Universidade Federal de Santa Maria

Geog Ens & Pesq., Santa Maria, v. 30, e89897, 2026

DOI: 10.5902/2179460X89897

ISSN 2179-460X

Submissão: 23/11/2024 • Aprovação: 19/05/2026 • Publicação: 04/09/2026

1 INTRODUÇÃO

2 MATERIAL E MÉTODOS

3 RESULTADOS

4 DISCUSSÃO

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

REFERÊNCIAS

Geoinformação e Sensoriamento Remoto em Geografia

Avaliação da erosão do solo na bacia do rio Montividiu, estado de Goiás, Cerrado (Brasil): uma abordagem geoespacial

Assessment of soil erosion in the Montividiu river basin, state of Goiás, Cerrado (Brazil): a geospatial approach

Evaluación de la erosión del suelo en la cuenca del río Montividiu, estado de Goiás, Cerrado (Brasil): un enfoque geoespacial

Hevrli da Silva Carneiro PilattiI

Wellmo dos Santos AlvesII

Nicoly Girotto MoraisII

Lucas Peres AngeliniI

Derick Martins Borges de MouraIII

I Instituto Federal Goiano , Goiás, GO, Brasil

II Universidade Federal de Jataí , Jataí, GO, Brasil

III Universidade Estadual de Goiás , Anápolis, GO, Brasil

RESUMO

Este estudo focou na bacia hidrográfica do Rio Montividiu (Goiás, Brasil), investigando os impactos da atividade humana, como práticas agrícolas inadequadas e urbanização, sobre a perda de solo e a degradação dos ecossistemas. Utilizando dados históricos de precipitação, mapas de solo, modelo digital de elevação (MDE) e imagens de satélite, foram analisados fatores como erosividade da chuva, erodibilidade do solo, relevo e uso da terra. A Equação Universal de Perda de Solo (USLE) e geotecnologias foram aplicadas para avaliar a erosão laminar potencial e real. Os resultados identificaram áreas críticas próximas aos cursos d’água, especialmente suscetíveis devido ao relevo acidentado. A análise da erosão real revelou que áreas agrícolas, predominantemente dedicadas ao cultivo de soja e milho, são particularmente vulneráveis, representando 76,89% da área total da bacia. Essas áreas têm altos índices do fator cobertura da terra (C) e práticas conservacionistas (P) (ou CP combinados), indicando menor proteção do solo. Os produtos cartográficos gerados oferecem um guia para priorizar intervenções de manejo ambiental que visem mitigar a erosão laminar, promovendo a sustentabilidade de longo prazo na região.

Palavras-chave: Análise geoespacial; Erosão laminar; Recursos hídricos; USLE

ABSTRACT

This study focused on the Montividiu River basin (Goiás, Brazil), investigating the impacts of human activities, such as improper agricultural practices and urbanization, on soil loss and ecosystem degradation. Using historical precipitation data, soil maps, a digital elevation model (DEM), and satellite imagery, factors such as rainfall erosivity, soil erodibility, topography, and land use were analyzed. The Universal Soil Loss Equation (USLE) and geospatial technologies were applied to assess potential and actual sheet erosion. The results identified critical areas near watercourses, which are especially susceptible due to the rugged terrain. The actual sheet erosion analysis revealed that agricultural areas, predominantly used for soybean and corn cultivation, are particularly vulnerable, accounting for 76.89% of the basin’s total area. These areas show high values of the land cover (C) and conservation practices (P) factors (or combined CP), indicating lower soil protection. The generated cartographic products provide guidance for prioritizing environmental management interventions aimed at mitigating sheet erosion and promoting long-term sustainability in the region.

Keywords: Geospatial analysis; Sheet erosion; Water resources; USLE

RESUMEN

Este estudio se centró en la cuenca hidrográfica del río Montividiu (Goiás, Brasil), investigando los impactos de las actividades humanas, como las prácticas agrícolas inadecuadas y la urbanización, sobre la pérdida de suelo y la degradación de los ecosistemas. Utilizando datos históricos de precipitación, mapas de suelos, un Modelo Digital de Elevación (MDE) e imágenes satelitales, se analizaron factores como la erosividad de la lluvia, la erodabilidad del suelo, el relieve y el uso de la tierra. Se aplicaron la Ecuación Universal de Pérdida de Suelo (USLE) y las geotecnologías para evaluar la erosión laminar potencial y real. Los resultados identificaron áreas críticas cercanas a los cursos de agua, especialmente susceptibles debido al relieve accidentado. El análisis de la erosión real reveló que las áreas agrícolas, predominantemente dedicadas al cultivo de soja y maíz, son particularmente vulnerables, representando el 76,89% del área total de la cuenca. Estas áreas tienen valores elevados en los factores de cobertura del suelo (C) y prácticas de conservación (P) (o CP combinados), lo que indica una menor protección del suelo. Los productos cartográficos generados ofrecen una guía para priorizar intervenciones de manejo ambiental dirigidas a mitigar la erosión laminar, promoviendo la sostenibilidad a largo plazo en la región.

Palabras clave: Análisis geoespacial; Erosión laminar; Recursos hídricos; USLE

1 INTRODUÇÃO

No Brasil e no exterior, o bioma Cerrado, também denominado Savana brasileira, é reconhecido como uma das últimas grandes fronteiras terrestres do mundo, abrigando alta biodiversidade, endemismo e paisagens dinâmicas (Leite Filho et al., 2025). Por isso o Cerrado é considerado um dos hotspots mundiais para conservação da biodiversidade (Sano et al., 2019). Além disso, desempenha um papel fundamental na proteção dos recursos hídricos, uma vez que é lar das cabeceiras de importantes bacias hidrográficas brasileiras que abastecem quase todos os biomas do país (Klink, 2020).

