Licenciandos em Filosofia: formação como poíesis
Philosophy undergraduates: education as poíesis
Angela
Zamora Guimaraes Cilento
Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo – SP, Brasil.
Recebido em 22 de dezembro de 2025
Aprovado em 01 de fevereiro de 2026
Publicado em 24 de fevereiro de 2026
RESUMO
Em 2024, o Conselho Nacional de Educação (CNE) publicou a Resolução CNE/CP nº 4/2024 que trata das DCNS das Licenciaturas, promovendo uma reestruturação dos Cursos, bem como a inauguração da prova prática no ENADE. O ponto focal da nossa pesquisa não diz respeito diretamente à estas mudanças, nem aos desmontes provocados pela Reforma do Ensino Médio. Mas ao contemplarmos este cenário, nos colocamos diante de questões emergentes: como oferecer aos Licenciandos dos Cursos de Filosofia, uma formação sólida dos conteúdos específicos e sua transposição enquanto domínio pedagógico do conteúdo? É neste momento que nos aventuramos a pensar à luz da filosofia aristotélica sobre a fundamentação metodológica do ensino de filosofia e de suas práticas como “poíesis” (ποίησις). Tal aventura nos brindou com o encontro de vertentes imprescindíveis para a formação dos Licenciandos de Filosofia em especial. Destacamos: poíesis como autoprodução; poíesis como efeito, isto é, como algo que é produzido, fabricado pelo agente e por fim, na relação intrínseca entre a produção de algo e autoprodução do agente.
Palavras-chave: Filosofia Aristotélica; Formação; Poíesis; Metodologias e Práticas de Ensino em Filosofia.
ABSTRACT
In 2024, the National Education Council (CNE) published Resolution CNE/CP No. 4/2024, which addresses the National Curriculum Guidelines for Teacher Training Programs, promoting a restructuring of the courses, as well as the introduction of the practical exam in the ENADE (National Student Performance Exam). The focal point of our research does not directly concern these changes, nor the dismantling caused by the High School Reform. However, when contemplating this scenario, we are faced with emerging questions: how to offer Philosophy undergraduates a solid foundation in specific content and its transposition as a pedagogical domain of content? It is at this moment that we venture to think, in the light of Aristotelian philosophy, about the methodological foundation of teaching philosophy and its practices as "poíesis" (ποίησις). This adventure has provided us with the encounter of essential aspects for the training of philosophy undergraduates in particular. We highlight: poiesis as self-production; poiesis as effect, that is, as something that is produced, manufactured by the agent; and finally, in the intrinsic relationship between the production of something and the self-production of the agent.
Keywords: Aristotelian Philosophy; Formation; Poíesis; Methodologies and teaching practices in Philosophy.
Introdução
Quando Felipe da Macedônia invadiu o território grego e o dominou, estabeleceu-se com toda a sua corte em Atenas, com a finalidade de manter sua conquista. Dentre os membros da corte, o médico da família, Nicômacos. Seu filho, Aristóteles, posteriormente, aos 17 anos, será encaminhado à Academia de Platão. Por mais de 20 anos, Aristóteles foi um dos alunos mais brilhantes de Platão e teria ocupado seu lugar quando da sua morte. Decepcionado com a escolha de Espeusipo, sobrinho do mestre, por volta de 347 a.C., o estagirita se desliga da Academia e funda sua própria escola, o Liceu.
Diferentemente do seu mestre, Platão, Aristóteles herda o espírito investigativo do pai. Sua paixão por biologia o leva a classificar as espécies, sendo considerado o primeiro biólogo da Europa. É justamente este espírito investigativo que imputa às suas obras priorizando a empiria (a experiência) para elaborar sua teoria do conhecimento: não é a alma que se recorda do que vivenciou no mundo das ideias. O conhecimento advém de uma aprendizagem que se solidifica a partir deste mundo e desta vida. Para ele, o conhecimento se dá a partir da observação, dos sentidos.
