As possibilidades de pensar a educação e a formação docente pelo PIBID: experiência com as visualidades na educação

The possibilities of thinking about education and teacher training through PIBID: experience with visualities in education

Brunno Amâncio https://lh7-us.googleusercontent.com/h9Ojv87ptVEgwx8PXehJNWB6RbeDlpXgP9wEPNuQgEiN1MWZqOYypeCQ59qJzbAdKq2NWcCoCxu9ig7Uxj9DQGeZQd62p5GHyOeol1sBa83pp3fhKd6TWJ4p1GJxaptf9Bd5r7OgGMw4FOSfvYdyTA

Universidade Federal Fluminense, Niterói, RJ, Brasil

brunnofilo@gmail.com

Carolina Romanazzi https://lh7-us.googleusercontent.com/h9Ojv87ptVEgwx8PXehJNWB6RbeDlpXgP9wEPNuQgEiN1MWZqOYypeCQ59qJzbAdKq2NWcCoCxu9ig7Uxj9DQGeZQd62p5GHyOeol1sBa83pp3fhKd6TWJ4p1GJxaptf9Bd5r7OgGMw4FOSfvYdyTA

Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

carolina.romanazzi@edu.unirio.br

 

Recebido em 22 de setembro de 2023

Aprovado em 05 de março de 2024

Publicado em 26 de abril de 2024

 

RESUMO

O presente relato traz reflexões sobre como o Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (PIBID) têm um papel importante na formação docente. Apresentamos dois relatos que emergem da atuação no PIBID de Filosofia da Universidade Federal do Rio de Janeiro realizado no Colégio Estadual André Maurois e da Universidade Federal Fluminense realizado no Colégio Estadual Joaquim Távora e no Colégio Estadual Aurelino Leal. Pensar o ensino da filosofia como uma experiência intermediada por filmes é o ponto fulcral deste relato. Igualmente importante é o processo formativo docente que programas como PIBID proporcionam. Usamos como referência filósofos que se debruçam sobre o ensino da filosofia como experiência do pensamento, bem como documentos que nos permitem entender os objetivos da criação do programa.

Palavras-chave: PIBID; Formação Docente; Filosofia; Experiência.

 

ABSTRACT

His report brings reflections on how the Institutional Teaching Initiation Scholarship Program (PIBID) plays an important role in teacher training. We present two reports that emerge from the performance in the PIBID of Philosophy of the Federal University of Rio de Janeiro held at the Colégio Estadual André Maurois and the Universidade Federal Fluminense held at the Colégio Estadual Joaquim Távora and the Colégio Estadual Aurelino Leal. Thinking about the teaching of philosophy as an experience mediated by films is the central point of this report. Equally important is the teacher training process that programs like PIBID provide. We use as references philosophers who focus on teaching philosophy as a thought experience, as well as documents that allow us to understand the objectives of creating the program.

Keywords: PIBID; Teacher Training; Philosophy; Experience.

 

Introdução

                A formação inicial docente em filosofia é parte importante e fundamental para todas/todos que desejam lecionar. Além de dominar a história da filosofia, as nomeadas disciplinas da licenciatura, são fundamentais para forjar os conhecimentos teóricos daquela/daquele que em breve irá ministrar aulas para educandas/os nos anos finais do Ensino Médio (EM), pois, estas também suscitam debates acerca da educação, processos formativos, metodológicos, etc. Apontamos aqui para os anos finais do Ensino Médio, pois no Estado do Rio de Janeiro- RJ, apenas alguns municípios oferecem a disciplina no ensino fundamental (EF) e esse relato foi escrito a partir da experiência em escolas em dois municípios do RJ que não têm filosofia no EF (Rio de Janeiro e Niterói).

Pensar nos modos como futuras/futuros docentes se inserem na escola é extremamente importante, não só para os cursos da licenciatura, mas também para todas/todos que ao final da licenciatura começam a lecionar. Trata-se do momento que licenciandas/licenciandos podem acompanhar a escola a partir de seu interior. Inserir-se na escola é uma experiência que ultrapassa aquilo que se aprende nos livros e textos acadêmicos.

