A criação de uma Liga Acadêmica de Filosofia Latino-Americana: um relato de experiências
The creation of an Academic League of Latin American Philosophy: an experience report
Instituto Federal do Paraná, Jacarezinho – PR, Brasil.
Instituto Federal do Paraná, Jacarezinho – PR, Brasil.
Recebido em 15 de dezembro de 2025
Aprovado em 23 de junho de 2026
Publicado em 26 de junho de 2026
RESUMO
Este artigo tem como objetivo relatar as experiências relacionadas ao processo de criação da Liga Acadêmica de Filosofia Latino-Americana, projeto desenvolvido em um dos campi do Instituto Federal do Paraná, refletindo sobre seus desafios, apontando perspectivas futuras e discutindo nossos fundamentos filosóficos. As ligas acadêmicas são tradicionalmente associadas ao Ensino Superior, principalmente nas áreas da saúde, onde integram atividades de ensino, pesquisa e extensão em torno de algumfoco temático. Buscamos aplicar tais princípios às ciências humanas, notadamente no campo da filosofia latino-americana. Neste relato de experiência apresentamos as ações desenvolvidas pelo projeto no ciclo de 2024-2025, como uma batalha de poesias, cursos introdutórios com comidas típicas da América Latina, gincanas de jogos de rua, um minicurso e uma oficina, além de atividades de ensino e pesquisa. Destacamos como fundamentos filosóficos para as ações da Liga as categorias de exterioridade, liberdade e amefricanidade, refletindo a respeito de sua aplicação no funcionamento do projeto. A criação da Liga Acadêmica de Filosofia Latino-Americana representa um esforço inovador de aproximar os estudantes do Ensino Médio Integrado de discussões a respeito da filosofia e da realidade latino-americana.
Palavras-chave: Liga Acadêmica; Filosofia Latino-Americana; Ensino de Filosofia.
ABSTRACT
This paper aims to report the experiences related to the process of creating the Liga Acadêmica de Filosofia Latino-Americana, a project developed in a campus of Instituto Federal do Paraná, Brazil. We will reflect upon its challenges, outline future perspectives and discuss our philosophical foundations. Academic leagues in Brazil traditionally are associated with higher education, mainly in health courses, in which they integrate activities of teaching, research and extension and any thematical focus. We proposed applying these principles to human sciences, notably in the field of Latin American philosophy. In this experience report we present the action developed by the project in 2024-2025, such as a poetry slam, introductory courses featuring typical dishes of Latin American cuisine, a sport event with Latin American street games, plus activities of teaching and research. We highlight as philosophical foundations of the Liga actions the philosophical categories of exteriority, liberty (liberdade) and amefricanity, reflecting on its application on the project. The creation of the Liga Acadêmica de Filosofia Latino-Americana represents the innovative effort to engage Integrated High School students with discussions on philosophy and Latin American reality.
Keywords: Academic league; Latin American philosophy; Teaching of philosophy.
Introdução
O objetivo deste artigo é relatar as experiências relacionadas ao processo de criação da Liga Acadêmica de Filosofia Latino-Americana, um projeto desenvolvido no âmbito do Instituto Federal do Paraná, campus Jacarezinho. Também refletiremos a respeito dos desafios encontrados no primeiro ano do projeto, apontaremos algumas perspectivas futuras e discutiremos alguns dos princípios filosóficos, políticos e pedagógicos que fundamentam seu funcionamento.
As ligas são entidades acadêmicas tradicionalmente associadas ao Ensino Superior, principalmente aos cursos da área da Saúde. A partir de algum foco temático, elas reúnem atividades de ensino, pesquisa e extensão, complementando a formação discente. Exemplos de ligas acadêmicas são a Liga de Cardiologia da FAMERP, a Liga de Oncologia da UFMG e a Liga de Infectologia da UFPE[1].
Essas organizações proporcionam aos estudantes oportunidades de aprofundamento em áreas específicas da medicina, além de integrar teoria e prática no contexto acadêmico e oferecer serviços à comunidade.
Ao propor a criação de uma liga acadêmica de filosofia latino-americana, pretendemos realizar uma inovação dupla: aproveitar o potencial das ligas acadêmicas na formação em ciências humanas e desenvolver um campo ainda pouco explorado no contexto da Educação Básica, Técnica e Tecnológica no Brasil, especialmente no Ensino Técnico Integrado ao Ensino Médio: a filosofia latino-americana.
