Universidade Federal de Santa Maria

REGET, Santa Maria, v 29, e86377, 2025

DOI:10.5902/2236499486377

ISSN 2236-4994

Submissão: 15/08/2024 • Aprovação: 08/05/2025 • Publicação: 16/07/2025

1 INTRODUÇÃO

2 MATERIAL E MÉTODOS

3 RESULTADOS E DISCUSSÃO

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

AGRADECIMENTOS

REFERÊNCIAS

Meio Ambiente, Paisagem e Qualidade Ambiental

“De boa na coroa”: perfil socioeconômico e percepção ambiental de usuários/ ocupantes dos depósitos fluviais de um rio brasileiro

“Chilling by the crown”: socioeconomic profile and environmental perception of users/occupants of the fluvial deposits of a brazilian river

Perfil socioeconómico y percepción ambiental de los usuarios/ocupantes de los depósitos fluviales de un río brasileño

Lorran André Moraes I Ícone

Descrição gerada automaticamente

Waldileia Ferreira de Melo Batista II Ícone

Descrição gerada automaticamente

Francisco Soares Santos Filho IIl Ícone

Descrição gerada automaticamente

I Universidade Estadual do Maranhão ROR, Coelho Neto, MA, Brasil

II Universidade Estadual do Piauí ROR, Picos, PI, Brasil

III Universidade Estadual do Piauí ROR, Teresina, PI, Brasil

RESUMO

Os depósitos fluviais são formações de sedimentos de diferentes materiais encontrados ao longo do curso de rios. Nesse contexto, objetivou-se analisar o perfil socioeconômico, as percepções ambientais que os usuários/ocupantes apresentam em relação aos depósitos fluviais (DFs) do rio Parnaíba - PI, bem como seus benefícios ambientais. Para tanto, utilizou-se o método de pesquisa exploratória descritiva, e os dados foram obtidos por meio de entrevistas semiestruturadas com auxílio de formulário padronizado envolvendo 62 informantes, conversas informais e observações diretas entre maio e julho de 2022. Constatou-se que os DFs são usados e/ou ocupados há mais de 60 anos pela população local para diversas finalidades, como agricultura familiar, pescaria, esporte, lazer, turismo de visitação e fonte de renda. Os dados das condições socioeconômicas, apontam que essas atividades têm maior participação dos homens (61,3%) e de adultos (67,8%), com ensino básico incompleto (22,6%), que trabalham em diferentes profissões formais e/ou informais nas cidades de Timon-MA e Teresina-PI. Por fim, esses ambientes prestam e/ou proporcionam diversos benefícios socioambientais e serviços ecossistêmicos que refletem ao homem e/ou nos ecossistemas e/ou natureza, bem como possui alto potencial de uso para atividades escolares e de pesquisa científica. Em conclusão, ressalta-se a necessidade de fiscalização dos órgãos gestores ambientais e da elaboração de um plano de gestão ambiental para essa Área de Preservação Permanente (APPs), visando seu uso com sustentabilidade.

Palavras-chave: Impactos ambientais; Interferências antrópicas; Ocupação humana; Serviços ecossistêmicos

ABSTRACT

Fluvial deposits are sediment formations of different materials found along the course of rivers. In this context, the aim was to analyze the socio-economic profile and environmental perceptions of users/occupants in relation to the fluvial deposits (DFs) of the Parnaíba River - PI, as well as their environmental benefits. To this end, the descriptive exploratory research method was used, and the data was obtained through semi-structured interviews using a standardized form involving 62 informants, informal conversations and direct observations between May and July 2022. It was found that the FDs had been used and/or occupied for more than 60 years by the local population for various purposes, such as family farming, fishing, sport, leisure, visitor tourism and as a source of income. The data on socio-economic conditions shows that these activities are mostly carried out by men (61.3%) and adults (67.8%), with incomplete basic education (22.6%), who work in different formal and/or informal professions in the cities of Timon-MA and Teresina-PI. Finally, these environments provide a number of socio-environmental benefits and ecosystem services that reflect on man and/or ecosystems and/or nature, as well as having a high potential for use for school activities and scientific research. In conclusion, it is important to emphasize the need for environmental management bodies to monitor and draw up an environmental management plan for this Permanent Preservation Area (PPA), considering its sustainable use.

Keywords: Environmental impacts; Anthropogenic interference; Human occupation; Ecosystem services

RESUMEN

Los depósitos fluviales son formaciones sedimentarias de diferentes materiales que se encuentran a lo largo del curso de los ríos. En este contexto, el objetivo fue analizar el perfil socioeconómico y las percepciones ambientales de los usuarios/ocupantes en relación a los depósitos fluviales (DFs) del río Parnaíba - PI, así como sus beneficios ambientales. Para ello, se utilizó el método de investigación exploratoria descriptiva, y los datos se obtuvieron a través de entrevistas semi-estructuradas utilizando un formulario estandarizado que involucró a 62 informantes, conversaciones informales y observaciones directas entre mayo y julio de 2022. Se constató que los DF son utilizados y/u ocupados desde hace más de 60 años por la población local para diversos fines, como la agricultura familiar, la pesca, el deporte, el ocio, el turismo de visitantes y como fuente de ingresos. Los datos sobre las condiciones socioeconómicas muestran que estas actividades son realizadas mayoritariamente por hombres (61,3%) y adultos (67,8%) con educación primaria incompleta (22,6%), que trabajan en diferentes profesiones formales y/o informales en las ciudades de Timon-MA y Teresina-PI. Finalmente, estos ambientes proporcionan una variedad de beneficios socioambientales y servicios ecosistémicos que se reflejan en el hombre y/o en los ecosistemas y/o en la naturaleza, además de tener un alto potencial de utilización en actividades escolares y de investigación científica. En conclusión, es importante destacar la necesidad de supervisión por parte de los órganos de gestión ambiental y el desarrollo de un plan de gestión ambiental para esta Área de Preservación Permanente (APP), con vistas a su uso sostenible.

Palabras-clave: Impactos medioambientales; Interferencia antropogénica; Ocupación humana; Servicios ecosistémicos

1 INTRODUÇÃO

As matas ciliares são Áreas de Preservação Permanente (APPs) formadas por habitats dinâmicos e heterogêneos que funcionam como corredores ecológicos, distribuídas em diferentes locais da Terra, como nas margens ao longo de cursos ou corpos d’água ou em depósitos fluviais (depósitos de areia) que são formados dentro e ao longo de cursos ou corpos d’água (Rodrigues; Gandolfi, 2004; Queiroz et al., 2018).