Aristóteles morre com mais de 80 anos e praticamente todas as grandes questões do mundo não foram subtraídas de suas mãos. Escreveu sobre física, biologia, ética, política e estética, elaborando teorias que permaneceram e atravessaram a história. Certamente, várias desconstruídas, como a concepção de sua teoria geocêntrica calcada em Ptolomeu, outras ainda são objeto de reflexão. Estas se tornaram elementos fundantes para todo o diálogo estabelecido com todas as gerações de filósofos posteriores.
Para o nosso trabalho, pretendemos resgatar de Aristóteles o conceito de poíesis que se configura como um grande guarda-chuva, abrigando ideias-chave que nos servirão de subsídio para pensarmos os processos de formação dos licenciandos em filosofia, enquanto homens, cidadãos e como futuros docentes. São elas: poíesis como autoprodução; poíesis como efeito, isto é, como algo que é produzido, fabricado pelo agente e por fim, nos deteremos na relação intrínseca entre a produção de algo e autoprodução do agente.
1. TEORIA, PRÁXIS E POÍESIS EM ARISTÓTELES
Não é nosso objetivo neste trabalho explorar de modo exaustivo, toda a fundamentação teórica da filosofia aristotélica que requer profunda erudição. Antes, nos propomos, em primeiro lugar, explicitar algumas ideias que nos permitirão desenvolver o conceito de poíesis e, depois sua transposição para a educação.
Como afirmamos na introdução, Aristóteles toma a física e a biologia como pontos de observação e de reflexão para tratar de assuntos cada vez mais complexos. Neste sentido, o pensador parte da natureza, phýsis: “a natureza é impulso endógeno, crescimento espontâneo – em uma palavra, movimento.” (Valle, 2014, p. 264). Recusando a tradição eleata que afirma que não existe o movimento, Aristóteles entende que há seres naturais e artificiais: os primeiros são capazes de mudança (metábole) “em qualquer das acepções em que ela ocorre: como movimento local, como mero deslocamento (phorá), como ciclo incoercível de crescimento (aúxesis) e declínio (phthísis), de geração (génesis) e de corrupção (phthorá); ou como modificação quantitativa (alloíosis)” (Valle, 2014, p.264); enquanto os segundos, são inertes e só apresentam um movimento quando provocados por um agente.
Em se tratando do homem, não é possível afirmar que ele seja apenas mais um entre os seres da natureza, que seus movimentos e ações sejam dispostos seguindo apenas o movimento ‘natural’ de todos os outros animais. O homem, dotado de psiqué, é um ser singular, uma presença – é um tipo especial de vivente, capaz de aprender, de conhecer e de criar. Em outros termos, é capaz de se autoproduzir.
Podemos perceber em Aristóteles, algumas ideias que encontramos em Demócrito. Há uma relação entre a atividade humana e a natureza, enquanto processo de autoprodução do homem. Demócrito afirma que “a natureza e a educação são algo semelhante, pois a educação transforma (metarysmoi) o homem e o transformando lhe constitui a natureza (metarysmousa de physiopoiei)” (Mariz apud Clemente de Alexandria, 2014, p.91). Neste sentido, é o próprio homem, por meio da educação, que produz a si mesmo e transforma a natureza de certo modo. Isto se deve ao fato do homem ser “dotado de percepção e memória, é capaz de conhecer, o que lhe permite aprender e adquirir, assim, a experiência e, através dela, a arte e a ciência.” (Mariz apud Aristóteles, 2014, p. 94)
Na psicologia aristotélica, a alma é a substância do corpo, causa de todo o seu movimento, garantindo um “sólido sustentáculo para as atividades espirituais e, portanto, para os valores produzidos por tais atividades.” (Abbagnano, 1982, p.26). Ou seja, a alma não é só a premissa para a existência do homem, enquanto homem – um ser que é capaz de deliberar. Sem a presença da alma, não existiria nem o corpo, pois é ela quem permite o movimento e, primeiro, o constitui enquanto tal: “a alma é a atividade de um corpo determinado, isto é, a realização da potência própria deste corpo: de onde se pode dizer que ela não existe nem sem o corpo nem como corpo” (Abbagnano apud Aristóteles, 1985, p. 26).
