Masculinidades e Ensino de Filosofia
Masculinities and Teaching Philosophy
Universidade Federal de Campina Grande, Campina Grande – PB, Brasil.
Recebido em 24 de dezembro de 2025
Aprovado em 29 de janeiro de 2026
Publicado em 24 de fevereiro de 2026
RESUMO
Este texto tem como objetivo primário construir uma discussão introdutória sobre a questão das Masculinidades a partir do território epismológico da Filosofia, acostando-se a algumas concepções oriundas do pensamento filosófico de Michel Foucault e de Simone de Beauvoir. Neste sentido, junto à questão das Masculinidades são tratadas também as noções de Gênero, Sexualidade e de Modos de ser-sexualidade. O objetivo secundário do texto diz respeito a analisar a questão das Masculinidades e as noções supracitadas no território epistemológico do Ensino de Filosofia, entendido como campo do saber que trata da Educação Filosófica, a formação de subjetividades no âmbito do ensino de Filosofia. Assim sendo, tratar as Masculinidades, seja na Filosofia seja no Ensino de Filosofia e na Educação Filosófica, é uma tarefa necessária e urgente, notadamente, frente às demandas sociais contemporâneas de questionamento e destruição dos padrões hegemônicos e heteronormativos de ser e existir, de combate à violência de gênero e de visibilidade e construção de modos outros de ser-sexualidade.
Palavras-chave: Masculinidades; Ensino de Filosofia; Gênero; Educação Filosófica; Michel Foucault.
ABSTRACT
Primarily this paper aims to construct an introductory discussion about Masculinities issues from the epistemological territory of Philosophy, by joining with some philosophical concepts by Michel Foucault and Simone de Beauvoir. In this sense, the notions of Gender, Sexuality, and Modes of Being-Sexuality are also addressed alongside the Masculinities issues. In its second objective this paper aims to establish an analysis between Masculinities issues and the aforementioned notions into the epistemological territory of Teaching Philosophy, which is a knowledge field that deals with Philosophical Education, the formation of subjectivities according the scope of teaching Philosophy. Therefore, addressing Masculinities, whether in Philosophy, in the Teaching of Philosophy, or in Philosophical Education, is a necessary and urgent task, particularly facing contemporary social demands by questioning and by destroying hegemonic and heteronormative patterns of being and existences, by combating gender violence, by giving visibility and by constructing other ways of being-sexuality.
Keywords: Masculinities; Teaching Philosophy; Gender; Philosophical Education; Michel Foucault.
Introdução
As últimas duas décadas têm apresentado, de modo ostensivo e intensivo, à Filosofia quatro importantes questões, as quais têm se convertido em pautas para filósofas e filósofos em todo o mundo: a questão Ambiental, a questão Racial, a questão da Tecnológica (inteligência artificial) e a questão de Gênero. Decerto que todas estas questões e seus problemas constituintes, em certa medida, ocuparam pensadoras e pensadores em momentos pretéritos da história da Filosofia ocidental. Todavia, desde o início do século XXI, estas questões têm crescido exponencialmente, fato que se pode comprovar sem muito esforço observacional e de forma empírica nas pesquisas realizadas em nível de pós-graduação, nas publicações em periódicos filósoficos especializados e nas reuniões (congressos, encontros, jornadas, etc.) de especialistas dos mais diversos segmentos e orientações filosóficas. A Filosofia, reconhecendo esse kairós – o tempo, o momento oportuno – tem constantemente respondido às demandas que a sociedade contemporânea apresenta em torno destas questões, elaborando problemas e construindo conceitos segundo perspectivas filosóficas plurais e metodologias investigativas diversas.
Neste contexto kairológico, o presente texto, que pretende construir um exercício filosofante, opera dois recortes metodológicos: o primeiro indica sua atenção às questões de Gênero, de modo mais específico, sobre a questão das Masculinidades. O segundo recorte diz respeito aos âmbitos de interesse e de aplicação deste exercício. Desse modo, a discussão filosófica pretendida se constrói primeiramente em torno da pergunta “o que são Masculinidades?” e o segundo movimento desta discussão se dedica a pensar o lugar da questão das Masculinidades no Ensino de Filosofia enquanto campo do conhecimento filosófico.