Estudos apontam que desde as primeiras civilizações o homem realiza a prática da pecuária e do cultivo de espécies de valor alimentício como forma de subsistência às margens de rios e, a vista disso, as cidades foram construídas e organizadas (Zhao, 2020; MukherrI, 2022). No Brasil, essa prática trata-se de uma atividade agrícola comum e uma das mais antigas em vazante às margens de rios, sendo amplamente desenvolvida por ribeirinhos em diversas regiões do país (Castro et al., 2018), incluindo o rio Parnaíba (Pereira, 2021).

Ao longo de décadas as matas ciliares são alvo de degradação. O histórico de uso sem planejamento dos recursos naturais das florestas ciliares acompanha há muito tempo a história da civilização humana, trazendo consigo uma série de problemas ambientais (Mukherri, 2022). De acordo com Silva e Almeida (2020), isso se dá em decorrência de apresentarem solos férteis, ideais para a agricultura e serem próximos de recursos hídricos, o que se configuram locais para construção de áreas de lazer, urbanização e empreendimentos imobiliários, entre outros.

Entre os principais problemas ambientais ocorrentes em áreas ribeirinhas que causam efeitos negativos, estão a degradação e/ou destruição da vegetação nativa de matas ciliares, crescimento populacional e o processo de urbanização desordenado, atividades agrícolas, construção de reservatório/represas de água, exploração florestal, garimpo, expansão de áreas urbanas e industriais (Rodrigues; Gandolfi, 2004; Santiago et al., 2020). Nesse sentido, frente ao quadro de degradação atual de vários rios brasileiros, é necessário articular um conjunto de ações que mobilizem o poder público no planejamento ambiental urbano, visando ampliar a preservação e recuperação de matas ciliares (Silva; Almeida, 2020).

Nesse contexto se insere o Parnaíba, o maior rio genuinamente nordestino que possui aproximadamente 1.450 km de extensão, o qual é fronteira natural entre os estados do Piauí e do Maranhão. Este canal fluvial desempenha importante papel socioeconômico nas comunidades ribeirinhas devido à alta potencialidade de seus recursos naturais (Lima, 2013; Agência Nacional de Águas, 2015). Cabe destacar que ao longo dos séculos este rio teve/tem papel decisivo na organização do espaço do estado do Piauí, e vem sofrendo intensa pressão antrópica e ambiental em todo seu percurso, advindos do processo de expansão e urbanização das cidades, agricultura, pecuária, uso e ocupação do solo, os quais têm devastado a vegetação nativa da sua mata ciliar (Vaz et al., 2007; Lima, 2013, 2018).

As cidades de Teresina, Piauí e Timon, Maranhão são o epicentro do rio Parnaíba, e juntas somam o maior aglomerado populacional urbano do médio Parnaíba. Ambas vêm ao longo dos anos passando por um rápido e acelerado processo de urbanização e, consequentemente, a região que mais exerce pressão e contribui para a sua degradação, provocando profundas transformações socioespaciais e alteração na paisagem local, além de ocasionar e intensificar vários problemas e impactos ambientais (Lima, 2013; Ribeiro; Façanha, 2020).

O rio Parnaíba possui alguns depósitos fluviais (DFs), chamados localmente de “Coroas” ou “Croas” (ilhas) que são antropizados apresentando algum tipo de alteração em seu arranjo estrutural e funcional com ocupações diversas, como a presença de bares, campos de futebol, hortas, entre outros. Pesquisas nestas áreas demonstram que esses tipos de ações antrópicas contribuem para a degradação ambiental, como em ilhas fluviais no rio São Francisco (Lira et al., 2018), e tais impactos também são comuns em ambientes costeiros, interferindo no ambiente de dunas de areias (Moura et al., 2019). Isso sugere a necessidade de compreender a percepção ambiental para entender melhor as alterações ambientais advindas da urbanização das cidades, junto aos depósitos fluviais do rio Parnaíba, frente seu crescente uso e ocupação, trazendo consigo a transformação das paisagens naturais.

Os estudos de percepção ambiental buscam identificar como o homem se relaciona com a natureza, compreendendo o grau de conscientização do mesmo, em relação à problemática ambiental (Macedo, 2005), ou mesmo busca investigar seus anseios, condutas, expectativas, julgamentos e satisfações/insatisfações sobre um determinado tema e contexto (Vasco; Zakrzevski, 2010). Assim, conhecer a percepção ambiental da população quanto à importância, benefícios, uso e conservação da mata ciliar é importante, uma vez que estudos voltados a avaliar a percepção da comunidade ribeirinha sobre a perspectiva ambiental, apontam que a população consegue reconhecer e perceber a importância ambiental e as funções ecológicas que a mata ciliar apresenta e exerce na conservação da biodiversidade, na integridade dos ecossistemas, na qualidade do ar e na manutenção da vegetação, além de apontar os principais impactos ambientais que esse tipo de vegetação enfrenta por conta da ação antrópica (Lanfredi et al., 2016; Gomes; Vieira, 2018).

Nessa perspectiva, este estudo tem as seguintes questões norteadoras: a) O perfil socioeconômico dos usuários e/ou ocupantes dos depósitos fluviais e da mata ciliar do rio Parnaíba influência no processo de preservação da mata ciliar do rio? b) Esta comunidade de usuários/ocupantes percebe os benefícios socioambientais da mata ciliar para o rio Parnaíba? Diante do exposto, objetivou-se analisar o perfil socioeconômico e as percepções ambientais que os usuários/ocupantes apresentam em relação aos depósitos fluviais do médio curso do rio Parnaíba, bem como seus benefícios e importância socioambiental, incluindo a mata ciliar.

2 MATERIAL E MÉTODOS

2.1 Área de estudo

A pesquisa foi realizada junto aos moradores dos municípios de Timon (Maranhão) e Teresina (Piauí) em trecho de aproximadamente 30 km da região do médio do rio Parnaíba (Figura 1), Nordeste do Brasil, onde ocorrem os depósitos fluviais.

Figura 1 – Localização geográfica dos principais depósitos fluviais (coroas) ocorrentes em um trecho do médio curso do rio Parnaíba, localizados entre os municípios de Teresina, Piauí e Timon, Maranhão, Nordeste brasileiro

Fonte: IBGE (2021); Google Earth (2021); Organização dos Autores (maio de 2022)

O município de Timon, Maranhão, localiza-se nas coordenadas geográficas 5°05’38”S e 42°50’13”W, possui área de 1.763,220km², uma população estimada de 171.317 habitantes e densidade populacional de 89,18 hab/km² (IBGE, 2022). Teresina, capital do estado do Piauí, localiza-se nas coordenadas geográficas 5°5′20″ S e 42°48′7″ W. possui área de 11.401.092km², com uma estimativa populacional de aproximadamente 871.126 mil habitantes, o que corresponde a cerca de 37,7% da população piauiense (3.289.290 hab.), e densidade demográfica de 584,94 hab/km² (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2022).

