade de entender as relações supracitadas. Os resultados apontam que os professores têm mais facilidade para julgar o desempenho de alunos em leitura do que em matemática e de estudantes com desempenho típico em comparação a atípico. Além disso, as evidências de pesquisa indicam que os julgamentos docentes sofrem influências de aspectos que vão além do desempenho acadêmico dos alunos, como suas características sociodemográficas, de gênero, etnia e questões comportamentais. No que se refere aos julgamentos de habilidades não acadêmicas, os resultados evidenciam que tais julgamentos também impactam o desempenho acadêmico dos alunos. Conclui-se que realizar julgamentos diagnósticos sobre diferentes fatores relacionados aos alunos é uma tarefa complexa que demanda bastante preparo dos professores. Nesse sentido, destaca-se a necessidade e importância de que a formação docente, aliada a políticas públicas, consiga oferecer um suporte adequado para que os professores possam aprimorar suas habilidades e, consequentemente, qualificar sua prática.
Palavras-chave: Competências diagnósticas; Julgamentos; Professores.
ABSTRACT
This essay aims to reflect on teachers’ diagnostic competencies in order to understand and analyze the relationship between such competencies and students’ performance. To achieve this, a bibliographic research method was employed, drawing on conceptual approaches and research evidence in the field. Four categories of analysis were established, based on a free analysis of the material found: comparison of judgments in different academic areas; comparison between different performance levels; influences on judgments; and judgments of non-academic skills. These categories served as a framework to classify the selected articles and enable reflections with the purpose of understanding the aforementioned relationships. The results show that teachers find it easier to assess students’ performance in reading than in mathematics, and to judge students with typical rather than atypical performance. Furthermore, research evidence indicates that teachers’ judgments are influenced by factors beyond students’ academic performance, such as their sociodemographic characteristics, gender, ethnicity, and behavioral issues. Regarding the judgments of non-academic skills, the findings reveal that these also impact students’ academic performance. It is concluded that making diagnostic judgments about different student-related factors is a complex task that requires substantial preparation from teachers. In this regard, the need and importance of teacher training, together with public policies, are highlighted in order to provide adequate support so that teachers can improve their skills and, consequently, enhance their practice.
Keywords: Diagnostic competences; Judgments; Teachers.
RESUMEN
Este ensayo tiene como objetivo reflexionar sobre las competencias diagnósticas de los docentes con la finalidad de comprender y analizar las relaciones entre dichas competencias y el desempeño de los estudiantes. Para ello, se utilizó el método de investigación bibliográfica, recurriendo a enfoques conceptuales y evidencias de investigación en el área. Se establecieron cuatro categorías de análisis a partir de un examen libre del material encontrado: comparación de juicios en diferentes áreas académicas; comparación entre distintos niveles de desempeño; influencias en los juicios; y juicios sobre habilidades no académicas. Estas categorías funcionaron como medios para clasificar los artículos incluidos y posibilitar reflexiones con el fin de comprender las relaciones mencionadas. Los resultados señalan que los docentes tienen mayor facilidad para evaluar el desempeño de los estudiantes en lectura que en matemáticas, y de aquellos con desempeño típico en comparación con los de desempeño atípico. Además, la evidencia de investigación indica que los juicios docentes están influenciados por aspectos que van más allá del rendimiento académico de los estudiantes, como sus características sociodemográficas, género, etnia y cuestiones de conducta. En lo que respecta a los juicios sobre habilidades no académicas, los resultados muestran que estos también inciden en el rendimiento académico de los estudiantes. Se concluye que emitir juicios diagnósticos sobre diferentes factores relacionados con los alumnos es una tarea compleja que demanda una preparación significativa por parte de los docentes. En este sentido, se resalta la necesidad e importancia de que la formación docente, junto con las políticas públicas, pueda ofrecer un apoyo adecuado para que los profesores perfeccionen sus competencias y, en consecuencia, cualifiquen su práctica.
Palabras clave: Competencias diagnósticas; Juicios; Docentes.
Introdução
A formação de professores dos anos iniciais do Ensino Fundamental (EF) em cursos de licenciatura em Pedagogia é orientada pelas Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) relativas ao Ensino Superior. Recentemente tais DCN foram atualizadas, conforme estabelecido na resolução CNE/CP nº 2, de 20 de dezembro de 2019 (Brasil, 2019), que instituiu a Base Nacional Comum (BNC) – Formação. Apesar de a resolução ser, ainda, recente, pode-se identificar a abordagem de competências importantes para a atuação docente, das quais grande parte assemelha-se àquelas contidas em resoluções anteriores (Brasil, 2002, 2006, 2015), mas também representa avanços por conta da apresentação explícita de determinadas questões (como necessidades específicas de aprendizagem).
A BNC – Formação apresenta dez competências gerais e diversas competências específicas, compostas por três dimensões: conhecimento profissional – CP, prática profissional – PP e engajamento profissional – EP (Brasil, 2019). Dentre as competências específicas na dimensão de CP, está indicada a demonstração de conhecimento sobre os alunos e como aprendem, incluindo: conhecer os contextos de vida dos estudantes; reconhecer suas identidades; e aplicar estratégias de ensino diferenciadas considerando os variados contextos socioeconômicos, culturais e linguísticos. Quando se analisa as competências relativas à PP, se identifica a orientação de avaliar o desenvolvimento do educando, bem como o ensino e a aprendizagem, englobando: organizar tarefas adequadas aos níveis de conhecimento diversos; aplicar diferentes instrumentos e estratégias avaliativas; usar o resultado das avaliações para analisar o processo de aprendizagem dos alunos e retroalimentar a prática pedagógica; etc.
Nesse sentido, o conhecimento que o professor tem sobre o estudante cumpre papel-chave na sua atuação. Informações válidas e precisas sobre os alunos e seus desempenhos são essenciais, pois, a partir disso, os professores podem fornecer feedbacks apropriados e, assim, adaptar o ensino de acordo com as necessidades discentes (Carbonneau, 2020; Kolovou et al., 2021; Urhahne; Wijnia, 2021). Portanto, é necessário que o docente compreenda os passos envolvidos na construção das aprendizagens, visto que identificar o progresso dos alunos envolve saber quando eles estão indo bem e quando estão indo mal, isto é, fazer o diagnóstico do processo de aprendizagem (Reiss; Obersteiner, 2019). Isso requer que o professor coloque em prática sua competência diagnóstica, que corresponde à capacidade de estimar/avaliar adequadamente as características dos estudantes, suas necessidades de aprendizagem e diferentes requisitos de tarefas (Artelt; Gräsel, 2009).
