Filosofar na infância: desenvolvimento e análise de uma sequência didática
Philosophizing in childhood: development and analysis of a teaching sequence
Universidade do Estado de Minas Gerais, Belo Horizonte – MG, Brasil.
Universidade do Estado de Minas Gerais, Belo Horizonte – MG, Brasil.
laura.2139454@discente.uemg.br
Universidade do Estado de Minas Gerais, Belo Horizonte – MG, Brasil.
julia.2141367@discente.uemg.br
Recebido em 03 de fevereiro de 2026
Aprovado em 14 de junho de 2026
Publicado em 19 de junho de 2026
RESUMO
O Programa de Filosofia para Crianças proposto por Matthew Lipman foi importante para voltar o olhar em relação ao filosofar na infância. Walter Kohan, a partir dos estudos sobre Lipman, defende o uso da palavra com, no lugar de para, valorizando ainda mais a posição das crianças na atividade filosófica. Como problemática de pesquisa, questiona-se o modo como as aulas com abordagem de Filosofia para e com Crianças podem contribuir para o desenvolvimento do pensamento crítico. O objetivo é desenvolver e analisar uma proposta de sequência didática com abordagem de Filosofia para e com Crianças para turmas de quinto ano do Ensino Fundamental. A pesquisa é bibliográfica e qualitativa. A análise foi pautada no pensamento de Lipman e Kohan. A proposta demonstra que é viável assumir uma perspectiva filosófica nos anos iniciais do ensino fundamental, por meio de uma sequência didática e recursos pedagógicos.
Palavras-chave: Educação; Filosofia; Criança.
ABSTRACT
Matthew Lipman's Philosophy for Children program was important in refocusing attention on philosophizing in childhood. Walter Kohan, based on studies of Lipman, advocates the use of the word "with" instead of "for," further valuing the children's position in philosophical activity. The research problem questions how classes with a Philosophy for and with Children approach can contribute to the development of critical thinking. The objective is to develop and analyze a proposed teaching sequence with a Philosophy for and with Children approach for fifth-grade elementary school classes. The research is bibliographic and qualitative. The analysis was based on the thinking of Lipman and Kohan. The proposal demonstrates that it is feasible to adopt a philosophical perspective in the early years of elementary school, through a didactic sequence and pedagogical resources.
Keywords: Education; Philosophy; Children.
No atual contexto da educação brasileira, há uma forte preocupação com os índices de avaliações externas, a exemplo do Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB) e do Sistema Mineiro de Avaliação e Equidade da Educação Pública (SIMAVE). A preocupação com índices baseados em acertos de questões e fluxo (frequência dos alunos) tem provocado um ensino direcionado ao treinamento, ao mascaramento da realidade escolar e cronograma de aulas engessado.
Observa-se nas diferentes aulas dos anos iniciais e finais do ensino fundamental, pouco espaço para debates, reflexões e desenvolvimento da autonomia dos estudantes. Conceitos e perspectivas filosóficas são praticamente inexistentes no currículo escolar de crianças e adolescentes. Diante desse cenário, a questão problema que motivou essa pesquisa é: De que modo as aulas com abordagem de filosofia para e com crianças podem contribuir para o desenvolvimento do pensamento crítico? O seu objetivo é desenvolver e analisar uma proposta de sequência didática com abordagem de filosofia para e com crianças para turmas de quinto ano do Ensino Fundamental.
A pesquisa assume relevância por contribuir com uma proposta de sequência didática fundamentada nos estudos de filosofia para e com crianças em um contexto que pouco se discute sobre a necessidade de formar para o pensar bem.
A presente pesquisa é bibliográfica e possui uma abordagem qualitativa. Foram consultados artigos científicos, livros e outras produções acadêmicas sobre a temática de Filosofia para e com Crianças. Ademais, foi desenvolvida e apresentada uma sequência didática para o 5º ano do Ensino Fundamental. A proposta ainda não foi implementada. Neste artigo, discute-se a sua viabilidade.
