Universidade Federal de Santa Maria
Geografia, Ensino & Pesquisa, Santa Maria, v. 26, e15, 2022
DOI: 10.5902/2236499467168
Submissão: 11/08/2021 • Aprovação: 14/06/2022 • Publicação: 20/07/2022
2 A IMPORTÂNCIA DO CONHECIMENTO DO CONTEÚDO PROPOSTO POR SHULMAN
3 CONHECIMENTOS SUBSTANTIVO E SINTÁTICO SOBRE CAMPO E CIDADE
Ensino e Geografia
Topics on field and city teaching: substantive and syntactic knowledge in Geography
I Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Curso de Geografia, Três Lagoas, MS, Brasil
II Universidade Estadual de Maringá, Departamento de Geografia, Maringá, PR, Brasil
RESUMO
O presente artigo reflete a importância do Conhecimento do Conteúdo em Geografia, considerando seu valor na caracterização da matéria escolar e, por consequência, na própria identificação do professor. Entendemos que não basta ter apenas o domínio do conhecimento específico, é necessário também ter condições de levar esse conhecimento à compreensão dos alunos. Shulman (1986) aponta a necessidade de os professores compreenderem as estruturas de suas áreas de conhecimento por meio do Conhecimento do Conteúdo, ou seja, terem um conhecimento substantivo e sintático do componente curricular que ministram; sendo, de modo sucinto, o primeiro relacionado ao que se estuda, seus conceitos e princípios, e o segundo, ao método de investigação, regras e procedimentos. Ante a diversidade de conteúdos geográficos, escolhemos a temática campo e cidade por representar, entre outros motivos, tópico de ensino interessante, pois, independentemente do local onde residem os estudantes, todos carregam em sua história laços com o campo ou com a cidade. Por meio de pesquisa qualitativa buscamos compreender os conhecimentos docentes e realçar a função central do conteúdo geográfico.
Palavras-chave: Conhecimento do conteúdo; Campo; Cidade; Ensino de Geografia; Professor
ABSTRACT
This article reflects the importance of Content Knowledge in Geography, considering its value in the characterization of school subjects and, consequently, in the teacher's own identification. We understand that it is not enough to have only the domain of specific knowledge, it is also necessary to be able to bring this knowledge to the understanding of the students. Shulman (1986) points out the need for teachers to understand the structures of their areas of knowledge through Content Knowledge, that is, to have a substantive and syntactic knowledge of the curricular component they teach; being, succinctly, the first related to what is studied, its concepts and principles, and the second, to the investigation method, rules and procedures. Given the diversity of geographic content, we chose the countryside and city theme because it represents, among other reasons, an interesting teaching topic, because, regardless of where the students live, all of them carry in their history ties with the countryside or with the city. Through qualitative research, we sought to understand teaching knowledge and highlight the central role of geographic content.
Keywords: Content knowledge; Field; City; Teaching Geography; Teacher
Quando nos referimos a professores, frequentemente, uma indagação surge: “Professor de quê”? Indicando o interesse em identificar qual componente curricular o professor ministra, em sequência, vêm a nossa mente os conteúdos abordados no referido componente curricular, associando o nome da matéria com o tipo de estudo realizado. Como exemplo, de modo genérico, o professor de português trata de gramática e literatura, o de ciências refere-se aos seres vivos e o professor de história aborda os diferentes contextos do passado da sociedade. E em geografia, o que se ensina? Imediatamente, não raro, a imagem construída envolve mapas, população e natureza. Considerando as devidas restrições que esse breve e singelo quadro assinalou, em especial, naquilo que cada componente do currículo escolar representa, ele serve ao propósito de mostrar o valor dos conteúdos na caracterização dos componentes curriculares e, por consequência, na própria identificação dos professores.