A partir da década de 1970, o Brasil lançou o II Plano Nacional de Desenvolvimento (PND), estabelecendo a região Centro-Oeste, que abrange uma grande parte do Cerrado, como promissora para atividades agropecuárias. Para estimular o crescimento dessas práticas, o Programa de Desenvolvimento dos Cerrados (Polocentro) foi implantado de 1974 a 1979, oferecendo crédito aos produtores e infraestrutura financiados pelo governo. Além disso, o Programa de Cooperação Nipo-brasileira para o Desenvolvimento dos Cerrados (PRODECER) foi criado pela iniciativa privada em colaboração com os governos do Brasil e do Japão, destacando a importância do Cerrado tanto na economia nacional quanto na conectividade com outros biomas (Brasil, 2015; Alves et al., 2020; Lopes et al., 2020).

No entanto, o Cerrado, que inclui 1.297 municípios, enfrenta sérios desafios socioambientais. Entre 1985 e 2022, aproximadamente 25% de sua vegetação nativa, principalmente formações savânicas, foi convertida para uso humano, como expansão urbana e atividades agropecuárias (MapBiomas, 2023). Mesmo as áreas remanescentes se tornaram fronteiras para o agronegócio (Trigueiro et al., 2020), como ocorre em Goiás (Brasil), localizado no Cerrado, onde agricultores têm intensificado a conversão de pastagens degradadas em agricultura de alta produtividade. Essas mudanças têm implicações na biodiversidade, estoques de carbono e balanço hídrico regional, sendo essencial para a estabilidade ambiental e o desenvolvimento agrícola sustentável (Spera, 2017).

As transformações no uso e cobertura da terra têm impacto direto em problemas ambientais globais, como a degradação do solo e a perda de biodiversidade. Além disso, essas mudanças desempenham um papel crucial na regulação das atividades hidrológicas em bacias hidrográficas, afetando o ciclo da água, o clima e a erosão (Abdulkareem et al., 2019; Aneseyee et al., 2020). Com as mudanças climáticas, as distribuições das chuvas estão se alterando, afetando o escoamento superficial, o fluxo dos rios e a disponibilidade de água (Cremon et al., 2025). A erosão do solo, embora seja um processo natural, quando não controlada, pode resultar em problemas significativos de degradação da fertilidade e instabilidade do terreno (Abdulkareem et al., 2019). Portanto, entender as transformações da paisagem introduzidas pelo homem é crucial para a tomada de decisões governamentais (Mengue et al., 2020).

Nesse contexto, esta pesquisa objetivou utilizar da análise espacial para entender as relações entre erosividade da chuva, erodibilidade dos solos, aspectos do relevo, uso e cobertura da terra e erosão laminar anual na bacia hidrográfica do Rio Montividiu (BHRM), localizada no Sudoeste de Goiás, sendo os componentes da formulação os principais fatores físicos e antrópicos ativos no processo de perda de solo, permitindo a identificação de áreas vulneráveis num espaço de 695,021 km². Para alcançar esse objetivo, foi utilizada a Equação Universal de Perda de Solo – EUPS ou Universal Soil Loss Equation – USLE (em inglês), em conjunto com geotecnologias, que tem sido o modelo utilizado frequentemente na modelagem da perda do solo por erosão (Rocha et al., 2021). A aplicação desse modelo com o suporte de Sistemas de Informação Geográfica (SIG) permite analisar espacialmente os dados e identificar áreas mais suscetíveis à erosão (Beskow et al., 2009; Barbosa et al., 2015; Lima et al., 2018; Abdulkareem et al., 2019; Alves et al., 2019; Aneseyee et al., 2020; Kusi et al., 2020; Pandey et al., 2021).

2 MATERIAL E MÉTODOS

2.1 Área de estudo

A BHRM, localizada no município de Montividiu, na microrregião Sudoeste de Goiás, Cerrado, Brasil (Figura 1), possui área de contribuição de 695,021 km² e está inserida na bacia hidrográfica do Rio Paranaíba. O município, de acordo com o processo nº 18922015 (vigente de 26/12/2015 a 16/10/2027) da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável – SEMAD (2020), possui o direito de outorga d’água do Rio Montividiu para suprir a demanda urbana (60 L.s-1), além de concessões à proprietários rurais para atender a demanda hídrica da produção agropecuária.

De acordo com a classificação Köppen-Geiger, o clima da região é do tipo Aw (tropical seco-úmido) (Cardoso et al., 2014), com duas estações contrastantes: o período chuvoso, que se inicia entre setembro e outubro e ocorre até março ou abril, e o período de estiagem que cobre o resto do ano e esporadicamente registra chuvas, como pode ser observado na Figura 2. A estação chuvosa pode ser interrompida por períodos de seca, denominados “veranicos”, podendo representar um problema para a produção agrícola, principalmente quando na fase de crescimento da cultura (Silva et al., 2019).

Figura 1 – Localização da área de estudo: Bacia Hidrográfica do Rio Montividiu, Goiás, Brasil

Fonte: IBGE (2019; 2021; 2022) e SIEG (2020). Organizado pelos autores (2020) no Sistema de Coordenadas Geográficas, Datum SIRGAS 2000

Figura 2 – Média mensal de índice pluviométrico na estação Montividiu (nº 01751004) de jan/ 1986 a dez/2019

Fonte: elaborado pelos autores a partir de dados disponibilizados pela ANA (2020)

A precipitação média mensal da estação meteorológica de Montividiu (código 1751004) para a série temporal de 34 anos (de janeiro de 1986 a dezembro de 2019), corresponde a 120,54 mm, e o índice pluviométrico médio anual é de 1.446,44 mm. Quanto a vegetação, o Cerrado compõe-se por florestas, matagais, pastagens e áreas úmidas (Oliveira et al., 2019).

