Desamparo formativo e o papel do filósofo na contemporaneidade: Entre a formação e a atuação profissional
Formative helpessness and the role of the philosopher in contemporary times: Between training and professional practice
Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Marília - SP, Brasil.
Recebido em 15 de dezembro de 2025
Aprovado em 29 de janeiro de 2026
Publicado em 24 de fevereiro de 2026
RESUMO
O artigo investiga o fenômeno do desamparo formativo na graduação em Filosofia e suas consequências para o papel do filósofo, principalmente na articulação entre o aspecto formativo e a atuação profissional. O objetivo central é problematizar a exclusividade da História da Filosofia e como sua exclusividade contribui para um sentimento de inadequação formativa. O trabalho busca congregar documentos institucionais, como também, a Classificação Brasileira de Ocupações, perfil profissional do curso de Filosofia da Unesp, o Guia do estudante da Fuvest e o Guia de profissões da UNESP para entender qual a imagem desse profissional e quais as possibilidades de atuação que ele pode se inserir. Nesse sentido, o descompasso entre a formação ofertada e a realidade vivenciada pelos egressos demonstram um problema estrutural, no aspecto formativo quanto ao ensino de filosofia, e limitações relacionadas ao campo de atuação do filósofo, assim como o seu próprio papel na contemporaneidade.
Palavras-chave: Desamparo formativo; Formação em Filosofia; Ensino de Filosofia; Papel do filósofo; Atuação profissional.
ABSTRACT
The article investigates the phenomenon of formative helplessness in undergraduate Philosophy programs and its consequences for the role of the philosopher, particularly in the articulation between formative processes and professional practice. The central objective is to problematize the exclusivity of the History of Philosophy and to examine how this exclusivity contributes to a sense of formative inadequacy. The study brings together institutional documents, as well as the Brazilian Classification of Occupations, the professional profile of the Philosophy program at UNESP, the Student Guide, and the Careers Guide, in order to understand the image constructed of this professional and the possible fields of practice in which they may be engaged. In this sense, the mismatch between the education offered and the reality experienced by graduates reveals a structural problem, both in the formative dimension of Philosophy education and in the limitations related to the philosopher’s field of practice, as well as to their very role in contemporary society.
Keywords: Formative helplessness; Philosophy education; Philosophy teaching; Role of the philosopher; Professional performance.
Introdução
Pensar a formação e o papel filósofo na contemporaneidade exige reconhecer que a própria ideia de um “papel” se tornou instável. Habitamos um período em que as funções sociais, assim como as mudanças tecnológicas são frequentemente reconfigurados, absorvidos e/ou dissolvidos por outras práticas, em alguns casos, mediadas por tecnologias que alteram a experiência humana. Nesse cenário, em que medida o filósofo se apresenta como aquele que ocupa um lugar nitidamente delimitado, investido de autoridade simbólica e reconhecimento social?
Ao contrário do que vivenciamos, sua presença é marcada pela marginalidade, pela suspeita da sociedade acerca da sua utilidade com a mesma e/ou pela redução de sua carga de trabalho quando o seu campo de atuação está inserido na rede pública de educação. Além disso, tendo em vista o seu viés abstrato, o que para alguns representa uma distância com as urgências do mundo. Nesse aspecto, qual o tipo de formação está sendo concedido para esse profissional e qual o seu papel, ao menos em documentos institucionais, sobre a sua atuação na sociedade e sua inserção no mundo do trabalho?
A pertinência desse ponto, ao menos para nós, reflete algo pouco debatido nos cursos de graduação em Filosofia: a inserção do filósofo no universo do trabalho e o seu papel na contemporaneidade. Nesse escopo, iremos primeiramente mencionar o desamparo formativo vivenciado em nosso percurso de formação e, principalmente, as limitações relacionadas à História da Filosofia. Posteriormente, pretendemos explorar determinados documentos para desvelar o campo de atuação do filósofo na contemporaneidade e buscar entender, assim, o seu papel dentro da sociedade.
