Rev. Enferm. UFSM - REUFSM

Santa Maria, RS, v. 11, e20, p. 1-16, 2021

DOI: 10.5902/2179769243349

ISSN 2179-7692

 

Submissão: 05/04/2020    Aprovação: 14/09/2020    Publicação: 02/03/2021

Artigo de Pesquisa

 

Aplicabilidade prática de uma cartilha sobre punção venosa periférica: estudo com familiares de crianças hospitalizadas*

Practical applicability of a booklet on peripheral venipuncture: a study with relatives of hospitalized children

Aplicabilidad práctica de un folleto sobre punción venosa periférica: un estudio con familiares de niños hospitalizados

 

 

Cleonara Sousa Gomes e SilvaI

Sarah Almeida SantosII

Silvia da Silva Santos PassosIII

Silvone Santa Barbara da Silva SantosIV

Luciano Marques dos SantosV

 

I Enfermeira, Universidade Estadual de Feira de Santana, Feira de Santana, Bahia, Brasil. E-mail: cleosilvauefs@gmail.com. Orcid: https://orcid.org/0000-0002-4827-8306

II Enfermeira, Universidade Estadual de Feira de Santana, Feira de Santana, Bahia, Brasil. E-mail: sarahalmeida21@hotmail.com. Orcid: https://orcid.org/0000-0002-7624-9051

III Enfermeira, Doutora, Universidade Estadual de Feira de Santana, Feira de Santana, Bahia, Brasil. E-mail: ssspassos@yahoo.com.br. Orcid: http://orcid.org/0000-0002-2104-5131

IV Enfermeira, Doutora, Universidade Estadual de Feira de Santana, Feira de Santana, Bahia, Brasil. E-mail: silvone.santabarbara@gmail.com. Orcid: http://orcid.org/0000-0001-5681-7894

V Enfermeiro, Mestre, Universidade Estadual de Feira de Santana, Feira de Santana, Bahia, Brasil. E-mail: lucmarxenfo@yahoo.com.br. Orcid: https://orcid.org/0000-0001-7866-6353

* Extraído do projeto de pesquisa intitulado: “Segurança do Paciente pediátrico e sua família: estudo de tecnologias e eventos adversos relacionados à terapia intravascular periférica”, Universidade Estadual de Feira de Santana, 2015-2016.

                                                             

Resumo: Objetivo: verificar a aplicabilidade prática da cartilha “Punção venosa periférica para família” junto aos familiares acompanhantes de crianças hospitalizadas em um hospital pediátrico do interior da Bahia. Método: estudo prospectivo realizado com 44 familiares, no período de julho a outubro de 2016. Foram avaliados 23 itens, categorizados em linguagem, ilustração, layout e motivação. Para a análise dos dados foram realizadas as frequências absolutas e relativas, adotando como consenso desejável os valores superiores a 70% de concordância. Também, aplicou-se o Teste de Legibilidade de Flesch para verificar a compreensão do texto da cartilha. Resultados: a cartilha apresentou aplicabilidade prática com avaliação satisfatória dos participantes, obtendo mais de 70% de aprovação em todas as variáveis avaliadas e alcançando nível de legibilidade de 70%. Conclusão: a cartilha pode ser utilizada como uma ferramenta na promoção de cuidado aos familiares de crianças submetidas à cateterização intravenosa periférica.

Descritores: Família; Enfermagem pediátrica; Criança hospitalizada; Tecnologia educacional; Cateterismo periférico

 

Abstract: Objective: to verify the practical applicability of the booklet “Peripheral venipuncture for family” with the accompanying relatives of children hospitalized in a pediatric hospital in the interior of Bahia. Method: prospective study conducted with 44 family members, from July to October 2016. Twenty-three items were evaluated, categorized into language, illustration, layout and motivation. For data analysis, absolute and relative frequencies were performed, adopting as a desirable consensus the values above 70% of agreement. Also, the Flesch Readability Test was applied to verify the comprehension of the text of the booklet. Results: the booklet presented practical applicability with satisfactory evaluation of the participants, obtaining more than 70% of approval in all variables evaluated and reaching a level of readability of 70%. Conclusion: the booklet can be used as a tool to promote care for family members of children undergoing peripheral intravenous catheterization.