Dessa maneira, o presente texto faz uma breve reflexão com parte dos resultados da pesquisa[1] “O Conhecimento Pedagógico do Conteúdo (CPC) campo e cidade: um estudo da formação e prática do professor de geografia”. A proposta, realizada entre os anos 2017 e 2020, contou com quatro professores da educação básica atuantes em escolas públicas de Três Lagoas/MS, Castilho/SP e Pereira Barreto/SP, tendo por objetivo compreender o repertório de conhecimentos docentes, em especial referente ao conteúdo campo e cidade.
Depois dessa etapa, selecionamos os professores com mais tempo na profissão, acima de cinco anos de experiência, situados nas fases de estabilização e de diversificação, de acordo com o proposto por Huberman (2000), nos ciclos da vida profissional.
Os participantes, identificados no texto por nomes fictícios, representam profissionais de geografia atuantes em cidades diferentes, com distintos currículos, condições de trabalho e rotina escolar, segundo as Secretarias de Educação às quais estão subordinadas: Secretaria da Educação de Mato Grosso do Sul (SED/MS) e Secretaria de Estado da Educação de São Paulo (SEE/SP). Entretanto, mesmo com as diferenças, não significa que constituam um grupo isolado, desvinculados de um contexto maior; ao contrário, estão diretamente ligados a outros contextos formados por condições sociais, políticas, econômicas e culturais que se desenvolvem em diversas escalas e, consequentemente, repercutem no ensino escolar.
O trabalho foi desenvolvido por meio de pesquisa qualitativa (BOGDAN; BIKLEN, 1994; TRIVIÑOS, 1987), realizando entrevistas com os professores e observações em sala de aula de ensino fundamental e médio, para compreender o repertório de conhecimentos docentes, particularmente sobre o conteúdo campo e cidade. Os temas das entrevistas dividiram-se entre as trajetórias pessoal, formativa e profissional, enfocando o percurso de formação e suas fontes.
Na parte de análise de resultados, seguimos a análise de conteúdo com base em Bardin (2016), Moraes (1999), Franco (2018), Minayo (2000). A interpretação dos registros também se fundamentou em Shulman (1986; 1989; 2014) e autores relacionados às pesquisas sobre conhecimento docente. O referencial teórico englobou reflexões em pesquisadores do ensino e formação em geografia, bem como naqueles que tratam de campo e cidade, tais como Alentejano (2003), Endlich (2006), Suzuki (2007), Marques (2002), Sposito (1996) entre outros. Ademais, adotar uma postura ética no desenvolvimento da pesquisa foram valores respeitados pelos autores durante todo processo de desenvolvimento do trabalho.
2 A IMPORTÂNCIA DO CONHECIMENTO DO CONTEÚDO PROPOSTO POR SHULMAN
Shulman (1986; 2014) apresentou o Conhecimento Pedagógico do Conteúdo – CPC ou “PCK”, do inglês Pedagogical Content Knowledge –, ao afirmar o desenvolvimento do conhecimento docente pelo encontro/integração entre o campo disciplinar e a pedagogia. Para se constituir, o CPC depende de vários conhecimentos[2], tais como conhecimento do conteúdo, conhecimento do currículo, conhecimento dos alunos, conhecimento de contextos educacionais, entre outros.
Os conhecimentos docentes são construídos ao longo do processo de formação e experiência profissional. Para Lopes; Pontuschka (2011), em Geografia o CPC pode ser denominado Conhecimento Pedagógico Geográfico-CPG:
Corroborando essa ideia, vejamos o relato da professora de Pereira Barreto/SP:
E eu até falei pro aluno: [...] mas você tem de entender o lugar que você ocupa, seu espaço no mundo e entender isso é uma questão de entender a dinâmica da Terra, entender a dinâmica da sociedade, a geografia é isso. (Professora Daniela, entrevista 4, grifo nosso)
Sobre isso Cavalcanti (2010), comenta:
Nesse sentido, o conteúdo disciplinar possui uma função central e por esse motivo, dentro da constituição do CPC, elegemos para esse artigo o Conhecimento do Conteúdo, por envolver a quantidade e organização de conhecimento interagindo dentro da mente do professor.