A criação de uma liga com esse tema surge a partir da necessidade de valorização e promoção do pensamento filosófico produzido na e sobre a América Latina, contribuindo para uma formação crítica, plural e enraizada na realidade dos estudantes. Diversos autores, e a partir de diferentes perspectivas, têm criticado o eurocentrismo na filosofia, como Enrique Dussel (2011), Julio Cabrera (2018) e Adilbênia Machado (2023). Eles demonstram como a filosofia na América Latina tem sido caracterizada, por um lado, pela negligência em relação aos problemas e autores latino-americanos, e por outro, por um esforço de libertação não apenas política, mas também cultural e epistemológica. Este projeto foi desenvolvido à luz da necessidade de se fortalecer estes esforços libertadores que surgiram em nossa realidade concreta e que a tomam como objeto.
Desenvolvimento
A Liga Acadêmica de Filosofia Latino-Americana foi criada no dia 15 de setembro de 2024 como parte de um projeto de extensão do IFPR. Ela é coordenada por um professor e contou em seu primeiro ano com uma bolsista. Inicialmente o professor e a bolsista se reuniram para que ele pudesse apresentar-lhe o projeto, seus objetivos e sua operacionalização e para a elaboração de um plano de ação. A partir daí, foram realizadas diversas atividades, as quais relatamos a seguir.
A primeira atividade promovida pela Liga, ainda no segundo semestre de 2024, foi uma Batalha de Poesias com o tema “Realidade Latino-Americana”. O evento teve como intuito estimular o pensamento crítico e criativo dos estudantes, a partir da produção poética sobre temas como identidade, colonização, resistência e liberdade. A atividade também funcionou como um experimento metodológico, buscando dialogar com as juventudes a partir de linguagens que superam o formato tradicional de aula.
Mais tarde, já no primeiro semestre de 2025, foi promovido um evento introdutório à Liga, com o objetivo de ampliar sua divulgação e atrair novos participantes. A programação contou com uma palestra sobre o Abril Indígena, mês de mobilizações e lutas dos povos originários do Brasil, seguida de uma apresentação sobre a proposta da Liga e de um momento cultural, com a degustação de anticucho, um prato típico da gastronomia peruana. O anticucho ilustra o modo como ingredientes e técnicas dos povos originários, combinados com influências afrodiaspóricas e ibéricas, estão presentes ainda hoje na gastronomia peruana e, de modo análogo, poderíamos acrescentar, de toda América Latina. A atividade teve boa aceitação entre os estudantes e demonstrou o potencial de articulação entre filosofia, cultura e política. A partir deste evento, nove estudantes voluntárias começaram a participar do projeto.
Com sua participação, foi discutido e aprovado o estatuto da Liga, cuja primeira proposta foi feita pela bolsista e pelo orientador, e foram planejadas ações de ensino, pesquisa e extensão da Liga para o segundo semestre de 2025.
Já no segundo semestre, foi feito pelas participantes da Liga, um mural em homenagem ao Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, celebrado no dia 25 de julho. Considerando-se, porém, que nesta data o campus estava em recesso escolar, o mural foi montado na primeira semana de agosto. O mural era composto por varais com cordéis, cada um deles contendo a biografia e pensamento de personalidades negras latino-americanas e caribenhas cruciais para entender sua luta, resistência e suas conquistas, evidenciando suas contribuições sociais, culturais e políticas para a região. A escolha do cordel não foi aleatória: por ser uma manifestação literária popular, marcada pela oralidade, de fácil divulgação e com forte poder de comunicação, ele possibilita aproximar leitores e cultura de maneira acessível, crítica e ao mesmo tempo poética. Assim, o cordel foi tomado como ferramenta para dar vida ao mural, conectando tradição cultural, memória, luta e a valorização das contribuições das mulheres negras latino-americanas e caribenhas ao pensamento e à história.
As mulheres que foram escolhidas pelas próprias participantes da Liga foram: Ruth de Souza, Maria dos Remédios del Valle, Maria Carolina de Jesus, Lélia Gonzalez, Sueli Carneiro, Victoria de la Cruz, Conceição Evaristo e Djamila Ribeiro.
