O USO CRÍTICO DO CHATGPT NA PRODUÇÃO DE TEXTOS ARGUMENTATIVOS: RELATO DE EXPERIÊNCIA DE UM MINICURSO EM CONTEXTO UNIVERSITÁRIO
Universidade do Estado do Rio Grande do Norte - sabrinaharmonizer07@gmail.com
Universidade Federal do Ceará - alyssandraviana01@gmail.com
Raul Keivyny
de Oliveira Silva
Universidade do Estado do Rio Grande do Norte - raulkeivyny123@gmail.com
Resumo: O uso instrumental e passivo das Inteligências Artificiais Generativas (IAG) na Universidade tem suscitado discussões e preocupações relacionadas à autoria e à ética, especialmente no que diz respeito às produções textuais. Diante disso, o presente trabalho tem como objetivo relatar e discutir uma experiência pedagógica voltada ao uso crítico do ChatGPT como ferramenta de apoio na produção de textos argumentativos em contexto acadêmico. Para tanto, teoricamente, ancora-se em autores que discutem sobre a IAG, a ética e o plágio (Krokoscz, 2012; Vicari et al., 2023; Barreto; Ávila, 2023; Pschedt, 2024; Costa Junior et al., 2025). Metodologicamente, trata-se de um relato de experiência, cuja intervenção foi realizada no segundo semestre de 2025, em uma instituição pública de ensino superior, no âmbito do Estágio Curricular Supervisionado I do curso de Letras, Língua Portuguesa. O minicurso contou com, em média, 30 alunos de graduações diversas e contemplou atividades de produção textual com e sem o auxílio da IAG, discussões sobre o uso ético da ferramenta e um júri simulado. Como resultados, constatamos que a utilização crítica do ChatGPT pode favorecer o desenvolvimento da argumentação, desde que a ferramenta seja compreendida como um recurso de apoio ao processo de aprendizagem, e não como substituta da produção intelectual dos estudantes.
Palavras-chave: Produção textual; Argumentação; ChatGPT; Ensino Superior.
EL USO CRÍTICO DE CHATGPT EN LA PRODUCCIÓN DE TEXTOS ARGUMENTATIVOS: INFORME DE EXPERIENCIA DE UN MINICURSO EN EL CONTEXTO UNIVERSITARIO
Resumen: El uso instrumental y pasivo de la Inteligencia Artificial Generativa (IAG) en la Universidad ha suscitado debates y preocupaciones sobre la autoría y la ética, especialmente en lo que refiere a las producciones textuales. En este contexto, el presente trabajo tiene como objetivos relatar y discutir una experiencia pedagógica centrada en el uso crítico de ChatGPT como herramienta de apoyo para la escritura argumentativa en el ámbito académico. Desde una perspectiva teórica, el estudio se fundamenta en autores que abordan la IAG, la ética y el plagio (Krokoscz, 2012; Vicari et al., 2023; Barreto & Ávila, 2023; Pschedt, 2024; Costa Junior et al., 2025). Metodológicamente, se trata de un informe de experiencia basado en una intervención realizada durante el segundo semestre de 2025 en una institución pública de educación superior, como parte de la asignatura de Prácticas Curriculares Supervisadas I de la Carrera de Letras: Lengua Portuguesa. El curso breve contó con una media de 30 estudiantes de diversas carreras de grado e incluyó actividades de escritura con y sin asistencia de IAG, debates sobre el uso ético de la herramienta y un simulacro de juicio. Los resultados indican que el uso crítico de ChatGPT puede fomentar el desarrollo de habilidades argumentativas, siempre que la herramienta se entienda como un recurso de apoyo al proceso de aprendizaje y no como un sustituto del trabajo intelectual propio de los estudiantes.
Palabras clave: Producción textual; Argumentación; ChatGPT; Educación superior.
Introdução
A Inteligência Artificial Generativa (IAG), especificamente a ferramenta ChatGPT, tem tido enorme repercussão na sociedade, considerando o discurso em torno da celeridade que esta pode proporcionar no auxílio de atividades técnicas, orientações gerais, dentre outras possibilidades (Costa Junior et al., 2025). Contudo, em certas situações, ela vem sendo utilizada de forma indevida pelos usuários, especialmente no tocante à escrita de textos acadêmicos, como aponta Barreto e Ávila (2023), uma vez que a utilizam como mecanismo de substituição da atividade humana para produção textual.