Desamparo formativo: uma experiência no curso de Filosofia da UNESP/Marília
Falar em desamparo formativo no curso de Filosofia é tocar em uma experiência que, embora pouco explicitada, atravessa de maneira silenciosa o percurso de diversos estudantes durante a graduação em Filosofia. De certo modo, o sentimento é difuso, pois emerge não apenas da dificuldade relacionada ao exercício filosófico, mas, sobretudo, das condições em que essa formação é realizada. O fato não reluz uma percepção sobre a ausência de respostas, pois a Filosofia, desde os seus primórdios, conviveu com essa incerteza e indeterminação. De tal modo, a questão levantada ressoa sobre um aspecto que se depara com “ausência(s)”: entre aquilo que motivou os discentes a escolherem o curso e o potencial que se esvai ao cursá-lo.
Em nosso percurso, a bússola norteadora da História da Filosofia assume um alicerce primordial, amparada na Resolução CNE/CES N°492/2001, 3 de abril de 2001, que concede ao discente em filosofia “sólida formação de história da filosofia” (Brasil, 2001, p. 3). Essa tradição ressoa, ao menos no Brasil, com a atuação do filósofo através do exercício exegético e, também, da realização do comentário de textos clássicos. Essa herança, vinculada à tradição estruturalista francesa e consolidada no contexto universitário brasileiro, constitui um dos pilares da formação filosófica nacional. A premissa dos pressupostos se ancora em Guéroult (1968) e Goldschmidt (1970), ao privilegiar um método que permite a reconstrução internas dos sistemas filosóficos.
Todavia, a problematização desse ponto ressoa na consolidação do seu caráter hegemônico, de maneira a operar como um pressuposto naturalizado. Em outras palavras, o problema não está totalmente envolto no recurso da História da Filosofia em si, mas na maneira como ela é apresentada aos estudantes: o único caminho legítimo de acesso ao filosofar. Há diversos autores que a defendem como modo de se relacionar com a Filosofia e, principalmente, o auxílio dos textos clássicos como via ao filosófico, de acordo com Monteagudo (1997) e Leopoldo e Silva (1986). Ao menos nas aulas do curso de Filosofia, exceto em determinadas disciplinas da licenciatura e outras que assumiam um outro arcabouço teórico ao filosofar, poucos eram os momentos em que havia a explicitação dos seus métodos, limites, finalidades e, até mesmo, dos seus pressupostos. Nesse teor de incompreensões, o sentimento recorrente assume o seu caráter de inadequação. O aluno lê, mas não sabe o que extrair da sua leitura; escreve, mas não entende quais os critérios da sua escrita; frequenta as disciplinas, mas não vislumbra com nitidez o sentido formativo daquilo que realiza.
