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| ReTER, Santa Maria, v.5. ISSN:2675-9950 | Submissão: 02/10/2023 Aprovação: 15/03/2024 Publicação: 09/04/2024 |
UM ESTUDO SOBRE AS TECNOLOGIAS DIGITAIS:
O QUE NOS REVELAM OS ESTUDANTES DO BRASIL E DE PORTUGAL
PPGE FAED Universidade do Estado de
Santa Catarina – luizjunior1189@gmail.com
Rosa
Elisabete Militz Wypyczynski
Martins
Docente do PPGE FAED /
Universidade do Estado de Santa Catarina – rosamilitzgeo@gmail.com
Resumo: Este artigo é recorte de um
estudo de doutorado que foi finalizado no ano de 2020. Tem como objetivo
analisar o uso das tecnologias digitais na Educação de Brasil e Portugal sob o
olhar dos estudantes, identificando as similaridades, proximidades e diferenças
de usos nos diferentes contextos educativos. A metodologia utilizada foi do
tipo quantitativa de natureza colaborativa, envolvendo 29 estudantes
brasileiros e 26 estudantes portugueses, com idade entre 14 e 17 anos, de
escolas públicas em nível médio, Brasil, e Secundário, Portugal. Os resultados
indicaram que regularmente os estudantes fazem uso das tecnologias em
diferentes espaços e tempos para fins educativos e os professores demonstraram
desempenho em fazer o uso dos dispositivos no ensino de Geografia. Além do mais, compreendemos uso das
tecnologias digitais não é garantia de aprendizado efetivo se não houver intencionalidade
pedagógica pautada num planejamento elaborado acerca da cultura estudantil e da
estrutura tecnológica disponível no espaço escolar.
Palavras-chave: Tecnologias Digitais; Brasil;
Portugal; Educação Básica.
A STUDY ON
DIGITAL TECHNOLOGIES: WHAT STUDENTS FROM BRAZIL AND PORTUGAL TELL US
Abstract: This article is part of a doctoral study that
was completed in 2020. It aims to analyze the use of digital technologies in
education in Brazil and Portugal from the perspective of students, identifying
similarities, proximity and differences in uses in different educational
contexts. The methodology used was the quantitative type of collaborative
nature, involving 29 Brazilian students and 26 Portuguese students, aged
between 14 and 17 years, from public high schools, Brazil, and Secondary,
Portugal. The results indicated that regularly the students make use of the
technologies in different spaces and times for educational purposes and the
teachers demonstrated performance in making use of the devices in the teaching
of geography. Furthermore, we understand that the
use of digital technologies does not guarantee effective learning if there is
no pedagogical intention based on elaborate planning regarding student culture
and the technological structure available in the school space.
Keywords: Digital technologies; Brazil; Portugal; Basic education.
Introdução
Este artigo tem como proposta
apresentar recorte de um estudo desenvolvido no doutorado em uma universidade
pública catarinense em 2020.
Sendo assim, baseado no arcabouço teórico e metodológico da pesquisa em
questão, o objetivo é analisar o uso das tecnologias digitais na Educação
brasileira e portuguesa sob o olhar de estudantes, identificando as
similaridades, proximidades e diferenças de usos dessas tecnologias nos
diferentes contextos educativos.
A presença das
tecnologias digitais nos diferentes espaços societários não é algo tão antigo,
pelo contrário, permeia meados da década de 1990, com o advento da globalização
e o impulso da modernização da comunicação nos processos educacionais. Com
essas mudanças, no plano da Educação, as escolas passaram a refletir sobre o
uso dessas tecnologias no dia a dia educativo, promovendo, assim, estudos,
debates e problematizações em torno das demandas e desafios implicados no
processo ensino-aprendizagem (Scheunemann et al., 2020).
Contudo,
tais desafios não significaram transformar o contexto escolar em um campo
experimental de uso de tecnologias digitais, nem tampouco sucumbir aos fetiches
das tecnologias na contemporaneidade. Para Machado
(2016), a criação das tecnologias
educacionais veio revestida de novas possibilidades para se pensar o ensino em
diferentes contextos, abordagens e enfoques teóricos e práticos. Concordamos
com a autora que as tecnologias não constituem ferramentas determinantes para a
solução dos problemas afetos ao ensino, como por exemplo, a transmissão
mecanicista de conteúdos da escolarização.
Nesse
contexto, Soares e Procasko (2018) citam que a inserção das tecnologias
digitais na esfera educacional, sob o ponto de vista prático, representa um dos
maiores desafios de inovação pedagógica, porém, essa renovação depende de
fatores que dizem respeito à modernização da estrutura escolar, como também à
questão da formação docente para lidar com as tecnologias digitais no contexto
educativo. As pontuações dos autores nos levam a refletir que a força motriz
dessa inovação pedagógica é provocada pelos estudantes que adentram no espaço
escolar revestidos com outras percepções e com outros interesses, até porque
são indivíduos pertencentes a outra geração, cujas interações com as
tecnologias da informação e comunicação vieram numa crescente desde seu
nascimento.
Segundo Pretto
(2011), tendo em vista o papel e as potencialidades que as
tecnologias digitais assumem no âmbito educativo, temos a clareza que ainda
enfrentamos o desafio que necessita ser encarado de perto pelas políticas
públicas educacionais: os estudantes do século XXI precisam interagir com
docentes que estejam antenados às necessidades educativas dessa temporalidade.
