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Universidade Federal de Santa Maria
REGET, Santa Maria, v 29, e91073, 2025
DOI:10.5902/2236499491073
ISSN 2236-4994
Submissão: 06/03/2024 • Aprovação: 10/07/2025 • Publicação: 23/07/2025
Ensino e Geografia
O ensino de geografia e a música: ouvindo, conectando e reverberando possibilidades de aproximação
Geography teaching and music: listening, connecting and reverbering possibilities of approachment
Enseñanza de geografía y música: escuchando, conectando y reverberando posibilidades de acercamiento
I Universidade Federal de Santa Maria ROR, Santa Maria, RS, Brasil
RESUMO
A discussão sobre a utilização da música no processo de ensino e aprendizagem da Geografia é o objetivo do presente texto. A partir do Projeto “Geografia e Música: audições, conexões e possibilidades no ensino de Geografia”, desenvolvido durante o ano de 2023, sob os auspícios do Programa de Licenciaturas – PROLICEN, da Universidade Federal de Santa Maria – UFSM, foram desenvolvidas oficinas com docentes de Geografia e História das Redes de Ensino Básico, discentes do Ensino Fundamental das Redes Públicas de Ensino do Rio Grande do Sul e discentes dos cursos de graduação e pós-graduação em Geografia da UFSM. A escolha da linguagem musical fundamenta-se em um conjunto de ações, desenvolvidas pelos autores em suas trajetórias, que forneceram elementos teóricos e empíricos de análise, além de ser uma linguagem fortemente presente na vida cotidiana, com veiculação favorecida por canais de comunicação diversificados. As propostas e resultados das atividades realizadas subsidiaram as análises ao término do projeto, concluindo que as conexões entre geografia e música ampliam o entendimento da ciência geográfica e o estabelecimento de suas relações com as múltiplas manifestações culturais. Por sua vez, ampliam também as possibilidades de audição e formação de repertório dos docentes e discentes e constituem em possibilidade de emprego no ensino-aprendizagem de geografia em seus distintos níveis.
Palavras-chave: Ensino de Geografia; Linguagem musical; Cultura
ABSTRACT
The discussion about the use of music in the process of teaching and learning Geography is the objective of this text. From the Project “Geography and Music: auditions, connections and possibilities in the teaching of Geography”, developed during the year of 2023, under the auspices of PROLICEN, from the Federal University of Santa Maria – UFSM, workshops were organized with Geography and History teachers at public schools, middle grade students in the public schools of Rio Grande do Sul and students of undergraduate and postgraduate Geography programs at UFSM. The opting for musical language is based upon a set of practices developed by the authors in their careers, which provided theoretical and empirical elements of analysis, in addition to being a language strongly present in everyday life, with its dissemination favored by diversified communication channels. The proposals and results of the activities carried out supported the analysis at the end of the project, which concludes that the connections between geography and music expand the understanding of geographic science and the establishment of its relationships with multiple cultural manifestations. In turn, they also expand the listening possibilities and repertoire formation of teachers and students and constitute a possibility for teaching and learning geography at its different levels.
Keywords: Teaching Geography; Musical language; Culture
RESUMEN
La discusión sobre el uso de la música en el proceso de enseñanza y aprendizaje de la Geografía es el objetivo de este texto. A partir del Proyecto “Geografía y Música: audiciones, conexiones y posibilidades en la enseñanza de la Geografía”, desarrollado durante el año 2023, con el auspicio del PROLICEN, de la Universidad Federal de Santa María – UFSM, se desarrollaron talleres con profesores de Geografía e Historia de las Redes de Educación Básica, estudiantes de Educación Primaria de las Redes de Educación Pública de Rio Grande do Sul y estudiantes de cursos de Geografía de la UFSM. La elección del lenguaje musical se basa en un conjunto de acciones, desarrolladas por los autores, que aportaron elementos de análisis teóricos y empíricos, además de ser un lenguaje fuertemente presente en la vida cotidiana, con difusión favorecida por canales de comunicación diversificados. Las propuestas y resultados de las actividades realizadas sustentaron los análisis al final del proyecto, concluyendo que las conexiones entre geografía y música amplían la comprensión de la ciencia geográfica y el establecimiento de sus relaciones con múltiples manifestaciones culturales. A su vez, también amplían las posibilidades de escucha y formación de repertorio de profesores y estudiantes y constituyen una posibilidad para la enseñanza-aprendizaje de la geografía en sus diferentes niveles.
Palabras-clave: Enseñanza de la Geografía; Lenguaje musical; Cultura
O Ensino de Geografia se mostra em um processo constante de problematização. Iniciativas diversas, no âmbito dos professores de Geografia do ensino fundamental, médio e superior, têm apresentado contraponto às propostas e reformas das políticas educacionais, bem como repercutem na elaboração de práticas e estratégias de ensino e aprendizagem, no esforço de manter uma Geografia presente, reflexiva, crítica, atraente e que produza sentido para discentes e docentes.
Como parte desse movimento, a aproximação do Ensino de Geografia com a Arte tem sido um dos caminhos trilhados já há algum tempo, com o desenvolvimento de metodologias, propostas, sugestões de atividades e roteiros didáticos, produção de materiais de apoio, que configuram um horizonte de ações conectando a produção artística em suas distintas linguagens com a prática dos docentes de Geografia. Não somente no ensino, a pesquisa e extensão em Geografia também se valem dessa aproximação, com matizes e perspectivas diversas.