Esse sentimento se intensificou a partir das vivências durante o nosso período formativo. Exemplificaremos com o Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (PIBID) tendo em vista a profundidade das experiências nesse projeto extensionista. Ao menos nesse momento, como aponta Gallo (2012), o professor de filosofia em formação tende a reproduzir experiências que viveu durante o seu processo formativo. Nesse sentido, afirma Gallo (2012):
O modelo de formação do professor de Filosofia que temos implantado tem levado, em larga medida, a que ele seja um “reprodutor do mesmo”. Com isso quero dizer que a tendência do professor de filosofia recém-formado [ou em processo de formação], ao ver-se numa sala de aula diante de um grupo de alunos, sozinhos na tarefa de agir como professor, é reproduzir as experiências que ele mesmo, na condição de estudante, vivenciou em sala de aula. (p.130)
O excerto de Gallo (2012) demonstra uma fragilidade na formação do professor de filosofia: a tendência à reprodução. Ao afirmar que o docente recém-formado se torna um mero reprodutor, o autor desloca a discussão do plano individual para o aspecto formativo institucional. Nesse interim, a imagem do docente universitário repousa como um reflexo que molda as práticas desse futuro professor. Na ausência de explicitações sobre as dinâmicas, o espelhamento ou a reprodução dita a tônica das práticas escolares, muito mais do que entender tais questões, essa prática sugere que há a necessidade de refletir sobre o ensino de filosofia e suas dinâmicas de maneira geral no ambiente universitário, mesmo que o docente não esteja diretamente atrelado à licenciatura. Além disso, a própria História da Filosofia, em nossa atuação, mostrou-se insuficiente quando transmitida aos alunos. Nesse sentido, o desamparo reflete a hegemonia de uma prática utilizada na filosofia e a ausência de preocupação dos docentes do curso em relação ao aspecto formativo dos seus alunos. Ao que Marques afirma em entrevista acerca desse aspecto formativo na Unesp:
Quanto ao ensino de filosofia, ao menos na Unesp, ele não vem sendo focalizado com a devida atenção, ao menos por parte de todo o corpo docente, ao menos por parte dos órgãos que por ele devem zelar, o Conselho de Curso e o Conselho Departamental. Mas esse fato, em si mesmo, não significará desinteresse dos atuais docentes pela questão, embora indique, a meu ver, preocupante ausência de planificação, excesso de rapsódia, pouquidão de arquitetônica... [...] Creio, porém, que essa mesma idéia - não bem ela, mas a sua efetivação - terá sido engolfada pelo modus operandi tradicional, seja ela de matiz estruturalista ou não. Temos ainda grande dificuldade em falar sobre o ensino de filosofia, pois fomos ensinados e ensinamos, mas via de regra não paramos para refletir sobre o ensino como tal. Isto é: filósofos e historiadores da filosofia, não damos a devida atenção à formação, à Bildung, ocupando-nos, no mais das vezes, com os próprios botões. (Marques; Girotti, 2009, p. 11)
Nesse aspecto, Rodrigo Pelloso Gelamo em sua tese, O ensino de Filosofia no limiar da contemporaneidade: o que faz o filósofo quando seu ofício é ser professor de filosofia? (2009), trata o ensino de filosofia de maneira filosófica com a preocupação de entender a dinâmica do filósofo em sua atuação dentro da sala de aula. Todavia, Gelamo apresenta questões que tangenciam e aprofundam somente esse aspecto, o que delimita o seu campo de atuação, devido ao seu texto se inserir dentro da temática do ensino de filosofia, embora exclua outras possibilidades do campo de atuação ao privilegiar o ofício do filósofo como docente de filosofia. Na próxima seção, tentaremos explorar dentro de determinados documentos institucionais: quais as expectativas profissionais criadas em relação ao filósofo e possibilidades sobre o seu campo de atuação.
Expectativas profissionais¹ do filósofo na sociedade
Nesta seção, utilizaremos textos que oferecem uma imagem sobre a atuação do filósofo na sociedade. Tais textos podem ser mencionados, como: O guia de profissões da UNESP (2021); o guia do estudante da Fundação Universitária para o Vestibular (Fuvest) (2019); a Classificação Brasileira de Ocupações (2010), do Ministério do Trabalho, e, por fim, o perfil do egresso do curso de Filosofia da Unesp no Projeto Político Pedagógico (2023) para exemplificar essas questões.
O guia de profissões da UNESP é um compilado de informações gerais sobre a Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” e questões relacionadas à instituição, tal como os cursos que a constituem e determinados processos da universidade. Nosso escopo de atuação, neste texto, busca entender as dinâmicas dentro do próprio curso de Filosofia. Nesse documento, atualizado a cada ano, se percebe uma desatualização do contexto em que a Filosofia está inserida e, também, dos últimos acontecimentos em relação a essa área do saber. Ao que o texto afirma:
Em termos de mercado de trabalho, recentemente a Filosofia voltou a ser obrigatória no ciclo médio (havia sido excluída durante a ditadura militar) e há enorme carência de pesquisadores e licenciados em Filosofia. No ciclo superior, muitas universidades e dezenas de cursos precisam de bacharéis, mestres e doutores em filosofia para lecionar introdução à Filosofia, ética profissional, bem como uma espécie de Filosofia instrumental aplicada à área em questão. (Unesp, 2021, p. 149).
