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Universidade Federal de Santa Maria
Geog Ens & Pesq., Santa Maria, v. 30, e92897, 2026
DOI: 10.5902/2179460X92897
ISSN 2179-460X
Submissão: 17/10/2025 • Aprovação: 12/05/2026 • Publicação: 25/06/2026
3 ANÁLISE DO CINEMA EM LIVROS DIDÁTICOS DE GEOGRAFIA
Ensino e Geografia
O cinema como recurso didático não convencional: uma análise a partir de livros didáticos de Geografia
Cinema as a non-conventional teaching resource: an analysis based on Geography textbooks
El cine como recurso didáctico no convencional: un análisis a partir de libros de texto de Geografía
Bartira Araújo da Silva VianaII
I Universidade Federal do Tocantins, Porto Nacional, TO, Brasil
II Universidade Federal do Piauí , Teresina, PI, Brasil
RESUMO
Esta pesquisa teve como objetivo analisar uma coleção didática de Geografia dos Anos Finais do Ensino Fundamental, com foco no cinema e nas contribuições desse recurso para a aprendizagem. A metodologia adotada consistiu na abordagem qualitativa de caráter descritivo e documental, com procedimentos da Análise de Conteúdo. Por sua vez, as discussões dos resultados partiram de levantamento bibliográfico em artigos científicos, em dissertações e em livros sobre a temática. Os resultados indicaram, portanto, a presença expressiva de filmes e de documentários na coleção analisada, evidenciando uma alternativa em potencial para articular temas e conteúdos. Entretanto, foram identificadas lacunas na forma como esses materiais são apresentados, o que pode desestimular e/ou dificultar a organização de aulas de Geografia. As discussões favoreceram, assim, a compreensão de que, para ser utilizado e alcançar a formação do pensamento geográfico, o cinema necessita de planejamento adequado, o que reafirma a importância de o professor conhecer, com profundidade, as especificidades técnicas e artísticas dos filmes e/ou documentários com os quais busca trabalhar.
Palavras-chave: Linguagens; Ensino; Pensamento geográfico
ABSTRACT
This research aimed to analyze a Geography textbook collection for the final years of Middle School, focusing on cinema and its contributions to the learning process. The methodology adopted consisted of a qualitative approach with a descriptive and documentary character, utilizing Content Analysis procedures. The discussion of the results was based on a bibliographic survey of scientific articles, dissertations, and books on the subject. The findings indicated a significant presence of films and documentaries in the analyzed collection, evidencing a potential alternative for articulating themes and content. However, gaps were identified in how these materials are presented, which may discourage and/or hinder the organization of Geography lessons. Consequently, the discussions fostered the understanding that, to be effectively utilized and to achieve the development of geographical thinking, cinema requires adequate planning. This reaffirms the importance of teachers having a profound knowledge of the technical and artistic specificities of the films and/or documentaries they intend to work with.
Keywords: Languages; Teaching; Geographical thinking
RESUMEN
Esta investigación tuvo como objetivo analizar una colección didáctica de Geografía de los años finales de la Enseñanza Fundamental, centrándose en el cine y en las contribuciones de este recurso para el aprendizaje. La metodología adoptada consistió en un enfoque cualitativo de carácter descriptivo y documental, empleando procedimientos del Análisis de Contenido. A su vez, las discusiones de los resultados partieron de un levantamiento bibliográfico en artículos científicos, tesis y libros sobre la temática. Los resultados indicaron una presencia significativa de películas y documentales en la colección analizada, evidenciando una alternativa potencial para articular temas y contenidos. Sin embargo, se identificaron brechas en la forma en que se presentan estos materiales, lo que puede desestimular y/o dificultar la organización de las clases de Geografía. Las discusiones favorecieron, así, la comprensión de que, para ser utilizado y alcanzar la formación del pensamiento geográfico, el cine requiere de una planificación adecuada, lo que reafirma la importancia de que el docente conozca en profundidad las especificidades técnicas y artísticas de las películas y/o documentales con los que busca trabajar.
Palabras-clave: Lenguajes; Enseñanza; Pensamiento geográfico
Discussões recentes sobre o ensino de Geografia propõem a utilização de recursos didáticos para o desenvolvimento de práticas dinâmicas e estimulantes para os educandos, de maneira a incentivar a formação do pensamento geográfico no contexto de sala de aula. Contudo, essa intenção revela complexidade, pois requer a construção de práticas que tornem os sujeitos capazes de pensar o espaço geográfico sob uma concepção fundamentalmente científica.
No sentido de discutir um modelo de ensino de Geografia dinâmico, Silva (2022) sugere a utilização dos recursos didáticos não convencionais, os quais se tratam de materiais que, embora não tenham sido criados originalmente para fins educacionais, podem contribuir significativamente com o ensino e a aprendizagem. Esses recursos, geralmente, são produções sociais, próximas aos cotidianos dos educandos, e que, por isso, podem favorecer a organização de práticas enriquecedoras para a aprendizagem desses sujeitos.
Dentre os recursos didáticos não convencionais, o cinema é uma possibilidade de apresentar o espaço geográfico através da linguagem audiovisual. Isso porque, por meio da exibição de filmes e de documentários, somada a ações didáticas, o ensino de Geografia poderá aprofundar as concepções dos educandos sobre as realidades existentes, tomando como fundamentos os conceitos e as categorias de análise da ciência geográfica.
