Sob a árvore da Plataformização: concentração de poder, dataficação e autonomia na Educação Básica brasileira
Under the tree of Platformisation: concentration of power, datafication and autonomy in Brazilian Basic Education
Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro – RJ, Brasil.
Recebido em 22 de dezembro de 2025
Aprovado em 29 de janeiro de 2026
Publicado em 24 de fevereiro de 2026
RESUMO
Analisa a penetração pervasiva das plataformas digitais na Educação Básica e no Ensino de Filosofia, tendo como referência o processo definido como plataformização. Utilizando como inspiração a metáfora da Árvore da Plataformização, objetiva-se discutir aspectos das complexas dinâmicas de poder-saber que operam para além das interfaces amigáveis, examinando como as três camadas do ecossistema – raízes (infraestrutura e dataficação), tronco (concentração corporativa de poder) e galhos/folhas (plataformas educacionais, práticas pedagógicas e autonomia docente) – se articulam no contexto educacional. Foca-se na tríade conceitua: concentração de poder, dataficação e a erosão da autonomia do trabalho docente no processo de ensino-aprendizagem. Argumenta-se que a plataformização na educação não é um mero aprimoramento tecnológico, mas um processo que está reestruturando o setor ao promover a dataficação do processo de ensino-aprendizagem e da gestão educacional, ao consolidar o poder infraestrutural e informacional concentrado nas mãos de poucas corporações (as Big Techs) e ao tensionar a autonomia de professores, gestores e estudantes. Esses aspectos alimentam o Dataísmo e a Dataficação. Este fenômeno ameaça a autonomia, tanto no plano individual (a vigilância dos dados dos envolvidos no processo de ensino-aprendizagem) quanto no plano profissional (a curadoria automatizada que restringe a autonomia, a liberdade e a criatividade docente e gestora do processo). Conclui-se que o espaço pedagógico, sob a copa dessa árvore, está sendo crescentemente reconfigurado por interesses privados, exigindo um olhar atento e propositivo para a defesa dos valores públicos da educação como direito público e da autonomia de sujeitos individuais e coletivos na sociedade de plataformas.
Palavras-chave: Ensino de Filosofia. Plataformização. Dataficação. Autonomia Docente. Concentração de Poder.
ABSTRACT
This article analyses the pervasive penetration of digital platforms in Basic Education and Philosophy Teaching, using the process defined as platformisation as a reference. Using the metaphor of the Platformisation Tree as inspiration, the aim is to discuss aspects of the complex power-knowledge dynamics that operate beyond user-friendly interfaces, examining how the three layers of the ecosystem – roots (infrastructure and datafication), trunk (corporate concentration of power) and branches/leaves (educational platforms, pedagogical practices and teaching autonomy) – articulate in the educational context. It focuses on the conceptual triad: concentration of power, datafication and the erosion of teaching autonomy in the teaching-learning process. It argues that platformisation in education is not merely a technological improvement, but a process that is restructuring the sector by promoting the datafication of the teaching-learning process and educational management, consolidating infrastructural and informational power concentrated in the hands of a few corporations (Big Tech) and straining the autonomy of teachers, managers and students. These aspects fuel Dataism and Datafication. This phenomenon threatens autonomy, both at the individual level (the surveillance of data of those involved in the teaching-learning process) and at the professional level (automated curation that restricts the autonomy, freedom, and creativity of teachers and managers of the process). It can be concluded that the pedagogical space, under the canopy of this tree, is being increasingly reconfigured by private interests, requiring a careful and proactive approach to defend the public values of education as a public right and the autonomy of individuals and groups in the platform society.
Keywords: Teaching of Philosophy. Platformisation. Datafication. Teaching Autonomy. Concentration of Power.