O excerto da Unesp propicia uma narrativa promissora sobre a formação e o mercado de trabalho em Filosofia. Logo no início, a menção ao retorno da obrigatoriedade da Filosofia, promulgada pela Lei n° 11.684/2008, em que houve o retorno da Filosofia nos três anos do ensino médio. Apesar desse retorno, com a nova configuração do ensino médio através da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), “a filosofia aparece como componente curricular da área de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas.” (Salvia; Neto, 2021, p. 3). Nesse ponto, ao englobar a área de Ciências Humanas na BNCC a Filosofia tem sido deslocada e/ou esvaziada por reformas educacionais, tendo em vista a ausência de garantias ou diminuição de sua permanência no ensino médio.
A ideia de “enorme carência de pesquisadores e licenciados” sugere um vazio estrutural que não se traduz em política de valorização ou contratação de profissionais dessa categoria, tendo em vista a expansão de cursos de graduação e pós-graduação nessa área. Quanto as contratações em nível do ensino superior, mas quando nos deparamos com essa questão no ensino básico, presenciamos muitos alunos não conseguirem completar sua carga horária com a área em que foi formado. Em continuidade às dinâmicas expostas e em relação ao Guia de profissões da Unesp, o próprio documento oferece outros campos de atuação, dessa maneira, o documento afirma:
Outro campo de trabalho emergente é o de cursos livres e complementares, seja como série de conferências, seja como grupos de estudos. Esses cursos podem ter como tema a Filosofia ou algum assunto afim, por exemplo, ciência cognitiva, filosofia da tecnologia, o pensamento de Einstein ou de Freud, a história da arte, entre muitos outros. A produção e organização de livros didáticos, paradidáticos ou mesmo romances, artigos especializados para jornais ou revistas, são também atividades profissionais desempenhadas com proveito por bacharéis e licenciados em Filosofia. Dentre as possibilidades de atuação profissional, além da docência e da pesquisa, o ensino da Filosofia visa produzir livres-pensadores habilitados a refletir criticamente sobre as contradições do mundo atual dentro e fora da universidade, em escolas de educação básica, em órgãos de divulgação e discussão do conhecimento em centros de pesquisa, na assessoria ética, conceitual e cognitiva a pesquisas científicas de todas as áreas, em partidos políticos, equipamentos culturais, ONGs etc. A pretensão é que nossos graduados tenham destacada atuação na formação crítica da opinião pública, especialmente do interior paulista, contudo sempre inseridos no debate mundial. (Unesp, 2025, p. 149).
O texto complementa a possibilidade de campos emergentes o que pode fornecer um aspecto expansivo da Filosofia. Entretanto, se olharmos através de uma outra ótica, pode-se revelar o sintoma da precarização, assim como do próprio deslocamento institucional. A presença de cursos livres e atividades complementares aponta menos para uma consolidação profissional e muito mais para a necessidade de os filósofos criarem espaços alternativos de atuação mediante a escassez de posições estáveis de trabalho. Quanto a produção de livros, artigos, o próprio texto o faz de maneira genérica. Supõe-se que a inserção ao mercado editorial fosse facilitada somente pela formação em filosofia, tendo em vista a idealização da escrita como vocação do filósofo, descolada, em certa medida, por critérios econômicos.