Nesses termos, uma problemática se instaura, pois, tais sujeitos passam a não se envolver efetivamente no processo de construção do conhecimento, comprometendo sua autonomia intelectual e sua capacidade de pensamento crítico; além de estarem passíveis a cometer plágio dentro da sua própria escrita, o que se configura como um crime tanto ético quanto judicial (Krokoscz, 2012).
A implementação da IAG na Educação Básica e Superior, portanto, requer um olhar crítico e um alto manejo pela parte humana para evitar a dependência tecnológica e o prejuízo à autonomia intelectual (Pschedt, 2024; Vicari et al., 2023). Isso porque o que se espera de alunos e demais sujeitos sociais é que não utilizem os recursos digitais apenas de maneira instrumental e passiva, limitando-se ao consumo automático de conteúdos e respostas prontas, mas que sejam capazes de mobilizá-los de forma crítica, reflexiva e ativa.
Diante dessas questões, o presente trabalho tem por objetivo relatar e discutir uma experiência pedagógica voltada ao uso crítico do ChatGPT como ferramenta de apoio na produção de textos argumentativos em contexto acadêmico, a partir da oferta de um minicurso.
Para tanto, o trabalho está organizado em 5 seções, além desta introdução, as quais contemplam os aspectos metodológicos da proposta didática, os resultados e discussões e as conclusões. Nas seções voltadas ao percurso metodológico, apresentamos o detalhamento do minicurso ofertado, seu contexto de realização e as tecnologias envolvidas. Nos resultados e discussões, analisamos as produções geradas a partir da aplicação da proposta didática e, por fim, encerramos o trabalho com as conclusões.
Contexto da aplicação
O minicurso “Arquitetura do texto: Produção Argumentativa com Auxílio do ChatGPT”, foi desenvolvido na Universidade do Estado do Rio Grande do Norte - UERN, Campus Avançado de Pau dos Ferros, no âmbito do Estágio Curricular Supervisionado I do curso de Letras, Língua Portuguesa, no semestre de 2025.2; e contou com a participação de, em média, 30 (trinta) cursistas (figura 1), sendo estes alunos das graduações de Letras, Língua Portuguesa; Letras, Língua Inglesa; Administração; Educação Física e Geografia da referida instituição.
Figura 1 – Participantes do minicurso
Fonte: Acervo dos autores (2025)
Essa atividade formativa teve por objetivo explorar o uso crítico da IAG (com foco no ChatGPT) como ferramenta de apoio à produção do gênero artigo de opinião, promovendo reflexões sobre autoria, ética e escrita acadêmica. Especificamente, esperava-se que os participantes pudessem i) compreender a estrutura e as características do gênero artigo de opinião; ii) produzir artigos de opinião de forma orientada, com e sem apoio da IA; iii) refletir sobre autoria, plágio e responsabilidade na escrita; e iv) desenvolver senso crítico diante dos limites e potencialidades da IAG.
Tecnologias Educacionais Envolvidas
A tecnologia utilizada na proposta didática foi o ChatGPT (OpenAI, versão GPT-5, gratuita). A ferramenta foi empregada de três maneiras. Inicialmente, foi utilizada para apresentar sua interface, suas funcionalidades e possibilidades de uso no contexto acadêmico. Em seguida, recorreu-se ao ChatGPT como apoio ao processo de escrita dos estudantes, a partir de prompts como: “Revise a coerência e a coesão deste fragmento: X”; “Indique autores ou artigos que discutam sobre este tema: X”; e “Quais acontecimentos/situações reais ou referências posso utilizar para fundamentar um texto sobre o tema X?”.
Por fim, utilizamos a ferramenta para gerar exemplares do gênero artigo de opinião, por meio de comandos como “Elabore um artigo de opinião sobre o tema X”, na perspectiva de estabelecermos comparação, em termos de construção da argumentação e da estrutura composicional entre os textos produzidos sem o auxílio da IAG, com seu apoio e aqueles gerados integralmente pelo ChatGPT.
Etapas Desenvolvidas
O minicurso, objeto do relato, foi organizado em quatro encontros, realizados nos dias 13, 15, 20 e 22 de outubro de 2025, sempre no turno da tarde (das 13h às 17h), totalizando 20h de atividades, detalhadas no quadro a seguir.