2.2 Coleta e Análise dos Dados

Conforme exposto na figura 1, no trecho do rio Parnaíba estudado, há aproximadamente 11 DFs distribuídos no seu percurso. Nossa amostra contempla 62 usuários/ocupantes de três depósitos (DF1, DF4 e DF5), para os quais aplicamos formulários semiestruturados (Tabela 1). A escolha se deu com base no tipo de uso/ocupação, fluxo de pessoas, facilidade de acesso, menor criminalidade e periculosidade. O critério de inclusão foi o DF correspondente a um grupo de categoria de uso: agricultura, lazer e pesca; lazer e pesca; e, agricultura e pesca.

Tabela 1 – Principais tipos de usos e ocupação dos depósitos fluviais (DFs) em um trecho estudado do rio Parnaíba, Nordeste do Brasil

Tipo de uso

Depósito fluvial

Ano aproximado de formação

Dimensão

da coroa

Locais de aplicação dos formulários

Quantidade de pessoas entrevistadas

Agricultura,

lazer e pesca

DF3

DF4

DF8

DF11

Antes de 1980

Antes de 1980

Antes de 1980

Antes de 1980

650,8m²

377,4m²

2.206m²

2.387m²

-

X

-

-

-

6

-

-

Lazer e pesca

DF1

DF2

DF9

DF10

2009

2012

2009

2005

295,1 m²

106.5 m²

88,7m²

171,4m²

X

-

-

-

51

-

-

-

Agricultura e pesca

DF5

DF6

DF7

Antes de 1960

2005

2009

939,5m²

244,3m²

327 m²

X

-

-

5

-

-

Total

-

-

-

-

62

Fonte – Google Earth (2022) e Pesquisa direta, 2022. Organizado pelos autores, agosto de 2022

A pesquisa foi submetida com respectivos instrumentais utilizados ao Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Universidade Federal do Piauí (UFPI), sendo aprovada e registrada com o número do parecer 4.866.495, cumprindo os preceitos e normativas legais e os aspectos éticos da pesquisa (Conselho Nacional de Saúde- CNS, Resolução n. 466/12 e n. 510/16).

Foi utilizado o método Rapport (Bernard, 1989) para apresentar o projeto de pesquisa aos atores sociais que usam e ocupam as coroas/vazantes do rio Parnaíba, bem como adquirir a confiança, aceitação e o conhecimento dos indivíduos envolvidos (participantes da pesquisa). Posteriormente, os objetivos do trabalho foram explicados e esclarecidos aos participantes, com assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), assegurando o anonimato na divulgação dos resultados.

As técnicas utilizadas para a obtenção dos dados foram as entrevistas semiestruturadas com auxílio de formulários impressos padronizados, contendo questões abertas e fechadas (Bernard, 2017), complementados por ferramentas de apoio como as entrevistas livres e conversas informais (Apolinário, 2006), além de observações direta, uso de diário de campo e o gravador de voz (Oliveira, 2007; GIL, 2010), em dias não consecutivos entre maio e julho de 2022, junto aos entrevistados, incluindo alguns informantes-chaves. Denominam-se de informantes-chaves os ocupantes ou visitantes dos depósitos fluviais do rio Parnaíba detentores de conhecimento empírico sobre aspectos históricos e dos recursos ambientais locais.

Tais entrevistas abordaram informações acerca: a) aspectos do perfil socioeconômicos dos indivíduos (nome, idade, estado civil, escolaridade, renda mensal, ocupação, local de moradia, saneamento, religiosidade, lazer e cultura); além de perguntas específicas relacionadas a: b) importância (ambiental, cultural, local e socioeconômica do rio Parnaíba) e, c) histórico do uso e preferência dos espaços (importância afetiva e simbólica).

A técnica do uso da pesquisa bibliográfica, documental e de campo foi realizada a fim de obter, selecionar, analisar e discutir os dados levantados relacionados ao uso e ocupação dos depósitos fluviais (Gil, 2010; Prodanovic, 2013).

Para análise dos resultados referentes à caracterização da população em estudo, os dados qualitativos foram organizados e agrupados em categorias de análise do tipo temática por meio do critério de similaridade das respostas, o qual foi realizado uma análise textual discursiva dos resultados (Bardin, 2011). A identificação dos participantes pesquisados foi mantida em sigilo e para garantir o anonimato e a confidencialidade da informação coletada as transcrições contendo as falas dos entrevistados estão apresentadas sempre com um código: “A” (agricultores), “P” (pescadores), VE (vendedores), e “VI” (visitantes), seguido do número da entrevista e idade.

As informações obtidas foram organizadas e tabuladas em planilha eletrônica Microsoft Office Excel e os dados obtidos foram analisados por meio de estatística descritiva básica, e transformados em gráficos e quadros para melhor apresentação.

3 RESULTADOS E DISCUSSÃO

3.1 Perfil e aspectos socioeconômicos dos entrevistados

A análise descritiva dos dados obtidos nas entrevistas permitiu a identificação de diferentes percepções e do perfil socioeconômico dos visitantes e ocupantes dos depósitos fluviais do rio Parnaíba. Foram entrevistadas 62 pessoas, das quais a maioria parte são homens (61,3%) e apenas 38,7% são mulheres. Dentre os pesquisados, os adultos (25 a 59 anos) foram predominantes. Relativo ao estado civil, os solteiros foram representados com 37,1%. Em relação à quantidade de filhos, a maioria declarou ter de três a seis (38,7%), conforme dados da Tabela 2.

Os dados socioeconômicos apontam que nas atividades relacionadas ao uso e ocupação dos depósitos fluviais do rio Parnaíba, há maior participação de homens adultos, o que condiz com outras pesquisas sobre percepção ambiental em área de mata ciliar no Brasil (Lanfredil et al., 2016; Custódio; Leite, 2017). Dado divergente ao encontrado por Gomes e Vieira (2018) em Santarém–PA e Rezende e Gomes (2017), em Arame–MA, nas quais mulheres foram mais representativas.

No que se refere ao aspecto educacional, 27,4% dos entrevistados não possuem o Ensino Fundamental completo. Este resultado indica que o perfil de escolaridade dos usuários dos DFs é composto majoritariamente por baixa escolaridade. Esse panorama é similar ao observado na literatura em outras comunidades ribeirinhas brasileiras, onde prevalece o Ensino Fundamental incompleto, mesmo entre aqueles que residem em áreas urbanas (Almeida; Silva, 2020; Silva et al., 2020). Resultado divergente do encontrado por Lanfredi et al., (2016) e Gomes e Vieira (2018) onde a maioria dos ribeirinhos possui ensino médio completo. De acordo com Aguiar (2021), a escolaridade é um fator importante que contribui para interferir no conhecimento sobre a preservação em áreas ribeirinhas.