Outro ponto apresentado pelo trecho em questão diz respeito à formação de “livres-pensadores” habilitados a refletir acerca do mundo. A ambiguidade da construção do papel do filósofo assume o seu auge nesse momento pois, ao mesmo tempo que reivindica uma função crítica, se formos pensar em partidos políticos, ONG’s, centros de pesquisa e questões culturais, o discurso ressoa como idealista. Os limites dessas possibilidades de atuação, os conflitos institucionais, as pressões ideológicas são apresentadas, através desse livre-pensador como um horizonte praticamente natural ao filósofo. Todavia, não são considerados os atravessamentos sociais, econômicos e históricos que moldam o pensamento, assim como sua possibilidade de intervenção. Logo, podemos nos indagar: há a preocupação, por parte dos editores desse documento, assim como por parte do corpo docente, em relação à inserção dos discentes nesses diferentes campos de atuação? O curso de Filosofia promoveria essas condições para propiciar a prática nesses diferentes cenários?
Nessa dinâmica, buscamos entender o papel do filósofo sob a ótica da Classificação Brasileira de Ocupação (2010), em que o código 2514-05 apresenta sobre a ocupação do(s) Filósofo(s). Ao que o documento menciona acerca do filósofo:
Descrição sumária: Refletem crítica e sistematicamente sobre o ser e o destino do homem e do mundo, por meio da assimilação dos clássicos do pensamento e da realização de pesquisas sobre temas filosóficos, tais como ética, epistemologia, estética, ontologia, metafísica, política, lógica, cultura, etc., com a finalidade de formar e orientar pessoas e assessorar organizações.
Formação e experiência: Geralmente, a formação ocorre em universidade, com curso superior e de pós-graduação, em filosofia ou qualquer outro ramo das ciências. O acesso à produção filosófica de outros países demanda a proficiência em idiomas estrangeiros. Há filósofos que se consagram pelo notório saber.
Condições gerais de exercício: Atuam, principalmente, em atividades culturais, editoriais, educacionais, de pesquisa, de recursos humanos e em organismos afins, podendo exercer mais de uma ocupação. É comum como professor e pesquisador. Nesses casos, são classificados pela atividade predominante. Trabalham em ambientes fechados, de forma individual, podendo, ocasionalmente, formar equipes. É comum, terem seus trabalhos divulgados através de livros, revistas, jornais e outros meios.
Recursos de trabalho: Audiovisuais - TV, vídeo, filme e rádio; Fontes bibliográficas - livros, revistas e jornais; Recursos de informática.
Participantes da descrição: Ana Maria Said; Eduardo Garuti Noronha; Ester Vaisman; Leonardo Prota; Max Rogério Vicentini; Paulo Ricardo Martines; Ricardo Vélez Rodriguez e Telma de Souza Birchal. (Brasil, 2010, p. 345)
O trecho extraído de uma descrição institucional sobre a ocupação do “filósofo” oferece uma imagem normativa do que seria o exercício profissional da filosofia. À primeira vista, trata-se de um enunciado abrangente que visa conceder uma dimensão reflexiva, assim como oferecer possibilidades sobre o campo de atuação. No entanto, quando lido à luz da realidade efetivas do mercado, esse texto revela tensões e idealizações que merecem nossa atenção, bem como nossa problematização.
A descrição sumária atribui ao filósofo a tarefa de refletir “crítica e sistematicamente sobre o ser e o destino do homem e do mundo” (Brasil, 2010, p. 345), através da assimilação dos grandes clássicos do pensamento da filosofia. Essa formulação ecoa uma concepção clássica do filosofar, associada a ideia de universalidade e totalidade. O filósofo, nesse documento, aparece como alguém que reflete sobre o ser humano e o mundo nas suas dimensões mais fundamentais, de modo a ocupar um lugar de observador privilegiado. Todavia, em que medida essa imagem dialoga com a fragmentação característica da contemporaneidade, marcada por especializações e demandas mais imediatistas?
