Universidade Federal de Santa Maria
Geografia, Ensino & Pesquisa, Santa Maria, v. 26, 18, 2022
DOI: 10.5902/2236499466821
Submissão: 23/08/2021 • Aprovação: 30/06/2022 • Publicação: 22/09/2022
SUMÁRIO
2 AS PRÁTICAS SOCIOESPACIAIS PARA A CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO DOS ESTUDANTES EM GEOGRAFIA
3 ESTUDO DE CASO: LEITURAS DAS PRÁTICAS SOCIOESPACIAIS DOS ESTUDANTES
4 DUQUE DE CAXIAS – CIDADE DAS PRÁTICAS SOCIOESPACIAIS DOS ESTUDANTES
5 AS PRÁTICAS SOCIOESPACIAIS DOS ESTUDANTES SOBRE A CONCEPÇÃO DA CIDADE DE DUQUE DE CAXIAS-RJ
Readings of socio-spatial practices of high school students about the city of Duque de Caxias-RJ
Ana Claudia Ramos SacramentoII
ISecretaria Municipal de Educação e Cultura de Magé, Rio de Janeiro, RJ, Brasil
IIUniversidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro RJ, Brasil
RESUMO
Palavras-chave: Prática socioespacial; Cidade; Geografia; Duque de Caxias
ABSTRACT
Keywords: Socio-spatial practice; City; Geography; Duque de Caxias
Cavalcanti (2012 e 2013), Rodríguez e Lache (2015) e Sacramento (2017) argumentam que na educação geográfica, o tema cidade possibilita aos alunos um pensamento crítico, buscando a construção da cidadania, do pensar seu lugar, seu espaço nacional, mundial e a luta entre classes. Pressupõe, também, captar o comportamento dos estudantes ante essa construção e vice-versa, como a relação dos gestores da cidade com a habitação, saúde, educação, lazer, estudo e trabalho.
A educação geográfica está relacionada aos conhecimentos geográficos que contribuem para o entendimento do mundo, bem como, dar o embasamento para agirmos na condição de sujeitos para além da sala de aula. Dessa forma, a necessidade de construir uma relação de ler e pensar a cidade como um fenômeno espacial vivenciado pelos estudantes potencializa o pensar geográfico a partir de elementos constituintes de uma dada porção do espaço.
Uma perspectiva para se trabalhar a cidade se dá a partir das práticas socioespaciais dos alunos. Corrêa (2000), Moreira (2017) e Lacoste (1988) demonstram que a sociedade constrói e organiza o espaço geográfico a partir das práticas espaciais, fornecendo significados diferentes à natureza e à apropriação de distintas técnicas para construir e organizar o espaço geográfico ao longo da história.
Podemos problematizar algumas questões que são importantes na construção do conhecimento geográfico dos estudantes: como pensar a leitura espacial dos estudantes sobre a cidade vivida? Quais são as práticas socioespaciais construídas pelos estudantes através de suas vivências? Como desenvolver uma análise socioespacial para pensar geograficamente esse espaço geográfico? Como potencializar esse conhecimento para ensinar Geografia?
Trabalhar a cidade articulada às práticas socioespaciais é ir além de um objeto disciplinar, como também, um meio de vivência pessoal e ensino, entendendo sua função, gênese, processo histórico em que foi produzida e estimular ações que visam a atuar nos espaços que a constitui. Pensar a construção do conhecimento geográfico a partir das dinâmicas das cidades corroboram para que os estudantes desenvolvam práticas socioespaciais diferenciadas, partindo da sua própria leitura de mundo.
Seguindo essas reflexões, explorar o contexto da cidade de Duque de Caxias, objeto empírico da pesquisa, é uma forma de inter-relação dos conteúdos e conceitos geográficos com as práticas socioespaciais dos alunos, a partir da organização do espaço, os elementos naturais, culturais e sociais. Eles passam a conhecer, de fato, a cidade em que vivem, apreendendo-a como um conjunto de locais produzidos, segundo diferentes agentes, projetos sociais e determinadas formas políticas de atuação.
O texto integra a dissertação de mestrado, defendida em 2019, com o título “As práticas socioespaciais de alunos do ensino médio do bairro Taquara - Duque de Caxias – RJ” pelo Programa de Pós-Graduação em Geografia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Assim, este estudo objetiva refletir sobre as leituras das práticas socioespaciais dos estudantes, a respeito da cidade de Duque de Caxias e seus impactos na vida cotidiana.
