Formação filosófica do adolescente no ensino médio: o estoicismo e os temas transversais contemporâneos

Philosophical formation of adolescents in high school: stoicism and contemporary cross-cutting themes

 

Nadia Peluffo Ibaldo

Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria – RS, Brasil.

nadiapeluffoibaldo@gmail.com

 

Recebido em 20 de outubro de 2025

Aprovado em 25 de novembro de 2025

Publicado em 12 de dezembro de 2025

 

RESUMO

O presente artigo tem como objetivo relacionar os princípios filosóficos do estoicismo e os temas transversais contemporâneos, analisando o modo pelo qual os valores estoicos, como a virtude, a resiliência emocional e a ética do dever, podem contribuir para uma abordagem crítica e reflexiva sobre questões como ética, saúde, cidadania, diversidade cultural, sustentabilidade e relações interpessoais no contexto da educação e da sociedade atual. Este objetivo destaca a ideia de conectar o pensamento filosófico estoico com os desafios e temas amplos que permeiam a vida contemporânea e os temas transversais propostos na Base Nacional Comum Curricular. Por intermédio de pesquisas bibliográficas calcadas em estudiosos no campo da educação e da filosofia, foi possível reunir e selecionar os materiais. Outrossim, o presente trabalho aborda obras literárias inspiradas na aplicação da prática diária do modo de vida estoico. Como conclusão desse estudo, espera-se desenhar um modo didático de aplicação do tema em que o aluno de ensino médio seja capaz de internalizar a filosofia estoica, não apenas como um conhecimento teórico, mas como uma ferramenta prática para levar uma vida equilibrada e resiliente.

Palavras-chave:  Estoicismo. Abordagem crítica e reflexiva. Desafios da vida contemporânea.

Temas transversais. Ensino de Filosofia.

 

ABSTRACT

The present article aims to connect the philosophical principles of Stoicism with contemporary transdisciplinary themes, analyzing how Stoic values such as virtue, emotional resilience, and the ethics of duty can contribute to a critical and reflective approach to issues like ethics, health, citizenship, cultural diversity, sustainability, and interpersonal relationships within the context of education and modern society. This objective emphasizes the idea of linking Stoic philosophical thought to the challenges and themes that permeate contemporary life and the transdisciplinary themes proposed in the National Common Curricular Orientations. Through bibliographic research grounded in scholars from the fields of education and philosophy, relevant references were gathered and selected. Furthermore, this work addresses literary works inspired by the daily practice of the Stoic way of life. As a conclusion to this study, the goal is to design a didactic approach to applying the topic, enabling high school students to internalize Stoic philosophy not merely as theoretical knowledge but as a practical tool to lead a balanced and resilient life.

Keywords: Stoicism. Critical and reflective approach. Challenges of contemporary life.

Transdisciplinary themes. Teaching Philosophy.

 

Introdução

Este trabalho de conclusão de curso tem o objetivo de analisar como a filosofia estoica pode ser utilizada no contexto da educação filosófica de adolescentes no Ensino Médio, especialmente em sua relação com os temas transversais contemporâneos.

O estoicismo, escola helenística fundada por Zenão de Cítio, destaca-se por sua aplicabilidade prática e por sua capacidade de fornecer diretrizes claras para a formação de um indivíduo resiliente, racional e virtuoso, qualidades altamente relevantes para o desenvolvimento dos adolescentes.

O estoicismo oferece uma abordagem prática e filosófica para viver uma vida plena, focada na virtude, na racionalidade e na aceitação dos eventos que estão fora do nosso controle. Sua ênfase no autocontrole, na resiliência emocional e na busca por uma vida virtuosa ressoa com as demandas e desafios da vida contemporânea.

Ao interligar os Temas Transversais com os acontecimentos da vida diária, a prática da filosofia estoica torna a jornada da aprendizagem mais leve e dinâmica, favorecendo atividades que estimulem as discussões e o desenvolvimento do pensamento crítico. Os Temas Transversais definidos pelos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), abordam questões essenciais como ética, pluralidade cultural, meio ambiente, saúde, saúde mental e cidadania, exigindo que o estudante desenvolva uma postura crítica e consciente diante das demandas sociais e individuais, atravessando todas as áreas do conhecimento.

A partir do estoicismo, é possível não só promover o desenvolvimento emocional e ético dos jovens, mas também ajudá-los a enfrentar os desafios de uma sociedade marcada por incertezas, pressões sociais e rápidas transformações. Educação e filosofia nasceram praticamente juntas na Grécia, elas andam intrinsecamente entrelaçadas. Enquanto a escola é o espaço em que se processa o cerne da educação formal, a filosofia reflete sobre o que é o ser humano e como se dá sua formação. Cabe à filosofia elaborar os pressupostos e os valores norteadores que serão transmitidos por meio da ação educativa. A educação básica tem como uma de suas principais funções não apenas a transmissão de conhecimentos acadêmicos, mas também a formação integral dos indivíduos, preparando-os para os desafios sociais, emocionais e éticos da vida em sociedade. No Ensino Médio, fase crucial da vida dos adolescentes, essa formação se intensifica, pois os jovens estão em um período de transição, em que buscam construir sua identidade, desenvolver autonomia e lidar com as demandas crescentes da vida adulta. Nesse contexto, a formação filosófica torna-se um instrumento fundamental para auxiliar o adolescente a refletir criticamente sobre si mesmo e o mundo ao seu redor, oferecendo ferramentas para que ele construa uma visão de mundo mais coesa e madura.

O ensino de filosofia, ao explorar questões éticas, existenciais e epistemológicas, permite ao aluno do Ensino Médio lidar com os dilemas contemporâneos que enfrenta em sua vivência diária como a ansiedade e o autocontrole.

Neste artigo abordarei a doutrina estoica, discutindo sua história e fundamentos teóricos, os Temas Transversais Contemporâneos e como o ensino de filosofia estoica pode ser usado na interdisciplinaridade dos temas transversais. Por fim, proponho por meio de um plano de aula didático, como essa proposta pode ser efetivada.