Tendo em vista as discussões atuais sobre Filosofia para/com Crianças, de que não é necessário seguir rigidamente as novelas filosóficas propostas por Lipman, selecionamos o livro “A libélula e a tartaruga”, escrito por Rubem Alves (2016) como um recurso para fomentar o diálogo e reflexão das crianças. A obra foi escolhida pelos autores pelo fato de ser mais acessível e se tratar de uma fábula infantil, que instiga o pensar melhor. A sequência didática envolve questionamentos sobre a existência, a qual abre possiblidades para conversar sobre o diferente e levantar interrogações.
Matthew Lipman foi um filósofo americano, nascido em Nova Jersey no dia 24 de agosto de 1923. Apesar dos conflitos vividos por ele e sua família durante a Segunda Guerra Mundial, Lipman sempre buscou os estudos e lutou pela sua formação universitária. Em 1946, depois de várias experiências em outros ambientes acadêmicos, ele se matriculou na Universidade de Columbia, onde a filosofia ganhou maior espaço em sua vida. (Lipman, 2023).
Por respeitar a infância e prezar pelo desenvolvimento intelectual e reflexivo ainda nessa fase, John Dewey se tornou uma das maiores inspirações de Lipman, com o qual se encontrou e trocou correspondências enquanto esteve em Columbia. Em sua autobiografia, Lipman destaca:
Uma das minhas experiências mais incríveis na Columbia foi relacionada a Dewey. Eu havia descoberto, através da leitura de muitos de seus livros, que sentia afinidade com suas ideias e filosofias, como sua compreensão da importância da infância e da integração dos estudos sociais no currículo infantil (Lipman, 2023, p.69).
As ideias de John Dewey influenciaram de forma significativa Matthew Lipman, que, assim como ele, acreditava que a integração entre filosofia e psicologia era essencial quando se falava em educar para o pensar.
A sua preocupação inicial deu-se a partir de uma experiência como professor de lógica, onde percebeu dificuldades dos estudantes universitários em relação a noções básicas de raciocínio. Alves e Muraro (2023) explicam que certas dificuldades de raciocínio e interpretação, como a que Lipman vivenciou, ocorrem pelo fato de o ensino da filosofia ser tardio, ou seja, quando o pensamento das pessoas já está formado e solidificado, que também foi um dos apontamentos feitos por Lipman para justificar a criação de comunidades de investigação e o uso de recursos a serem usados com crianças, como as novelas filosóficas. Seu maior projeto voltado para essas questões, foi o Programa de Filosofia para Crianças.
Sendo professor titular na Universidade de Montclair, Lipman adquiriu um instituto para o estudo do pensamento filosófico das crianças, mais tarde chamado de Institute for the Advancement of Philosophy for Children, Instituto para o Avanço da Filosofia para Crianças (IAPC), fato que ele celebra em sua autobiografia. Para auxiliá-lo nessa missão investigativa da relação das crianças com a filosofia, Lipman criou algumas novelas filosóficas para trabalhar com elas, sendo Ari dos Teles a primeira. Na história, Ari é um garoto que, ao se distrair em uma aula e não conseguir responder à professora, começa a questionar seu modo de agir e percebe que não pode inverter algumas afirmações, pois assim acabariam se transformando em informações falsas. Com o tempo, autores que se aproximaram das discussões sobre Filosofia para/com Crianças, a exemplo de Walter Omar Kohan, passaram a defender que outros recursos pedagógicos podem ser utilizados, a exemplo de obras literárias, músicas, filmes etc.
Ao todo, Lipman (2023) destaca que foram necessários dez anos para organizar o Programa de Filosofia para Crianças, pois havia muitas questões envolvidas, como a falta de colaboradores, arrecadações para manter o instituto, cobertura midiática, entre outras. O primeiro momento de destaque que o programa obteve foi somente no ano de 1983, quando foi entrevistado no Good Morning America. A entrevista foi ao ar pouco depois e trouxe visibilidade para o programa, além de despertar o interesse de várias instituições educacionais pelo mundo. (Lipman, 2023).
