Resenha de “Metodologia e prática de pesquisa em filosofia”

Review of “Methodology and practice of research in philosophy”

 

BARBOSA, Evandro; COSTA, Thaís Christina Alves. Metodologia e prática de pesquisa em filosofia. Pelotas: NEPFIL Online, 2015. 110p. (Série Dissertatio-Incipiens)

 

Rodrigo Petit

Universidade Estadual de Campinas, Campinas, SP, Brasil

rodrigopetit@gmail.com

 

Recebido em 08 de novembro de 2024

Aprovado em 19 de novembro de 2024

Publicado em 29 de abril de 2025

 

RESUMO  

Nesta resenha, apresentamos o livro Metodologia e prática de pesquisa em filosofia, que se destaca por seu caráter inovador, pois há carência de trabalhos voltados ao tema. Ele é amplamente indicado para estudantes de graduação em Filosofia, principalmente como introdução ao universo da pesquisa. Assim, seus capítulos foram organizados de maneira pedagógica para que os futuros pesquisadores da área desenvolvam suas habilidades de planejamento, leitura e escrita de textos filosóficos.

Palavras-chave: Metodologia; Pesquisa em filosofia; Prática de pesquisa. 

 

ABSTRACT  

In this review, we present the book Methodology and Practice of Research in Philosophy, which stands out for its innovative nature, as there is a lack of works focused on this theme. It is highly recommended for undergraduate students in Philosophy, mainly as an introduction to the world of research. Thus, its chapters are pedagogically organized so that future researchers in the field can develop their skills in planning, reading, and writing philosophical texts.

Keywords: Methodology; Research in Philosophy; Research Practice.


 

Em sentido amplo, pesquisar consiste no ato de buscar informações sobre determinado assunto, visando à solução de um problema. A pesquisa científica e a filosófica, contudo, constituem modalidades especializadas de investigação, pesquisa stricto sensu, que compartilham uma característica fundamental: a aplicação sistemática de métodos na solução de problemas. A Metodologia, por sua vez, é uma disciplina que estuda os métodos utilizados na pesquisa científica e na filosófica, questionando seus pressupostos, fundamentos e limites. Segundo Vera (1976, p. 8), a Metodologia é um campo do saber que realiza:

 

[...] o estudo analítico e crítico dos métodos de investigação e prova. Deste ponto de vista, podemos definir a metodologia como a descrição, análise e avaliação crítica dos métodos de investigação. A tarefa fundamental desta disciplina será avaliar os recursos metodológicos, assinalar suas limitações e, sobretudo, explicitar seus pressupostos e as conseqüências de seu emprego. Poder-se-ia afirmar que, ainda que a metodologia não seja uma condição suficiente para o êxito de uma pesquisa, é, sem dúvida, uma condição necessária (no sentido matemático do termo).

 

Ao pesquisar nos acervos de bibliotecas públicas e universitárias, é comum encontrar bons livros sobre “metodologia da pesquisa científica”, como os de Vera (1976) e Chehuen Neto (2012). No entanto, ao buscarmos obras voltadas especificamente para a “metodologia da pesquisa em filosofia”, percebemos que há pouco material disponível sobre o tema.

Não por acaso, nesta resenha, apresentamos um livro dedicado especificamente à metodologia da pesquisa em filosofia, voltado a alunos de graduação e que foi elaborado por dois autores com ampla formação acadêmica. O primeiro deles, Evandro Barbosa, tem mestrado em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2006) e doutorado em Filosofia pela mesma instituição (2010). Seus principais temas de interesse são: metaética, filosofia política, filosofia do direito e teorias da justiça. Atualmente, ele é professor nos Programas de Graduação e Pós-Graduação em Filosofia da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e, em 2019, foi coordenador do Curso de Licenciatura em Filosofia EaD da UFPel (Barbosa, 2024). Thaís C. A. Costa, por sua vez, é mestre em Filosofia pela UFPel e doutora em Filosofia pela mesma instituição (2022). Foi professora do curso de graduação em Filosofia EaD na UFPel, em 2017 e 2018. Atualmente, ela leciona na Universidade Federal de Santa Maria (Costa, 2024).

Vale destacar que o livro Metodologia e prática de pesquisa em filosofia está com seu acesso aberto e, portanto, disponível sem restrições no site do Repositório Institucional da UFPel (Guaiaca). Seu link de acesso pode ser conferido nas referências desta resenha (Barbosa; Costa, 2015).

Ele tem como público-alvo estudantes de Filosofia e o seu objetivo central é contribuir para que os futuros pesquisadores da área compreendam “a importância dos elementos formais que cercam a pesquisa filosófica, seja para facilitar o seu trabalho, seja para torná-lo mais consistente” (Barbosa; Costa, 2015, p. 105). Permitindo, inclusive, que os futuros filósofos desenvolvam as habilidades de leitura e escrita de textos filosóficos, que são essenciais para a prática da pesquisa de excelência.