O Conhecimento do Conteúdo reúne especificidades da matéria de ensino e princípios científicos da área de conhecimento, o qual em Geografia podemos traduzir por entendimento do objeto de estudo, do método e das perspectivas de investigação científica da área.
A preocupação com o conhecimento do professor representa uma questão importante para Shulman (1986) e está diretamente ligada ao ensino, pois, a aprendizagem dos alunos constitui o maior propósito do trabalho docente. Assim, torna-se necessário aos professores e professoras compreenderem as estruturas de suas áreas de conhecimento, sendo capazes de dar explicações do porquê determinado conteúdo é relevante e como se relaciona com outras áreas e situações.
Destarte, toda área de conhecimento possui estruturas substantivas e sintáticas e elas podem ser interpretadas da seguinte forma:
Com relação às estruturas sintáticas, o método de ensino deve ser equivalente ao método de investigação da ciência ensinada. De acordo com García (1999, p.87), o conhecimento sintático completa o conhecimento substantivo e se relaciona “[...] com o domínio que o professor tem dos paradigmas de investigação em cada disciplina”. O conhecimento sintático refere-se às metodologias utilizadas pelos membros de uma tradição disciplinar, isto é, os instrumentos de investigação de uma disciplina, os cânones de evidência e as provas por meio das quais o novo conhecimento é admitido em um campo e as demandas do conhecimento atual são consideradas menos justificadas (SCHWAB, 1964; GROSSMAN; WILSON; SHULMAN, 2005).
Em outras palavras, Lopes; Pontuschka (2015), explicam o que representam os conhecimentos substantivo e sintático:
Esse aporte teórico permite-nos compreender que o Conhecimento do Conteúdo abrange estruturas sintáticas e, em geografia, revelam-se nos procedimentos de ensino, como as pesquisas solicitadas pelo professor, os trabalhos em campo, o direcionamento de discussões em sala, entre outras abordagens e estratégias, que visam à compreensão do espaço à luz da visão geográfica. É importante frisar que as atividades de ensino não realizam meramente de forma procedimental, mas alicerçadas no conhecimento específico da disciplina adquirido por meio da formação acadêmica, ao qual possibilita construir o conhecimento substantivo do professor, conforme discussão a seguir.
3 CONHECIMENTOS SUBSTANTIVO E SINTÁTICO SOBRE CAMPO E CIDADE
Nesse sentido, referimo-nos aos conceitos e categorias da geografia, o espaço geográfico– conceito central– e os demais paisagem, lugar, território, região, entre outros que são abordados desde os primeiros anos da escolarização e formam as bases do ensino de Geografia, afinal, independentemente da diversidade de temas, como campo e cidade, frequentemente esses termos estão presentes.
De acordo com Oliveira (1994, p. 141), a compreensão do espaço geográfico busca “[...] desenvolver no aluno a capacidade de observar, analisar, interpretar e pensar criticamente a realidade tendo em vista a sua transformação”. Diante disso, o conhecimento do professor, por meio de sua formação inicial, nesse caso a licenciatura em Geografia, representa um aspecto fundamental por proporcionar aos professores a construção das bases teórico-metodológicas para o exercício de ensinar.
Então, como reconhecer o Conhecimento do Conteúdo do professor de Geografia? No ensino do componente curricular, como se manifestam os conhecimentos das estruturas substantiva e sintática sobre campo e cidade?
Entendemos campo e cidade, temática deste ensaio, como possibilidade interessante de ensino, em razão de, independentemente do local onde residem os alunos, todos carregarem em sua história pretérita e atual laços com esses lugares. Sob essa perspectiva, a discussão em torno do assunto inclui entender, além de campo e cidade, o significado de rural e urbano.
Corroborando à reflexão, Marques (2002), afirma essa perspectiva como legitimada também pelo poder público, ao determinar campo e cidade a partir de um perímetro e, portanto, definindo áreas urbana e rural por intermédio de critérios político-administrativos. A autora lembra, nessa classificação não há preocupação em se reconhecerem as funções dos espaços e atribui-se, tal como acontece com o campo e a cidade, ao rural aquilo que não é urbano.