O fenômeno e a questão das Masculinidades tem manifestado sua pertinência no âmbito das discussões que envolvem Gênero e Sexualidade, seja para o território epistemológico e político da Filosofia seja para o da Educação. Epistemológicos na medida em que tais discussões envolvem a análise criteriosa das relações, das conexões interseccionais possíveis dos saberes que se entrecruzam nas investigações e nos debates, e políticos na medida em que tais saberes são construídos em torno de construções social-históricas, eivadas de relações de poderes. Há inclusive aqui um tensionamento entre as/os membras/os das comunidades filosóficas brasileiras seja devido à abertura pleiteada às questões de Gênero nos circulos de debate acadêmico e científico seja pela sua rejeição por parte de certas/os pesquisadoras/es e de instituições de pesquisa. No âmbito da Educação, a pertinência de tratar sobre Masculinidades comporta duas repercussões interrelacionadas, pois na medida em que os debates sobre a diversidade dos modos de ser homem ocupam os currículos e as atividades escolares, incrementando a formação intelectual e cultural das e dos estudantes, na mesma medida contribui-se para a conscientização e o combate a todas as formas de discriminação e de violência de gênero.
Diante do exposto, a partir de agora, a leitora e o leitor recebem o convite para pensar filosoficamente a questão das Masculinidades e algumas noções vinculadas, tais como, compreender a crítica ao modelo adotado por alguns saberes de compreender o gênero e a sexualidade dos seres humanos a partir de um parâmetro naturalista-biológico-fisiológico, mas também, conhecer a diversidade dos modos de ser-sexualidade e sua diversidade constitutiva, que colima o reconhecimento dos modos plurais de viver e existir de subjetividades outras. A partir destes pressupostos, no segundo momento do texto, a leitora e o leitor podem compreender o contexto do fenômeno das Masculinidades seja no âmbito das relações sociais seja no das teorizações em campos do conhecimentos, como a Psicologia e História e mesmo na Filosofia. Por fim, o texto apresenta informações, oferece algumas referências bibliográficas, e discute o lugar da questão das Masculinidades no Ensino de Filosofia e algumas possibilidades teóricas e educativas na Educação Filosófica.
Sobre os modos de ser-sexualidade
Circulou na mídia brasileira, há alguns anos, a informação que um cantor brasileiro num festival cultural em uma cidade do interior de um estado brasileiro afirmou: Jesus travesti sim, Jesus é transexual sim! E, ao final, asseverou que a arte é pro futuro e que os fundamentalistas não vão passar. Este fato nos remeteu à seguinte questão: o que aconteceria se um cantor houvesse afirmado que Jesus é heterossexual, é homem com H maiúsculo? Algum tempo depois, novamente na mídia nacional, foi divulgada notícia que uma representante do alto escalão ministerial do Poder Executivo, asseverava que meninas vestem rosa e meninos vestem azul. O que nos remete à mais uma questão: o que tem a ver a delimitação cromática com a formação dos sujeitos?
O que encontramos na voz de protesto do artista e no discurso, no mínimo, delimitador da ministra se revela como um indicativo de que os modos de ser-sexualidade estão em questão. Ambas as situações geram a necessidade de fazermos uma discussão filosófica sobre a relação entre gênero e sexualidade e a construção de subjetividades, com a subjugação de sujeitos, ou ainda, com a aniquilação de vivências de corpos outros. A partir do território epistemológico da Filosofia precisamos discutir estas relações, deslocar olhares e saberes, questionar e destruir padrões, trazer para a pauta filosófica experiências e vivências de existências e de sujeitos outros e, neste sentido, igualmente, construir no território epistemológico do Ensino de Filosofia, discursos e experiências de ensinos e aprendizagens sobre a diversidade de gêneros e de sexualidades.
Adotamos a terminologia modos de ser-sexualidade para reconhecer que a sexualidade é uma das categorias constitutivas do ser humano. A sexualidade constitui o ser humano tanto quanto o pensamento, a linguagem ou a corporalidade e, assim, ser-sexualidade diz respeito às diversas possibilidades do indivíduo existir e do sujeito manifestar suas percepções e seus sentimentos, suas autocompreensões e suas vivências pessoais e relacionais, a partir das se manifestam seus desejos, suas eróticas e suas performances. Em suma, abordar e pensar os modos de ser-sexualidade diz respeito à abordagem filosófica das subjetividades reconhecendo a diversidade como sua característica indelével. A negação desta característica está na origem dos diversos discursos e práticas de discriminação, de regulação, de criminalização e de aniquilação dos sujeitos que não se enquadram e não performam, isto é, não se identificam e não vivenciam a padronização da sexualidade heteronormativa hegemônica, e quase sempre tóxica, que nutre, entre outros cânceres sociais, a transfobia, a ginecofobia e a lgbtfobia.
