Apresentação do Dossiê: Ensino de filosofia no Ensino Médio: Práticas, desafios e formação docente
Coordenador do Curso de Especialização em Ensino de Filosofia da UFSM.
Recebido em 19 de novembro de 2025
Aprovado em 25 de novembro de 2025
Publicado em 12 de dezembro de 2025
A Universidade Federal de Santa Maria realizou, de 2023 a 2025, a terceira edição do Curso de Especialização em Ensino de Filosofia no Ensino Médio, na modalidade EaD. Conforme o Projeto Pedagógico do Curso, a presença da filosofia no Ensino Médio não pode constituir simplesmente algo complementar e acessório na formação dos estudantes. A filosofia se afirma como disciplina essencial de formação ao fomentar uma atitude questionadora e crítica diante da realidade. O desenvolvimento da postura filosófica é determinante para instigar os estudantes a transcender os limites do senso comum e da experiência imediata, ampliando a sua capacidade de perceber, refletir e posicionar-se no mundo. A filosofia promove uma leitura integrada da realidade, rompendo a fragmentação dos saberes e apontando para uma unidade do processo de conhecimento, que se enriquece justamente pela diversidade. Assim, a filosofia, além de dialogar com as demais áreas do conhecimento, as fundamenta ao oferecer os instrumentos para pensar de forma crítica, criativa e consciente. Portanto, é uma ferramenta indispensável para a formação de sujeitos autônomos, capazes de agir no mundo com responsabilidade e com lucidez.
O Curso de Especialização em Ensino de Filosofia no Ensino Médio se configura como uma iniciativa fundamental frente aos desafios contemporâneos da área. Sua proposta é oferecer subsídios teóricos e metodológicos que promovam um ensino de filosofia mais dinâmico, interativo e comprometido com o diálogo constante entre professores, estudantes, escola e sociedade. A formação busca valorizar o tempo e o espaço vividos pelos sujeitos em suas múltiplas dimensões, reconhecendo o cotidiano como ambiente propício para a reflexão filosófica. O estudante é conduzido à reflexão crítica das relações sociais, históricas e espaciais que moldam a sua realidade, favorecendo o desenvolvimento de uma consciência cidadã ativa e transformadora no contexto da nossa sociedade.
O Curso de Especialização em Ensino de Filosofia no Ensino Médio é organizado com base em princípios que reafirmam o compromisso com uma formação ética, crítica e transformadora orientados por várias diretrizes, entre as quais se pode destacar: 1. Garantia do direito de aprender; 2. Formação teórica sólida e interdisciplinar e integração entre teoria e prática; 3. Valorização da escola e seus profissionais; e 4. Articulação entre sala de aula, gestão escolar e sociedade. Entre os principais objetivos do curso estão: 1. Formar profissionais qualificados na área de filosofia; 2. Estabelecer um diálogo constante entre universidade e escola; 3. Aprimorar a atitude crítica do processo educativo; 4. Refletir criticamente sobre o próprio lugar de professores de filosofia; 5. Interrogar sobre os fundamentos filosóficos da didática da filosofia; e 6. Experimentar novas formas de ensinar, aprender e viver a filosofia.
Todos esses elementos evidenciam a relevância desse Curso de Especialização, cujo eixo norteador são as múltiplas questões que atravessam o ensino de filosofia no contexto do Ensino Médio. Trata-se, portanto, de reconhecer que tal prática não pode ser reduzida a uma simples aplicação de conteúdos ou a uma transmissão mecânica de saberes previamente estabelecidos. A atividade filosófica se configura como o campo das problematizações, exigindo do educador um constante exercício de reflexão crítica sobre os sentidos, métodos, desafios e possibilidades que envolvem o ato de ensinar filosofia nessa etapa da formação escolar. Assim, ao eleger a prática docente como centro das reflexões e ações formativas, esse Curso de Especialização propõe o fomento de uma compreensão mais ampla e aprofundada do lugar da filosofia na educação básica, incentivando a construção de abordagens didáticas que respeitem a especificidade do pensamento filosófico e contribuam para o desenvolvimento da autonomia, da criticidade e da sensibilidade intelectual. Esse Curso de Especialização propõe um percurso formativo que visa, para além da instrumentalização técnica, à formação de educadores capazes de transformar a sala de aula em espaço privilegiado de diálogo, questionamento e produção de sentido.
Nessa coletânea, apresentamos dez artigos resultados das pesquisas desenvolvidas pelos participantes do Curso. Trata-se de artigos apresentados como Trabalho de Conclusão de Curso, que agora são publicados com a revisão proposta pelas respectivas bancas e pelos orientadores. Nada de substancial, entretanto, foi acrescido em relação ao trabalho apresentado às bancas e disponibilizados no Manancial da Biblioteca Central da UFSM. Encontraremos, aqui, reflexões importantes para o ensino de filosofia que podem servir de embasamento para professores que atuam no Ensino Médio.
1. Allana Rocaia Focking Froehlich, apresenta “Ética e neurodiversidade: problemas morais no contexto do autismo”, em que analisa as injustiças epistêmicas que afetam as pessoas autistas e a relação entre afetividade e solidão presente no autismo. Analisa, também, as barreiras sociais e normativas a fim de propor uma ética inclusiva que valorize a pluralidade neurocognitiva.