Pelo exposto, apresentamos algumas
questões nucleares com a intenção de orientar os critérios de análise e a
apresentação dos resultados: Quais são as políticas públicas de Brasil e
Portugal aplicadas às Redes de ensino para dar conta das tecnologias digitais
no âmbito escolar? Como se caracterizam os discursos dos estudantes no que
tange ao uso que fazem das tecnologias digitais? É possível identificar
diferenças significativas na avaliação dos estudantes de Brasil e Portugal a
respeito da frequência e dos tipos de tecnologias digitais utilizados por parte
dos professores nas aulas de Geografia?
De acordo com a composição da
questão problema articulada com objetivo delineado, foi empregada a metodologia
quantitativa de cariz colaborativo envolvendo 29 sujeitos do território
português no ano de 2018 que frequentavam o segundo ano de uma escola secundária
e 26 estudantes brasileiros de uma turma do segundo ano do Ensino Médio de uma
escola pública da Rede Estadual catarinense no ano de 2019. A proposta de um
questionário semiestruturado serviu de instrumento para gerar os dados da
pesquisa.
Acerca das descrições conceituais e
metodológicas, este texto está organizado em quatro partes: na primeira,
situamos o estatuto teórico-epistemológico das políticas públicas de Brasil e
Portugal sobre as tecnologias educacionais. Na sequência, apresentamos os designs
metodológicos utilizados dentro do binômio “qualitativo” versus
“colaborativo”, considerando o período de investigação, o público-alvo, a
caracterização dos envolvidos e, também, o instrumento utilizado para gerar os
dados. Na terceira parte, destacamos o campo de análise dos resultados,
baseados no processo de interpretação articulado com o referencial teórico,
seguido, na última parte, das considerações finais.
O desenho das políticas públicas sobre as tecnologias
educacionais: Brasil e Portugal
Este tópico tem como objetivo
oferecer algumas notas explicativas acerca das políticas públicas sobre a
inclusão das tecnologias digitais na Educação entre Brasil e Portugal. No
Brasil, a promulgação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDB
nº 9394/1996 desencadeou uma série de documentos oficiais, de caráter
mandatório, que impactaram sobremaneira a organização dos sistemas de ensino e
a definição das políticas educacionais em nível federal, estadual e municipal.
Podemos citar, nesse conjunto
normativo, os Parâmetros Curriculares Nacionais, o Plano Nacional de Educação,
as Diretrizes Curriculares Nacionais e a Base Nacional Comum Curricular, dentre
outros documentos e legislações. Essas orientações legais e oficiais
estabelecem que a educação brasileira tem como finalidade precípua: formar para
a cidadania e para o trabalho, enfatizando a necessidade dos
processos educativos desenvolverem diferentes habilidades e competências,
dentre elas, as digitais (Brasil,
2008).
Desde então, tem-se o desafio para a
edificação de um projeto de inclusão digital na educação, não só no que
concerne à universalização do acesso à informação, mas também, objetivando
“[...] diminuir o fosso digital e as desigualdades sociais” (Almeida, 2008, p. 27). Cabe
pontuarmos, porém, que todo esse processo de inclusão digital exige cuidado e
requer atenção e reflexão para não elevar as tecnologias como determinantes e
únicas fontes de recurso para o ensino-aprendizagem. Nosso entendimento é o de
que, se utilizadas adequadamente, elas podem se tornar excelentes dispositivos
para ampliação de repertório nos mais variados tipos de conhecimento:
científico, ambiental, tecnológico, artístico e cultural.
Para dar conta desse projeto de
modernização, informatização e inclusão digital, as primeiras iniciativas
ocorreram na década de 1980 por parte do governo federal em parcerias com
pesquisadores da área de tecnologias educacionais. Desde então, as políticas
públicas de inclusão digital no Brasil começaram a ganhar espaço e
desencadearam os programas direcionados para a implantação de tecnologias na
escola, a fim de habilitar os professores para o uso das tecnologias no
ambiente escolar (Almeida, 2008).
Nesse desenvolvimento das políticas
educacionais e curriculares, de forma breve, sinalizamos, neste texto, aquelas
que se voltam para a inclusão digital, conforme Quadro 1.