Descriptors: Family; Pediatric nursing; Child, hospitalized; Educational technology; Catheterization, peripheral

 

Resumen: Objetivo: verificar la aplicabilidad práctica del folleto “Cateterismo venoso periférico para familia” con los familiares acompañantes de niños hospitalizados en un hospital pediátrico en el interior de Bahía. Método: estudio prospectivo realizado con 44 familiares, de julio a octubre de 2016. Se evaluaron 23 elementos, categorizados en lenguaje, ilustración, plano y motivación. Para el análisis de datos, se realizaron frecuencias absolutas y relativas, adoptando como consenso deseable los valores superiores al 70% del acuerdo. Además, se aplicó la prueba de legibilidad de Flesch para verificar la comprensión del texto del folleto. Resultados: el folleto presentaba aplicabilidad práctica con una evaluación satisfactoria de los participantes, obteniendo más del 70% de aprobación en todas las variables evaluadas y alcanzando un nivel de legibilidad del 70%. Conclusión: el folleto se puede utilizar como una herramienta para promover el cuidado a los familiares de niños sometidos a cateterismo intravenoso periférico.

Descriptores: Familia; Enfermería pediátrica; Niño hospitalizado; Tecnología educacional; Cateterismo periférico

 

Introdução

Durante a realização da Cateterização Intravascular Periférica (CIP), as crianças manifestam reações que caracterizam o sofrimento, como apertar os lábios, gritar, chorar, tensões musculares, postura retraída, cerrar os olhos e franzir a testa, além de solicitar a presença materna.1 Também, os familiares acompanhantes apontam esse procedimento como extremamente estressor, tanto para eles como para as crianças.2 Estudo realizado em Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica apontou que os familiares sentem medo dos procedimentos invasivos realizados nas crianças.3

Ao vivenciar experiências negativas mediante a realização desses procedimentos, os familiares possuem necessidade de receber informações sobre a CIP para esclarecerem suas dúvidas de maneira que facilite a sua compreensão.4 Estudo aponta que pais envolvidos no processo de cuidado dos seus filhos sentem que as suas necessidades estão sendo supridas também.5

Assim, percebe-se a importância do desenvolvimento de educação em saúde para os familiares, que se configura como um meio de promoção do cuidado com compartilhamento de saberes e estreitamento do vínculo entre o profissional e os usuários do serviço de saúde.6 A oferta de informações aos familiares apresenta-se como uma das medidas de desenvolvimento para a estratégia “Paciente pela Segurança do Paciente” da Organização Mundial de Saúde.7

Desse modo, a comunicação é um dos métodos de promoção da segurança do paciente. No entanto, pesquisas apontam fragilidades na relação entre os profissionais e os familiares acompanhantes de crianças hospitalizadas na oferta de informações referente ao tratamento e condutas adotadas, além de não valorizarem uma escuta qualificada, quanto as necessidades da criança relatadas pelo familiar.8 Também, os profissionais de saúde não se atentam para as demandas dos familiares.9 

Ademais, verifica-se a baixa adesão dos profissionais no uso de recursos lúdicos para a oferta de conforto a crianças e seus familiares durante a CIP, além de não considerarem as experiências anteriores. No entanto, destacam interesse por capacitações que foquem o desenvolvimento de educação continuada acerca da oferta de ações confortantes aos familiares e criança durante esse procedimento.9

Dentre os profissionais de saúde do ambiente hospitalar, a equipe de enfermagem evidencia-se como a mais próxima das crianças e dos familiares, em virtude dos inúmeros procedimentos realizados por esses profissionais durante o período de hospitalização.10 Diante dessas considerações, o enfermeiro pediátrico na sua prática clínica necessita utilizar tecnologias educacionais capazes de oferecer informações relacionadas a CIP, como o intuito de promover a segurança da criança e seu familiar acompanhante em espaços hospitalares.