Introdução
O debate contemporâneo sobre a educação é inseparável da rápida e profunda transformação social, proporcionada pelos processos de digitalização que ora testemunhamos, e que tem atuado na reconfiguração de setores essenciais da vida pública. Neste cenário, a emergência e a consolidação das plataformas digitais como infraestruturas terciárias mediadoras do processo de ensino-aprendizagem caracterizam um fenômeno estruturante definido pela literatura como Plataformização (Van Dijck; Poell; Waal, 2018). Diferentes diagnósticos indicam que ele vem remodelando desde a gestão escolar até as práticas pedagógicas da sala de aula, uma vez que, muito além de favorecer a digitalização de conteúdos, ele atua na reorganização sistêmica do ecossistema educacional, crescentemente mediada por lógicas corporativas privadas e algorítmicas. Neste contexto, o ensino de disciplinas fundamentais para o pensamento crítico e autônomo e a formação integral, como a Filosofia, enfrenta desafios singulares e urgentes.
Este artigo[1] visa apresentar, em grandes linhas, a penetração pervasiva deste processo, tendo em vista o olhar lançado desde o Ensino de Filosofia na Educação Básica brasileira, setor que, por sua natureza formativa, exige cuidadosa atenção às dinâmicas de poder-saber em jogo. O ensino de filosofia, enquanto espaço de formação crítica e autônoma, enfrenta hoje os impactos da plataformização educacional — processo pelo quais ambientes virtuais (como Google Classroom, Moodle, Khan Academy) e lógicas comerciais do Big Data reconfiguram relações de ensino-aprendizagem, do trabalho docente e também da administração escolar. Esses ambientes digitais oriundos das Big Tech não são neutros, uma vez que operam sob lógicas comerciais - baseadas em modelo de negócio e tipo de propriedade privados - e algoritmos que influenciam a aprendizagem, a autonomia docente em seu trabalho, e o próprio conteúdo filosófico.
A análise proposta toma um caminho oposto ao que está presente na visão puramente instrumental das tecnologias digitais. A plataformização na educação não se resume a um mero aprimoramento tecnológico ou à digitalização de conteúdos; trata-se, fundamentalmente, de um processo técnico-cultural que reestrutura social e economicamente o setor. Para desvelar as complexas camadas deste fenômeno, adotou-se como principal referência analítica a metáfora da Árvore da Plataformização, desenvolvida por José van Dijck (2022), que permite examinar a articulação das três camadas do ecossistema digital. Sob essa ótica, as raízes representam a infraestrutura técnica e o motor da Dataficação — o processo que permite transformar, por exemplo, todas as atividades de ensino-aprendizagem e gestão em dados passíveis de coleta e análise. O tronco desta árvore simboliza a concentração de poder corporativo e informacional, consolidado nas mãos de poucas Big Techs norte-americanas que controlam os modelos de governança e os algoritmos. Por fim, os galhos e folhas representam a interface visível: as plataformas educacionais, e seus efeitos concretos sobre as práticas pedagógicas concretas e, fundamentalmente, sobre a autonomia docente em sua dimensão prática, autônoma e criativa.
O foco analítico desse artigo recai, precisamente, sobre a tríade conceitual formada pela concentração de poder, a dataficação e a erosão da autonomia do trabalho docente no Ensino de Filosofia. Argumenta-se que a lógica infraestrutural e algorítmica das plataformas, ao promover a vigilância baseada em dados (dataveillance), sustenta uma ideologia que Van Dijck (2014) denominou de Dataísmo. Essa ideologia ameaça a liberdade de pensamento e a criatividade pedagógica, essenciais para o Ensino de Filosofia, restringindo-as por meio de uma curadoria automatizada que molda o currículo, o desenvolvimento das aulas e as interações presentes no processo de ensino-aprendizagem.
Em suma, este artigo busca demonstrar que os espaços pedagógicos, especialmente aqueles dedicados à reflexão libertadora e autônoma na Educação Básica, tal como o Ensino de Filosofia, estão sendo crescentemente reconfigurados por interesses privados e lógicas mercadológicas. Destaca também a urgência de um olhar atento e propositivo para a defesa dos valores públicos da educação como direito e para a reafirmação da autonomia de sujeitos individuais e coletivos na sociedade de plataformas.
