Apresentação do Dossiê Ensino de Filosofia sob o Impacto das Tecnologias Digitais

 

Valéria Cristina Lopes Wilke

Professora Associada do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro/Unirio

Antonio Júlio Garcia Freire

Professor Adjunto de Filosofia da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte/UERN

 

Recebido em 12 de dezembro de 2024

Aprovado em 12 de dezembro de 2024

Publicado em 23 de dezembro de 2024

 

Testemunhamos hoje diferentes consequências decorrentes do modelo de negócios das Big Techs e, por conseguinte, do modo como o trânsito informacional pelas infovias é realizado. Esse último fenômeno é basicamente marcado pelos algoritmos e pelo formato mercadológico, que abrem espaço para a disseminação de conteúdos desinformativos, ou com alto teor da toxicidade das informações circulantes, que têm, por um lado, impactado o campo do ensino de Filosofia e, por outro, provocado o questionamento e também o desenvolvimento de estratégias e recursos que podem ser implementadas para promover o pensamento crítico e a prática responsável entre os e as estudantes.

Por conseguinte, a Revista Digital de Ensino de Filosofia - REFilo tem a satisfação de apresentar o dossiê Ensino de Filosofia sob o Impacto das Tecnologias Digitais, uma rica coletânea de reflexões críticas e pesquisas acadêmicas sobre as transformações profundas que as tecnologias digitais vêm impondo ao ensino de Filosofia. Com foco nos desafios e nas oportunidades que emergem para professores e estudantes, o dossiê busca explorar como a disciplina pode se posicionar frente às dinâmicas de uma sociedade contemporânea marcada pela aceleração da informação e pela reconfiguração das práticas pedagógicas. O dossiê  objetiva oferecer à comunidade acadêmica e escolar uma coletânea de estudos e análises que apresentam investigações sobre os encontros e desencontros emergentes na disciplina de Filosofia na educação básica frente ao cenário tecnológico atual. Ao reunir vozes diversas e experiências variadas, buscamos fomentar um debate enriquecedor que possa inspirar docentes e pesquisadores a conhecerem aspectos fundamentais presentes no cenário infocomunicacional digital, a repensarem suas práticas e também a explorarem novas possibilidades de ensino. Acreditamos, ademais, que os artigos contribuem significativamente para a compreensão e para a mudança das práticas educacionais em tempos de acelerada transformação tecnológica.

            O avanço das tecnologias, redes e mídias digitais, da crescente plataformização digital de diferentes âmbitos da vida humana e não humana, transformou de maneira profunda as dinâmicas sociais, econômicas, políticas, culturais e educacionais da contemporaneidade. No contexto brasileiro, a interseção entre as tecnologias digitais, as redes e mídias sociais e o ensino de filosofia emerge como um campo fértil para a investigação acadêmica, especialmente em um contexto onde a digitalização, a dataficação e a plataformização da educação se tornam cada vez mais predominantes nas práticas e na gestão educacionais. No campo do ensino de Filosofia, testemunhamos multifacetados impactos que têm provocado crescentes debates, e também exigido reflexões críticas e reavaliação constante das práticas pedagógicas e das políticas públicas.

Partimos do reconhecimento de que as redes digitais, as mídias interativas e as tecnologias de informação têm alterado, de forma significativa, não apenas os métodos de ensino, mas também as bases epistemológicas e éticas que sustentam a educação. No caso da Filosofia, essas mudanças são especialmente relevantes, pois afetam diretamente sua essência formativa, que visa desenvolver o pensamento crítico e a reflexão sobre a existência, o conhecimento e a ação. Nesse contexto, o dossiê reúne contribuições que analisam como o ensino de Filosofia pode responder às demandas de um desafiador cenário em constante mudança.

Os artigos desta edição oferecem uma diversidade de perspectivas teóricas e metodológicas. Em primeiro lugar, destacam-se as discussões sobre os impactos das tecnologias digitais na subjetividade dos e das estudantes e nas dinâmicas das salas de aula. Essas análises mostram como o regime de atenção atual, caracterizado pela dispersão e superficialidade, desafia práticas pedagógicas tradicionais. Nesse sentido, propõe-se um papel renovado para a Filosofia, que deve promover concentração e profundidade reflexiva, ajudando os estudantes a superar a alienação e o consumo passivo de informações.