Pesquisa realizada por enfermeiros sobre a influência de familiares na produção da segurança do paciente em Unidade de Terapia Intensiva Neonatal, verificou que eles percebem como importante a oferta de informações simples e acessíveis para os familiares, além de destacarem como essencial o esclarecimento de dúvidas sobre os cuidados proporcionados ao neonato e os equipamentos que estão sendo utilizados.11

Um dos recursos instrucionais que podem ser adotados para o desenvolvimento da educação em saúde são materiais educacionais como: manuais e cartilhas. Entretanto, há incipiente produção científica de matérias didáticos e instrucionais relacionados a CIP em crianças, sendo encontradas três publicações nos últimos dez anos (2009-2019).4,12-13

Diante disso, foi elaborada a cartilha “Punção venosa periférica para família”, de acordo com literaturas científicas relacionada com a temática e dados referentes a experiência de 13 familiares acompanhantes de crianças hospitalizadas submetidas à CIP em unidade de clínica cirúrgica de um hospital pediátrico do interior da Bahia.13 Esse material foi desenvolvido em caráter de enredo histórico com a narrativa ilustrada com personagens criados, exclusivamente, para a cartilha e balões de diálogo para dar ideia de interação entre os personagens e o leitor do material. A cartilha é composta pelas as seguintes sessões: vivência dos familiares durante o procedimento, conceitos associados a CIP (como o conceito de veia e cateter), motivos pelos quais é feito o procedimento e passo a passo de como acontece, além de apontar as estratégias que podem ser adotadas antes, durante e após a CIP na criança, contribuindo para a redução do estresse.13

A cartilha “Punção venosa periférica para família” possui validade de conteúdo conforme avaliação de 7 experts13, assim como validação de aparência julgada por 10 familiares acompanhantes de crianças hospitalizadas.14 No entanto, é necessário verificar a aplicabilidade prática do material, juntamente, com os familiares acompanhantes de crianças hospitalizadas, para assim constatar a possibilidade de sua utilização na prática clínica diária como instrumento de produção do cuidado.

Frente a isso, tem-se como questão de pesquisa: a cartilha “Punção venosa periférica para família” tem aplicabilidade prática? Assim, o objetivo foi verificar a aplicabilidade prática da cartilha “Punção venosa periférica para família” junto aos familiares acompanhantes de crianças hospitalizadas em um hospital pediátrico do interior da Bahia.

 

Método

Trata-se de pesquisa prospectiva, realizada no Hospital Estadual da Criança em Feria de Santana, Bahia entre julho a outubro de 2016, nas unidades de emergência, clínica médica, cirúrgica e oncologia, com uma amostra não probabilística intencional de 44 familiares, sendo que cada um desses estava acompanhando crianças diferentes.

Estes participantes foram selecionados por meio dos seguintes critérios de inclusão: ter acompanhado previamente uma CIP realizada na criança com 10 anos, que tivesse com necessidade de terapia intravenosa por via periférica.

Não foram incluídos os acompanhantes de crianças em condições de isolamento ou cuidados paliativos e aqueles inaptos para realizar a leitura da cartilha, por não saber ler ou não desejarem realiza-la. Nenhum familiar se recusou a participar da pesquisa.

A coleta de dados ocorreu nos turnos matutino e vespertino durante a semana por uma equipe de cinco pesquisadores colaboradores previamente capacitados. Incialmente, esses pesquisadores fizeram a leitura do prontuário das crianças hospitalizadas nas unidades pesquisadas buscando identificar aquelas que estavam utilizando alguma terapia intravenosa por via periférica. A seguir, os familiares das crianças que possivelmente poderiam ser elegíveis para o estudo receberam informações sobre o conteúdo da cartilha, objetivo e método da pesquisa.