Vários países aderiram à filosofia para crianças e o programa finalmente obteve verbas para se manter. Tamanho sucesso chamou a atenção inclusive da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), que ao final de 1997 organizou uma espécie de reunião com vários especialistas da área, para debater o assunto e expor ideias e resultados. Lipman e Sharp formaram diversos educadores ao longo dos anos e o Programa de Filosofia para Crianças foi traduzido para mais de 45 idiomas. (Lipman, 2023).
Segundo Silva e Silva (2022) em seus estudos sobre Lipman, o pensamento é algo que pode ser educado, pois está em desenvolvimento constante. Diante disso, essa educação ocorre a todo momento, especialmente com as crianças, já que as interações que realizamos com elas são ininterruptamente momentos de descoberta, mesmo que não sejam intencionais ou construtivas. Com isso, o papel da escola seria o de desenvolver o pensamento questionador, explorador e curioso da criança, instigando suas concepções. No entanto, acontece, por muitas vezes, uma omissão dessas questões. As crianças são controladas e silenciadas, em razão de um sistema hegemônico que por muitos anos foi e ainda é envolto de uma educação tradicional. Assim,
Ao invés de desenvolver o governo de si, a escola ostensivamente deixa claro seus mecanismos heterônomos de controle: horários, filas, grades, carteiras, regras. O resultado é o pensamento acrítico e dócil ou inconformismo e revolta, ambos de interesse das instituições de poder, pois de um lado criam o conformismo do Estado com o aval da opinião pública (Silva; Silva, 2022, p. 02-03).
Durante a sua formação, é esperado que a criança saiba conjugar verbos adequadamente, resolver operações matemáticas complexas ou comparar períodos históricos. Essas questões só podem ser concluídas com o desenvolvimento de habilidades cognitivas, tais como investigar, raciocinar, conceituar e traduzir. “Em outras palavras, as crianças estão inclinadas a adquirir habilidades cognitivas, do mesmo modo que adquirem naturalmente a linguagem, e a educação é necessária para fortalecer o processo" (Lipman, 1995, p. 65).
Assim, o currículo deve-se adequar às especificidades de cada comunidade escolar e todos os contextos vivenciados pelos alunos tornam-se oportunidades para o desenvolvimento das habilidades cognitivas, considerando que a educação tem como papel significativo contribuir para que as crianças possam pensar melhor.
3. A filosofia com crianças na perspectiva de Walter Omar Kohan
Um autor que discute a importância da infância, da criticidade e ainda a filosofia com crianças é o pesquisador argentino, radicado no Brasil, Walter Omar Kohan.
Kohan (2015) defende a relevância da filosofia e principalmente, na infância, onde há liberdade e espaço de pensamento. As crianças estão sempre questionando, em busca de respostas e esse anseio deve ser preservado. Para o autor, a relação que considera mais importante entre filosofia e infância é que a filosofia é profundamente infantil e a infância profundamente filosófica, pois “a filosofia é, como a infância, um tempo sensível, antes do logos, antes do tempo.” (Kohan, 2015, p. 225).
Enquanto, “para”, termo utilizado por Lipman (1990), faz alusão a algo pronto e estático, algo que já tenha sido criado e desenvolvido (para as crianças), o termo “com”, sugerido por Kohan (2015), diz respeito a um processo coletivo e dinâmico. É necessário que haja flexibilidade, porque: “[...] temos muito a aprender com as crianças, já que não é só as crianças que aprendem conosco, nós, a educação, a escola e a filosofia também aprendemos com elas, com suas experiências e manifestações das infâncias.” (Silva, 2022, p.89).
O ‘com’ crianças é uma proposta que considera mais a dimensão filosófica e política, que incentiva uma postura do não-saber e abre possibilidades para a realização de práticas com maior caráter democrático, pois invoca a participação individual e coletiva das crianças. A filosofia ‘com’ crianças assume a infância de uma forma afirmativa, como presença, é a oportunidade da experiência da filosofia, da experiência do devir-criança em toda a sua dimensão do inesperado e da novidade. Nessa prática as crianças se envolvem intensivamente com a experiência, remetendo-se a um tempo não remunerável. (Sauzem, 2024, p. 324-325).