 

Filosofia na era helenística - o estoicismo e seu fundador

 

O estoicismo, uma das escolas mais influentes da filosofia antiga, surge na Grécia, originada no período helenístico, no início do século III a.C. e se desenvolveu até o período romano. Fundada por Zenão de Cítio, a escola estoica passou por diversas fases e foi enriquecida por pensadores notáveis como Crisipo, Epicteto, Sêneca e Marco Aurélio. Sua influência se estendeu não só ao pensamento filosófico, mas também à política, ética e até à psicologia moderna. O estoicismo começou por volta de 300 a.C. em Atenas, fundada por Zenão, nascido em Cítio, na Ilha de Chipre. Segundo Diógenes Laércio, (Natta, 2021, p.45), Zenão era um comerciante de origem fenícia, que naufragou na costa da Grécia e acabou se voltando para a filosofia. Sem saber o que fazer após o naufrágio tomou o rumo de Atenas e foi ter com um livreiro, onde leu um relato sobre a vida de Sócrates. Segundo uma história sobre algo que aconteceu durante a juventude de Zenão, “ele consultou o oráculo para saber o que devia fazer para alcançar a felicidade na vida e a resposta foi que ele devia assumir a expressão dos mortos” (Natta, 2021, p.45). Zenão concluiu que isto significava que ele deveria estudar os escritores antigos, e foi assim que brotou seu amor pela filosofia. Ele foi discípulo de várias escolas filosóficas, incluindo os cínicos, megáricos e platônicos. Zenão, no entanto, desenvolveu sua própria abordagem filosófica ao fundar a escola estoica. O termo “estoicismo” deriva do grego Stoa Poikilé, que significa pórtico pintado, um local público em Atenas onde Zenão e seus seguidores se reuniam para discutir suas ideias (Marcondes, 2007, p.101).

 

“Zenão costumava então discursar andando de um lado para outro do conjunto de colunas pintadas, ou estoá… Os que começaram a vir para ouvi-lo ficaram conhecidos como homens da estoá ou estoicos; e o mesmo nome foi dado a seus seguidores originais, que de início haviam sido conhecidos como zenonianos.”

(Diógenes Laércio, Vidas dos Filósofos Eminentes, livro7).

 

O estoicismo sustenta o pressuposto de que devemos “viver de acordo com a natureza”. Tal premissa significa que, na perspectiva estoica, o universo se configura em um amplo sistema, caracterizado por relações causais necessárias. Conforme Marsola (2020) “trata-se de uma ordem necessária, marcada por uma racionalidade ampla em que todas as coisas confluem rumo a uma harmonia plena, que os estoicos denominam de logos, isto é, o mundo consiste em um grande logos, com frequência intitulado igualmente de physis (natureza) ou mesmo Deus”. Na visão dos estoicos, Deus é essa própria natureza que é governada pelas relações necessárias. Por esse ângulo, caberia ao filósofo ou sábio conquistar uma apreensão a respeito disso e buscar uma harmonia interior para entrar em conformidade com a harmonia universal. Os seres humanos como parte do cosmos, podem viver em harmonia com ele ao compreender e aceitar sua ordem natural. Zenão também estudou o platonismo com Xenócrates e Polemon, bem como de Estilo e Diodoro Cronos.

Após a morte de Zenão de Cítio, sua doutrina estoica foi elaborada e disseminada por seus discípulos, Cleantes de Assos e Crissipo de Solis, além de líderes da escola estoica como Diógenes da Babilônia (ou da Selêucia), que fez importantes declarações sobre o objetivo da vida, os princípios da ética e da razão colocada em prática, conceitos determinantes para essa relação filosófica. Os estudiosos dividem a história da Estoá em três períodos:

● Antiga Estoá de Zenão, Cleanto e Crissipo

● Média Estoá de Panéssio e Possidônio

● Nova Estoá de Sêneca, Epicteto e Marco Aurélio

O antigo estoicismo, início da escola estoica, fundada por Zenão de Cítio, (334-262 a.C.), que introduziu conceitos como a ideia de viver de acordo com a natureza. É a fase caracterizada pela sistematização da filosofia estoica em três áreas principais: lógica, física e ética. O sucessor de Zenão foi Cleanto, que aprofundou a noção de panteísmo estoico identificando Deus com a razão universal ou logos. Crissipo de Solos consolida a doutrina estoica. Sua ênfase estava na lógica e na física, além de seus esforços para explicar o determinismo estoico.

O médio estoicismo, (século II a.C.-século I a.C.) foi marcado pela expansão do estoicismo e pela tentativa de integrar suas ideias com outras tradições filosóficas como o platonismo e o aristotelismo, especialmente em questões cosmológicas e éticas. O médio estoicismo também foi caracterizado por um movimento de popularização, quando os estoicos começam a se preocupar mais com a aplicabilidade prática da filosofia no contexto político e cultural do mundo helenístico e romano. Entre os principais representantes, destacam-se Panécio de Rodes, responsável por adaptar o estoicismo para torná-lo mais acessível aos romanos, suavizando o rigor do determinismo estoico e introduzindo aspectos mais práticos na ética. Posidônio de Apaméia, discípulo de Panécio, Posidônio ampliou o interesse no estoicismo pela física e pela cosmologia, buscando integrar o estoicismo com a ciência da época.

 

 Os fundamentos do estoicismo

 

O estoicismo concebe a filosofia em três partes principais: a física, a lógica e a ética.

A lógica teria a tarefa de fornecer o critério de verdade sobre o qual funda a ética. Os estoicos tomaram o movimento da sensação, entendida como impressão dos objetos externos sobre os sentidos. Nos confrontos com cada representação a razão (logos) do homem exprime seu acordo ou rejeição. Apenas quando recebe nosso acordo a representação se torna “compreensiva” ou “cataléptica”. Se uma representação recebe aprovação, isto é, supera o exame do logos ela torna-se cataléptica constituindo o único critério ou garantia da verdade. (Raele, 2003, p.281) A verdade própria da representação cataléptica deve-se ao fato de que esta é uma ação e uma modificação material e corpórea que as coisas produzem sobre nossa alma, provocando resposta igualmente material e corpórea por parte da nossa alma. A representação cataléptica torna-se intelecção e conceito, torna-se universal. Os estoicos admitiram também a existência de prolepses, ou seja, noções inatas, inerentes à natureza do homem, conceitos como “bem”, “justiça” e “verdade” são considerados prolepses. As prolepses são a base para o entendimento estoico da natureza humana, ancorando a capacidade de conhecer e viver de acordo com a razão e a virtude.