Contudo, em um trabalho mais atual do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística– IBGE (2017), os critérios de classificação na determinação daquilo que é campo, cidade, rural e urbano, procuraram caracterizar melhor o presente cenário brasileiro. Desse modo, seguindo referencias internacionais, particularmente na metodologia utilizada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico–OCDE e União Europeia, o IBGE apresentou três critérios básicos: a densidade demográfica, a localização em relação aos principais centros urbanos e o tamanho da população. Considerando a intersecção das variáveis, identificou cinco tipos de municípios: urbano; intermediário adjacente; intermediário remoto; rural adjacente; e rural remoto. A proposta consiste em um avanço significativo na tarefa de superar a dicotomia existente entre campo e cidade, entre o rural e urbano.
Complementando esse pensamento, Suzuki (2007), aponta o papel do modo de produção capitalista na reconfiguração da função e forma da cidade e do campo, modificando relações sociais e de trabalho:
Com esse pensamento, podemos dizer que analisar campo e cidade para além de suas formas implica considerar o tempo e espaço, as “mudanças e permanências[3]” provocadas pela sociedade em transformação, particularmente intensificadas na expansão do modo de produção capitalista.
Junto ao conhecimento substantivo, o conhecimento sintático representa o processo desenvolvido pelo professor na transformação do conteúdo para ensinar aos estudantes, por intermédio da escolha de procedimentos e recursos didáticos, bem como as maneiras de abordar um tema ou conteúdo.
Diante das considerações, quando se toma o assunto campo e cidade, a partir dos currículos escolares vigentes durante a execução da pesquisa, observamos que a abordagem mais usual acontecia por via de diferenciação e contraste. De certa maneira, os currículos e livros didáticos contribuíam para essa percepção ao apresentarem o assunto de forma apartada e dissociada. No entanto, há professores que trabalhavam em uma perspectiva diferente, mostrando a relação dinâmica, contraditória e íntima entre o campo e a cidade.
Examinando os materiais de apoio curricular[4] do estado de São Paulo (2014), “Situações de aprendizagem 5 e 6”, do Caderno do Professor de Geografia, 2º. ano do ensino médio, volume, encontramos ocorrência semelhante ao currículo sul-mato-grossense, quanto à separação na abordagem de campo e cidade, conforme ilustrado no quadro 1:
Quadro 1 – Situações de aprendizagem do 2º ano do ensino médio
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Os circuitos da produção (I): o espaço industrial |
SITUAÇÃO DE APRENDIZAGEM 6: Os circuitos da produção (II): o espaço agropecuário |
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Conteúdos: industrialização; mercado consumidor; imigração; indústria de transformação; indústria extrativa; indústria da construção; industrialização retardatária ou tardia; concentração industrial; eixos de industrialização (São Paulo); desconcentração e descentralização industriais [...]. |
Conteúdos: latifúndio; unidade familiar produtora de mercadorias; unidade familiar de subsistência; empresa agropecuária capitalista; complexo agroindustrial; agribusiness; estrutura fundiária; subutilização da terra. |
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SITUAÇÃO DE APRENDIZAGEM 5 – Os circuitos da produção (I): o espaço industrial |
SITUAÇÃO DE APRENDIZAGEM 6: Os circuitos da produção (II): o espaço agropecuário |
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Competências e habilidades: identificar e compreender as fases de industrialização do Brasil; conceituar industrialização retardatária ou tardia, aplicando seu significado e consequências para o caso brasileiro; identificar a concentração industrial no Sudeste e os diferentes significados de descentralização e desconcentração industrial; visualizar a distribuição da atividade industrial no Estado de São Paulo por eixos de industrialização [...]. |
Competências e habilidades: ler e produzir textos contínuos (narrativas, textos expositivos e descritivos) sobre os circuitos da produção agropecuária no Brasil; relacionar o conceito de modernização conservadora com o desenvolvimento da produção agropecuária, associando-o à expropriação de trabalhadores rurais de suas terras; compreender a organização da produção na agricultura brasileira e as relações de trabalho; sistematizar informações e expressá-las oralmente sobre os impactos sociais e ambientais do agronegócio, a estrutura fundiária brasileira e a expansão da fronteira agrícola na Amazônia. |
Fonte: São Paulo (2014), organizado pelos autores (2019)
Se o direcionamento do material estivesse encaminhado para uma abordagem de relação campo-cidade, o rural e o urbano, como resultante da divisão social e territorial do trabalho, os diferentes processos econômicos, técnicos, sociais, políticos, históricos e culturais que abarcam tanto a cidade quanto o campo seriam considerados conjuntamente.