Segundo Pimenta:

 

[...] um processo formativo mobilizaria os saberes da teoria da educação necessários à compreensão da prática docente, capazes de desenvolverem as competências e habilidades para os professores investigarem a própria atividade docente e, a partir dela, constituam os seus saberes-fazeres docente, num processo contínuo de construção de novos saberes. (PIMENTA, 2005, p. 528)

 

Trata-se de vivenciar, perceber e participar das questões que permeiam o espaço escolar. É experimentar a docência e o quotidiano escolar. É sentir, pensar e descobrir o fazer docente e os elementos que perpassam nossa atividade em sala e dentro da escola.

Refletir sobre o ensino de filosofia e a formação inicial docente requer ter em mente que: “A filosofia como disciplina entrou e saiu do currículo por diversas vezes.” (CÉZAR, 2012, p.1) e esse cenário traz atravessamentos e questionamentos para todas/os docentes da área. A filosofia esteve presente e ausente dos currículos da educação básica e somente com a Lei 11.684/08 no ano de 2008 se tornou obrigatória. Atualmente sofremos novos ataques não só a filosofia, mas a educação em sua totalidade com o Novo Ensino Médio. Entretanto, como esse não é o foco do debate desse trabalho, optamos por não nos debruçar sobre essa questão.

Assim como outras disciplinas, a filosofia traz consigo importantes questões no que concerne ao seu papel na educação básica, bem como a metodologia para levá-la às salas de aula. Isso nos impulsiona a pensar como ministrar aulas de filosofia. Alguns teóricos como: Marcondes (2004), Cerletti (2003), Gallo (2012) e Dalton (2016) colaboram para a construção do que trazemos nesse relato.

Muitos atravessamentos perpassam a disciplina e são igualmente importantes quando nos propomos a falar sobre ela. A baixa carga horária destinada à filosofia e sua presença somente nos anos finais do ensino médio, por exemplo, nos leva a pensar e perspectivar que tipo de metodologias e que formação desejamos para as/os educandas/os.

Somos lançadas/os a pesquisar, fomentar e trabalhar com possibilidades de construir instrumentos didático-pedagógicos que colaborem com apresentação e propósito da disciplina na educação básica. Qual o sentido da filosofia nos processos formativos?

Nesse ínterim, a aula de filosofia ganha sentidos muito interessantes ao ser tomada como uma “oficina de conceitos”. Se a metodologia de trabalho se dará utilizando as ferramentas como conversas, debates, reflexão, etc. é uma questão posterior; o fundamental é que a aula garanta o contato dos jovens com o instrumental conceitual (GALLO, 2012, p.92).

Existem diversos pontos de vista que nos remetem a pensar a filosofia na sala, o que ela significa e suas possibilidades. Corroboramos com a ideia de uma filosofia que seja uma experiência do pensamento, pois acreditamos que conversar e debater são um motor para a reflexão. Instaura-se mais esse desafio para nós, docentes de filosofia, o convite a filosofar. Convidar a filosofar significa assumir que as/os educandas/os estão num processo ativo de geração do conhecimento que ultrapassa a reprodução de conteúdos. “O filósofo procura desvendar o saber. Não um saber pronto e acabado, mas um saber que experiência o não saber, que faz o movimento da ignorância ao saber.” (GALLO, 2000, p.15).

 

No ensino de filosofia na escola, o problema não é conhecer a história da filosofia em detrimento do aprender a filosofar. E, sim, trabalhar a história da filosofia mecanicamente de modo não filosófico. A questão fundamental é de fundo metodológico, no sentido de pensar em como promover uma educação filosófica que não seja descontextualizada, desconectada da vida dos jovens estudantes do ensino médio e sem relação com a própria filosofia (DALTON. 2016. p.46).