Apresentar essas expoentes históricas através do cordel e de uma abordagem fortemente ancorada na estética popular latino-americana, possibilitou que a comunidade do campus se interessasse não apenas pelo tema, mas também pela Liga. O mural também serviu como um dos meios de divulgação da oficina “Moda educativa, ancestralidade e sustentabilidade”. A primeira parte da oficina teve uma fala sobre moda e sustentabilidade, ministrada por uma professora parceira; seguida de outra sobre moda ancestral, ministrada por uma das professoras participantes da Liga. Na sequência, na parte prática da oficina, os participantes personalizaram suas bolsas ecológicas. Eles puderam explorar livremente sua criatividade, e foi constatado que a maior parte das produções que expressavam o orgulho, a estética, a cultura e a ancestralidade negra. O evento promoveu a integração entre conhecimento teórico e prática artística, valorizando a cultura negra e a sustentabilidade.
Figura 1 - Mural em homenagem ao Dia da Mulher
Negra Latino-americana e Caribenha.
Fonte - Autores
No mês de agosto foi feito o Segundo Curso Introdutório da Liga, cujo tema foi a cultura e a filosofia argentina. Inicialmente, foi feita uma fala sobre a filosofia argentina, apresentando as suas épocas principais segundo uma interpretação baseada no pensamento de Enrique Dussel (2012): pré-colombiana, colonial, primeira independência e contemporaneidade. A seguir, foi feita uma degustação de um churrasco de inspiração argentina. Na Argentina, o churrasco assume papel de destaque não apenas pelo aspecto gastronômico, mas também pelo valor social e cultural que carrega, sendo associado à coletividade, à celebração e à cultura nacional. Assim, ele se mostrou uma escolha significativa para o curso introdutório, permitindo aos participantes vivenciar e refletir sobre a cultura argentina a partir de uma de suas práticas culinárias mais emblemáticas. Dessa forma, o Segundo Curso Introdutório da Liga proporcionou aos estudantes uma experiência educativa e cultural integrada, unindo conhecimento histórico, vivência prática e valorização das tradições gastronômicas da Argentina.
Também em agosto, foi realizada uma intervenção em uma escola pública da cidade com o intuito de conscientizar os participantes a respeito da importância dos jogos de rua para a cultura e para o bem-estar coletivo, bem como divulgar o processo seletivo da instituição a qual a Liga está vinculada. Intitulada “Gincana: América Latina nas escolas”, essas atividades tiveram como público estudantes do Ensino Fundamental anos finais matriculados na escola parceira. Após uma fala introdutória, que apresentou aos estudantes a importância do brincar de um ponto de vista da saúde, do bem-estar e da cultura, eles participaram, revezando entre as atividades, de alguns jogos de rua conduzidos pelas ligantes: queimada, reloginho, pique-bandeira betes, bolinhas de gude, mãe da rua.
Ainda no segundo semestre de 2025 iniciou-se um projeto intitulado “Saúde mental e realidade latino-americana”. Trata-se de um projeto de ensino com bolsista e que faz parte da programação da Liga. O projeto teve como objetivo fomentar um sistema integrado de promoção da saúde mental discente no campus, promovendo a conscientização coletiva por meio da identificação de desafios, acolhimento psicológico, sugestão de diretrizes institucionais e construção de um referencial teórico participativo. O projeto abordou temas como saúde mental e sua articulação com questões de gênero e questões raciais; família e amigos e saúde mental; autoextermínio e automutilação.
Por fim, as últimas ações realizadas no segundo semestre de 2025 tiveram como propósito contribuir com as festividades do Novembro Negro na instituição. Em parceria com o Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (NEABI), foram feitas ações como uma roda de conversa sobre autoestima negra, mediada por uma das ligantes; uma oficina sobre saúde mental e raça, que também faz parte do projeto de saúde mental citado acima; uma exposição visual sobre cultura amefricana, centrada na divulgação de cantores e cantoras negros; e um mural interativo sobre música negra. As ligantes também participaram de um curta-metragem intitulado “Se liga no crespo”, produzido por um dos professores do campus (Se, 2025) e que explora como a escola pode ser um palco central da transição capilar e do resgate da estética negra. O curta faz parte do movimento orgulho crespo, que tem como objetivo valorizar a estética e a cultura negra. Tal luta é importante para uma descolonização e libertação estética.