Seu primeiro capítulo, Filosofia: questões recorrentes, apresenta uma definição da filosofia, esclarecendo duas questões: i) qual a característica fundamental da filosofia? ii) qual a importância dessa disciplina? Segundo os autores, a filosofia caracteriza-se por ser um tipo de saber reflexivo, questionador e metódico. Assim, a investigação filosófica segue uma abordagem sistemática para a resolução de problemas, desenvolvendo-se através das seguintes etapas fundamentais:

a) identificação do problema: delimitação clara da questão a ser investigada;

 b) contextualização: análise do contexto e das relações envolvidas para compreender as nuances do problema;

 c) formulação de hipóteses: proposição de explicações plausíveis que respondam coerentemente à questão;

d) justificação: fundamentação das respostas com argumentos sólidos, considerando tanto o núcleo da questão quanto aspectos correlatos.

 Dessa forma, o processo filosófico exige rigor metodológico para assegurar que as conclusões sejam bem embasadas e criticamente refletidas.

 

Com isso, somos convidados a revisar nossas crenças a todo o momento, na medida em que nossas respostas repousam sobre argumentos passíveis de revisão e crítica. De certa forma, este trabalho filosófico de refinar nossas respostas e soluções é o que permite aprimorar e aumentar o nível de justificação da argumentação filosófica. (Barbosa; Costa, 2015, p. 25-26).

 

Além disso, a filosofia é uma reflexão profunda sobre a possibilidade e os limites do próprio conhecimento, o que torna seu estudo especialmente relevante e recomendado.

O segundo capítulo, Filosofia: método de investigação, traz à tona quatro questões, que devem ser consideradas por qualquer estudante de filosofia: i) o que é método? ii) o que é metodologia científica? iii) quais os tipos de métodos disponíveis para uso? iv) quais os tipos de pesquisas existentes? De acordo com os autores, o método é um caminho para alcançar um objetivo, sendo sua aplicação essencial em qualquer investigação filosófica ou científica. Trata-se de um meio de análise sistemática e controlada dos fenômenos, que parte de um planejamento rigoroso para atingir seu propósito: a produção de conhecimento filosófico e científico. No sentido moderno, a noção de método está estreitamente vinculada à filosofia do autor de Discurso do Método, o francês René Descartes, que ressaltou a necessidade de ordem e organização na condução da pesquisa filosófica ou científica.

 A metodologia científica, por sua vez, é um ramo da lógica dedicado ao estudo das regras e princípios que orientam a investigação científica e filosófica, visando à sua eficácia. Para obter sucesso, toda pesquisa deve ser cuidadosamente planejada, seguindo etapas metodológicas fundamentais que se sucedem em uma sequência lógica: i) escolha do tema, ii) delimitação do tema e iii) coleta de dados. Na pesquisa filosófica, especificamente, seis métodos fundamentais são amplamente utilizados: o indutivo, o dedutivo, o hipotético-dedutivo, o dialético, e o fenomenológico. Além disso, referentes aos tipos de pesquisa existentes, de modo geral, estas podem ser classificadas conforme seu foco, que pode ser: no objeto, nos procedimentos técnicos, no problema ou na natureza da investigação.

O terceiro capítulo, Elaboração de textos filosóficos, analisa duas habilidades essenciais que o estudante de filosofia deve desenvolver, pois são pré-requisitos fundamentais para a formação de bons pesquisadores em qualquer área do conhecimento.

A primeira delas é a capacidade de leitura crítica de textos filosóficos.   Segundo os autores, diferentemente da leitura espontânea do cotidiano, a leitura crítica é conduzida de forma técnica e sistemática, seguindo etapas que ocorrem em uma sequência lógica: i) análise textual, ii) análise temática, iii) problematização. A análise textual representa o primeiro contato do leitor com o texto filosófico, consistindo em uma leitura inicial voltada para a identificação do assunto, da estrutura do texto e dos traços fundamentais do pensamento do autor. A análise temática concentra-se na compreensão do raciocínio do autor, permitindo ao leitor identificar com clareza três aspectos centrais: o problema abordado, a defesa do ponto de vista do autor e a relação entre suas ideias centrais e secundárias. Já a problematização corresponde ao momento de diálogo do leitor com o texto, no qual são levantadas hipóteses sobre seu conteúdo, possibilitando que o leitor desenvolva um posicionamento próprio.

Por sua vez, a segunda habilidade essencial para a formação de bons pesquisadores é a capacidade de elaborar textos acadêmicos básicos, compreendendo seu conceito e estrutura. Entre esses textos, destacam-se o resumo, a resenha, o fichamento, o pôster e o artigo científico.