Diante disso, compreende-se que a formação de professores no Brasil prevê o desenvolvimento de habilidades envolvidas na competência diagnóstica, mesmo que não sejam citadas dessa forma (Brasil, 2019). Entretanto, quando se observa o desempenho dos alunos dos anos iniciais do EF no Brasil, identifica-se um cenário preocupante, com baixos índices de desempenho tanto em português quanto em matemática (Brasil, 2021a, 2021b). Variados motivos podem explicar estes resultados, e uma possibilidade de análise envolve a perspectiva dos professores, oportunizando a reflexão acerca de sua capacidade para avaliar adequadamente diferentes questões relativas aos alunos (Artelt; Gräsel, 2009) e tomar decisões pedagógicas apropriadas. Sendo assim, este ensaio visa realizar uma reflexão sobre as competências diagnósticas de professores com a finalidade de compreender e refletir acerca das relações entre tais competências e o desempenho dos estudantes.
Método
Este estudo é de caráter qualitativo do tipo pesquisa bibliográfica, que consiste no levantamento e na revisão de diferentes publicações sobre o tema de interesse, com o intuito de reunir e analisar os textos publicados visando oferecer contribuições para o desenvolvimento de pesquisas científicas (Sousa; Oliveira; Alves, 2021). No caso dessa investigação, a pesquisa bibliográfica aqui realizada busca oferecer um panorama geral da área de estudo sobre competências diagnósticas dos professores evidenciado relações com o desempenho discente. Entende-se a necessidade de analisar e refletir sobre tais questões com o objetivo de melhor compreender as relações entre as competências diagnósticas dos professores e o desempenho de seus alunos.
Procedimentos
O tema desse estudo corresponde, conforme mencionado anteriormente, às competências diagnósticas dos professores. O levantamento bibliográfico havia sido realizado inicialmente em 2020 e foi atualizado em 2022, visando incluir novas publicações de interesse. A pergunta que norteia a pesquisa envolve a indagação sobre o que a literatura da área apresenta a fim de verificar as relações das competências com o desempenho dos estudantes. Para identificar as publicações de interesse, foram utilizadas diferentes bases de busca, como Education Resources Information Center (Eric), Portal Capes e Google Acadêmico. Foram usados os termos “teachers judgments” ou “teachers perceptions” e “student achievement”. A busca foi limitada a trabalhos publicados até 4 de abril de 2022 (sem data de início), em periódicos revisados por pares, de acesso aberto, nos idiomas português e inglês. Os artigos cujo título e resumo foram ao encontro do tópico de interesse foram selecionados e lidos na íntegra, permitindo a organização das categorias descritas a seguir. Cabe mencionar que foram selecionados artigos que abordassem a temática sobre competências diagnósticas a partir de uma perspectiva semelhante e que fossem voltados à parte conceitual e/ou estudos empíricos que relacionassem as competências ao desempenho de estudantes em alguma área do conhecimento. Além disso, no decorrer da apresentação dos resultados, serão apresentadas três meta-análises de grande importância na área. Os outros estudos incluídos foram selecionados a partir das bases de dados supracitadas.
Resultados
Os resultados da pesquisa bibliográfica foram organizados em três categorias amplas de análise, com a terceira envolvendo subcategorias, considerando a possibilidade de agrupamento dos assuntos abordados e da posterior elaboração de síntese quanto aos resultados: (1) competências diagnósticas – conceitos; (2) julgamentos diagnósticos e fatores subjacentes; (3) evidências de pesquisa – comparação dos julgamentos em diferentes áreas acadêmicas, comparação entre diferentes níveis de desempenho, influências nos julgamentos e julgamentos de habilidades não acadêmicas. Tais categorias foram estabelecidas a partir da leitura dos artigos selecionados para análise, visando agrupá-los conforme os assuntos abordados. Os critérios de análise, partindo do objetivo do estudo, que é compreender as relações entre competências diagnósticos e desempenho discente, se basearam na reflexão acerca das ênfases dos estudos e no estabelecimento de relações entre as pesquisas incluídas. A seguir, serão apresentadas as categorias estabelecidas.
Competências diagnósticas – conceitos
Urhane e Wijnia (2021) apontam que o termo “competência diagnóstica” é utilizado intercambiavelmente (interchangeably) ou como uma forma genérica do termo “acurácia dos julgamentos docentes”, cuja definição se apoia na das autoras Artelt e Gräsel (2009), mencionada na introdução. Os “julgamentos diagnósticos”, por sua vez, correspondem às inferências que o professor faz sobre estudantes ou materiais baseado em informações implícitas ou explícitas fornecidas em uma situação diagnóstica (Loibl; Leuders; Dörfler, 2020). Infere-se que realizar julgamentos diagnósticos requer colocar em prática a competência diagnóstica. Não obstante, convém ressaltar que, frequentemente, esses termos podem ser utilizados como sinônimos nas pesquisas da área, embora nem sempre os estudos apontem sua definição de maneira clara.
A literatura apresenta diferentes modelos abordando ambos os termos. Blömeke, Gustafsson e Shavelson (2015) desenvolveram um modelo voltado às “competências diagnósticas” compreendidas como um contínuo, desde características cognitivas, afetivas, e motivacionais – que subjazem à percepção, interpretação e tomada de decisão – até chegar ao comportamento observável em uma situação particular da vida real. Leuders et al. (2018) adaptaram esse modelo explorando suas especificidades em relação à matemática. Já Südkamp, Kaiser e Möller (2012), por outro lado, desenvolveram um modelo especialmente para abordar os moderadores dos “julgamentos docentes”, como características dos professores, alunos e testes. No que tange especificamente aos “julgamentos diagnósticos”, definidos anteriormente, foi publicada recentemente uma estrutura teórica para explorá-los, a qual será abordada a seguir.
Loibl, Leuders e Dörfler (2020) desenvolveram essa estrutura para explicar o “julgamento diagnóstico dos professores por meio da modelagem cognitiva”, denominada de “DiaCom”. A Figura 1 representa a estrutura proposta pelos autores:
Figura 1 – Estrutura DiaCom
Fonte: adaptado de Loibl, Leuders e Dörfler (2020)
O grande diferencial dessa estrutura em relação a modelos anteriores, como o dos próprios Leuders et al. (2018), é a inclusão da dimensão “características da situação” como base das dimensões de “características da pessoa” e de “pensamento diagnóstico”. Loibl, Leuders e Dörfler (2020) explicam que essa dimensão diz respeito ao contexto em que o docente se encontra, ou que é apresentado a ele: é na situação diagnóstica que estão as informações a serem utilizadas, ou não, para realizar inferências sobre os estudantes ou materiais solicitados. Destaca-se que algumas características mais gerais da situação podem influenciar o julgamento, podendo ser relativas à estrutura – como objetivo, relevância, tempo disponível, etc. – e às pistas – por exemplo, alunos, respostas, tarefas. Exemplificando: uma situação em que o tempo é limitado e que as pistas são escassas pode afetar o julgamento do professor, que não terá informações suficientes para elaborá-lo, e, talvez, possa fazer isso com pressa para não ultrapassar o tempo disponibilizado.