A potencialidade didática do cinema, portanto, é comprovada nos próprios livros didáticos que, em um movimento recente, passaram a sugerir filmes e documentários em complemento aos conteúdos. Acredita-se que essa seja uma estratégia que as editoras adotam para tornar o livro didático um material atrativo para os educandos, rompendo com o padrão estritamente verbal e incorporando, também, elementos textuais imagéticos.
Diante disso, a pesquisa norteia-se nas questões: a) Como o cinema está disposto nos livros didáticos de Geografia?; b) É possível afirmar que o livro didático de Geografia estimula o uso do cinema no ensino e na aprendizagem?; e c) Como o cinema pode contribuir para a formação do pensamento geográfico?
Para responder a problematização, o presente estudo objetiva analisar uma coleção didática de Geografia dos Anos Finais do Ensino Fundamental, com foco no cinema e nas contribuições desse recurso para a aprendizagem. Com isso, são estabelecidos os seguintes objetivos específicos: I) Identificar e caracterizar filmes e documentários em livros didáticos de Geografia; II) Discutir limitações e potencialidades do cinema para a educação geográfica; e III) Propor estratégias de emprego do cinema em aulas de Geografia.
Espera-se que este ensaio contribua para a formação docente ao apresentar as nuances do livro didático de Geografia, a fim de que sejam consideradas no planejamento de práticas de ensino que enfatizam o pensamento geográfico. Além disso, que favoreça, também, o entendimento das potencialidades do cinema para a utilização na educação geográfica, incentivando professores da Educação Básica a analisarem esse recurso com a devida atenção.
É válido salientar que o artigo está organizado em quatro seções, em que a primeira apresenta a contextualização do tema, a problematização e os objetivos da pesquisa. Em seguida, a segunda seção expõe o percurso metodológico empregado e detalha os procedimentos realizados. Por sua vez, a terceira seção desenvolve a análise do cinema em livros didáticos de Geografia, discorre sobre limitações e potencialidades desse recurso, bem como sugere filmes/documentários para planejamento e desenvolvimento de aulas. Por fim, a quarta seção anuncia as considerações finais.
A metodologia adotada consistiu na abordagem qualitativa, que, segundo Kauark, Manhães e Medeiros (2010), implica a interpretação dos fenômenos e a atribuição de significados. Levando em consideração o objetivo geral, a pesquisa assumiu caráter descritivo e documental, priorizando a relação entre as variáveis “cinema”, “livro didático”, “ensino de Geografia” e “pensamento geográfico”.
Quanto aos procedimentos, utilizou-se a Análise de Conteúdo, entendida por Bardin (2020) como um conjunto de técnicas de análise das comunicações. Nesse sentido, a pesquisa abrangeu as seguintes etapas: I) Pré-análise: escolha dos livros didáticos e formulação de hipóteses e objetivos; II) Exploração do material: codificação, categorização e enumeração; e III) Tratamento dos resultados obtidos e interpretações: operações estatísticas, organização de quadros e fundamentação teórica.
As discussões dos resultados valeram-se do levantamento bibliográfico em artigos científicos, dissertações e livros sobre “cinema”, “livro didático”, “ensino de Geografia” e “pensamento geográfico”. Esse procedimento fundamentou as análises dos resultados alcançados, com destaque para a discussão sobre o cinema como recurso didático não convencional no ensino de Geografia, visando à formação do pensamento geográfico.
3 ANÁLISE DO CINEMA EM LIVROS DIDÁTICOS DE GEOGRAFIA
3.1 Pré-análise
O percurso inicial desta pesquisa partiu da pré-análise, polo cronológico que, segundo Bardin (2020), tem por objetivo tornar operacionais e sistematizar as ideias iniciais, de maneira a conduzir a um esquema preciso do desenvolvimento das operações. Ademais, baseou-se por procedimentos simples que levam à organização e à sistematização dos dados, fornecendo material suficiente para análises posteriores.
Na pré-análise, realizamos a escolha da Coleção Didática Teláris Essencial Geografia (Quadriênio 2024-2027), seguida do estabelecimento da hipótese de que o cinema é um recurso em potencial para o ensino de Geografia, assim como do objetivo de identificar o uso do cinema nos livros didáticos de Geografia do 6º ao 9º Ano do Ensino Fundamental, com destaque para a articulação com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC).
A escolha da Coleção Didática Teláris Essencial Geografia decorreu dos seguintes quesitos: a) aprovação no Edital nº 01/2022 - Coordenação Geral dos Programas do Livro (CGPLI) - Programa Nacional do Livro e Material Didático (PNLD) 2024-2027; b) utilização recorrente nas escolas em que as pesquisadoras desenvolveram iniciação à docência e estágio supervisionado obrigatório; e c) fácil disponibilidade na plataforma digital E-docente1. Destacamos que os volumes da coleção escolhida estão apresentados na Figura 1.