Também em novembro, no dia 11, foi oferecido no âmbito da VI Semana de Química e V Semana de Alimentos do campus, o minicurso “Filosofia da Fome”. A atividade teve como objetivo desenvolver uma crítica filosófica da fome na América Latina, trabalhando especialmente a partir de fontes brasileiras que trabalharam o tema, como Darcy Ribeiro, Josué de Castro, Maria Carolina de Jesus e Álvaro Vieira Pinto. Também foi feita junto com os estudantes o preparo de salchipapas, outro prato típico da gastronomia peruana. Ele foi usado como exemplo da criatividade popular e do processo de coletivo de resistência à fome.
As atividades desenvolvidas até o presente momento foram compiladas no seguinte quadro:
Quadro 1 – Atividades desenvolvidas pela Liga no ciclo 2024-2025
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Atividade |
Descrição |
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Batalha de Poesias (13/12/2024). |
Evento em que os estudantes criaram e apresentaram poemas sobre a realidade latino-americana, explorando temas como identidade, resistência, liberdade e colonização, de forma interativa e criativa. |
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1° Curso Introdutório da Liga Acadêmica de Filosofia Latino-Americana – “Cultura e resistência na América Latina” (08/05/2025). |
O evento introdutório da Liga combinou palestra sobre o Abril Indígena, apresentação da proposta da Liga e uma experiência cultural com degustação de prato típico peruano, visando divulgar o projeto e abrir a Liga a novos participantes. |
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Mural de homenagem ao Dia da Mulher Negra, Latino-americana e Caribenha. |
O mural celebrou essa data com cordéis sobre as trajetórias de mulheres negras latino-americanas e caribenhas. |
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Oficina: Moda educativa, ancestralidade e sustentabilidade (31/07/2025). |
A oficina integrou arte, reflexão sobre estética e cultura, e práticas de consciência ambiental; permitindo aos participantes confeccionar bolsas ecológicas personalizadas. |
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2° Curso Introdutório da Liga Acadêmica de Filosofia Latino-Americana – “Introdução à filosofia argentina” (15/08/2025). |
Atividade voltada à filosofia e cultura argentina, com foco no churrasco, combinando palestra, experiência prática de preparo e degustação, e interação cultural, visando abrir a Liga para novos membros e proporcionar aprendizagem sobre tradição e cultura. |
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Saúde mental e realidade latino-americana (de 05/09/2025 a 28/11/2025). |
Projeto de ensino voltado à reflexão sobre saúde mental no contexto escolar, abordando como fatores históricos, econômicos, sociais e culturais impactam o bem-estar dos estudantes e promovendo diálogo, acolhimento e protagonismo na construção de estratégias de cuidado. |
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Gincana: América Latina nas escolas (de 22/09/2025 a 09/10/2025). |
Atividade com objetivo duplo: conscientizar os participantes a respeito da importância dos jogos para o desenvolvimento e para uma vida saudável através da integração de aspectos pedagógicos, culturais e formativos da realidade histórico-social da América Latina e divulgar o Instituto Federal do Paraná junto à comunidade da cidade de Jacarezinho. |
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Novembro negro |
Conjunto de intervenções que tinham como objeto as lutas antirracistas. Foram desenvolvidas atividades de ensino e extensão centradas na cultura e no pensamento negro. |
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Minicurso: Filosofia da fome |
Neste minicurso foi desenvolvida uma abordagem filosófica crítica da fome na América Latina, dialogando especialmente com fontes brasileiras que trabalharam o tema, como Darcy Ribeiro, Josué de Castro, Maria Carolina de Jesus, Álvaro Vieira Pinto. Os participantes também puderam participar do preparo de salchipapas. |
Fonte: elaborado pelos autores.
Além dessas atividades, que têm um caráter sobretudo extensionista, a Liga, que por definição deve integrar atividades de ensino, pesquisa e extensão, se propôs a cumprir um calendário de atividades de ensino. Em junho de 2025, a primeira aula teve como título “Cultura colombiana e cultura brasileira”, e foi ministrada por uma das professoras substitutas do campus, natural da Colômbia. Seu objetivo foi relatar suas percepções a respeito do contraste entre a cultura de ambos os países. No segundo semestre, iniciando em agosto, a segunda aula foi ministrada no dia 22/08/2025 e teve como título “Introdução à filosofia latino-americana”. Nela, o professor coordenador teve como objetivos apresentar aos estudantes o conceito de filosofia e introduzir a história da filosofia latino-americana. A terceira aula, intitulada “Cabelo crespo na América Latina: uma abordagem crítica” ministrada pelo mesmo docente em 19/09/2025, teve como objetivo elaborar uma crítica filosófica do cabelo crespo na América Latina. Nos meses seguintes, a Liga teve dificuldades em manter seu calendário de ensino, o que deve ser elencado como um dos desafios do projeto.