Quadro 1 – Mapeamento dos programas de inclusão digital no Brasil
|
Designação |
Ano |
Entidade responsável |
Missão |
|
Programa EDUCOM |
1984 |
Ministério
da Educação |
Realizar pesquisa multidisciplinar e capacitar recursos
humanos para subsidiar a decisão de informatização da educação pública
brasileira |
|
Programa FORMAR |
1987 |
Ministério
da Educação |
Preparar os docentes para atuar nos centros como
multiplicadores na formação de outros professores mediante a oferta de cursos
de informática na educação |
|
Programa TV na Escola |
1996 |
Ministério
da Educação |
Equipar tecnologicamente as unidades de ensino no
território nacional |
|
Programa Nacional de Informática na Educação – ProInfo |
1996 |
Ministério
da Educação |
Incorporar a Rádio Escola, DVD Escola e a Rede Interativa
Virtual de Educação – RIVED. |
|
Programa
Governo Eletrônico – Serviço de Atendimento ao Cidadão (Gesac) |
2002 |
Ministério
da Educação |
Implantar
de forma gratuita a conexão de internet em banda larga com apoio do Satélite Geoestacionário
de Defesa e Comunicação por todo território nacional |
|
Programa
Mídias na Educação de formação de professores na modalidade Educação a
Distância |
2005 |
Ministério
da Educação |
Preparar
a equipe docente para lidar com a linguagem digital no espaço escolar |
|
Programa
Nacional de Formação Continuada em Tecnologia Educacional |
2005 |
Ministério
da Educação |
Aprimoramento
e aperfeiçoamento dos profissionais da Educação por meio da utilização de
tecnologias digitais |
|
Programa
Nacional de Tecnologia Educacional |
2007 |
Ministério
da Educação |
Promover
e enriquecer o trabalho pedagógico por meio da utilização de tecnologias no
Ensino Fundamental e Médio |
|
Programa
Banda Larga nas Escolas |
2008 |
Ministério
da Educação, Agência Nacional de Telecomunicações, Ministérios de
Comunicações e do Planejamento, Secretarias de Educação dos Estados e
municípios. |
Possibilitar
o acesso à rede de internet às escolas do território nacional |
|
Programa
Nacional de Educação do Campo |
2010 |
Ministério
da Educação |
Informatizar
os ambientes educativos do campo |
|
Projeto
UCA - Um Computador por Aluno |
2010 |
Ministério
da Educação |
Promover
a inclusão digital dando um computador para cada aluno |
|
Programa
de Inovação Educação Conectada |
2017 |
Ministério
da Educação |
Apoiar
a universalização do acesso à internet de alta velocidade e fomentar o uso de
tecnologia digital na Educação Básica |
Fonte:
Elaborado pelos autores (2023).
O mapeamento dos programas criados pelo Governo de
Portugal sobre as tecnologias digitais no âmbito da Educação Básica data de
1985. Não é diferente do Brasil no que se refere às primeiras
iniciativas à inclusão digital quando da aprovação da Lei de Bases do Sistema
Educativo de Portugal, aprovada em 1986. Datam desse período ações voltadas
para a implementação das tecnologias na esfera escolar, cujo objetivo é fazer
com que a Educação portuguesa consiga acompanhar as transformações digitais (Silva et al.,
2014). Essas políticas públicas trazem como objetivo:
[…] integração transversal das tecnologias nas
diferentes áreas curriculares dos ensinos básico e secundário, visando a
melhoria contínua da qualidade das aprendizagens e a inovação e desenvolvimento
do sistema educativo, dotando as crianças e jovens das competências digitais
necessárias à sua plena realização pessoal e profissional (PORTUGAL, 2020,
p.11).
Tendo em vista um projeto de
desenvolvimento digital atravessando todas as etapas educativas e modalidades
de ensino, situamos os programas de inclusão digital desenvolvidos pelo Governo
português, expressos no Quadro 2.
Quadro
2 – Mapeamento dos programas de inclusão digital em Portugal
|
Designação |
Ano |
Entidade responsável |
Missão |
|
Projeto
MINERVA |
1985 |
Ministério
da Educação (GEP e DEPGEF) |
Modernização e democratização das escolas com o uso das tecnologias digitais |
|
Programa
Nónio-Século XXI |
1996 |
Ministério
da Educação |
Produção,
aplicação e utilização generalizada das TIC no Sistema Educativo |
|
uARTE- Internet na Escolas |
1997 |
Ministério
da Ciência e Tecnologia |
Coordenar o desenvolvimento do Programa
Internet na Escola |
|
Programa
Internet@EB1 |
2002 |
Ministério
da Ciência e Tecnologia; Escolas Superiores de Educação; FCCN |
Acompanhamento às escolas de ensino
básico em relação à utilização da Internet |
|
Apetrechamento
Informático das escolas 1 ciclo básico |
2003 |
Ministério
da Educação (CRIE) |
Criar condições físicas para a
mobilização de competências tecnológicas e assegurar o
apetrechamento Informático da generalidade das sala
de aula |
|
Apetrechamento
Informático do ensino Pré-escolar |
2004 |
Ministério
da Educação |
Integração do uso das TIC nos primeiros
passos do processo de aprendizagem formal |
|
Programa
Avaliação e certificação de multimédia |
2004 |
Ministério
da Educação |
Desenvolver um sistema de recolha,
disseminação, avaliação e certificação de produtos educativos em suporte
digital |
|
Iniciativa
das Escolas, Professores e C. Portáteis |
2006 |
Ministério
da Educação |
Apoiar a utilização individual e profissional das TICs por
parte dos professores |
|
1000
Salas TIC |
2006 |
Ministério
da Educação; Microsoft Portugal; Sun Microsystems |
Equipar e instalar os equipamentos às disciplinas de TIC
do 9 e 10 anos de escolaridade |
|
Plano
Tecnológico da Educação |
2007 |
Ministério
da Educação (GEPE) |
Equipar
as escolas e democratizar a utilização das tecnologias de forma integral por
meio da disponibilização de computadores com internet para os estudantes |
|
Internet
Segura |
2007 |
UMIC;
Ministério da Educação (ERTE/PTE-DGIDC); FCCN; Microsoft |
Assegurar a Segurança e a Privacidade
no Uso da Internet |
|
Iniciativa
e-Escolinha |
2008 |
Ministério
da Educação; MOPTC |
Distribuição de computadores portáteis
a baixo custo |
|
Aprender
e Inovar com TIC |
2010 |
Ministério
da Educação (ERTE/PTE-DGIDC) |
Melhoria das aprendizagens dos alunos, através da
rentabilização dos equipamentos disponíveis nas escolas |
|
Programa
de Digitalização para as escolas |
2020 |
Ministério
da Educação |
Vinculado ao Plano de Ação para a Transição digital, o
programa tem como finalidade a capacitação digital docente, o desenvolvimento
digital das escolas e a desmaterialização dos materiais escolares para o uso
direto de materiais digitais por todos os membros das escolas. |
Fonte: Elaborado pelos autores (2023).