 

O ensino da filosofia nas escolas é também uma questão metodológica. Trata-se de tornar a filosofia uma disciplina que promove uma experiência formativa e não saber enciclopédico de uma gama de conceitos decorados que aparentemente não têm relação com a realidade concreta das/dos educandas/os envolvidos no processo de ensino aprendizagem. Essas questões metodológicas são abordadas nos cursos de licenciatura em filosofia. Entretanto, o espaço que permite experimentar e tecer caminhos e diálogos é sem dúvida o chão da escola. A proximidade com o campo, principalmente quando o que está em pauta é a formação, é demasiadamente relevante para entender que a formação prática deve estar alinhada e caminhar com a teórica.

            Espaços onde pode haver atuação efetiva, conversa, experimentação de métodos de ensino são extremamente relevantes para estreitar a relação dos/das estudantes da licenciatura com a escola e com as salas de aula.

 

Experiência em sala: um importante passo para a formação docente

            Falar da formação docente em filosofia requer também refletir sobre qual o papel da experiência na formação de educadores/educadoras? Qual a importância de vivenciar o cotidiano escolar em seu caráter multifacetado e por intermédio dessas experiências se forjar e fortalecer? Uma/um professora/or de filosofia não se “forma” tão somente ao adquirir alguns conteúdos filosóficos e outros pedagógicos para então em seguida justapô-los. Em realidade, vai se aprendendo a ser professor desde o momento que e se começa a ser aluno. (CERLETTI, 2009, p.55)

            A formação docente evidentemente não se encerra no domínio de conteúdo, é parte dela refletir sobre as possibilidades de transposição didática, metodologias, caminhos e modos como este poderá ser abordado. Também não acontece somente na escola. Trata-se de um conjunto de elementos que conjuntamente constroem as práticas de professores e professoras.  Docentes de filosofia em sua formação têm a tarefa árdua de estar atentos que a disciplina não é uma reprodução de conteúdos. Trata-se de entender que a experiência docente e filosófica surge da inquietude e da curiosidade. É importante pensar numa filosofia que se distancie da transmissão de conhecimento.

 

Para alguns acadêmicos bolsistas, a qualificação do ensino propiciada pelo PIBID está relacionada ao rompimento do tradicionalismo pedagógico ainda vigente nas redes públicas de ensino, para a adesão a uma cultura educacional que considere o contexto sociocultural a fim de proporcionar conhecimentos mais significativos para todos os envolvidos (RAUSCH, 2013, p. 632-633).

 

            O PIBID se revela também como um importante momento na vida de estudantes da licenciatura, ao proporcionar, a partir do contato inicial destas e destes com a escola (re)pensar metodologias de ensino que dialoguem com o universo multifacetado das/os educandas/os.

 

A impossibilidade de tornar-se um professor crítico se, mecanicamente memorizador, é muito mais repetidor cadenciado de frases e de ideias inertes do que um desafiador. O intelectual memorizador, que lê 24 horas a fio, domesticando-se ao texto, temeroso de arriscar-se, fala de suas leituras quase como se estivesse recitando- as de memória – não percebe, quando realmente existe, nenhuma relação entre o que leu e o que vem ocorrendo no seu país, na sua cidade, no seu bairro (FREIRE, 1996, P 29).

 

Filosofia não se trata de memorização e repetição. Lecionar filosofia é, portanto, entender que precisamos problematizá-la, tecer relações com a realidade e para isso é importante que a/o docente esteja atenta/o também as/aos educandas/os que estão presentes em sala. A experiência na escola traz esse acúmulo que permite sensibilizar professoras/professores sobre os múltiplos sujeitos que compõem as salas de aula.

Formação é também experiência e exatamente nesse contexto que o PIBID se revela como um importante programa não só de valorização da categoria docente, mas também da ampliação dos debates que podem ser feitos a partir da inserção das/dos licenciandas/dos na escola. Igualmente importante é ressaltar que o PIBID nos possibilita a questionar e analisar se há antagonismo entre pesquisadoras/es e professoras/es da Educação Básica. Pois, o programa também se constitui das harmônicas relações entre pesquisa e docência, entre docentes e discentes. “A reflexão crítica sobre a prática se torna uma exigência da relação Teoria/Prática sem a qual a teoria pode ir virando blá-blá-blá e a prática, ativismo” (FREIRE, 1996, p.24).