Frente a tal contexto, a discussão sobre a utilização da música no processo de ensino e aprendizagem da Geografia é o objetivo do presente texto. A escolha da linguagem musical fundamenta-se em um conjunto de ações, desenvolvidas pelos autores em suas trajetórias pessoais e profissionais, que forneceram elementos teóricos e empíricos de análise, além de ser uma linguagem fortemente presente na vida cotidiana, com veiculação favorecida por canais de comunicação diversificados.
Uma das ações que será reportada ao longo do artigo, consiste no Projeto “Geografia e Música: audições, conexões e possibilidades no ensino de Geografia”, desenvolvido durante o ano de 2023, sob os auspícios do Programa de Licenciaturas – PROLICEN, da Universidade Federal de Santa Maria – UFSM. As propostas e resultados das atividades realizadas fornecem os subsídios para a análise, pautada nos seguintes questionamentos: a) o diálogo com a linguagem musical possibilita elaborar metodologias que diversifiquem a abordagem das temáticas geográficas trabalhadas no ensino?; b) o uso da música pode tornar o processo educacional atrativo para os discentes?; c) o contato com a diversidade da produção musical contribui para ampliar a formação cultural do discente e do docente?
Como antecedentes que justificam o desenvolvimento do projeto, destaca-se o emprego de atividades que comportam o Ensino de Geografia e o uso de canções em disciplinas ministradas pelo coordenador do projeto – docente dos Cursos de Geografia da UFSM – Licenciatura e Bacharelado. Junto aos conteúdos abordados em Geografia Econômica, Geografia do Brasil e outras disciplinas, músicas compostas ou interpretadas por Milton Nascimento (Notícias do Brasil), Dorival Caymmi (O vento), Joyce (Capitão), Chico Buarque de Holanda (O malandro), Antonio Nóbrega (Viagem maravilhosa), entre outros artistas e obras, contribuem na problematização de temáticas relacionadas às questões econômicas, ambientais, políticas ou regionais. Outro antecedente corresponde às reflexões sobre a Geografia e a música, sistematizadas no artigo “A metrópole na linha do baixo: Itamar Assumpção e a Geografia da cidade de São Paulo”, apresentado no Simpósio do NEPEC – Núcleo de Estudos e Pesquisa sobre Espaço e Cultura da Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ e publicado na revista Espaço e Cultura, que será reportado ao longo do presente texto (Cardoso, 2009).
A temática da música está presente em estudos geográficos que a tratam partindo de diversos enfoques de análise, assim como em momentos distintos ao longo da trajetória dessa ciência. Panitz (2012) realiza um consistente trabalho de reconstituição do interesse dos geógrafos pela música, manifestado há pelo menos um século, apontando trabalhos oriundos de matrizes geográficas alemãs, norte-americanas e francesas. Dentre estes, cita os estudos de distribuição espacial dos instrumentos realizados por Leo Frobenius, no início do século XX, como uma das vertentes da ligação da geografia com a música.
O mesmo autor aponta a presença da temática em diversos outros centros de produção da ciência geográfica e realiza uma sistematização das pesquisas desenvolvidas no Brasil, em teses, dissertações e alguns estudos esparsos, que revelam o crescimento do interesse pela temática a partir do final do século XX. Aponta ainda para a diversidade de abordagens presentes nos trabalhos e o enfoque nos repertórios da música popular, ressaltando a importância do NEPEC – UERJ na difusão das temáticas voltadas à Geografia Cultural (Panitz, 2012).
Quanto às possibilidades de análise e tomando o ponto de vista do espaço geográfico, é possível identificar estruturas espaciais voltadas à produção e consumo da música que se distribuem pelas cidades e campos, compondo um conjunto de fixos e fluxos. Tais estruturas e objetos, são tratados por Romagnan (2000), baseado nas concepções do geógrafo francês Jean Pierre Augustin relativos à prática esportiva, como “geoindicadores”. No caso da atividade musical, consistem nos espaços onde os processos musicais se realizam e onde os agentes desse processo interagem. Como exemplos podem ser citados as casas de espetáculo, os estúdios, os bares, os conservatórios, as rádios, as indústrias fonográficas, as produtoras, as lojas de instrumentos e equipamentos e uma porção de outros objetos técnicos dispostos nas paisagens e que proporcionam as ações de produção, o fruir e o fluir da música (Cardoso, 2009).
Ademais, as conexões entre a música e a Geografia podem ser trabalhadas de outras formas, apontadas por Panitz (2012), além de outras perspectivas. Como por exemplo: o contexto de produção da música na organização espacial; a existência, ou não, de regiões musicais; a origem e difusão espacial de gêneros musicais, com sua influência sonora e instrumental em outros estilos; questões econômicas, como o trabalho de músicos, técnicos de som, luz e outros profissionais que tornam possíveis shows e festivais; os espaços e a sociabilidade relacionados à música.
Outros campos disciplinares também conectam a música, o espaço geográfico e a sociedade, como é o caso da análise das comunidades caiçaras da Ilha de São Sebastião e a expressão dos acontecimentos cotidianos a partir dos “pasquins” (Mussolini, 1950), ou as transformações do espaço do litoral e do interior paulista repercutindo em mudanças das práticas musicais das comunidades (Setti, 1985; Candido, 1982).