Quanto às atividades de pesquisa, no decorrer do período contemplado por este relato de experiências, uma das participantes desenvolvia uma pesquisa com bolsa sobre um manuscrito inédito do filósofo brasileiro Álvaro Vieira Pinto, contudo foi percebida a necessidade de maior engajamento das demais participantes em atividades investigativas. Pensando nisso, e também considerando a importância de divulgação de conhecimentos filosóficos, foi proposto um projeto de extensão, vinculado à Liga, de produção de conteúdo para redes sociais tocando nos temas abrangidos pela filosofia latino-americana. A página da Liga Acadêmica de Filosofia Latino-Americana no Instagram[2], portanto, tornou-se um espaço que, além de divulgar algumas das atividades desenvolvidas no âmbito do projeto, serve para a difusão de conhecimentos relacionados à cultura, à realidade e à filosofia latino-americana.
Discussão
Um elemento filosófico importante para o funcionamento da Liga Acadêmica de Filosofia Latino-Americana é a categoria de exterioridade. Em nossa compreensão, elaborada a partir do pensamento de Enrique Dussel (2011), a exterioridade se refere à transcendentalidade interior ao sistema, isto é, às forças que lhe constituem e que detém o potencial de alterá-lo. Como se vê, seria equivocado conceber a exterioridade como se tratando de algo exterior ao sistema: ela se refere ao potencial de alteridade presente nele próprio. É necessário distinguir a modificação que incide tão somente na aparência de algo daquela alteração de sua essência. A alteração é uma forma de mudança qualitativa, que tende à transformação radical, enquanto a modificação pode ser uma atualização do Mesmo. Isto é, enquanto a modificação pode trazer a novidade sem que as estruturas fundamentais de um ser se modifiquem, realizando tão somente uma atualização ou desenrolar de potencialidades inerentes a esse ser; a alteração implica sua transformação em “outro”, dada a radicalidade do processo que elicia.
Outro aspecto relacionado ao conceito de exterioridade é sua referência ao polo dominado em uma relação de dominação. Partindo da definição da dominação como uma relação de poder em que o dominador recebe vantagens e benefícios em detrimento do outro (Costa, 2022), o próprio processo de libertação, uma vez que decorre necessariamente do protagonismo e da participação do dominado, significa ou implica, também necessariamente, uma alteração mais ou menos radical do sistema em consideração.
À luz dessa concepção, a relevância da exterioridade para o funcionamento Liga pode ser verificada em duas das posturas que caracterizam seu funcionamento: o protagonismo discente na tomada de decisão em relação à Liga e a relevância da exterioridade filosófica nos processos de ensino e pesquisa promovidos por ela. Quanto ao protagonismo discente, buscando inspiração também no pensamento de Enrique Dussel (2011; 2012) a respeito da pedagógica enquanto situação meta-física devotada, dentre outras questões, à reflexão sobre o processo educacional, a coordenação da Liga se propõe a não apenas escutar a voz discente, mas a estimulá-la. A dominação pedagógica se manifesta no sistema educacional em pelo menos três sentidos:
a) a subordinação do aluno em relação ao professor: Paulo Freire (2016) forneceu uma excelente descrição dessa que ele chamou de “educação bancária”. Nela, o docente é visto como o detentor do saber, aquele que transfere o conhecimento, enquanto o discente é visto como receptáculo passivo dele. Um dos pressupostos da pedagogia dominadora é o de que o discente não sabe nada, quando na realidade, sabe; enquanto toma o docente como aquele que detém todos os conhecimentos pedagógicos e disciplinares necessários para sua prática, quando na realidade tem muito a aprender, inclusive com os próprios discentes. Assim, temos a ponte para um outro sentido da dominação no sistema educacional;
b) a anulação ou depreciação do saber popular: este sentido se refere sobretudo à concepção do discente como privado de conhecimento[3]. Ora, se ele é visto como alguém que não sabe, então os conhecimentos, por vezes ancestrais e milenares, que ele leva consigo à escola ou mesmo os conhecimentos e saberes que ele produziu no decorrer de sua história de vida, todos esses conhecimentos são reduzidos ao nada, ao não-ser. A escola não deve abdicar de seu papel social de transmissora do conhecimento científico, contudo ele e o conhecimento do discente devem confluir, e não se sobrepor suprimindo nem anular um ao outro;
c) o silenciamento ou a exclusão da exterioridade filosófica: ligado ao sentido anterior, a dominação pedagógica afeta não apenas os discentes, mas também filósofos e filósofas que constituem a exterioridade no plano da história da filosofia e que são ou silenciados ou excluídos pelas forças hegemônicas. Pedagogicamente isso significa sua ausência em livros didáticos, planos de ensino, aulas e avaliações; além de sua exclusão em linhas de pesquisa, em fontes de financiamento.