2.2 Análise da Erosão Potencial (EP) e Erosão Real (ER)

Para o geoprocessamento das informações foi utilizado o software ArcGIS Advanced 10.8.1®, sendo este licenciado sob o código #647261 (ESRI, 2020). E a estimativa da perda de solo foi obtida a partir da aplicação da Universal Soil Loss Equation (USLE) (Equação 1) proposta por Wischmeier e Smith (1978) e adaptada para o Brasil por Lombardi e Moldenhauer (1992).

(1)

onde:

A é a perda de solo por erosão laminar mensal ou anual (tn.ha-1.mês-1 ou tn.ha-1.ano-1); R é o fator de erosividade da chuva mensal ou anual (MJ.mm.ha-1.h-1.mês-1 ou MJ.mm.ha-1.h-1.ano-1); K é o fator de erodibilidade do solo (tn.h.MJ-1.mm-1); LS é o fator topográfico que engloba a declividade (S) e o comprimento de rampa (L) (adimensional); C é o fator de cobertura da terra (adimensional); e, P é o fator de práticas conservacionistas (adimensional)

2.3 Fator de Erosividade (Fator R)

O fator erosividade (R) é um índice que relaciona o valor médio mensal e anual da chuva de um local com a capacidade de erodir o solo de um terreno desprotegido de vegetação (Lombardi Neto e Moldenhauer, 1992). Para a estimativa do Fator R na BHRM, foram coletados dados pluviométricos disponibilizados pelo Portal HidroWeb da Agência Nacional de Águas do Brasil (ANA, 2020), para uma série temporal de 34 anos (1986-2019). No Quadro 1 são apresentadas as informações sobre as estações.

Quadro 1 – Localização das estações pluviométricas e seus níveis de erosividade

Nome da Estação

Código da Estação

Latitude

Longitude

Caiapônia

1651000

16º56’58.92”

51º47’57.84”

Fazenda Paraíso

1750008

17º27’56.88”

50º46’27.12”

Ponte Rio Doce

1751001

17º51’23.04”

51º23’48.12”

Benjamin Barros

1751002

17º41’42”

51º53’31.92”

Montividiu

1751004

17º21’52.92”

51º04’36.12”

Fonte: Elaborado pelos autores a partir de informações disponibilizadas pela ANA (2020)

O conjunto de dados, depois de tabulados e organizados, foi inserido na Equação 2, conforme a proposta de Bertoni e Lombardi Neto (2014), e a partir da obtenção dos valores de R anual, foi realizada geocodificação, gerando malhas por meio do interpolador Spline para produção de mapas da erosividade anual. O produto da erosividade foi classificado conforme a proposta de Carvalho (2008) (Quadro 2).

(2)

onde:

R é o fator de erosividade da chuva (MJ.mm.h-1.ha--1.ano-1); r, a precipitação média mensal (mm); P, a precipitação média anual (mm)

Quadro 2 – Classificação da erosividade

Classe

Anual

(MJ.mm.h-1.ha-1.ano-1)

Baixa

R < 2.452

Média

2.452 < R < 4.905

Média a forte

4.905 < R < 7.357

Forte

7.357 < R < 9.810

Muito forte

R > 9.810

Fonte: Carvalho (2008)

2.4 Fator de Erodibilidade (Fator K)

O fator de erodibilidade caracteriza a suscetibilidade do solo à erosão (Carvalho, 1994), sendo que cada solo se distingue pelas suas propriedades físicas e químicas (Wischmeier; Smith, 1978). Assim, a partir do Mapa de Solos do Plano Diretor da Bacia do Rio Paranaíba (escala 1:250.000), gerado pela Universidade Federal de Viçosa – UFV (2005) em conjunto com a Fundação Rural Minas – Ruralminas (2005) e outros, e disponibilizado pelo SIEG (2020), foi organizado o mapa de solos da área de estudo e, a partir deste mapa, foi elaborado o Fator K com uso de valores de erodibilidade obtidos da literatura especializada, especificamente de Lima et al. (2016) e Demarchi e Zimback (2014). A classificação do Fator K, considerando os valores em relação a propensão a erodibilidade, foi realizada de acordo com a proposta de Mannigel et al. (2002) (Quadro 3).

Quadro 3 – Classificação dos solos em função do fator da erodibilidade (K)

Classes de Erodibilidade

Erodibilidade (tn.h.MJ-1.mm-1)

Extremamente alto

K > 0,0600

Muito alto

0,0450 < K < 0,0600

Alto

0,0300 < K < 0,0450

Médio

0,0150 < K < 0,0300

Baixo

0,0090 < K < 0,0150

Muito baixo

K < 0,0090

Fonte: Manningel et al. (2002)

2.5 Fator Topográfico (Fator LS)

O fator topográfico (integração da declividade e o comprimento da rampa) influencia diretamente a erosão laminar, pois tem relação com a velocidade de escoamento e implica no volume de material carreado (Bertoni; Lombardi Neto, 2014). A acumulação de fluxo, orientada pela direção do maior declive, tende a limitar o comprimento da rampa ao concentrar o escoamento e promover a formação de canais de drenagem que geram maior dissecação do relevo. Assim, para estimar o Fator LS, os dados da direção e acumulação de fluxo, bem como o declive da BHRM obtidos a partir da imagem Shuttle Radar Topography Mission (SRTM) disponibilizada pelo USGS (2020), sendo o cálculo realizado por meio da Equação 3 proposta por Pelton et al. (2012) e utilização da calculadora raster, gerando um produto final com precisão gráfica na escala de 1:150.000.