A sexualidade como questão filosófica, foi tratada demorada e profundamente pelo filósofo francês Michel Foucault. O autor da tetralogia História da Sexualidade, em uma entrevista dada ao jornalista Jean Bitoux, em 1978, afirmou que a sexualidade foi tornada objeto de discursividades e de saberes, por meio dos quais foi, e continua sendo, possível exercer o controle de modo mais efetivo. Ele diagnosticou e propôs:
(…) mas, no fundo, o que é essa noção de sexualidade? Porque, se ela nos permitiu lutar, também carrega consigo certo número de perigos. Há todo um psicologismo da sexualidade, todo um biologismo da sexualidade e, consequentemente, toda uma captura possível dessa sexualidade por médicos, por psicólogos, pelas instâncias da normalização. Não seria necessário, então, fazer valer, contra essa noção médico-biológico-naturalista da sexualidade, uma outra coisa? Os direitos do prazer, por exemplo? (Foucault, 2015, p. 5)
Como vimos, no texto, Foucault faz uma provocação sobre uma mudança de perspectiva de abordagem frente à noção médico-biológica-naturalista da sexualidade, propondo outra visada, isto é, tratar a sexualidade a partir da sua noção de prazer, que Foucault reconhece como a vivência com o corpo em si mesmo, que não se reduz a uma sensação orgástica tampouco se vincula ao desejo como falta. O prazer fala do desejo enquanto potência de ser e existir[i]. Neste sentido, a possível rota de fuga que indicamos em nossa discussão diz respeito à substituição da noção de sexualidade como um aspecto secundário ou apenas comportamental da existência humana e, assim, considerá-la como uma categoria constitutiva do modo de ser existir do ser humano, cuja vivência e diversidade são indeléveis.
Num mesmo trecho de sua fala, Foucault oferece o diagnóstico e uma rota de fuga possível ao controle da sexualidade – adaptando à nossa abordagem e terminologia, dignóstico e rota de fuga ao controle dos modos de ser-sexualidade. Como este filósofo já nos alertara no primeiro volume da sua tetralogia – ao tratar a hipótese repressiva – nas relações sociais em vez de negar-se falar sobre a sexualidade, trata-se de construir pela escuta (relato e confissão) e pela instrução (diagnóstico médico e a catequese religiosa) o regime de sexualidade que determinada sociedade pretende, trata-se de formar (con-formar) os sujeitos ao padrão pretendido e tornado hegemônico. Portanto, se queremos identificar o tipo de sujeito “planejado” por um grupo social, uma nação ou mesmo um governo, devemos prestar atenção aos discursos disseminados, aos saberes elaborados, às “verdades” defendidas e difundidas pelas instituições e pelos meios de comunicação social, notadamente – a partir do nosso escopo – as instituições de ensino (escolas, faculdades e universidades) e as práticas educativas formais (escolares).
Na história da Filosofia ocidental contemporânea, encontramos outra proposta de mudança de perspectiva na abordagem da sexualidade, que, de modo análogo, a compreende como manifestação dos modos de ser e de existir do ser humano. A filósofa francesa Simone de Beauvoir nas páginas iniciais de sua obra O segundo sexo, provoca a leitora e o leitor para um deslocamento, isto é, abdicar da perspectiva biológica da constituição da identidade de gênero para adotar uma perspectiva social e histórica desse objeto, ou seja, reconhecer que a identidade de gênero não resulta de um dado biológico-naturalista-funcionalista, mas de uma construção elaborada, executada e contralada por mecanimos sociais e historicamente localizados. Afirma a filósofa:
Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado, que qualificam de feminino. Somente a mediação de outrem pode constituir um indivíduo como um Outro. (Beauvoir, 2019, p. 11)
Num só trecho de sua obra Beauvoir provoca um deslocamento de perspectiva, nega um fundamento e uma teleologia determinista para o modo de ser mulher – segundo nossa terminologia modos de ser mulher – e denuncia que as compreensões que se constroem sobre a mulher o são feitas a partir do sujeito homem que se impõe como o parâmetro de definição, do que resulta que o sujeito mulher termina por ser definida como um sujeito Outro, isto é, aquele que não é um homem.
Numa paráfrase, à guisa de finalização dessa seção do presente texto, asseveramos que ninguém nasce homem: torna-se homem!
A questão das Masculinidades
As discussões sobre as questões de Gênero, por exemplo, sobre a desigualdade de direitos imposta entre homens e mulheres não é contemporânea[ii], embora seja no século XX que as pautas políticas sobre Gênero ganharam volume e força. À guisa de exemplo, em 1793, o jurista e deputado francês Pierre Guyomar publicou o texto O defensor da igualdade política entre os indivíduos ou o importantíssimo problema da igualdade de direitos e da desigualdade na realidade, no qual ele discute a questão da desigualdade construída entre os indivíduos, dedicando atenção inclusive à desigualdade imposta entre homens e mulheres e instigando à mudanças. Ele chega a afirmar: “Pode chegar o dia em que o regime da moral permita que indivíduos de ambos os sexos circulem com a mesma segurança.”[iii] (Guyomar, 1793, p. 12).