À luz dessa concepção multifacetada de dominação pedagógica, a coordenação da Liga se propõe a, junto aos outros participantes do projeto, promover um processo de libertação pedagógica. Tal como evidenciado por Mance (2022, p. 38 e segs.), que destrinchando o pensamento freiriano, ninguém liberta ninguém e ninguém se liberta sozinho: os seres humanos se libertam juntos e em comunhão. À luz desta tese, a libertação da exterioridade pedagógica não ocorre como uma dádiva do corpo docente e tampouco ocorre sem seu envolvimento: ela é uma obra da comunhão alteradora do sistema atual e criadora de outro sistema, livre das opressões que caracterizam aquele. Seja através do incentivo à proposição de atividades e de escolha em conjunto de seu conteúdo, através do protagonismo discente no cotidiano da Liga, seja através do planejamento de seu futuro: a liberdade da ação discente é elemento essencial para o funcionamento do projeto.
Por outro lado, quanto à segunda postura que indica a relevância da exterioridade para a Liga, aquilo que chamamos de exterioridade filosófica, que foi aludida acima, tem papel essencial em seus processos de ensino e de pesquisa. Adotamos uma perspectiva que defende a importância de revisão da história da filosofia a partir da crítica à dominação epistemológica, o que corresponde, em outras palavras, à valorização da exterioridade. Por sua vez, a valorização da exterioridade filosófica corresponde linhas gerais à crítica daquilo que Julio Cabrera (2014) chama de Acervo T. Segundo o autor, trata-se de um conjunto de convicções inabaláveis da comunidade filosófica brasileira, embora possa ser estendida a boa parcela da comunidade internacional. Essas convicções são afirmadas dogmaticamente e negam ou subalternizam a produção filosófica dos países do Sul Global e de mulheres. No caso brasileiro em particular, há uma tentativa de silenciamento e desqualificação da obra de filósofos e filósofas não apenas vinculados aos espaços universitários, mas também daqueles e daquelas que não recebem o excelso convite de participação no banquete universitário, como filósofos indígenas ou filósofos e filósofas negros e quilombolas.
Muito embora tal quadro esteja em caloroso e conflituoso processo de alteração, ainda assim, é lícito afirmar que persiste uma visão hegemônica de depreciação do valor das contribuições filosóficas da exterioridade. Ao lado de uma história da filosofia hegemônica, existe uma história da filosofia periférica, subalternizada, da exterioridade. Ao lado dos filósofos evidenciados pelo currículo eurocêntrico, existem aqueles e aquelas que foram ocultados e excluídos por ele. A Liga Acadêmica de Filosofia Latino-Americana, evidenciando sobretudo o panorama histórico e contemporâneo de Nossa América, se propõe a aprender com essas vozes.
Outra categoria filosófica importante para o funcionamento da Liga é a de liberdade, conforme concebida por Álvaro Vieira Pinto (2020a). O autor concebe a liberdade não como uma faculdade do ser humano, mas como uma característica de suas ações. Não como um problema metafísico, mas histórico e sociológico. Não como uma experiência individual, mas coletiva. A liberdade não consiste em escolher, mas em ter escolhido. Nós exercemos a liberdade a todo momento em que nossa ação for conveniente para atingirmos um grau superior de existência, livre das opressões que tangem nosso ser.