Figura 1 – Capas dos volumes da Coleção Didática Teláris Essencial Geografia (2022)
Fonte: Branco, Prado e Campos (2022a; 2022b; 2022c; 2022d)
Os volumes da Coleção Didática estruturam-se em unidades e capítulos com propostas de conteúdos à luz da Base Nacional Comum Curricular, cumprindo o requisito estabelecido pelo Edital nº 01/2022-CGPLI em relacionar as obras com as competências e as habilidades do documento normativo.
Na Coleção, os conteúdos de Geografia são complementados por elementos textuais imagéticos, como fotografias, mapas, gráficos, tabelas, diagramas, etc. Ferreira e Tonetto (2019) explicam que a predominância de tais elementos nos materiais didáticos é uma estratégia para mantê-los pertinentes diante das novas demandas tecnológicas da sociedade, ainda mais quando fazem parte dos cotidianos dos estudantes.
Dessa forma, o movimento imagético nos livros didáticos promove a dinamicidade textual, potencializando a edição, haja vista que as imagens diversas, presentes nos livros didáticos, instruem, orientam, convencem e, também, contam histórias (Almeida; Guimarães, 2021). Sob essa perspectiva, as autoras compreendem que a maneira como as imagens estão dispostas nas páginas, seus tamanhos, cores e seus conteúdos comunicam e ensinam sobre determinada temática, sendo necessário o enriquecimento do repertório cultural dos educandos por meio da análise e da discussão.
Logo, a presença de imagens em coleções didáticas é vantajosa para o ensino de Geografia, porque sugere ao professor formas variadas de abordar os conteúdos e os temas geográficos. Como afirma Richter (2025, p. 8), “A relevância dos produtos oriundos do campo imagético na construção da leitura de mundo é inegável, uma vez que interferem diretamente na interpretação da realidade contemporânea”, o que indica a possibilidade de leitura do espaço geográfico através das imagens.
Os elementos textuais imagéticos conferem dinamicidade ao livro didático de Geografia, mas não o tornam um material a ser seguido rigorosamente pelo professor, visto que ainda é passível de análises e de adequações para ser utilizado. Por isso, “[...] ao planejar o uso do livro didático nas aulas de geografia é necessário ter em mente que este recurso serve de complemento ao trabalho e como fonte de pesquisa ao estudante” (Copatti, 2017, p. 90).
Salientamos, ainda, que o planejamento de práticas de ensino de Geografia apoiadas no livro didático deve alcançar a aprendizagem dos educandos e, para isso, Copatti (2017) defende que o professor se dedique à avaliação das propostas com foco no uso de outros recursos que o complementam. Por esse viés, a Coleção apresenta o boxe “Biblioteca/Na tela”, com sites, filmes, documentários, vídeos, podcasts e livros que dinamizam o formato verbal dos volumes e que direcionam o leitor a uma visão curiosa sobre os temas estudados, além de contribuir com informações pertinentes para o repertório de conhecimentos (Figura 2).
A Figura 2 confirma que o cinema desempenha função complementar aos conteúdos e temas, incrementando a abordagem desses conhecimentos. Como propõe Almeida e Guimarães (2021), a presença de imagens implica a força do digital e as características dos educandos contemporâneos e, dependendo da curiosidade do leitor e das estratégias didáticas, essas sugestões podem levar à interatividade no ambiente digital.
Ademais, tendo em vista que as transformações tecnológicas da contemporaneidade condicionam a influência digital em materiais didáticos, Ferreira e Tonetto (2019) confirmam que parte significativa das características do domínio informático vem sendo incorporada pelo livro didático de Geografia mediante as demandas de professores e educandos, assim como do mercado editorial.
Figura 2 – Boxe “Na tela” como complemento ao tema “Oceanos e mares”
Fonte: Branco, Prado e Campos (2022a)
Diante do exposto, a pré-análise indicou a propensão da Coleção às tecnologias digitais relacionadas aos conteúdos da Geografia. Entre essas tecnologias, identificou-se a presença do cinema em sugestões de filmes e de documentários, levando ao entendimento da pertinência da linguagem cinematográfica e da necessidade de exploração de suas contribuições na formação do pensamento geográfico.
3.2 Exploração do material
A identificação do cinema na Coleção Didática Teláris Essencial Geografia (Quadriênio 2024-2027) partiu, inicialmente, da codificação. Segundo Bardin (2020), esse procedimento corresponde a uma transformação dos dados brutos do texto, a fim de esclarecer sobre as suas características, baseando-se na utilização das unidades de registro e de contexto como indicadores, que funcionam de modo complementar.
A codificação tornou possível categorizar o cinema na coleção de livros analisada quanto ao tipo de abordagem fílmica. Ao considerar o que Melo (2002) discute sobre o “caráter da produção”, a categorização partiu da diferenciação entre o documental e o ficcional, pois, enquanto neste primeiro predominam fatos e contextos reais, no último, há o predomínio de situações roteirizadas e fictícias. Acerca de tais aspectos, a Tabela 1 elucida a frequência do cinema na Coleção Didática.