Outro conjunto de textos explora o uso inovador das tecnologias no ensino de Filosofia, com destaque para abordagens como a gamificação e a ficção interativa. Metodologias baseadas em narrativas não lineares são analisadas por seu potencial de engajar os alunos em dilemas éticos e debates filosóficos. Ao permitir que os estudantes assumam papéis decisórios em cenários simulados, essas práticas tornam o aprendizado mais dinâmico e significativo, enquanto facilitam a compreensão de conceitos abstratos e estimulam o pensamento crítico e criativo.

A formação docente também é um ponto central neste dossiê. Os artigos indicam como os cursos de licenciatura em Filosofia podem ser reorganizados para preparar os futuros professores a enfrentarem as demandas tecnológicas. A formação proposta vai além do domínio técnico, incluindo uma preparação crítica e ética, capaz de capacitar as e os educadores a utilizarem as tecnologias como aliadas na promoção da autonomia intelectual e da cidadania digital dos alunos. Relatos de experiências ilustram como a integração das tecnologias digitais ao ensino de Filosofia pode contribuir para a formação ético-política de professores e estudantes.

Um tema de grande relevância abordado neste volume é o impacto das redes sociais no contexto educacional. Os artigos analisam os riscos da disseminação de desinformação, pós-verdade e conteúdos tóxicos, e sugerem estratégias pedagógicas para um uso crítico e consciente dessas plataformas. Aqui, o ensino de Filosofia é destacado como espaço de resistência, incentivando a reflexão sobre as condições de produção e circulação da informação na sociedade digital.

Outro eixo de discussão aborda os desafios da plataformização educacional e seus possíveis impactos sobre a autonomia docente e a gestão escolar. Embora as plataformas digitais ofereçam potencial para ampliar o acesso e personalizar o ensino, o debate ressalta a necessidade de resistir a modelos que priorizem métricas de eficiência em detrimento de objetivos pedagógicos mais amplos, como a formação integral e o estímulo ao pensamento crítico.

Com a publicação deste dossiê, a REFilo reafirma seu compromisso com a difusão de pesquisas que conectam Educação e Filosofia, promovendo o diálogo acadêmico e o avanço do conhecimento. Em tempos de rápidas transformações tecnológicas, o ensino de Filosofia precisa se reinventar, preservando seus valores formativos enquanto responde às exigências do presente. Este volume, ao reunir análises críticas, relatos de experiências e propostas pedagógicas, representa uma contribuição essencial para essa renovação.

Esperamos que este conjunto de textos seja uma fonte de inspiração para professores, estudantes e pesquisadores, incentivando práticas educativas que valorizem o pensamento crítico, a ética e a reflexão como pilares indispensáveis para a formação humana em um mundo digitalizado.

 

APRESENTAÇÃO DOS ARTIGOS

A intersecção entre Filosofia, Tecnologia e Educação é a proposta de análise do artigo As Tecnologias Digitais como condição habitativa e o Ensino de Filosofia. Ela é abordada a partir do impacto das tecnologias digitais na sociedade contemporânea e sua relevância para o ensino de filosofia na educação básica, considerando três questões apontadas: (i) Que tipo de filosofia deve ser utilizada nas escolas para atender às diretrizes da LDB?; (ii) Como a tecnologia molda nossa experiência social e subjetividade, exigindo uma reflexão crítica que transcenda o ensino técnico?; e (iii) De que maneira o ensino da filosofia pode conectar a mobilização filosófica na escola com uma compreensão crítica da tecnologia?. O autor Gilberto Miranda Junior argumenta que, dada a profunda imersão das tecnologias digitais nos diferentes âmbitos da vida contemporânea, é essencial que o ensino de filosofia capacite os e as estudantes para refletirem criticamente sobre essas condições habitativas. Isso inclui questionar as estruturas que coisificam o ser humano em favor dos interesses dos detentores do poder exercido, inclusive, por meio do arcabouço tecnológico do complexo infocomunicacional internético e, simultaneamente, descolonizar o imaginário social construído em torno das tecnologias contemporâneas. O artigo defende, ademais, que o ensino de filosofia deva ser alterado para incluir a reflexão sobre as novas condições da realidade agora (também) digital, a fim de promover uma educação crítica que permita aos e às estudantes questionarem e transformarem suas experiências tecnológicas.