A metodologia da pesquisa do trabalho é o Estudo de Caso, que, segundo Yin (2001), permite estudar uma instância particular, como uma pessoa, uma instituição, um grupo social, demandando observação direta no campo, seguida de interpretação. Dessa forma, essa metodologia propicia o uso de variados instrumentos para pesquisa, a conhecer: levantamento bibliográfico, aplicação de questionário, oficinas com imagens, trabalho de campo, entrevistas, dentre outros. Para este texto, será usado o questionário como forma de conhecer alguns elementos das práticas socioespaciais de estudantes do Colégio Estadual Nova América, localizado no bairro Taquara, em Duque de Caxias-RJ, tendo como sujeitos de pesquisa duas turmas do terceiro ano do Ensino Médio (3001 e 3002), com participação de 25 alunos, sendo 15 da turma 3001 e 10 da turma 3002.
O texto está dividido em quatro momentos: a) o primeiro versa a respeito das práticas socioespaciais do ponto de vista conceitual; b) o segundo compreende a importância do estudo de caso como metodologia de pesquisa sobre as práticas socioespaciais dos estudantes da cidade de Duque de Caxias; c) o terceiro apresenta algumas considerações da produção social do espaço caxiense e d) o quarto analisa as práticas socioespaciais dos estudantes por meio de um questionário.
2 AS PRÁTICAS SOCIOESPACIAIS PARA A CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO DOS ESTUDANTES EM GEOGRAFIA
A cidade e a produção do espaço urbano são elementos importantes para a Geografia, pois envolvem inúmeras temáticas estudadas por esta ciência, tais como: as relações sociais e econômicas, a relação homem-natureza, as transformações da paisagem, dentre outros assuntos.
O atual contexto do espaço urbano capitalista é algo muito complexo, propiciando múltiplas funções e sentidos, onde diferentes grupos se apropriam da cidade de acordo com suas necessidades e interesses. Para os empresários, possui valor de troca, sendo visto como mercadoria e, para a maior parte da população tem valor de uso, seja para lazer, moradia ou cultura.
Lache (2011) destaca que a cidade é uma combinação de relações socioespaciais, por isso ela precisa ser um conteúdo a ser pensado e repensado pela escola, uma vez que traz uma multiplicidade de conceitos, bem como, de interpretações, as quais podem promover formas de conhecer a cidade pelos estudantes.
Em consequência da globalização, as práticas dos alunos e a sociedade em geral tornaram-se muito complexas, podendo os fenômenos econômicos, ambientais, sociais influenciarem o seu contexto local. Nessa perspectiva, é importante que o professor atualize, relacione e articule os conteúdos e os conceitos nas escalas de análises locais e globais, ou seja, conceber a totalidade dos fenômenos, a partir de uma relação parte/todo, permitindo aos alunos uma melhor leitura de mundo. Desta forma, para compreender as práticas socioespaciais dos estudantes foram organizadas um conjunto iniciais de perguntas para saber sobre suas percepções sobre a cidade, analisadas na dissertação de Leite (2019). Nos encontros com os estudantes além do questionário investigativo, oficina com uso de imagens sobre a cidade, construção de cartilha sobre elementos da cidade e o trabalho de campo no bairro. Compreender a forma como eles vivenciam e entendem a cidade possibilitaram o desenvolvimento de diferentes atividades didáticas. Isto corrobora com que Cavalcanti (2011) argumenta que:
Partindo desse entendimento, os alunos são o centro principal do processo de ensino e, se faz necessário atribuir significados aos conteúdos trabalhados, estimulando suas capacidades em analisar, interpretar e aplicar situações práticas para compreensão da sociedade contemporânea (CAVALCANTI, 2011, p. 37).
Diante das ideias apresentadas e buscando auxiliar os alunos na compreensão da sociedade atual, propõe-se aqui que a construção do conhecimento geográfico deve iniciar pelas leituras que eles fazem a partir de suas práticas socioespaciais, pois através delas que a sociedade se relaciona com seu meio e organiza suas vidas.