Dentre as pesquisas desenvolvidas no Brasil, elencadas por Panitz (2012), o trabalho de Marcos Alberto Correia, “Representação e ensino – a música nas aulas de Geografia: emoção e razão nas representações geográficas”, do ano de 2009, é apontado como a primeira dissertação que explicita a questão da utilização da música nos processos de ensino. O trabalho revela esta outra vertente de estudos, que articula música e Ensino de Geografia e para onde convergem várias outras propostas, apresentadas e sistematizadas em artigos, ou expostas em eventos voltados ao Ensino de Geografia (AGB, 2003).
No Ensino de Geografia, a música atua tanto como alicerce para colaborar no desenvolvimento do conteúdo exposto, como pode ser propriamente o objeto de estudo, de modo a oferecer uma ampla gama de possibilidades a serem exploradas. Uma delas é a reflexão da mensagem da canção, em que as relações entre o sujeito e o espaço geográfico se colocam, sendo as observações e problematizações dos docentes centradas no aprofundamento dos assuntos trabalhados. Macedo, Oliveira e Silva (2020), propõem um diálogo acerca de temas, tais como urbanização, industrialização brasileira e migração, elegendo canções com letras relacionadas aos conteúdos abordados, para então discuti-los em forma de exposições e seminários.
Outra possibilidade de conectar o Ensino de Geografia e a música, especialmente a música popular, pode ser expressa na perspectiva de identificar, por meio de melodias e letras, aspectos relacionados ao espaço geográfico e aos conceitos de lugar, região, território, paisagem e ambiente, dentre outros que compõe o repertório da ciência geográfica. Assim, as músicas podem ser incorporadas às exposições dos docentes, de acordo com seu plano de ensino. Podemos mencionar o uso de canções sobre aspectos de paisagens distintas, que apresentam realidades e sonoridades urbanas, rurais, sertanejas, amazônicas, pampeanas ou litorâneas. Também as músicas reverberam questões ambientais ou territoriais, que afligem a sociedade brasileira.
Na perspectiva de relacionar as músicas com os aspectos culturais de distintos grupos sociais no espaço geográfico, reside outra possibilidade de abordagem para o Ensino de Geografia. Como exemplo, Haesbaert (2002) analisa a poesia nativista em sua relação com o regionalismo gaúcho, na terra natal e nos movimentos migratórios, relacionando-a com as noções de território e identidade. As músicas gaúchas seriam expressões da identidade coletiva, portadoras de significados e valores do grupo social, assim como outras músicas e manifestações culturais reportam-se a outros grupos sociais.
As atividades econômicas e laborais, no Ensino de Geografia, também podem ser associadas a um conjunto de canções e estilos musicais, além dos chamados “cantos de trabalho”. Santos (1996), aponta para a existência de uma cultura marítima que expressa valores, ideias e uma visão de mundo dos pescadores e de suas comunidades, ao tratar da análise dos cocos praianos no nordeste brasileiro. No caso dos trabalhadores dos sistemas de transportes rodoviários, aeroviários, aquaviários ou ferroviários, um conjunto de músicas referenciam suas atividades e rotinas de trabalho, assim como a dos usuários desses meios de circulação.
As ligações da produção musical com aspectos mais amplos da globalização e da indústria cultural também podem ser apresentadas do ponto de vista do ensino e da reflexão geográfica, aliando discussões sobre geopolítica, economia e cultura que se manifestam em escalas distintas e dizem respeito às relações comercias e sociais que articula indivíduos, grupos e classes sociais e nações (Aredes et al, 1992; Lottermann, 2024)
Tanto a reflexão dos geógrafos sobre a música, quanto seu emprego no ensino tem sido incrementado na geografia brasileira, gerando publicações específicas, trabalhos em eventos, trabalhos de graduação, dissertações e teses. O presente artigo configura mais uma contribuição a esta construção, mediante atividades e reflexões conjuntas com três sujeitos do processo educativo: docentes das redes de ensino, discentes do ensino fundamental e discentes em formação dos Cursos de Geografia da UFSM.
A primeira etapa do projeto se voltou ao estudo das abordagens geográficas possibilitadas a partir da música. Deste modo, buscou-se compreender tanto a prática da música, quanto as expressões da sua produção e reprodução em relação ao espaço geográfico. Concomitantemente ao processo da pesquisa, foi dada atenção ao foco do trabalho de geógrafos sobre este tema ao longo da evolução epistemológica da ciência. Assim, notou-se que existe uma grande abrangência das relações, possibilidades e conexões entre Geografia e música.
A etapa seguinte foi direcionada a compreender como música e Geografia podem se relacionar ao contexto educacional das escolas de Ensino Básico, partindo das considerações que os professores possuem acerca da relação da música com a Geografia e como inserem a música em suas práticas educacionais.
Para isto foi realizada uma oficina, com professores da rede pública e privada de ensino, de forma remota e síncrona, no dia 20 de junho de 2023. A oficina foi organizada em três momentos: o momento inicial consistiu na apresentação das motivações do projeto e uma breve introdução ao tema; no segundo momento os participantes relataram sua visão sobre a música e como esta pode auxiliar no Ensino de Geografia e; por fim, o debate focou nas metodologias que os professores trabalham em suas aulas, bem como os resultados e limites deste tipo de abordagem.