A alma humana abriga três partes: a vegetativa, cuja característica principal é a nutrição e reprodução (diferencial da vida e da planta) – “é a primeira e a mais comum faculdade da alma, por meio da qual possuem a vida todos (os viventes). (...) É esta faculdade pode existir separada de todas as outras, mas, em compensação, as outras não podem, sem ela existir nos mortais”. (Mondolfo apud Aristóteles, 1973, p.50); a alma sensitiva, que pertence ao animal e é dotada de sensibilidade e da capacidade de locomoção. Na alma sensitiva, encontraremos os cinco sentidos. Contudo, cada espécie é contemplada com um modo específico de usar os sentidos.
Por fim, a alma racional, característica do homem que pode ser traduzida como pensamento. Esta, por sua vez, recebe uma nova divisão – uma parte é dotada de racionalidade e a outra, privada de razão – a apetitiva ou prática que lida com desejos e impulsos que, embora não sejam racionais em si mesmos, podem ser influenciados e orientados pela razão por meio do equilíbrio e moderação. São naturais a busca pelo prazer e a aversão à dor, mas é por meio da razão que os excessos podem ser evitados. Portanto, o homem é capaz de direcionar o desejo para ações virtuosas.
Na parte racional da alma Aristóteles compreende uma nova divisão – a alma científica: parte contempla os “princípios imutáveis ou daquilo que não pode ser de outra maneira (Αἱ ἀΡΧΑὶ µὴ ἐΝΔέΧΟΝΤΑΙ ἄΛΛΩ ἔΧEΙΝ) e a alma calculadora, que contempla os princípios que podem ser de outra maneira (ἓΝ Δέ ᾧ Τὰ ἐΝΔEΧόµEΝΑ)”. (Colonelli, 2009, p.17; Penna, 2017, p.67).
No mundo sublunar que se encontra sob o império do devir, esta parte da alma se dispõe a resolver os problemas, aquela que procura dentre as alternativas possíveis, a melhor solução. Ou seja, diz respeito à capacidade da alma de deliberar. É justamente sobre esta parte da alma – a calculadora, que vamos nos deter para delinearmos o conceito de poíesis. Ora, diante das questões que se impõem ao homem cotidianamente, ele procura encontrar um princípio racional para que possa identificá-las, ordená-las e resolvê-las. Ao deliberar sobre todas as alternativas possíveis, o intelecto prático e o produtivo se põem em ação.
Portanto, o homem é capaz de elaborar teorias que tratam sobre aquilo que é imutável e eterno; e sobre práticas (práxis) e poíesis. As práticas (práxis) envolvem as ações humanas que devem ser orientadas para o bem e para o exercício da virtude e que estão diretamente relacionadas à vida em comunidade, posto que os homens participam ativamente do destino da cidade através de suas ações. A práxis concerne diretamente a ética e a política. “A ação (práxis) é uma atividade imanente ao agente a qual tem o seu fim em si mesma e pertence ao domínio político.” (Mariz apud Aristóteles, 2014, p.93)
Por seu turno, o conceito de poíesis abriga duas ideias fundamentais: a primeira concerne ao espírito humano, pois o homem é capaz de produzir cultura, tornando-se um agente – ao produzir bens materiais, intervém na natureza, bem como produz bens imateriais. Portanto, ele é criador da cultura. Ao mesmo tempo que ele produz estas coisas, também se autoproduz – o homem, portanto, é também o agente de si mesmo. “Quem raciocina a fim de produzir ou agir raciocina sobre movimentos que ele mesmo deve fazer para que venha a ser o ato ou o produto.” (Mariz apud Aristóteles, 2014, p.96). Destarte, o conceito de poíesis está diretamente ligado à ideia da produção de um efeito.
A produção (POÍESIS) é uma atividade transitiva que visa a um fim exterior a ela mesma e é, portanto, própria ao domínio da arte (téchne); estende a toda relação onde um agente é requisitado para desencadear um processo cujo desfecho é natural ou não-natural. (Mariz, 2014, p.93).