Nesse sentido, não entendemos infância como um tempo cronológico. Também não há uma necessidade de se enfatizar os estudos de lógica, as novelas filosóficas e os programas de formação no formato proposto por Lipman. Na proposta de Kohan, é possível criar outras experiências que propiciem o filosofar na infância, tais como a utilização de gêneros literários, recursos de áudio e vídeo, dinâmicas, para instigarem questionamentos, argumentações, abstrações e diálogos.
Diante do pensamento de Lipman e Kohan, é importante pensar a maneira em que documentos normatizadores como a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) se estruturam acerca do Ensino Fundamental e de que forma eles dialogam com a filosofia.
A Filosofia é considerada uma disciplina obrigatória desde 2008, em que foi incorporada ao currículo do ensino médio, com a entrada em vigor da Lei nº 11.684/2008. Aspectos que envolvem o pensamento reflexivo, crítico, argumentativo e interpretativo são fundamentais para o processo de desenvolvimento de um sujeito ativo e tais aspectos estão intrinsecamente ligados à Filosofia. Esses aspectos auxiliam no desenvolvimento de habilidades cognitivas que deveriam ser trabalhadas e incentivadas durante todo o percurso escolar de uma pessoa, inclusive, durante sua infância (Ferrreira, 2023).
A existência da disciplina de Filosofia na Educação Infantil e no Ensino Fundamental, poderia contribuir para a formação humana e crítica das crianças e adolescentes. No entanto, mesmo não estando presente como uma disciplina, é possível adotar uma perspectiva filosófica em aulas de diferentes áreas do conhecimento. A BNCC contempla para os anos iniciais do Ensino Fundamental a importância do pensamento criativo e crítico:
O estímulo ao pensamento criativo, lógico e crítico, por meio da construção e do fortalecimento da capacidade de fazer perguntas e de avaliar respostas, de argumentar, de interagir com diversas produções culturais, de fazer uso de tecnologias de informação e comunicação, possibilita aos alunos ampliar sua compreensão de si mesmos, do mundo natural e social, das relações dos seres humanos entre si e com a natureza (Brasil, 2018, p. 58).
Nesse sentido, é possível notar a existência de aspectos filosóficos, como o ato de questionar, argumentar, de compreender o mundo e as relações dos seres humanos e da natureza. Por meio desses aspectos, torna-se concebível o uso da filosofia, estabelecendo a prática da interdisciplinaridade para a promoção e articulação da filosofia com outras áreas do conhecimento, buscando assim uma compreensão mais abrangente e integrada da sociedade, utilizando-se do senso crítico e questionador da investigação filosófica proposta pela filosofia lipmiana. “[...] Ao integrar a FPC no currículo escolar, não só se fortalece o desenvolvimento cognitivo das crianças, mas também se promove uma educação que é verdadeiramente humanizadora e transformadora” (Lima, 2025, p. 4).
Uma das metodologias e instrumentos pedagógicos utilizados pelos professores com o intuito de melhorar o desempenho de seus alunos e atuar como um facilitador de aprendizagem, é a sequência didática.
Ao decidir criar uma sequência didática, o educador precisa compreender o que ele espera alcançar com essa metodologia e como ele pretende que os alunos participem dela. Além disso, é necessário que se leve em consideração a diversidade da sala, o espaço o qual pretende usar e que respeite cada fase dessa sequência, sempre priorizando um ensino de qualidade.
Para a proposta de aulas de Filosofia para/com Crianças, para alunos do 5º ano do Ensino Fundamental, optamos pela escolha da obra A libélula e a tartaruga, escrita por Rubem Alves (2016). Entendemos que para a realidade brasileira, há muitos recursos pedagógicos que podem ser utilizados para aulas de Filosofia para/com Crianças, não sendo necessário importar as novelas filosóficas escritas por Lipman e seus colaboradores.