Ao final da oficina, os participantes foram convidados a seguirem no projeto, construindo atividades didáticas com emprego da música para suas turmas de acordo com o conteúdo que estavam trabalhando e a disponibilidade de tempo. Três docentes se propuseram a dar continuidade a esta etapa junto aos alunos de três escolas de ensino fundamental, situadas em Santa Maria - RS, São Martinho da Serra – RS e Nova Palma - RS. Também foi proposta a realização de uma nova oficina, para os docentes da rede de ensino de Santa Maria, por uma professora integrante da equipe pedagógica da Secretaria Municipal de Educação - SMED.
A etapa seguinte do projeto se constituiu na elaboração e execução das aulas envolvendo a música como estratégia de ensino-aprendizagem de Geografia, nas três escolas e respectivas turmas definidas. As aulas foram planejadas com os professores para atingir os temas e conteúdos específicos de cada ano, adequando à disponibilidade de tempo para sua realização e foram ministradas entre julho e setembro de 2023.
O trabalho em conjunto com a SMED de Santa Maria, consistiu no ”Encontro Formativo de Ciências Humanas: o ensino de História e Geografia utilizando as ‘chaves’ das linguagens das artes”, realizado na manhã do dia 17 de agosto de 2023.
Uma segunda oficina, intitulada “Acordes nas Terças” e destinada aos graduandos em Geografia da UFSM, foi realizada de forma presencial nos auditórios da universidade. Com duração de três tardes de terças-feiras - dias 5, 12 e 19 de setembro de 2023, tiveram como finalidade contribuir na formação dos discentes, apresentando experiências e práticas de ensino e pesquisa que conectam música e Geografia, bem como refletir, conhecer e produzir possibilidades de atividades didáticas.
Após estas atividades, houve a participação em eventos científicos para apresentar os trabalhos realizados e os resultados obtidos, além da sistematização e construção do relatório do projeto e de artigos de divulgação.
4.1 A oficina com docentes da Rede Básica de Ensino
A atividade realizada dia 20 de junho de 2023 contou com a participação de treze professores de Geografia do ensino básico, atuantes nas redes de ensino público, privado e cursos pré-vestibulares, ocorrendo de forma remota e síncrona por videoconferência. Teve o formato de uma roda de conversa, objetivando apreender como os professores realizam a conexão entre Ensino de Geografia e música no seu cotidiano de trabalho, aproximando-se de sua realidade e possibilitando o diálogo sobre sua prática (Figura 1).
Figura 1 – Material de divulgação da Roda de Conversa com docentes
Fonte: autores
Foi trabalhada em três momentos, sendo o momento inicial uma apresentação das motivações do projeto, além de uma breve introdução ao tema com a audição de três canções interpretadas por Elis Regina – “Canção do sal” de Milton Nascimento, “Chovendo na roseira” de Tom Jobim e “Mestre-sala dos mares” de João Bosco e Aldir Blanc. A partir das canções foram estabelecidas algumas conexões com os conteúdos curriculares do Ensino de Geografia, tais como o trabalho e a extração mineral, o ciclo da água e a questão dos rios, além da relação da Geografia com os processos históricos e os movimentos sociais.
No momento seguinte, os professores apresentaram suas formas de trabalhar com a música nas aulas de Geografia. Todos os presentes relataram experiências já realizadas e a maioria afirmou o uso frequente da música como recurso didático no desenvolvimento de diversos conteúdos dos programas da disciplina. Entretanto, uma parte dos professores presentes, utiliza a música apenas em conteúdos específicos, quando há disponibilidade de tempo e quando a turma se mostra receptiva a este tipo de abordagem.
A utilização de canções para desenvolver determinadas temáticas foi um dos aspectos mencionados ao longo da conversa com os docentes. Alguns exemplos apresentados foram: a música “Santa Maria” do artista Beto Pires, referindo-se às transformações da cidade e a identidade local; a geopolítica dos anos oitenta e a derrubada do Muro de Berlim, retratada na música “Winds of change” da banda Scorpions; os movimentos políticos e revolucionários a partir da “Internacional socialista”; a hidrografia e a importância da água em “Planeta água” de Guilherme Arantes.
Os docentes também relataram algumas dificuldades em trabalhar com a música e, dentre os motivos apontados, encontra-se o tempo curto de seus períodos de aula e a baixa carga horária da disciplina, em decorrência das recentes reformas educacionais. Tais motivos resultam no desafio de abordar os conteúdos de forma satisfatória em pouco tempo, restringindo a oportunidade de elaborar metodologias diferenciadas.
Outra questão que dificulta o uso de música nas aulas de Geografia, de acordo com os professores, é a falta de concentração dos alunos, resultando em dispersão generalizada e fazendo com que este tipo de estratégia não seja empregado com frequência. Para contornar esta situação, a solução elaborada por alguns docentes é trabalhar com pequenos trechos das canções.
Além da audição das músicas, outras estratégias foram compartilhadas e reconhecidas pelos bons resultados quanto à participação dos alunos e compreensão dos temas, tais como a elaboração de paródias, a montagem de vídeos com paisagens sugeridas nas músicas e a conexão entre as regiões do Brasil e alguns estilos musicais.
Alguns apontamentos apresentados pelos docentes foram recorrentes, como a menção ao aumento no uso de distintos recursos didáticos durante a pandemia. Nas aulas virtuais, os professores declararam que havia a necessidade de reinventar suas estratégias e o emprego da música passou a ser mais frequente.
Ao final dos debates, o terceiro momento da oficina consistiu na proposição de elaboração de atividades didáticas, a serem organizadas juntamente com cada professor interessado, de acordo com o conteúdo programado e com a disponibilidade de tempo para ser desenvolvida na escola. Três docentes de escolas públicas estaduais e municipais se dispuseram a participar e as atividades e estratégias didáticas foram realizadas ao longo dos meses de julho, agosto e setembro de 2023.