Quadro 1 – Cronograma e objetivos do minicurso
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ENCONTRO |
ATIVIDADE DESENVOLVIDA |
OBJETIVO(S) DO ENCONTRO |
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1 13/10 |
Exposição sobre a IA e o gênero artigo de opinião |
- Apresentar o gênero artigo de opinião e suas principais características - Promover discussões sobre a IAG e o ChatGPT, seus usos, potencialidades e implicações para a produção textual |
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2 15/10 |
Escrita de artigo de opinião com e sem auxílio de IA |
- Produzir artigo de opinião com e sem o auxílio da IAG, mobilizando conhecimentos prévios sobre argumentação e construção de posicionamentos - Comparar as diferentes versões produzidas |
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3 20/10 |
Reflexão crítica sobre ética e autoria |
- Refletir criticamente sobre o uso da IAG na escrita - Elaborar um minicódigo de conduta para orientar o uso ético da IAG em contextos acadêmicos |
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4 22/10 |
Realização de Júri simulado |
- Desenvolver um júri simulado sobre a utilização da IAG na Educação Básica |
Fonte: Elaborado pelos autores (2025)
No primeiro encontro, intitulado “Conhecendo o gênero e a IA”, realizou-se, inicialmente, uma exposição dialogada sobre o gênero artigo de opinião e sua relação com a Inteligência Artificial Generativa (IAG) na produção escrita. As discussões partiram dos conhecimentos prévios dos estudantes, identificados por meio de um questionário elaborado no Google Formulários e aplicado antes do início do minicurso.
Com base nas respostas obtidas, foram apresentadas e discutidas as principais características de textos argumentativos (figura 2), a finalidade comunicativa do gênero Artigo de Opinião, os seus contextos de circulação, tipo de linguagem predominante e organização composicional (figura 3), contemplando os elementos que constituem a introdução, o desenvolvimento e a conclusão. Desse modo, buscou-se oferecer aos participantes os conhecimentos necessários para a produção do gênero, que seria desenvolvida nos encontros seguintes.
Figuras 2 e 3 – Material utilizado no minicurso
Fonte: Acervo dos autores (2025)
Nesse cenário, apresentamos também exemplares do gênero publicados em jornais, sites e colunas de opinião, bem como artigos produzidos integralmente pelo ChatGPT, com o objetivo de identificar, coletivamente, a estrutura composicional e estabelecer comparações entre os textos produzidos por autores humanos e aqueles gerados por Inteligência Artificial.
Além disso, foi realizada uma exploração guiada da interface da plataforma ChatGPT, com o intuito de promover o letramento dos alunos para o uso crítico da ferramenta. Nesse momento, discutiram-se aspectos relacionados à sua personalização, às possibilidades de utilização no contexto acadêmico e aos seus potenciais como recurso de apoio às atividades de estudo, sempre enfatizando seus limites e a importância de um uso ético, reflexivo e consciente.
O segundo encontro, tomando como base as discussões anteriores, foi voltado à produção escrita do gênero. Inicialmente, os alunos elaboraram um artigo de opinião sem o auxílio de ferramentas de IAG, a partir de um tema escolhido por eles.
Em um segundo momento, os estudantes recorreram ao ChatGPT como apoio ao processo de escrita, utilizando-o para obter sugestões de repertórios socioculturais, que poderiam subsidiar a revisão e o aperfeiçoamento dos textos produzidos anteriormente.
Por fim, realizou-se uma atividade comparativa, na qual foram analisados, lado a lado (figura 4), o artigo produzido sem o uso de IA, o texto revisado com auxílio da ferramenta e um texto gerado exclusivamente pela IA – solicitado pelos ministrantes ao ChatGPT.
Figura 4 – Quadro utilizado na atividade comparativa
Fonte: Acervo dos autores (2025)
No terceiro encontro, a discussão voltou-se para a autoria e ética na escrita acadêmica, tomando como base as produções do segundo encontro. Esse momento foi orientado por questões que problematizaram a presença da voz autoral, a natureza da argumentação produzida pela IAG, bem como os riscos e as potencialidades do uso dessas ferramentas. Após isso, solicitamos a elaboração de um minicódigo de conduta para a utilização ética do ChatGPT.