Em outros termos, podemos dizer que o conceito de poíesis envolve uma potencialidade e uma arte – a de criar, de fabricar alguma coisa (techné) – um instrumento, uma ferramenta, um navio, bem como a arte de transformar-se a si mesmo. E aqui podemos revelar a grandiosidade de Aristóteles quando pensa sobre a complexidade das ações humanas que não podem, de modo algum, ser tratada de modo segmentado. A classificação estanque das ações se mostra insuficiente para analisarmos a formação dos homens, sendo, portanto, imprescindível o tratamento particular, ou seja, a análise de caso a caso. (Valle, 2014)
1.2 – DELIMITANDO O CONCEITO DE POÍESIS
Ora, se o homem tem a capacidade de contemplar aquilo que é eterno e imutável, já que é portador da alma científica/contemplativa que compreende aquilo que é eterno e imutável, o que corresponde às coisas ligadas ao mundo supralunar, não é menor sua capacidade para resolver os problemas da vida cotidiana que pertencem àquilo que é variável e contingente. Como o mundo sublunar, não é preenchido pelo éter: tudo se encontra sob o império do devir, torna-se necessário desenvolver o raciocínio produtivo e o raciocínio prático:
O homem desenvolve o raciocínio produtivo e o raciocínio prático, por pertencerem ao domínio do devir, dizem respeito às realidades particulares do mundo sublunar que estão circunscritas num determinado momento e ligadas a um fim utilitário. (Mariz, 2014)
No que tange ao conceito de poíesis, iremos nos concentrar em três pontos. O primeiro ponto - o homem, portanto, compreende que há muitos modos de se fazer alguma coisa. E é justamente esta ideia que nos permitirá, adiante, transpormos este conceito para a educação. É capaz de se autoproduzir, porque é um agente, mas enquanto isso também produz alguma coisa e interferindo de algum modo na natureza, nosso segundo ponto. Naquilo que concerne à sua autoprodução, podemos dizer que o homem precisou aprender com alguém. De certo modo, é herdeiro da cultura da qual faz parte. Por outro, ele também é criador dela. Todas as coisas que sabe, aprendeu com alguém, porém, é pelo exercício, pelo hábito que alcança a excelência naquilo que faz.
É preciso fazer (poiein) as coisas para aprender, pois é fazendo essas coisas (tauta poiountes) que se aprende; por exemplo, construindo casas tornam-se arquitetos e tocando cítara tornam-se citaristas. Da mesma forma, das ações justas vêm a ser justos, das ações temperantes vêm a ser temperantes, das ações corajosas vêm a ser corajosos. (Mariz, 2014, p.96; Aristóteles, 2001)
Desta forma, para o Estagirita, sem exercício (sua prática tornada hábito) não há arte, nem técnica. Não se pode construir uma casa, nem se aprende a tocar uma cítara sem praticar. Ele aprende praticando. Este saber se desenvolve à medida que o homem consegue racionalizar os problemas e busca os melhores meios para resolvê-los. “A produção e a ação envolvem, para se desenvolverem de forma excelente, um estado habitual em conformidade com a razão.” (Mariz, 2014, p.96; Aristóteles, 2001) (ARISTÓTELES, (cf. EN VI, 4, 1140a 3-5).
O quarto ponto enfatiza que o homem desenvolve os raciocínios prático e produtivo com a finalidade de resolver problemas. A estes raciocínios estão ligados os conceitos de ação (práxis) e produção (poíesis). Discussão que realizaremos a seguir.
Para muitos comentadores, a diferença fundamental entre práxis e poíesis incide na presença do bem na filosofia aristotélica, ou seja, o conceito de práxis (ação) está relacionado ao caráter do agente e se ele, em sua deliberação, se dispõe no mundo de maneira virtuosa ou viciosa. A práxis, portanto, corresponde aos campos da ética e da política. Como toda a ação produz um efeito, cria-se uma correspondência indelével entre o caráter do agente e seu produto, a ação. Contudo, o conceito de poíesis não se firma no caráter do agente – se este age de modo virtuoso ou não, antes está centrado na produção. Embora se busque pela ação sempre virtuosa, o conceito de poíesis se delimita, em primeiro lugar, na deliberação do agente no processo de produção, ou seja, incide nas análises que o agente realiza sobre as alternativas e os melhores meios para resolver um problema. Então, se suas deliberações o levaram à uma ação bem-sucedida (eupraxia) e se seus raciocínios foram bem executados, atinge a excelência. Nesse sentido, encontraremos em todas as profissões, os excelentes.