A metáfora da árvore e a plataformização da Esfera Pública
Conforme veiculado em diferentes mídias brasileiras e pela própria SEEDUC-SP, a partir de março de 2023, a Secretaria da Educação institucionalizou o Programa Sala do Futuro, iniciativa que sintetiza a atual política administrativa da rede no governo de Tarcísio de Freitas, implementada, conforme noticiado, para melhorar dois indicadores estruturais: os índices de assiduidade e o desempenho acadêmico do corpo discente, ambos mediados pela intensificação do uso de plataformas digitais.
É necessário explicar, em primeiro lugar, que toda essa dinâmica ocorre nas plataformas digitais, que são: (i) softwares reprogramáveis, fato que implica a ininterrupta coleta de dados que permite a atualização das interfaces e dos algoritmos e a criação de novas aplicações; (ii) infraestruturas reprogramáveis que mediam interações personalizadas entre diferentes tipos de usuários, organizadas pela coleta ininterrupta de dados, pelo processamento algorítmico, pela monetização e circulação de dados (Poell, Nieborg, Van Dijck, 2020); (iii) criadoras e governadoras de “territórios virtuais”, no ciberespaço, pelos quais transitam e interagem os agentes por meio de algoritmos, interfaces, modelos de negócios, acordos de uso. (Van Djick, Poell e Waal, 2018).
Este modelo ecossistêmico permite desvendar algumas dinâmicas de poder-saber que operam nas entranhas do processo capitaneado pela SEEDUC-SP, e que está além da aparente neutralidade e eficiência das interfaces amigáveis. Nesse ecossistema digital, a coleta de dados primários ocorre via Novo Diário de Classe, ferramenta que permite o monitoramento síncrono da frequência, e cujas informações alimentam o painel Aluno Presente. Adicionalmente, a arquitetura de dados da rede é centralizada no Painel Escola Total, uma plataforma de Business Intelligence (BI) que agrega indicadores multidimensionais, incluindo o fluxo de aulas, métricas de proficiência e o engajamento digital de alunos e docentes. Esses indicadores segmentados — acessíveis a professores, coordenadores, diretores e supervisores — têm redefinido as relações de responsabilidade no interior da escola. O uso da BI não apenas orienta o planejamento pedagógico, mas constitui o principal instrumento de accountability e controle da SEDUC-SP. Sob essa ótica, os dados em tempo real transcendem a função diagnóstica, tornando-se o vetor central para a tomada de decisão estratégica e para a cobrança de metas de desempenho junto às unidades escolares.
O processo de plataformização da educação púbica paulista insere-se no terceiro espaço do corpo da Árvore da Plataformização, elaborada por José van Dijck, o dos galhos e folhas. Segundo a pesquisadora holandesa (2014, 2016), de modo sucinto, no nível das raízes, detecta-se o processo sociocultural profundo e transformador da Dataficação como solo invisível que nutre todo o sistema. Nele estão a materialidade de aparatos - privados (em sua maioria) e públicos - que permitem a computação na nuvem (por exemplo, datas centers, protocolos de internet, cabos de rede, satélites, e outros hardwares, minérios e metais raros, dispositivos como chips, smartphones).