Neste sentido, também, é uma fraterna experimentação epistemológica onde todos os sujeitos envolvidos podem ser protagonistas na construção de um enredo que caminha na direção do conhecimento. A importância de uma filosofia que permita mobilizar os sujeitos é, também, desestabilizar as práticas verticalizadas de uma educação tradicional.

Além desse aspecto, o programa leva estudantes de licenciatura ao encontro de docentes que atuam na escola, possibilitando compartilhar experiências com outras áreas do conhecimento para além das disciplinas que compõem o currículo mínimo do ensino médio. O PIBID possibilita a entrada da universidade na escola para dialogar e pensar coletivamente educação e as questões que permeiam as disciplinas e a educação básica.   A experiência na escola é uma apresentação empírica de muitos debates feitos ao longo da formação dos professores nas universidades.   

 

Experiências com PIBID em Filosofia

            Antes de abordar especificamente o PIBID é necessário fazer alguns parágrafos breves sobre o que é, e os objetivos desse programa no que concerne a educação e a formação docente. Algumas políticas de formação inicial e continuada visam a formação de professoras/ese aqui iremos nos dedicar exclusivamente ao PIBID na disciplina de filosofia. Ressaltamos aqui a disciplina, sobretudo por entendermos que as diversas áreas do conhecimento possuem múltiplas formas de apresentação e várias possibilidades metodológicas.

Em 29 de janeiro de 2009, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) promulgou o Decreto n.º 6.755, que tratava da Política Nacional de Formação de Profissionais do Magistério da Educação Básica, que prevê o apoio dos três níveis de governo para colaborar com o processo de formação docente. Objetiva-se com isso uma parceria entre as Instituições de Ensino Superior (IES) e a educação básica. Trata-se de incentivar e estimular que graduandos e graduandas sejam estimuladas/os a carreira do magistério.

Objetiva-se também com o decreto uma melhoria na qualidade do ensino da escola de educação básica, aumento da oferta de cursos de formação para os profissionais de educação básica, valorização da categoria supracitada, o incentivo à pesquisa docente, entre outros. Segundo Marçal e Cruz (2012, p.8) “[...] uma forma outra de experienciar a prática pedagógica que ganha novo olhar, nova roupagem e, acima de tudo, a possibilidade de transformar-se em fissura, vazamento, tensionamento e resistência de todos os envolvidos no processo formativo.” O PIBID é a possibilidade de inserção e vivência do espaço escolar desde os períodos iniciais da graduação, o que colabora com o fortalecimento daqueles que ao final do curso vão ministrar aulas na rede pública de ensino.

            Objetivando a qualificação e formação docente teórico-prática das/dos docentes de filosofia para a atuação nas séries finais do ensino médio e atentas/os aos desafios supracitados no início desse texto, o PIBID filosofia da UFRJ se debruçava nas propostas que objetivavam desenvolver métodos e materiais que dialogassem com o cotidiano das/os educandas/os da rede pública estadual de educação, debatendo diversos conceitos filosóficos por intermédio da arte e do cinema. Semanalmente nos reuníamos com a coordenadora e supervisora do projeto para apresentar planos de aula e conversar sobre métodos interessantes para apresentar os conceitos filosóficos aos estudantes do colégio.

Entendemos que existe um forte apelo visual na sociedade e as diversas criações midiáticas estão extremamente próximas da juventude, notadamente por meio dos smartphones, tablets entre outros. Além do cinema e das demais produções audiovisuais. Nesse sentido, é interessante inserir essas ferramentas na educação e nas aulas.

Investimos na apresentação da filosofia através dos filmes.  Exibíamos alguns filmes que provavelmente a maioria já havia assistido, mas também outros de menor penetração naquela faixa etária. O objetivo era suscitar nas demais aulas provocações instauradas pela obra. A experiência com exibição de filmes se revelou bastante significativa, sobretudo porque as imagens também conseguem produzir conceitos e leituras sobre o mundo por uma racionalidade do tipo logopática Cabrera (2006). Além da logopatia, osconceitos imagens são elementos importantes que caracterizam essa interação entre filmes e filosofia.