Por fim, no quarto encontro, destinado ao fechamento das atividades, foi proposto uma dinâmica de júri simulado, com o tema “A tecnologia fortalece ou enfraquece a argumentação humana?”. Para isso, antes de finalizarmos o terceiro encontro, realizamos um sorteio dos papéis para o júri, sendo eles: advogado(a) de defesa; advogado(a) de acusação; quatro testemunhas de defesa e cinco testemunhas de acusação. Também sorteamos o papel do réu (Inteligência Artificial Generativa) e cinco pessoas foram sorteadas para participar do júri popular e decidir o veredito final.
Assim, os alunos foram organizados em grupos com funções específicas: acusação, responsável por sustentar a ideia de que a Inteligência Artificial é prejudicial à escrita; defesa, encarregada de argumentar em favor de seus aspectos positivos; testemunhas ou especialistas, que apresentaram contribuições fundamentadas em fontes diversas; e o júri, responsável por deliberar o veredito final.
Resultados e Discussões
No que se refere aos resultados, a análise se concentrará nas três atividades desenvolvidas ao longo do minicurso: (i) a atividade de produção e comparação de textos produzidos por, com e sem auxílio de IAG; (ii) a elaboração do minicódigo de conduta, no qual os alunos sistematizaram, de forma colaborativa, orientações sobre usos éticos e responsáveis do ChatGPT no contexto acadêmico; e (iii) a realização do júri simulado, que promoveu a problematização crítica acerca dos impactos da IA na argumentação, especialmente no que diz respeito às suas potencialidades e limitações no processo de produção textual.
A análise da primeira atividade fundamenta-se no entendimento de que a produção argumentativa pressupõe a participação ativa do sujeito na construção do discurso. Isso porque, por tratar-se de um aspecto essencial para a vida em sociedade, a argumentação, em processos formativos, deve ser desenvolvida de modo crítico, especialmente em contexto de ensino formal. Desse modo, espera-se que o aluno, na condição de sujeito social, seja capaz de argumentar em diferentes contextos, mobilizando capacidades argumentativas adequadas às diversas práticas sociais.
Esse caráter situado e contextualizado do texto e dos argumentos norteou todas as produções e pôde ser observado nos artigos de opinião dos participantes, que abrangeram temas que se relacionavam com suas escolhas profissionais – os cursos de graduação ao qual estavam vinculados. Entre as produções elaboradas pelos alunos do curso de Educação Física[1], por exemplo, destacam-se: “Impactos da obesidade na saúde pública brasileira” (figura 5) e “O esporte como inclusão social” (figura 6).
Figuras 5 e 6 – Trecho de artigos de opinião produzidos pelos participantes
Fonte: Acervo dos autores (2025)
Essas produções evidenciam a mobilização de conhecimentos prévios e de repertórios socioculturais próprios dos participantes. No artigo sobre a obesidade, por exemplo, o estudante fundamentou sua argumentação a partir de referências pertencentes ao seu repertório cultural, como o filme The Whale e a série Insatiable, como observamos nas transcrições a seguir.
[...] De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o sobrepeso é um grave problema de saúde em todo o mundo, sendo fator principal para condições como diabetes e hipertensão. No filme "The Whale", mostra a vida de Charlie, um professor recluso de inglês, é narrada enquanto ele sofre de obesidade mórbida, insuficiência cardíaca e hipertensão. Seu bem-estar debilitado limita severamente sua vida. Fora da ficcção, a realidade é semelhante (2º parágrafo).
Ademais, é notório que a influência midiática construiu a ideia de um corpo ideal, causando impactos negativos para a sociedade que sofrem com esse impasse. Na série “insatiable”, da Netflix, retrata-se a vida de uma garota obesa que, devido a dietas exageradas e transtornos psicológicos, perde bastante peso. Adentrando em um mundo competitivo de beleza, em busca de um corpo “perfeito” [...] (3º parágrafo).
A incorporação desses elementos conferiu maior singularidade ao texto, evidenciando a presença da voz autoral, além de trazer maior fundamentação de seus argumentos, uma vez que cita também a Organização Mundial de Saúde. Em contrapartida, nos textos gerados integralmente pela IA e analisados de forma comparativa durante o encontro (figuras 7 e 8), observou-se uma argumentação mais padronizada, marcada por construções linguísticas recorrentes, parágrafos curtos e certa repetitividade na organização das ideias.