De fato, o século XX é cenário de diversos movimentos de discussão, questionamento, desconstrução e construção de ideias, posturas, atitudes, instituições, saberes, políticas, direitos no que diz respeito às pautas de Gênero. Trata-se de um número de movimentos majoritariamente, mas não exclusivamente, realizado por mulheres. Homens também construiram movimentos críticos e propositivos em torno destas pautas, notadamente, aqueles pertencentes às comunidades gays[iv]. Uma das teses basilares desses movimentos corrobora as ideias filosóficas acima mencionadas, isto é, a negação de qualquer espécie de determinação no modo de existir dos seres humanos, ou seja, não há algo de natural ou de essencial que imponha às pessoas ser, existir, relacionar-se e agir como mulher ou como homem, não há um Ser Feminino ou um Ser Masculino. Somos construção social e histórica e assim todas somos femininadas, todos somos masculinados, ou dizendo de outro modo, somos feitas femininas, somos feitos masculinos. Tal modo de Ser é construção social-histórica imposta como natural e única.
Questionando e rompendo com esta perspectiva hegemônica, é necessário que se reconheça que cabe a cada pessoa ser, vivenciar e agir o que desejar (potência de ser e existir) ser independentemente do “Ser Homem” ou do “Ser Mulher” vigentes. Reconhecer que o desejo manifesta tais modos de ser como criação de ontologias singulares. O problema é que na maioria das vezes esta criação (autocriação) é imposta, padronizada, delimitada e, assim, “o que não é”, “o não-homem” e “a não-mulher” – o Outro, na terminologia beauvoireana – estão sob a condenação de não-ser e de não poder ser.
Ainda sobre os diversos movimentos de questionamento e luta pelas pautas de Gênero, têm-se intensificado desde o final do século XX as discussões das pautas de indivíduos transgêneros e sobre as masculinidades. E é sobre essa pauta que nos ocupamos no presente texto. Tem crescido em volume e força o número de homens interessados nas discussões sobre as masculinidades, não obstante o fato que também mulheres têm se ocupado com tais discussões. Um número crescente de homens que se opõem aos padrões da chamada masculinidade tóxica, isto é, o padrão do Ser Homem que se fundamenta em bases biológicas e que se quer impor como único modo de ser e de existir enquanto homem. Um fato, no mínimo, curioso, mas que ainda não tem base estatística comprovada, diz respeito ao fato que tais discussões têm sido travadas, cada vez em número maior, por homens que se identificam como cisgêneros e heterossexuais, modificando o quadro anterior no qual as discussões de Gênero eram majoritariamente feitas por homens cisgêneros e gays. Esta afirmação, apesar de não ter ainda respaldo científico, ao menos serve de sinal de alerta para dirigirmos atenção para a emergência desse fenômeno social e intelectual.
Neste cenário, vêm sendo construídas perspectivas teóricas e políticas acerca das Masculinidades, não apenas em saberes como a Sociologia e a Psicologia, mas também em grupos e movimentos sociais organizados, as quais se confrontam com uma outra perspectiva teórica e política de Masculinidade (chamada hegemônica e/ou tóxica). A questão das Masculinidades nasce e se constrói na diversidade. A utilização do termo no plural remete ao fato que, desde o início, reconhece-se a existência de diversos modos de ser homem. Masculinidades diz respeito aos diversos modos de ser homem independentemente da constituição biológico-corporal dos indivíduos, das convenções sociais de comportamento, das taxionomias dos saberes ou das normatizações políticas e jurídicas. Ser homem não é dado natural, não está aprisionado às zonas erógenas, não se define pelas funções orgânicas do corpo. Ser homem é questão de desejo, de autocriação, de performance. Por fim, apesar do uso reiterado do termo “homem”, não nos associamos ao binarismo de gênero, na medida em que a perspectiva de Masculinidades que adotamos não se reduz à afirmação da diversidade dos modos de ser homem, ela também sustenta e defende a tese da diversidade dos modos de manifestar as autocompreensões de gêneros (identidades) e de sexualidade (orientações). O pensamento acerca das Masculinidades não recorta ou dicotomiza as perspectivas e as pautas de gênero, a elas se associa para ampliá-las.