Saquet (2010), corroborando a ideia tratada até aqui, sobre a intrínseca relação entre o campo e a cidade, lembra que o rural não se define somente pela agricultura e nem o urbano pela indústria:
A partir do exposto, assinalamos o valor do trabalho docente para romper essa percepção, a fim de propiciar aos estudantes condições de compreender a realidade contemporânea, o espaço geográfico, com seus conceitos e categorias, incluindo aí a compreensão do par campo e cidade. O êxito em promover essa articulação se origina dos conhecimentos substantivo e sintático, ou seja, essas duas partes integrantes do Conhecimento do Conteúdo que favorecem ao professor ensinar o assunto.
No entanto, o ato de ensinar seguindo nessa direção se revela uma tarefa complexa e, para Castellar (1999), este é um dos desafios do ensino: saber escolher e organizar o trabalho docente, de modo que os conteúdos a serem trabalhados tenham significado para os alunos e possibilitem a construção do conhecimento.
Em continuidade, outro aspecto relevante no ensino do conteúdo sobre campo e cidade refere-se à percepção dos alunos. Os professores assinalaram que a percepção dos estudantes ao chegar à escola é, de certo modo, reduzida necessitando de intervenções para ampliar essa compreensão:
O movimento realizado pelo professor na interação com alunos manifestou as duas partes do Conhecimento do Conteúdo, sendo o conhecimento sintático da matéria de ensino e, até mesmo as dificuldades encontradas denotaram a relação dinâmica entre o conhecimento substantivo e o conhecimento sintático interagindo em sua mente. Ao analisar a compreensão dos alunos acerca do assunto e a abordagem de ensino, Gabriel demonstrou conhecimentos, reflexão e experiencia.
Dessa maneira, o professor completa:
Em outro ângulo, a professora Marisa de Castilho/SP, falou das características da cidade e entorno como influencia na maneira como os estudantes interpretam o campo e a cidade:
Na discussão sobre o campo brasileiro, a professora Daniela demonstrou conhecer o conteúdo, preocupando-se em ampliar o entendimento dos estudantes por meio de questionamentos sobre a desigualdade na distribuição das terras:
Nesse depoimento, percebemos a preocupação da professora em discutir o assunto sob um olhar geográfico, considerando a situação do espaço agrário brasileiro, marcado por desigualdades. Daniela destacou, ainda, que os alunos possuem determinados entendimentos e preconceitos gerados pela mídia que contribuem para distorcer a visão sobre as questões do campo, e isso demanda um trabalho a mais na abordagem do conteúdo. Porém, supomos nessa situação a existência de dois lados, um representa a dificuldade em romper esses “pré-conceitos” e o outro, de contribuição, quando os alunos relatam fatos do cotidiano relacionados com o assunto desenvolvido na aula.
O conjunto de situações, reflexões e encaminhamentos apresentados pelo professor leva-nos a concordar com Roldão (2007, p. 101), por afirmar que o ato de ensino comporta vários conhecimentos articulados pelo docente e este processo não acontece ao acaso, pois “[...] saber ensinar é ser especialista dessa complexa capacidade de mediar e transformar o saber conteudinal curricular [...]”.