Ao enfatizar o teor dos clássicos, o texto reforça a centralidade da tradição filosófica como condição à filosofia. Nesse sentido, esse aspecto contribui para a construção de um perfil profissional fortemente vinculado ao universo acadêmico, com teor erudito. No que diz respeito à finalidade de “formar e orientar pessoas e assessoras organizações” (Brasil, 2010, p. 345), transparece um alargamento do campo de atuação do filósofo. Contudo, o próprio texto não explicita como essa orientação ou assessoria poderia se dar, nem as competências para a realização dessa atividade. Comenta-se sobre assessorar organizações, embora não se discuta os contextos e nem sob quais condições. Dessa forma, a imagem cristalizada reflete um aspecto genérico do filósofo, muito mais compatível com um devir a ser alimentado pela expectativa do que propriamente uma realidade a ser consolidada.
Em relação ao guia do estudante da FUVEST, documento que fornece condições para o ingresso, permanência e possibilidades de curso da Universidade de São Paulo (USP). Assim, temos o seguinte parecer sobre a Filosofia e suas possibilidades de atuação no mercado de trabalho:
Filosofia: É a prática de análise, reflexão e crítica na busca do conhecimento do mundo e do homem. O filósofo dedica-se a investigar e a questionar com profundidade e rigor metodológico a essência e a natureza do Universo, do homem e dos fatos. Estuda as grandes correntes do pensamento e a obra dos filósofos. Faz reflexões sobre questões éticas e políticas. Pesquisa e presta consultoria para instituições científicas, artísticas e culturais. Também está apto a implantar projetos educacionais e, com a licenciatura, a dar aulas no Ensino Médio. Mercado de trabalho: Há demanda de licenciados devido a obrigatoriedade da disciplina no Ensino Médio. A docência em universidades, mediante formação em pós-graduação, é outra das principais áreas de atuação. Bacharéis são procurados por museus e institutos culturais para coordenar atividades que envolvam pensamento livre e criativo e para ministrar palestras. Jornais, revistas e outros meios de comunicação também costumam buscar filósofos para redigir artigos e comentar fatos da atualidade. (Guia do estudante, 2019, p. 14)
O trecho acima apresenta a construção da imagem clássica e institucionalizada da filosofia e, em certa medida, do próprio filósofo. O seu contorno e delimitação revelam os seus próprios limites. A dedicação do filósofo a investigar a natureza do universo, do ser humano e dos fatos remete a uma tradição já consolidada dentro da Filosofia. Além disso, a própria dinâmica de estudar as “grandes correntes do pensamento e a obra dos filósofos” é reforçada uma visão histórica e canônica da formação filosófica. Embora a tradição tenha o seu peso no aspecto formativo, em que medida vislumbrar o passado pode auxiliar a lidar com as questões presentes e emergentes do nosso tempo?
Além disso, o próprio texto, assim como outros anteriormente, sinalizam um horizonte idealizado ao campo de atuação do filósofo. A docência nas universidades, a atuação em museus, institutos culturais e meios de comunicação promovem, assim como feito em outros momentos, um profissional idealizado. Embora as competências necessárias ou até mesmo a ideia de reinvenção profissional não estejam elencadas, mas no modo como se apresenta, o filósofo reluz como um profissional polivalente que pode se inserir e atuar nos diversos ramos da sociedade. Em continuidade a esses pontos, exploraremos o Perfil profissional do egresso do curso de Filosofia da UNESP, ao que o documento afirma:
Perfil do profissional a ser formado na nova proposta: O graduado em Filosofia deve “possuir sólida formação em história da filosofia” e “capacitar-se a formular e propor de modo especificamente filosófico soluções a problemas nos diversos campos do conhecimento”, conforme Res. CNE 492/2001 (Diretrizes curriculares nacionais para os cursos de graduação em filosofia). Nosso egresso deve preparar-se para ler e escrever, escutar e falar filosoficamente sobre teorias e conceitos de várias áreas culturais e científicas, adequar níveis de linguagem (simples, médio, acadêmico e de excelência) para mapear problemáticas diversas, promover reflexão crítica e instrumentar deliberações éticas e políticas de agentes públicos ou empresas privadas. Nosso licenciado deve contribuir para a formação filosófica de seus alunos de nível médio e fundamental e para a formação plena da cidadania crítica. Ademais, os graduandos recebem formação interdisciplinar em várias disciplinas do curso que dialogam proficuamente com diferentes áreas do conhecimento científico, humanístico e artístico. (Unesp, 2023, p. 3)
O perfil profissional delineado sobre o curso de Filosofia da Unesp apresenta uma base na História da Filosofia. Além disso, a fala, escuta, leitura e escrita prioritariamente filosófica sobre várias áreas assumem, novamente, uma tonalidade genérica sobre a identidade. Em consonância a esse ponto, o filósofo mantém um diálogo com áreas científicas, artísticas e culturais, como isso se realiza? Não é explicitado. Entretanto, a área do ensino e da pesquisa assume a salvaguarda desse profissional em seu escopo de atuação, sendo o filósofo, ao menos em sua formação, lidado e mantido contato com outras áreas, tendo em vista o aspecto interdisciplinar da sua formação. Do ideal que se mantém durante as diversas descrições, o ideal de filósofo assume uma tônica nos diversos caminhos e maneiras de atuação, mas será que o egresso do curso de filosofia pode contemplar as várias opções que são descritas nesses diferentes documentos? De maneira categórica: infelizmente, não.
Conclusão
O desamparo formativo se manifesta na dificuldade de articular a formação universitária em filosofia com o mundo do trabalho. Nos diversos documentos, encontramos a afirmação que o filósofo pode atuar em consultorias, meios de comunicação, editoras, produção de materiais didáticos e paradidáticos, instituições culturais e organizações não-governamentais, mas pouco se discute, durante a graduação, como essas atuações seriam possíveis e/ou quais competências seriam necessárias para essa inserção.
Esse descompasso entre o discurso institucional e aquilo que nos deparamos na realidade produz um sentimento de desorientação, ou melhor, de desamparo. O estudante percebe que a formação recebida, principalmente norteada pela História da Filosofia, o prepara para a docência ou o universo da pesquisa acadêmica, mesmo que tais caminhos se mostrem cada vez mais precarizados diante das novas condições que se têm colocado para esses modos de atuação. Ao que menciona Rodrigues:
do mesmo modo que nos habituamos a acreditar que a compreensão da história da filosofia constituiria o cerne das práticas de ensinar e aprender filosofia, nós ensinaremos filosofia no ensino médio sujeitados por esse pressuposto, de tal forma a crer que só a partir do conhecimento da história da filosofia poderá o estudante refletir sobre suas próprias questões. (Rodrigues, 2020, p.164)
O fruto disso é um campo formativo marcado por silêncios que são reflexos desse desamparo: silêncio sobre as finalidades formativas, por parte do corpo docente; sobre as possibilidades de atuação; sobre a figura do especialista scholar, como menciona Rodrigues (2024)² e Ivan Domingues (2017), ao que demonstram, reflete um panorama do ensino universitário brasileiro. Nesse escopo, a distância entre a formação e o mundo do trabalho exige que os cursos de Filosofia assumam a responsabilidade de discutir o aspecto profissional do filósofo. Quais condições materiais são fornecidas e quais os campos de atuação para o filósofo formado no nível superior? Longe de querermos instrumentalizar a Filosofia ou fixarmos uma identidade desse profissional, mas enxergamos, nesse debate, a necessidade de repensar o papel do filósofo nos tempos atuais e termos a nitidez de sua inserção para além do escopo da sala de aula e do campo da pesquisa.
Referências
BRASIL, Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). Classificação Brasileira de Ocupações. CBO: Brasília, 3° edição, 2010.
DOMINGUES, Ivan. Filosofia no Brasil: Legados e Perspectivas. Ensaios metafilosóficos. São Paulo, Ed. Unesp, 2017.