Tabela 1 – Enumeração frequencial do cinema no contexto dos livros didáticos
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6º Ano |
9º Ano |
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Cinema ficcional |
2 (8,3%) |
- |
8 (33,3%) |
7 (29,2%) |
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Cinema documental |
1 (4,2%) |
- |
2 (8,3%) |
4 (16,7%) |
Fonte: Bardin (2020). Organizado pelas autoras (2024)
A Tabela 1 evidencia que o cinema ficcional tem mais recorrência que o cinema documental na Coleção. Essa constatação indica a prioridade em agregar dinamicidade à aprendizagem, o que é válido quando se pensa em oportunizar o envolvimento dos educandos por meio de narrativas, cenários, personagens, trilhas sonoras e demais elementos técnicos próprios da abordagem ficcional.
Todavia, torna-se interessante o equilíbrio das abordagens ficcional e documental nos volumes da Coleção Didática. Essa afirmação decorre da ideia de que o uso de documentários no ensino de Geografia facilita a espacialização dos processos e dos fenômenos geográficos, pois Melo (2002) explica que esse tipo de abordagem mantém uma relação de proximidade com a realidade ao respeitar convenções de registro in loco, não direção de atores, uso de cenários naturais e imagens de arquivo.
Conforme apontado por Rocha (2022), as diferentes abordagens do cinema possibilitam a criação de imaginações plurais e amplas sobre o espaço geográfico. Não cabe a uma única tipologia fílmica a mobilização do ensino de Geografia, pelo contrário: refletir sobre as características documental e ficcional incide sobre a melhor utilização do cinema, levando o professor a elaborar o planejamento didático conforme as suas especificidades.
Ainda há de se observar a inexistência de filmes e de documentários no 7º Ano do Ensino Fundamental, em que uma solução apropriada seria a sugestão de obras do cinema nacional. Isso porque, nessa fase, Brasil (2018) define objetos de conhecimento sobre formação do território brasileiro, dinâmica sociocultural, econômica e política.
Sob essa perspectiva, a inserção do cinema no livro didático é relevante, porque sugere ao professor o planejamento de aulas com o uso de filmes e de documentários, assim como aguça a curiosidade dos educandos sobre as obras. De acordo com Messias e Bezerra (2018), os filmes podem ser utilizados para leitura, debate e análise do espaço geográfico, uma vez que o cinema colabora para o ensino de Geografia com a representação visual de processos e fenômenos especiais e a mediação de conceitos e princípios geográficos.
Em vista do potencial didático de filmes e de documentários, discutiremos, na seção seguinte, as significações do cinema na Coleção Teláris Essencial Geografia. A discussão está centralizada nas especificidades técnicas dos materiais, bem como nas possibilidades para o planejamento de práticas de ensino de Geografia com o uso desses recursos.
3.3 Tratamento dos resultados obtidos e interpretações
O tratamento dos resultados obtidos e interpretações é o polo cronológico da Análise de Conteúdo, em que “[...] os resultados brutos são tratados de maneira a serem significativos (<falantes>) e válidos” (Bardin, 2020, p. 101), sendo possível, a partir de operações estatísticas, organizar quadros, diagramas, figuras e modelos que põe em evidência as informações fornecidas pela análise. Nessa concepção, utilizamos, como referência, os dados estatísticos que indicam a presença do cinema na Coleção Didática estudada para o devido aprofundamento.
A partir de informações verificadas na Coleção e nas plataformas Google e Internet Movie DataBase2, os filmes e documentários identificados apresentam diversidade em país de origem, gênero, classificação indicativa, duração e disponibilidade. Essas características foram analisadas do ponto de vista didático, pois se entende que podem influenciar positiva ou negativamente em sala de aula.
É importante mencionar que o uso do cinema no ensino geográfico deve superar noções simplesmente ilustrativas. Nessa lógica, Viana e Silva (٢٠٢٢) concebem que o professor necessita estar atento a determinados aspectos, a exemplo das possibilidades técnicas na exibição de filmes, da adequação à faixa etária dos educandos, da articulação com o conteúdo e das habilidades desejadas nas aulas.
Inicialmente, inferiu-se que a Coleção Didática apresenta inconsistência ao evidenciar apenas país de origem, ano de lançamento, duração e sinopse na sugestão de filmes e documentários. Ou seja, omite informações pertinentes para o planejamento de metodologias de ensino, tais como gênero, classificação indicativa e disponibilidade.
Percebeu-se que os filmes e os documentários têm origem em diferentes países, aspecto vantajoso para ampliar a bagagem cultural dos sujeitos, visto que, para Messias e Bezerra (2018), o cinema permite visualizar características das porções do mundo. Por outro lado, as nacionalidades das obras são distribuídas de forma desproporcional, como se pode observar na Figura 3.
Interessa problematizar o predomínio de produções estadunidenses em contraste com a irrisória quantidade de obras latino-americanas, dentre as quais apenas Brasil e Cuba são mencionados. Assim, o ideal seria recomendar filmes e documentários que projetam recortes espaço-temporais e motivam a construção do conhecimento geográfico, tendo o livro didático como meio de acesso para os estudantes conhecerem e aproveitarem o cinema brasileiro.
Figura 3 – Países de origem dos filmes e documentários
Fonte: Organizado pelas autoras (2025)
Com a finalidade de comprovar essa tese e resolver a ausência em livros didáticos do 7º Ano do Ensino Fundamental, elaboramos um catálogo de produções brasileiras (Quadro 1).