Acosta e Rivera (2019) destacam a necessidade de pensar a cidade a partir de uma leitura mais pedagógica para construir aprendizagens significativas pelo conhecimento dos estudantes, a fim de compreender suas diferentes maneiras de representação sobre cidades como conceito e fenômeno com múltiplos conteúdos e formas. Possibilitando, assim, um pensamento geográfico sobre a dimensão de analisar os espaços a partir dos sujeitos que os habilitam.
Destarte, algumas indagações são apresentadas: de que forma o homem constrói e organiza o espaço geográfico? Qual a importância das leituras espaciais dos alunos sobre o meio que vivem, ou seja, da cidade que moram para a educação geográfica?
Buscando responder aos primeiros questionamentos, destaca-se as contribuições de Lacoste (1988), que caracteriza as mudanças no espaço, em decorrência das práticas e representações espaciais. No início, a sociedade exercia suas práticas num pequeno número de conjunto espaciais de dimensões relativamente restritas e encaixadas umas nas outras e, em muitos casos, percorridos a pé, onde os indivíduos reconheciam seus pontos de referência com maior facilidade.
No contexto atual, em decorrência da divisão do trabalho, do crescimento das cidades, da evolução dos meios de transportes e informação, vive-se numa espacialidade diferencial, feita de uma multiplicidade de representações espaciais, de dimensões muito diversas. Com isso, não é possível entender o local numa perspectiva simples. É necessário que se ascenda um saber pensar o espaço, a partir da articulação do local com o global.
Assim, para Lacoste (1988) o que caracteriza as práticas espaciais é a localização e o reconhecimento de pontos de referência; deslocamentos e fenômenos que conformam um determinado conjunto espacial com configuração e limites próprios; conquistas e domínios de territórios; entrecruzamento de diferentes conjuntos espaciais; representação dos espaços em diferentes escalas.
A esse respeito, as representações espaciais têm sentido amplo de apropriação de mundo pelo pensamento, impregnado de significados geográficos, o que inclui percepções e imagens de muitas cidades e de diferentes ambientes do mundo, pontos de referências de diferentes lugares, criando uma consciência espacial, (COUTO, 2010).
Na visão de Corrêa (2000, p.35),
o espaço se estabelece em detrimento de um conjunto de práticas que tem por objetivo criar distintos projetos. As práticas socioespaciais resultam da consciência que o homem tem da diferenciação espacial, que está ancorada em padrões culturais de cada tipo de sociedade e nas possibilidades técnicas disponíveis de cada momento, fornecendo significados diferentes à natureza e à organização espacial.
Já para Moreira (2017), a prática socioespacial é definida como uma tríade localização-distribuição-arranjo espacial. O princípio da localização geográfica é seletividade, local onde a sociedade vai construir seu habitat. Logo, é por meio da escolha da localização que o homem elege a melhor possibilidade de fixação e organização espacial. A distribuição promove a forma de configuração dos lugares que melhor diversifica os elementos que estão localizados no espaço geográfico e o arranjo espacial é o veículo pelo qual os elementos estão localizados, distribuídos e organizados no espaço geográfico.
Por ora, a seletividade se depara com a unomultidiversidade do espaço. As diferenças hídricas, topográficas, do solo, da flora, estimulam o homem a expandir as possibilidades de vida social para além do princípio de seu primeiro habitat. Tal processo é provocado pelas técnicas, que modificam e reordenam a ocupação do espaço, sendo um instrumento da ação e interação. Por um lado, é o produto da ambientalização, enraizamento cultural e de outra mediação pela qual o homem em sociedade intervém nos dados naturais-locais para transformar a natureza e a própria sociedade (MOREIRA, 2017).
Verifica-se que para Moreira (2017), a continuidade das práticas socioespaciais destaca um conjunto de saberes mais eficientes e abrangentes que organizam as vidas das diferentes sociedades. O saber espacial vem da dinâmica da prática. Por isso, a criação de experimentações, sistematizações de experiências, comparações, abstrações, buscam pensar diferentes práticas para facilitar o modo de vida da sociedade.
Essa proposta de Moreira possibilita pensar aulas, a partir dos conhecimentos que os alunos trazem, em decorrência das suas práticas socioespaciais pela cidade, uma vez que as diferentes espacialidades na cidade permitem ao professor trabalhar com conceitos importantes na Geografia, tais como, território, paisagem, lugar e região.