Conforme observa-se na Figura 1, as características da situação fornecem informações importantes que se relacionam às características da pessoa e ao pensamento diagnóstico. As características da pessoa correspondem aos diferentes estados, podendo ser mental/ de estresse/ afetivo/ dentre outros, e aos traços do docente, como crenças/motivação/conhecimento/etc., que podem influenciar os julgamentos posteriores: novamente, chama-se atenção ao fato de que determinadas situações podem gerar um estado mental, afetivo ou cognitivo temporário, que também pode afetar o julgamento (Loibl; Leuders; Dörfler, 2020). Considerando o exemplo anterior, as características da situação, como o tempo limitado, podem gerar um estado de ansiedade e preocupação no professor, o que, por sua vez, pode alterar seu julgamento.
As características da pessoa, juntamente com as características da situação, se relacionam ao pensamento diagnóstico. Essa dimensão é compreendida como o processamento cognitivo das informações e nela estão incluídas as ações de perceber, interpretar e tomar decisões: a informação a ser processada deriva da situação ou está armazenada na memória de longo prazo sob a forma de traços da pessoa – conhecimento, crenças, entre outros –, de modo que esse processamento pode ser alterado tanto por características estáveis, como crenças, quanto por transitórias, estresse, ou, como provavelmente ocorre, pela inter-relação de ambas (Loibl; Leuders; Dörfler, 2020).
Por fim, a última dimensão da estrutura “DiaCom” se refere ao comportamento diagnóstico, que envolve todo tipo de comportamento do professor que é observável, podendo se relacionar ao processo – pensar em voz alta, movimentar os olhos e realizar ações que permitam inferir o processo de julgamento – ou ao produto diagnóstico – verbalizar, escrever, realizar ações. Os autores destacam, porém, que, dependendo da situação diagnóstica, é difícil distinguir entre processo e produto diagnóstico (Loibl; Leuders; Dörfler, 2020). Convém ressaltar que, embora a estrutura inclua o termo “percepções” como parte do pensamento diagnóstico, a literatura da área frequentemente o utiliza como sinônimo de julgamentos diagnósticos, visto que nem todos os estudos tomam a “DiaCom” como base.
Esta área de pesquisa, portanto, pode ser analisada a partir da perspectiva oferecida pela estrutura de Loibl, Leuders e Dörfler (2020), sem perder de vista que nem todos os estudos se baseiam nela. A seguir serão apresentadas diferentes evidências envolvendo os fatores subjacentes aos julgamentos diagnósticos dos professores em relação ao desempenho dos estudantes. Optou-se por utilizar o termo “julgamentos” por ser relacionado à estrutura “DiaCom” e também um dos mais utilizados nos estudos analisados, o que facilita a síntese e compreensão dos principais resultados e tendências.
Julgamentos diagnósticos e fatores subjacentes
Urhahne e Wijnia (2021) conduziram uma revisão da literatura para sintetizar o conhecimento teórico, metodológico, empírico e prático de aproximadamente 40 anos de pesquisa sobre a acurácia dos julgamentos docentes. Para melhor compreender alguns apontamentos feitos pelos autores, convém iniciar a apresentação das evidências de pesquisas apresentadas por três meta-análises, cujos objetivos foram verificar a precisão[ii] dos julgamentos. Nessa abordagem, o julgamento diagnóstico é medido pela quantificação do acordo entre o julgamento docente sobre dados objetivos relativos aos alunos e o que os estudantes, de fato, desempenham.
É válido destacar três pesquisas do tipo, dos autores Hoge e Coladarci (1989), Südkamp, Kaiser e Möller (2012) e Machts et al. (2016), pois os resultados fornecem informações relevantes sobre a precisão dos julgamentos docentes. O Quadro 1 apresenta as informações básicas de cada uma:
Quadro 1 – Informações básicas das meta-análises sobre acurácia dos julgamentos
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Autoria |
Estudos |
Período temporal |
Enfoque dos julgamentos |
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Hoge e Coladarci (1989) |
16 |
1962 – 1988 |
Desempenho acadêmico |
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Südkamp, Kaiser e Möller (2012) |
75 |
1989 – 2010 |
Desempenho acadêmico |
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Machts et al. (2016) |
33 |
1991 – 2013 |
Habilidades cognitivas |
Fonte: elaborado pelas autoras
As três meta-análises utilizam critérios semelhantes para análise, levando em conta características dos julgamentos e dos testes. Hoge e Coladarci (1989) encontraram como média das correlações o valor 0,66, sugerindo uma correlação de moderada à forte entre os julgamentos e o desempenho dos alunos. Além das características metodológicas, alguns estudos analisaram o potencial papel de variáveis moderadoras, como diferenças entre professores e habilidades dos alunos, dentre outras. Em relação às diferenças entre professores, foi evidenciada grande variação entre as correlações encontradas entre os docentes, indicando que nem todos demonstram a mesma capacidade de realizar julgamentos precisos. Já as habilidades dos alunos foram exploradas em dois estudos, os quais apontaram que professores de alunos com dificuldades demonstraram mais precisão ao julgar a suficiência de instrução para alunos de melhor desempenho do que para alunos de baixo desempenho.
Na meta-análise de Südkamp, Kaiser e Möller (2012), foi encontrada uma média de correlações de 0,63 entre o julgamento docente e o desempenho dos alunos, semelhante ao resultado de Hoge e Coladarci (1989). As autoras encontraram diferenças significativas entre julgamentos informados, que correspondem à estimativa do desempenho dos alunos em testes, e não informados, referentes à estimativa do desempenho dos alunos em escalas ou domínios, com correlação mais alta para informados (0,76) do que para não informados (0,61). Em relação aos outros aspectos analisados em cada estudo, não foram encontradas diferenças significativas.