Quadro 1 – Sugestões de filmes e de documentários para utilização no ensino de Geografia do 7º Ano do Ensino Fundamental, Anos Finais
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Rio País de origem: Estados Unidos da América Ano: 2011 Gênero(s): Animação/ Aventura/ Comédia/ Musical Classificação indicativa: Livre Duração: 1 hora e 36 minutos Disponibilidade: Disney+ |
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Sinopse: Blu é uma arara-azul que vive nos Estados Unidos da América, em ambiente domesticado. Contudo, a sua espécie está ameaçada de extinção, o que leva o ornitólogo Túlio a propor o acasalamento entre Blu e Jade, uma arara-azul do Rio de Janeiro. Blu e Jade são capturados por uma quadrilha de tráfico animal, o que os leva a se unirem para enfrentar o desafio. |
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Possibilidade: abordar as características da Mata Atlântica e da Amazônia, apresentando as paisagens e as espécies animais e vegetais desses biomas, incentivando a problematização sobre o tráfico de animais, e a representação do Brasil nesse filme. |
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Habilidades específicas de Geografia para os Anos Finais do Ensino Fundamental: (EF07GE01) Avaliar, por meio de exemplos extraídos dos meios de comunicação, ideias e estereótipos acerca das paisagens e da formação territorial do Brasil. |
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Uma história de amor e fúria País de origem: Brasil Ano: 2013 Gênero(s): Animação/ Ação/ Aventura/ Drama Classificação indicativa: 12+ Duração: 1 hora e 15 minutos Disponibilidade: Youtube e Netflix |
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Sinopse: Um herói imortal, vivo há quase 600 anos, busca pela ressurreição de Janaína, uma mulher por quem é apaixonado. O fato de viver há tanto tempo o faz conhecer a história do Brasil, narrando os acontecimentos que marcaram a formação territorial do País. |
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Possibilidade: discutir a formação territorial do Brasil, considerando os processos e acontecimentos históricos, com ênfase nos períodos, revoltas e resistência popular. |
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Habilidades específicas de Geografia para os Anos Finais do Ensino Fundamental: (EF07GE02) Analisar a influência dos fluxos econômicos e populacionais na formação socioeconômica e territorial do Brasil, compreendendo os conflitos e as tensões históricas e contemporâneas. |
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Central do Brasil País de origem: Brasil Ano: 1998 Gênero(s): Drama Classificação indicativa: 12+ Duração: 1 hora e 55 minutos Disponibilidade: Apple TV, Globoplay, Youtube, Netflix, PrimeVideo |
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Sinopse: Dora é uma professora que trabalha escrevendo cartas na estação Central do Brasil (Rio de Janeiro) e passa a ajudar um garoto órfão chamado Josué a encontrar o pai no interior do Nordeste brasileiro. |
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Possibilidade: aprofundar os fluxos populacionais recorrentes no território brasileiro, com destaque para a migração inter-regional Nordeste-Sudeste, assim como discutir as desigualdades sociais latentes no Brasil, reveladas através do analfabetismo, o desemprego e a economia informal. |
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Habilidades específicas de Geografia para os Anos Finais do Ensino Fundamental: (EF07GE02) Analisar a influência dos fluxos econômicos e populacionais na formação socioeconômica e territorial do Brasil, compreendendo os conflitos e as tensões históricas e contemporâneas. |
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A última floresta País de origem: Brasil Ano: 2021 Gênero(s): Drama Classificação indicativa: 14+ Duração: 1 hora e 14 minutos Disponibilidade: Youtube |
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Sinopse: O documentário mostra a resistência de indígenas Yanomami da Amazônia em manter as tradições de seu povo frente ao avanço do garimpo em suas terras. |
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Possibilidade: debater a expansão da fronteira agrícola e garimpeira na Amazônia e os problemas socioambientais gerados por essas atividades, tais como a intoxicação dos recursos hídricos, o desmatamento, a redução da biodiversidade e a crise sanitária nas comunidades indígenas. |
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Habilidades específicas de Geografia para os Anos Finais do Ensino Fundamental: (EF07GE03) Selecionar argumentos que reconheçam as territorialidades dos povos indígenas originários, das comunidades remanescentes de quilombos, de povos das florestas e do cerrado, de ribeirinhos e caiçaras, entre outros grupos sociais do campo e da cidade, como direitos legais dessas comunidades. |
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Amarelo: é tudo pra ontem País de origem: Brasil Ano: 2020 Gênero(s): Documentário Classificação indicativa: 12+ Duração: 1 hora e 29 minutos Disponibilidade: Netflix |
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Sinopse: O documentário, ambientado no Teatro Municipal de São Paulo, apresenta o processo de criação do projeto “Amarelo” abordando o papel da cultura negra na construção do Brasil. |
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Possibilidade: discutir os processos e acontecimentos históricos da formação do território brasileiro, enfatizando o tráfico e a escravização das populações de países africanos, bem como a luta e a resistência do Movimento Negro no Brasil frente ao racismo estrutural e as desigualdades sociais. |