A física da antiga Estoá, é uma forma de materialismo monista e panteísta. Para os estoicos o ser é só aquilo que tem a capacidade de agir e sofrer. Mas este é apenas o corpo: “ser e corpo são idênticos”. Corpóreos são também as virtudes e corpóreos os vícios, o bem e a verdade. Esse materialismo configura-se em um materialismo monista que sustenta que tudo é matéria, oferecendo uma abordagem unificada para entender o universo e a mente (Raele, 2003, p.284). Os estoicos falam de dois princípios do universo, um passivo e um ativo. O passivo identifica com a matéria e o ativo com o princípio informante e sustentam que um é inseparável do outro. A forma é a razão divina, o Logos, Deus. Deus está em tudo e Deus é tudo (panteísmo estoico). Se todas as coisas sem exceção são produzidas pelo princípio divino imanente, que é o logos, inteligência e razão, tudo é racional, tudo é como a razão quer que seja, tudo é como deve ser. Também ligada a essa concepção encontra-se a noção de Providência, (Pronóia) que nada tem a ver com a providência de um deus pessoal. É uma providência imanente e não transcendente. Ela revela-se como “Fado” e como “Destino” (Heimarméne) (Raele, 2003, p.285). Os estoicos entendiam esse Fado como a série irreversível das causas, como a “ordem natural e necessária de todas as coisas”. Segundo a qual as coisas acontecidas, aconteceram. As coisas que acontecem, acontecem e as coisas que acontecerão, acontecerão.” E como tudo depende do Logos imanente, tudo é necessário, mesmo o acontecimento mais insignificante. E no contexto desse fatalismo, onde fica a liberdade do homem? A verdadeira liberdade do sábio consiste em conformar a própria vontade à do destino. Como tudo no universo está conectado por uma ordem racional, o estoico busca aceitar o destino (fatum) com serenidade. Aceitar o que acontece como parte de uma harmonia maior é essencial para viver bem. Essa aceitação consiste em compreender e cooperar com o que está além do nosso controle.

A ética é a parte mais viva e significativa da filosofia do pórtico. (Raele, 2003, p.285) Para os estoicos o escopo do viver é a obtenção da felicidade. E a felicidade se persegue “vivendo segundo a natureza”. Todos os seres vivos são dotados de um princípio de conservação (chamado oikéiosis), que instintivamente os leva a evitar aquilo que os prejudica e a buscar aquilo que os beneficia, que acresce seu ser: em uma palavra, o bem de um ser é aquilo que lhe é benéfico, e o mal é aquilo que danifica. As realidades que correspondem a estas características são a virtude e o vício, portanto apenas a virtude é “bem” e só o vício é “mal”. Todo ser vivo pode e deve viver segundo a natureza. Viver “conforme a natureza” significa, pois, viver realizando a apropriação do próprio ser e daquilo que o conserva e ativa. O ser humano não é simplesmente ser vivente, mas é ser racional, o viver segundo a natureza será um viver “conciliando-se” com o próprio ser racional, conservando-o e atualizando-o plenamente. Ora, a natureza do homem é racional e a sua essência é a razão. Assim, para o ser humano atuar o princípio de conservação deve buscar as coisas e apenas as coisas que incrementam sua razão e fugir das que prejudicam. Marcondes nos mostra que essa relação entre as três partes do estoicismo é explicada através da metáfora da árvore. (Marcondes,2007, p.101). A física corresponderia à raiz, a lógica ao tronco e a ética aos frutos. Portanto, a parte mais relevante é a ética: são os frutos que podemos colher da árvore do saber, porém não podemos tê-los sem as raízes e o tronco. Essa concepção reflete-se na estreita relação que o estoicismo vê entre a física e a ética. O homem é um microcosmo no macrocosmo, ou seja, é parte do universo, da natureza. Para ter uma conduta ética que assegure sua felicidade, suas ações devem estar de acordo com os princípios naturais, com a harmonia do cosmo, que dá equilíbrio a todo o universo, inclusive ao homem. A boa ação, de um ponto de vista ético, é, portanto, uma ação de acordo com a natureza. São quatro as virtudes básicas para os estoicos: a sabedoria que consiste no conhecimento do bem e do mal; a coragem, ou o conhecimento do que temer e do que não temer; a justiça, o conhecimento que nos permite dar a cada um o que lhe é devido e a temperança, a moderação e o autocontrole no uso dos prazeres e bens externos. Em virtude da concepção de natureza pressuposta pela ética estoica, temos na verdade um forte determinismo ético, chegando mesmo a caracterizar um fatalismo. A noção de necessidade, ou destino (heimarméne), é muito forte no estoicismo; o homem deve resignar-se a aceitar os acontecimentos como predeterminados. Isso não se traduz pela inação; devemos agir de acordo com os preceitos éticos e fazer o que julgamos devido, mas devemos também aceitar as consequências de nossa ação e o curso inevitável dos acontecimentos. Segundo um exemplo famoso, se vejo alguém se afogando, devo tentar salvá-lo, mas, se não o conseguir, não devo desesperar-me, pois era inevitável. O destino, no entanto, não é cego e arbitrário, mas reflete a racionalidade do real, a qual devo aceitar mesmo que não entenda.

Para o estoicismo, a felicidade (eudaimonia) consiste na tranquilidade (ataraxia), ou ausência de perturbação. Alcançamos esse estado através do autocontrole, da contenção e da austeridade, aceitando o curso dos acontecimentos. Porém, só o sábio perfeito é capaz disso, e tal perfeição é dificílima de se atingir, embora devamos almejá-la e buscá-la.

Assim, o antigo e médio estoicismo preparou o terreno para o novo estoicismo, com figuras como Sêneca, Epicteto e Marco Aurélio, que moldaram a forma pela qual o estoicismo é amplamente conhecido hoje.

 

 O novo estoicismo - o estoicismo romano

 

A partir do séc. I o núcleo do estoicismo desloca-se para Roma, dando origem ao assim chamado “novo estoicismo”, ou “estoicismo imperial”, cujos principais representantes foram Sêneca (4 a.C- 65 d.C.), o mais importante filósofo desse período, Epicteto (60-138) e Marco Aurélio (121-180), imperador romano após 161. O estoicismo latino se caracteriza pela ênfase na filosofia prática e em uma concepção humanística, valorizando a indiferença (apatheia) e o autocontrole. (Marcondes, 1997, p. 102).

Sêneca foi uma das figuras mais expressivas no Novo Estoicismo. Lúcio Aneu Sêneca nasceu em Córdoba (Espanha). Assumiu um importante papel na época tirânica de Domiciano e Nero, quando a filosofia passou a ter a função de terapia para as mentes perturbadas do povo romano pelo receio da própria sobrevivência. Nesse cenário, Sêneca defende a necessidade de haver uma harmonia entre a ação do ser racional e a natureza. Desse modo, as paixões devem estar submissas à razão. Acrescenta, ainda, que qualquer excesso é contrário à natureza e que a moderação caracteriza o equilíbrio que classifica o homem como verdadeiro sábio. Entre suas principais obras, ganham destaque Sobre a Brevidade da Vida, Cartas a Lucílio, Sobre a Constância do Sábio e Sobre a Ira.