Os programas citados, na condição de
políticas públicas, consubstanciam ações que visam a inclusão digital na área
da educação. Isso significa que programas dessa natureza assumem, progressivamente,
papel fundamental como estratégia política para a implantação e investimento
nas tecnologias digitais em escolas públicas. Embora esses programas sejam
vistos como possibilidades de inclusão digital, é necessário interrogar: O que
é? Para quem é? Por que foi proposto? Como foi implantado? Isso porque, a
criação de políticas públicas é tarefa complexa e exige amplo debate envolvendo
a participação de especialistas da área, pesquisadores, profissionais da
educação e o Ministério da Educação.
Salvo melhor juízo, toda política
pública deveria partir do contexto no qual estão inseridos os destinatários
dessa política. Neste estudo, percebemos que as políticas possuem
especificidades e uma série de características diferentes em cada contexto pesquisado
(Brasil e Portugal), desde o processo de formação docente, passando pela adoção
de tecnologias para o estudante e chegando à escola, objetivando a qualidade da
oferta educativa e o percurso de aprendizagem dos alunos.
Os
estudos de Vosgerau
(2009), como também as pesquisas
internacionais feitas por Cuban (2001), Thompson,
Schmidt e Hadijianni (1995), constataram que
quando as tecnologias digitais são impostas por inúmeras políticas públicas sem
a menor investigação dos beneficiados, elas não são integradas. Nessa
perspectiva, o que importa é a sistematização e a articulação das instituições
acerca dos condicionantes da política para fornecer os elementos e as condições
necessárias à concretização da inclusão digital na Educação. Essa estratégia
legítima da política é de fundamental importância para romper com a lógica do
mercado tecnológico na área da Educação, que obscurece suas reais finalidades,
seu valor educativo e sua função ética, política e estética de se antenar às
demandas contextuais de discentes e docentes no contexto escolar da Educação
Básica.
É no terreno desses programas que a
inclusão digital pode se ampliar, criando condições de acessibilidade para
todos os estudantes, em todas as etapas da Educação Básica. Ao analisar as
políticas constituídas por programas apresentados no quadro das políticas de
Portugal, notamos um aspecto que provoca a atenção e interesse, qual seja, a
inclusão digital a partir dos nove anos de idade da criança no percurso de
escolarização. Com base nessa proposta de investimento educacional e digital,
podemos constatar que o país, já desde cedo, buscou desenvolver habilidades e
competências digitais durante o percurso formativo das crianças. Por outro lado, no Brasil, ainda precisamos
de políticas mais robustas nesse sentido, pois, percebe-se que na Educação
Infantil, assim como nos primeiros anos do Ensino Fundamental, essa tônica está
latente, todavia, não manifesta.
Portanto, podemos considerar que os
mapeamentos das políticas públicas acerca da implementação das tecnologias
digitais na área da Educação de ambos os países demonstram aproximações
e similaridades quanto aos objetivos específicos em torno da cultura digital no
contexto escolar e diferem no que se refere às atualizações e inovações de
programas extensionistas de inclusão digital e no alinhamento de ações
direcionadas para regular as diferenças do sistema educacional (ALMEIDA, 2008).
Ainda
problematizando as políticas públicas, podemos citar que aquilo que é
prioridade para um país pode não ser para o outro. Neste caso, nos últimos
quatro anos, identificamos uma considerável redução de investimentos das
políticas públicas voltadas para as tecnologias educativas no Brasil, no
Governo Bolsonaro. Com a falta de política robusta, potencializada pelo
agravamento da pandemia de Covid-19 (vírus
SARS-CoV-2), vimos uma crescente da exclusão social devido à falta de
acesso ao ensino remoto por parte de muitos estudantes da Rede pública de
ensino. Por outro lado, vimos também um filão de mercado interessado em se
apropriar e expropriar o bem público, na medida em que organizações
empresariais alinhadas ao Conselho Nacional de Educação e ao Ministério da
Educação e Cultura fizeram várias investiduras de mercantilização da formação
docente, da produção de material didático, tratando como mercadoria e fonte de
lucro a educação e a formação de professores (PARO,
2020).
Essa
reflexão destaca a importância da inclusão digital no campo da Educação em
diferentes perspectivas. Neste caso, se houvesse investimento contínuo voltado
para a qualificação docente e a estruturação tecnológica nas escolas, as Redes
de ensino poderiam ter oferecido mais suporte e condições estruturais de
trabalho e aprendizagem a docentes e discentes durante o período pandêmico.
Aspectos metodológicos
A
metodologia utilizada neste estudo partiu de uma pesquisa qualitativa de
natureza colaborativa realizada em dois espaços escolares de Brasil e Portugal
nos anos de 2018 e 2019. A pesquisa qualitativa se deu pelo fato de tratar de
sujeitos investigados a partir de sua total integração, considerando suas
narrativas, envolvimentos, atitudes, percepções, ações e decisões (ANDRÉ, 2013).