A poíesis, em segundo lugar, se refere a uma ação que gera algo outro além da atividade do agente, gera algum produto diferente dele mesmo – isto é, a mesa; a casa; a música e a aula são produções do marceneiro, do mestre de obras, do citarista e do professor.
Em terceiro lugar, este movimento cria uma relação intrínseca entre a produção de algo e a autoprodução do agente, como também um efeito de sua própria ação no mundo como ser. No que concerne a este último desdobramento, afirma Mariz que existe uma dimensão poiética subjacente à ação virtuosa – não se trata de algo meramente acidental. Ela explica que Aristóteles utiliza o verbo poien, mesmo em se tratando de política, pois o que se pretende fabricar, produzir, em última instância, é a produção de “bons cidadãos, cidadãos obedientes às leis e capazes de agir (pratein)” (Mariz apud Aristóteles, 2014, p.98). O que está em jogo no uso dos conceitos práxis e poíesis é a formação do próprio homem.
1.3 O QUE PODEMOS INFERIR E ACRESCENTAR SOBRE A DOCÊNCIA COMO POÍESIS?
Diante das frequentes instabilidades no Brasil e no cenário internacional, o que podemos observar é uma situação bastante desoladora. Entre tantos pontos que poderíamos levantar para traduzirmos tal cenário, queremos destacar o crescente fascínio pelas tecnologias e redes sociais: o que prevalece são os números de curtidas de conteúdos superficiais, vis e medíocres produzidos por blogueiros sem formação, além de fake news. Para grande parte dos jovens que hoje se assentam nas salas de aula da educação básica deste imenso território continental, não é preciso estudar para obter estabilidade financeira; seus sonhos e projetos não passam mais pela progressão de uma carreira que se constrói paulatinamente e com muito esforço. Este jovem está sendo levado a acreditar que as leis trabalhistas são desnecessárias porque tem absorvido progressivamente os ideais do neoliberalismo. O termo “empreendedor” acaba sendo adotado sem qualquer investigação a respeito, pois o que visualiza nas redes sociais são as grandes mudanças advindas da monetização por elas oferecida. Outro aspecto importante a destacar é que, há bastante tempo, as famílias têm deixado de ser uma parte fundamental na parceria com a escola na educação dos seus filhos. Em vez de apoiarem e orientarem as crianças quando o professor faz alguma observação, muitas vezes preferem criticar ou atacar o profissional.
Também não podemos negligenciar que em tempos de Reforma do Ensino Médio e BNCC, com a adoção de um material didático precário em alguns Estados, o estatuto e o valor da filosofia na sala de aula têm sido progressivamente depreciados. Nos cabe perguntar: - Será que a escola da forma como vem sendo configurada não tem se tornado nada mais do que mera reprodutora do status quo? Se houver algum diferencial no processo formativo dos estudantes da educação básica, este papel cabe ao professor.
Sabemos que a figura do professor é central para uma mudança significativa na sociedade e as políticas públicas recentemente publicadas evidenciam a relevância deste processo – as Diretrizes Curriculares Nacionais, as DCNs das Licenciaturas (Resolução CNE/CP nº 4, DE 29 DE MAIO DE 2024); o marco regulatório do EAD (Decreto nº 12.456/2025) e as próprias mudanças no Enade, com exame anual e aplicação da prova prática (Edital Inep nº 124, DE 20 DE JULHO DE 2024).
O professor de filosofia pode contribuir significativa e qualitativamente para os processos de subjetivação dos jovens e adolescentes da educação básica, mesmo tendo uma carga horária reduzida. Se o cerne do diferencial da formação destes jovens está centrado na figura do professor – ele não tem tempo a perder: o tempo de que dispõe não pode ser desperdiçado com aulas sem planejamento, sem seleção prévia e cuidadosa do conteúdo e da metodologia.
Portanto, nossa atenção, enquanto docentes dos Cursos de Licenciatura, deve estar voltada à formação inicial do futuro professor e, se possível, o acompanhamento dos seus primeiros anos de atuação no ofício.