Ao aceitar participar, o familiar recebeu a cartilha impressa com 19 páginas e teve o tempo que desejasse para fazer a leitura deste material. Após ter lido a cartilha, os pesquisadores aplicaram o instrumento de coleta de dados, entre 24 a 48 horas, que continha dados demográficos dos entrevistados e 23 itens, relacionados ao conteúdo, linguagem, aparência e motivação para a avaliação da aplicabilidade prática da cartilha.15 Para cada item avaliado, os entrevistados poderiam responder concordo, discordo ou não sei.16

Os dados coletados foram digitados no Stathistical Package for Social Science (SPSS) versão 22.0 e analisados por meio de estatística descritiva. Na descrição das variáveis categóricas foram utilizadas frequências absolutas e relativas, e nas numéricas aplicou-se o teste de Shapiro-Wilk para verificar a normalidade da sua distribuição. A variável idade aderiu à distribuição normal, sendo escrita por meio de média e desvio padrão, enquanto que as variáveis tempo de hospitalização da criança e número de punção, pela mediana e intervalo interquartil. Para a avaliação da concordância entre os participantes para cada item característico da aplicabilidade prática foi estabelecido como nível de consenso o valor de 70%.

Após a realização dos ajustes indicados pelos participantes relacionados a linguagem e o conteúdo da cartilha, verificou-se a facilidade de leitura por meio do Teste de Legibilidade de Flesch, sendo classificado a compreensão do texto como: muito fácil (75% - 100%), fácil (50% - 74%), difícil (49% - 25%) e muito difícil (24% - 0%).17 Esse análise foi realizada por um ferramenta de revisão ortográfica e gráfica do Microsoft Word versão 2007,  por meio da fórmula para o cálculo do Índice de Legibilidade Flesch, sendo 206,835 – (1,015 x ASL) – (0,846 x ASW), em que, ASL = quantidade média de palavras por sentença e ASW = quantidade média de sílabas por palavras.

A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética na Pesquisa da Universidade Estadual de Feira de Santana por meio do parecer nº 841612 e Certificado de Apresentação de Apreciação Ética nº 34172014.7.0000.0053, em 22 de outubro de 2014. Foram respeitados os aspectos éticos, quanto ao anonimato dos participantes, o esclarecimento dos objetivos, riscos e benefícios da pesquisa por meio da leitura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, explicação do método de coleta e participação voluntária.  

 

Resultados

A amostra da pesquisa foi composta em sua maioria por participantes do sexo feminino (90,9%), mães (72,7%), com média de 31,4 anos (+ 7,1 anos) e que estudaram até o ensino médio completo (61,4%). Os familiares estavam acompanhando crianças hospitalizadas nas unidades de clínica médica (36,4%), cirúrgica (29,5%), emergência (27,3%) e clínica oncológica (6,8%). A mediana do tempo de hospitalização da criança foi de 4 dias com intervalo interquartil de 7 dias, enquanto, que a mediana de punção foi de 6 com o intervalo interquartil de 17 punções.   

De acordo com a tabela 1, na categoria conteúdo, todos os participantes da pesquisa consideraram que os sentimentos de tristeza, tensão, medo, angustia e insegurança por não conhecer o procedimento apresentados pelos familiares da cartilha eram semelhantes aos que eles vivenciaram durante a CIP (100%). A leitura da cartilha ajudou a entender o conceito de veia (97,7%), cateter intravenoso (97,7%), punção venosa periférica (97,7%) e os passos para realizar este procedimento (97,7%). Para eles, as dicas sobre o que o acompanhante pode fazer durante a punção venosa ajudaria no momento em que este procedimento foi realizado na criança (95,5%) e que a cartilha abordou assuntos necessários para o familiar (100%).