Outro representante do Novo Estoicismo foi Epicteto, nascido no século I d.C., era ex escravo. Foi um filósofo grego e viveu boa parte de sua vida em Roma. Uma de suas principais contribuições para a filosofia estoica está no fato de diferenciar e separar o que está e o que não está sob o nosso encargo. Segundo ele, estão em nosso poder o que é interior, como o pensar e o querer, isto é, o nosso juízo, bem como os nossos impulsos e desejos, que estão totalmente sob nosso encargo. O homem sábio que almeja a felicidade deve renunciar aos bens externos e focar naquilo que lhe cabe. No mais, nada lhe resta. Os ensinamentos de Epicteto foram compilados por seu discípulo Arriano, resultando na obra que chamou de Encheiridion (manual, arma portátil ou livro portátil), título que eternizou o nome do Filósofo e influenciou grandes pensadores como Marco Aurélio.

Imortalizado pela imagem de “Imperador filósofo”, Marco Aurélio é o último dos estoicos romanos. Viveu um século depois de Epicteto, sendo seu profundo admirador. Filho adotivo de Antonino, assumiu o trono em 161, após a morte do imperador, tornando-se reconhecido não só por ser um grande guerreiro e administrador em um período perturbado por guerras sangrentas e prolongadas, como também por seu caráter e sua honestidade excepcionais. Durante as pausas tranquilas de seu governo, Marco Aurélio se dedicava a reflexões filosóficas pela perspectiva do estoicismo, as quais foram anotadas em uma espécie de diário que, posteriormente, veio a ser publicado com o título "Meditações”. Dividida em doze livros, a obra constituiu uma espécie de manual de comportamento que reforça atitudes de coragem, responsabilidade e comprometimento em prol do bem viver, resultado dos pensamentos de um

grande líder.

Após esse período o estoicismo entra em decadência, (Marcondes,2007, p.102) não surgindo mais representantes significativos. Em virtude de sua tendência eclética, o estoicismo passa a se confundir em parte com o platonismo, embora a ética estoica tenha tido grande influência no desenvolvimento do cristianismo, dado seu caráter determinista e sua valorização do autocontrole, da submissão, e da austeridade.

 

 

 Os temas transversais

 

Transversal pode ser definido como aquilo que atravessa. Portanto, temas transversais, no contexto educacional, são aqueles assuntos que não pertencem a uma área do conhecimento em particular, mas que atravessam todas as disciplinas, pois delas fazem parte e a trazem para a realidade do estudante. Na escola, são os temas que atendem às demandas da sociedade contemporânea, ou seja, aqueles que são intensamente vividos pelas comunidades, pelas famílias, pelos estudantes e pelos educadores no dia a dia, que influenciam e são influenciados pelo processo educacional.

Na educação brasileira, os Temas Transversais foram recomendados inicialmente nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), em 1996. Nessa ocasião, a Ética e a Cidadania eram os eixos orientadores da educação, acompanhando a reestruturação do sistema de ensino. Em 2017, com a aprovação da BNCC, os diversos temas de grande relevância social, apesar de ainda não detalhados na sua forma de implantação, permaneceram contemplados como assuntos transversais e integradores de uma educação que busca uma sociedade mais justa, igualitária e ética, pois elevam o trabalho educativo para além do ensino de conteúdos científicos.

Os Temas Transversais passaram a ser chamados também de Contemporâneos. A inclusão do termo ‘contemporâneo’ para complementar o ‘transversal’ evidencia o caráter de atualidade desses temas e sua relevância para a Educação Básica. Enquanto nos PCNs eles eram recomendações facultativas, nas Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs) sinalizaram a sua obrigatoriedade, conforme as Resoluções CNE/CEB Nº 7/2010 e Nº 12/2012.

Os Temas Contemporâneos Transversais (TCTs) buscam uma contextualização do que é ensinado, trazendo temas que sejam de interesse dos estudantes e de relevância para seu desenvolvimento como cidadão. O grande objetivo é que o estudante não termine sua educação formal tendo visto apenas conteúdos abstratos e descontextualizados, mas que também reconheça e aprenda sobre os temas que são relevantes para sua atuação na sociedade. Assim, espera-se que os TCTs permitam ao aluno entender melhor: como utilizar seu dinheiro, como cuidar de sua saúde, como usar as novas tecnologias digitais, como cuidar do planeta em que vive, como entender e respeitar aqueles que são diferentes e quais são seus direitos e deveres, assuntos que conferem aos TCTs o atributo da contemporaneidade.

Os temas foram ampliados, enquanto os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) abordam seis Temáticas, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) aponta seis macroáreas temáticas (Cidadania e Civismo, Ciência e Tecnologia, Economia, Meio Ambiente, Multiculturalismo e Saúde) englobando 15 Temas Contemporâneos “que afetam a vida humana em escala local, regional e global” (BRASIL, 2017, p. 19).

De acordo com o Referencial Curricular Gaúcho (RCG), SEDUC, RS, para enfrentar o desafio de abordar o currículo de forma articulada, é essencial organizá-lo de maneira interdisciplinar, promovendo o diálogo entre os conhecimentos e desafiando a visão isolada dos componentes curriculares.

 

 

O estoicismo e os temas transversais

 

Qual o sentido de uma doutrina filosófica concebida na antiguidade, mais de dois milênios depois em nosso mundo contemporâneo densamente povoado e tecnologizado, e ampla e drasticamente alterado em todos os aspectos? A resposta é que qualidades morais como honestidade, moderação, benevolência, tolerância, solidariedade, altruísmo, amizade genuína, ausência de preconceito ou racismo e repúdio à acumulação de bens mundanos permanecem um tanto distantes no cotidiano das pessoas que vivem em nossa sociedade contemporânea. Tratam-se de valores humanos que não tem dimensão temporal ou espacial.

Na Obra Filosofia e Educação, Temas Transversais, Vianei Hammerschmitt (Hammerschmitt 2021, p.112), nos lembra que se vive o ápice de desenvolvimento humano e tecnológico e isso exige uma responsabilidade coletiva em torno do alcance individual e coletivo de uma educação mais humanizadora, problematizadora e crítica. Nesse sentido, o acolhimento humano nas diversas intuições precisa ser o foco principal nesse momento, a pergunta é, quem é a criança que aprende? Quem é o jovem? Sua identidade, suas subjetividades, suas esperanças, suas angústias precisam ser consideradas, não como uma validação dos medos e das fraquezas dos tempos atuais, mas como uma oportunidade de oferecer os elementos adequados para que ela possa crescer e se desenvolver. Evidentemente, amparada pela reflexão e por conhecimentos que possam produzir respostas adequadas às necessidades sociais em que vivemos.