Ao mergulharmos na fundamentação teórica proporcionada pela filosofia aristotélica, resgatamos alguns elementos que, necessariamente, devem persistir nos currículos dos Cursos de Licenciatura, considerando o impacto social que a profissão impõe em seus efeitos quase exponenciais. Contudo, estes elementos não podem ser considerados de maneira estanque, formam intersecções que atravessam a educação do homem e do cidadão.
Ora, para Aristóteles, o homem só se realiza enquanto tal, por meio da educação. Sendo assim, o homem enquanto animal social só se realiza plenamente quando participa ativamente da comunidade política (pólis), por meio de suas ações (praxeis) que devem ser direcionadas para o bem e para a virtude, porque é capaz de deliberar. Estas ações devem ser permeadas por uma educação virtuosa, constituindo-se como hábito.
Desta forma, podemos inferir que o aluno só aprenderá a deliberar virtuosamente, se receber uma educação de qualidade que lhe permita apropriar-se de certos valores. Este processo é contínuo, cotidiano e se realiza mediante cada decisão tomada ao longo de cada dia da sua existência. Ao agir, intervém na natureza e, concomitantemente, altera a si mesmo, se autoproduz. A natureza do homem é tornar-se homem: um ser de cultura que produz bens materiais e imateriais. O homem é natureza, mas cria para si um outro mundo, uma segunda natureza.
Este processo de autoprodução, só se torna possível porque é capaz de conhecer, podendo chegar a alçar a arte e a ciência. Vimos que, porque possui uma alma racional, o homem pode deliberar: calculando, medindo e explorando as alternativas de coisas que podem ser de outra maneira. Deste modo, aprende, com o tempo, pela experiência a resolver os problemas que se encontram no mundo. Como se move no mundo, suas ações podem ser virtuosas ou não, o que nos direciona ao conceito de práxis.
Tratamos, ainda que brevemente, de que há uma dimensão poiética subjacente à ação virtuosa, pois de cada ação decorrem múltiplos efeitos - tanto o homem produz a si mesmo quanto pode gerar produtos: o marceneiro, a mesa; o engenheiro, a casa; o citarista, a música e o professor, a aula. A poíesis também diz respeito a uma ação que gera algo outro, refere-se à “fabricação”, tanto na produção de alguma coisa, quanto na interferência que realiza em si próprio como agente, e no efeito que tal ação provocou nos outros homens.
Ora, mas a docência também não é exatamente isso? Ao planejarmos e ministrarmos uma aula, não estamos apenas nos autoproduzindo. Em primeiro lugar, ‘fabricamos’ algo concreto: o plano de aula, a sequência didática, o plano de ensino, etc. Em segundo, a aula que ministramos, embora a produzamos, não é nossa: é algo que acontece em conjunto com nossos alunos e não poderá jamais ser repetida de modo idêntico.
Experiência que provoca, no mínimo, dois efeitos: tanto em nós, que ensinamos, quanto em nossos alunos. Tal ‘fabricação’ nos potencializa: aprimoramos nosso fazer quando em ação, em busca da excelência, por força do hábito. No entanto, em nossa profissão, a excelência não é um patamar que se alcança definitivamente, antes é algo que se renova e se reconstrói diariamente por meio da reflexão, quando nos debruçamos sobre o dia que se passou e deliberamos se, dentre tantas possibilidades, as nossas escolhas foram efetivamente as melhores. A autoprodução traz à tona as marcas de nossa subjetividade e de nossa visão de mundo.
Diante das considerações realizadas e do espaço proposto para este artigo, limitamo-nos a quatro tópicos, que poderiam ainda ser desdobrados:
1.Ao criarmos as correspondências entre o conceito de poíesis e o de formação do futuro docente nos Cursos de Licenciatura, estamos a promover uma fundamentação sólida para que nossos alunos venham a ter as condições de possibilidade para sua própria autoprodução?