LS = (FA * CR / 22.1)^0.4 * (sin(D * 0.01745) / 0.09)^1.4 * 1.4 (3)

onde:

LS é o fator topográfico; FA, o fluxo acumulado; CR, a resolução da célula; e slope D, a declividade da área

2.6 Fator Cobertura da Terra e Práticas Conservacionistas (Fator CP)

O Fator C se relaciona à cobertura vegetal presente na área. Conforme Abdulkareem et al., (2019), a cobertura da terra (C) é fator crucial na estimativa da erosão do solo, pois na análise espacial indica a condição que pode ser utilizada para controle, e o fator de prática de conservação (P) é usado para designar mudanças nas práticas, tais como: cultivo em faixa, taludes côncavos, terraços, contornos, entre outros. O Fator C foi definido a partir do mapa de uso e cobertura da terra na BHRM no ano de 2020, gerado por meio de imagens com resolução de 2 m do Sensor Multispectral Camera and Panchromatic Wide - SCAN (WPM) acoplado ao satélite China Brazil Earth Resources Satellite – 4A (CBERS-4A), disponibilizadas pelo Instituto de Pesquisas Espaciais (INPE, 2020b). A classificação supervisionada foi realizada utilizando o classificador de Máxima Verossimilhança (MLC), conforme a formulação estatística apresentada por Richards e Jia (2006). Antes da classificação, procedeu-se à fusão pan-sharpening entre a banda pancromática (B1, 2 m) e as bandas multiespectrais B2 (Azul), B3 (Vermelho) e B4 (Verde), empregando o método Brovey transform, o qual realça a resolução espacial minimizando distorções radiométricas (Zhang, 2004; Vivone et al., 2015).

As categorias temáticas foram definidas conforme a classificação oficial apresentada no Manual Técnico de Uso da Terra do IBGE (2013), complementadas por aferições em campo. Após a fusão e organização das bandas, procedeu-se ao treinamento supervisionado e ao refinamento manual dos resultados. Por fim, a validação foi realizada mediante Matriz de Confusão construída a partir de amostras aleatórias estratificadas da imagem CBERS-4A, com cálculo do índice Kappa segundo Cohen (1960).

(4)

onde:

K é uma estimativa do coeficiente Kappa; n, o número total de amostras; c, o número total de classes; 𝑋𝑖𝑖, o valor da diagonal da matriz de confusão, de forma descendente (valor na linha i e coluna i); 𝑋𝑖+, a soma da linha i; e 𝑋+𝑖, a soma da coluna i da matriz de confusão.

O mapa de uso e cobertura da terra foi avaliado com base em uma escala de valores que definem a qualidade da classificação a partir dos resultados obtidos pelo Índice Kappa (Quadro 4), conforme Landis e Koch (1977).

Quadro 4 – Qualidade da classificação conforme intervalos do Índice Kappa

Valor Kappa

Qualidade da classificação

< 0,00

Péssima

0,00 0,20

Ruim

0,20 0,40

Razoável

0,40 0,60

Boa

0,60 0,80

Muito Boa

0,80 1,00

Excelente

Fonte: Landis e Koch (1977)

A suscetibilidade do uso à perda de solo foi obtida a partir de valores observados na literatura especializada (Farinasso et al., 2006; Helfer, 2003; Silva et al., 2014; Bertoni; Lombardi Neto, 2014; Barbosa, 2015; Durães; Melo, 2016; Ferreira et al., 2019) para as diferentes classes de uso. O Fator C e Fator P foram considerados de forma integrada (Fator CP), com P igual a 1, sendo essa integração devido a impossibilidade de obter o Fator P em nível de bacia hidrográfica.

Na literatura especializada, autores recomendam que o Fator P, no caso de estudos sobre grandes áreas, situação que inviabiliza a observação/mensuração desse componente, seja estabelecido com valor 1, conforme observado em Rodrigues et al., 2017, Vijith et al., 2018; Alves et al., 2022; Castro et al., 2022; Pereira et al., 2023.

2.7 Classificação da Erosão Potencial (EP) e Erosão Real (ER)

A classificação da EP, que é a integração dos aspectos físicos naturais do ambiente (Fator R, Fator K e Fator LS), foi interpretada conforme as categorias propostas por Valério Filho (1994) (Quadro 5).

A classificação da ER, que é o resultado da integração da EP e Fator CP, ocorreu de acordo com a proposição de Beskow et al., (2009) (Quadro 6). A classificação da perda de solo por erosão laminar também considerou a proposta da Food and Agriculture Organization of the United Nations (FAO), United Nations Environment Program (UNEP) e United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization (UNESCO) (1994) (Quadro 7).

Quadro 5 – Classificação da Erosão Potencial

Perda de solo (t.mm.ha-1.ano-1)*

Classes de interpretação

0 - 400

Fraca

400 - 600

Moderada

600 - 16000

Média

1600 - 2400

Forte

2400 – 19.814,86

Muito forte

Fonte: Valério Filho (1994). Notas: Os valores foram convertidos do sistema métrico internacional (MJ.mm.h-1.ha-1) para o sistema métrico decimal (tn.mm.ha-1.ano-1)

Quadro 6 – Classificação da Erosão Real

Perda de solo (tn.mm.ha-1.ano-1)*

Categoria

0 - 2,5

(Ligeira)

2,5 - 5

(Ligeira - moderada)

5 - 10

(Moderada)

10 - 15

(Moderada - alta)

15 - 25

(Alta)

25 - 100

(Muito alta)

> 100

(Extremamente alta)

Fonte: Beskow et al. (2009). Notas: Os valores foram convertidos do sistema métrico internacional (MJ.mm.h-1.ha-1) para o sistema métrico decimal (tn.mm.ha-1.ano-1)

Quadro 7 – Recomendações da FAO, UNEP e UNESCO (1994) referentes a classificação do grau de erosão laminar