Por fim, a meta-análise de Machts et al. (2016) investigou a precisão dos julgamentos dos professores sobre as habilidades cognitivas dos alunos. Foram analisados julgamentos de professores sobre inteligência, talento (giftedness), outras habilidades (funcionamento da memória, desenvolvimento global da criança) e criatividade. As análises evidenciaram uma precisão moderada dos julgamentos sobre habilidades cognitivas (0,43), menor do que a precisão encontrada para julgamentos sobre desempenho acadêmico. A precisão sobre inteligência (0,50) foi maior do que para talento (0,36) e criatividade (0,34), mas as outras habilidades cognitivas apresentaram precisão tão alta quanto (0,42). Os julgamentos informados também apresentaram maior precisão (0,51) do que não informados (0,37), corroborando os resultados de Südkamp, Kaiser e Möller (2012). A acurácia dos julgamentos foi menor quando a amostra de alunos foi pré-selecionada, indicando que a homogeneidade do grupo parece impedir a acurácia do julgamento porque torna mais difícil a diferenciação dos alunos. Além disso, os resultados também demonstraram que os julgamentos dependem das características dos professores e/ou da sala de aula.
Estes três estudos teóricos fornecem uma visão geral da área de pesquisa, ainda que tenham enfoque em habilidades diferentes. As médias de correlação identificadas evidenciam uma boa precisão quando se trata de julgamentos docentes sobre desempenho acadêmico, 0,66 em 1989 e 0,63 em 2012 (Hoge; Coladarci, 1989; Südkamp; Kaiser; Möller, 2012), e moderada em relação às habilidades cognitivas, correspondendo ao valor 0,43 (Machts et al., 2016). Além disso, apontam tendências importantes quanto aos julgamentos: a acurácia é maior quando o professor julga alunos de melhor desempenho em vez de menor quanto à suficiência da instrução oferecida (Hoge; Coladarci, 1989); existem diferenças significativas entre julgamentos correspondentes à estimativa do desempenho dos alunos em testes (informado) em vez de escalas ou domínios (não informado) (Machts et al., 2016; Südkamp; Kaiser; Möller, 2012); e os julgamentos dependem das características da sala de aula e/ou dos professores também, além de serem dificultados quando a amostra de alunos é mais homogênea, o que complica a diferenciação dos estudantes (Machts et al., 2016). Essas tendências, junto com outras questões abordadas nas meta-análises, seguiram sendo investigadas ao longo dos anos, conforme discutido a seguir.
Outras evidências de pesquisa
Grande parte da literatura da área aborda julgamentos docentes acerca do desempenho acadêmico dos alunos. Ainda que exista grande variação entre os graus de correlação entre ambas medidas dependendo do professor (Hoge; Coladarci, 1989; Südkamp; Kaiser; Möller, 2012), identifica-se uma precisão alta entre o que o docente julga e o que o aluno desempenha de fato. Ao longo dos anos, no entanto, apesar de o enfoque na correspondência entre julgamento e habilidades acadêmicas persistir, outras questões começaram a ser analisadas mais profundamente, como a comparação dos julgamentos em diferentes áreas acadêmicas; comparação entre diferentes níveis de desempenho, em que os alunos têm graus distintos de dificuldade, por exemplo; influências nos julgamentos, como características dos alunos, da turma, dos testes e até mesmo do conhecimento dos professores; e julgamentos de habilidades não acadêmicas.
Comparação em diferentes áreas acadêmicas
No que diz respeito à comparação de julgamentos em diferentes áreas acadêmicas, estudos que avaliam leitura e matemática simultaneamente fornecem boas evidências. Teisl, Mazzocco e Myers (2001) avaliaram a utilidade das classificações discentes realizadas por professores na Educação Infantil (EI) como preditoras do desempenho em matemática e leitura no 1º ano do Ensino Fundamental (EF) em escolas localizadas nos Estados Unidos (EUA). Participaram do estudo professores de sete escolas acompanhados de 234 alunos e os resultados demonstraram que o julgamento dos professores, de fato, corresponde ao desempenho acadêmico, no entanto, foram observadas correlações mais altas para leitura (0,48) do que para matemática (0,34) (Teisl; Mazzocco; Myers, 2001).
Corroborando este resultado, o estudo de Carmichael (2015) evidenciou uma correlação moderada entre os julgamentos docentes sobre desempenho matemático discente e resultado dos alunos no teste padronizado de matemática, sendo mais baixa que a correlação entre as mesmas medidas, porém na área da leitura, que foi incluída nas análises para fins de comparação. O autor utilizou as informações relativas a 2.144 alunos australianos de 5º ano do EF e seus respectivos professores.
Já Balbi, Ruiz e García (2017) examinaram o histórico escolar de 168 crianças uruguaias de 3º a 6º do EF, divididas em três grupos a partir do escore em provas padronizadas: dificuldade em leitura, dificuldade em cálculo e grupo típico. As análises evidenciaram diferenças estatisticamente significativas entre as anotações dos professores nos históricos, sugerindo que os docentes têm mais habilidades para observar e registrar questões sobre dificuldades de desempenho em leitura do que em matemática (Balbi; Ruiz; García, 2017), o que reforça os resultados encontrados por Teils, Mazzocco e Myers (2001) e Carmichael (2015).
Também comparando as duas áreas de conhecimento, Kowalski et al. (2018) buscaram compreender a precisão dos julgamentos docentes sobre as habilidades de alfabetização e matemática dos alunos. Os autores contaram com 66 professores e 122 alunos entre 3 e 6 anos, nos EUA. Os resultados mostraram uma concordância moderada entre o que os professores julgaram e o desempenho dos alunos na tarefa de alfabetização, mas uma concordância mais baixa na tarefa de matemática, corroborando as evidências apresentadas até então.
Incluindo mais habilidades específicas iniciais de cada área do conhecimento, McKevett e Kiss (2019) também investigaram a acurácia dos julgamentos docentes sobre o nível instrucional dos estudantes em leitura e matemática. A amostra contou com sete professoras, quatro da EI e três do 1º ano do EF, e 126 alunos, 72 da EI e 54 do 1º ano, também nos EUA. Os achados indicaram julgamentos com maior acurácia para habilidades de fluência na leitura oral em relação às outras habilidades, corroborando os resultados anteriores de que a precisão dos julgamentos parece ser maior para questões relacionadas à leitura do que à matemática. É válido destacar que, antes de realizarem os julgamentos, as professoras foram informadas sobre as características do teste e definições das habilidades a serem avaliadas, o que contribui para a criação de uma situação diagnóstica mais apropriada (Loibl; Leuders; Dörfler, 2020; Urhahne; Wijnia, 2021).