Figura 1 – A Árvore da Plataformização
Fonte: Van Dijck, 2022
Por meio da datificação, as experiências humanas (ações, emoções, desejos, relacionamentos), as relações sociais, as criaturas e objetos do mundo são sistematicamente convertidos, por um processo de tradução, em dados estruturados quantificáveis que as plataformas e seus algoritmos podem processar, para fins de análise, monetização e governança. Essa tradução, porém, é redutora, pois a complexidade, a ambiguidade e o contexto das experiências extraídas (capturadas) são perdidos em favor de métricas padronizadas (engajamento, performance, pontuações), sendo que o que não pode ser quantificado tende a ser invisibilizado, criando, assim, uma representação distorcida da realidade social. Esse processo commodifica as interações sociais, porque os dados estruturados são diuturnamente agregados, perfilados e comercializados no mercado de atenção e previsão comportamental. Quando olhamos para o ensino de Filosofia inserido nesse contexto, percebe-se que, sob os procedimentos de quantificar e monitorar processos essencialmente qualitativos e dialógicos – como o debate de ideias, a construção de argumentos e a experiência do pensar –, esses aspectos acabam submetidos à lógica de métricas, dashboards e perfis comportamentais. Este, por sua vez, é o substrato que alimenta Dataísmo[2], uma ideologia que naturaliza e justifica a vigilância baseada em dados (dataveillance) como forma legítima de governar o processo educativo, tal como ocorre na rede pública paulista de ensino, e não somente nela. Por conseguinte, no âmbito dessa ideologia, se os dados são o caminho para o aperfeiçoamento e a personalização dos serviços, então a coleta indiscriminada não é invasiva, mas benéfica e progressista. Em segundo lugar, cresce a compreensão de que a métrica de sucesso (likes, shares, visualizações, seguidores) torna-se um valor social internalizado. Este aspecto leva as pessoas não apenas produzirem dados, mas performarem para os dados, moldando suas identidades e interações para maximizar indicadores quantificáveis de aprovação.
O tronco desta árvore é formado pelo núcleo visível, pelo “rosto” das empresas, que estabelecem, por exemplo, as regras da comunidade, os termos de serviço e a experiência do usuário padrão. Ele é a base a partir da qual os galhos se expandem. Nesse sentido, o tronco exala, no ocidente, o odor da concentração de poder nas mãos de um oligopólio de corporações globais de tecnologia (as Big Techs). Estas empresas não fornecem apenas ferramentas; elas fornecem a infraestrutura operacional (nuvem, identidade digital, comunicação) e definem os padrões técnicos e comerciais que condicionam a oferta de plataformas terciárias, como as educacionais setoriais. Para o Ensino de Filosofia, isto significa que os espaços digitais de discussão, os repositórios de materiais e os próprios percursos de aprendizagem são cada vez mais mediados por ecossistemas privados, cujos interesses primários não são a formação autônoma e libertadora, mas a extração de valor e a captura de dados.
Finalmente, nos galhos e folhas, observamos os efeitos concretos nas práticas pedagógicas e na autonomia docente. A curadoria automatizada de conteúdos, os percursos de aprendizagem pré-formatados e os sistemas de recomendação algorítmica podem restringir severamente a liberdade e a criatividade do professor de Filosofia. A figura do docente como intelectual crítico, capaz de selecionar problemas, estabelecer relações inusitadas e provocar debates abertos, é tensionada por ambientes digitais que priorizam a eficiência, a padronização e a aderência a objetivos mensuráveis. Por conseguinte, a autonomia encontra-se ameaçada em dupla dimensão: no plano individual, pela vigilância dos dados de professores e estudantes; e no plano profissional, pela substituição da curadoria pedagógica humana pela curadoria algorítmica corporativa.
Nesse sentido, a plataformização consiste na penetração de infraestruturas, processos econômicos e estruturas governamentais das plataformas digitais em setores da vida, como a educação.
Os pesquisadores José van Dijck, Thomas Poell e Martijn de Waal (2018) chamaram também a atenção para mudanças radicais que estavam ocorrendo no contexto do que chamaram de sociedade de plataformas, definida como “a sociedade na qual o tráfego social e econômico é cada vez mais canalizado por um ecossistema global de plataformas online (esmagadoramente corporativo) que é conduzido por algoritmos e alimentado por dados[3]. (id., 2018, p. 4 - minha tradução)”. Ao reestruturarem setores vitais da vida social a partir da arquitetura técnica e lógicas econômicas privadas, as infraestruturas digitais globais (dominadas por corporações como Google/Alphabet, Meta, Amazon, Apple e Microsoft) impregnariam o tecido social com os valores presentes na dinâmica mercantil. Por essa razão, eles destacaram o conflito entre as lógicas das plataformas (que priorizam o engajamento, o crescimento, a personalização e a monetização de dados) e as lógicas dos setores públicos, que operam com base em valores como equidade, prestação de contas, profissionalismo e serviço universal, que realizam o bem comum, por exemplo. A discussão proposta pelos pesquisadores serve como uma luva para as reflexões sobre como a entrada das plataformas digitais desafia os valores públicos na Educação, como a equidade e a autonomia, transformando-os em serviços mediadores de uma nova sociabilidade calcada na lógica empresarial, e sobre como a Educação republicana como valor acha-se sob ataque nesse cenário.