A obra A libélula e a tartaruga discorre sobre o encontro das duas em um ribeirinho. Elas iniciam uma conversa sobre o modo como vivem e levam a vida, sendo a tartaruga dura e estática e a libélula leve e agitada. Ao longo do diálogo uma tenta convencer a outra que é melhor seguir seu caminho, que a vida é melhor desse jeito e não de outro. Em determinado momento um bem-te-vi avança contra a libélula, dando à tartaruga bons argumentos, pois, segundo ela, se a libélula fosse mais dura e resistente, ninguém ousaria atacá-la. Entretanto, ao final da conversa, um mosquito entra pelo nariz da tartaruga, fazendo com que ela caia com o casco para baixo, a impedindo de se levantar e nesse momento um pescador passa e a leva para casa, transformando-a em comida. A história termina com a libélula grata por ser leve e livre.
Pretende-se, por meio dessa obra, estimular um debate e reflexão sobre como viver melhor. A sequência didática desenvolvida e proposta deverá ser realizada em cinco aulas, respeitando as especificidades da turma e buscando incluir a todos. Ressalta-se que a sequência didática não foi implementada, sendo a discussão realizada em relação à viabilidade da proposta.
O quinto ano de ensino foi escolhido pensando na capacidade das crianças de já conseguirem ler e escrever, além de conseguirem participar ativamente de rodas de conversa. O tema dessa sequência didática é: Como viver?
Aula 1
● Duração: Uma aula de 50 minutos.
● Objetivos: Promover o diálogo e o trabalho em equipe; conhecer os pontos de vista dos alunos; e entender que existem mais de uma maneira de levar a vida.
● Recursos: O livro A libélula e a tartaruga, lápis de escrever, borracha e folha sulfite.
● Metodologia: Para iniciar a primeira aula, o(a) professor(a) irá propor uma roda de conversa, transformando o ambiente em algo mais confortável para os alunos, para que eles sintam que estão em um bate-papo e que têm liberdade para falarem. Serão feitas perguntas como: o que vocês acham que significa ser uma pessoa leve ou dura?; Como vocês acham que é melhor viver a vida?; O que vocês fazem para levar uma vida leve?. Depois de ouvir o que os alunos têm a dizer, ele(a) mostrará o livro A libélula e a tartaruga, e fará mais uma pergunta: Como vocês acham que elas levam a vida e por quê? Ele(a) realizará a leitura, juntamente com a turma e terminará ouvindo o que eles acharam do livro e o que mudariam na história. Após o debate, os alunos receberão folhas de sulfite para que possam reescrever o final da história, desenvolvendo suas próprias ideias, colocando seus próprios pensamentos a respeito da vida e a forma como eles a levam. Ao final da aula, todos deverão trocar seus papéis com os colegas e realizar a leitura, em seguida deverão comentar o que acharam das histórias construídas. Para finalizar, o(a) professor(a) irá pedir que pesquisem sobre a libélula e a tartaruga em casa. Eles irão pesquisar sobre o habitat, alimentação, locomoção e características físicas desses animais. Essa pesquisa será utilizada na próxima aula.
● Avaliação: Os alunos serão avaliados de acordo com sua participação na roda de conversa e na execução da escrita de um novo final para a história.
Aula 2
● Duração: Uma aula de 50 minutos.
● Objetivos: Promover o trabalho em equipe, explorar a criatividade e o pensamento crítico.
● Recursos: Lápis de escrever, cartolina e canetinhas.
● Metodologia: Inicialmente a sala estará com as mesas ao fundo e bastante espaço à frente, para as crianças poderem ficar de pé. Para iniciar essa aula, o(a) professor(a) colocará as crianças em um círculo, sentados no chão e irá fazer perguntas aos alunos, em relação à pesquisa que fizeram, o que eles acharam interessante e qual dos dois animais eles consideraram mais legal. Quando todos tiverem participado, ele(a) colocará de um lado da sala um cartaz com uma tartaruga desenhada e do outro um cartaz com uma libélula. Nesses cartazes estarão separadas as categorias: alimentação, locomoção e habitat. Os alunos terão que, um a um, escreverem seu nome onde eles se encaixem. Por exemplo, em relação à locomoção eles teriam que dizer se são duros e rígidos como uma tartaruga ou leves e agitados como uma libélula. Ao final da dinâmica, os alunos farão a observação dos cartazes e terão que dizer qual deles ficou mais preenchido.