 

A racionalidade logopática do cinema muda a estrutura habitualmente aceita do saber, enquanto definido apenas lógica ou intelectualmente. Saber algo, do ponto de vista logopático, não consiste somente em ter “informações”, mas também em estar aberto a dado tipo de experiência, em aceitar deixar-se afetar por uma coisa de dentro dela mesma, em uma experiência vivida. (CABRERA, 2006, p.21)

 

O conceito imagem, segundo Cabrera (2006), nos propõe a pensar a filosofia como uma tendência às problematizações e questionamentos acerca do mundo intermediados pelas imagens. Essas lidas com um potencial capaz de elaborar e gerar questionamentos tal qual encontramos nos textos escritos.  Alguns apontamentos sobre o conceito-imagem são importantes:

 

1) a necessidade de experimentá-lo para ser adequadamente compreendido- por melhor que resumamos um filme, precisamos assisti-lo para entender seu funcionamento conceitual de maneira acurada;

2) a partir do filme, o conceito-imagem provoca no espectador uma resposta emocional, sem a qual não pode ser aprendido plenamente;

3) a pretensão de verdade e universalidade, ainda que o filme parta de um exemplo partícula;

4) pode ser encontrado em qualquer parte do filme ou no filme inteiro, mas sempre necessita de um desenvolvimento temporal para sua compreensão;

5) ocorre em nível abstrato e ou literal, dependendo da interpretação que lhe for conferida;

6) não é uma categoria estética, isto é, não interessa se o filme é considerado bom ou ruim;

7) embora os conceito imagem não sejam exclusivos do cinema, são dispositivos técnicos dessa linguagem artística que permitem aumentar o impacto e a persuasão deles sobre o espectador;

8) as soluções morais, lógicas e epistêmicas do conceito imagem são abertas e problemáticas, mesmo em filmes de final feliz (CABRERA, 2006, p.21-36)

 

É também nos filmes que os conceitos se desdobram, se cruzam, impactam e levam aqueles que estão inseridos dentro dessa experiência a pensar sobre múltiplas possibilidades de ler o mundo. O envolvimento com o filme é fundamental para o processo de criação, experiência e reflexão.

Tentamos tecer a relação proposta pelo autor supracitado em nossa atuação no PIBID. As/os educandas/os eram convidadas/os a pensar conceitos a partir da exibição de filmes, mas sem perder a dimensão estética do que foi apresentado. Ou seja, os filmes não eram somente ilustradores ou um produto para entretenimento, mas também um convite a experimentar modos de pensar a filosofia e a realidade daquela obra. 

Exibimos filmes como A Vila (2004) dirigida por M. Night Shyamalan, O Show de Truman (1998) dirigido por Peter Weir entre outros que teciam diálogos com temas que seriam apresentados nos próximos encontros. Além de conversarmos sobre o conteúdo das obras assistidas, as/os educandas/os também teciam relações entre elas e o tema que seria trabalhado. Ao final do ano foi produzido um livro com planos de aula de bolsistas de diferentes anos.

            No município de Niterói, o PIBID em filosofia foi iniciado pela graduação em Filosofia da Universidade Federal Fluminense UFF e foi inicialmente recepcionado pelo Colégio Estadual Joaquim Távora e posteriormente pelo Colégio Estadual Aurelino Leal.

Num primeiro momento, antes mesmo de adentrarmos no Colégio Estadual Joaquim da Távora, nosso coordenador sugeriu que pesquisamos introdutoriamente sobre a história da Filosofia no ensino médio. Nosso grupo de pesquisa decidiu retroceder um pouco e decidimos tentar compreender como a Filosofia colocou-se desde os primórdios da educação no Brasil. E no desvelamento das informações que íamos obtendo cristalizavam-se as diversas tentativas para distanciar o ensino de Filosofia, ora pela ausência e fragilidade de um currículo que objetivasse uma educação pública e de qualidade, ora pela debilidade em compor um projeto de educação para todos/todas com relevante atenção às classes populares e/ou subalternizadas.

