Resenha de �Pesquisa em educa��o comparada sob condi��es de interconectividade global�
Review of �Research in comparative education under conditions of global interconnectivity�
Eduardo Cristiano Hass da Silva
Doutorando na Universidade do Vale do Rio dos Sinos, S�o Leopoldo, Rio Grande do Sul, Brasil.
eduardohass.he@gmail.com � https://orcid.org/0000-0002-3906-5448
Recebido em 01 de junho de 2018
Aprovado em 30 de agosto de 2018
Publicado em 17 de dezembro de 2019
����������� J�rgen Schriewer � professor em�rito de Educa��o Comparada da Universidade Humboldt, de Berlim, na qual j� exerceu as fun��es de decano da Faculdade de Educa��o e de coordenador de redes de pesquisa de estudos transculturais nas ci�ncias hist�ricas e sociais. Al�m disso, � ex-presidente da Sociedade de Educa��o Comparada da Europa e j� foi professor visitante em universidades em Paris, Estocolmo, T�quio, Beijing, Cidade do M�xico e Buenos Aires. As linhas de pesquisa em que o autor tem atuado s�o: a Hist�ria Comparada da Educa��o, Pesquisa da Sociedade Mundial, Hist�ria e Metodologia da Pesquisa Social Comparada.
����������� A publica��o do livro aqui resenhado coincide com a vinda do professor J�rgen Schriewer � Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) como pesquisador visitante, abordando o tema �Estudos internacionais e comparados em educa��o: fundamentos, concep��es e metodologias�. De forma geral, o autor revisita alguns de seus trabalhos, atualizando textos e apresentando resultados de pesquisas que vem desenvolvendo. Dividido em oito cap�tulos, o livro mostra-se uma leitura fundamental para aqueles que pretendem se aventurar pelo uso da pesquisa comparada, sobretudo para a pesquisa em educa��o comparada, entendida pelo autor como resultado da articula��o de diferentes campos como a hist�ria, filosofia e a sociologia. Ao longo dos cap�tulos, Schriewer defende a compara��o como um exerc�cio complexo.
����������� No primeiro cap�tulo, o pesquisador busca basicamente compreender qual a identidade da Educa��o Comparada como �rea e/ou como disciplina. Dessa forma, o autor ressalta que compreender a Educa��o Comparada requer uma an�lise hist�rica, antropol�gica, sociol�gica e filos�fica, devendo a mesma ser entendida em rela��o a estes diferentes ramos de estudos comparativos e internacionais. Retomando trabalhos do soci�logo alem�o Friedrich H. Tenbruck, bem como revisitando seus pr�prios artigos, Schriewer cunha termos para as distintas estruturas da Educa��o Comparada:
(...) �epistemo-l�gica� da pesquisa social comparada propriamente dita, a �socio-l�gica� dos estudos internacionais sobre educa��o orientados para a reforma e a �globo-l�gica� da investiga��o de fen�menos e organiza��es educacionais inerentemente transnacionais e/ou mundiais (SCHRIEWER, 2018, p. 13).
����������� Em rela��o � epistemo-l�gica, Schriewer afirma que � no final do s�culo XVIII que se pode encontrar tentativas do uso do m�todo comparado em Ci�ncias Humanas. Para ele, estas tentativas s�o tomadas a partir da anatomia comparada e aplicadas em estudos comparativos da linguagem, religi�o, mitologia, direito, governo e educa��o a partir dos conhecimentos que vinham sendo acumulados ao longo do s�culo. No s�culo XIX, os estudos em pesquisa comparada ser�o revistos a partir de Durkheim [1895] e sua sociologia comparada: �A transforma��o de Durkheim, mais elaborada por seus sucessores, fez da compara��o algo diferente do que um �m�todo� no sentido de uma t�cnica espec�fica de coleta de dados ou elabora��o de um levantamento� (p. 17). J� no s�culo XVIII pode-se falar da exist�ncia de uma compara��o simples, entendida como opera��o mental universal e uma compara��o complexa, sendo este o m�todo que ser� utilizado nas ci�ncias sociais e fundamentar � educa��o comparada. Ainda em rela��o � epistemo-l�gica, Schriewer destaca que os componentes essenciais da pesquisa social comparada s�o a problem�tica norteadora, es estilos cognitivos de distanciamento e perspectivismo, a sensibilidade particular para diferen�as socioculturais e as t�cnicas complexas de estabelecer rela��es entre rela��es.