Perda de solo (tn.mm.ha-1.ano-1)*

Grau de Erosão

< 10

Nenhuma ou Baixa

10 – 50

Moderada

50 – 200

Alta

> 200

Muito Alta

Fonte: FAO, UNEP e UNESCO (1994). Notas: Os valores foram convertidos do sistema métrico internacional (MJ.mm.h-1.ha-1) para o sistema métrico decimal (tn.mm.ha-1.ano-1)

3 RESULTADOS

3.1 Fator de erosividade (Fator R)

Os resultados geoespacializados da erosividade anual podem ser observados na Figura 3, sendo a mínima de 7.792,3 MJ.mm.ha-1.h-1.ano-1 e a máxima de 7.879,82 MJ.mm.ha-1.h-1.ano-1, classificada como de forte erosividade, conforme Carvalho (2008). É possível observar que a distribuição da erosividade anual decresce da parte alta para a parte baixa da bacia hidrográfica em questão.

Figura 3 – Mapa de erosividade (R) anual na BHRM

Fonte: Elaborado pelos autores na projeção UTM Zona 22S, SIRGAS 2000

É observado na Figura 3 que os processos de erosividade mais intensos ocorrem a montante do ponto de captação de água, ou seja, na cabeceira da bacia ocorrem maiores volumes de precipitação.

3.2 Fator de erodibilidade (Fator K)

O mapa de solos da BHRM organizado a partir do Mapa de Solos do Plano Diretor da Bacia do Rio Paranaíba (escala 1:250.000) resultou nas classes, texturas e as respectivas áreas apresentadas na Tabela 1, juntamente com os valores de erodibilidade e as fontes consultadas. Os tipos de solo e as classes de erodibilidade são apresentadas na Figura 4.

Verifica-se que a área contempla três diferentes tipos de solo, com predominância do Latossolo Vermelho Distrófico (LVd) com textura argilosa ou muito argilosa, seguido do Latossolo Vermelho Distroférrico (LVdf) de textura argilosa ou muito argilosa, e do Gleissolo Háplico Tb Distrófico plintossólico (GXbd) de textura argilosa, que correspondem nesta ordem a 72,27%, 25,41% e 2,32% da área total.

Tabela 1 – Classificação dos solos em função do fator da erodibilidade (K) da BHRM

Classe de solo

Em km²

Em %

Classe de

erodibilidade

Fator K

(tn.h.MJ-1.mm-1)

Fonte do Fator K

Latossolo Vermelho Distrófico (LVd), textura argilosa ou muito argilosa

502,32

72,27

Baixa

0,0131

Lima et al. (2016)

Latossolo Vermelho Distroférrico (LVdf), textura argilosa ou muito argilosa

176,57

25,41

Baixa

0,0131

Lima et al. (2016)

Gleissolo Háplico Tb Distrófico plintossólico (GXbd), textura argilosa

16,13

2,32

Média

0,020

Demarchi e Zimback (2014)

Total

695,02

100

-

-

-

Fonte: Atualizado e organizado pelos autores a partir do Mapa de Solos da Bacia do Rio Paranaíba (UFV, 2005; Ruralminas, 2005). Notas: Categoria do solo em função do fator da erodibilidade (K), conforme Mannigel (2002)

Figura 4 – Mapa de solos (A) e de erodibilidade (K) (B) da BHRM

Fonte: Atualizado e organizado pelos autores na projeção UTM Zona 22S, SIRGAS 2000 a partir do Mapa de Solos da Bacia do Rio Paranaíba (UFV; 2005; Ruralminas, 2005)

Considerando a classificação de Manningel et al. (2002), a erodibilidade na BHRM variou de baixo a médio, sendo 0,0131 tn.h.MJ-1.mm-1 relacionado ao Latossolo Vermelho Distrófico (LVd) e ao Latossolo Vermelho Distroférrico (LVdf), ambos com textura argilosa ou muito argilosa, e 0,02 tn.h.MJ-1.mm-1 associado ao Gleissolo Háplico Tb Distrófico plintossólico (GXbd) de textura argilosa. Essa categoria mais favorável aos processos erosivos é observada a montante do ponto de captação de água. Isso torna prejudicial a qualidade da água que atinge a porção inferior do curso hídrico, no local de captação de água para consumo humano (abastecimento público), devido ao carreamento de sedimentos sólidos e dissolvidos.

3.3 Fator topográfico (LS)

Os resultados do fator topográfico são apresentados na Figura 5, variando de 0 a 458,95, com os maiores valores predominantes nas adjacências dos cursos hídricos e principalmente a jusante do ponto de captação de água, na porção inferior da bacia, intensificando a força erosiva do escoamento superficial.

Figura 5 – Fator topográfico (LS) da BHRM

Fonte: Elaborado pelos autores na projeção UTM Zona 22S, SIRGAS 2000

3.4 Erosão Potencial (EP)

Na Tabela 2 são apresentados os resultados estimados para a perda de solo por EP anual, conforme a classificação proposta por Valério Filho (1994). Os resultados geoespacializados são apresentados na Figura 6.

A EP variou de 0 tn.mm.ha-1.ano-1 (fraca) a 33.721,24 tn.mm.ha-1.ano-1 (muito forte), com predominância da classificação fraca (93,62%), seguida, em ordem decrescente de representatividade, da classe média (2,80%), moderada (2,53%), forte (0,55%) e muito forte (0,50%).