Os temas transversais atuam como eixo unificador, em torno do qual organizam-se as disciplinas, devendo ser trabalhados de modo coordenado e não como um assunto descontextualizado nas aulas. A Filosofia, como disciplina obrigatória no ensino médio, é capaz de pôr em prática as habilidades propostas através da transversalidade e da interdisciplinaridade dos objetos do conhecimento. Pesquisar sobre os conceitos e reflexões desenvolvidos por filósofos e filósofas em diferentes períodos da história, é uma habilidade para os Temas Transversais.

Cito duas habilidades do referencial curricular gaúcho 2023/24:

● (EM13CHSA607RS) Analisar e compreender o ser humano como integral e capaz de desenvolver suas potencialidades e habilidades socioemocionais e cognitivas.

● (EM13CHSA505RS) Pensar os sentidos e a importância das ações humanas promotoras do bem comum, da solidariedade, da ética e da cooperação, como pressupostos da cultura de paz, da harmonia, da justiça social e da dignidade humana.

É possível aplicar essas habilidades em todos os TCTs: Cidadania e Civismo, Meio Ambiente e Economia, Saúde, multiculturalismo e ciência e tecnologia.

A filosofia nos ajuda a identificar situações diárias, experienciar atitudes éticas no ambiente escolar e na comunidade em geral através de ações diversas.

Quem é o meu aluno? É um adolescente consumista? Despreocupado com a sustentabilidade e preservação do planeta? Individualista, se importa mais com a aprovação nas redes do que com a relação familiar e escolar? São perguntas que faço ao conhecer a turma. Isso ajuda na hora de aplicar os objetos do conhecimento seja na disciplina que for. Ao identificar o perfil da maioria dos meus alunos observando seu comportamento em aula eu pude perceber que a arte do bem viver estoico pode trazer benefícios comportamentais aos alunos. Tomando como exemplo, o eixo Cidadania e Civismo, que aborda os seguintes temas: Processo de envelhecimento e respeito e valorização do Idoso; Educação para o Trânsito; Educação em Direitos Humanos; Vida familiar e social, Direitos da Criança e do Adolescente, o estoicismo pode ser apresentado como forma de pensar virtuosamente, ter a consciência de que se cuidarmos de nós mesmos, o resultado se refletirá na vida de outras pessoas e na sociedade ao nosso redor, a importância da vida familiar e social, a vida em sociedade e o respeito ao ser humano e seus direitos. Como eu poderia reagir a uma discussão de trânsito? Como relacionar-me em família? O que importa é que os alunos possam construir significados e conferir sentido àquilo que aprendem. A filosofia estoica valoriza a contribuição individual para o bem comum e o reconhecimento do papel de cada pessoa na sociedade. Isso enriquece discussões sobre direitos e deveres, tolerância e respeito mútuo.

No texto “Os Temas transversais na Escola Básica”, Amélia Hamze de Castro (Castro, 2007) nos dá o exemplo de que quando enfocamos o Tema Transversal Trabalho e Consumo, poderemos enfatizar a informação das relações de trabalho em várias épocas e a sua dimensão histórica, assim como comparar diversas modalidades de trabalho, como o comunitário, a escravidão, a exploração, o trabalho livre, o assalariado. Poderemos também analisar a influência da publicidade na vida das pessoas, enfocando a Indústria Cultural. Refletir como a propaganda dissemina atitudes de vida, padrões de beleza e condutas que manifestam valores e expectativas. Analisar criticamente o anseio de consumo e a autêntica necessidade de adquirir produtos e serviços.

No que diz respeito aos TCTs economia, podemos discutir o estoicismo no que se refere à uma versão crítica em relação ao âmbito ecológico, o hiperconsumo, a questão da individualidade produzida pelos aparelhos como celular e videogame que produz um consumidor desvinculado da família e da comunidade e à importância do status na sociedade tecnológica e imediatista em que vivemos, ainda abordar questões de saúde mental, trabalhando questões de autocontrole e a prática da autossuficiência evitando endividamento e descontrole financeiro.

No estoicismo, os bens materiais são classificados como "indiferentes externos", ou seja, coisas que não são nem boas nem ruins em si mesmas. O que importa é como as usamos. O consumismo, no entanto, coloca um valor excessivo nesses "indiferentes", desviando o foco do que realmente importa: a virtude.

A filosofia estoica incentiva o desapego de valores materiais e status, a preocupação em não se transformar em um “escravo” do consumismo o que poderia ter consequências de uma possível vida de endividamento e preocupações. Veja estas meditações: “Isto é necessário?” questiona Marco Aurélio, Meditações 4:14. A verdadeira riqueza é contentar-se com pouco”. Sêneca.

A busca pelas posses pode direcionar nossos pensamentos e ações exclusivamente para aumentar nossos bens. Isso pode levar à perda de liberdade, tornando-se uma escravidão psicológica.

 

“Quem então quiser ser livre, não deseje nada, não rejeite nada do que depende dos outros; Caso contrário, será necessariamente um escravo”.

Epicteto, A Arte de Viver (Encheiridion) 14 b

 

Em relação ao tema Meio ambiente, cuidar do planeta estaria em harmonia com o princípio de viver de acordo com a natureza e preservar a ordem do universo.

 

"Olhe para a beleza de tudo ao seu redor e deixe que isso lhe inspire.

Em tudo o que você faz,

Tenha reverência pelo universo."

(Meditações, Livro 6, parágrafo 30)

 

Enfim, os princípios estoicos contribuem para o desenvolvimento das competências socioemocionais, oferecendo ferramentas práticas e filosóficas para fomentar um pensamento crítico e ético em várias dimensões da vida escolar e social.

 

Aplicação prática

 

O   Estoicismo é por excelência uma filosofia prática. Para os estoicos, não era o bastante apenas estudar e pensar sobre como viver a vida, mas era preciso colocar esses ensinamentos em prática. A adoção do Estoicismo como filosofia de vida torna seus praticantes menos emocionalmente reativos, mais conscientes do presente e mais resilientes. Há vários temas onde eu poderia propor a inserção do pensamento estoico de forma interdisciplinar nos Temas Contemporâneos Transversais. Para ilustrar como o estudo do estoicismo pode ser desenvolvido no contexto dos temas transversais decidi escolher o tema da problemática do consumismo que pode ser abordado no subtema: Educação para o consumo.