Por fim, apresentarei, igualmente de modo sucinto, alguns elementos que julguei pertinentes para a discussão do efeito viver sob a copa da árvore da plataformização: curadoria automatizada do trabalho docente e a crise da autonomia pedagógica. Entendo que há algumas consequências práticas e críticas do fenômeno da plataformização educacional (o que está "Sob a copa") — ocorridas em salas de aula plataformizadas no Brasil. Notadamente aqui serão apresentados alguns argumentos que desvelam o processo de precarização do trabalho docente.
Como vimos, a educação pública brasileira tem passado por uma transformação profunda e acelerada, impulsionada pela inserção massiva de tecnologias digitais por meio do processo da plataformização educacional, que vai além da mera digitalização de recursos: trata-se da adoção de um modelo de gestão empresarial que subordina os processos pedagógicos à lógica de dados, métricas de desempenho, a vigilância constante, o controle, os valores corporativos privados. Este fenômeno impacta diretamente a autonomia docente, redireciona vultosas verbas públicas para o setor privado e consolida o que Wilke e Feijó (2023) delinearam como Escola do Cansaço, que não objetiva a autonomia ou a liberdade, “mas o aprisionamento das pessoas envolvidas nas relações de ensino-aprisionamento ao agenciamento do desempenho, da performance e à superprodução de resultados.” (Wilke; Feijó, 2023, p. 434)
Espalhando pervasivamente no tecido social, seu modelo de negócio privado e valores corporativos, as plataformas digitais centrais e as terciárias fornecem a infraestrutura digital que intermedeia a relação entre professores, estudantes, gestores e o conhecimento. Nesse cenário, a autonomia docente, pilar fundamental para uma educação crítica, autônoma e contextualizada, é radicalmente cerceada por um outro aspecto, uma vez que o modelo de plataformização educacional também fornece as aulas a serem ministradas, retirando de docentes a função de planejamento e de elaboração de suas próprias aulas. O trabalho docente tem sido caracterizado fundamentalmente pela relação intrínseca entre planejamento, elaboração e o ministrar a própria aula. O que estamos testemunhando ocorrer em escolas privadas em rede (Wilke, Feijó, 2023) e também em sistemas públicos de ensino, via plataformização educacional, afeta a autonomia docente nas escolas ao ser imposto um modelo pedagógico padronizado, monitorado e controlado algoritmicamente por plataformas digitais que, por um lado, limitam a liberdade dos professores em decidir sobre conteúdos, métodos e ritmos de ensino. Por outro, torna visível o processo de escoamento de verbas públicas para diferentes tipos empresas privadas que fornecem de assessoria pedagógica a aplicativos e a material didático. A plataformização é, assim, a face digital de um projeto mais amplo de gestão educacional baseada em princípios empresariais, onde a eficiência, a produtividade, a padronização e os resultados mensuráveis são priorizados em detrimento de uma formação humana integral decorrente da educação como direito e bem público.