Tabela 2 – Principais variáveis do perfil socioeconômico dos entrevistados que usam ou ocupam as coroas do rio Parnaíba, Nordeste brasileiro

Variáveis

Respostas

Total geral

Porcentagem (%)

Gênero

Masculino

Feminino

38

24

61,3%

38,7%

Idade

18 a 24

25 a 59

Acima de 60

8

42

12

12,9%

67,8%

19,3%

Estado Civil

Solteiro/a

Casado/a

Viúvo/a

Divorciado/a ou separado/a

23

20

6

13

37,1%

32,3%

9,7%

20,9%

Número de filhos

Nenhum

De 0 a 2

De 3 a 6

21

17

24

33,9%

27,4%

38,7%

Escolaridade

Não escolarizado

Ens. Fundamental Incompleto

Ens. Fundamental Completo

Ens. Médio Incompleto

Ens. Médio completo

Ensino Superior incompleto

Ensino Superior completo

5

17

3

14

12

6

5

8%

27,4%

4,8%

22,6%

19,3%

9,8%

8,1%

Profissão atual

Aposentados ou Pensionista

Comerciário/a

Estudante

Funcionário público

Pescador/a

Trabalhador/a rural

Outras ocupações

11

8

4

1

5

4

29

17,7%

13%

6,4%

1,6%

8,1%

6,4%

46,8%

Salário

Até 1 salário

De 1 até 2 salários

Acima de 2 salários

19

39

4

30,6%

63%

6,4%

Fonte. Pesquisa direta, 2022. Elaborado pelo autor

Dentre os pesquisados, 63% possuem renda entre um e dois salários mínimos e 46,8% trabalham em diferentes áreas. De modo geral, a renda mensal dos entrevistados se concentra em uma faixa de renda básica nacional em torno de 1.302,00 a 2.604,00 reais. Esses dados corroboram com os encontrados por Lanfredi et al. (2016) e Gomes e Vieira (2018). Assim, provavelmente o uso e a ocupação dos depósitos fluviais está voltada para fonte de subsistência, lazer e diversão e/ou complementação de renda. Corroborando esta fala, Gomes e Vieira (2018), afirmam que a crise ambiental atual está diretamente relacionada com a questão social, a degradação de ambientes muitas vezes está atrelada a uma população com nível de escolaridade baixa, o que reflete na sua renda, que também é baixa.

É válido destacar que todos os agricultores entrevistados (11) que fazem uso dos depósitos fluviais (DFs) do rio Parnaíba no trecho investigado são aposentados e complementam sua renda a partir da agricultura de subsistência cultivando, principalmente, feijão (Phaseolus vulgaris L.) e milho (Zea mays L.) nesses locais do rio Parnaíba.

3.2 Histórico de origem, uso e ocupação dos depósitos fluviais do rio Parnaíba

Constatou-se que o histórico de uso e ocupação das coroas/vazantes do rio Parnaíba pelos moradores da cidade de Timon, Maranhão e Teresina, Piauí ocorre há aproximadamente 60 anos para diversas finalidades, como agricultura familiar, pesca, esporte e lazer, conforme declarações de alguns entrevistados (Quadro 1).

De acordo com o quadro 1, os entrevistados trazem em suas memórias o tempo de origem e/ou ocupação dos depósitos no leito do rio Parnaíba. Esses ambientes estão diretamente relacionados à necessidade de exploração e/ou uso, assim como com o histórico e a condição socioeconômica dos ocupantes/usuários. Em estudo semelhante, Lyra et al. (2018), relataram que desde 1830 ocorre o processo histórico de ocupação e povoamento das ilhas Massagano e Rodeadouro no rio São Francisco, destinado ao plantio de roças e exploração da pecuária extensiva e, com a construção em 1977 da Usina Hidrelétrica de Sobradinho, localizada nos municípios de Sobradinho e Casa Nova no estado da Bahia e da Usina Hidrelétrica Luiz Gonzaga em 1987, localizada no município de Petrolândia no estado de Pernambuco, as intervenções proporcionaram o controle do fluxo e vazão das águas do rio nos períodos de chuvas e/ou secas, modificando assim a dinâmica de uso e ocupação desse ambiente (Aquino, 2004; Lyra et al., 2018). Em Teresina, Piauí (PI), Pereira (2021), ao pesquisar sobre a paisagem, espaço e vida social dos vazanteiros no bairro Poti Velho, afirma que as atividades estão relacionadas diretamente, dentre outros fatores, com os aspectos socioeconômicos da região. Dessa forma, percebe-se que a agricultura de vazante faz parte da vida dos ribeirinhos, sendo uma prática exercida com a finalidade de subsistência, essencial à manutenção da vida.

Quadro 1 – Histórico de conhecimento pelos entrevistados sobre a origem dos depósitos fluviais do rio Parnaíba, Nordeste brasileiro

Depoimento dos entrevistados

Depósito fluvial

Local de moradia

“Rapaz essa coroa aqui com essas árvores já tem muito tempo, deve ter uns 10 anos que ela tá aqui, agora nessa parte aqui dela que tem só a areia que é aonde o pessoal vem para tomar banho, ela já tá há cinco anos, e cada ano ela vem aumentando mais o tamanho e a largura dela, é o mesmo tempo que estou aqui montando barraca para vender minhas coisas”. (VE36, 36 anos: grifos nossos).

DF1

Timon - MA

“Essa coroa começou a aparecer aqui no rio Parnaíba tem uns 40 anos, lá por volta de 1980, eu era menino de uns 6 anos quando o pai me trazia para cá para a beira do rio Parnaíba. Quando ela surgiu era só areia, aí os anos foi passando e ela foi aumentando de tamanho para cima e para baixo e também para os lados com as cheias do rio. [...] No início o pessoal usava para tomar banho, se divertir jogando bola, para o lazer aqui do pessoal do bairro. Depois, com o tempo, dois pescadores começaram a fazer roça. Com o tempo, à medida que a coroa ia crescendo, mais pessoas foram tendo interesse de plantar aqui”. (A6, 46 anos: grifos nossos).

DF4

Cerâmica Cil, Teresina-PI

“Essa coroa é antiga demais. Deve existir desde antes de 1960. Eu lembro que teve uma cheia do rio Parnaíba antes de 1960 que foi maior do que a de1960, foi quando mais ou menos surgiu ela. Aí teve a de 1964 que foi quando jogou muita areia aqui e acabou de completar ela, aí depois algumas pernas que saiu mais ‘pra cima e para abaixo que ajudou a aumentar ao longo dos tempos, aí depois foi só aumentado com as cheias nesses anos todos”. A gente usa essa coroa há muitos anos para fazer nossas roças e vez ou outra eu vejo alguém pescando aqui. (A36, 77 anos: grifos nossos).