Abordar o consumismo no ambiente educacional proporciona um espaço para discutir questões contemporâneas urgentes, como sustentabilidade, desigualdades sociais e os efeitos psicológicos do consumo excessivo, preparando os estudantes para lidar de forma responsável e crítica com os desafios do mundo atual. Dessa forma, o tema não apenas enriquece o aprendizado interdisciplinar, mas também promove a formação integral dos alunos.

A proposta é desenvolver o tema no Componente Curricular de Eletiva de Pré-Itinerário, durante um trimestre letivo e se seguirá a um período em que será lido o livro Modernidade Líquida do sociólogo e filósofo polonês Zygmunt Bauman, disponível na plataforma de leitura digital Árvore de Livros. Antes da introdução do tema do estoicismo, o livro de Bauman terá sido lido e pelo mínimo, os dois primeiros capítulos serão discutidos numa abordagem multidisciplinar e alguns objetos do conhecimento terão sido trabalhados em sala de aula como por exemplo:

● Impactos ambientais do consumismo: Degradação ambiental e esgotamento dos recursos naturais.

● Cultura de consumo no século XX: propagandas e o surgimento da obsolescência programada, entre outros.

● Sociedade de consumo e modernidade líquida: Reflexão sobre os valores consumistas o impacto na subjetividade humana.

● Crítica ao materialismo: Discussão sobre ética, felicidade e consumo.

● Indústria Cultural: Análise do papel da mídia e da publicidade no estímulo ao consumo.

A proposta aqui sugerida é que o estudo da filosofia estoica sirva como fechamento do componente curricular para as últimas 6 horas/aula, desenvolvendo nos estudantes a capacidade de analisar as mensagens consumistas às quais são expostos, questionando valores associados à posse de bens como sinônimo de sucesso ou felicidade com os princípios do estoicismo. Para isso o tema virá à sala de aula como forma de revisar o tema já estudado na disciplina de filosofia ou apresentá-lo, caso os alunos ainda não o conheçam. A literatura estoica virá em forma de pensamentos, discussões e textos explicativos, auxiliando na interpretação do tema consumismo versus vida minimalista e valores humanos.

 

 

Proposta de plano de aula

 

Componente Curricular:

Eletiva Pré-Itinerário de Humanas (História, Filosofia, Geografia, Sociologia e Ensino Religioso).

A Eletiva Pré-Itinerário de Humanas é Componente do Ensino Médio Gaúcho, (EMG) ofertada para o primeiro ano do ensino médio. Tem a carga horária de 2 h/a por semana e tem duração trimestral. Seu objetivo é que o estudante possa conhecer previamente as trilhas e seus componentes curriculares e possa escolher qual cursará na 2ª e 3ª séries do ensino médio.

Tema:

O mundo hipermoderno, o consumismo e a filosofia estoica.

Período de duração: 6h/a

Justificativa:

O tema consumismo é de grande relevância no contexto atual, marcado pela predominância de uma sociedade de consumo, amplamente influenciada por estratégias de marketing, redes sociais e uma cultura de obsolescência programada. Essa realidade afeta diretamente os comportamentos e valores individuais e coletivos, especialmente entre os jovens, que são um público-alvo privilegiado dessas dinâmicas. Abordar o consumismo como tema em sala de aula é essencial para fomentar uma reflexão crítica sobre os impactos do consumo desenfreado, não apenas no âmbito econômico, mas também nos âmbitos social, ambiental e psicológico.

Relacionar o livro Modernidade Líquida, de Zygmunt Bauman, à filosofia estoica é uma tarefa interessante pois ambos abordam questões relacionadas à vida humana e à busca por estabilidade em meio às incertezas, mas sob perspectivas diferentes. Podemos entender o estoicismo como uma resposta que transcende o tempo e se aplica a modernidade líquida. Enquanto Bauman analisa os sintomas e os desafios do mundo contemporâneo, os estoicos oferecem ferramentas para lidar com eles, fortalecendo o indivíduo em meio ao caos externo.

 

Objetos do conhecimento:

● Autonomia Pessoal em um Mundo Volátil

● As Relações Humanas: Instabilidade versus Virtude

● Ansiedade Contemporânea e Ataraxia estoica

● O Estoicismo como Resistência ao Consumismo

 

Competência 1:

Analisar processos políticos, econômicos, sociais, ambientais e culturais nos âmbitos local, regional, nacional e mundial em diferentes tempos, a partir da pluralidade de procedimentos epistemológicos, científicos e tecnológicos, de modo a posicionar-se criticamente em relação a eles, considerando diferentes pontos de vista e tomando decisões baseadas em argumentos e fontes de natureza científica.

Competência 2:

Analisar e avaliar criticamente as relações de diferentes grupos, povos e sociedades com a natureza (produção, distribuição e consumo) e seus impactos socioambientais, com vistas à proposição de alternativas que respeitem e promovam a consciência, a ética socioambiental e o consumo responsável em âmbito local, regional, nacional e global.

 

Habilidade:

(EM13CHS502) Analisar situações de vida cotidiana, estilos de vida, valores, condutas etc., desnaturalizando e problematizando formas de desigualdade, preconceito, intolerância e discriminação, e identificar ações que promovam os Direitos humanos, a solidariedade e respeito às diferenças e às liberdades individuais.

 

Metodologia:

● Textos sobre o estoicismo e sua fundamentação teórica

● Aula expositiva, explicação oral

● Atividade “Sendo estoico por um dia” (questionário reflexivo)

 

Recursos didáticos:

Livro “Modernidade Líquida”, para ler sobre o consumismo. Textos impressos sobre o estoicismo, para auxiliar na interpretação de como o estoicismo contribui para a abordagem do problema. (Estoicismo: o que é, características, filósofos - Brasil Escola)

Questões a serem respondidas (no questionário)

 

Desenvolvimento:

Sobre o Livro Modernidade líquida, que terá sido ao longo do trimestre:

Apesar de serem abordagens filosóficas de contextos e épocas muito distintas, há possibilidade de interagir com o tema do livro em vários aspectos da obra.

Modernidade Líquida é um livro escrito pelo sociólogo e filósofo polonês Zygmunt Bauman, publicado originalmente no ano 2000. A obra é uma análise crítica da sociedade contemporânea, argumentando que a modernidade está passando por uma transformação profunda, que ele chama de "modernidade líquida". Bauman sustenta que a modernidade líquida é caracterizada pela fluidez, instabilidade e incerteza, em contraste com a "modernidade sólida" do passado, que era marcada pela estabilidade, ordem e certeza. Aqui estão alguns dos principais pontos abordados no livro:

● Liquidez: Bauman usa a metáfora da liquidez para descrever a sociedade

contemporânea, onde tudo está em constante mudança e fluxo. As estruturas sociais, políticas e econômicas são flexíveis e temporárias.