����������� Sobre a socio-l�gica, compreendida como os estudos internacionais sobre educa��o orientados para a reforma, o autor destaca a import�ncia do processo de moderniza��o do s�culo XIX, momento em que os Estados Nacionais emergentes elaboraram relat�rios pr�ticos e t�cnicos. Esses relat�rios, embora comprometidos, ate�ricos e metodologicamente fracos, aumentaram sua import�ncia ao longo do s�culo XX. Neste modelo, o projeto de pesquisa comparada apresenta um problema de pesquisa, rela��es entre rela��es, unidades adequadas de compara��o e relev�ncia para o aconselhamento de pol�ticas. Em rela��o � globo-l�gica, que atenta para a an�lise das estruturas transociais e sistemas mundiais, Schriewer destaca que pode ser localizada em diferentes n�veis de an�lise que visam, sobretudo, explicar o surgimento do sistema mundial interconectado �nico.
����������� O segundo cap�tulo procura apresentar alguns elementos fundamentais que sustentam a Pesquisa Comparada. Inicia destacando que a abordagem comparada n�o � privil�gio de uma disciplina em particular, mas, sim, de um espectro de disciplinas das ci�ncias humanas e sociais. Tentando localizar as origens da pesquisa em educa��o comparada, defende que elas podem estar nos escritos de Marc-Antoine Jullien de Paris, no ano de 1817.
Ao apresentar a defini��o de uma metodologia comparativa consistente, Schriewer a fundamenta em tr�s princ�pios. O primeiro princ�pio � o estilo refinado de pensamento relacional comparativo, que consiste n�o em apenas fazer rela��es entre fatos observ�veis, mas, sim, em fazer rela��es entre rela��es ou entre sistemas de rela��es em seu conjunto. � neste processo de rela��o de rela��es que a metodologia comparativa adquire relev�ncia particular para a produ��o, exame e cr�tica de teorias. O segundo princ�pio refere-se � elabora��o de uma problem�tica estruturadora da pesquisa e, o terceiro, em uma l�gica de an�lise em a��o. A concatena��o destes tr�s princ�pios permitiu a forma��o de �uma abordagem de pesquisa que estrutura, inquire e processa dados de modo aut�nomo� (p. 55). O autor finaliza o cap�tulo apresentando tr�s dimens�es de problemas em esbo�o de cunho hist�rico: acesso � uma base de experi�ncias ampliadas para o n�vel global; distanciamentos das sociedades nacionais e formas contrastantes de avalia��o.
����������� O terceiro cap�tulo � voltado para a possibilidade de compreens�o da pesquisa comparada em dire��o a uma ci�ncia da complexidade. Para atender esse objetivo, o cap�tulo apresenta um estudo hist�rico da metodologia comparada em tr�s n�veis temporais espec�ficos. O primeiro destes n�veis temporais corresponde ao final do s�culo XVIII, no qual se considera ter emergido o �grande programa dos estudos comparados do ser humano e da sociedade� (p. 85). O segundo n�vel temporal equivale ao final do s�culo XIX, momentos no qual �foram definidos pela primeira vez os princ�pios do que depois se tornou a metodologia comparada dominante nas ci�ncias sociais� (p. 85). O �ltimo n�vel temporal � referente ao final do s�culo XX, momento em que se �reconheceu o questionamento de pressupostos fundamentais dessa metodologia dominante� (p. 85).
����������� Percorrendo estes tr�s n�veis temporais, o autor mostra como a metodologia comparada �, nas ci�ncias humanas, elaborada dentro do marco da sociologia comparada e da ci�ncia pol�tica, sendo que, passa a encontrar aceita��o geral em outros campos de estudo. Esta aceita��o permite a realiza��o de estudos de educa��o comparada em intersec��o com campos como a hist�ria, pesquisa da moderniza��o e da sociologia industrial. Os estudos de Schriewer colocam em xeque algumas teses defendidas pela sociologia industrial e pela economia da educa��o de que as exig�ncias de qualifica��o e as estruturas educacionais s�o, em grande parte, determinadas pela mudan�a tecnol�gica, pelo desenvolvimento econ�mico e exig�ncias de uma racionalidade universal intr�nseca ao industrialismo.
����������� Na sequ�ncia, o cap�tulo 4 tensiona o crescimento da pesquisa comprada nas �ltimas tr�s d�cadas, bem como a continuidade de diverg�ncias acad�micas sobre a metodologia. Sustentando que, apesar das cr�ticas oriundas das diverg�ncias acad�micas, a pesquisa comparada possui elementos gerais, retoma alguns dos pontos anteriormente apresentados, como: 1. Entendimento da pesquisa comparada como uma compara��o complexa, de n�vel m�ltiplo, relacionando rela��es e rela��es de rela��es; 2. Entendimento de que o m�todo cient�fico da compara��o n�o compara ou identifica apenas semelhan�as, mas organiza e permite discernir diferen�as e; 3. Compreens�o de que enquanto m�todo, a compara��o sustenta-se pelo distanciamento e pelo perspectivismo (permitindo que o observador se distancie das caracter�sticas de seu objeto). Finalizando o cap�tulo, o autor atenta para a diferen�a entre Educa��o Comparada e Educa��o Internacional. Quanto a primeira, o autor entende como a pesquisa cient�fica em educa��o comparada e, a segunda, pautada na Educa��o Internacional para o Desenvolvimento e na Ci�ncia Pol�tica Educacional, sendo que o que as diferenciam s�o as fun��es a elas atribu�das.