Por fim, a última categoria que evidenciaremos neste texto é a de amefricanidade, proposta por Lélia Gonzalez (2020). Tal como propõe a autora, a amefricanidade integra as lutas das populações negras e afrodescendentes não apenas do Brasil, mas das Américas em geral. Ela propõe que concebamos nosso continente não a partir de uma apropriação irrefletida do legado do colonizador, mas como um projeto de libertação correspondente às características da formação histórica de nossos povos: considerando a relevância e a difusão da matriz africana na formação dos povos latino-americanos, nada mais justo que reconhecê-la, valorizando-a em suas manifestações, que vão desde o pretuguês, que se refere ao modo como a língua portuguesa foi alterada pelas línguas de origem africanas; até a noção de Améfrica Ladina, que realça a relevância da matriz negra para nossos povos.
As intervenções da Liga geralmente são acompanhadas de decorações temáticas que visam enriquecer esteticamente a experiência dos participantes, bem como apresentar a estética latino-americana em sua diversidade. A decoração de ambientes, especialmente quando envolve relembrar ou homenagear algo, é uma forma eficaz de chamar a atenção dos participantes. Por meio dela, é possível transmitir sensorialmente aspectos essenciais daquilo que se deseja valorizar, criando uma atmosfera que não apenas embeleza o espaço, mas também evoca memórias, sentimentos e significados específicos.
Existem diversas versões de murais (interativos, decorativos, artísticos, entre outros) e a escolha de cada um é fundamental para que a mensagem seja transmitida de forma adequada. Optamos por murais informativos, para possibilitar que os estudantes conhecessem as histórias de personalidades negras latino-americanas e caribenhas importantes.
Durante esse percurso inicial, foram observados tanto avanços quanto obstáculos. A Batalha de Poesias e o projeto Saúde mental e realidade latino-americana, apesar de divulgados com antecedência, tiveram baixa adesão, o que apontou para dificuldades na mobilização e no engajamento estudantil em eventos extracurriculares, sobretudo no contraturno. Muito embora certas atividades podem ocorrer durante o horário letivo, a maior parte do funcionamento das ligas acadêmicas ocorre no contraturno, o que se coloca como um dos principais desafios para o projeto.
Dentre as razões identificadas para essa baixa adesão, destaca-se o fato de que a maioria dos estudantes matriculados no campus moram em cidades vizinhas, dependendo, portanto, do transporte escolar – pago por suas próprias famílias – para ir e vir à instituição. Tal fato limita muito, quando não impossibilita, sua permanência no contraturno e, consequentemente, sua participação em atividades presenciais. Por outro lado, muitos dos estudantes do campus trabalham, o que restringe ainda mais a possibilidade de participação do corpo discente em atividades extracurriculares. Por fim, muito embora existam estudantes da própria cidade em que está localizada a instituição interessados em participar não apenas das atividades propostas pela Liga, mas de outros projetos ali desenvolvidos, vale ressaltar e lamentar o fato de que o campus não possui cantina, restaurante estudantil ou algo parecido. Ela possui, pois, tão somente uma lanchonete com preços impraticáveis para uma proporção dos estudantes cuja magnitude não nos atreveríamos a estimar. Consequentemente, nos resta afirmar que muitos estudantes, por falta de recursos, por vezes básicos como alimentação ou transporte, se veem impossibilitados ou desencorajados de participar de tais ações presenciais no campus.
Se outrora Álvaro Vieira Pinto afirmou que tudo é subdesenvolvido no país subdesenvolvido (2020b), ainda que quase 60 anos de processo histórico nos separem do momento em que foi enunciada originalmente esta proposição, não deixa de causar espanto o fato de que um[4] dos campi dos Institutos Federais, uma rede de instituições de excelência na formação profissional e tecnológica, não tenha restaurante universitário oferecendo comida gratuita e de qualidade. Longe de nós menosprezar os avanços na educação brasileira, mas é dever de uma política humanizadora garantir a alimentação dos estudantes. Eis uma das principais tarefas para o desenvolvimento da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica. Tarefa que corresponde ao desenvolvimento da própria nação brasileira, pois garante a melhoria das condições de existência dos quase dois milhões de estudantes matriculados na Rede atualmente.
