Análise de crescimento e trocas gasosas de plantas de Lonchocarpus sericeus (Poir.) D.C. sob alagamento para uso na recuperação de matas de ciliares

Jean Marcel Sousa Lira, Robério Anastácio Ferreira, Carlos Dias da Silva Junior, Elísio Marinho dos Santos Neto, Wislane da Silva Santana

Resumo


http://dx.doi.org/10.5902/1980509812349

Com o intuito de selecionar espécies para utilização na recuperação de matas ciliares na margem do rio São Francisco localizada no estado de Sergipe foi realizado um experimento com o objetivo de avaliar o crescimento e as trocas gasosas de plantas de Lonchocarpus sericeus (Poir.) D.C., submetidas a alagamento em condição de viveiro. O experimento foi realizado no Viveiro Florestal do Departamento de Ciências Florestais, da Universidade Federal de Sergipe (UFS), no município de São Cristóvão-SE (11º01’ de latitude S e 37º12’ de longitude W, com altitude de 20 m), estado de Sergipe, Brasil, no período de outubro de 2006 a janeiro de 2007 em condição ambiente. Foi utilizado delineamento experimental inteiramente casualizado (DIC), em fatorial (2x7), dois tratamentos (controle – T0, plantas em capacidade de campo e alagadas – T1) e dias após alagamento (0, 15, 30, 45, 60, 75 e 90 dias). Para simular a condição de alagamento, as plantas foram postas em vasos plásticos de cor preta com volume de 5 L e mais substrato. Após, estes vasos foram acoplados a vasos com volume de 10 L, onde foi acrescida a água até atingir lâmina d’água de 5 cm acima do colo das plantas. As plantas do controle permaneceram em vasos com volume de 5 L com substrato mantido na capacidade de campo. Nas variáveis não destrutivas foram utilizadas 4 repetições por tratamento, avaliadas a cada quinze dias, onde cada repetição consta de 6 plantas, totalizando 24. Para as variáveis destrutivas foram utilizadas 4 repetições por tratamento, avaliadas quinzenalmente a partir de 15 dias após o alagamento, onde cada repetição consta de uma planta totalizando 24 plantas. Desta forma foram utilizadas 48 plantas por tratamento. As variáveis não destrutivas foram altura, diâmetro do colo e número de folhas. Enquanto as variáveis destrutivas analisadas foram massa seca da raiz e parte aérea, razão da massa seca da raiz/parte aérea. Além disso, foram realizadas análises de trocas gasosas mensalmente, sendo avaliadas doze plantas por tratamento, com amostragem de duas folhas, completamente expandidas, por planta. As variáveis biométricas foram submetidas à análise de variância e posteriormente ao teste de média (Tukey p<0,05), enquanto dos valores de trocas gasosas foram retirados os desvios padrões das médias. Diante disso, observamos que o alagamento promoveu a redução em altura e na razão massa seca da raiz/parte aérea, a partir dos 30 dias após aplicação do tratamento. Além disso, as plantas alagadas apresentaram modificações morfológicas como raízes adventícias e hipertrofia das lenticelas, características de espécies tolerantes ao alagamento. A taxa fotossintética líquida foi reduzida em 48,20% em relação ao controle aos 60 dias. Todavia, apesar das reduções nas variáveis de crescimento e trocas gasosas, a espécie Lonchocarpus sericeus mostrou-se promissora na recuperação de mata ciliar, por apresentar modificações morfológicas características de espécies tolerantes ao alagamento.


Palavras-chave


Raízes adventícias; Lenticelas hipertrofiadas; Taxa fotossintética líquida

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DOI: http://dx.doi.org/10.5902/1980509812349