2. Ana Paula Silveira Camargo nos traz “Como a arte pode nos levar ao pensar filosófico”, no qual defende a substituição das metodologias tradicionais por abordagens ativas, utilizando a arte como ferramenta pedagógica e ponto de partida para o ensino de filosofia, tal que a aula se torna um laboratório de ideias, promovendo participação e significado no processo educativo.
3. Em “Formação técnica e humanismo: as virtudes intelectuais da receptividade e do pensamento crítico no ensino médio”, Barbara Valle faz uma análise de como as virtudes intelectuais da receptividade e do pensamento crítico podem constituir um eixo pedagógico frente à apatia estrutural que desumaniza a educação. A autora conclui que essas virtudes, cultivadas conjuntamente, podem inspirar práticas pedagógicas críticas, colaborativas e sensíveis às crises sociais e ambientais.
4. Cassio Lyra Alves apresenta “Depreciação, insensibilidade afetiva e resistência: a construção de uma estética negra emancipatória”, no qual busca compreender como os afetos de desprezo, nojo e indiferença sustentam uma estética racista que marginaliza sobretudo os corpos femininos negros. Com base em abordagens teóricas negras e decoloniais, o autor conclui que a afirmação de uma estética negra emancipatória pode promover resistência e revalorização da dignidade negra.
5. No artigo “Reflexões sobre a integração da neurociência ao ensino de filosofia no ensino médio”, Estela Mari Santos Simões da Silva busca aplicar princípios da neurociência cognitiva para aprimorar o aprendizado de filosofia, a fim de propor diretrizes pedagógicas que estimulem a compreensão e o engajamento dos estudantes. A autora conclui que a abordagem a partir da neuroeducação qualifica o processo de ensino-aprendizagem, tornando-o mais eficaz e significativo.
6. Humberto Alencar Farias da Silva, por sua vez, apresenta “Tecnologias digitais de informação e comunicação (TDIC) no processo ensino-aprendizagem de filosofia no ensino médio”, no qual aponta que o ensino de filosofia ultrapassa o domínio do conteúdo e requer metodologias e ferramentas que tornem o ensino crítico, reflexivo e atrativo. O autor conclui que os educadores precisam ressignificar suas práticas, utilizando tecnologias digitais como recurso capaz de potencializar a aprendizagem.
7. Matheus Welter Staudt escreve “A autonomia intelectual dentro do modelo da escola da escolha”, em que investiga o conceito de autonomia intelectual e a compara com a noção de autonomia adotada no modelo da “escola da escolha”. O autor conclui que o conceito de autonomia nesse modelo é empregado de maneira ambígua e pouco rigorosa, mesclando os sentidos moral e intelectual desse conceito.
8. Nadia Peluffo Ibaldo, em “Formação filosófica do adolescente no ensino médio: o estoicismo e os temas transversais contemporâneos”, mostra como os valores estoicos da virtude, resiliência emocional e ética do dever podem orientar reflexões críticas e na vida social. Como conclusão, a autora sugere formas didáticas para que os alunos internalizem, como guia prático, um modo de viver baseado no estoicismo e, assim, atinjam uma vida equilibrada.
9. Tatiane Silveira Soares Bourdot traz o artigo “Ensino de filosofia africana e afro-brasileira no ensino médio brasileiro: desafios e perspectivas”, no qual examina perspectivas afrocentradas para o ensino de filosofia, analisando as motivações para a marginalização das filosofias africanas e afro-brasileiras e suas possibilidades de inclusão. A autora conclui que essas perspectivas podem fortalecer uma formação ética, política e crítica, promovendo uma filosofia escolar mais inclusiva e plural.
10. Por fim, temos o artigo de Thiago Moura Castro, “O ensino de filosofia para estudantes deficientes visuais a partir da perspectiva hegeliana”, em que o autor destaca a falta de acesso dos estudantes com deficiência visual ao conhecimento filosófico e a limitação na formação dos professores no atendimento de casos especiais na escola. Fundamentando sua análise no conceito hegeliano de “professor-filósofo”, o autor conclui que uma metodologia centrada na mediação e na linguagem pode favorecer uma educação filosófica mais inclusiva.
Ao apresentar esses resultados, o Curso de Especialização em Ensino de Filosofia no Ensino Médio demonstra ter cumprido o seu propósito de fortalecer a presença da filosofia na educação básica, articulando reflexão teórica, problematização crítica e compromisso ético com a prática docente. Os trabalhos aqui apresentados manifestam a vitalidade intelectual e a relevância social das pesquisas desenvolvidas. Isso revela que pensar o ensino de filosofia exige que se reconheça a diversidade dos sujeitos e a complexidade dos contextos e das dinâmicas escolares. Os artigos que aqui se publicam evidenciam que a filosofia permanece um campo indispensável para a criação de sentidos, para o enfrentamento dos desafios contemporâneos e para a formação de pessoas autônomas, sensíveis e capazes de intervir no mundo de forma responsável.
Essa coletânea não apenas registra o percurso formativo vivido pelos participantes do Curso de Especialização em Ensino de Filosofia, mas também mostra a necessária continuidade de diálogo entre universidade, escola e sociedade. Nossa convicção é que as reflexões aqui reunidas inspiram novas práticas, novas pesquisas e novos debates sobre o lugar e o papel da filosofia no Ensino Médio, reafirmando a força transformadora dessa área do conhecimento. Trata-se, enfim, de um compromisso de educadores que acreditam que a filosofia não é apenas uma disciplina, mas uma forma de vida que promove abertura, compreensão e ressignificação sem perder o rigor acadêmico, cumprindo, também, uma função humanizadora.
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