Eles serão questionados sobre o porquê escolheram cada lado, se mudariam alguma coisa e se gostam de viver dessa forma. Sentados em círculo novamente, eles terão que completar a seguinte frase: Eu quero ser leve como uma libélula para.... Esse momento é muito importante para que as crianças se expressem e entendam que nem sempre é bom ser duro com tudo, que podem escolher viver uma vida leve como uma libélula.
● Avaliação: Os alunos serão avaliados conforme a participação nos dois momentos da aula. Além disso, o(a) professor(a) irá avaliar se a turma compreendeu o significado de viver de forma leve e dura.
● Duração: uma aula de 50 minutos.
● Objetivos: Explorar a argumentação e interpretação; incentivar a criticidade.
● Recursos: Espaço amplo para organização do debate.
● Metodologia: Na terceira aula, os alunos deverão separar-se em dois grupos: um grupo para representar a tartaruga e outro grupo para representar a libélula. O(a) professor(a) deve propor que cada grupo elabore argumentos defendendo seu ponto de vista em relação ao modo que cada personagem leva a vida e apresentando argumentos que comprovem o porquê levar a vida de maneira leve ou pesada é melhor. Com isso, o(a) professor(a) mediará a turma ao longo do debate.
● Ao final da aula, o(a) professor(a) explicará a motivação do debate e a importância da discussão e exposição de argumentos para a compreensão e o respeito mútuo. Assim, o objetivo dessa aula é que os alunos possam se aprofundar na história e que com isso, expandam seus conhecimentos.
● Avaliação: Ocorrerá a partir da participação e envolvimento de todos na atividade. Além disso, o(a) professor(a) analisará se os alunos conseguiram trabalhar de forma coletiva e respeitosa.
● Duração: uma aula de 50 minutos.
● Objetivos: Explorar recursos artísticos; exercer criatividade e autonomia.
● Recursos: Papel kraft, lápis de cor e de escrever, borracha, canetas coloridas, pincéis e tintas.
● Metodologia: Na quarta aula, o(a) professor(a) proporá que os alunos realizem um desenho coletivo em um papel kraft sobre a seguinte questão: “A leveza de ser libélula”, é importante provocar essa questão para que as crianças tenham uma reflexão mais profunda sobre a liberdade de ser quem é. A partir disso as crianças externalizarão em forma de arte tudo que dialogaram nas aulas e poderão exercer sua criatividade para construírem suas próprias concepções do que ser libélula significa para elas. O(a) professor(a) pode disponibilizar materiais para pintura como canetas, tintas, lápis, pincéis etc. Com a finalização do cartaz, os alunos poderão apresentá-lo para o(a) professor(a) e expô-lo na escola. O objetivo dessa aula é propor uma diversificação de ferramentas, com o uso da arte, no caso, a pintura, que é um ótimo recurso para explorar conceitos filosóficos. As crianças poderão exercer o lúdico e trabalhar a filosofia de forma prática, criativa e envolvente, além de possibilitar que elas tenham autonomia e liberdade para expressar suas diferentes perspectivas.
● Avaliação: O(a) professor(a) avaliará a turma a partir da participação e envolvimento de todos na atividade, se todos conseguiram compreender o intuito da atividade, se a atividade foi significativa para eles e se conseguiram trabalhar de forma coletiva e respeitosa.
Aula 5
● Duração: duas aulas de 50 minutos.
● Objetivos: Refletir sobre o aprendizado proposto; incentivar a criticidade e argumentação das crianças.
● Recursos: Folha de caderno, lápis de escrever e borracha.