DF5

Poti Velho, Teresina-PI

Fonte. Pesquisa direta, 2022. Elaborado pelo autor

Os depósitos fluviais do rio Parnaíba, comumente conhecidos no passado como “prainha de água doce do rio Parnaíba” (Figura 2), nas décadas de 1970, 1980 e até aproximadamente início de 1990, eram uns dos principais pontos turísticos para visitação da população na cidade de Teresina–PI (Lustosa Filho, 2015; Matos; Afonso, 2016). O local era utilizado principalmente para eventos de competição esportiva, que associado a atrações musicais, reunia nos finais de semana centenas de visitantes, os quais iam em busca do banho, esporte e lazer (Arraias, 2021).

Com isso, foram criados parques ambientais na mata ciliar do rio, visando proteger suas margens e promover algumas atividades de lazer, ficando, portanto, proibida a realização de algumas práticas de uso e/ou qualquer tipo de construção, e a posterior retirada dos bares (Figura 2C) que ficavam localizados na sua margem (Matos; Afonso, 2016). Nessa mesma época, outros fatores contribuíram para diminuir as visitas nas coroas do rio Parnaíba, em consequência de várias mudanças na cidade como o surgimento de clubes privados e a construção dos shopping centers, localizados próximos à margem direita do rio Poti (Luneta, 2018; Santiago et al., 2020).

Naquela época, tendo em vista o aumento dos prejuízos ambientais, sociais e urbanos advindos do crescimento urbano e populacional, da industrialização e de obras de infraestrutura em Teresina–PI e em Timon–MA e seus impactos e as diversas modificações junto às margens do rio Parnaíba, que ameaçavam o meio ambiente e a desvalorização do potencial paisagístico do local, foram elaboradas novas leis e instrumentos urbanísticos na cidade, visando a conservação dessas áreas verdes naturais (Matos; Veloso, 2007; Matos; Afonso, 2016). A partir de então, as margens do rio Parnaíba foram consideradas através da Lei Municipal n°. 1939/1988, atualizada pela Lei n°. 3.563/2006, como Área de Preservação Permanente- APP e Zonas de Preservação (Teresina, 2002, 2006, 2019).

Figura 2 – Histórico de uso com a finalidade artística, esportiva e cultural das coroas “Prainha” do rio Parnaíba na cidade de Teresina, Piauí, Nordeste brasileiro

Fonte. Jornal Portal Cidade Verde/PI, Jornal Portal Meio Norte/PI, jornal Portal Cidade Verde/PI. Organização dos autores, 2022

Legenda: Imagem A e B. Notícia no Jornal Portal Cidade Verde/PI, mostrando as pessoas reunidas na década de 1970, nos finais de semana de lazer na “Prainha”. Imagem C. Notícia no Jornal Portal Meio Norte/PI, apresentando os bares na década de 1970 na orla da “Prainha” do rio Parnaíba. Imagem D e E. Notícia no jornal Portal Cidade Verde/PI, sobre eventos culturais e artísticos na década de 80 nas coroas do rio Parnaíba. Imagem. F. Barco que fazia travessias no rio Parnaíba para levar os visitantes para as coroas para participarem do “Vôlei Bar”

3.3 Depósitos fluviais (DFs) do rio Parnaíba: Principais denominações, tempo de uso e/ou ocupação e principais atividades desenvolvidas

Percebe-se que, em geral, os entrevistados dão diferentes nomes para esse tipo de ambiente, atribuído de acordo com seu conhecimento prévio do local e/ou mesmo associando a uma característica específica do lugar, ao processo geomorfológico e/ou tipo de paisagem e/ou do ambiente. Os principais nomes populares pelos quais os entrevistados conhecem os depósitos fluviais do rio Parnaíba são coroas, cróa e/ou vazantes do rio Parnaíba (Figura 3).

Figura 3 – Principais denominações do ambiente dos depósitos fluviais do rio Parnaíba, conhecidos pelos entrevistados

Fonte. Pesquisa direta, 2022

A respeito dessa abordagem, é importante destacar que o processo geomorfológico de formação e evolução dos depósitos fluviais (coroa, croa e/ou banco de areia) do rio Parnaíba se dá por meio natural, a partir do aporte fluvial e do potencial de fluxo das águas ocorrentes entre os períodos de cheia e seca do rio, que depositam sedimentos em diferentes locais (junto às margens ou por todo o leito) ao longo do trecho do rio e, assim, dão origem aos novos depósitos fluviais, e/ou mesmo estabilizando, modificando e rearranjando os já existentes através do processo de expansão lateral, frontal ou vertical por meio do acúmulo, deposição e fixação de novos sedimentos (Leli, 2015; Lima; Augustin, 2015; Queiroz et al., 2018).

Outro aspecto a ser considerado é que 12,9% dos entrevistados relatam que conhecem e visitam os depósitos fluviais do rio Parnaíba há mais de 40 anos, e que geralmente costumam ir a esse local uma a duas vezes por semana, passando em média entre duas e quatro horas por dia (Tabela 3).

Tabela 3 – Perfil do tempo (anos, dias e horas), principais formas, motivos e/ou razões que levaram os visitantes e/ou ocupantes dos depósitos fluviais do rio Parnaíba a conhecerem, passarem e/ou visitarem esse ambiente

Variáveis

Respostas

Total geral

Porcentagem (%)

Tempo médio de conhecimento dos visitantes em relação aos depósitos fluviais do rio Parnaíba

1 a 5 anos

6 a 20 anos

21 a 40 anos

mais de 41 anos

20

13

21

8

32,2%

21%

33,9%

12,9%

Periodicidade de visitas aos depósitos fluviais do rio Parnaíba

1 a 2 dias

3 a 4 dias

5 ou mais dias

40

9

13

64,5%

14,5%

21%

Tempo médio (horas) de visita dos entrevistados aos depósitos fluviais do rio Parnaíba

Uma a duas horas

Duas a quatro horas

Cinco ou mais horas

12

29

21

19,3%

46,8 %

33,9%

Forma como os entrevistados conheceram os depósitos fluviais do rio Parnaíba

Amigos

Pais e/ou familiares

Sozinho

Outras formas

38

18

5

1

61,2%

29%

8,2%

1,6%

Motivos que levaram os entrevistados a visitar e/ou usar os depósitos fluviais do rio Parnaíba

Lazer e diversão

Pesca

Agricultura/roça

Esporte

Venda de produtos

30

13

11

7

1

48,4%

21%

17,7%

11,3%

1,6%

Fonte. Pesquisa direta (2022). Elaborado pelo autor

Os DFs, por sua beleza cênica natural somada à facilidade de acesso, são atrativos visitados há mais de 40 anos por moradores das cidades de Teresina-PI e Timon–MA. Considerando a relevância socioambiental que as coroas possuem, essa é constatada pela grande quantidade de informações e imagens a respeito delas encontradas na internet por meio de diversos portais de comunicação locais, blogs, redes sociais e outros. A esse respeito, cabe destacar que é somente após as cheias do rio Parnaíba, momento que as águas baixam e deixam expostas às formações dos depósitos fluviais (bancos de areias/coroas) que as pessoas e/ou moradores passam a visitar e ocupar esses ambientes, em geral, para se divertir e tomar um banho nas águas do rio e/ou exercer alguma atividade de trabalho relacionado a agricultura familiar, a pecuária, a pesca e/ou a visitação para o lazer.