Um exemplo emblemático é a rede estadual de São Paulo, analisada por Érica Frau e Adaor Oliveira (2024). Os pesquisadores ressaltaram impactos de engessamento e padronização dos currículos e dos conteúdos. A SEEDUC-SP implementou, a partir de 2023, Materiais Digitais obrigatórios – slides em PowerPoint – para todas as disciplinas. Para o ensino de Filosofia, por exemplo, apesar da drástica redução de 32 para 12 tempos totais, foram disponibilizadas 56 aulas padronizadas, totalizando 952 slides anuais. Embora editáveis, os professores são cobrados para seguir rigidamente o Escopo-Sequência, documento que dita o conteúdo bimestral a ser ministrado. A não adesão é justificada como prejudicial aos estudantes, pois as avaliações padronizadas (Tarefa SP e Prova Paulista) são baseadas exclusivamente nesse material.[4]
Essa gestão intensiva e padronizada - em uma palavra, plataformizada - do processo educativo está, pouco a pouco, gerando mudanças no papel do professor/professora de agente ativo e criativo para executor de rotinas predefinidas, restringindo assim sua liberdade e autonomia pedagógicas, sua capacidade de adaptar e inovar conforme as necessidades reais de seus estudantes e contextos escolares.
O que fazer? Continuo a apostar na politização das tecnologias (Wilke, 2024) e também na resposta coletiva em defesa do bem público da res-publica frente à pressão dos valores corporativos neoliberais. A solução proposta não é a rejeição pura e simples da tecnologia, mas a reivindicação ativa de valores públicos no desenho e na governança das plataformas digitais e das políticas educacionais. Isso exige a mobilização coletiva de um contra-poder constituído por uma combinação: (1) da regulação governamental inteligente das Big Techs e o desenvolvimento de tecnologias digitais soberanas e cidadãs; (2) da pressão da sociedade civil; e (3) de iniciativas dos e das profissionais que atuam na educação para o desenvolvimento de alternativas que incorporem valores públicos em seus modelos de atuação.
Referências
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REPU. Nota técnica sobre a Plataformização e controle de trabalho escolar na rede estadual paulista. Jul. 2025 Disponível em: https://www.repu.com.br/notas-tecnicas
SEEDUC-SP. Quais são as plataformas que a SEDUC disponibiliza para a Rede? Disponível em:
https://atendimento.educacao.sp.gov.br/knowledgebase/article/SED-06068/pt-br
SEEDUC-SP. Você sabe o que é a Sala do Futuro?. Disponível em: https://saladofuturo.educacao.sp.gov.br/escolha-de-perfil
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VAN DIJCK, José. La cultura de la conectividad: una historia crítica de las redes sociales. Buenos Aires: Siglo Veintiuno, 2016.
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DOI: https://doi.org/10.21728/logeion.2023v10nesp2.p418-437
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WILKE, Valéria C. L. et al. O ensino de Filosofia e a plataformização da educação. Podcast ANPOF. 11 de novembro de 2025. Disponível em: https://anpof.org.br/comunicacoes/podcast-anpof/o-ensino-de-filosofia-e-a-plataformizacao-da-educacao.
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[1] Ele apresenta em grandes eixos o que foi discutido por mim na abertura da Mesa temática Ensino de Filosofia, Plataformização Educacional em tempos de Governamentalidade Algorítmica, no Encontro do GT Filosofar e Ensinar a Filosofar, realizado na UNESP/Marília, em 2025. Esta Mesa Temática voltou-se para a urgente necessidade de refletir criticamente sobre os desafios e transformações que afetam o Ensino de Filosofia no contexto da digitalização e dataficação crescentes da educação brasileira e da mediação algorítmica das práticas pedagógicas e de sua gestão.
[2] Ideologia hegemônica e também uma lógica cultural que postula a confiança acrítica na coleta e processamento de dados digitais massivos como melhor caminho para a gestão social, incluindo a educacional. Ou seja, essa ideologia sustenta e legitima o processo de Dataficação, sendo o pilar axial da sociedade de plataforma.
[3] Conforme o original: “a society in which social and economic traffic is increasingly channeled by an (overwhelmingly corporate) global online platform ecosystem that is driven by algorithms and fueled by data”.
[4] Esse tema é tratado no PodCast da ANPOF O ensino de Filosofia e a plataformização da educação
11/11/2025.