Em consonância, é por meio de suas práticas socioespaciais que os alunos observam a localização das empresas e comércios em seus bairros, a ocupação humana em encostas, a construção de comunidades, entre outros problemas. Portanto, ao iniciar a aula analisando essas problematizações, o professor contemplará a realidade particular desses sujeitos, estimulando a curiosidade em conhecer mais acerca dos fenômenos que se encontram diariamente na sua relação com a cidade (COUTO, 2010).
Como um exemplo dessa prática, pode-se supor que na cidade de um aluno tenha ocorrido uma intensa precipitação e, próximo a sua residência, acontecido movimentos de massa. Assim, os estudantes visualizarão o fenômeno e darão diferentes motivos para o fato. No entanto, muitos não saberão explicar cientificamente as razões para tal.
Uma possibilidade para o professor é iniciar a explicação sobre movimentos de massa, partindo da situação vivida e dos seus saberes, referentes ao respectivo fenômeno. Primeiramente, seria importante o docente fazer algumas indagações, como: se o local era íngreme; se havia vegetação; se era ocupado por populações. Posteriormente, questionar o que eles fariam para evitar tal problema ou minimizá-lo.
Após as possíveis respostas dos alunos, o professor poderia apresentar alguns conteúdos/conceitos importantes e motivos que explicassem os movimentos de massa. Em seguida, pedir para os alunos sinalizarem quais desses conceitos argumentados caberiam para explicar o fenômeno ocorrido. Ao fazer esse movimento prática-teoria-prática, os estudantes seriam estimulados a pensar sobre sua realidade, com indagações e meios que viessem minimizar tais problemas. Com isso, o ensino de Geografia, desde o início, explicaria o sentido da dinâmica da natureza e a sua função social.
Em vista disso, a educação geográfica pode ir além da descrição da paisagem, da memorização, despertando o desenvolvimento da leitura, interpretação e análise por meio do raciocínio geográfico mais abrangente dos alunos. Lacoste (1988) define esse conceito como um modo de pensar o espaço, para nele intervir e se organizar. Um exemplo dado por esse autor foi o bombardeamento por soldados americanos nos diques do delta do Rio Vermelho na guerra do Vietnã, provocando os alagamentos da área. Nesse caso, o saber geográfico, foi utilizado às estratégias militares.
Na perspectiva da educação, o raciocínio geográfico tem como objetivo estimular nos alunos suas capacidades para compreensão dos processos que afetam o espaço, entendendo como e por que os objetos e fenômenos se encontram organizados em dado lugar (CAVALCANTI, 2013).
Nesse sentido, promover a percepção dos alunos de como, em suas práticas socioespaciais, o homem edifica o espaço. Ao pensar tal contribuição para o ensino, através dessas práticas, do seu movimento diário pela cidade, eles acumulam formas de pensar sobre um local, observando a dinâmica espacial do seu bairro, por exemplo, as áreas comerciais, os problemas urbanos e ambientais. Trazer essas questões para a sala de aula é uma forma de incentivar os estudantes a lutarem pelo direito à cidade, a um lugar mais democrático, já que este é vivenciado cotidianamente, apropriado e produzido por eles, inclusive, criando laços afetivos.
Ao iniciar o processo de ensino e aprendizagem, a partir desse procedimento metodológico, deseja-se que os alunos saibam fazer escolhas e compreendam o lugar em que vivem e estimulem novas formas de pensar e entender o espaço.
Mesmo que suas práticas e saberes socioespaciais sejam diferentes, a Geografia ali se encontra. É uma escolha do professor em buscar metodologias e instrumentos que auxiliem a compreensão dos conteúdos e dos conceitos, e consequentemente, a importância de aprender essa ciência para uma melhor leitura de mundo.
Estudar a cidade e o urbano articulado às práticas e os saberes socioespaciais dos alunos, emerge como uma alternativa metodológica para o ensino de Geografia, possibilitando relacionar os conteúdos e os conceitos geográficos com os fenômenos que podem fazer parte do dia a dia, como a pobreza, a violência, a segurança. Contrapõe-se, assim, ao discurso científico da Geografia, que perdura até hoje: o de transmitir cientificamente, impossibilitando a leitura e interpretação de mundo, como se argumenta (COUTO, 2010, 2017).