Queiroz et al. (2018), ao estudarem as comunidades rurais ribeirinhas do rio Solimões no Amazonas, notaram que as pessoas que vivem e exercem essas mesmas atividades nas áreas do leito deste rio, estão adaptadas à dinâmica fluvial anual, enfrentando dificuldades no período de cheia do rio, pois este é um fator limitante. Esse fato é divergente do observado em ilhas fluviais no rio São Francisco, pois estas não sofrem pela imersão das águas do rio, situação que favorece a presença de moradores residentes, diversas construções como o comércio, e a prática da pecuária, agricultura e fruticultura irrigada (Lyra et al., 2018; Gama et al., 2021). Souza et al. (2010), observaram essa realidade no mesmo rio nas ilhas de Pirapora–MG.

Os entrevistados afirmam que conheceram os depósitos fluviais do rio Parnaíba por meio de amigos e/ou familiares (Tabela 3). É de grande importância compreender a origem da fonte de informação de uma área ambiental de visitação pública, haja vista que este é um importante e eficiente canal interpessoal de divulgação e conhecimento em função de diversos fatores, dentre eles, a credibilidade da fonte de esclarecimento e a importância da opinião de grupos de referência (Mattar, 2012).

Entre os entrevistados, os agricultores e pescadores, são os que vão com maior frequência semanal aos depósitos fluviais do rio Parnaíba, comparado aos visitantes e, demoram, em geral, mais tempo do dia, devido à realização de suas atividades rotineiras. De acordo com Ertzogue e Zagallo (2018), o rio representa para as populações ribeirinhas um lugar que os identifica e que possui múltiplos significados como a relação de pertencimento, laços comunitários e afetivos, memórias e de histórias de vida e de trabalho no campo. Cardoso e Dutra (2007) acrescentam, ainda, que as margens dos rios urbanos é um tipo de espaço livre público da cidade muito visitado pelos ribeirinhos, que apresenta importantes elementos simbólicos, construídos, visuais, paisagísticos e naturais.

Os principais motivos que levam os entrevistados a visitar os DFs são: o lazer, diversão e a contemplação da paisagem (Figura 4). É importante ressaltar que os visitantes, em geral, frequentam as coroas apenas nos finais de semana e essa busca é intensificada nos períodos das férias, nos feriados e/ou em datas comemorativas e que provavelmente isso se dá em razão de ser um grupo social de baixa condição financeira. Essa realidade é constatada por Gama et al. (2021) nas ilhas do rio São Francisco. Ertzogue e Zagallo (2018), apontam que os DFs do rio Tocantins são usados com frequência com a finalidade de atividades domésticas (lavar roupa e louça), turismo de visitação, manifestações culturais e/ou religiosidade. A esse respeito, Gama et al., (2021), destacam que as pessoas visitam as ilhas fluviais do rio São Francisco por conta da geodiversidade encontrada nesse ambiente.

Figura 4 – Utilidade e uso dos depósitos fluviais do rio Parnaíba para fins de lazer, diversão e contemplação da paisagem: A e B. Fluxo de visitantes nos depósitos do rio Parnaíba em busca de lazer, banho e diversão

Fonte. Organizado pelos autores (setembro de 2022)

Outra atividade desenvolvida no DF1 é a venda de produtos alimentícios, bebidas e outros produtos e/ou especiarias em barracas e bancas para atender o público consumidor, que contribui na complementação da renda familiar destes vendedores (Figura 5). Ressalta-se, ainda, que os DFs são locais que oportunizam fonte de renda extra para vários tipos de profissionais liberais, como vendedores e fotógrafos. Lyra et al. (2018), também identificaram estas mesmas atividades nas ilhas do rio São Francisco.

Figura 5 – Utilidade e uso dos depósitos fluviais do rio Parnaíba para geração de fonte de renda: A e B. Utilização das coroas como fonte de renda familiar

Fonte. A. Jornal Portal o dia/PI (2017) e B. Jornal Portal Cidade Verde/PI (2019). Organização do autor, 2022

É válido destacar, ainda, que os DFs do rio Parnaíba, por possibilitarem o turismo de visitação, possibilitam a geração de renda complementar para os barqueiros que atravessam passageiros nas embarcações de uma margem a outra do rio. Essa prática de transporte de pessoas para as ilhas também foi evidenciada no rio São Francisco (Zagallo, 2018; Gama et al., 2021) e no rio Tocantins (Ertzogue; Zagallo, 2018). De acordo com Pereira (2014), esse tipo de turismo fluvial oportuniza benefícios socioeconômicos aos ribeirinhos, por outro lado, ocasiona problemas ambientais, como a disposição inadequada de resíduos sólidos e pisoteamento da área, etc. Estas atividades de visitação aos DFs do rio Parnaíba estão sendo desenvolvidas sem qualquer estudo ambiental e turístico, portanto, sem a preocupação com os princípios da sustentabilidade e sem nenhum tipo de fiscalização e conduta, o que pode intensificar os problemas ambientais.

Dentre outros resultados, os DFs do rio Parnaíba são também utilizados por homens e mulheres com a finalidade da atividade pesqueira artesanal e/ou esportiva (Figura 6). Essa prática também é realizada por ribeirinhos nos DFs do rio São Francisco (Souza; Souza, 2018; Zagallo, 2018; Gama et al., 2021), rio Tocantins (Ertzogue; Zagallo, 2018) e no rio Parnaíba (Pereira, 2021). Diegues e Arruda (2001), afirmam que há décadas a pesca faz parte da vida dos ribeirinhos, sendo uma prática exercida com a finalidade de subsistência das famílias, essencial à manutenção da vida.