Os cap�tulos cinco e seis s�o voltados para a an�lise da constru��o da internacionalidade da educa��o. O quinto cap�tulo � escrito em parceria com um segundo autor, Carlos Martinez. Para analisarem as constru��es da internacionalidade da educa��o, os autores iniciam apresentando o contexto globalizado de comunica��o, atentando para os fen�menos da crescente interconectividade global convencionalmente expressada como �internacionaliza��o� ou �globaliza��o�. Para Schriewer e Martinez, o crescimento da interconectividade global tornou-se uma caracter�stica proeminente do mundo contempor�neo a partir do final do s�culo XX.
No contexto de comunica��o globalizada, os autores destacam que diferentes organismos t�m interferido e atuado em assuntos educacionais, sendo eles, em especial, o Banco Mundial, a Unesco, a OCDE, bem como ONGs internacionais. Dessa forma, os autores afirmam que a educa��o tem sido pensada para alguns pesquisadores a partir da l�gica do sistema-mundo, entendido �(...) primordialmente em termos de uma �comunidade pol�tica mundial� emergente e um correspondente �ambiente cultural transnacional� (p. 184). Expressando sua opini�o, os autores entendem que a educa��o � moldada por fatores hist�ricos e culturais, ocorrendo diferencia��o funcional da sociedade. Para encerrar o cap�tulo, apresentam os resultados de um projeto de pesquisa de Educa��o Comparada da Universidade de Humboldt, de Berlim, realizado a partir de revistas educacionais espanholas, russas e chinesas. O cap�tulo seis procura basicamente entender as fases dos estudos em educa��o comparada a partir da l�gica do sistema-mundo e de redes de inter-rela��o, que para Schriewer s�o duas: �O final do s�culo XVIII e o perfil de um grande programa� e �Final do s�culo XX e mundo como unidade de an�lise�.
����������� Comparados com os demais, os cap�tulos sete e oito s�o relativamente breves. O cap�tulo sete aborda a Declara��o de Bolonha de 1999 como �um exemplo particular de processos muito mais amplos de interconex�o e padroniza��o em n�vel global de educa��o� (p. 259). O autor entende Bolonha como um �mito neoeuropeu�, sustentando sua opini�o a partir de uma abordagem neoinstitucionalista. Essa abordagem � entendida a partir de tr�s argumentos: o primeiro refere-se � �crescente import�ncia alcan�ada por organiza��es governamentais e n�o governamentais internacionais bem como pelos ciclos de comunica��o e coordena��o bilaterais e multilaterais(...)� (p. 260); o segundo refere-se ao fato de que, em geral, as organiza��es n�o determinam seu comportamento primordialmente, �menos ainda exclusivamente, com base em uma tomada de decis�es aut�noma apropriada para problemas devidamente analisados ou situa��es problem�ticas particulares� (p. 260) e; o terceiro argumento � de que um modelo refinado proporciona novas percep��es das condi��es para processos de difus�o transnacional.
����������� Finalizando a obra, o cap�tulo oito atenta para algumas teorias da sociedade mundial como entidade global, mostrando como as ci�ncias sociais originaram uma gama de teorias refinadas da globaliza��o. A sociedade mundial � entendida como um �universo simb�lico�, baseada em uma compreens�o construtivista como um sistema baseado em regras cognitivas.
����������� A obra de J�rgen Schriewer � fundamental para compreender a pesquisa em educa��o comparada a partir de uma perspectiva s�cio hist�rica, uma vez que revela o empreendimento historicamente contingente e intelectual de atua��o de importantes atores sociais. O autor apresenta a pesquisa comparada como um campo moldado por diferentes pressupostos epistemol�gicos, ao mesmo tempo em que incentiva a produ��o de estudos em educa��o comparada, visando preencher lacunas e rever trabalhos deficientes. A obra permite a compreens�o da pesquisa comparada em uma perspectiva metodol�gica, complexa e cient�fica, fundamentada na rela��o de rela��es e de sistema de rela��es.
Refer�ncia
SCHRIEWER, J�rgen. Pesquisa em educa��o comparada sob condi��es de interconectividade global. Tradu��o de Geraldo Kornd�rfer e Lu�s Marcos Sander. S�o Leopoldo: Oikos, 2018.
Correspond�ncia
Eduardo Cristiano Hass da Silva � Universidade do Vale do Rio dos Sinos � Av. Unisinos, 950 - Cristo Rei, CEP 93022-750, S�o Leopoldo, Rio Grande do Sul, Brasil.