3 ESTUDO DE CASO: LEITURAS DAS PRÁTICAS SOCIOESPACIAIS DOS ESTUDANTES
A função do Estudo de Caso é a investigação, contribuindo para a análise dos fenômenos individuais, organizacionais, sociais e políticos, como afirma Yin (2001). Objetiva preservar as características holísticas e significativas dos eventos da vida real, visando a compreender fenômenos sociais complexos, tais como: os ciclos de vida individuais, os processos organizacionais e administrativos, as mudanças ocorridas em regiões urbanas, as relações internacionais e a maturação de alguns setores.
A particularidade significa o foco em uma situação, um programa, um fenômeno específico. O caso em si tem importância, seja pelo que revela sobre o fenômeno, seja pelo que representa, sendo adequado para investigar problemas práticos, questões que emergem do dia a dia. Na pesquisa, essa característica aparece na escolha dos alunos do terceiro ano como sujeitos, e o bairro da Taquara como área de estudo.
O Colégio Estadual Nova América, conhecido pela comunidade como CENA, foi fundado em 1965, completando em 2015, cinquenta anos de existência. Em seu quadro discente, nesse ano de 2019, estão matriculados, aproximadamente 550 alunos, funcionando em três turnos (manhã, tarde e noite), com doze turmas do Ensino Médio e seis do Ensino Fundamental II.
O público alvo da pesquisa foram duas turmas do terceiro ano do Ensino Médio (3001 e 3002) do Colégio Estadual Nova América, localizado no bairro supracitado. No dia da aplicação do questionário (28-03-2019), 25 alunos participaram da atividade, sendo 15 da turma 3001 e 10 da turma 3002.
A maior parte dos estudantes compreendida na faixa etária de 15 a 19 anos, com situação socioeconômica média e baixa, moradores, em sua maioria, no próprio bairro da Taquara e em locais próximos, como os bairros do Barro Branco e Jardim Rotsen, são bairros da área periférica de Caxias e as quais não possuem unidade estadual de ensino.
Nos dias que foram realizadas as visitas na escola, observou-se que ambas as turmas foram bastante comunicativas, tendo boa relação entre os colegas, datando a amizade desde a infância. Como a maior parte dos adolescentes, eles costumam usar o celular, ouvir músicas e dança.
Pensar nas práticas socioespaciais dos alunos do bairro Taquara em Duque de Caxias é uma maneira única e particular de estudo, sendo sujeitos e espaços com características que os diferenciam dos outros. Abordar as práticas socioespaciais para o Estudo de Caso se relaciona à análise da construção geográfica da sociedade e interpretação da sua organização por intermédio da compreensão da ação dos seus diferentes sujeitos, de suas práticas-saberes espaciais. Segundo Moreira (2017), é através das práticas que os saberes são adquiridos. Assim, os estudantes desenvolvem práticas únicas em seus espaços e as vivenciam a partir de seus olhares sobre as formas de se relacionar com os lugares.
Para fins da pesquisa, foram utilizados: levantamentos bibliográficos; entrevistas; aplicação de questionário; análise do questionário; uso de imagens; mapas e fotografias. Para este texto foi utilizado o questionário como elemento de compreensão sobre a prática socioespacial dos estudantes, a respeito de alguns pontos referentes às práticas socioespaciais sobre a cidade. Foram escolhidas cinco perguntas: 1 - “A cidade é muito mais que prédios, muros, asfaltos, é o local de circulação de pessoas, mercadorias e construção da história humana. A partir dessa frase e com base nos seus conhecimentos, o que entende sobre cidade?”. Esta pergunta tinha como objetivo compreender a concepção dos alunos sobre a construção da cidade. 2 - “O que mais te chama atenção quando caminha pela cidade? 3 - “Quais são as coisas positivas e negativas de sua cidade e do seu bairro?” 4 - “Se fosse prefeito, o que mudaria na cidade e no bairro?”.
4 DUQUE DE CAXIAS – CIDADE DAS PRÁTICAS SOCIOESPACIAIS DOS ESTUDANTES
Pensar a cidade de Duque de Caxias é entender seus processos e agentes constituintes do espaço geográfico. Desta maneira, é importante compreender a produção social do espaço caxiense para analisar as leituras das práticas socioespaciais dos estudantes moradores deste espaço.