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Habilidades específicas de Geografia para os Anos Finais do Ensino Fundamental: (EF07GE04) Analisar a distribuição territorial da população brasileira, considerando a diversidade étnico-cultural (indígena, africana, europeia e asiática), assim como aspectos de renda, sexo e idade nas regiões brasileiras. |
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Estou me guardando para quando o Carnaval chegar País de origem: Brasil Ano: 2019 Gênero(s): Documentário Classificação indicativa: 10+ Duração: 1 hora e 25 minutos Disponibilidade: Apple TV, Itaú Cultural Play, Youtube |
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Sinopse: O documentário retrata a relação da população de Toritama, Pernambuco, com a produção de jeans, principal atividade econômica do município pernambucano. |
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Possibilidade: explicar a industrialização brasileira, as relações trabalhistas e a economia informal, destacando a flexibilização das leis trabalhistas e a precarização do trabalho decorrentes do neoliberalismo. |
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Habilidades específicas de Geografia para os Anos Finais do Ensino Fundamental: (EF07GE06) Discutir em que medida a produção, a circulação e o consumo de mercadorias provocam impactos ambientais, assim como influem na distribuição de riquezas, em diferentes lugares. (EF07GE08) Estabelecer relações entre os processos de industrialização e inovação tecnológica com as transformações socioeconômicas do território brasileiro. |
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Tapete vermelho País de origem: Brasil Ano: 2005 Gênero(s): Comédia/ Drama Classificação indicativa: 10+ Duração: 1 hora e 40 minutos Disponibilidade: PrimeVideo |
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Sinopse: Quinzinho, um camponês do interior de São Paulo, busca cumprir a promessa de levar seu filho Neco para assistir a um filme de Mazzaropi no cinema da “cidade grande”. |
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Possibilidade: esclarecer a urbanização, com destaque para as formas espaciais da cidade, a rede urbana, os problemas sociais e ambientais comuns das cidades brasileiras. Além do mais, discutir as diferenças e as similaridades entre os espaços urbano e rural, com ênfase para os modos de vida, as atividades econômicas, os equipamentos e funções. |
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Habilidades específicas de Geografia para os Anos Finais do Ensino Fundamental: (EF07GE07) Analisar a influência e o papel das redes de transporte e comunicação na configuração do território brasileiro. (EF07GE08) Estabelecer relações entre os processos de industrialização e inovação tecnológica com as transformações socioeconômicas do território brasileiro. |
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Fonte: Brasil (2018). Google (2024). Internet Movie DataBase (2024). Organizado pelas autoras (2024)
Os filmes e os documentários mostrados decorrem das experiências pessoais da pesquisadora com relação ao cinema brasileiro3. Essas produções, sob enfoque geográfico, formam um campo oportuno para aprofundar os conhecimentos dos educandos sobre o país em que vivem, além de incentivar o reconhecimento do cinema nacional como forma de arte pelas crianças e adolescentes.
Embora relevantes para o ensino de Geografia, os filmes nacionais sugeridos estão concentrados em plataformas de streaming. Essa problemática contradiz a Lei 13.006 de 26 de junho de 2014, que obriga a exibição de filmes de produção nacional na Educação Básica, com, no mínimo, 2 (duas) horas mensais (Brasil, 2014). Como assegurar a legislação se não há meios que a tornem possível? Essa é uma problemática a ser enfatizada, posto que são muitos os filmes do cinema brasileiro que podem contribuir para as práticas de ensino desenvolvidas na Educação Básica.
Vale mencionar que o cinema nacional é conhecido pela estética das narrativas, pela composição artística, pelo talento dos artistas e pela valorização da memória e cultura do país. Suas obras promovem interpretações sobre o território brasileiro a partir da representação de recortes históricos, sociais, políticos e econômicos. Nesse ponto de vista, é possível afirmar que filmes e documentários originados no Brasil têm valor educativo e devem ser aproveitados em circunstâncias de ensino.
As sugestões, então, demonstraram variedade em gêneros cinematográficos, que, para Messias e Bezerra (2018), propõem atender do público mais flexível ao mais exigente. Logo, esse leque de opções permite o planejamento de aulas com base nas preferências dos educandos.
Analisando a classificação indicativa dos filmes e dos documentários, é possível afirmar conformidade à faixa etária comum dos estudantes dos Anos Finais do Ensino Fundamental. Contudo, a Coleção apresenta falhas ao sugerir materiais com classificação indicativa “Não recomendado para menores de 16 anos”, que admitem conteúdos sensíveis, violentos e abusivos, tais como estupro, mutilação, suicídio, tortura, relação sexual e consumo de drogas.
Nos casos em que a classificação indicativa for inadequada para a faixa etária dos educandos, o professor poderá remover ou pular os trechos com conteúdo impróprio e exibir apenas aqueles de interesse para a atividade em sala de aula. Por isso, a utilização do cinema no ensino requer a visualização do filme e/ou documentário na íntegra em momento anterior à aula, a fim de que sejam evitadas situações de transtorno e constrangimento.
Quanto à duração, verificou-se que os filmes e documentários variam entre 40 minutos e 3 horas, tempo que deve ser levado em consideração no planejamento. Compete ao professor delinear os procedimentos, fazendo com que a duração das aulas seja suficiente para a exibição das obras e o desenvolvimento de atividades, como debate, questionário, produção textual, análise em vídeo, gravação de podcast e outras.