O artigo O Ensino de Filosofia na Sociedade do Desempenho: implicações tecnológicas neoliberais na escola e a importância das emoções na aprendizagem apresenta uma análise crítica sobre o impacto das dinâmicas neoliberais no contexto educacional contemporâneo. Fundamentado em uma metodologia teórico-bibliográfica, o estudo examina as pressões impostas pela sociedade do desempenho e seu reflexo no ambiente escolar, enfatizando o papel das tecnologias digitais no reforço dessas lógicas. A partir de uma perspectiva filosófica, o artigo propõe o ensino de filosofia como uma prática emancipatória que promove o pensamento crítico, resistindo à lógica do capital de vigilância. O(a) autor(a) destaca ainda a importância das emoções como elementos centrais na aprendizagem, contrapondo-se ao enfoque excessivamente racional e performático do atual sistema educacional. A pesquisa oferece reflexões pertinentes para docentes, pesquisadores e gestores educacionais, ao defender uma educação que valorize o pensamento crítico e a integralidade do sujeito em um mundo marcado pela digitalização e pela hiperconexão.

No dramático panorama contemporâneo atravessado pela ampla disseminação de Fake News e por diferentes tipos de Negacionismos, o artigo Marketing preditivo: a armadilha da personalização da informação aborda o conceito de marketing preditivo na sua relação com a personalização da informação. O autor Thalles Rodrigues Oliveira propõe uma análise pragmática da personalização algorítmica, fundamentada na filosofia de Charles Sanders Peirce. Segundo Peirce, a crença conduz a um estado de tranquilidade levando os usuários a agirem motivados pelo Método da Tenacidade, que prioriza a satisfação pessoal em detrimento de uma base racional para a fixação das crenças. Essa dinâmica contribui para o fortalecimento do contexto Pós-Verdade, onde elementos como Fake News e Negacionismo emergem. A Fake News é definida como um discurso manipulativo, enquanto o negacionismo expressa um sentimento de ódio e desconfiança em relação às instituições científicas e estatais, comprometendo a produção de conhecimento. Em suma, o texto explora como a personalização da informação e as crenças dos usuários influenciam a sociedade atual, refletindo os desafios impostos pela era da informação.

O artigo Vigilância Digital e o Ensino de Filosofia: reflexões para uma educação crítica digital explora o tema da vigilância digital fundamentando-se nas teorias de David Lyon, e discute sua relevância como um fenômeno cultural contemporâneo. A vigilância digital, que desvela preferências e comportamentos dos indivíduos interconectados, é apresentada como um problema significativo para a educação. O autor Marcos Fernandes de Rezende Junior argumenta que entender a lógica e a dinâmica dos sistemas de coleta e classificação de dados contribui para a ressignificação das práticas digitais e também para a formação de uma postura crítica em relação às tecnologias digitais, especialmente através do ensino de filosofia. Para o autor, a vigilância digital deve ser discutida no contexto educacional para formar cidadãos críticos e conscientes das implicações éticas e sociais das tecnologias que permeiam suas vidas. A filosofia é defendida como uma ferramenta essencial para abordar as raízes dos problemas relacionados à vigilância digital, uma vez que favorece reflexões que desafiam o senso comum.