A partir das leituras de Braz e Almeida (2010), que destacam que Duque de Caxias tem uma longa história desde o século XVI. Entretanto, para fins deste texto, serão analisadas a partir da década de 1940, focando as transformações da produção social do espaço caxiense, destacando sua emancipação em 1943.
A cidade recebeu investimentos maciços de capitais industriais em um curto espaço-tempo que foram importantes para a transformação do seu espaço geográfico. O processo de industrialização pode ser dividido em três períodos: o primeiro, com a instalação, em Xerém (1942), da Fábrica Nacional de Motores, período em que o mundo vivia sob a influência da Segunda Guerra Mundial. O segundo momento, com a inauguração da Companhia União Manufatora de Tecidos (1949), no bairro Centenário e, por último, com a consolidação da instalação da Refinaria Duque de Caxias (1961).
O momento de industrialização da cidade é contextualizado pelo período do regime fordista que datou simbolicamente de 1914 até a década de setenta. Dentre as características desse sistema, estava a política do Estado de Bem-Estar Social (Keynesianismo), que atuava principalmente nos países ditos desenvolvidos, por meio de garantias de serviços básicos, proteção ao trabalhador (salário mínimo), produção em massa, na expansão geográfica de transportes e comunicações, dentre outras menções.
Fazendo parte de um dos principais setores de investimentos do Plano de Metas, o presidente Juscelino Kubitschek inaugurou em Duque de Caxias, no ano de 1961, uma das primeiras e principais refinarias da Petrobrás, a REDUC (Refinaria Duque de Caxias). A criação da REDUC trouxe transformações espaciais importantes, especialmente em Campos Elíseos, distrito no qual se encontra a refinaria, formando-se naquela região um complexo industrial, com aproximadamente 128 indústrias ligadas, principalmente, ao setor petroquímico.
Nas décadas seguintes até os dias atuais, passaram a se destacar em Duque de Caxias atividades do setor de transporte e logístico, além do comércio, serviços de manutenção e reparação e administração pública. Observa-se que o setor de serviços é o mais expressivo, seguido da indústria.
Atualmente, Duque de Caxias (figura 1) é uma das mais populosas e importantes cidades do país. Segundo dados atuais divulgados em 2021, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população chegou a cerca de 929.449 mil habitantes distribuído em um território de 465 Km².
Figura 1 – Localização do município de Duque de Caxias dentro da região metropolitana do Rio de Janeiro, RJ
Fonte: Seabra (2016)
A localização da cidade no centro geográfico metropolitano e próximo às principais vias expressas, como a BR 040- Rio de Janeiro-Juiz de Fora, Avenida Brasil, Linha Vermelha e Rodovia Presidente Dutra, além do aeroporto internacional do Rio de Janeiro, são elementos fundamentais para o crescimento econômico de Duque de Caxias, nos últimos anos. Os fluxos (meios de transporte, comunicações, entre outros) tornam-se um ponto central para a acumulação do capital e organização espacial, facilitando, por exemplo, que os produtos sejam levados em grandes quantidades a mercados consumidores de forma mais rápida, barateando o preço final das mercadorias e expandindo a acumulação do capital.
O projeto do Arco Metropolitano foi criado pelo Estado com intuito econômico de adaptar o espaço para a reprodução do capital. A construção da estrada foi motivada também, por pressões dos grandes empresários, por estarem perdendo dinheiro com os intensos congestionamentos nas estradas do Estado. Com isso, há compressão, diminuição sócio-física das distâncias entre os diferentes lugares.
O contexto de migração para o município não é um fenômeno atual, ocorrendo mesmo antes de sua emancipação. Braz e Almeida (2010) destacam algumas das razões que propiciaram tal movimento migratório, como: o processo de saneamento básico pelo qual passou a região da Baixada Fluminense no início do século vinte, com o então governador Manoel de Matos Duarte Silva; a abertura da estrada Rio-Petrópolis (atual BR-040), em 1928, que valorizou o solo das áreas no entorno da estrada e, a presença de poucas atividades industriais, que estavam voltadas para pequenas empresas têxteis, de vidros, produtos químicos e farmacêuticos, aumentando o número de loteamentos na região. Esse fluxo populacional se intensificou ainda mais nos anos posteriores à década de quarenta, com a instalação das estatais: Fábrica Nacional de Motores em Xerém (1942) e a Refinaria Duque de Caxias (REDUC, 1961) em Campos Elíseos.