Tabela 2 – Erosão Potencial anual na BHRM

Perda de solo (tn.mm.ha-1.ano-1)

Área em km2

Área em %

0 - 400 (Fraca)

650,70

93,62

400 - 600 (Moderada)

17,57

2,53

600 - 1600 (Média)

19,47

2,80

1600 - 2400 (Forte)

3,80

0,55

> 2400 (Muito forte)

3,48

0,50

Total

695,02

100

Fonte: Elaborada pelos autores, conforme classificação de Valério Filho (1994)

Figura 6 – Erosão Potencial anual na BHRM

Fonte: Elaborado pelos autores na projeção UTM Zona 22S, SIRGAS 2000, conforme classificação de Valério Filho (1994)

3.5 Fator de Cobertura da Terra e Práticas Conservacionistas (Fator CP)

Na Tabela 3 é apresenta a matriz de confusão que gerou o Índice Kappa de 0,99 em relação a qualidade da classificação da imagem, ou seja, excelente classificação, conforme Landis e Koch (1977). Na Tabela 4 são apresentados os valores relacionados à categoria de uso e cobertura da terra na BHRM e os valores CP com as respectivas fontes consultadas. Na Figura 7 são apresentadas as categorias de uso e cobertura da terra e o Fator CP geoespacializadas.

Tabela 3 – Matriz de confusão da classificação da imagem da BHRM

Classe

Amostra de validação (kappa)

1

2

3

4

5

6

7

8

9

10

11

12

13

Total

1

556

0

1

0

0

0

0

0

0

0

0

0

0

557

2

0

75

0

0

0

0

0

0

0

0

0

0

0

75

3

0

0

113

0

0

0

0

0

0

0

0

0

0

113

4

0

0

0

124

0

0

0

0

0

0

0

0

0

124

5

0

0

0

0

93

0

0

0

0

0

0

0

0

93

6

0

0

0

0

0

223

0

0

0

0

0

0

0

223

7

0

0

0

0

0

0

299

1

1

0

0

0

0

301

8

0

0

0

0

0

0

0

236

0

0

0

0

0

236

9

0

0

0

0

0

0

0

4

240

0

0

0

0

244

10

0

0

0

0

0

0

0

0

0

232

0

0

0

232

11

0

0

0

0

0

0

0

1

0

0

183

0

0

184

12

0

0

0

0

0

0

0

0

0

0

3

74

0

77

13

0

0

0

0

0

0

0

0

0

0

0

0

69

69

Total

556

75

114

124

93

223

299

242

241

232

186

74

69

2528

Fonte: Elaborado pelos autores. Legenda: área agrícola/culturas anuais (1); área industrial (2); rodovias (3); solo exposto (4); construção rural (5); pastagem (6); campo sujo (7); fragmentos do Cerrado (8); mata ciliar/galeria (9); água (10); eucalipto (11); outros (12); e área urbana (13)

Tabela 4 – Cobertura da terra e práticas conservacionistas do solo (CP) na BHRM

Categoria

Em ha

Em %

CP

Fonte do Fator CP

Mata ciliar/galeria

2.330,59

3,35

0,012

Farinasso et al., (2006)

Campo sujo

3.039,58

4,37

0,05

Helfer (2003)

Cerradão/fragmento

6.355,18

9,14

0,00030

Helfer (2003)

Eucalipto

220,54

0,32

0,12

Silva et al., (2014)

Pastagem

3.158,95

4,55

0,125

Bertoni e Lombardi Neto (2014)

Áreas agrícola/culturas anuais

53.438,93

76,89

0,2

Barbosa (2015)

Construção rural

71,21

0,10

0

Durães e Melo (2016)

Rodovia

pavimentada

110,31

0,16

0

Durães e Melo (2016)

Área urbana

442,08

0,64

0,001

Farinasso et al., (2006)

Solo exposto

251,53

0,36

1

Bertoni e Lombardi Neto (2014)

Água

83,90

0,12

0

Ferreira et al., (2019)

Total

69.502,79

100

-

-

Fonte: Elaborado pelos autores

Figura 7 – Uso e cobertura da terra (A) e Fator CP (B) na BHRM

Fonte: Elaborado pelos autores na projeção UTM Zona 22S, SIRGAS 2000

Os resultados mais expressivos espacialmente são as áreas agrícolas/culturas anuais (principalmente soja e milho) (76,89%), seguidos da vegetação nativa do Cerrado (16,86%), composta por fragmentos de Cerradão (9,14%), campo sujo (4,37%), mata ciliar e de galeria (3,35%). A Pastagem representa 4,55% do espaço. E com menor representatividade, são observadas as categorias de área urbana (0,64%), solo exposto (0,36%), eucalipto (0,32%), rodovia pavimentada (0,16%), água (0,12%) e construção rural (0,10%). Os resultados do Fator CP variaram de 0 a 1, em que os menores valores são associados as categorias que apresentam menor propensão a erosão, e quanto maior for o valor, maior a exposição do solo aos processos erosivos (Tabela 4; Figura 7).

3.6 Erosão Real (ER)

Na Tabela 5 e Figura 8 são apresentados os resultados da ER anual, conforme a classificação de Beskow et al., (2009). A ER na BHRM variou de 0 (ligeira) a 6.625,56 tn.mm.ha-1.ano-1 (extremamente alta), com domínio das categorias ligeira (53,24%), muito alta (16,20%) e alta (9,75%). E na Tabela 6, conforme a classificação da FAO, UNEP e UNESCO (1994), o grau de ER predominante é da classe nenhuma ou baixa (65,48%), com menor representatividade das classes moderada (25,47%), alta (7,92%) e muito alta (1,13%).

