Resenha:

Apropriação cultural e o mecanismo de opressão

 

Monica Abud Perez de Cerqueira Luz

Universidade Ibirapuera, São Paulo, Brasil

mapcluz@hotmail.com - https://orcid.org/0000-0002-7839-8114

 

Flávia Abud Luz

Universidade Federal do ABC - Doutoranda em Ciências Humanas e Sociais, São Paulo, Brasil

flavia.abud.luz@hotmail.com - http://orcid.org/0000-0001-5979-3445

 

Recebido em 17 de outubro de 2020

Aprovado em 13 de setembro de 2020

Publicado em 28 de junho de 2022

 

WILLIAM, Rodney. Apropriação Cultural. São Paulo: Pólen, 2019, 208 p. (Feminismos Plurais/ coordenação de Djamila Ribeiro).

O autor na obra Apropriação Cultural (2019) enfatiza que nas estruturas de opressão que caracterizam o colonialismo, a apropriação cultural foi uma estratégia bastante eficaz e que continua sendo utilizada até os dias atuais, como instrumento de dominação.

Munanga (2016/2017), na entrevista para a Revista Observatório Itaú Cultural, n º 21, define cultura como desenvolvimento que dialoga com a história entre Brasil e África. Assim reitera

Desenvolvimento também é cultura, pois só os seres humanos e as sociedades humanas transformam a natureza, produzem riquezas, inventam ciências e tecnologias que ajudam na transformação da vida em termos de melhoria de saúde, alimentação, transporte, comunicação e instituições que abrigam os nacionalismos cívicos, as formas democráticas e o bem - estar em geral. (2016 /2017, p.168-190).

 Para Fanon (2008) em Pele Negra, Máscaras Brancas (2008) afirma que

 o racismo e o colonialismo devem ser compreendidos como modos socialmente construídos de apreender o mundo e viver nele. Portanto, não haveria necessidade de as pessoas pensarem sobre si mesmas em termos de raça se estas não se constituíssem subjetivamente a partir de uma linguagem que expressa significados de culturas e contextos sociais específicos que também são naturalizados. No que diz respeito ao racismo, a linguagem do colonizador é tida como a “verdadeira”, carregando consigo o “verdadeiro significado” de como é a realidade e submetendo aqueles considerados “diferentes”, os colonizados, no caso da reflexão aqui empreendida, os negros, a esta maneira de significação do mundo. Dito de outro modo, o negro passa a existir do outro para o outro uma vez que a partir da linguagem, ele passa a assumir uma cultura e “suportar o peso de uma civilização.” (FANON, 2008, p.33) assumir a cultura é suportar o peso de uma cultura.

 

Para William (2019)  dialoga com diferentes autores, buscando salientar o leitor para os modos de como se operam os dispositivos de invisibilidade, silenciamento e morte.

O autor traz para a discussão o conceito de apropriação cultural de Abdias Nascimento, em O genocídio do negro brasileiro (1978), onde Nascimento reflete o significado da palavra genocídio; não somente morte física, o embranquecimento, mas a morte cultural, no momento em que se faz uso da cultura sem compreende-la, desrespeitando a simbologia e a história de determinado povo. Para Nascimento (1978, p.93), “quando se mata uma cultura, mata-se um povo”.

 

Deste modo, a apropriação cultural para Abdias (1978) e William (2019) é sem dúvida um mecanismo perverso de opressão, onde o grupo dominante, capitalista, se apodera da cultura inferiorizada de maneira errônea, esvaziando significados, tradições, costumes importantes e basilares dessa cultura, oriunda dos oprimidos. Ao adulterar a cultura de um povo e extinguir os traços dessa cultura, existe grande risco de desaparecimento do grupo étnico pertencente a esta cultura.

Analisando a apropriação cultural no Brasil, os processos de aculturação tanto dos índios como nos negros foram eficientes ao associarem o  mito da democracia racial, que disseminou uma convivência harmoniosa que escamoteou a opressão, o ódio, a dor, a morte dos povos subjulgados, explorando os elementos de uma cultura por uso indevido de trajes, pela expropriação de expressões artísticas e tradições  religiosas e culturais.

A cultura se torna um espaço de disputa, um campo de batalhas de significações e de significados, onde a hegemonia sempre vence, toma para si a cultura do outro, esvaziando-os e alimentando no imaginário coletivo as noções de superioridade branca e a inferioridade dos demais grupos étnicos “destituídos” de sua cultura.

Souza (1983), em sua Tornar-se Negro reitera que um dos efeitos mais perversos do racismo é quando o negro busca ascender socialmente massacrando a sua identidade. E reitera

O negro que se empenha na conquista da ascensão social paga o preço do massacre mais ou menos dramático de sua identidade. Afastado de seus valores originais, representados fundamentalmente por sua herança religiosa, o negro tomou o branco como modelo de identificação, como única possibilidade de “ tornar-se gente”. (1983:18).

Segundo William (2019), a apropriação cultural numa sociedade capitalista é uma das estratégias do racismo e do colonialismo, pois se apagam elementos pertencentes aos grupos minoritários como negros e índios, aumentando as discriminações e as desigualdades construídas socialmente nas lutas travadas para manter as tradições. As apropriações culturais desarticulam os grupos sociais.

O racismo continua operando na sociedade por meio da exploração de ordem social, econômica, militar, cultural e física. Assim, desumaniza o outro, promovendo o extermínio. Culturas marginalizadas historicamente, como a indígena e a negra, reafirmam suas identidades ao requerer seus símbolos e reinventar formas de resistir, seja pelos adereços, religiosidade, as comidas, músicas e tradições orais.

A obra Rodney William apresenta um diálogo fluente com diversos autores em que contextualiza o conceito de apropriação cultural, bem como os malefícios que inflige à população indígena e africana que têm a sua cultura transformada em mercadoria à serviço de um poder dominante que ao mesmo tempo é hegemônico, capitalista, patriarcal. O texto é uma leitura central para todos que desejam compreender melhor os dilemas culturais, sociais e políticos da contemporaneidade.

 

Referências Bibliográficas

FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Salvador: EDUFBA, 2008

MUNANGA, Kabenguele. África – Brasil: entrevista com Kabenguele Munanaga. Entrevista para a Revista Observatório São Paulo, Itaú Cultural, n º 21. São Paulo: Itaú Cultural, 2016/2017, p.168-190.

NASCIMENTO, Abdias. O Genocídio do Negro Brasileiro. Rio de Janeiro: Paz e Terra,1978.

SOUZA, Neusa Santos. Tornar-se Negro. Rio de Janeiro: Graal, 1983.

WILLIAM, Rodney. Apropriação Cultural. São Paulo: Pólen, 2019, 208p. (Feminismos Plurais / coordenação de Djamila Ribeiro)

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