Diante do exposto, entendemos que no âmbito dos Estudos de Gênero, a abordagem das Masculinidades constrói uma discussão ao mesmo tempo ontológica e política, simultaneamente epistemológica e educacional, uma vez que as tramas da relação poder-saber têm tentáculos operacionais nos discursos ensinados (nas diversas modalidades de práticas educativas), também têm braços nos discursos políticos (nas leis, nas políticas públicas), ela se capilariza em diversos dispositivos. Entendemos também a urgência de pautar a construção das subjetividades de homens, discutir as normatividades que se instituem e que se impingem às pessoas desde o nascimento, desde a seleção da cor das roupas até a escolha da profissão, passando pela relação com os próprios corpos biológicos e suas sexualidades. É urgente pautar experiências transgressoras, ações concretas de grupos de homens que rejeitam o padrão patriarcal. Assim sendo, justifica-se o escopo que adotamos para a terceira e última seção do presente artigo, que pretende apresentar algumas propostas de discussão e de investigação no ambito do Ensino de Filosofia, considerando que a educação é um meio eficaz para a emancipação das subjetividades, embora também possa estar a serviço da subjugação dos sujeitos, notadamente, de seus corpos e desejos.
Sobre Masculinidades e Ensino de Filosofia
Em diversos âmbitos das sociedades contemporâneas tem crescido a visibilidade de variados modos de ser homem que se contrapõem ao padrão da masculinidade hegemônica de base heteronormativa. Esse fenômeno tem trazido consigo ainda mais conflitos e ataques por parte de grupos conservadores e ultraconservadores, seja contra as subjetividades disruptivas e insurgentes que insistem e resistem com suas vivências diferenciadas de ser homem, seja contra as/os pesquisadoras/es que se ocupam em compreender este fenômeno e discutir suas constituições, ambrangências e repercussões.
A Filosofia atenta a esse kairós, isto é, ao momento oportuno, também tem efetuado seus passos iniciais na investigação do que tem-se chamado de Masculinidades, termo usado no plural, considerando que sua manifestação se dá por meio de sujeitos e seus modos específicos e plurais de ser homem. Como uma resposta possível a este kairós, um objetivo primeiro das investigações filosóficas tem sido compreender em que medida a questão das Masculinidades se configura como um problema filosófico. Para a construção dessa discussão indicamos o aporte teórico do pensamento filosófico de Michel Foucault e também de Judith Butler. Naquele pensador encontramos subsídios na sua tetralogia História da sexualidade, notadamente no volume 1, O uso dos prazeres, e no volume 3, O cuidado de si, e desta pensadora indicamos duas de suas obras principais, Problemas de Gênero e Relatar a si mesmo. Estes textos oferecem elementos importantes para uma compreensão preliminar do problema objeto da discussão em tela, notadamente por meio dos conceitos de performance e de relato de si mesmo, que são para sua crítica aos processos de desubjetivação e de apropriação da moral. Numa visão de conjunto, o pensamento de Foucault e o de Butler fornecem os indicativos de que as discussões de gênero comportam aspectos de ordem ontológica, mas também ética e política, o que já responderia à questão da pertinência do estudos filosóficos acerca das Masculinidades.
Entretanto, é necessário delimitar em que medida o fenômeno das Masculinidades reverbera perguntas e problemas ontológicos, éticos e políticos, cuja investigação pode começar com as perguntas “o que são masculinidades?”, “o que são modos de ser homem?” e “quais processos de subjetivação constroem subjetividades homens?”. O pensamento e a discussão acerca dessas perguntas iniciais é um caminho necessário para que se possa enfrentar, a seguir, questões sistêmicas e institucionais derivadas, tais como, a relação dos sujeitos homens com a heteronormatividade e o machismo estruturais, ou também, qual o papel das práticas educativas formais e não formais na construção desses sujeitos, ou ainda, acerca do lugar de tais sujeitos nos problemas práticos e cotidianos como a violência de gênero e os direitos de cidadania individual e coletiva.
O tratamento destas questões pode nos conduzir a outras igualmente conceituais e que envolvem tensionamentos institucionais e mesmo de relações interpessoais. Por exemplo, os debates sobre Masculinidades provocam debates sobre a delimitação terminológica e conceitual entre feminismos e a diversidade de movimentos de gênero, os quais numa terminologia neologista podem ser nomeados de masculinismos, que culminam em discussões sobre delimitações e intersecções de novos territórios de debates e de intervenções práticas na sociedade. Pode-se inclusive adotar a terminologia de estudos trans, estudos masculinistas, estudos feministas, etc. Fala-se mesmo em estudos pós-gênero. No âmbito dos estudos trans, por exemplo, o filósofo espanhol Paul Preciado tem construído uma discussão filosófica consistente sobre as noções e as vivências das corporalidades, das sexualidades e das eróticas capturadas pelo discurso capitalista e pela lógica do mercado[v]. Ele denuncia que a pornografia e a industria farmacêutica tem funcionado como discurso e saber sobre o corpo, os quais têm instituído padronizações de subjetividades masculinas estereotipadas. Veja-se a tendência, “a onda”, do uso de vasodilatadores para turbinar uma premoldada atividade sexual masculinada.