Portanto, quando os estudos englobam estas duas áreas de conhecimento, de modo geral observa-se uma tendência de os professores terem mais facilidade para realizar julgamentos acurados sobre leitura em vez de matemática. Isso permite levantar a hipótese de que talvez a formação docente dê mais ênfase à leitura do que à matemática, questão levantada pelos autores dos estudos em questão. No entanto, é válido ressaltar que, quando se analisa estudos voltados apenas a uma área ou à outra, são identificados bons níveis de correspondência entre julgamentos docentes e habilidades evidenciadas pelos alunos, tanto em matemática (Carbonneau, 2020; Kilday et al., 2012; Hosoya, 2021) quanto em leitura e/ou escrita (Kaiser et al., 2013; Salles; Parente, 2007; Zhu; Urhane; Rubie-Davies, 2018). Ainda assim, apesar de estudos voltados especificamente à matemática apresentarem bons resultados, não se pode descartar a hipótese sobre a formação porque quando se compara a área com leitura é possível perceber as diferenças.
Comparação de diferentes níveis de desempenho
Apesar de os estudos anteriores abordarem diferenças entre julgamentos e desempenhos em leitura e matemática, os respectivos autores também abordam questões relativas a dificuldades de aprendizagem, apontando que frequentemente os professores não apresentam a mesma acurácia para julgar estudantes de desempenho típico em relação a atípico (Carmichael, 2015; Teisl; Mazzocco; Myers, 2001).
Canal et al. (2012) pesquisaram a existência de concordância entre as avaliações diretas dos alunos e a atribuição de pesos, pelos professores, às dimensões avaliativas nas quais as notas são baseadas. Participaram do estudo 55 docentes italianos dos anos finais do Ensino Fundamental, sendo que 32 analisaram perfis de alunos típicos e 23 de alunos atípicos. Os resultados mostraram que, para o grupo típico de estudantes, houve consistência entre as notas finais e os pesos de cada dimensão, com uma alta correlação. Para o grupo atípico, por outro lado, a consistência foi mais baixa, assim como a correlação. O estudo aponta, portanto, para dificuldades dos docentes ao realizarem julgamentos acerca de alunos cujos desempenhos não correspondem ao geralmente observado – típico (Canal et al., 2012).
Já no Brasil, e especificamente na matemática, foi evidenciado que as classificações de dez professoras do 1º ano do EF sobre o perfil acadêmico (questões gerais de comportamento e organização; questões específicas sobre leitura, escrita e matemática) de 60 alunos estavam de acordo com o desempenho em contagem desses apenas nos casos em que os estudantes demonstravam domínio dos princípios de contagem, porém o mesmo não ocorreu para aqueles que estavam no processo de consolidação dos princípios ou que não os dominavam (Assis; Corso, 2021).
Ao encontro desses resultados, e a partir de uma amostra de 21 professoras e 176 alunos holandeses do 4º ano do EF, Oudman et al. (2018) evidenciaram que a habilidade docente de indicar o que os alunos compreenderam em determinado teste é menor quando os professores têm acesso apenas às respostas desses estudantes, sem saber quem são, e maior quando têm acesso apenas aos nomes dos alunos, sem ver suas respostas. Quando se trata de julgar o que os estudantes não compreenderam, os professores se saem melhor quando não sabem quem é o aluno em questão, acessando apenas às suas respostas. Os autores referem que quando os docentes fazem julgamentos com enfoque nas características discentes, mesmo possuindo acesso às respostas deles, isso acaba interferindo na acurácia do julgamento, visto que essas características podem, por vezes, ofuscar o uso correto das respostas. Em síntese, oferecer aos docentes acesso às respostas além do conhecimento sobre os alunos não necessariamente faz com que foquem menos nas características dos estudantes ao realizarem julgamentos e, portanto, não necessariamente melhora sua acurácia. Mais que isso, oferecer aos docentes acesso apenas às respostas, e não ao conhecimento sobre o aluno, aparenta ser especialmente importante para realizar julgamentos sobre o que o estudante ainda não entende (Oudman et al., 2018).
Estes resultados ajudam a compreender, parcialmente, o motivo de os professores não conseguirem julgar adequadamente o desempenho de alunos que estão enfrentando dificuldades: além de possivelmente não possuírem conhecimento sobre as dificuldades de aprendizagem, os professores talvez se apoiem mais nas características dos estudantes do que em seu desempenho em si, o que resulta, conforme evidenciado por Oudman et al. (2018), em julgamentos incorretos. Por outro lado, julgar o desempenho discente com base apenas nas respostas dos estudantes elimina, de certa forma, o viés no qual os professores poderiam se apoiar, como as características dos alunos, resultando em um julgamento mais acurado. Sendo assim, esse estudo também ajuda a perceber como diferentes aspectos da situação diagnóstica, neste caso, as pistas relacionadas aos alunos, ou seja, as características e/ou respostas, podem contribuir ou não para a elaboração de julgamentos precisos (Loibl; Leuders; Dörfler, 2020).
Ainda sobre problemas de aprendizagem, Shilshtein e Margalit (2019) compararam as percepções dos alunos, professores e pais sobre autoconceito acadêmico e social dos estudantes em risco para dificuldades de aprendizagem e daqueles com desenvolvimento típico. Participaram do estudo, conduzido em Israel, 89 alunos de 1º ano do Ensino Fundamental e 14 professores, bem como os pais das crianças. Os resultados demonstraram consistência entre as percepções docentes e parentais sobre o autoconceito de crianças com desenvolvimento típico, porém foram encontradas diferenças significativas entre as percepções docentes e parentais sobre o autoconceito acadêmico de alunos em risco para dificuldades de aprendizagem (Shilshtein; Margalit, 2019). Pode-se observar, portanto, que não apenas o desempenho discente é julgado de maneira incorreta quando se trata de sujeitos enfrentando problemas na aprendizagem, visto que o autoconceito dos alunos também é afetado, evidenciando uma dificuldade geral dos professores em julgarem diferentes habilidades de estudantes cujo desempenho e/ou desenvolvimento é atípico.
Por outro lado, contrariando os achados apresentados até então, há estudos que identificam uma boa correspondência entre julgamentos docentes e desempenho discente no caso de alunos em risco de ou com dificuldades já estabelecidas. Na área da matemática, Feitosa, Del Prette e Loureiro (2007) evidenciaram que, em duas amostras de cidades brasileiras diferentes, embora com precisão maior para uma delas, a maioria das crianças que não atingiu a média na tarefa de competência acadêmica (CA), preenchida pelos professores, demonstrou desempenho acadêmico correspondente, visto que estava no grupo de desempenho inferior do Teste de Desempenho Escolar – TDE (Feitosa; Del Prette; Loureiro, 2007). Já no que se refere à dislexia, Snowling et al. (2011) demonstraram que os docentes britânicos são bons juízes das habilidades dos alunos, com 50% da variabilidade nas habilidades de leitura das crianças ao final do ano sendo explicada pelas avaliações docentes (Snowling et al., 2011).