 Assim como, a dificuldade de materializar um projeto nacional de educação que não ficasse refém das demandas do mercado ou dos devaneios de projetos políticos e educacionais sem lastro teórico que dialoguem com o contínuo desenvolvimento intelectual das/os educandas/os para a complexidade da supracitada nos possibilitou construirmos possibilidades de diversas formas de apresentarmos a filosofia a partir dos conteúdos apontados pelo Currículo Mínimo de filosofia para o Estado do Rio de Janeiro. Neste sentido, tínhamos clareza que a nossa intenção naquele espaço com as/os educandas/os não eram para substituir a atuação da/do professora/or regente. Mas, sim, compartilharmos nossas perspectivas sobre a relação da gradativa introdução do ensino de filosofia e sua apreensão por aquelas e aqueles educandas/os no ensino médio daquelas escolas públicas que compunham nossa construção no programa. Desta forma, nos propusemos a compreendermos quais concepções as/os educandas/os obtinham sobre a filosofia. Para, a partir deste ponto, efetivarmos propostas de apresentação dos conteúdos pertinentes à filosofia em sala de aula, uma construção coletiva com as/os professoras/res de filosofia.

Freire diz que:

 

A curiosidade como inquietação indagadora, como inclinação ao desvelamento de algo, como pergunta verbalizada ou não, como procura de esclarecimento, como sinal de atenção que sugere alerta, faz parte integrante do fenômeno vital. Não haveria criatividade sem a curiosidade que nos move e que nos põe pacientemente impacientes diante do mundo que não fizemos, acrescentando a ele algo que fazemos. (1996, p. 36)

 

Não obstante, houve diálogos e experimentações da filosofia com o audiovisual (incluindo exibição de filmes pensados para o Cinema), teatro, música, literatura, poesia e artes plásticas. Todavia, cabe ressaltar que as experimentações realizadas não culminavam simplesmente em encontrar um melhor método para reproduzir a filosofia as/os educandas/os ou implementar formas para aquelas/aqueles educandas/os acumulassem mais conteúdos objetivando ter um eruditismo. Um dos nossos intentos possibilitou que as/as educandas/os se apropriassem da filosofia, e não só dela, como mais um meio, mais uma ferramenta, para desvelar e reinterpretar a realidade concreta, a vida. Gosto de ser gente porque a história em que me faço com os outros e de cuja feitura tomo parte é um tempo de possibilidades, e não de determinismo. Daí que insista tanto na problematização do futuro e recuse sua inexorabilidade. (FREIRE, 1996, p.51)

Nossas experiências epistemológicas e didáticas foram compartilhadas em diversos espaços da universidade por meio da nossa participação individual ou coletiva em eventos acadêmicos que estavam receptíveis às investigações relacionadas ao ensino de filosofia e a formação docente.

Em tempo, contribuímos nos demais espaços de acolhimento e divulgação das pesquisas relacionadas às experimentações de formação docente em várias iniciativas que se relacionam dialogicamente com a educação e o ensino. Neste sentido, pensamos que nestes espaços faz-se pertinente a presença orgânica do Programa Institucional de Iniciação à Docência – PIBID.

 

Considerações Finais

            Esse estudo se propôs a apresentar relatos de experiências e apreensões de dois ex-bolsistas que atuaram no PIBID Filosofia em diferentes municípios do Estado do Rio de Janeiro. A ideia central é pensar na relevância do programa para a formação docente e também o modo este tem um significado muito importante para pensarmos metodologias para a apresentação do ensino de filosofia em sala de aula.

            Algumas questões foram levantadas e alguns teóricos apresentados, pois entendemos que o ensino da filosofia é perpassado pela experiência filosófica do pensamento e nesse contexto cabe pensar o que ou quais elementos podem colaborar para que a sala de aula seja um lugar de experimentar pensar sobre filosofia. Isso se justifica, sobretudo por entendermos que a mera transmissão de conteúdos não exerce uma influência significativa na formação dos educandos/as, bem como docentes não são reprodutores de conteúdos acríticos, mas sim educadores que tem compromisso em pensar metodologias de ensino-aprendizagem que dialoguem com os estudantes e os tornem sujeitos partícipes do processo de geração de conhecimento.