Figuras 7 e 8 – Artigos de opinião produzidos pelo ChatGPT
Fonte: Acervo dos autores (2025)
Ao comparar textos produzidos pelo ChatGPT sobre temas distintos, como "O impacto das redes sociais na formação de opinião" e "O desafio da preservação ambiental nas cidades brasileiras", os participantes observaram que a ferramenta tende a reproduzir uma mesma estrutura argumentativa.
Independentemente do tema, os textos iniciam com uma breve contextualização, apresentam argumentos gerais, atribuem ao poder público a responsabilidade pela resolução do problema e encerram com uma conclusão que propõe, de maneira genérica, ações como investimento em educação ou fortalecimento de políticas públicas, como podemos evidenciar no quadro 2.
Quadro 2 – Comparativo da estrutura composicional dos artigos de opinião gerados por IAG
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ESTRUTURA |
TEXTO 1 |
TEXTO 2 |
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Introdução |
[...] Nesse contexto, a preservação ambiental precisa ser tratada como prioridade nas políticas públicas municipais. |
[...] Diante disso, surge a necessidade de refletir sobre o papel das redes na formação da opinião pública.
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Desenvolvimento
Argumentos
Problematização/citação sobre o governo |
A falta de áreas verdes e a impermeabilização do solo contribuem para o aumento da temperatura e das enchentes. Além disso, a destinação inadequada de resíduos sólidos agrava os impactos ambientais e ameaça à saúde pública [...]
Embora o país possua leis ambientais avançadas, a fiscalização é precária e a consciência ecológica da população ainda é limitada. É necessário que o poder público e os cidadãos compreendam que o meio ambiente urbano também precisa de proteção. |
[...] a lógica algorítmica favorece conteúdos polêmicos e emocionais, que geram engajamento, mas nem sempre promovem reflexão. Assim, o debate público acaba sendo reduzido a disputas ideológicas superficiais.
Além disso, a ausência de políticas efetivas de educação midiática nas escolas impede que jovens e adultos desenvolvam o senso crítico necessário para lidar com a avalanche informacional.
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Conclusão |
Dessa forma, investir em planejamento sustentável e educação ambiental é fundamental para garantir um futuro equilibrado [...]. |
Portanto, é urgente promover a educação digital como ferramenta de cidadania. Somente com uma formação crítica o indivíduo poderá usar as redes sociais de forma consciente, contribuindo para uma sociedade mais informada e menos suscetível à manipulação. |
Fonte: Elaborado pelos autores (2026)
Diante dessas discussões, os participantes concluíram que o ChatGPT apresenta limitações para a elaboração de textos autorais e situados, devendo ser utilizado como ferramenta de apoio à pesquisa, à revisão textual e ao aprimoramento da escrita, e não como substituto da produção intelectual do estudante.
A partir dessas reflexões, os participantes elaboraram, de forma colaborativa, um minicódigo de conduta, no qual sistematizaram orientações sobre práticas consideradas éticas e outras consideradas inadequadas no uso do ChatGPT em atividades acadêmicas, como o ato de copiar e colar textos gerados pela IA sem atribuição de autoria.
Figuras 9 e 10 – Mini códigos produzidos pelos participantes
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Fonte: Acervo dos autores (2025)
Por fim, considerando que a argumentação também se manifesta em práticas orais e que, nessas situações, diferentemente da produção escrita, o estudante não pode recorrer ao ChatGPT para responder por ele durante a interação comunicativa imediata, promovemos a realização de um júri simulado.
A escolha dessa atividade fundamenta-se na compreensão de que o ato de argumentar constitui uma necessidade do ser humano enquanto sujeito social e racional, seja para defender-se, seja para sustentar seus pontos de vista, junto aos seus pares em momentos de interação (Barbisan, 2007). Nessa perspectiva, entendemos que o aluno somente é capaz de argumentar de modo consistente quando compreende como esse processo se constrói e, sobretudo, quando é colocado em situações reais de interação que exigem a mobilização das habilidades que envolvem esse processo.
Isso porque, por trás de qualquer enunciado, há uma dimensão procedimental (Lima, 2022) que envolve estratégias retóricas e escolhas linguísticas realizadas a partir dos efeitos que são esperados nas situações de interação, que podem envolver convencimento, persuasão etc., e que devem ser ensinadas também.
Nesse cenário, o júri, como já citado, teve como temática “A tecnologia fortalece ou enfraquece a argumentação humana?” e aconteceu no auditório da biblioteca da UERN, buscando proporcionar uma experiência estética mais imersiva.