Tabela 5 – Erosão Real anual na BHRM

Perda de solo (tn.ha-1.ano-1)

Área em km2

Área em %

0 - 2,5 (Ligeira)

370,03

53,24

2,5 - 5 (Ligeira - moderada)

23,85

3,43

5 - 10 (Moderada)

49,97

7,19

10 - 15 (Moderada - alta)

47,09

6,78

15 - 25 (Alta)

67,77

9,75

25 - 100 (Muito alta)

112,60

16,20

> 100 (Extremamente alta)

23,71

3,41

Total

695,02

100

Fonte: Elaborado pelos autores, conforme classificação de Beskow et al. (2009)

Figura 8 – Erosão Real anual na BHRM

Fonte: Elaborado pelos autores na projeção UTM Zona 22S, SIRGAS 2000, conforme classificação de Beskow et al. (2009)

Tabela 6 – Erosão Real na BHRM

Perda de solo (tn.ha-1.ano-1)

Área em km٢

Área em ٪

< 10 (Nenhuma ou Baixa)

455,13

65,48

10 - 50 (Moderada)

177,03

25,47

50 - 200 (Alta)

55,01

7,92

> 200 (Muito alta)

7,85

1,13

Total

695,02

100

Fonte: Elaborado pelos autores, conforme classificação da FAO, UNEP e UNESCO (1981)

4 DISCUSSÃO

A erosividade média anual no Brasil apresenta ampla variabilidade espacial, oscilando entre 1.672 e 22.452 MJ.mm.ha¹.h¹.ano¹, com mais de 50% dos registros acima de 7.357 MJ.mm.ha¹.h¹.ano¹, o que caracteriza condições de elevado risco erosivo, sobretudo nas regiões Sudeste e Centro-Oeste (Carvalho, 2008). Isso reflete um cenário de alta vulnerabilidade ambiental, especialmente em áreas de uso agrícola intensivo, onde o impacto das chuvas sobre solos expostos tende a ser mais severo (Oliveira et al., 2013; Silva et al., 2020; Machado et al., 2022). Na Bacia Hidrográfica do Rio Montividiu (BHRM), essa condição relaciona-se diretamente com a intensificação da exploração agrícola e com a concentração sazonal das chuvas, favorecendo o escoamento superficial e a mobilização de partículas do solo (Rieger et al., 2016).

Dados da Embrapa corroboram a caracterização da erosividade como forte na área de estudo, reforçando a importância da identificação espacial de áreas mais vulneráveis como subsídio ao planejamento conservacionista e à formulação de estratégias de manejo do solo (Lima et al., 2023; Oliveira et al., 2011; Andrade; Rovani, 2022). A manutenção da cobertura vegetal destaca-se como elemento fundamental na regulação do escoamento superficial, na proteção dos horizontes superficiais do solo e na promoção da segurança alimentar, sobretudo em regiões onde a agropecuária constitui a principal atividade econômica (Freitas; Landers, 2014; Godoi et al., 2021; Vieira et al., 2021; Souza, 2023; Marcinkowski et al., 2022).

Ao comparar os valores de erosividade obtidos na BHRM com aqueles registrados na bacia hidrográfica do Rio Verdinho, observa-se proximidade nos valores mínimos, embora haja discrepância nos valores máximos (Alves et al., 2022), atribuída à maior extensão territorial da bacia vizinha. Essa diferença reforça a relação existente entre área da bacia e heterogeneidade pluviométrica, uma vez que bacias de maior dimensão tendem a apresentar maior variabilidade espacial das chuvas. Tal heterogeneidade influencia diretamente na distribuição da erosão e na eficiência dos modelos de predição, demandando análises espaciais mais refinadas.

A erodibilidade dos solos no Cerrado goiano é influenciada por múltiplos fatores, sobretudo pela saturação hídrica durante o período chuvoso e pelas características físico-químicas e estruturais dos solos (Castro et al., 2011). Na BHRM, essa condição manifesta-se especialmente nos Gleissolos, que ocupam áreas deprimidas próximas aos cursos hídricos e apresentam drenagem imperfeita, favorecendo a concentração de água e aumentando a suscetibilidade à erosão quando associados à ausência de cobertura vegetal. Por outro lado, os Latossolos, predominantes na bacia, caracterizam-se por elevada porosidade, estrutura granular e maior estabilidade dos agregados, o que lhes confere menor erodibilidade e maior resistência ao impacto das gotas de chuva (Silva et al., 2015; Raimo et al., 2019).

A influência conjunta de atributos físico-químicos, mineralógicos e morfoestruturais exerce papel determinante na dinâmica da erodibilidade (Barbosa et al., 2019; Vieira et al., 2021; Madenoglu et al., 2020). Conforme Silva et al. (1999), ambientes com elevada diversidade pedológica e heterogeneidade do relevo apresentam maior variação do fator K, o que não foi observado na BHRM, onde os valores variaram entre 0,0131 e 0,02 tn.h.MJ¹.mm¹, em função da presença de apenas três classes de solo. Ademais, a utilização do mapa de solos na escala de 1:250.000 impõe limitações à identificação de variações pedológicas locais, resultando em unidades mais generalizadas e possível subestimação da variabilidade espacial do fator K.

Os Gleissolos, apesar de apresentarem erodibilidade média, tendem a ter sua vulnerabilidade reduzida quando associados à presença de mata ciliar, que atua como importante zona tampão na proteção dos Recursos Hídricos (Godoi et al., 2021). Já os Latossolos demonstram maior estabilidade estrutural, sendo menos suscetíveis aos processos erosivos em condições de cobertura vegetal preservada (Raimo et al., 2019). Entretanto, a conversão dessas áreas para usos agrícolas intensivos pode comprometer essa estabilidade e aumentar a exposição do solo aos processos erosivos.

A correspondência espacial entre o Fator LS e a Erosão Potencial evidencia a expressiva influência do relevo na dinâmica dos processos erosivos, sobretudo em áreas com maior declividade e proximidade dos cursos d’água. Esse comportamento é consistente com outros estudos desenvolvidos em ambientes semelhantes, onde o relevo ondulado intensifica o escoamento superficial e o transporte de sedimentos (Botelho et al., 2015; Alewell et al., 2019). Em áreas planas, por sua vez, a perda de solo mostra-se mais sensível à inclinação do que ao comprimento da rampa, indicando a importância do fator declividade na modelagem erosiva.