Ibiapina
(2008) cita que a pesquisa colaborativa tem um caráter coletivo e
o nível de comunicação e interatividade entre os envolvidos contribui para a
fluidez do estudo e desenvolvimento da atividade em que os membros são
desafiados. A mesma autora aponta que a metodologia em questão é o tipo de
pesquisa mais adequada para o tratamento das tecnologias na Educação quando
utilizadas por parte de estudantes e de professores.
Como procedimento metodológico,
aplicamos um questionário composto por dez questões abertas e fechadas, sendo
cinco sobre o perfil dos estudantes e demais perguntas tiveram o objetivo de
identificar o nível de frequência e os tipos e finalidades das tecnologias
digitais no ensino de Geografia por parte dos estudantes do Ensino Médio. Os
critérios para escolha do público partiram das Secretarias de Educação dos
referidos países.
No mês de outubro de 2018, após a
proposta de atividade em sala de aula, foi aplicado o questionário para 26
estudantes portugueses de uma turma secundária, equivalente ao segundo ano do
Ensino Médio brasileiro. Desses, 16 identificaram-se como gênero feminino e 10
como gênero masculino, com idade entre 15 e 17 anos. Dentre estes, 77% (20)
dos/as estudantes se declararam de nacionalidade portuguesa, 11% (3)
brasileiros, seguidos de 8% (2) africanos e 3% (1) venezuelanos.
Já no Brasil, no mês de março de
2019, seguido da atividade de investigação na escola, um total de 29 estudantes
de uma turma do segundo ano do Ensino Médio respondeu ao questionário. Dos
participantes, 16 assinalaram ser do gênero feminino e 13 do gênero masculino,
com idades entre 15 e 17 anos. Desses, aproximadamente 72% (21) dos estudantes
assinalaram Santa Catarina como o Estado de origem, 10% (3) são oriundos do
Paraná, 7% (3) de São Paulo, 4% (2) da Paraíba e da Bahia e, também, 3% (1) do
Estado do Rio de Janeiro.
Para a mineração, organização e
análise dos dados, utilizamos a proposta da análise de conteúdo, defendida por Bardin (1977). Em regra, a
análise de conteúdo obedece a três etapas “1. Pré-análise.
2. Exploração dos dados. 3. O tratamento dos resultados: a inferência e a
interpretação” (BARDIN, 1977, p.
121). Em suas minúcias, cada fase possibilita refletir, inferir
e interpretar as informações em diferentes formatos, abordagens e enfoques. Por
questões éticas e acordos assumidos pelo Termo de Consentimento Livre e
Esclarecido, e para efeito de compreensão dessa análise, os participantes não
são identificados no estudo.
O que apontam os dados levantados?
Partindo da
hipótese de que a Educação está cada vez mais afetada pela conectividade e
mobilidade causada pelas tecnologias e, também, cada vez mais desafiada pelas
diferentes formas de comunicação provocadas pelas tecnologias digitais,
chamamos atenção para o processo de ensino e aprendizagem que não pode ser
baseado em uma perspectiva “transmissiva”, na qual o computador assume o lugar
do professor e o professor orienta o estudante. Defendemos a perspectiva de
ensino construtivo e colaborativo, que considera o estudante como sujeito ativo
e o professor como mediador, sujeito mais experiente, logo, as tecnologias como
potencial para apoiar o processo de ensino e aprendizagem.
Nessa perspectiva, ao nosso ver, as
tecnologias podem constituir elementos fundamentais para qualificar o processo
de ensino e aprendizagem em razão das suas potencialidades informacionais e de
comunicação. Isso quer dizer que essa perspectiva define as tecnologias
digitais como dispositivos para mediar a produção de conhecimento e não como
finalidade legítima e própria do processo de ensino e aprendizagem. Nessa
esteira, os estudantes assinalaram mais de uma opção no questionário sobre o
uso de tecnologias no cotidiano escolar, conforme ilustramos no Gráfico 1.
Gráfico 1 - Frequência do uso dos tipos de tecnologias por parte dos estudantes
Fonte: Elaborado pelos autores (2023).
A partir do Gráfico 1, observamos
que existe uma relação altamente significativa entre a utilização do aparelho
de celular pelos estudantes dos países investigados, sendo no Brasil 100% e
Portugal 96%. Seguido do uso do computador (Brasil 81% e Portugal 96%) e
acompanhado pelo uso recorrente da televisão (Brasil 85% e Portugal 92%). Uma
possível interpretação para esse resultado é que a principal fonte geradora
dessas tecnologias é a internet.
Esses dados estão em conformidade,
por exemplo, com aqueles publicados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE) no ano de 2021, sobre os tipos das tecnologias mais
utilizadas pela população brasileira: celular 99,5%, TV 44,4% e o computador
42,2% (BRASIL, 2021).
Relativamente às informações expressas pelo órgão responsável pela pesquisa no
Brasil, em Portugal, não muito diferentes, o Instituto Nacional de Estatística
(INE) demonstra, no ano de 2022, que os usuários, através da internet, utilizam o telemóvel 93,75%, computador pessoal, 83,9% e o tablet 82,9 % (Portugal, 2022).