            Percebemos que os projetos têm grande confluência, sobretudo quando se propõem a tecer diálogos entre a filosofia e as artes, com atenção especial aos filmes. Igualmente importante foi entender que a proposta de experiência através dos filmes não se deu de forma aleatória, mas sim por pesquisas que se debruçam sobre a potência do audiovisual na educação. Tal experimentação foi possível a partir de nossa inserção na escola e contato com o corpo discente e docente. As conversas, as dúvidas e os olhares atentos ou dispersos nos apontaram caminhos para experimentar práticas que tornassem a filosofia significativa para nós e para as/os educandas/os.

É importante perceber também a importância do programa no processo de formação docente quando pensamos em propostas para as aulas. Escolha de temas, desenvolvimentos, perspectivas, expectativas que antecedem a aula nos apresentam o significado do que é o cotidiano escolar. O programa incentiva a produção de material didático que auxiliam na prática de outros docentes e também incentiva que estes produzam materiais como suporte ao livro didático nos casos que o docente recorra ao mesmo. O PIBID traz consigo e proporciona aos futuros docentes também a tarefa e experiência do significado de pensar coletivamente práticas de ensino, além da importância de tecer diálogos com elementos da contemporaneidade das/dos educandas/os.

            O PIBID é precisamente essa possibilidade. Trata-se do momento de abrir as portas da escola e da universidade para conversar sobre educação e a partir dessas conversações propor metodologias de ensino, incentivar a pesquisa e formar professores e professoras a partir do interior da escola. A observação participativa, os eventos que compõem o programa, as leituras, reuniões, planos e planejamentos situam os futuros professores nos desafios e no cotidiano escolar. A participação no programa proporciona ao estudante da licenciatura um momento de viver a escola.

Ensino e pesquisa são dois elementos fundamentais e caminham juntos. Enquanto ensino, continuo buscando, (re)procurando. Ensino porque busco, porque indaguei, porque indago e me indago. Pesquiso para constatar, constatando, intervenho, intervindo, educo e me educo. Pesquiso para conhecer o que ainda não conheço e comunicar ou anunciar a novidade. (FREIRE. p.30.1996). Pensar na educação e no ensino da filosofia a partir do que se vive e experimenta é fundamental para quem deseja se tornar professor/a e essa tarefa o PIBID cumpre com uma grandeza sem limites.

 

REFERÊNCIAS

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CERLLETI, Alejandro. O ensino de filosofia como problema filosófico. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2009.

CABRERA, Júlio. O cinema Pensa: Uma introdução à filosofia através dos filmes. Rio de Janeiro: Rocco, 2006.

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FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à pratica educativa. São Paulo: Editora: Paz e Terra 5 Ed.: 1996.

GALLO, Silvio. Ética e Cidadania: caminhos da filosofia (elementos para o ensino de filosofia). São Paulo: Papirus, 2000.

GALLO, Silvio.; Aspis, R. L. Ensinar Filosofia - um livro para professores. São Paulo: Atta Mídia e Educação, 2009.

GALLO, Silvio. Metodologia do ensino de filosofia. Campinas: Papirus, 2012.

PIMENTA, Selma Garrido. Pesquisa-ação crítico colaborativo: construindo seu significado a partir de experiências com a formação docente. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ep/a/9HMYtvM7bpRtzLv6XyvwBxw/?format=pdf&lang=PT. Acesso em 21 dez. 2023.

MARÇAL, K. I; CRUZ, T. de Mello R. Prefácio. In: TOMAZETTI, E. M. (Org.). Filosofia no Ensino Médio: experiências com cinema, teatro, leitura e escritura a partir do PIBID. São Leopoldo, RS: Oikos, 2012. p. 3-4.

MARCONDES, Danilo. É possível ensinar a filosofia? E, se possível como? In: KOHAN, W. (Org). Filosofia; caminhos para o seu ensino. Rio de Janeiro: DP&A, 2004.

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