4.2 O trabalho nas escolas com os discentes da Rede Básica
As três escolas onde as atividades com os discentes foram aplicadas correspondem à Escola Municipal de Ensino Fundamental – EMEF Profa. Cândida Zasso, de Nova Palma, Escola Estadual de Ensino Básico – EEEB - Profa. Lelia Ribeiro, de São Martinho da Serra e a Escola Municipal de Ensino Fundamental – EMEF Zenir Aita, de Santa Maria. O planejamento das estratégias de ensino, de forma que o recurso da música fosse adaptado de acordo com a série da turma, o conteúdo trabalhado pelo professor e o período de tempo disponível, foi realizado com as docentes de Nova Palma, para uma turma de oitavo ano, de São Martinho da Serra, para uma turma de sexto ano e de Santa Maria, para uma turma de sétimo ano do ensino fundamental.
A primeira atividade foi executada na EMEF Profa. Cândida Zasso, de Nova Palma, em julho de 2023, com uma turma do 8º ano e teve duração de dois períodos. Foi desenvolvido o tema de migrações na América Latina. Com base nos textos do material didático utilizado pela escola - o livro “Expedições geográficas” de Sérgio e Melhem Adas, foi realizada uma breve contextualização da migração das populações pelo espaço geográfico, abordando alguns motivos causadores deste processo, bem como o fato das pessoas trazerem seus contextos culturais e sociais nos movimentos de deslocamento e chegada em novos lugares. Nesse momento foi realizado o diálogo com os alunos referente aos processos de imigração de seus familiares, alguns identificando a vinda de europeus no século XIX, dentre eles os oriundos do atual território italiano que formaram os núcleos coloniais e, posteriormente, originaram o próprio município de Nova Palma.
Paro o caso dos movimentos contemporâneos de chegada de imigrantes oriundos de outros países latino-americanos para o Brasil, foram exibidos trechos de dois episódios da série “Sons do refúgio”, produzida pelo SESC – Serviço Social do Comércio, que retrata a história de vida de pessoas em situação de refúgio, imigrantes ou exilados no Brasil contemporâneo mediada pela música. Um dos episódios conta a história de três irmãs bolivianas residentes na cidade de São Paulo e trabalhadoras no ramo têxtil, que formaram o grupo de rap “Santa Mala”, expressando seu cotidiano, sua cultura e situação de imigrantes. O segundo episódio remete à história do compositor haitiano Guipson Pierre, também residente em São Paulo.
Após a exibição dos audiovisuais, foi proposto para os discentes identificarem em um croqui do continente americano os principais países de origem dos imigrantes, apresentados tanto no livro texto e nos trechos dos vídeos, traçando o movimento de fluxo em direção ao Brasil. Ao final da atividade foi realizada uma breve avaliação e os estudantes foram convidados a escrever uma paródia com o tema da aula, para ser entregue à professora regente da turma, na aula seguinte. Dois discentes fizeram suas paródias, utilizando como referência as canções “Vamos fugir” de Gilberto Gil e Liminha e “Quem de nós dois” - versão interpretada por Ana Carolina da composição italiana intitulada “La mia storia tra le dita”, de autoria de Gianluca Grignani, sinalizando o conhecimento, pelos discentes, de repertório da música popular brasileira de gerações anteriores às suas.
A atividade com a turma do 6º ano, organizada em quatro períodos divididos em dois dias, foi realizada na EEEB Profa. Lelia Ribeiro, em São Martinho da Serra, durante duas segundas-feiras de agosto de 2023 e teve como tema os recursos hídricos. O livro didático trabalhado pela escola é o mesmo adotado pela escola de Nova Palma, porém referente ao sexto ano. Este contém um material rico sobre a temática da água e foi utilizado para indicar aos alunos os mapas, figuras e textos, conforme o andamento das exposições. No primeiro dia, após a exposição do conteúdo, a aula foi concluída com o videoclipe da música “Naturágua”, de autoria do grupo “Palavra Cantada”, que trata dos rios, das chuvas e do ciclo da água a partir de animações, ficando como tarefa para a próxima aula, a pesquisa sobre algum rio brasileiro e uma música que se referisse aos recursos hídricos do país.I
No segundo encontro (Figura 2), a explanação focou nas bacias hidrográficas brasileiras e suas características, mostrando a localização de cada uma a partir dos mapas do livro texto, assim como dialogando com a tarefa dos alunos. Após a exposição alguns alunos mencionaram o conhecimento de músicas relativas aos recursos hídricos e a música “Lago verde e azul”, referente à Lagoa dos Patos, de autoria de Helmo de Freitas, foi trazida por um discente para audição, identificando algumas de suas características, como suas dimensões, as mudanças de salinidade e a fauna de peixes, mamíferos e aves que abriga. Após o encerramento das aulas, os discentes e a professora regente da turma encaminharam a avaliação das atividades desenvolvidas.
A atividade junto à EMEF Zenir Aita, na cidade de Santa Maria, com alunos de 7º ano, foi desenvolvida em dois períodos de um único dia em setembro de 2023, tendo como temática a questão da regionalização brasileira. Nela foram discutidos os conceitos de região, os critérios de regionalização e os distintos recortes territoriais propostos para o território brasileiro.