Figura 6 – Atividade de pesca nos depósitos fluviais do rio Parnaíba, Nordeste brasileiro: A. Pescador no depósito fluvial jogando sua tarrafa nas águas do rio. B. Pescadores atracados com suas canoas no depósito fluvial

Fonte. Organizado pelos autores (maio de 2022)

Destaca-se que as populações ribeirinhas usam e ocupam há décadas os DFs do rio Parnaíba com a finalidade da prática da agricultura familiar para subsistência (Figura 7). Resultado semelhante foi encontrado por Queiroz et al. (2018), no rio Solimões no Amazonas, onde afirmam que as comunidades ribeirinhas possuem íntima relação e dependência direta com o rio, desenvolvendo atividades de subsistência plantando (agricultura familiar de subsistência) e/ou criando animais (pecuária) nestes locais. Tais singularidades foram evidenciadas nos DFs do rio São Francisco (Souza et al. 2010; Souza, 2011; Lyra et al., 2018; Gama et al., 2021) e no rio Tocantins (Ertzogue; Zagallo, 2018). Souza et al. (2010), afirmam que agricultores moradores em ilhas fluviais interagem com o meio ambiente, organizam-se socialmente, produzem seu próprio alimento, partilham saberes e criam nesse território vínculos de pertencimento e enraizamento por meio dos seus modos de vida e trabalho, criando e modificando tanto a sua vida, quanto de seu lugar de convívio, por intermédio do viver rural.

Salienta-se que foi possível identificar o uso dos DFs do rio Parnaíba para práticas esportivas (jogo de futebol e vôlei) e outras atividades aquáticas como o caiaque, jet-ski e o nado livre e/ou profissional (Figura 8). Essas práticas também são recorrentes nas ilhas fluviais dos rios São Francisco (Souza et al. 2010; Souza, 2011; Lyra et al., 2018; Gama et al., 2021) e Tocantins (Ertzogue; Zagallo, 2018).

Figura 7 – Usos dos depósitos fluviais do rio Parnaíba na prática de realização de roças (agricultura) para a produção de alimentos: A e B. plantio de milho e feijão em roças

Fonte. Organizado pelos autores (abril de 2022)

Figura 8 – Práticas de atividades esportivas nos depósitos fluviais do rio Parnaíba, Nordeste do Brasil: A. Jogo de futebol nos depósitos fluviais do rio Parnaíba. B. Prática de Caiaque nos depósitos fluviais do rio Parnaíba

Fonte. Organizado pelos autores (agosto de 2022)

A esse respeito, a literatura científica cita que atividades recreativas aquáticas como o esporte, a natação e passeios de barcos e/ou mesmo a pesca em ecossistemas de água doce geram poluição e impactos ecológicos negativos nos habitats ribeirinhos e interferem direta e indiretamente nos serviços ecossistêmicos e na conservação da vida (O’toole et al., 2009; Schafft et al., 2021). Por isso, é necessário implementar a fiscalização ambiental e restrição parcial desse tipo de prática de recreação aquática com a atuação direta de parceiros como o poder público local, as associações e a participação da população que se utiliza desse ambiente, atuando de forma harmoniosa e respeitando os princípios e regulamento ambiental dos recursos, visando sempre o desenvolvimento sustentável da região, o equilíbrio do ecossistema e a sua conservação (Pereira, 2014).

Todas as atividades desenvolvidas nos DFs do rio Parnaíba, aqui discutidas, foram identificadas como práticas realizadas nos rios São Francisco e Tocantins (Souza et al., 2010; Souza, 2011; Ertzogue; Zagallo, 2018; Lyra et al., 2018; Souza; Souza, 2018; Zagallo, 2018; Gama et al., 2021).

3.4 Benefícios socioambientais que os depósitos fluviais prestam às pessoas e ao ambiente

Em relação aos benefícios socioambientais prestados pelos depósitos fluviais do rio Parnaíba, 92% dos entrevistados afirmam que esse ambiente apresenta diversos tipos de funções para o homem, a região e a natureza, enquanto 8% citam que não. Os principais benefícios socioambientais estão relacionados a melhoria da qualidade de vida (43,5%) e a amenização do calor/regulação da temperatura (15,6%), embora outros benefícios também tenham sido citados (Figura 9).

De acordo com a figura 9, a melhoria da qualidade de vida é um dos principais benefícios socioambientais que os depósitos fluviais proporcionam às pessoas. Em vista disso, Dantas et al. (2003) ressaltam que qualidade de vida tem múltiplos conceitos e definições e, em geral, é o estado ou condição humana onde compreende diferentes significados que refletem conhecimentos, experiências e valores de indivíduos e coletividades. Em outras palavras, a qualidade de vida relaciona-se com o fato do indivíduo se sentir satisfeito, incluindo o acesso às oportunidades de ser feliz e de alcançar autorrealização, independentemente de sua saúde, condições ambientais, sociais, financeiras e políticas (Pereira et al., 2012). Desta forma, depreende-se que os entrevistados, ao estarem nos depósitos fluviais, mencionam a condição de qualidade de vida como algo bom e positivo, aquilo que lhes traz felicidade, que remete e transmite bem-estar e lhes faz bem, ou seja, nesse ambiente a natureza é um local agradável e acolhedor.

Figura 9 – Principais benefícios socioambientais prestados pelos depósitos fluviais do rio Parnaíba, citados pelos entrevistados

Fonte. Pesquisa direta (2022)

Vários estudos científicos apontam que as matas ciliares são locais conhecidos mundialmente por desempenharem uma ampla variedade de funções, bens e serviços ecossistêmicos essenciais de regulação do ambiente/ecossistema e conservação natural das espécies (Capon et al., 2019; Baskent et al., 2020; Nobrega et al., 2020). A lista de serviços prestados por esse ambiente é diversa, entre os principais se destacam: funcionam como corredores ecológicos para a vida selvagem animal, fornecem sequestro e fixação de carbono, influenciam na riqueza e composição da biodiversidade biológica e nos serviços de regulação dos efeitos das mudanças climáticas (Dybala et al., 2019; Fernandes et al., 2020; Lacerda; Barbosa, 2020). Portanto, se faz necessário manter conservado esse tipo de ambiente, pois estudos apontam que o estado de conservação e preservação da mata ciliar incide diretamente sobre a riqueza, a diversidade de vida e dos serviços ecossistêmicos (Albacetea et al., 2020; Lacerda; Barbosa, 2020).

Cabe ressaltar que entre outros benefícios, os DFs são espaços naturais que possuem alto potencial de uso, que poderão ser utilizados por professores e alunos em aulas de campo relacionados à temática ambiental, como a Educação Ambiental, bem como com viés de pesquisas científicas futuras, voltadas aos aspectos ambiental, social, ecológico e/ou geográfico, pois a ciência ratifica que o contato com as florestas urbanas pode aumentar o conhecimento das pessoas sobre a temática ambiental e/ou natureza (Sampaio et al., 2018).