Quanto à linguagem (Tabela 1), as frases foram consideradas de fácil entendimento (100%) e a escrita atrativa (100%). Para o quesito aparência, a capa chama a atenção do leitor (100%) e é clara quanto ao conteúdo que será abordado (72,7%). O tamanho do conteúdo (90,9%) e das letras (100%) foram considerados adequado.

Os participantes ressaltaram a clareza das ilustrações (97,7%), que elas facilitaram a aprendizagem do conteúdo (97,7%) e seu número estava suficiente para promover o entendimento do conteúdo da cartilha (95,5%). Na categoria motivação, os familiares consideram o texto da cartilha interessante (97,7%), que outro acompanhante que fizer a leitura do material entenderá seu conteúdo (95,5%), que este recurso educacional os ajudou no desenvolvimento de estratégias para diminuir o estresse durante a realização da punção venosa na criança (93,2%), sentindo-se motivados a ler o material até o final (100%) (Tabela 1). Ao analisar o Índice de Legibilidade de Flesch, observou-se que a narrativa da cartilha e as estratégias que podem ser adotadas pelos familiares durante a CIP foi considerada de fácil compreensão (70%).

 

Tabela 1 - Distribuição das variáveis relacionadas ao conteúdo, linguagem, aparência e motivação da cartilha. Feira de Santana, BA, Brasil, 2016. 

Variáveis

f

%

Conteúdo

 

 

Os sentimentos apresentados pelos familiares da cartilha são semelhantes aos que você vivenciou durante a CIP* da criança

44

100

A cartilha te ajudou a entender o que é um cateter intravenoso

43

97,7

A cartilha te ajudou a compreender o que é uma punção venosa periférica

43

97,7

A cartilha te ajudou a compreender os passos para realizar a punção venosa

43

97,7

As dicas sobre o que o acompanhante pode fazer durante a punção venosa te ajudaram no momento da punção venosa na criança

42

95,5

A cartilha aborda os assuntos necessários ao familiar sobre a punção venosa

44

100

Linguagem

 

 

Você entendeu as frases contidas na cartilha

44

100

A escrita utilizada na cartilha está atrativa

44

100

Aparência

 

 

A capa chama a atenção do leitor

44

100

A capa deixa claro que a cartilha abordará sobre a punção venosa

32

72,7

O tamanho do conteúdo em cada página está adequado

40

90,9

O tamanho das letras utilizadas na cartilha é adequado

44

100

As ilustrações são claras

43

97,7

As ilustrações facilitaram a aprendizagem do conteúdo da cartilha

43

97,7

O número de ilustrações facilitou o entendimento do conteúdo da cartilha

42

95,5

Motivação

 

 

O texto da cartilha é interessante

43

97,7

Qualquer acompanhante que ler a cartilha vai entender do que se trata

42

95,5

A cartilha te ajudou a desenvolver estratégias para diminuir o estresse durante a realização da punção venosa

41

93,2

Você se sentiu motivado (a) a ler até o final

44

100

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

* CIP= Cateterização Intravenosa Periférica

 

Discussão

Estudos identificaram que durante a CIP realizada em crianças, os familiares referiram manifestar sentimentos negativos, como medo, tristeza, ansiedade e estresse, além apresentarem reações, como o choro, caracterizando-se o seu sofrimento junto com a criança.2,13 Desse modo, ao verificar a aplicabilidade prática da cartilha “Punção venosa periférica para família”, observou-se que os participantes julgaram o material como instrumento para o preparo de familiares antes da realização da CIP na criança, além de poder auxilia-los no desenvolvimento de estratégias que amenizem o estresse e o sofrimento do familiar e, consequentemente, da criança.

Os familiares consideram o texto da cartilha como necessário para compreender a CIP, isso porque, o material didático e instrucional apresentava linguagem atrativa, que os ajudou a entender o conceito de veia, cateter intravenoso, punção venosa periférica e como este procedimento é realizado na criança pelos profissionais de saúde. Pesquisa nacional que verificou a validade de uma cartilha sobre autocuidado de pessoas com estomias intestinais, o público alvo considerou as frases fáceis de entender e o conteúdo claro.18 Desse modo, o acesso às informações apresentadas pela cartilha proporcionou a aprendizagem do familiar sobre a CIP, ratificando a promoção do cuidado para família e a criança acompanhada.