Em síntese, quando se trata de julgar alunos com diferentes graus de desempenho, observa-se que os professores não apresentam a mesma acurácia para aqueles com bom desempenho e os com baixo desempenho. Dessa forma, concordamos com os autores que insistem que é urgente e necessário ampliar as oportunidades de desenvolvimento profissional para que os docentes possam ser formados e instrumentalizados para atender melhor às necessidades de seus estudantes (Carmichael, 2015; Salles; Parente, 2007; Shilshtein; Margalit, 2019).
Influências nos julgamentos
Até o momento, os estudos abordados enfatizaram a correspondência entre o julgamento docente e o desempenho acadêmico discente. Outra parte da literatura da área se dedica à investigação acerca dos fatores relacionados aos alunos que influenciam os julgamentos, como nível socioeconômico, gênero, etnia, dentre outros.
Glascoe (2001) avaliou a relação entre as classificações dos professores sobre os alunos e as habilidades acadêmicas desses e identificou as variáveis que influenciam tais classificações. A autora contou com 80 professores e 720 estudantes estadunidenses do Ensino Fundamental, com idades entre 6 e 13 anos. Os resultados evidenciaram que o domínio de leitura básica e habilidades matemáticas foram os melhores preditores das classificações, sendo que variáveis sociodemográficas, o momento de aplicação do teste, a língua falada em casa e serviços de auxílio também apresentaram valores preditivos das classificações.
De forma semelhante, Martínez, Stecher e Borko (2009) encontraram associações entre baixo desempenho matemático e gênero, deficiências gerais, educação dos pais, status de minoria e contexto socioeconômico, reforçando os achados do estudo recém analisado. Os autores também identificaram alto grau de correspondência entre os julgamentos docentes e o desempenho dos alunos estadunidenses tanto no 3º ano (n=10.700) quanto no 5º ano (n=8.600) do EF.
Em relação ao gênero, Robinson-Cimpian et al. (2014) investigaram se há diferença na percepção dos professores sobre o desempenho matemático de seus alunos, também estadunidenses, mesmo após controlar diferentes variáveis, dentre outros objetivos. Os autores utilizaram uma amostra proveniente de estudo de larga escala, nacionalmente representativa, com avaliações realizadas na Educação Infantil, 3º e 5º ano do Ensino Fundamental (quantidade de sujeitos variou conforme as ondas de análise). Os resultados demonstraram que as professoras taxam a proficiência matemática de meninos e meninas da mesma forma se têm a percepção de que as meninas estão se esforçando mais e sendo melhor comportadas que os meninos. Portanto, pode-se inferir que não apenas o gênero desempenha um papel importante, como questões comportamentais também.
Nesse sentido, há estudos que avaliam aspectos relativos ao engajamento comportamental dos estudantes e também a presença de conflitos ou não na relação professor-aluno, o que também fornece informações interessantes acerca da relação desses fatores com os julgamentos docentes. Kaiser et al. (2013) analisaram, entre outras questões, se o julgamento docente sobre desempenho discente seria afetado pelo engajamento comportamental dos alunos e se os julgamentos sobre engajamento seriam afetados pelo desempenho. Os resultados dos três estudos, realizados na Alemanha, dois com apoio do software “Simulated Classroom”, evidenciaram que os julgamentos foram relacionados à característica não correspondente, ou seja, o desempenho acadêmico em leitura foi significativamente relacionado aos julgamentos docentes sobre engajamento: bons leitores foram percebidos como sendo mais engajados em atividades de leitura. A relação inversa também foi encontrada: estudantes motivados a participar de atividades em leitura foram percebidos como bons leitores.
No que se trata de problemas comportamentais, Carbonneau (2020) buscou, dentre outros objetivos, compreender como a característica de conflito modera os julgamentos. Participaram deste estudo 28 professores, dos EUA, que foram solicitados a avaliar as necessidades educacionais e oferecer recomendações de ensino para um aluno fictício do 3º ano do EF. Os resultados evidenciaram que, quando há mais percepção de conflitos, também há maior acurácia no julgamento. Pode-se levantar a hipótese de que alunos que vivenciam mais conflitos nas relações com professores acabam sendo alvo de maior atenção docente, e, por isso, foram classificados pelos professores com mais precisão.
Já Ready e Wright (2011) buscaram compreender se há algum tipo de viés nas percepções dos professores sobre seus alunos. A amostra contou com 9.493 alunos de Educação Infantil dos EUA. A análise revelou que as associações entre as classificações docentes e a linguagem das crianças variam de acordo com o contexto étnico-racial delas, mas, em alguns casos, como o de alunos hispânicos, essa diferença desaparece ao longo do ano. De modo geral, foi evidenciado que a composição social e acadêmica das salas de aula influencia a acurácia dos julgamentos dos professores.
Especificamente no que tange à composição étnica das turmas, Kaiser, Südkamp e Möller (2017) examinaram se os julgamentos docentes e a acurácia desses julgamentos são influenciados pela etnia e status de minoria dos alunos. Os autores utilizaram o mesmo programa do estudo de Kaiser et al. (2013), Simulated Classroom, e realizaram quatro estudos com o intuito de verificar se o desempenho de alunos de diferentes etnias seria julgado de acordo com as expectativas geralmente associadas às etnias em questão e se a etnia ou status de minoria dos estudantes moderaria os julgamentos docentes. Cada estudo empregou uma condição de sala de aula diferente, todas relacionadas à composição das minorias: (1) minoria turca; (2) minoria asiática; (3) minoria alemã; (4) minoria de gênero. Nos quatro estudos, os resultados demonstraram que a acurácia dos julgamentos sempre foi maior para as minorias, independentemente de seu estereótipo étnico ou de gênero.
Os autores levantam, então, a “hipótese da minoria”, indicando que, embora, de fato, os julgamentos docentes frequentemente possam ser atribuídos a outras características dos alunos que não apenas seu desempenho (como gênero, etnia e nível socioeconômico), às vezes, talvez, essas características se destacam por corresponderem à minoria da turma, e não pelos estereótipos a elas atribuídos, ficando, portanto, mais salientes ao olhar do professor. Isso iria ao encontro do resultado encontrado por Machts et al. (2016), em sua meta-análise, sobre a dificuldade docente em julgar grupos de alunos homogêneos, tornando complicado identificar diferenças entre eles. O grau de acurácia no estudo recém analisado foi maior, em todas as condições, para a minoria em questão, justamente uma condição que se sobressai em relação à possível homogeneidade da turma. Também é possível estabelecer relações com o estudo de Carbonneau (2020), em que os alunos cujas relações com os professores apresentaram mais conflitos também foram os que receberam julgamentos docentes com maior acurácia: talvez esse grupo também correspondesse à minoria na turma e, portanto, estava mais saliente ao olhar docente.