Sobre a disponibilidade, constatou-se que a maior parcela das sugestões está inserida em plataformas de streaming com planos de pagamento mensal e anual, o que indica um obstáculo para estudantes interessados em aprofundar os conhecimentos com o cinema, assim como para professores que planejam o emprego desse recurso em sala de aula. No que diz respeito aos avanços tecnológicos e informacionais, o acesso a filmes e documentários concentra-se em plataformas onerosas.
Sabendo que o cinema possui características que podem favorecer práticas dinâmicas e valorativas à Geografia, é oportuna a facilitação do acesso a filmes e a documentários para professores da Educação Básica. Com isso, esses profissionais podem explorar a variedade de obras cinematográficas existentes, com recortes espaço-temporais diversos, e relacioná-las às suas práticas em sala de aula.
As observações reiteram a necessidade de considerar as especificidades técnicas do cinema para o planejamento de práticas que visam ao seu emprego. No ensino de Geografia, o desafio consiste em mobilizar o pensamento geográfico de modo que os estudantes interpretem o espaço e compreendam as relações nele construídas, como defendido por Copatti (2020), sem que seja confundido com a mera exibição.
Além disso, com base em Cavalcanti (2019), o pensamento geográfico é a capacidade geral de realizar a análise de fatos ou fenômenos, sustentada em conceitos, raciocínios e linguagens, e o seu desenvolvimento no ensino se deve à relevância social da Geografia para a formação básica de todos os cidadãos. “No entanto, há uma concordância de que não se desenvolve esse pensamento com práticas meramente transmissivas e reprodutivas de conteúdos” (Cavalcanti, 2019, p. 99).
Em relação ao exercício docente, Copatti (2020) reconhece a importância da dimensão pedagógica para a construção do pensamento geográfico sob a justificativa de que não se pode propor um processo de construção de conhecimentos geográficos sem considerar o desenvolvimento cognitivo dos educandos. Ainda segundo a autora, os aspectos pedagógicos devem estar articulados aos conceitos, às categorias, aos princípios, às teorias e aos métodos da ciência geográfica.
A organização consciente de práticas de ensino resulta, então, na mobilização do pensamento geográfico, possibilitando aos sujeitos a capacidade de analisarem a realidade a partir dos conceitos e princípios. Sendo assim, concerne ao professor desenvolver aulas potencializadoras, delineando metodologias e recursos didáticos para a leitura espacial.
Ademais, a proposta de sistematização do conceito de pensamento geográfico por Cavalcanti (2019) classifica as linguagens geográficas em verbais e não verbais, dentre as quais, é possível destacar textos científicos, didáticos, jornalísticos e literários, assim como mapas, imagens aéreas, mapas mentais, desenhos, croquis, fotografias, charges, jogos, pinturas e filmes. Isso se torna relevante, segundo Richter (2025), em razão de, no cenário educacional, as linguagens, sejam visuais, cartográficas ou verbais, possuírem a capacidade de fornecer os meios para mediar a compreensão do espaço e de fomentar o pensamento geográfico.
Enquanto linguagem possível para a formação do pensamento geográfico, o cinema indica um conjunto de alternativas pedagógicas. Nesse sentido, Luz (2024) afirma que o cinema torna acessível a abordagem de temas complexos de forma vívida e acessível, tornando os conceitos abstratos um pouco mais inteligíveis para os educandos, uma vez que permite uma representação próxima da realidade que é decorrente da combinação de elementos visuais, sonoros e narrativos.
Sendo assim, a utilização de filmes e documentários no ensino de Geografia poderá, de acordo com Botton e Stürmer (2019), inserir os estudantes no mundo da cinematografia, partindo dos seus valores e referências culturais para atravessar outros contextos e dialogar com as realidades apresentadas. Por conseguinte, há o intuito de valorizar o cinema enquanto linguagem artística, de expressão social e cultural, em associação ao desenvolvimento do ensino e aprendizagem.
Cabe destacar, também, que o cinema consiste em interpretações sobre a realidade que precisam ser problematizadas em sala de aula. As produções cinematográficas são carregadas de influências que dizem respeito à inclinação da produção e direção, bem como ao contexto político, social e econômico vigente. Consoante Rocha (2022), o cinema é uma linguagem com intencionalidades, e Luz (2024), todo filme é uma construção social e resultado particular de uma visão de mundo.
O cinema se constitui como proposta inovadora se conduzido com intenção, pois “[...] tomando como princípio norteador o entendimento de que ensinar e aprender são dois processos interdependentes, pode-se dizer que o ensino se efetiva somente quando há aprendizagem dos estudantes” (Cavalcanti, 2022, p. 42). Sugere-se, assim, o professor como principal agente para a mobilização da aprendizagem em Geografia, ao utilizar o cinema como recurso didático não convencional.
Em discussão sobre a construção de conhecimentos geográficos por via do cinema, Luz (2024) sugere que sejam levados em consideração os seguintes aspectos: seleção de conteúdo, historicidade, interpretação crítica e linguagem cinematográfica. O autor reconhece que o emprego do cinema no ensino de Geografia necessita de cuidados que tornem a prática interessante e significativa para a aprendizagem dos educandos.