Diante do exposto, reconhecendo que a questão das Masculinidades tem status de problema filosófico, convém mencionar o seu lugar nos debates teóricos e metodológicos da Educação[vi], para assim compreender que esta questão se manifesta em torno de dois problemas: por uma parte, o problema do estatuto ontológico da categoria ser-sexualidade – agora com a ênfase sobre o fenômeno das formas de masculinidades – e por outra parte, o problema do lugar formativo e metodológico das práticas educativas, notadamente as escolares, no que diz respeito aos processos de construção dos sujeitos e suas sexualidades. Ambos os problemas têm se localizado no escopo de dois grupos de pesquisadoras/es filosófas/os que atuam no Brasil junto à Associação Nacional de Pós-graduação em Filosofia (ANPOF). Trata-se de dois grupos de trabalho (GT), a saber, o GT Filosofar e ensinar a Filosofar[vii] e o GT Filosofia e Gênero[viii] , que têm reunido interesses em comum e interseccionais para tratar a relação entre o ensino de Filosofia e as questões de gênero e sexualidade[ix].
Uma das consequências deste movimento de investigação e de debates interseccionais indicado acima se mostra nas pautas novas e provocadoras que são apresentadas para os currículos escolares e para as práticas educativas em geral, como por exemplo: é necessário incluir e dar visibilidade aos temas atinentes às questões de Gênero nos planos de aula e no material didático adotados na Educação Básica; é necessário também identificar, reconhecer e difundir (nas práticas educativas escolares e não escolares) a pluralidade de formas de vivências das masculinidades, notadamente, aquelas que costumeiramente são denominadas de masculinidades não-tóxicas. Dizendo de outro modo, dar visibilidade à diversidade formas de masculinidades (modos de ser-sexualidade) pode contribuir para ensinar e comunicar (saberes e discursos) falares e olhares outros em vista de vivenciar experiências de corporalidades e sexualidades outras.
Em resumo, as investigações e o debate teórico que mencionamos até agora colimam construir uma compreensão filosófica sobre o fenômeno das Masculinidades e também relacionar tal compreensão com o potencial de comunicação e formação das práticas educativas escolares. A estes dois objetivos se associam outros mais específicos, dos quais destacamos, fortalecer os Estudos de Gênero no âmbito do fazer Filosofia no Brasil, os quais ainda estão em processo de consolidação na comunidade filosófica brasileira, e também desenvolver propostas de ações concretas para o exercício da docência de Filosofia em torno a questões de Gênero e Sexualidade. Lembre-se que tanto o ensino de Filosofia quanto o lugar das questões de Gênero no currículo escolar, vêm sofrendo constantes investidas cerceadoras e censuradoras nos tempos mais recentes da história política do Brasil[x].
Ora, novos modos de sentir a existência implicam em novas construções de subjetividades e de novas posturas éticas e políticas. Porém, a construção de novas subjetividades e a oportunidade de propor e adotar novas posturas na vida moral e na vivência política conduzem a dificuldades, rupturas, conflitos. Os processos de ruptura com a institucionalização, com a padronização são tensos e conflituosos e certamente enfrentam o movimento de conservação dos status quo político, econômico, social, de gênero, racial, religioso, ou de qualquer âmbito que seja impactado pelos produtos e pelas mudanças ocasionadas, direta ou indiretamente, por tais processo. Assim sendo, o exercício de construção de subjetivações e posturas se constitui como prática de resistência, isto é, de movimentos propositivos que visam construir modos diferentes de existir individual e coletivamente. E é nesta perspectiva que o ensino de Filosofia figura como um locus oportuno para o tratamento de ideias, para o exercício do pensamento, para a vivência de experiências de corporalidades e sexualidades outras, isto é, vivências diferentes das ideias e vivências hegemônicas notadamente heteronormativas e que propõem modos outros de ser-sexualidade.
Num texto publicado em 2020, em um número especial da revista Problemata que tratava sobre ensino de Filosofia e questões de gênero, em um texto intitulado Filosofias e Gêneros: desafios para ensinar a filosofar[xi], provocamos as leitoras e os leitores a pensar sobre o kairós para se filosofar e para se ensinar a filosofar, reconhecendo o pensar como um ato político e de contraconduta. Discutimos o que podem as Filosofias e o Ensino de Filosofia (como campo do conhecimento) e o que pode o ensino de Filosofia (como coletivo de práticas educativas) diante dos desafios que a realidade contemporânea manifesta com o quadro de violência e discriminação que envolvem as identidades de gênero. O cenário apresentado naquele artigo de 2020 permanece até hoje. Vivemos no país número um em assassinatos de pessoas da comunidade LGBTQIAPN+ e onde o feminicídio faz milhares de vítimas, cômputos que se repetem todos os anos[xii].