A aproximação entre o conceito de poíesis e a formação inicial nos cursos de licenciatura constitui uma base teórica que possibilita aos futuros docentes desenvolverem condições de autoprodução profissional. Tal processo formativo, análogo ao percurso de outras práticas artesanais ou técnicas, apoia-se em experiências mediadas por formadores e se estrutura por oportunidades que se iniciam na graduação, como a apropriação progressiva dos conteúdos específicos, sua transposição didática, os estágios supervisionados e a participação em programas institucionais, a exemplo do PIBID. Esses elementos integram um repertório que permite ao licenciando constituir sua prática pedagógica, forjar sua identidade docente e intervir nos processos de subjetivação de seus futuros alunos.
2.O segundo ponto diz respeito ao próprio conceito de poíesis – enquanto fabricação. Vimos em Aristóteles que há várias maneiras de se fazer alguma coisa, pois o homem se depara, no mundo sublunar, com problemas que deve resolver. Ora, as realidades com as quais estes licenciandos irão se deparar no exercício de sua atuação dificilmente serão contempladas em sua complexidade por qualquer teoria, posto que se encontram na dimensão do singular – com suas determinadas configurações de força, de afetos e de outras variáveis que devem ser consideradas – não poderá ser emoldurada em toda sua extensão e verticalidade por qualquer teoria. Ora, se a formação do licenciado tiver sido adequada, o que requer ter se tornado sensível ao ‘chão da escola’, se apropriado do conteúdo específico, de diferentes práticas e metodologias de ensino, apostando em sua criatividade, poderá criar “um caminho que é exclusivamente seu”, sem receituário e sem garantias de sucesso. Porém, se o licenciando tiver se apropriado destes elementos ao longo de sua graduação, terá plenas condições de diagnosticar, avaliar e selecionar conteúdos, contemplar as condições e possibilidades e, de modo subjetivo, os selecionará, colocará em prática, reforçando o caráter poíético deste fazer.
3. Por conseguinte, podemos inferir que os efeitos qualitativos da formação do licenciado na vida de seus alunos apresentarão escalas de apreciação matizadas que podem envolver desde a aversão completa à disciplina até a escolha de fazer da filosofia um modo de vida. Neste intervalo – entre 0 e 1 – se encontram inúmeros matizes, sem que negligenciemos as dificuldades cotidianas do ofício docente. Qualidade que é traduzida pelo sólido conhecimento específico de filosofia, pelo domínio pedagógico do conteúdo, somados à empatia e ao verdadeiro interesse por cada um de seus alunos. Apesar do ‘engessamento’ oriundo de sua carga horária reduzida, a adoção de material didático-pedagógico como sistemas apostilados ou oferecidos pelo Estado não é um impedimento decisivo para provocar grandes efeitos, se o professor tiver sido bem formado.
É a soma destes fatores que reverberará na ‘fabricação’ ou no processo de subjetivação dos alunos: na sua apreciação e apropriação da filosofia; nas formas pelas quais poderão se autoproduzir e agir no mundo como cidadãos.
4. Finalmente, conforme o entendimento aristotélico, o professor como agente é responsável pela efetivação de sua prática, na qual técnica e arte devem se articular de modo indissociável, como afirma Lebrun ao se referir a Ulisses quando da construção de seu próprio navio. A excelência docente emerge de uma formação consistente, do exercício reiterado e da reflexão contínua. Considerar as singularidades biopsicossociais dos estudantes torna-se condição necessária para que a prática transcenda o mero domínio técnico e alcance o estatuto de arte, sob pena de permanecer restrita a procedimentos desprovidos de excelência.
CONSIDERAÇÕE FINAIS
Objetivamos com nossa pesquisa contribuir para a valorização da formação dos licenciandos nos Cursos de Licenciatura, à luz do conceito de poíesis presente na filosofia aristotélica. Estamos cientes que o espaço disponível para este trabalho não nos permitiu explorar outros pontos que deveriam ser considerados. Procuramos trazer à tona, os conceitos de práxis e de poíesis em Aristóteles. O primeiro, ligado às esferas da ética e da política, e o segundo, à autoprodução do agente e à fabricação, seja de objetos ou de bens e como efeito das ações realizadas pelo agente.
Queremos ressaltar que a valorização da figura do professor tem sido pauta de grandes mudanças evidenciadas pelas políticas públicas de educação e que mereceriam maior atenção neste trabalho.
Referências Bibliográficas
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