GALLO, Sílvio. Metodologia do Ensino de Filosofia: Uma didática para o ensino médio. Campinas, SP: Papirus, 2012.
GELAMO, Rodrigo Pelloso. O ensino da filosofia no limiar da contemporaneidade: o que faz o filósofo quando seu ofício é ser professor de filosofia?. São Paulo : Cultura Acadêmica, 2009.
GOLDSCHMIDT, Victor. A Religião de Platão. Trad: Ieda e Oswaldo Porchat Pereira. 2ª ed., São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1970.
GUÉROULT, Martial. O problema da legitimidade da história da filosofia. Revista de História, São Paulo, v.37, n.75, p.189-211, [1956] 1968. Disponível em: . Acesso em: 6 abr. 2018
GUIA DO ESTUDANTE. Fuvest. São Paulo: Editora: Abril: 2019.
LEOPOLDO E SILVA, Franklin. História da Filosofia: Centro ou referencial? In: NETO, Henrique Nielsen (org.) O ensino de filosofia no 2º grau. São Paulo: SOFIA Editora SEAF, 1986, p.153-162.
MARQUES, U. R. A; GIROTTI, Marcio Tadeu. Entrevista com Ubirajara Rancan de Azevedo Marques. Filogêneses. Marília. Vol. 2, nº 1, p. 1-11, 2009.
MONTEAGUDO, Ricardo. Filosofia no segundo grau: necessidade e utilidade dos textos clássicos. Dissenso, São Paulo, Brasil, n. 1, p. 123–126, 1997. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/dissenso/article/view/105036.. Acesso em: 10 dez. 2025.
ORTEGA Y GASSET, J. Sobre las carreras. Obras completas, vol. V. Madrid, Revista de Occidente, 1951.
RABOSSI, Eduardo. En el comienzo Dios creó el canon: Biblia berolinensis. Buenos Aires: Celtia-Gedisa, 1° edição, 2008.
RODRIGUES, A. Como nos tornamos os professores que somos: uma problematização da herança estruturalista nas práticas de ensinar e aprender filosofia. São Paulo: Cultura Acadêmica Digital, 2020.
RODRIGUES, Augusto. Heranças Político-Filosóficas de ensinar e aprender Filosofia: Do campo do ensino de Filosofia à trajetória formativa na UNESP. Tese (doutorado) - Universidade Estadual Paulista (Unesp), Faculdade de Filosofia e Ciências, Marília, 2024.
SALVIA, A. L. L.; NETO, O. C. O que pode o ensino de filosofia na BNCC?. Revista Digital de Ensino de Filosofia - REFilo, [S. l.], v. 7, p. e16/1–24, 2021. DOI: 10.5902/2448065767379. Disponível em: https://periodicos.ufsm.br/refilo/article/view/67379. Acesso em: 12 dez. 2025.
UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA “JÚLIO DE MESQUITA FILHO” (UNESP). Guia de profissões da UNESP. São Paulo: Fundação: Vunesp, 2021.
UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA “JÚLIO DE MESQUITA FILHO” (UNESP). Projeto Político Pedagógico. Marília, 2023.
This work is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial 4.0 International (CC BY-NC 4.0)
Notas
1 O filósofo, Eduardo Rabossi (2008) em seu texto, En el comienzo Dios creó el canon: Biblia berolinensis, explora a ideia de carreira para compreender a dinâmica institucionalizada da filosofia. Nesse mesmo sentido, Ortega y Gasset contém um excerto nomeado, Sobre las carreras (1951), em que aborda sobre a natureza e o significa das profissões na sociedade.
2 De fato, a habilidade de “explicar” textos filosóficos, a nossa rotina em torno da explicação e compreensão dos textos clássicos, reflete os imperativos de uma cultura técnico-filosófica do especialista, do comentador de textos, cujo ofício se faz separado da vida e dos problemas imanentes à nossa realidade. (Rodrigues, 2024, p. 178).