Para tanto, organizamos um lado do auditório para a defesa e o outro para a acusação, cada qual composto por seus respectivos advogados e testemunhas (figura 11). O júri popular foi direcionado para as cadeiras posicionadas em frente a uma mesa localizada em um nível mais elevado do auditório. O réu, por sua vez, também teve um espaço reservado, permanecendo sentado entre o júri e os grupos de advogados e testemunhas (figura 12).
Figuras 11 e 12 – Desenvolvimento do Júri simulado
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Fonte: Acervo dos autores (2025)
Tanto a equipe responsável pela acusação quanto a equipe da defesa desenvolveram suas atuações com argumentos fundamentados em dados, filmes e diferentes repertórios socioculturais, previamente selecionados e organizados com o apoio do ChatGPT. Nesse contexto, a ferramenta foi utilizada como suporte à pesquisa e ao planejamento das intervenções orais, sem substituir o processo de construção argumentativa realizado pelos participantes durante o debate.
Como atividade de encerramento do minicurso, o júri simulado mostrou-se especialmente relevante por colocar os estudantes em uma situação concreta de interação argumentativa, na qual precisaram sustentar posições que, em alguns casos, não correspondiam às suas opiniões pessoais. Essa dinâmica possibilitou compreender a argumentação como uma prática social que exige, inclusive, a antecipação de contra-argumentos.
Assim, mais do que identificar uma equipe vencedora, o objetivo da atividade foi promover uma reflexão crítica sobre as potencialidades e as limitações da Inteligência Artificial Generativa, retomando, agora na modalidade oral, as discussões anteriormente sistematizadas nas produções escritas e no minicódigo de conduta.
Conclusões
Concluímos, a partir da experiência do minicurso que a prática de produção textual com Inteligência Artificial Generativa por alunos de cursos superiores requer um olhar crítico e atento do usuário, de modo que a ferramenta seja utilizada como apoio ao processo de produção escrita e oral, e não como substituta da construção autoral e da argumentação.
A experiência com o minicurso ampliou, ainda, as perspectivas acerca do reconhecimento da linguagem produzida pelo ChatGPT e suas limitações, aspecto de extrema relevância para a identificação de textos elaborados pela ferramenta. Por fim, destacamos que os participantes demonstraram postura ética ao longo de todas as aulas, o que atendeu às expectativas estabelecidas para o desenvolvimento da proposta.
Referências
BARBISAN, L. B. Uma proposta para o ensino da argumentação. Letras de Hoje, v. 42, n. 2, p. 111-138, 2007.
BARRETO, A. M. P.; ÁVILA, F. A Inteligência Artificial diante da integridade científica: um estudo sobre o uso indevido do ChatGPT. Revista Direitos Culturais, v. 18, n. 45, p. 91-106, 2023.
COSTA JÚNIOR, João Fernando et al. O professor robotizado: a perda da relação humano-pedagógica na era da IA. ARACÊ, v. 7, n. 7, p. 35375-35389, 2025. Disponível em: https://periodicos.newsciencepubl.com/arace/article/view/6290. Acesso em: 21 jun. 2026.
KROKOSCZ, M. Autoria e plágio: um guia para estudantes, professores, pesquisadores e editores. São Paulo: Atlas, 2012.
LIMA, S. F. A. As capacidades argumentativas como objeto de ensino da argumentação. Revista Eletrônica de Estudos Integrados em Discurso e Argumentação, v. 22, n. 2, p. 154-174, 2022.
OPENAI. ChatGPT (versão GPT-5) [modelo de linguagem]. Disponível em: https://chatgpt.com/. Acesso em: 09 jul. 2026.
PSCHEDT, A. C. Inteligência artificial na sala de aula: como a tecnologia está revolucionando a educação. São Paulo: Matrix, 2024.
VICARI, R. M. et al. Inteligência artificial na educação básica: prática na escola. São Paulo: Novatec Editora, 2023.
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[1] Como critérios de seleção dessas produções, optamos por apresentar apenas os textos dos alunos do curso de Educação Física, considerando dois aspectos: os textos (i) mobilizavam uma diversidade de repertórios socioculturais na construção dos argumentos, não se restringindo a referências acadêmicas, mas incorporando também elementos da cultura midiática, como filmes e séries; e (ii) apresentavam-se na versão final, contemplando as revisões solicitadas durante o minicurso.