Os familiares desta pesquisa consideraram a aparência da cartilha como adequada e as ilustrações claras e facilitadoras da compreensão do conhecimento. Outro estudo que avaliou a vaidade da cartilha “Cuidado de criança com Gastrostomia”, os familiares concordaram em 100%, que as ilustrações do material educativo estavam adequadas.19 Assim, as ilustrações do material aliadas ao conteúdo demonstram-se como elementos importantes para a composição de um material educativo, haja vista que, promove a compreensão da temática proposta, além dessa despertar o interesse pela leitura.

Também, a realização de procedimentos dolorosos, como a CIP, em crianças, gera nos familiares acompanhantes preocupações referente a maneira de como lidar com essa situação com o intuito de reduzir a dor da criança, assim, despertando o desejo por obter informações.20 Conforme essa perspectiva, os familiares que avaliaram a cartilha mostraram-se motivados em realizar a leitura para obter conhecimento sobre a temática, considerando-a necessária para um familiar e acessível para qualquer acompanhante, ajudando-os a entender a CIP e a desenvolver estratégias para diminuir o estresse durante a realização do procedimento.

Isso demonstra o significado do preparo e da presença dos pais durante a CIP em crianças, haja vista que, outras pesquisas apontam os benefícios dessa ação educacional antes da realização do procedimento em crianças por meio da utilização de materiais (manuais) e métodos, como preparação processual, enfrentamento processual, apoio e educação, influenciando no comportamento dos familiares além de auxiliar a criança a enfrentar o sofrimento.11,21 Nesse sentido, a avaliação da utilização do “Manual de orientação para cuidados de crianças sobre punção venosa” por pais acompanhantes demonstrou os efeitos positivos e ascendentes durante três sessões de CIP na criança.12

Em um estudo realizado com crianças, foi investigada quais informações elas tinham interesse em saber, antes da realização de procedimentos hospitalares (invasivos ou não), sendo evidenciado no quesito autorregulação o interesse por saber se alguém ou algum familiar poderia estar presente.22 Outra pesquisa destaca que as crianças manifestam desejo por informações processuais (características do procedimento), também, sendo essas extremamente influenciadas pelos profissionais de saúde e familiares.23

Percebe-se, a importância da presença dos familiares durante a CIP, ratificando o valor dado pelas crianças com o intuito de oferecer apoio emocional, auxiliar a enfrentar a situação e obter informações sobre o procedimento. Para isso, vê-se a necessidade de instruir o familiar acompanhante como lidar com esse contexto, a fim de executar estratégias eficientes para a redução das tenções físicas e emocionais dele e da criança.

No entanto, estudo randômico e controlado, que verificou a influência da realização de psicoeducação para os pais na redução da dor em crianças submetidas a CIP, obteve como resultado a baixa atuação dos familiares ao desenvolver ações que poderiam reduzir a dor da criança, apesar de demonstrar aumento do conhecimento acerca desse quesito.24

Em contrapartida, outro ensaio clínico randômico e controlado, que aplicou medidas de distração em crianças, como livros e desenhos animados, durante a CIP, apresentou menor angustia, quando comparado as crianças que receberam apenas informações de rotina.25 Ademais, em uma revisão sistemática sobre a eficácia de intervenções psicológicas, como distração, hipnose e respiração específica (inflar uma bexiga), em crianças durante procedimentos invasivos com o uso de agulha para redução da angústia e da dor, verificou-se considerável influência para utilização desses métodos nas práticas clínicas.26