● Desconstrução da ordem: A modernidade líquida é caracterizada pela desconstrução das estruturas tradicionais, como a família, a comunidade e o Estado-nação.

● Individualismo: A sociedade contemporânea é marcada por um individualismo exacerbado, onde os indivíduos são encorajados a serem autônomos e responsáveis por suas próprias vidas.

● Consumismo: O consumo é um dos principais motores da modernidade líquida, onde as pessoas são estimuladas a comprar e descartar produtos, símbolos de status e identidade.

● Insegurança: A modernidade líquida é marcada pela insegurança e incerteza, onde as pessoas enfrentam riscos e ameaças desconhecidas.

● Desaparecimento da classe trabalhadora: Bauman argumenta que a classe trabalhadora tradicional está desaparecendo, substituída por uma classe de "trabalhadores precários".

● Globalização: A globalização é um dos principais fatores que contribuem para a modernidade líquida, criando uma economia e uma cultura globais.

● Crise da política: A modernidade líquida é marcada por uma crise da política, onde os partidos políticos tradicionais estão perdendo influência e legitimidade.

 

Cronograma:

2 períodos:

Apresentar o estoicismo com textos teóricos sobre a filosofia estoica e a mensagem dos pensadores estoicos. Estudo do tema.

texto a ser estudado: Estoicismo,

disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/filosofia/os-estoicos.

2 períodos:

Discutir em sala de aula a abordagem do tema individualismo e consumismo do livro modernidade líquida, temas um e dois do livro, correlacionado ao estoicismo. O objetivo de explorar o livro Modernidade líquida, de Zygmunt Bauman, é dialogar entre uma análise sociológica contemporânea e uma tradição filosófica antiga. Enquanto Bauman descreve o mundo moderno como um cenário de constante fluidez, incertezas e instabilidades, os estoicos oferecem uma abordagem prática para encontrar estabilidade interior em meio ao caos. A modernidade líquida destaca os desafios da fragmentação das relações humanas, do consumismo desenfreado e da ansiedade diante das mudanças rápidas, enquanto o estoicismo propõe ferramentas para cultivar a tranquilidade, focando no controle sobre nossas próprias ações e na aceitação do que escapa ao nosso domínio. Assim, a filosofia estoica surge como uma resposta atemporal aos dilemas da sociedade líquida, oferecendo caminhos para a resiliência e a serenidade diante de um mundo em constante transformação. A seguir tópicos a serem discutidos:

1. A Instabilidade da Modernidade Líquida e a Busca pela Serenidade estoica:

Bauman descreve a modernidade líquida como uma época marcada pela instabilidade, fluidez e incerteza, onde as relações, empregos e identidades são constantemente transformados. O estoicismo, por outro lado, oferece ferramentas filosóficas para enfrentar a incerteza com serenidade, valorizando a tranquilidade interna e o controle sobre o que está ao alcance da vontade.

Na modernidade líquida, as pessoas são frequentemente pressionadas a se adaptar rapidamente a mudanças e a lidar com ansiedades derivadas da volatilidade. O estoicismo pode ser visto como um antídoto, ensinando que não devemos sofrer pelo que não podemos controlar, como as mudanças externas e as instabilidades sociais.

2. Autonomia Pessoal em um Mundo Volátil

O estoicismo prega a importância de se focar naquilo que está sob o nosso controle (nossos pensamentos, ações e atitudes) e aceitar com tranquilidade aquilo que está fora dele. Em contraste, Bauman aponta que, na modernidade líquida, a autonomia pessoal é frequentemente ameaçada por pressões externas como consumismo, redes sociais e padrões de sucesso fluídos.

O estoicismo oferece uma maneira de resistir a essas pressões externas, promovendo a independência emocional e intelectual, o que pode ser um ponto de equilíbrio em um mundo onde tudo é passageiro.

3. As Relações Humanas: Instabilidade versus Virtude:

Bauman destaca a fragilidade das relações na modernidade líquida, onde os laços humanos se tornam mais frágeis e descartáveis. Por outro lado, o estoicismo valoriza a prática de virtudes, como a justiça e a empatia, nas interações humanas. A perspectiva estoica pode oferecer um contraponto ao cenário descrito por Bauman, incentivando relações baseadas em valores profundos e na reciprocidade genuína, em vez de interesses passageiros ou utilitários.

4. Ansiedade Contemporânea e Ataraxia estoica

A modernidade líquida é um terreno fértil para a ansiedade, já que nada parece sólido ou permanente. O estoicismo, com sua busca pela ataraxia (paz de espírito), pode ser um recurso filosófico para quem se sente sobrecarregado por essa fluidez. A prática de preceitos estoicos, como a visualização negativa (pensar no pior cenário para se preparar emocionalmente) e a meditação sobre a morte, ajuda a enfrentar a volatilidade moderna com mais equilíbrio.

5. O Estoicismo como Resistência ao Consumismo

Bauman argumenta que a modernidade líquida é profundamente consumista, promovendo a ideia de que felicidade está ligada à aquisição constante de bens. O estoicismo, por sua vez, defende a frugalidade e a satisfação com o essencial, oferecendo uma filosofia de vida que resiste a essa mentalidade consumista. O estoicismo pode ser uma ferramenta poderosa para lidar com as dificuldades da modernidade líquida. Sua ênfase na autodisciplina, na aceitação do incontrolável e na busca por um propósito interno proporciona um contraste interessante e um caminho para uma vida mais equilibrada em tempos de instabilidade.

2 períodos:

Propostas de questões para o questionário: “Sendo estoico por um dia”.

Os alunos receberão previamente as perguntas e nas duas últimas horas aula responderão ao questionário em um debate reflexivo.

1) O que realmente traz felicidade? Possuir bens materiais ou desenvolver virtudes como sabedoria, justiça e temperança?

2) Até que ponto o consumismo está alinhado com o conceito estoico de viver com conformidade com a natureza?

3) O consumismo é uma busca por controle externo (status, aparência, conforto)? Como os estoicos lidariam com essa busca?

4) Por que, para os estoicos, o controle sobre nossas reações e desejos é mais importante do que acumular objetos ou riquezas?

5) O consumismo é alimentado pelo desejo de “possuir mais”. Como o estoicismo ensina a lidar com esses desejos?

6) O consumismo pode ser visto como uma forma de escravidão emocional? Como o estoicismo propõe alcançar a liberdade verdadeira?

7) Os estoicos defendiam uma vida simples e moderada. Como podemos aplicar esse ensinamento em uma sociedade consumista?