Conclui-se, portanto, que ao julgar características específicas dos estudantes, os professores acabam levando em consideração outras características também: os resultados indicam que os docentes não conseguem separar inteiramente as características dos alunos quando fazem julgamentos (Kaiser et al., 2013). Esse resultado vai ao encontro das hipóteses levantadas por Südkamp, Kaiser e Möller (2012) na elaboração do modelo para julgamentos, em que esses sofrem influências não apenas das características docentes e dos testes, como dos estudantes avaliados.
Avaliação de habilidades não acadêmicas
Além de as pesquisas da área abordarem julgamentos docentes sobre desempenho discente acadêmico, há estudos voltados a habilidades não acadêmicas. Zhu e Urhahne (2014) examinaram a precisão dos julgamentos dos professores sobre os seguintes aspectos relativos aos seus alunos: autoconceito e esforço na aprendizagem e interesse e aproveitamento das aulas de inglês. Participaram do estudo 480 alunos chineses do 6º ano do Ensino Fundamental e seus 16 professores de inglês. Os resultados evidenciaram correlações de médias a moderadas entre julgamento e questionário dos alunos em autoconceito acadêmico e esforço na aprendizagem, além de uma correlação moderada para o aproveitamento, porém o mesmo não ocorreu para a ansiedade de teste. Os achados apontaram que os professores possuem dificuldade para discernir a ansiedade de teste dos alunos, o que pode ser explicado pelo fato de que os estudantes aprendem a mascarar suas emoções, visto que isso é mais adaptativo do que expressá-las (Urhahne; Wijnia, 2021; Zhu; Urhahne, 2014).
Semelhantemente, Upadyaya e Eccles (2015) conduziram um estudo longitudinal para verificar se as percepções docentes sobre habilidade e esforço de seus alunos são preditoras de mudanças desenvolvimentais no autoconceito deles sobre suas habilidades em matemática e em leitura. Para isso, as autoras contaram com uma amostra de 849 crianças, da Educação Infantil, 1º ano e 3º ano do Ensino Fundamental, e 435 professores, nos EUA. Foi evidenciado que as percepções docentes sobre a habilidade e esforço de seus alunos contribuíram para o desenvolvimento dos autoconceitos das crianças sobre suas habilidades em matemática e em leitura. Isso sugere que a confiança do professor sobre a habilidade do estudante pode auxiliá-lo a manter uma postura positiva em relação ao autoconceito sobre habilidade em leitura e matemática, evidenciando como os julgamentos docentes podem afetar a experiência educacional dos alunos (Carbonneau, 2020).
Já Woods-Groves et al. (2019) examinaram a relação entre as percepções docentes acerca de habilidades do século XXI (persistência, curiosidade, externalização e internalização de afeto e cognição) dos seus alunos e o desempenho deles em testes padronizados. Os autores contaram com 96 professores do Ensino Fundamental e Médio e 1.689 alunos, também nos EUA. Os resultados demonstraram que: percepções docentes sobre internalização de afeto foram relacionadas significativamente às questões emocionais e ao desempenho dos alunos em matemática; percepções sobre cognição foram significativamente relacionadas ao desempenho acadêmico em matemática e em leitura; percepções sobre persistência foram relacionadas de maneira significativa aos problemas de conduta, desempenho acadêmico em leitura e em matemática e faltas escolares; percepções sobre curiosidade se relacionaram significativamente com questões emocionais; percepções sobre externalização de afeto foram significativamente relacionadas aos problemas de conduta, desempenho em leitura e registros escolares. De modo geral, o estudo indicou que há uma inter-relação entre os julgamentos docentes sobre habilidades do século XXI de seus alunos com o desempenho acadêmico e comportamental deles.
Por fim, Garcia, Sulik e Obradovié (2019) investigaram a associação entre as percepções dos professores sobre as funções executivas (FE) de seus alunos controlando, ao mesmo tempo, a contribuição da avaliação direta das FE, e se essas associações mudam ao longo do tempo. A amostra participante do estudo, realizado novamente nos EUA, foi de 558 alunos de 3º, 4º e 5º anos do Ensino Fundamental, bem como os 33 professores responsáveis. Foram evidenciadas diferenças sistemáticas entre os relatórios dos professores sobre FE relacionadas a gênero, etnia e status de aprendizagem da língua inglesa, sendo que tais disparidades permaneceram estáveis ao longo do ano. A ordenação dos professores demonstrou que percebem os meninos com funções executivas (FE) piores que as meninas, alunos asiáticos com melhores FE que alunos brancos, alunos com limitações na língua inglesa com piores FE que alunos que dominam a língua inglesa e alunos afro americanos com piores FE do que alunos brancos.
As pesquisas quanto às habilidades não acadêmicas dos alunos oferecem resultados importantes para pensar sobre a importância dos julgamentos docentes. Apesar de os estudos abordarem questões não explicitamente relacionadas às habilidades acadêmicas, percebe-se que esses julgamentos docentes impactam diferentes questões relacionadas aos alunos. Isso demonstra o grande peso depositado nos julgamentos, os quais podem afetar diretamente a experiência educacional dos alunos como um todo (Carbonneau, 2020).
Discussão
O objetivo deste este ensaio foi realizar uma reflexão sobre as competências diagnósticas de professores com a finalidade de compreender e refletir acerca das relações entre tais competências e o desempenho dos estudantes. Grande parte dos estudos analisados refere-se aos comportamentos diagnósticos da estrutura teórica apresentada (Loibl; Leuders; Dörfler, 2020), abordando os julgamentos docentes acerca de habilidades discentes variadas. Em algumas investigações, no entanto, foi possível identificar a abordagem de características da situação diagnóstica, como informações sobre os alunos e/ou suas respostas aos professores (Oudman et al., 2018) ou como as características do teste a ser utilizado (Mckevett; Kiss, 2019).