O uso inadequado do solo associado à expansão agrícola constitui fator crítico na intensificação dos processos erosivos na BHRM (Rieger et al., 2016). Em Goiás, a ausência de práticas conservacionistas, como terraceamento, cultivo em nível e cobertura permanente do solo, agrava a vulnerabilidade, especialmente em áreas ocupadas por sistemas agrícolas mecanizados (Cruvinel, 2016; Pereira, 2022). Esses ambientes promovem maior exposição do solo e aumento do escoamento superficial, intensificando a perda de sedimentos (Silva et al., 2020).

Resultados semelhantes foram observados em estudos realizados na bacia do Rio Verdinho, onde aproximadamente 62,83% da área apresentou perdas entre leves e moderadas, enquanto 37,17% da área total corresponde a perdas de erosão de moderadas a extremamente altas, padrão semelhante ao observado na BHRM, que registrou valores próximos (63,86% e 36,14% para classes leves/moderadas e moderadas/extremamente altas, respectivamente) (Alves et al., 2022). Esses dados evidenciam coerência regional e reforçam a eficiência da USLE como ferramenta de diagnóstico ambiental em bacias do Cerrado.

As fitofisionomias do Cerrado demonstram maior resistência aos processos erosivos, destacando-se a importância da preservação da cobertura vegetal como estratégia essencial de conservação do solo e dos recursos hídricos (Pereira; Cabral, 2021). Nesse contexto, programas como o Produtor de Água configuram-se como instrumentos relevantes para a recuperação ambiental e a promoção do uso sustentável dos recursos naturais (Akashi Júnior, 2020; Fonseca, 2022; Toledo, 2022; Akashi Júnior; Laranja, 2024). Todavia, a expansão agrícola no bioma Cerrado continua representando um desafio significativo frente à demanda por produção e à ausência de gestão sustentável em parte do território (Santos et al., 2021; Meinen; Robinson, 2021).

Por fim, a espacialização da Erosão Real na BHRM evidencia que os maiores valores estão associados à combinação entre elevada declividade (Fator LS) e uso intensivo do solo para cultivo agrícola, expondo os horizontes superficiais à erosão sazonal e potencializando a degradação ambiental. Esse padrão é corroborado por estudos realizados em outras bacias hidrográficas brasileiras, como o Rio Verdinho, Córrego do Ajudante e Rio Caiapó, reforçando a necessidade de intervenções integradas de manejo e conservação do solo (Melo et al., 2021; Lamana, 2020; Santos et al., 2021).

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os resultados deste estudo evidenciam a vulnerabilidade da Bacia Hidrográfica do Rio Montividiu (BHRM) aos processos de erosão laminar, destacando a importância da cobertura vegetal na proteção dos recursos hídricos e do solo. A aplicação da Equação Universal de Perda de Solo (USLE) integrada com geotecnologias permitiu identificar áreas críticas de maior suscetibilidade, principalmente nas proximidades dos cursos d’água, onde o relevo acidentado e o uso intensivo para a agricultura contribuem para o aumento da erosão.

O predomínio de cultivos agrícolas, como soja e milho, em áreas de maior risco erosivo, reforça a necessidade de intervenções focadas em práticas de manejo sustentável e conservação do solo. Além disso, a análise dos fatores erosividade, erodibilidade e topografia (Fator LS) revelou a importância de estratégias de uso e manejo que priorizem a manutenção da vegetação nativa, especialmente nas áreas mais suscetíveis identificadas.

Os produtos cartográficos gerados fornecem subsídios valiosos para o planejamento ambiental e indicam a urgência de ações de conservação e restauração ecológica na BHRM, visando mitigar os impactos erosivos e promover a sustentabilidade a longo prazo. Assim, recomenda-se a implementação de políticas públicas e incentivos, como o Programa Produtor de Água, para restaurar e preservar os serviços ecossistêmicos locais.

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Contribuições de autoria

1 – Hevrli da Silva Carneiro Pilatti

Mestrado profissional em Engenharia Aplicada e Sustentabilidade pelo Instituto Federal Goiano

https://orcid.org/0000-0001-7913-7146 • profhevrli@gmail.com

Contribuição: Escrita – Revisão e edição

2 – Wellmo dos Santos Alves

Doutorado em Geografia Física pela Universidade Federal de Goiás

https://orcid.org/0000-0003-3296-2469 • wellmoagro@hotmail.com

Contribuição: Escrita – Revisão e edição

3 – Nicoly Girotto Morais

Mestrado em Geografia pela Universidade Federal de Jataí

https://orcid.org/0000-0001-8130-1865 • girottonicoly@gmail.com

Contribuição: Escrita – Revisão e edição

4 – Lucas Peres Angelini

Doutorado em Física Ambiental pela Universidade Federal de Mato Grosso

https://orcid.org/0000-0001-8943-7281 • lucas.angelini@ifgoiano.edu.br

Contribuição: Escrita – Revisão e edição

5 – Derick Martins Borges de Moura

Doutorado em Geografia pela Universidade Federal de Goiás

https://orcid.org/0000-0003-3925-7412 • derick@ueg.br

Contribuição: Escrita – Revisão e edição

Como citar este artigo

PILATTI, H. S. C.; ALVES, W. S.; MORAIS, N. G.; ANGELINI, L. P.; MOURA, D. M. B. Avaliação da erosão do solo na bacia do rio Montividiu, estado de Goiás, Cerrado (Brasil): uma abordagem geoespacial. Geografia Ensino & Pesquisa, Santa Maria, v. 30, e89897, 2026. Disponível em: 10.5902/2236499489897. Acesso em: dia mês abreviado. ano.