Por fim, embora os professores não tenham identificado ou percebido, admitimos que o Conhecimento do Conteúdo está presente, formado pela união de estruturas substantivas e sintáticas, manifestadas no exercício de ensinar. Constatamos que, ao abordar o conteúdo campo e cidade, esse conhecimento revelou-se nas maneiras em que os professores conduziram os conteúdos geográficos, na seleção dos materiais de ensino que favoreciam a aprendizagem, no direcionamento de discussões em sala de aula buscando oferecer aos estudantes condições de desenvolvimento da leitura geográfica do espaço.
Este artigo se propôs, no âmbito da geografia, a refletir sobre a importância do Conhecimento do Conteúdo referente ao campo e cidade, segundo a proposta elaborada por Shulman (1986).
Resultante de parte das reflexões de nossa da pesquisa, constatamos que os professores participantes demonstraram um Conhecimento do Conteúdo, composto por duas estruturas, uma estrutura substantiva e outra sintática. Esse conhecimento representa o conjunto teórico-metodológico característico de uma área de conhecimento com seus conceitos, paradigmas de investigação e método.
Diante disso, ao buscarmos o Conhecimento do Conteúdo campo e cidade, notamos no professor de geografia a compreensão do assunto ao analisar os materiais de ensino, ao considerar as impressões dos estudantes sobre o tema, o empenho em superar perspectivas limitadas ou equivocadas a respeito do campo e da cidade, o encaminhamento de discussões em sala de aula, e, por procurar ir além do currículo previsto, oferecendo aos alunos uma perspectiva geográfica de integração e interdependência entre campo e cidade
Desse modo, mesmo que o profissional de geografia não saiba sobre a categoria Conhecimento do Conteúdo, com essas estruturas substantiva e sintática, ela se fez presente, pelo conhecimento do referencial teórico-metodológico da área, que lhe permitiram saber o conteúdo e escolher abordagens de ensino, conforme as características, percepções e a realidade dos alunos, procurando desenvolver a compreensão geográfica.
Este ensaio trouxe alguns pontos de reflexão e reconhece no Conhecimento do Conteúdo sobre campo e cidade, outros tópicos de discussão, como a divisão social e territorial do trabalho, resultantes de diferentes processos econômicos, técnicos, sociais, políticos, históricos e culturais que abarcam tanto a cidade quanto o campo. Ademais, pretende-se incluir em ensaios futuros, reflexões sobre procedimentos de ensino com base nos estudos mais contemporâneos da geografia crítica que enfatizam a intrínseca relação entre campo e cidade sob diferentes formas.
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1 – Valéria Rodrigues Pereira (Autor Correspondente)
Universidade Federal de Mato Grosso do Sul/UFMS, Doutora em Geografia
https://orcid.org/0000-0003-3101-6462 • valeriaufms@gmail.com
Contribuição: Conceituação, Análise formal, Investigação, Metodologia, Escrita - primeira redação, Escrita - revisão e edição
Universidade Estadual de Maringá/UEM, Doutor em Geografia
https://orcid.org/0000-0002-8479-5095 • claudivanlopes@gmail.com
Contribuição: Conceituação, Metodologia, Escrita - revisão
[1] Nos referimos à tese doutorado, desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Estadual de Maringá, no período de 2017 a 2020.
[2] No texto “Conhecimento e ensino: fundamentos para a nova reforma”, Shulman (2014) explica sete tipos de conhecimento, entre eles está o Conhecimento do Conteúdo.
[3] A discussão a respeito das mudanças e permanências que se materializam no espaço geográfico constam na obra de Milton Santos, entre elas “A Natureza do Espaço: técnica e tempo. razão e emoção”, de 2003.
[4] No estado de São Paulo, o Currículo de Geografia incluía outros materiais de apoio, entre eles, Caderno do Professor e Caderno do Aluno. A partir de 2019, para atender à nova Base Nacional Comum Curricular (BNCC) os materiais curriculares foram atualizados e passaram a denominar-se “Currículo Paulista”.