O movimento populacional não foi acompanhado de um planejamento urbano. Braz e Almeida (2010) explicam que Duque de Caxias passou por um processo de crescimento desordenado, assim como a maioria dos municípios brasileiros, onde loteamentos que viraram bairros, não contavam, e ainda não contam, com a presença de água, iluminação, calçamento e rede de esgoto.
A partir dessas pequenas considerações a respeito das condições socioespaciais da cidade, buscamos compreender algumas peculiaridades do objeto de estudo.
5 AS PRÁTICAS SOCIOESPACIAIS DOS ESTUDANTES SOBRE A CONCEPÇÃO DA CIDADE DE DUQUE DE CAXIAS-RJ
Rodrígues e Lanche (2015) comentam que a cidade é apreendida desde as análises das vivências sobre os seus moradores. Logo, professores e estudantes também têm leituras sobre a cidade, o bairro e outros espaços pela cidade, por ter vivenciado e interpretado subjetivamente essa dada porção do espaço geográfico. Sendo assim, diferentes relações contribuem para criar formas de apreender sobre a cidade.
Corrêa (2000), Moreira (2017), Lacoste (1988) e Couto (2010, 2017) argumentam que as práticas e os saberes socioespaciais são elementos que ajudam na construção do espaço geográfico. A história do homem se inicia a partir das práticas, da sua relação com o meio na busca pela sobrevivência. E, os saberes socioespaciais são adquiridos através da continuidade dessas práticas, pelas quais o homem através de experimentações e comparações tornam a relação com o meio mais eficaz.
Estudar a cidade e o urbano, a partir das práticas e saberes socioespaciais dos alunos, proporciona ir além da sua forma física-estrutura. Seria assimilar como eles se deslocam, vivem, produzem e a consomem, para, posteriormente, articular os conceitos e conteúdos geográficos, estimulando um olhar crítico sobre a realidade, (SACRAMENTO, 2017).
Seguindo essas ideias, a elaboração, aplicação e análise do questionário para o referido trabalho teve como objetivo entender as principais localizações das suas práticas socioespaciais, as percepções e dificuldades frente à cidade de Duque de Caxias e o bairro da Taquara. Para tal, as perguntas foram pensadas, a partir das fases e formas da prática espacial desenvolvidas por Moreira (2017), levando em consideração as perguntas relativas à cidade.
A pergunta 1 “A cidade é muito mais que prédios, muros, asfaltos, é o local de circulação de pessoas, mercadorias e construção da história humana. A partir dessa frase e com base nos seus conhecimentos, o que entende sobre cidade?” teve como objetivo compreender a concepção dos alunos sobre a construção da cidade.
Concernente a isso, essa pergunta alinha-se às duas primeiras ideias de fases e formas da prática espacial apresentada por Moreira (2017): a seletividade e a unodiversidade. Essas duas ideias estão alinhadas com a pergunta 1 que era uma forma de saber o que os estudantes entendiam sobre o conceito de cidade e suas transformações (seletividade e unodiversidade) com a realização da atividades. Desta maneira, trabalhando esses conceitos com e os demais destacando o município de Duque de Caxias e o bairro de Taquara.
Como visto anteriormente, o primeiro momento marca a eleição do local com que a sociedade inicia a montagem da sua construção geográfica, uma vez que é por meio da escolha da localização que o homem elege a melhor possibilidade de fixação e organiza as relações espaciais com que vai erguer seu habitat. Por outro lado, a diversidade natural do espaço estimula a construção de técnicas com o objetivo de intervir e adaptar o espaço às suas necessidades.
Ao ler as respostas, pode-se entender três concepções concomitantes. A primeira é a vinculação simultânea entre moradia e comércio, de acordo com nove estudantes. “Aluna A T.3001: “local de centro comercial e socialização e tem muitas pessoas”; Aluno B T.3001: “lugar onde tem comércio e é urbano”; Aluno F T.3002: “lugar de moradia, comércio e casas”; Aluno H T.3001: “é onde tem muito comércio, onde as pessoas moram, e possui muitas casas e fábricas”.