As tendências que emergiram nas meta-análises da área também foram identificadas no decorrer da pesquisa. A dificuldade docente em julgar alunos com dificuldades, apontada na meta-análise de Hoge e Coladarci (1989), foi encontrada em diversos outros estudos da área, revelando que os professores enfrentam problemas para julgar alunos com diferentes níveis de desempenho (Assis; Corso, 2021; Canal et al., 2012; Oudman et al., 2018; Shilshtein; Margalit, 2019), embora existam algumas exceções (Feitosa; Del Prette; Loureiro, 2007; Snowling et al., 2011). Já nas meta-análises de Südkamp, Kaiser e Möller (2012) e de Machts et al. (2016), uma das tendências identificadas diz respeito aos julgamentos também sofrerem influências de outros aspectos que não apenas as características dos alunos. A literatura da área corrobora essas conclusões, visto que fatores como gênero, nível socioeconômico e idioma estão associados com os julgamentos docentes (Glascoe, 2001; Kaiser et al., 2013; Martínez; Stecher; Borko, 2009; Ready; Wright, 2011; Robinson-Cimpian et al., 2014), assim como fatores comportamentais como engajamento (Kaiser et al., 2013) e conflitos na relação professor-aluno (Carbonneau, 2020). Ainda quanto à meta-análise de Machts et al. (2016), a tendência relativa à dificuldade de julgar grupos homogêneos, por conta da impossibilidade de diferenciar melhor os alunos, foi observada por meio de outra perspectiva: o fato de as minorias das turmas possivelmente se sobressaírem ao olhar do professor (Carbonneau, 2020; Kaiser; Südkamp; Möller, 2017).
Retomando a revisão de Urhane e Wijnia (2021), algumas implicações para pesquisas futuras ressaltadas pelos autores são: os estudos sobre acurácia dos julgamentos devem ser apoiados em abordagens teóricas; as pesquisas precisam criar condições apropriadas para os docentes realizarem julgamentos acurados sobre alunos e tarefas; as investigações devem utilizar medidas já estabelecidas de julgamentos docentes; o enfoque de estudos futuros deve ser nos possíveis moderadores da acurácia dos julgamentos, como características discentes, docentes e variáveis sociodemográficas; e os pesquisadores devem voltar sua atenção à compreensão dos processos cognitivos envolvidos na realização dos julgamentos.
No decorrer do presente estudo, as pesquisas apresentadas, ainda que tenham sido publicadas anteriormente à revisão de Urhane e Wijnia (2021), vão ao encontro de algumas implicações ressaltadas pelos autores. Em relação às diferentes abordagens teóricas para apoiar os estudos, foram apresentados modelos variados relativos à competência diagnóstica e aos julgamentos diagnósticos, bem como as definições envolvidas (Artelt; Gräsel, 2009; Blömeke; Gustafsson; Shavelson, 2015; Leuders; Philipp; Leuders, 2018; Loibl; Leuders; Dörfler, 2020; Südkamp; Kaiser; Möller, 2012). No que se refere à criação de condições adequadas para os professores realizarem os julgamentos, dois estudos foram identificados nesse sentido, abordando questões específicas da situação diagnóstica, como fornecer pistas sobre os alunos aos professores (Oudman et al., 2018) e explicar aos docentes as habilidades envolvidas nos julgamentos, além do funcionamento da tarefa a ser utilizada (Mckevett; Kiss, 2019). Em se tratando de possíveis moderadores dos julgamentos, diversas investigações voltaram-se ao tema, evidenciando que os julgamentos docentes de fato são influenciados por questões que vão além de, apenas, o desempenho acadêmico dos alunos (Glascoe, 2001; Kaiser et al., 2013; Kaiser; Südkamp; Möller, 2017; Martínez; Stecher; Borko, 2009; Ready; Wright, 2011; Robinson-Cimpian et al., 2014).
Em síntese, os estudos apresentados e analisados evidenciam que os professores são capazes de julgar diferentes habilidades dos alunos. Não se pode perder de vista, no entanto, que realizar julgamentos diagnósticos sobre os alunos é uma tarefa difícil: conforme apontam Machts et al. (2016), a expectativa em relação ao professor é enorme, pois se espera que ele dê conta de fornecer informações precisas e válidas sobre os alunos, estabelecer um bom nível de comunicação com eles e suas famílias e criar um ambiente de aprendizagem significativa, dentre outras questões (Machts et al., 2016).
Diante dos resultados educacionais do Brasil, que apontam grande quantidade de alunos com baixo desempenho em português e matemática (Brasil, 2021a, 2021b), é imprescindível considerar a importância das competências diagnósticas docentes e sua relação direta com os processos de ensino e de aprendizagem. Estimar/avaliar adequadamente diferentes características dos alunos é essencial para tomar decisões apropriadas quanto, por exemplo, às tarefas a serem desenvolvidas com os estudantes, ao ritmo das aulas, aos avanços e retrocessos nos conteúdos, etc. Fazer escolhas corretas sobre tais questões têm como consequência o oferecimento de um ensino efetivo que, por sua vez, muito provavelmente culminará em aprendizagens significativas pelos alunos.
Conclusões
Apesar de a BNC – Formação prever o desenvolvimento de fatores subjacentes à competência diagnóstica, mesmo que não apresentados sob este nome, o nível de desempenho dos alunos brasileiros é preocupante, o que permite refletir sobre como a formação está preparando os futuros professores nesse sentido.
Qualificar os professores para avaliar corretamente as diferentes habilidades de seus alunos requer que desenvolvam variados tipos de conhecimentos relativos às áreas que compõem o currículo escolar. Mais que isso, envolve instrumentalizá-los para lidar com estudantes que apresentam níveis de desempenho distintos, principalmente quando se considera as dificuldades docentes para julgar alunos de baixo desempenho. Portanto, o saber técnico é fundamental, mas precisa estar aliado aos conhecimentos sobre o processo de aprendizagem e suas possíveis intercorrências, de modo a favorecer uma formação docente que o prepare para lidar com as diferentes situações de ensino e de aprendizagem em sala de aula.
Por fim, destaca-se a pouquíssima quantidade de estudos sobre o tema no Brasil, ressaltando a importância de voltar a atenção à capacidade dos professores brasileiros de realizar julgamentos e verificar se as tendências observadas na literatura internacional se repetem ou não no país. Ainda assim, em 2024 e em 2025, foram publicados dois estudos brasileiros que envolvem a investigação de alguns aspectos referentes aos julgamentos docentes e ao desempenho dos estudantes. Ambos indicam que os professores desempenham um papel crucial, que vai além de apenas ensinar conteúdos, e que suas características pessoais e profissionais, como a formação, podem impactar de maneira importante sua própria performance docente e o desempenho matemático dos estudantes da Educação Básica (Assis; Menegotto; Dorneles, 2024, 2025).
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Notas
[i] O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (Capes) – Código de Financiamento 001. This study was financed in part by the Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brazil (CAPES) – Finance Code 001.
[ii] O termo precisão é utilizado como sinônimo de acurácia no decorrer do texto.