Nessa lógica, o docente, considerando as especificidades artísticas e técnicas do cinema, deverá planejar a utilização desse produto social apropriado como recurso didático, priorizando a aprendizagem, tendo em vista a mobilização do pensamento geográfico. Relacionando esses aspectos, o professor incentivará que os educandos interpretem filmes e documentários na perspectiva geográfica, associando-os com os conteúdos e os temas da Geografia.
Mediante os aspectos supracitados, a interpretação dos resultados obtidos levou à compreensão de que o cinema, no contexto da Coleção Didática Teláris Essencial Geografia, poderá contribuir para a formação do pensamento geográfico, haja vista que dispõe de narrativas que exploram espacialidades diversas. No entanto, ainda há o que se melhorar na forma como o livro didático sugere, porque deve ser concebido em sua complexidade, para que, de fato, o professor seja incentivado a utilizá-lo.
O cinema desempenha função complementar aos conteúdos de Geografia e dialoga com as habilidades do componente curricular, embora seja inserido nos livros didáticos de forma pouco convidativa, tendo em vista que disponibiliza ficha técnica incompleta e não faz referência a propostas pedagógicas.
Rememora-se que a linguagem audiovisual veicula narrativas, recortes e contextos propícios à construção de conhecimento, instigando processos cognitivos que induzem à assimilação de conceitos, ao questionamento do entorno, à discussão científica e à relação dos conteúdos com o cotidiano, entre outros. Para tanto, incumbe ao professor a implementação de estratégias que estimulem a participação ativa dos estudantes no processo de ensino e de aprendizagem.
O cinema, dessa forma, contribui para a formação do pensamento geográfico, porque opera na representação de fenômenos e processos espaciais. A título de exemplo, as obras recomendadas neste ensaio mobilizam conceitos estruturantes da Geografia (lugar, paisagem, território e região) e abordam temas como dinâmicas populacionais, crise climática, industrialização, crescimento urbano e desigualdade social.
Assim, é notório que a ausência de intencionalidade pedagógica afeta o potencial formativo do cinema, uma vez que, trabalhado de maneira avulsa, tem chances de insucesso. Dentre as ressalvas, destaca-se a necessidade de um planejamento didático (conteúdos, objetivos e metodologias) alinhado ao caráter artístico e cultural das películas, orientado por indagações como: “Que temática esse filme e/ou documentário trabalha?”, “Há necessidade de ajustes?” e “Quais estratégias podem embasar a aplicação do recurso?”.
Importa ressaltar que não existe um modelo metodológico capaz de assegurar resultados positivos com o uso do cinema, justamente porque cada situação de ensino tem suas particularidades. Desse modo, a preparação de aulas deve observar o contexto educacional (currículo, infraestrutura escolar, disponibilidade de materiais, duração da aula, etc.) e as necessidades de aprendizagem dos sujeitos.
O cinema, traduzido em filmes e documentários, tem potencial didático e pedagógico. Embora se configure como produção social inerente ao entretenimento, possui condições para abordar conteúdos do componente curricular Geografia, contanto que envolto por estratégias de ensino adequadas. Assim, a sua integração em livros didáticos deve acompanhar os elementos mencionados nas discussões anteriores, motivando os professores ao planejamento de aulas com o emprego da linguagem audiovisual, com o propósito de formar raciocínios sobre a realidade e de articular o pensamento geográfico.
O presente trabalho foi realizado com apoio da Pró-Reitoria de Pesquisa e Inovação (PROPESQI) da Universidade Federal do Piauí (UFPI) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
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UMA HISTÓRIA de amor e fúria. Direção: Luiz Bolognesi. Produção: Caio Gullane, Fabiano Gullane, Debora Ivanov, Gabriel Lacerda, Marcos Barreto, Laís Bodanzky e Luiz Bolognesi. São Paulo: Buriti Filmes, Gullane, 2013. 1 filme (75 min).
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Contribuições de autoria
1 – Ádila Eloisa Penha Lima
Graduação em Licenciatura em Geografia pela Universidade Federal do Piauí
https://orcid.org/0009-0008-4257-3575 • adilaeloisa@gmail.com
Contribuição: Pesquisa, Conceituação, Escrita, Normalização
2 –Bartira Araújo da Silva Viana
Doutorado em Geografia pela Universidade Federal de Minas Gerais
https://orcid.org/0000-0002-7288-3119 • bartira.araujo@ufpi.edu.br
Contribuição: Orientação, Conceituação, Revisão, Normalização
Como citar este artigo
LIMA, A. E. P.; VIANA, B. A. S. O cinema como recurso didático não convencional: uma análise a partir de livros didáticos de Geografia. Geografia Ensino & Pesquisa, Santa Maria, v. 30, e92897, 2026. Disponível em: 10.5902/2236499492897. Acesso em: dia mês abreviado. ano.
1 Trata-se de uma plataforma digital relacionada ao PNLD que disponibiliza acesso gratuito a livros didáticos, obras literárias e materiais educacionais para todos os níveis da Educação Básica.
2 Base de dados on-line que reúne informações técnicas de filmes, documentários, séries e programas.
3 Com exceção do filme “Rio”, que foi sugerido porque é ambientado no Brasil e teve participação de profissionais brasileiros em sua produção.