            As consequências do contexto da crescente plataformização educacional presente na educação brasileira fornecem o pano de fundo para o desenvolvimento do artigo Entre a Filosofia e a Tecnologia: Reflexões sobre a formação da Consciência Crítica por meio do Currículo Paulista no Novo Ensino Médio. Os autores analisam a formação da consciência crítica dos e das estudantes, nas escolas públicas de São Paulo, através do uso de tecnologias digitais no ensino de filosofia, especialmente após as mudanças implementadas pelo Novo Ensino Médio e, em 2020, pelo Currículo Paulista. A abordagem está dividida em três aspectos, a saber, a diminuição das aulas de filosofia no Novo Ensino Médio a partir da redução progressiva na carga horária; a obrigatoriedade dos materiais digitais fornecidos pela Secretaria da Educação, questionando sua eficácia e aplicabilidade no contexto educacional; e a ressonância do papel de plataformas como BI Educação, Tarefa SP e Prova Paulista sobre o ensino de filosofia no estado de São Paulo. Os autores enfatizam que a reflexão crítica, fundamental para o ensino de filosofia, está sendo prejudicada pelo modelo atual de utilização das tecnologias nas escolas.

No artigo Ensinar as subjetividades digitalizadas a filosofar: pensando o ensino de Filosofia a partir de Paula Sibilia e Gerd Bornheim, o autor Bruno de Brito Rosa oferece uma reflexão teórica sobre os impactos das tecnologias digitais no ensino de filosofia e sua relação com a formação das subjetividades contemporâneas. Baseado em uma análise bibliográfica, o estudo articula as perspectivas críticas de Paula Sibilia sobre o papel da escola em tempos digitais e as propostas filosóficas de Gerd Bornheim acerca do filosofar. O texto explora três dimensões fundamentais do pensamento de Bornheim: a admiração ingênua, o dogmatismo e a negatividade, destacando como esses conceitos podem ser repensados no contexto das tecnologias digitais. Ao integrar essas abordagens, o artigo propõe o filosofar como uma prática crítica e emancipatória, capaz de confrontar os desafios impostos pelo ambiente digital, ressignificando a relação professor-aluno e promovendo a construção de subjetividades mais reflexivas e críticas na educação básica.

Em Algumas reflexões sobre os desafios para o ensino escolar de filosofia na Sociedade do Desconhecimento, os autores nos brinda com uma análise crítica sobre a relação entre a filosofia e o ambiente educacional contemporâneo, marcado pela desinformação e pela influência das redes digitais. Baseando-se em conceitos como agnotologia e vícios epistêmicos, são explorados os impactos da aceleração tecnológica, da disseminação de fake news e da superficialidade do conhecimento na formação de estudantes. A pesquisa destaca a filosofia como uma ferramenta essencial para enfrentar esses desafios, promovendo a criticidade e a rejeição de respostas simplistas. Em um cenário de reformas educacionais e ameaças à manutenção da disciplina no currículo da educação básica, o texto defende o ensino de filosofia como uma prática indispensável para formar cidadãos reflexivos, capazes de lidar com problemas complexos. A análise reforça a necessidade de resistir às forças que promovem a indiferença epistêmica e a fragmentação do saber.

O artigo O potencial de uso da Ficção Interativa (FI) e o Twine no ensino de Filosofia explora o impacto das metodologias imersivas e gamificadas no ensino médio brasileiro, com foco no uso da ferramenta Twine®. A pesquisa destaca como a FI, através de narrativas interativas e não lineares, possibilita aos alunos vivenciar dilemas éticos e debates filosóficos de maneira prática e reflexiva. Através do Twine®, os professores podem criar jogos educativos que integram conceitos filosóficos abstratos a experiências interativas, promovendo maior engajamento e pensamento crítico. O texto sublinha que a gamificação não substitui métodos tradicionais, mas complementa o ensino, tornando-o mais acessível e dinâmico. Conclui-se que a FI tem o potencial de transformar o ensino de Filosofia, facilitando a compreensão de conceitos complexos e incentivando uma aprendizagem participativa e significativa, adequada às realidades digitais e às demandas educacionais contemporâneas.

Espera-se, pois, que este dossiê não apenas amplie o conhecimento sobre as práticas pedagógicas contemporâneas no ensino de filosofia, mas também contribua para o desenvolvimento de abordagens críticas em relação ao crescente uso das tecnologias digitais na educação.

 

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