● Metodologia: Na quinta aula, após a construção do cartaz, o(a) professor(a) reunirá os alunos e deverá propor uma dinâmica de discussões para a retomada dos objetivos iniciais. De início, as crianças farão uma roda de conversa e com a mediação do(a) professor(a) relembrarão em conjunto a história explorada e os aprendizados que as aulas possibilitaram. Tal questão tem por objetivo incentivar os alunos a refletirem sobre seus processos de aprendizagem e instigá-los a discutirem de forma crítica sobre as possíveis descobertas e seus questionamentos, que são tão relevantes quanto às respostas encontradas.
● Avaliação: Ao final, na avaliação, os alunos deverão escrever um pequeno texto sobre as reflexões feitas. Com o objetivo de concretizar as reflexões e registrá-las, colocar as aprendizagens no papel é uma maneira de estimular a argumentação e a compreensão das crianças.
O livro A libélula e a tartaruga traz à tona alguns dilemas da vida de forma didática, apropriada para o trabalho com crianças. Nessa história o tema central é a forma como se deve conduzir a vida: se é bom ser rígido diante das situações, levar a vida sem se aventurar, ou se o correto seria viver de forma leve, se aventurar e encará-la com tranquilidade. Para ilustrar essa narrativa, o autor utiliza dois personagens, sendo eles, a libélula e a tartaruga. Enquanto a tartaruga, com seu peso (experiência), é mais lenta, rígida e sem espaço para aventuras, a libélula com seu voo leve e livre, está sempre em busca de novas aventuras. (Alves, 2016).
Ao criar essa narrativa, Alves (2016) abre espaço para questionamentos e para o autoconhecimento. O leitor é convidado a pensar a vida, suas escolhas e a encontrar o equilíbrio entre o conforto, segurança e a liberdade. A história apresentada revela a grandeza das escolhas, a beleza de ser livre e de poder aventurar-se, bem como a segurança de uma postura rígida. Portanto, se usada como recurso pedagógico com uma intencionalidade filosófica (tendo em vista o pensar bem), conduz os alunos ao autoconhecimento, favorece o desenvolvimento do pensamento crítico, levanta questões como a liberdade e, além disso, promove o respeito às escolhas das outras pessoas.
A obra selecionada para a sequência didática evidencia uma temática que envolve visões de mundo, comportamentos e atitudes diante da vida, sendo eles opostos. É uma fábula que carrega possibilidades de diálogos filosóficos com as crianças. Nesse sentido, “[...] a participação das crianças no diálogo não deve ser vista como uma cencessão dos educadores, mas sim como um reconhecimento de sua capacidade de contribuir de maneira significativa para o pensamento coletivo e para a filosofia como um todo”. (Marques, 2025, p. 4).
A partir disso, a proposta da sequência didática possui um objetivo de criar um ambiente seguro para que os alunos se sintam confortáveis em expressar e externalizar seus pensamentos. Assim, apesar da BNCC (2018) não abordar diretamente a prática filosófica e tampouco elencar o papel da filosofia nos anos iniciais do Ensino Fundamental, é possível relacionar o contexto filosófico da obra literária com as competências do documento norteador, visto que ele propõe que nessa fase de desenvolvimento da etapa do Ensino Fundamental (anos iniciais), ocorra o estímulo ao pensamento criativo, lógico e crítico, a partir da construção de perguntas e hipóteses.
Pretende-se que as crianças possam realizar um processo de investigação. As atividades de todas as aulas são constituídas por observação, exploração, produção de pesquisas, debates e também se constitui por uma exploração de recursos diversificados. Essa interação é essencial, porque as relações sociais contribuem significativamente para o desenvolvimento da criança (Vigotsky, 2007).
Kohan (2015) afirma que deve haver uma troca entre professor e aluno, onde o docente não somente fala, mas também escuta. Por isso, no que tange à sequência didática, prioriza-se uma abordagem aberta ao diálogo e à criticidade, o que facilitaria o desenvolvimento de habilidades essenciais, sendo elas: habilidades de raciocínio, tradução, formação de conceitos e investigação. (Seus, 2020).
A sequência didática proposta é uma oportunidade para o envolvimento das crianças com o pensar bem e o desenvolvimento das habilidades cognitivas. Nessa perspectiva, entende-se também que “a implementação de um ensino que priorize o pensamento crítico será, portanto, determinante para o progresso social e a formação de uma sociedade justa e inclusiva” (Teixeira; Silva, 2025, p. 17-18).