8) Existe espaço para o consumismo dentro de uma vida moderada e racional?

9) O consumismo prejudica a natureza e a sociedade. Como o cosmopolitismo estoico, que vê todos como parte de uma comunidade universal, responde e esses impactos?

10) Os estoicos valorizam a autossuficiência. Como isso pode ser aplicado como uma crítica ao consumismo?

11) Como os estoicos nos ajudariam a adotar um estilo de vida mais minimalista e consciente?

Proposta de Culminância e avaliação:

Feira das Eletivas

A Feira das Eletivas é a proposta de culminância da disciplina. Ao final do trimestre é apresentado à escola o tema desenvolvido. Os alunos apresentarão o livro lido previamente e farão a relação com o estoicismo, uma forma de solução à problemática da justificativa do trabalho. Será avaliada a participação individual na participação da feira e ao longo do trimestre na participação diária das atividades propostas.

 

Considerações finais

 

O objetivo deste Trabalho de Conclusão de Curso foi analisar formas de apresentar o estoicismo de forma prática no ensino médio para além da disciplina de filosofia em si. O estoicismo é atemporal, e proporciona uma orientação clara e objetiva no que diz respeito à prática das virtudes para uma vida consciente e responsável, diante de uma juventude tecnológica e por muitas vezes sem práticas a respeito de questões sociais e éticas. Inserir os ensinamentos estoicos através dos diversos Temas Transversais com mensagens acessíveis, compreensíveis e a instrução da sua doutrina filosófica e seus aspectos antropológicos poderá contribuir para uma melhor visão de mundo.

Os Temas Contemporâneos Transversais, como ética, meio ambiente, pluralidade cultural e saúde, analisados pelo estoicismo, podem oportunizar ao estudante refletir sobre atitudes críticas e proativas. A proposta de analisar o tema consumismo se encaixa no subtema Educação para o consumo e conciliando com a filosofia estoica propõe-se que haja uma sensibilização para uma vida mais consciente e o tanto quanto possível, minimalista.

A prática estoica é um trabalho habitual que não se conquista em uma ou duas horas/aula. Eu diria que é uma atividade recorrente, mantida ao longo da vida e adquirida principalmente com o advento da maturidade. E também considero que não seja algo superficial apenas de livros de autoajuda ou mensagens motivacionais. Caberá ao estudante reter ou não as boas práticas deste ensinamento e aplicá-las em algum momento de sua vida.

A finalidade deste Trabalho de Conclusão não é “converter” o adolescente ou

“ensiná-lo” que os princípios estoicos sejam o único caminho de uma vida tranquila e equilibrada, afinal, a escola não é igreja, mas apenas propor uma forma de inserir em seu cotidiano, ensinamentos milenares tão atuais que trazem o resgate de virtudes e valores essenciais à sociedade humana.

Penso que a filosofia tem o poder de transcender o tempo a ajudar a moldar vidas de forma significativa, independente da época em que seus ensinamentos sejam lidos.

 

 

Referências

 

BRASIL. Ministério da Educação. Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Básica. MEC, 2013. Brasília, DF, 2013. Disponível em:

http://portal.mec.gov.br/docman/junho-2013-pdf/13448-diretrizes-curiculares-nacionais-2013- pdf - Acesso em 21 Nov. 2024.

 

BRASIL. Ministério da Educação. TEMAS CONTEMPORÂNEOS TRANSVERSAIS NA BNCC. Brasília, DF,2019. Disponível em:

http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/implementacao/contextualizacao_temas_contemporaneos.pdf acesso em 24 de novembro de 2024.

 

CASTRO, A.H. Os Temas transversais na Escola Básica.

Barretos, 2007. Disponível em:

https://educador.brasilescola.uol.com.br/gestao-educacional/os-temas-transversais-na-escola-basica.htm acesso em 01 de novembro de 2024.

 

CARVALHO, M. e CORNELLI, G. Ensinar Filosofia, Especialização em Ensino de Filosofia para o Ensino Médio volume 2. MT: Central de Texto,2013.

EPICTETO, A Arte de Viver, ENCHEIRIDION. SP: Camelot, 2021.

 

HADOT, Pierre. Exercícios espirituais e filosofia antiga I. São Paulo: Editora São Paulo,2014.

 

HADOT, Pierre. O que é a Filosofia Antiga? SP: Edições Loyola, 2014

 

HAMMERSCHMITT, V.L, SCHWENGHER, L, M. MAYER, L.

Filosofia e Educação, Temas Transversais. SC: SCHREIBEN, 2021.

 

MARCONDES, Danilo. Iniciação à história da filosofia: dos pré-socráticos a

Wittgenstein. – 2 ed. rev. ampl. – RJ: Zahar, 2007.

 

MARSOLA, Maurício. Como dirigir sua vida de acordo com a natureza. You tube, 2020. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=3rluVgkokcE Acesso em: 20 de novembro de 2024.

 

MARCO AURÉLIO, Meditações. SP: Camelot, 2021. 35

 

OLIVEIRA, M. Estoicismo. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/filosofia/os-estoicos, acesso em 19 de novembro de 2024

 

REALE, Giovanni - ANTISERI, Dario. História da Filosofia Volume I, Filosofia Pagã Antiga. SP: Paulus,2003.

 

RIO GRANDE DO SUL. Seduc Rs. Matrizes curriculares do Novo Ensino Médio. Porto Alegre, RS, 2024. Disponível em: http://educacao.rs.gov.br acesso em 21 de novembro de 2024.

 

RIO GRANDE DO SUL. Seduc RS. OCEM Orientações Curriculares para o Ensino Médio Volume 3 Ciências Humanas e suas Tecnologias. Porto Alegre. RS,2024. Disponível em: http://educacao.rs.gov.br acesso em 21 de novembro de 2024

 

RIO GRANDE DO SUL. Seduc. Unidades Curriculares Eletivas, EMG e EMGTI. Porto Alegre.RS,2024. Disponível em: http://educacao.rs.gov.br acesso em 21 de novembro de 2024.

 

SÊNECA, Sobre a brevidade da vida. SP: Camelot, 2021

 

SÊNECA, MARCO AURÉLIO, EPICTETO ,365 Reflexões estoicas. SP: Camelot, 2022.

 

VAN NATTA, M. Para entender o Estoicismo. SP: Cultrix, 2021.

 

VAZ, J.C. A importância do ensino do estoicismo na educação básica. Disponível em http://sevenpublicacoes.com.br acesso em 22 novembro de 2024. SP: FAETEL,2014

 

CC.png 

This work is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial 4.0 International (CC BY-NC 4.0)