Outro destaque peculiar da cartilha foi a apresentação de estratégias apontadas por familiares acompanhantes de crianças hospitalizadas com necessidade de CIP entrevistados na fase diagnóstica para elaboração da cartilha13, como tentar se acalmar, respirar fundo, esclarecer dúvidas com os profissionais, confiar no profissional, acreditar que vai ocorrer tudo certo e estar próximo da criança durante o procedimento, abraçando-a, segurando a mão ou conversando.27 À vista disso, um estudo realizado na Estados Unidos aponta que a realização de contato físico, como o abraço e o toque em alguma parte do corpo, pelos familiares durante a CIP gera conforto para as crianças.28

Diante disso, a utilização de materiais educativos pode ser um instrumento de promoção do cuidado para oferta de informações para os familiares, sendo necessário o treinamento desses para a realização de ações que auxiliem a reduzir a dor e o estresse da criança durante a CIP, além de dispor do suporte emocional, que os estimulem a enfrentar as próprias limitações mediante o seu papel durante o procedimento. Assim, a aplicabilidade de materiais educacionais e instrucionais caracteriza-se apenas como um gatilho para o desenvolvimento de um cuidado no domínio cognitivo, no entanto, precisa-se atentar para as perspectivas afetivas e comportamentais da família e da criança hospitalizada submetida a CIP.

Os limites do estudo estão associados a não realização da aplicabilidade prática em outros hospitais pediátricos nacionais e a ausência de avaliação do efeito da cartilha no comportamento e sentimento dos familiares antes, durante e após a realização da CIP na criança.

 

Conclusão

O material didático e instrucional possuiu aplicabilidade prática, alcançando satisfatória avaliação entre os familiares. Dessa maneira a cartilha “Punção venosa periférica para família” poderá ser utilizada na prática clínica dos profissionais de enfermagem para o preparo de familiares acompanhantes de crianças hospitalizadas submetidas a CIP, por conter informações que podem esclarecer suas dúvidas relacionadas a este procedimento. Além disso, poderá envolver os familiares no cuidado da criança que demanda TIV por via periférica, potencializando o seu papel como coadjuvante na orientação da criança durante a hospitalização e promover sua autonomia e protagonismo.

 

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Editora Científica

Cristiane Cardoso de Paula

 

Editora associada

Aline Cammarano Ribeiro

 

Agradecimento: Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) pelo apoio a pesquisa “Segurança do Paciente pediátrico e sua família: estudo de tecnologias e eventos adversos relacionados à terapia intravascular periférica” sob a forma de Bolsa de Iniciação em Desenvolvimento Tecnológico e Inovação à Cleonara Sousa Gomes e Silva.

 

Autor correspondente

Cleonara Sousa Gomes e Silva

E-mail: cleosilvauefs@gmail.com

Endereço: Av. Transnordestina, s/n, Bairro Novo Horizonte Campus Universitário, Feira de Santana - BA.

CEP: 44.036-900

 

 

Contribuições de Autoria

1 - Cleonara Sousa Gomes e Silva

Análise e/ou interpretação dos dados, revisão final com participação crítica e intelectual no manuscrito.

 

2 - Sarah Almeida Santos

Revisão final com participação crítica e intelectual no manuscrito.

 

3 - Silvia da Silva Santos Passos

Revisão final com participação crítica e intelectual no manuscrito.

 

Silvone Santa Barbara da Silva Santos

4 - Revisão final com participação crítica e intelectual no manuscrito.

 

5 - Luciano Marques dos Santos

Concepção ou desenho do estudo/pesquisa; análise e/ou interpretação dos dados, revisão final com participação crítica e intelectual no manuscrito.

 

 

Como citar este artigo

Silva CSG, Santos SA, Passos SSS, Silva Santos SSBS, Santos LM. Aplicabilidade prática de uma cartilha sobre punção venosa periférica: estudo com familiares de crianças hospitalizadas. Rev. Enferm. UFSM. 2021 [Acesso em: Anos Mês Dia]; vol.11 e20: p1-16. DOI: https://doi.org/10.5902/2179769243349



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