Lipman (2023) relata que ao abordar a filosofia para as crianças, o professor poderia expor “[...] a classe a um texto especialmente preparado, que exibisse a nova maneira de pensar, encorajando, assim, seus membros a interpretar a passagem como bem entendessem e fazendo com que discutissem juntos suas interpretações.” (Lipman, 2023, p.122).
É importante pensar a educação além do treinamento de alunos para avaliações externas e internas nas escolas. Atualmente há uma preocupação excessiva com índices, gráficos e desempenho em notas. A escola não pode se resumir a isto. Lipman (1990) afirma que
A avaliação, que deveria ter, na melhor das hipóteses, apenas uma posição auxiliar, tende a ser a força que dirige o sistema. O conteúdo das avaliações estrutura o currículo que, por sua vez, controla a natureza da educação do professor. [...] Escolas de educação tendem a repetir os valores de sua sociedade, e não o contrário. Já que o principal objetivo da educação é aprender, como é o caso em todas as sociedades tribais, o modelo de memorização dominará a avaliação e os professores acharão difícil não ensinar para os testes (Lipman, 1990, p. 36).
Na contramão de um sistema escolar meritocrático e neoliberal, é possível que esta sequência seja aplicada a partir do reconhecimento de sua relevância por parte dos docentes e de seus olhares sensíveis a recursos que possam abordar significativamente a filosofia, como a obra de Rubem Alves (2016) disposta nesta sequência didática.
A filosofia para crianças proposta por Lipman e filosofia com crianças na perspectiva de Kohan contribuem para pensarmos em sequências didáticas que não se restringem à tratados de filosofia, vida e obras de pensadores. As aulas com abordagem de filosofia para e com crianças podem ser desenvolvidas com análises e reflexões sobre músicas, obras literárias, charges, filmes e outros recursos disponíveis para as diferentes etapas da formação humana.
Foi possível constatar que as crianças, com auxílio da filosofia, evoluem criticamente, desenvolvem autonomia, buscam por respostas e não se limitam a verdades impostas. Lipman (2023) ressignificou o trabalho da filosofia, evidenciando que ela não deveria ser ensinada apenas para jovens e adultos, mas também àqueles que ainda não estão com os pensamentos solidificados.
Entendemos que há possibilidades de abordar filosofia para e com as crianças. Nesse contexto, a partir da filosofia de Lipman e Kohan, o(a) professor(a) pode colocar em prática a interdisciplinaridade para a promoção e articulação da filosofia com outras áreas do conhecimento.
Com a sequência didática desenvolvida e analisada, buscamos mostrar que é possível inserir abordagens filosóficas no Ensino Fundamental, adequando as aulas e buscando sempre ouvir o que os alunos têm a acrescentar. Os debates, as rodas de conversa, a contação de histórias e a confecção de cartazes demonstram o quanto as crianças são capazes de pensar e realizar quando são estimuladas. O papel de instigar e mediar o conhecimento, atribuído aos professores, faz a diferença nesse processo, visto que as crianças são naturalmente curiosas e precisam apenas de incentivo para exporem suas ideias e habilidades.
O atual contexto educacional, marcado por cronogramas rígidos, excesso de avaliações e cumprimento de metas, demanda uma resistência e luta por aulas que promovam o pensar bem. A filosofia para e com crianças pode não ser a solução para todos os desafios que enfrentamos, mas se concordarmos que a valorização da argumentação, do diálogo, do pensamento crítico e da reflexão são importantes, certamente ela não será em vão.
Referências
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FERREIRA, Anderson Luiz. Competências Gerais da BNCC e a Filosofia a partir do pensamento de Matthew Lipman. 2023. 95 f. Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade Estadual de Londrina, Londrina, 2023. Disponível em: https://repositorio.uel.br/items/1a70ba7a-180b-49bf-9f89-c86e0f84f179. Acesso em: 03 fev. 2026.
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