Por fim, o quarto capítulo, Projeto de monografia, serve como um guia para o estudante conduzir com êxito uma pesquisa filosófica de natureza monográfica. De modo geral, esse capítulo esclarece a seguinte questão: como ocorre o planejamento, o desenvolvimento e a apresentação de uma monografia? Segundo os autores, a investigação acadêmica, por se tratar de uma atividade racional, segue normas e procedimentos padronizados, sendo o planejamento do projeto de pesquisa sua etapa mais importante.

Referente à sua estrutura geral, todo projeto monográfico deve responder a três questões essenciais: i) qual é o assunto da pesquisa? ii) de que forma será investigado? iii) qual a sua relevância? No planejamento da investigação, essas questões são detalhadas nos seguintes tópicos:

a) definição do assunto: corresponde ao tema proposto para a pesquisa, que deve ser atrativo e relevante;

b) delimitação do assunto: consiste na restrição lógica do tema por meio da adição de termos específicos. Por exemplo, o assunto “Platão” pode ser delimitado com a inclusão de novos elementos que restringem seu significado, como na frase: “O conceito de amor em Platão”;

c) justificativa da pesquisa: consiste na fundamentação da relevância do tema investigado;

d) revisão de literatura: realizada por meio de pesquisa bibliográfica, é um estudo preliminar e sintetizado de textos e obras que abordam o problema investigado;

e) formulação do problema: refere-se à construção do questionamento central da pesquisa, o qual deve ser apresentado de forma clara e objetiva;

f) procedimentos metodológicos: corresponde ao detalhamento das estratégias e recursos necessários para alcançar os objetivos da pesquisa;

g) análise dos dados: após a coleta, conforme descrito nos procedimentos metodológicos, os dados devem ser organizados e classificados para interpretação;

h) discussão dos resultados: etapa em que os resultados obtidos são analisados criticamente à luz do pensamento do autor escolhido como referência;

i) cronograma: planejamento detalhado do tempo necessário para a execução de cada fase da pesquisa.

Quanto ao seu conceito, a monografia é um tipo de pesquisa que aborda um problema único, de maneira aprofundada. E, após a execução da pesquisa monográfica, a apresentação dos resultados do trabalho possui a seguinte estrutura: i) introdução, ii) desenvolvimento, iii) considerações finais, iv) referências bibliográficas.

Ao realizar um balanço crítico, observa-se que o livro Metodologia e prática de pesquisa em filosofia apresenta aspectos relevantes a serem destacados. Sua principal inovação está na abordagem de um tema sobre o qual há escassez de publicações, como pode ser constatado por meio de buscas nos acervos da Universidade de São Paulo (2024) e da Universidade Estadual de Campinas (2024). Outro ponto positivo é que ele foi escrito especificamente para estudantes de Filosofia; assim, seus capítulos foram organizados de maneira pedagógica para que os futuros pesquisadores da área desenvolvam suas habilidades de leitura, escrita e planejamento de pesquisa.

Desse modo, o livro Metodologia e prática de pesquisa em Filosofia é amplamente indicado para estudantes de graduação em Filosofia, principalmente como introdução ao universo da pesquisa.

 

Referências

BARBOSA, Evandro. Currículo do sistema currículo Lattes. [Brasília], 29 ago. 2024. Disponível em: http://lattes.cnpq.br/4540090727696342. Acesso em: 26 out. 2024.

 

BARBOSA, Evandro; COSTA, Thaís Christina Alves. Metodologia e prática de pesquisa em filosofia. Pelotas: NEPFIL Online, 2015. 110p. (Série Dissertatio-Incipiens). Disponível em: https://guaiaca.ufpel.edu.br/handle/prefix/6300. Acesso em: 26 de out. de 2024.

 

CHEHUEN NETO, José Antônio. Metodologia da pesquisa científica: da graduação à pós-graduação. Curitiba: CRV, 2012. 

 

COSTA, Thaís Christina Alves. Currículo do sistema currículo Lattes. [Brasília], 29 ago. 2024. Disponível em: http://lattes.cnpq.br/0301338236642593. Acesso em: 26 out. 2024.

 

Universidade de São Paulo. Banco de dados bibliográficos da USP. Mecanismo de busca do DEDALUS. São Paulo, SP, 2024. Disponível em: https://dedalus.usp.br/. Acesso em: 26 out. 2024.

 

Universidade Estadual de Campinas. Catálogo Acervus. Mecanismo de busca do Catálogo Acervus. Campinas, SP, 2024. Disponível em: https://www.sbu.unicamp.br/sbu/catalogo-base-acervus/. Acesso em: 26 out. 2024.

 

Universidade Federal de Pelotas. Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Pelotas. Núcleo de Ensino e Pesquisa em Filosofia. Pelotas, RS, 2024. Disponível em: https://wp.ufpel.edu.br/nepfil/sobre/. Acesso em: 26 out. 2024.

 

VERA, Armando Asti. Metodologia da pesquisa científica. 8. ed. Porto Alegre: Globo, 1976.

 

CC.png 

This work is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial 4.0 International (CC BY-NC 4.0)