Figura 2 – A oficina com os discentes do ensino fundamental
Fonte: autores
A aula foi baseada nos temas do material didático adotado pela escola, que se trata de um polígrafo sobre Geografia do Brasil, que apresenta distintos critérios de regionalização do país, dentre eles a proposição do Prof. Aziz Ab ́Saber, referente aos Domínios Morfoclimáticos e Fitogeográficos Brasileiros. A partir da discussão sobre este conceito, foi apresentado o episódio da série audiovisual “Interpretes do Brasil – os vários Brasis”, no qual o próprio Aziz Ab’Saber explana sobre sua proposta, acompanhado de imagens dos distintos domínios de natureza do Brasil, seus usos e impactos antrópicos.
Ao final da apresentação, foram discutidas as possíveis regionalizações do país e algumas de suas características culturais, dentre elas as músicas e os elementos geográficos expressos nas canções. A partir das músicas “Festa” de Luiz Gonzaga Júnior, interpretada por Luiz Gonzaga e “Do fundo da grota” de Baitaca, aspectos dos ambientes da caatinga e do pampa - meteorológicos, biogeográficos e econômicos foram identificados, seguido de um debate sobre os distintos gêneros musicais e sua distribuição espacial.
4.3 O Encontro Formativo com os docentes da rede municipal de Santa Maria
A oficina com os docentes de História e Geografia da rede municipal de Santa Maria, foi desenvolvida em 17 de agosto de 2023, contando com cerca de 10 participantes e fez parte de uma sequência de encontros formativos promovidos pela Secretaria Municipal de Educação (Figura 3). Teve como título “O ensino de História e Geografia utilizando as ‘chaves’ das linguagens das artes”, inspirado na canção do pernambucano Antônio Carlos Nobrega, “Sambada dos mestres”II.
Com a convicção de que os docentes participantes possuíam experiência na utilização de distintas linguagens artísticas em suas disciplinas, a oficina contou com um momento inicial de apresentação e de exposição da proposta da atividade. Esta centrou no relato das experiências dos docentes no uso das artes plásticas, literatura, cinema e música e, para cada uma destas linguagens, foram apresentados alguns exemplos, realizados debates e uma breve sistematização.
Dentre as experiências docentes, ressalta-se o emprego do cinema com uma vasta filmografia utilizada, retratando episódios históricos ou presentes, localidades e problemáticas diversas. A pequena carga horária das disciplinas acaba limitando a exibição dos filmes de longa metragem e uma estratégia, desenvolvida e relatada por um docente, é organizar a seleção e exibição de um filme por trimestre letivo, compartilhando a atividade entre distintas disciplinas e configurando um aporte no planejamento das aulas e conteúdos a serem ministrados para as respectivas turmas.
A ligação do cinema com a literatura foi bastante comentada, possibilitando atividades interdisciplinares, assim como as artes plásticas e fotografias, possibilitando integrar conteúdos a partir de propostas de análise das obras consagradas ou produção de obras e fotos pelos discentes.
Figura 3 – Material de divulgação do Encontro Formativo - SMED
Fonte: SMED – Santa Maria
Com relação à música foram destacadas as possibilidades de abordagem das canções nas disciplinas de Geografia e História, conectando com os conteúdos, fatos, localidades, questões ambientais, sociais e econômicas, sendo debatido o papel das mídias, a difusão dos gêneros musicais e a formação dos ouvintes.
Outras linguagens artísticas foram mencionadas pelos docentes em suas práticas, como o teatro e a dança empregados em momentos específicos do calendário letivo, além das mostras culturais promovidas pelas escolas. Ao final dos debates foram apontadas algumas passagens que mencionam a importância do emprego de distintas linguagens no ensino básico, presentes nos documentos norteadores da educação em escala local, estadual e nacional.
4.4 A Oficina “Acordes nas Terças”
A oficina “Acordes nas Terças” foi realizada na tarde de três terças–feiras do mês de setembro de 2023 e contou com vinte e sete inscritos, grande parte deles discentes dos Cursos de Geografia - Bacharelado e Licenciatura da UFSM, totalizando doze horas de atividades (Figuras 4, 5 e 6).
A primeira “terça”’ teve como temática uma introdução à questão das relações entre “Música e Espaço Geográfico” partindo de uma pesquisa de mestrado em desenvolvimento no Programa de Pós-graduação em Geografia – PPGGEO – UFSM intitulada: “Redes de manutenção de identidade cultural germânica a partir da prática do bandoneón”, de Fernando Ávila e da apresentação e releitura do texto “A metrópole na linha do baixo: Itamar Assumpção e a Geografia da cidade de São Paulo” pelo Prof. Eduardo Schiavone Cardoso.
O trabalho do músico e pós-graduando Fernando Ávila busca analisar a difusão do bandoneón em cidades do sul do país que se originaram do processo de imigração germânica do século XIX, bem como a perpetuação e fomento de seu uso através de ações diversas relacionadas ao ensino-aprendizado da prática do instrumento e manutenção de elementos da cultura a ele associados.
Na segunda parte da oficina, foi apresentado o trabalho que homenageia o artista Itamar Assumpção e sua obra, publicado em 2009, bem como analisa a leitura da cidade de São Paulo a partir de suas canções. As conexões entre a música e a Geografia, estabelecidas à época da publicação do texto, foram retomadas e rediscutidas, com ênfase no contexto cultural do início dos anos de 1980, quando o primeiro disco de Itamar Assumpção foi lançado. Tal período remonta à vivência do autor, que trabalhou no Teatro Lira Paulistana, localizado na cidade de São Paulo - um centro de promoções artísticas que pode ser considerado um “geoindicador” da música “independente” criada e difundida por fora dos circuitos comerciais das grandes mídias, alcançando grande visibilidade durante sua existência e um legado que repercute ainda hoje.