De acordo com as amostras obtidas e
representadas no Gráfico 1, destacamos dois aspectos importantes, sobretudo
pelo que cada um significa em si mesmo relativos à questão do uso das
tecnologias: primeiro é que os três tipos de tecnologias mais elevadas de
utilização estão presentes dentre as estatísticas levantadas pelo INE e IBGE
(2021), como as mais populares e que são consideradas básicas e de domínio
comum, efetivo e generalizado na sociedade atual. O segundo é que as
informações (Quadro 1 e Quadro 2) podem ser tomadas como indicadores
importantes dos programas de inclusão digital que por bom tempo os dois países
vêm desenvolvendo nas Redes de ensino.
Ainda sinalizaram o uso de vídeo game, sendo no Brasil 48 % e em Portugal
76 %. O tablet utilizado pelos
estudantes brasileiros foi igual a 15 %, já pelos estudantes de Portugal foi de
88 %. A máquina fotográfica em Portugal (64 %) é mais utilizada do que no
Brasil (30%). Por outro lado, realça a
utilização do leitor de MP3 (7% Brasil e Portugal 32%) foi a tecnologia digital
com menor uso por parte dos estudantes. Tais dados possibilitam afirmar que os
estudantes das Redes de ensino dos diferentes países possuem acesso às
diferentes tecnologias, embora em contextos muito específicos.
Quando questionamos os estudantes sobre
“quais são as principais atividades que você realiza com o uso das tecnologias
digitais? ”, o cenário que se apresentou foi o que mostra o Gráfico 2.
Gráfico 2 - Finalidades de uso das tecnologias
digitais por parte dos estudantes
Fonte: Elaborado pelos autores (2023).
Da análise dos dados apresentados no
Gráfico 2 é visível que os estudantes dos países pesquisados recorrem às
tecnologias com maior regularidade para acessar e usar as redes sociais,
correspondente a 100% em Portugal e 96% no Brasil. Esse registro possibilita
inferir que as redes sociais foram criadas com a intenção de aproximar e
conectar as pessoas e, assim, estão presentes na vida dos indivíduos de forma
integral e intrínseca, seja por meio do “Facebook”, do “Instagram”, do
“Twitter”, como também pelos aplicativos “Messenger”, “WhatsApp”, “Viber” e “Telegram”.
Em segundo e terceiro lugar, os
estudantes utilizam as tecnologias digitais para resolver exercícios (Portugal
100% e Brasil 93%) e para realizar pesquisas de natureza escolar (Portugal 96%
e Brasil 96%), respectivamente. Conforme se pode observar nos dados,
identifica-se uma acentuada similaridade quanto à finalidade de atividades
realizadas quando cotejamos os dados em questão. Entretanto, elaborar slides para apresentação (Portugal 96% e
Brasil 89%) e assistir vídeo e jogar (Portugal 86% e Brasil 85%) também são
usos e atividades que se destacam entre os estudantes e, assim, também
confirmados nos estudos de Pery et
al. (2010) e de Guimarães
et al. (2018).
Quanto à participação em fóruns de discussão, 32% dos estudantes
de Portugal e 37% dos brasileiros afirmaram fazer essa atividade. Em nosso
entendimento, promover encontros em fóruns
para discussões é uma forma de desenvolver a criticidade e impulsionar a
participação ativa dos estudantes. É de salientar, por outro lado, a pouca
atenção dedicada por parte dos estudantes à criação de aplicativos (Portugal
12% e Brasil 55%). A utilização de aplicativos, por apresentar-se com menor
índice e uso esporádico, nos chama atenção por saber-se que a aplicação de
aplicativos é prática que força o estudante a pensar, a criar e a propor algo
com base no conteúdo curricular, assim expresso pelos trabalhos de Almeida et al. (2015)
e Souza et al. (2016).
A leitura
dos dados nos permite entender, de modo geral, que, prioritariamente, o uso das
tecnologias é direcionado para as questões escolares. Os estudantes passam a
enxergar as tecnologias como possibilidade para pesquisa e resolução de
problemas em tempo real, seja pelo acesso ao google ou YouTube. O
acesso às tecnologias em tempos de mundo globalizado mostra-se como num
crescente, em virtude de suas características técnicas e sociais (interfaces,
hipertextualidade e interatividade).
A Organização das Nações Unidas
(ONU), em 2022, publicou que 1,7 bilhões de lixo eletrônico foi descartado no
meio ambiente devido ao consumo exagerado da população mundial. Segundo a
publicação, a tendência desse cenário é de constante aumento, porque não
existe, no planeta, uma cultura preparada para lidar somente com o que é útil,
necessário. Pelo contrário, a cultura é impulsionada a consumir exageradamente.
Em relação aos espaços utilizados, os dados mostram o seguinte (Gráfico 3):
Gráfico 3 - Espaço utilizado pelos estudantes na
relação com as TDCs
Fonte: Elaborado pelos autores
(2023).
Ao analisar as representações
apresentadas pelos participantes, implica considerar que a casa dos amigos (100
%) foi o lugar unanimemente definido para realizar as tarefas com o uso das
tecnologias. Esses dados podem nos confirmar que o uso de tecnologias fora da
escola pode se dar pela certa facilidade dos estudantes pesquisados em acessar
a rede de internet. Segundo dados publicados pelo INE
de Portugal (2022), 84,6% da população tinha internet em suas residências. Já no
Brasil, em 2021, 90% da população possuíam internet
em seus domicílios, de acordo com o IBGE.