Os eventos introdutórios e atividades ocorridas no turno letivo demonstraram maior adesão dos estudantes, o que evidencia que o trabalho de divulgação e sensibilização começa a gerar resultados. O interesse crescente indica que, com uma abordagem acessível, culturalmente relevante e sensível às realidades locais, é possível ampliar a participação estudantil nas ações da Liga.
Como perspectivas futuras, almejamos a consolidação da Liga como um espaço permanente de formação e integração de práticas pedagógicas, ações culturais e debates sociais com enfoque interdisciplinar. Também visamos a consolidação de espaços permanentes e cumulativos de ensino, pesquisa e extensão. Ao invés de ações desconectadas, visamos construir um pensamento integrado e que interaja com os esforços anteriores desenvolvidos no âmbito do projeto.
Considerações Finais
A criação da Liga Acadêmica de Filosofia Latino-Americana representa um esforço inovador de aproximar os estudantes do Ensino Médio Integrado de discussões em torno de temas sugeridos pela filosofia e pela realidade latino-americana. Através de uma metodologia talvez inédita neste contexto, temos realizado um trabalho que merece ser melhor investigado e com uma rica potencialidade de contribuição na formação discente.
Algo digno de nota, é que a Liga reflete em suas ações alguns dos caracteres da filosofia brasileira quando comparada com a filosofia latino-americana: aqui a influência da matriz africana na formação da cultura e, por conseguinte, da filosofia, é muito maior do que parece ser nos outros países da América Latina. Não que neles ela não esteja presente, mas que aqui ela se faz mais forte, a ponto de não por acaso Daniel Pansarelli afirmar que “é notória a força da recente influência que o pensamento africano e africano-brasileiro tem exercido sobre a filosofia da libertação produzida no Brasil” (2024, p. 149). Acrescentaríamos que não apenas em relação à filosofia da libertação em sentido estrito, mas à filosofia em geral: a filosofia africana e afrobrasileira são duas matrizes importantes do filosofar em nosso país, portanto têm papel de destaque na forma como compreendemos a filosofia latino-americana e como a própria filosofia brasileira deveria ser compreendida ou autocompreendida.
Percebe-se que além do acesso a conteúdos relacionados à história da filosofia da América Latina e à realidade latino-americana em geral, a participação de um discente em ligas pode gerar o desenvolvimento de habilidades e competências como pensamento crítico, análise reflexiva, capacidade de argumentação, trabalho em equipe, comunicação oral e escrita, organização de projetos e eventos, além de iniciativa e liderança. Dessa forma, trata-se de um tipo de projeto que contribui não apenas para a formação acadêmica, mas também para o crescimento pessoal, profissional e político dos estudantes.
Apesar dos desafios enfrentados, relacionados à logística, à infraestrutura da instituição e ao engajamento discente, as experiências iniciais da Liga Acadêmica de Filosofia Latino-Americana indicam um caminho promissor. Ela pretende continuar na promoção de eventos e atividades que funcionem como espaços de diálogo, reflexão e produção de conhecimento crítico e coletivo, sempre com abertura à diversidade de vozes e experiências que compõem a juventude latino-americana.
Concluímos destacando que o ensino de filosofia tem muito a se beneficiar da utilização das ligas acadêmicas, que inclusive podem e devem abrir-se a outras temáticas, devido a seu potencial na formação integral discente.
Referências
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SE liga no crespo. Direção: Welk Daniel. Produção: Welk Daniel. Jacarezinho, PR, 2025. Mídia digital.
VIEIRA PINTO, Álvaro. Consciência e realidade nacional. Obra publicada originalmente em 1960. Rio de Janeiro: Contraponto, 2020a.
VIEIRA PINTO, Álvaro. Ciência e existência. Obra publicada originalmente em 1969. Rio de Janeiro: Contraponto, 2020b.
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Notas
[1] Nas redes sociais, essas ligas podem ser encontradas através de, respectivamente, os seguintes usuários: @licardio_famerp, @laohufmg e @lamia.ufpe.
[2] O usuário é @lafilolatam.
[3] Não é muito difícil encontrar quem remonte, erroneamente, a etimologia de aluno à noção de privado de luz (a-lumnis). Entretanto, trata-se de um equívoco, tal como é possível verificar em Bueno (1963, p. 189) e Magne (1952, p. 234).
[4] Sim, meu caro leitor e minha cara leitora: apenas um.