No segundo encontro, foi debatido o tema “Geografia e Música no Ensino e na Pesquisa”, com a apresentação dos trabalhos dos graduandos do Curso de Licenciatura em Geografia da UFSM, João Victor Bergamo de Siqueira e Maurício Vielmo Severo. O primeiro, com o título: “Música, mangues e Geografia: a influência das obras de Josué de Castro no Movimento Manguebeat e na paisagem cultural de Recife”, refere-se ao Trabalho de Conclusão de Curso - TCC do discente. Nele o autor relaciona algumas músicas do álbum “Da lama ao caos”, de Chico Science e Nação Zumbi, com aspectos da cidade de Recife e da obra do escritor pernambucano.
Na sequência, com o trabalho “Produção de música como recurso educacional para ensino da educação ambiental e alimentar em uma escola do campo de Santa Maria”, Maurício Vielmo Severo apresentou parte de um projeto de iniciação científica, no qual a proposta de associar a linguagem musical com a discussão sobre a produção e o consumo do alimento foi desenvolvida junto aos discentes do ensino fundamental.
Figuras 4, 5 e 6 – A oficina “Acordes nas Terças”
Fonte: autores
Na terceira “terça”, a oficina se propôs a sistematizar as discussões, dedicando inicialmente à apresentação, por parte dos participantes, de suas próprias pesquisas e criações elaboradas a partir das conexões entre a música e a Geografia. Através de temas variados como a globalização, urbanização, migrações, violência e de recortes regionais específicos como a Campanha Gaúcha e a América Latina, os discentes participantes apresentaram canções por eles selecionadas, elaborando propostas de reflexões e atividades didáticas, em que os temas e conceitos geográficos podem ser problematizados a partir do uso de obras musicais. Ao final do terceiro encontro, foi realizada a avaliação do conjunto das atividades da oficina, com a concordância de sua pertinência ao possibilitar integrar os campos de ensino, pesquisa e atuação da Geografia e da música, nas perspectivas trabalhadas.
4.5 Sistematização e divulgação do projeto
No processo de divulgação do trabalho realizado, foi publicado o resumo e apresentado os resultados preliminares sob a forma de pôster, durante a 38ª JAI - Jornada Acadêmica Integrada, promovida pela UFSM no mês de outubro de 2023 (Figura 5). A participação no evento configura uma contrapartida obrigatória para os projetos contemplados com recursos próprios da instituição em seus editais de fomento, no caso o Edital PROLICEN 2023, que objetiva a formação dos discentes das licenciaturas e o desenvolvimento de ações de incremento aos processos de ensino-aprendizagem. O projeto submetido no início de 2023 foi aprovado em sua totalidade, com o financiamento de um bolsista, durante o período de oito meses, de dedicação às atividades específicas do projeto.
O projeto também foi apresentado, em formato remoto, no II CLEG - Congresso Latino-Americano de Ensino de Geografia e I CoGIn – Congresso de Geografia Inclusiva, eventos conjugados, no mês de novembro de 2023. O relato apresentado pelo bolsista Lucca Klipel Ferreira, foi publicado em edição específica da Revista Estrabão e aborda as atividades desenvolvidas as longo do ano de trabalho. Por fim, foi elaborado e aprovado o relatório do projeto e desenvolveram-se os trabalhos de difusão de suas atividades e resultados.
Figura 7– Divulgação e avaliação do projeto JAI-UFSM
Fonte: autores
As atividades do projeto compreenderam diversas possibilidades e alternativas de Ensino de Geografia, utilizando-se da música. Na análise bibliográfica realizada para observar as possibilidades de conexão entre a Geografia e a música, ficou claro o interesse deste tema para os geógrafos, principalmente nas últimas décadas.
A cultura e seus elementos ganham atenção no escopo da ciência geográfica e converge com os estudos sobre a globalização, a geopolítica e a geoeconomia, em que as transformações sociais, comerciais e ambientais se relacionam profundamente com a indústria cultural e se manifestam na relação entre os aspectos locais, regionais, globais e nacionais em perspectivas hegemônicas e contra hegemônicas.
As oficinas e as atividades nas escolas permitiram analisar as possibilidades referenciadas na bibliografia se realizando na prática, verificando como os professores de Geografia introduzem a música em seu cotidiano e como os discentes se apropriam deste recurso como uma estratégia de aprendizagem.
A diversidade de metodologias compartilhadas expandiu as possibilidades estudadas, de modo que permitiram uma reflexão sobre as potencialidades e as dificuldades do uso de canções nas aulas. Pode-se assim afirmar que as atividades do projeto ampliaram o entendimento dos limites e das possibilidades do uso da música no Ensino de Geografia.
Os questionamentos iniciais propostos: a) o diálogo com a linguagem musical possibilita elaborar metodologias que diversifiquem a abordagem das temáticas geográficas trabalhadas no ensino?; b) o uso da música pode tornar o processo educacional atrativo para os discentes?; c) o contato com a diversidade da produção musical contribui para ampliar a formação cultural do discente e do docente? , podem ser respondidos afirmativamente, com algumas ressalvas.