Diante desse cenário trágico que se mantém, é urgente fazer convocatórias para pensar as questões de gênero como objeto de problematização filosófica, com suas implicações ontológicas, estéticas/éticas/políticas, tratando o desafio que é construir o lugar para tais questões no Ensino de Filosofia e propondo ações factíveis a curto e médio prazo, seja no âmbito do Ensino Superior seja na Educação Básica, tratando questões bem definidas, como por exemplo, a questão do lugar (ou não-lugar) das filósofas na história da Filosofia e no livro didático de Filosofia, ou ainda o problema da linguagem e seu aspecto sexista (machista). No Ensino Superior, as pesquisas sobre questões de Gênero e Sexualidade precisam ser incentivadas por meio de projetos no Programa de Iniciação Científica e visibilizadas mediante projetos extensionistas que envolvam as ideias construídas no ambiente universitário e acessíveis e aplicadas por todos os indivíduos e grupos sociais. A pós-graduação também representa um locus importante na produção do conhecimento consistente e de práticas adequadas às demandas da sociedade. Neste sentido, o Programa de Mestrado em Filosofia em Rede, o PROF-FILO, tem papel significativo nesta produção de conhecimento específico acerca das questões de Gênero e Sexualidade adaptadas às demandas da Educação Filosófica na Educação Básica[xiii].
Considerações finais
No movimento final do texto, apresentamos um terceiro objetivo, não dito desde o início, mas que lastreou a discussão apresentada: deslocar o olhar da leitora e do leitor para a questão das Masculinidades, para pensar filosoficamente os modos de ser homem. É fato que as questões de Gênero ocupam filósofas e filósofos há muito tempo, que tratam problemas como as desigualdades e as violências de gênero, o legado do patriarcado e do machismo estrutural, a lgbtfobia e o feminicídio, porém, o exercício de pensamento sobre as Masculinidades, sobre os modos possíveis de ser homem na contramão à masculinidade tóxica é extremamente recente, no âmbito específico da Filosofia. Portanto, o teor das páginas aqui apresentadas pretendeu chamar a atenção para as questões dos modos possíveis de ser e suas implicações para a Filosofia e para o Ensino de Filosofia.
Neste sentido, este texto que se associa a tantos outros que compõem a coletânea dos trabalhos apresentados pelas membras e pelos membros do GT Filosofar e Ensinar a Filosofar, que aconteceu nos dias 17 a 19 de setembro de 2025, no campus Marília da UNESP, este texto que figura entre vários outros que discutem as questões de Gênero e Sexualidade no âmbito dos estudos filosóficos, um texto que pretende apresentar como microcontraconduta, entendida como movimento de questionamento da realidade instituída e que apresenta algo de propositivo, um deslocamento de olhar, uma abordagem outra, uma aplicação heterotópica, isto é, visar o que não é evidente, pensar a partir de referenciais plurais, ampliar a funcionalidade dos ambientes e das instituições.
Referências
BEAUVOIR, Simone. O segundo sexo: a experiência vivida. Trad. Sérgio Milliet. 5. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2019.
FOUCAULT, Michel (2015). O saber gay. Tradução de Eder Amaral e Silva e Heliana de Barros Conde Rodrigues. Revista Ecopolítica, n. 11, jan-abr, p. 2-27. Disponível em: https://revistas.pucsp.br/ecopolitica/article/download/23545/16906 Acesso em 1 set.2025.
GUYOMAR, Pierre. Le partisan de l'égalité politique entre les individus ou problème très important de l'égalité en droits et de línégalité en fait. (1793). Disponível em : https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k567053/f20.item Acesso em 1 set.2025.
ROVERE, Maxime. Arqueofeminismo : mulheres filósofas e filósofos feministras séculos XVII-XVIII. São Paulo : n-1 edições, 2019.
This work is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial 4.0 International (CC BY-NC 4.0)
Notas
[i] Convidamos a leitora e o leitor a acompanhar, também no texto O saber gay, a exposição que Foucault apresenta sobre as noções de prazer e desejo, numa referência à obra O Anti-Édipo dos filósofos Gilles Deleuze e Félix Guattari
[ii] Sobre esta afirmação sugere-se a leitura da seguinte obra : ROVERE, Maxime. Arqueofeminismo : mulheres filósofas e filósofos feministras séculos XVII-XVIII. São Paulo : n-1 edições, 2019.
[iii] “Un jour viendra peut-être où le régne des moeurs permettra aux individus des deux sexes de circulé avec la même sécurité”.