Os
estudantes também indicaram que, na sala de aula
(Portugal 100% e Brasil 89%) e no recreio/intervalo da escola (Portugal 80% e
Brasil 59%), utilizam as tecnologias. Também indicaram o laboratório (Portugal
4% e Brasil 52%) como o espaço menos utilizado. Gabriel
(2013) não é contra que o estudante faça o uso das tecnologias
digitais na sala de aula, pelo contrário, mas ressalta a importância de se ter
objetivos específicos para que o processo não corra o risco de ser negativo. O
alerta da autora refere-se à questão de que se não houver um encaminhamento
pedagógico sobre a utilização das tecnologias na sala de aula, isso pode levar
o estudante a buscar outras informações que não tenham relação com o propósito
da aula e os saberes e conceitos e ela correlatos. As pontuações da autora se
materializam na fala de Rauber e
Tonini (2018, p. 267) ao citarem que “[...] as
tecnologias nos processos educativos trazem nem só proveitos e nem prejuízos.
Isso dependerá de como integram os cenários pedagógicos, isto é, como as
pessoas irão planejar, tencionar e refletir o seu uso”.
Acreditamos que é importante
orientar e preparar os estudantes para uso das tecnologias de forma pedagógica
e, assim, ajudá-los na utilização dos dispositivos na escola e fora dela.
Trabalhar com alfabetização digital é a ordem atual, ou seja, não adianta
concebermos que as tecnologias podem contribuir com a inovação de sistemas de
ensino e aprendizagem se não houver qualificação docente direcionada aos
estudos teóricos e práticos relacionados às tecnologias educacionais.
O estudante precisa aprender a usar
as tecnologias na escola, pois, segundo Ferreira
e Tonetto (2018, p. 109),
os estudantes “[...] utilizam as tecnologias digitais sem fronteiras entre
comunicação e lazer, efemeridade e comunicação simultânea”. De acordo com as
autoras, aprender a utilizar os dispositivos na escola é tão necessário quanto
urgente, pois, assim, estes não terão dificuldades e limitações para fazer uso
das tecnologias em espaços não escolares. O Gráfico 4 ilustra como os
estudantes avaliam o uso de dispositivos pelos professores.
Gráfico 4 - Avaliação de estudantes sobre o uso de dispositivos: professor de Geografia
Fonte:
Elaborado pelos autores (2023).
O Gráfico 4 ilustra que as
atividades mais trabalhadas em sala de aula por parte dos professores é o Google Maps (Portugal 72% e Brasil 19%),
seguida do uso de mapas digitais (Portugal 56% e Brasil 19%). Com base nos
dados, alguns pontos relacionados ao contexto do ensino de Geografia face às
tecnologias digitais carecem problematização. Um ponto importante refere-se à
questão das potencialidades da exploração de mapas por intermédio do uso das
tecnologias digitais no processo de construção dos saberes geográficos.
Dessa reflexão, decorre a questão de
que não só de mapas digitais se faz o ensino de Geografia. Embora seja um
recurso que faz referência ao ensino por muito tempo e, principalmente, quando
se fala em ensinar Geografia, existem outros repertórios pedagógicos que podem
auxiliar na mobilização dos saberes geográficos. Os mapas digitais são
importantes, possuem potencialidades, textualidades e representações
específicas, por isso, o professor deve usá-los quando for necessário, pois,
sabemos que, no formato digital, as exigências técnicas são maiores, tanto do
ponto de vista operacional quanto da estrutura tecnológica na escola.
Câmeras e gravadores (Portugal 27% e
Brasil 22%) e GPS (Portugal 28% e Brasil 19%) foram dois instrumentos digitais
apontados como utilizados, algumas vezes, pelos professores para ensinar
Geografia. Entretanto, os jogos e quiz didáticos (Portugal 26% e Brasil 15%) e
a proposta do uso de SIG (Portugal 28% e Brasil 7%) nas aulas de Geografia
foram utilizados para diversificar o processo de ensino e aprendizagem.
De acordo com os dados, verificamos
que os docentes, conforme as respostas dos participantes, utilizam as
tecnologias digitais, embora alguns dispositivos ainda não estejam acessíveis
no contexto educativo brasileiro. Por outro lado, o professor de Geografia de
Portugal demonstrou ter mais facilidade para fazer a aplicação de mapas
digitais, com destaque na utilização de jogos educativos para aprofundar os
saberes geográficos.
As respostas dos participantes
contribuem no sentido de refletirmos que a relevância de trabalhar no
componente curricular de Geografia com as tecnologias pode ser uma forma de
ampliar os conhecimentos geográficos em suas diferentes perspectivas. Importante
registrar que é preciso cuidar com o planejamento, que precisa ser criterioso,
para não replicar o que já se fazia (ensino conteudista distanciado do contexto
do estudante, repasse de informação, memorização do conteúdo) e definir com
clareza o tipo de dispositivo mais coerente para o ensino, na perspectiva de
não configurar como uma prática de passatempo e entretenimento.
A mediação e intervenção docente é
algo primordial e requer todo um investimento no processo educativo,
organizando, distribuindo e gerenciando o uso das tecnologias. Nesse processo,
o docente cumpre papel diretivo na mediação do ensino com apoio das tecnologias e faz-se necessário garantir ancoragem
conceitual e metodológica para que ele desempenhe com sólida relação
teoria-prática o seu fazer pedagógico.