O diálogo entre Geografia e música possibilita sim a elaboração de metodologias diversas de ensino-aprendizagem. Tendo em vista os contextos, os tempos e a finalidade em que são empregadas, tais metodologias podem produzir ótimos resultados. Porém não necessariamente se tornam atrativas para os alunos, especialmente quando não se identifica o sentido no emprego da música nos processos educativos.
Do ponto de vista da contribuição para ampliar a formação cultural dos discentes e docentes é necessário aprofundar os estudos. Durante o projeto, a audição de um repertório diversificado possibilitou, para alguns dos participantes, o primeiro contato com um universo musical mais amplo do que o difundido pela grande mídia, ou nas redes de entretenimento pessoais. Entretanto, o resultado de tal encontro não é imediatamente mensurável.
As conexões entre Geografia e música, desenvolvidas ao longo do projeto, amplificaram o entendimento da ciência geográfica no estabelecimento de suas relações com as múltiplas manifestações culturais. Por sua vez, contribuíram também nas possibilidades de audição e formação de repertório dos docentes e discentes envolvidos. Finalmente constituíram possibilidades de emprego no Ensino de Geografia em seus distintos níveis.
À UFSM pela possibilidade de realização do projeto, através do Programa PROLICEN – 2023, às escolas e docentes parceiros do projeto, à SMED – Santa Maria, aos discentes e docentes participantes, os nossos agradecimentos.
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SETTI, Kilza. Ubatuba nos Cantos das Praias. São Paulo: Ed. Ática, Série Ensaios, n.113, 1985.
MÚSICAS REFERENCIADAS
Canção do Sal – Milton Nascimento.
Capitão – Joice, Fernando Brant – trilha sonora do filme sobre o Capitão Sérgio Macaco – Caso Parasar.
Chovendo na roseira – Tom Jobim.
Como um rio – música de Edgard Duvivier sobre poema de Thiago de Mello.
Do fundo da grota – Antônio César Pereira Jacques (Baitaca).
Festa – Luiz Gonzaga Junior.
Internacional Socialista – Eugènne Pottier, Pierre Degeyter.
Lago verde e azul – Helmo de Freitas.
Mestre sala dos mares – João Bosco, Aldir Blanc.
Notícias do Brasil – Milton Nascimento, Fernando Brant.
O malandro – adaptação de Chico Buarque da música de Kurt Weill e Bertold Brecht – trilha sonora do espetáculo Ópera do Malandro.
Planeta água – Guilherme Arantes.
Quem de nós dois – versão interpretada por Ana Carolina da composição italiana intitulada “La mia storia tra le dita”, de autoria de Gianluca Grignani.
Sambada dos mestres – Antonio Carlos Nóbrega, Wilson Freire.
Santa Maria – Beto Pires.
Vamos fugir – Gilberto Gil, Liminha.
Vento – Dorival Caymmi.
Viagem maravilhosa – Antonio Carlos Nóbrega, Bráulio Tavares, Wilson Freire.
Winds of change - Klaus Maine (Scorpius).
ÁLBUM REFERENCIADO
Da lama ao caos – álbum de Chico Science e Nação Zumbi.
VÍDEOS REFERENCIADOS
Intérpretes do Brasil – Episódio “Aziz ab’Saber: Os vários brasis” – Direção Isa Grinspum Ferraz.
Sons do Refúgio – Episódios “Santa Mala” e “Guipson Pierre” - SESC – TV – Direção Pablo Francischell.
“Naturágua” – Palavra cantada – videoclipe.
Contribuição de autoria
1 – Eduardo Schiavone Cardoso
Prof. Titular departamento de geociências – UFSM
https://orcid.org/0000-0002-9240-578X • educard2016@gmail.com
Contribuição: conceituação, administração do projeto, escrita – primeira redação e edição
2 – Lucca Klipel Ferreira
Acadêmico do Curso de Geografa - Licenciatura - UFSM
https://orcid.org/0000-0001-8768-4932 • lucca.klipel@acad.ufsm.br
Contribuição: conceituação, escrita - revisão
Como citar este artigo
Cardoso, E. S.; Ferreiro, L. K. O ensino de geografia e a música: ouvindo, conectando e reverberando possibilidades de aproximação. Geografia Ensino & Pesquisa, Santa Maria, v. 29, e91073, 2025. Disponível em: 10.5902/2236499491073. Acesso em: dia mês abreviado. ano.
I Vale ressaltar que o livro didático “Expedições Geográficas” do sexto ano possui uma seção que explora outras linguagens para o ensino de Geografia, apresentando o poeta Thiago de Mello. Para o caso da água, o poema “Como um rio” de sua autoria, que foi musicado por Edgard Duvivier e gravado por Olívia Byington, poderia ser utilizado, conectando o livro texto com a aula expositiva. Entretanto foi definido trabalhar com o videoclipe do grupo “Palavra Cantada”, considerado mais adequado à faixa etária dos discentes. Ainda assim, durante as exposições foi referenciado o poeta e a importância de sua obra.
II Nela o artista relata que recebeu as distintas “chaves” das artes de seus mestres populares de danças, instrumentos, folguedos, músicas, tais como: Salustiano, Chico Antônio, Cego Aderaldo, Pinto de Monteiro, Faceta, Dona Santa, Leandro de Barros, Pastinha, Sinfrônio, Capitão Pereira, Zé Alfaiate, Mateus Guariba, saudando e homenageando a todos.