[iv] De modo extremamente pontual e sintético, lembre-se que nos Estados Unidos, nas décadas de 1960 e 1970, houve movimentos de contracultura e de resistências importantes. Um fato merece destaque, a Revolta de Stonewall, que ocorreu em Nova Iorque e se tornou um marco da luta da comunidade gay e que deu origem ao Dia do Orgulho Gay, hoje, ampliado para o Dia do Orgulho LGBT.
[v] PRECIADO, Paulo. Testo junkie: sexo, drogas e biopolítica na era farmacopornográfica. Trad. Maria Paula Gurgel Ribeiro. São Paulo : n-1 edições, 2018.
[vi] As investigações e debates sobre as Masculinidades também são feitas por outras áreas do conhecimento e há mais tempo que no âmbito da Filosofia. Neste sentido, indica-se, por exemplo, a leitura do livro A construção social da masculinidade, de autoria de Pedro Paulo de Oliveira, a partir de quem nos apropriamos sobretudo de sua discussão sobre as vivências masculinas e suas questões interacionais e identitárias, notadamente, na contemporaneidade. No âmbito dos estudos historiográficos, registre-se o livro Nordestino: a invenção do falo, de Durval Muniz de Albuquerque Júnior, por meio de uma análise genealógica a partir dos costumes e relatos de um dado período da história do nordeste brasileiro, ele problematiza a construção de uma certa masculinidade do homem nordestino que se tornou hegemônica, o ser macho. No âmbito da Educação, sugere-se a leitura das obras de bell hooks, A gente é da hora : homens negros e masculinidades, e o recentemente publicado, de 2025, A vontade de mudar: homens, masculinidades e amor.
[vii] Mais informações sobre este GT estão disponíveis em: https://anpof.org.br/gt/gt-filosofar-e-ensinar-a-filosofar .
[viii] Mais informações sobre este GT estão disponíveis em: https://anpof.org.br/gt/gt-filosofia-e-genero .
[ix] À guisa de sugestão de leitura, indicamos o capítulo de livro Gênero e inclusão social no ensino de Filosofia de Valéria Wilke e Flávio de Carvalho. O capítulo faz parte do ebook V Encontro Nacional ANPOF Educação Básica: a Filosofia e o seu ensino. Rio de Janeiro: NEFI, 2023, que está disponível em: https://filoeduc.org/nefiedicoes/colecoes.php?#livros .
[x] Aqui nos referimos aos chamados projetos da Escola sem Partido, que multiplicaram-se em todo o território nacional e pregavam a proibição da abordagem de temas que envolvessem gênero e sexualidade, movimento ultraconservador que só foi parado quando o Supremo Tribunal Federal decretou sua inconstitucionalidade. E também nos referimos ao último texto da Base Nacional Comum Curricular, de 2018, o qual sofreu um processo de retirada dos temas e mesmo da terminologia atinente aos estudos de Gênero e Sexualidade, processo motivado majoritariamente pelo ideário ultraconservador religioso evangélico.
[xi] Disponível em : https://periodicos.ufpb.br/index.php/problemata/article/view/55593/31630 .
[xii] Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, foram registradas 1492 feminicídios em 2024. Segundo o mesmo documento foram 202 mortes de pessoas LBGTQIAPN+. Disponível em: https://forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2025/07/anuario-2025.pdf . Segundo o Grupo Gay da Bahia o número de mortes violentas de pessoas LGBTQIAPN+ chegou a 291. Disponível em : https://www.brasildefato.com.br/2025/01/18/brasil-teve-quase-300-mortes-violentas-por-lgbtfobia-em-2024/
[xiii] Sugere-se a leitura das seguintes dissertações: Pensando o lugar de fala das mulheres no ensino de Filosofia, de Lidiane Brito do Nascimento, disponível em : https://dspace.sti.ufcg.edu.br/handle/riufcg/41739 ; As filósofas no ensino de filosofia: repensando o discurso de alguns filósofos que contribuiu para o silenciamento das mulheres, de Erick Newman Silva de Oliveira, disponível em: https://dspace.sti.ufcg.edu.br/handle/riufcg/43912 ; Masculinidades e o ensino de filosofia: o papel da escola na formação de jovens não violentos/as, de Tércio Ramon Almeida Silva, disponível em: https://dspace.sti.ufcg.edu.br/handle/riufcg/44054 ; O Ensino de Filosofia como problematização de poder e gênero, de Thially Adonias Rochael Silva, disponível, brevemente, na Biblioteca Digital de Teses e Dissertação (BDTD) da Universidade Federal de Campina Grande, em: https://dspace.sti.ufcg.edu.br/.