3.5 Principais impactos e interferência ambiental ocorrentes nos depósitos fluviais (DFs) e mata ciliar na visão dos entrevistados e sua conservação

A partir das entrevistas, verificou-se que a maioria (53,2%) não considera preservada a mata ciliar do rio Parnaíba. No que se refere à visita, uso e ocupação dos DFs, esses tipos de atividades causam problemas ambientais (54,8%). 83,9% percebem problemas ambientais, entre os quais estão o acúmulo de lixo (23,4%), desmatamentos (22,1%) e queimadas (17,6%) (Figura 10).

Figura 10 – Principais problemas ambientais percebidos pelos entrevistados ocorrentes nos depósitos fluviais do rio Parnaíba, Nordeste brasileiro

Fonte. Pesquisa direta, 2022

As práticas de uso e ocupação nos DFs do rio Parnaíba estão diretamente relacionadas às atividades de subsistência das populações que utilizam o rio para sobreviver como a agricultura familiar e a pesca, mas também tem utilidade para o lazer e/ou mesmo improvisando o ambiente para a prática de esportes e eventos artísticos, culturais e musicais. Souza e Souza (2018) apontam que o uso e exploração dos rios pelos barranqueiros, ribeirinhos, vazanteiros e ilheiros estão voltados para a formação do território, compreendendo suas socioespacialidades, territorialidade e as múltiplas identidades que são (re)construídas a partir da percepção e da vivência com interdependência e respeito aos limites desses mananciais.

Entretanto, as atividades desenvolvidas nos DFs podem gerar impactos diretos ao meio ambiente quando feito de forma pouco sustentável. Lyra et al. (2018), afirmam que a ocupação e o povoamento em ilhas fluviais, principalmente pelas atividades agrícolas, crescimento e urbanização e o turismo de visitação e lazer têm acelerado os impactos ambientais e provocado a supressão da cobertura vegetal pelo desmatamento desses ambientes. Nas mesmas ilhas, Sousa et al. (2013) constataram que este processo tem ocasionado a perda de terras pelo intenso processo de erosão dos solos nas áreas desprovidas de vegetação ao longo das ilhas, bem como o processo de assoreamento do leito fluvial, colmatação da calha fluvial, aparecimento de espécies invasoras e a perda de terras agricultáveis.

No que diz respeito à garantia de conservação dos DFs do rio Parnaíba, esses habitats deveriam ser melhor protegidos, pois há décadas estão incluídos nas legislações ambientais vigentes em prol da sua proteção ambiental. Deste modo, visto que a utilização desses DFs como fonte econômica e/ou de lazer pode ocasionar diversos prejuízos ambientais, faz-se necessária a elaboração de políticas públicas locais, visando alcançar sua sustentabilidade, e assim gerenciar melhor o uso e ocupação desse recurso natural, a fim de amenizar prejuízos e proporcionar bem-estar às populações que utilizam esses espaços.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Nossos resultados apontam que o uso e a ocupação humana dos depósitos fluviais do rio Parnaíba ocorrem há aproximadamente 70 anos, estando diretamente relacionado/vinculado à condição socioeconômica e ao modo de vida dos ribeirinhos. Ao longo dos anos, as práticas de uso e ocupação dos DFs pelos moradores locais das cidades de Timon–MA e Teresina–PI se diversificaram, entre as quais se destacam agricultura familiar, pesca, prática esportiva, lazer e turismo.

Os DFs contribuem e prestam uma grande variedade de benefícios socioambientais, os quais são importantes, uma vez que auxiliam e refletem diretamente na qualidade de vida da população local, na diversidade de formas de vida e na integridade dos ecossistemas e/ou natureza. Além disso, os DFs se caracterizam como um importante fator de construção social, onde as pessoas mantêm relação dependente direta ou indireta com esse ambiente. Desta forma, o conhecimento das percepções e do perfil socioeconômico dos visitantes e/ou ocupantes dos depósitos fluviais são importantes informações para serem consideradas na gestão ambiental futura desse recurso natural.

Por outro lado, os entrevistados afirmam que os DFs não são conservados e/ou preservados, identificando a presença de diferentes problemas ambientais urbanos (desmatamento, acúmulo de resíduos sólidos, agricultura, queimadas, entre outros) advindos do uso, visitação e ocupação, os quais contribuem para diminuição da vegetação. Nesse sentido, recomenda-se uma maior atuação e fiscalização dos órgãos gestores com a finalidade de ampliar as ações extensionistas voltadas para as questões de legislação e diretrizes ambiental urbana vigente nessas Áreas de Preservação Permanente (APPs), visando sua conservação. E considerando que a presença humana nos DFs vem causando sérios problemas ambientais, faz-se necessária ainda a realização de campanhas, palestras, cursos e/ou oficinas sobre conservação ambiental para sensibilizar ambientalmente esses os atores sociais que usam e/ou dependem diretamente do rio.

Por fim, frente a importância socioambiental e a relevância das matas ciliares e os desafios para sua conservação nas cidades, é preciso estudar o uso, a ocupação e/ou a visitação nos depósitos fluviais dentro do contexto social, econômico, ambiental e político local, avaliando as reais consequências que a presença humana advinda das atividades insustentáveis ocasiona nesses ambientes. Uma vez que tal questão não está contemplada dentro dos planejamentos urbanos e do plano diretor das duas áreas envolvidas na pesquisa.

Agradecimentos

Os autores agradecem os recursos provenientes do CNPq (Projeto Universal Nº 422747/2016-5) para financiamento.

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Contribuições de autoria

1 – Lorran André Moraes

Universidade Estadual do Maranhão, Doutor em Desenvolvimento e Meio Ambiente

https://orcid.org/0000-0002-3858-3059 • lorranandre@cte.uespi.br

Contribuição: Escrita - primeira redação, conceituação, metodologia, investigação científica, análise e discussão dos dados

2 – Waldileia Ferreira de Melo Batista

Universidade Estadual do Piauí, Doutora em Desenvolvimento e Meio Ambiente

https://orcid.org/0000-0002-4893-2873 • wal_bio@hotmail.com

Contribuição: Escrita, revisão e edição

3 – Francisco Soares Santos Filho

Universidade Estadual do Piauí, Doutor em Botânica

https://orcid.org/0000-0002-1713-7228 • fsoaresfilho@gmail.com

Contribuição: Supervisão, revisão e edição

Como citar este artigo

MORAES, L. A.; BATISTA, F. M. W.; SANTOS FILHO, F, S. “De boa na coroa”: Perfil socioeconômico e percepção ambiental de usuários/ ocupantes dos depósitos fluviais de um rio brasileiro. Geografia Ensino & Pesquisa, Santa Maria, v. 29, e86377, 2025. Disponível em: 10.5902/2236499486377. Acesso em: dia mês abreviado. ano.