Embora não constitua unidade de
análise neste estudo, é imperioso afirmar que a formação inicial e continuada
em torno das tecnologias digitais precisa estruturar-se na lógica de um continuum, que tome os saberes docentes
e as necessidades aprendentes dos estudantes como centralidade do processo (Malheiros et al., 2020;
Silva, Novello, 2020).
Também, faz-se importante considerar que o ensino na conjuntura atual, segundo Pretto (2011), está enfrentando
um enorme desafio que diz respeito à situação do distanciamento e à diferença
entre as transformações do universo digital e comunicacional com o mundo da
escola, requerendo, assim, certa reconfiguração dos processos educativos.
Embora tenhamos identificado que os
dois países criaram programas que preconizaram a inclusão digital nas escolas,
a solução não está meramente nessas ações, ainda que estas configurem práticas fundamentais. No entanto, só
podem se efetivar nas e pelas reflexões sobre as práticas desenvolvidas pelos
docentes no espaço educativo, bem como, pelas condições concretas de
materialidades, estrutura educacional e programas de formação continuada que
permitam aos docentes também ampliarem seus percursos e seus repertórios. Até
porque, para Vosgerau
(2017), em consonância com os
estudos internacionais feitos por Clift, Mullen e Larson (2001), Thompson,
Schmidt e Hadijianni (1995), “[...] as capacitações para utilização das
TIC não provocam uma integração imediata, elas necessitam de um acompanhamento
contínuo, a longo prazo” (p. 3).
Considerações finais:
recontextualizando os discursos
A
Educação e as Tecnologias Digitais estão amplamente articuladas e demandam para
os contextos educativos contemporâneos apropriações teórico-metodológicas em
torno de diferentes linguagens, habilidades e competências digitais. Pode
parecer arriscado adjetivar se as tecnologias digitais sejam boas ou ruins.
Estamos longe dessa intenção. Diversas pesquisas sinalizam que elas se tornam
recursos fundamentais para a produção de conhecimento, mas, também, são
elementos de transformação da cultura. Se as tecnologias são agentes de
mudanças culturais, por tal questionamos: a escola está desconectada dessa
geração digital ou os dispositivos estão desconectados da escola?
Os
achados da pesquisa indicaram que, regularmente, os estudantes fazem uso das
tecnologias em diferentes espaços e tempos, como também, utilizam,
prioritariamente, as tecnologias para fins educativos. Além do mais, avaliam
que os professores utilizam as tecnologias digitais, porém, de forma limitada.
No Brasil, por exemplo, há pouca utilização dos dispositivos digitais em
relação ao contexto educativo de Portugal.
No
desenvolvimento da pesquisa, pudemos analisar que a implantação de políticas
públicas constituídas, de modo geral, por programas de inclusão digital, se
articula a diversas ações desenvolvidas que reconhecem o potencial formativo
das tecnologias digitais como elementos de apoio da cultura escolar e não como
“solução da Educação”, “produção de resultados” e, principalmente, “insumos
tecnológicos”, que, por vezes, são impulsionados pelo mercado tecnológico,
fazendo da escola um lugar de depósito de ferramentas digitais devido à falta
de uso por ausência de condições estruturais. A política de inclusão digital
requer diretrizes, estratégias e redes de planejamento, considerando quem tem
acesso e quem não tem, para não excluir ou intensificar ainda mais a criação de
rotas de exclusão digital, segundo a expressão de Nelson
de Luca Pretto (2011).
Em
síntese, podemos dizer que a investigação desenvolvida em ambos os contextos
geográficos representa um cenário que merece reflexão acerca das tecnologias
digitais na Educação. Por isso, os dados nos permitem afirmar que as
tecnologias digitais precisam fazer parte do processo pedagógico, tendo em
vista que seu uso alarga estilos de interação professor-estudante,
estudante-estudante em torno da linguagem midiática, com novos suportes de
informação e comunicação. Isso porque, é preferência dos estudantes aprender os
conhecimentos geográficos, seja por meio das atividades propostas na escola
e/ou por meio de pesquisas pensadas pelos professores para serem feitas em
outros espaços caracterizados como não escolares. O uso delas no contexto
educativo é, sem dúvida alguma, a chance de criar outros espaços de construção
de conhecimentos, ampliando o repertório dos estudantes.
É
pertinente, ainda, pontuarmos que o uso das tecnologias digitais não é garantia
de aprendizado efetivo se não houver intencionalidade pedagógica orientada por
um plano de ensino orgânico, que tenha clareza dos fins que se pretende
alcançar. Por isso, o seu uso requer reflexão acerca dos seus eventuais
potenciais para o processo de construção de conhecimento. Refletir envolve
aprofundamento teórico e prático e, sobretudo, acompanhamento de forma rigorosa
e sistemática, considerando o ambiente, os tipos de tecnologias, o público-alvo
(estudantes e professores) e, acima de tudo, avaliando o processo, o impacto e
os efeitos pedagógicos.
Em
nosso ponto de vista, o uso das tecnologias, articulado a outras ferramentas
didático-pedagógicas e outras linguagens, contribui para a constituição de uma
cultura pedagógica que respeita, provoca o estudante a pensar mais, fazer mais,
aprender e narrar mais, fortalecendo seu protagonismo, sua agência, sua
meta-cognição.
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