Perceber a cidade como moradia e comercialização é analisar os diferentes usos do espaço urbano. Assim, no atual contexto social, torna-se indispensável aos alunos entenderem que a cidade é vista principalmente como lócus da (re) produção do capital, produzida a partir de diferentes agentes, que ao final visam à obtenção de lucro. Outro ponto a se destacar, é a análise da organização interna da cidade, marcada não somente pelo comércio, mas também, por residências, áreas agrícolas e industriais (SOUZA, 2011).
O total de sete alunos interpretara como local de moradia. Aluno J T.3001: “lugar onde eu moro e tem muitas pessoas”, Aluno N T. 3002: “é onde moramos, vivemos nosso dia a dia, tem muitas pessoas”. Aluno O T. 3001: “onde eu moro”.
Ao compreender a cidade como o lugar onde moram e como concentração populacional, os sujeitos assemelham este conceito ao caráter quantitativo. Essa ideia, em primeiro momento, vai ao encontro do argumento de Carlos (2013), que dentre as características, revela a concentração populacional.
Por fim, cinco estudantes associaram à ideia de urbano e objetos. Aluno Q T.3001: “que ela é bem movimentada e não é rural”, Aluno R T.3001: “onde é urbano”; Aluno S T.3001: “é movimentado, com casas e prédios”; Aluno T T. 3001: “onde tem fábrica e casa, é urbano”; Aluno U T. 3002: ”onde é urbano, tem muitas casas, prédios, fábricas”.
Os alunos fizeram uma analogia do urbano aos objetos (casas, prédios, fábricas) que se encontram espacializados na cidade. Em conjunto com essas ideias, Souza (2011) aponta que não são as atividades primárias que determinam o rural, nem os setores secundários ou terciários que nomeiam o urbano, pois em ambos os casos pode haver a mistura dessas duas lógicas. Assim, é importante esclarecer que o que irá diferenciar uma sociedade urbana da rural é o modo de vida, e não os objetos, pois estes podem ser encontrados em ambos espaços. Como explica Lefebvre (2001), a cidade é um dado prático-sensível; o arquitetônico e o urbano nascem com a Revolução Industrial, sendo uma realidade social e morfologia sensível da cidade.
Registrou-se cinco estudantes que não responderam a questão. Algumas dificuldades apresentadas pelos alunos, principalmente, por aqueles que não responderam a questão, podem estar ligadas a alguns fatores, tais como: o não entendimento do conteúdo/conceito apresentado pelo professor regente ou de outros anos de estudo; a ausência de articulação entre o conhecimento científico e os saberes empíricos trazidos pelos estudantes através de suas práticas; a ausência de atividades didáticas mais lúdicas e dinâmicas que favoreçam ao melhor entendimento dos fenômenos geográficos ou mesmo, por não terem compreendido a pergunta.
Com a pergunta 2, “O que mais te chama atenção quando caminha pela cidade?”, houve a intenção de analisar a ideia de unodiversidade. Para ele (ele quem?), essa fase remete à diversidade natural do espaço (rios, montanhas, entre outros), provocando a existência de diferentes formas de apropriação e ocupação. Dessa forma, ao trazer essa questão para o contexto de Duque de Caxias, buscou-se verificar como os alunos percebem a relação da sociedade com a cidade.
Ao ler as respostas, verificou-se que nove estudantes apontaram o descuido com a cidade, principalmente, em relação às questões da poluição, lixos e más condições das ruas. “Aluno A T.3001: “o descuido com a cidade”; Aluno B T. 3001: “muita poluição sonora, abandono de alguns bairros”; Aluno D T. 3001: “poluição dos rios e do ar”; Aluno F T.3002: “descuido da cidade, com lixos nas ruas”; Aluno G T.3002: “descuido com as ruas, lixos e poluições”.
Levando em consideração as respostas dos alunos, evidencia-se que a apropriação natural em Duque de Caxias ocorre de forma irracional, gerando inúmeros impactos urbanos e ambientais. Pode-se afirmar que a referida cidade, assim como, a maior parte dos municípios brasileiros, sofre com problemas urbanos, ambientais e sociais, em consequência do processo de industrialização e a urbanização, que cresceram em um curto espaço-tempo, sem acompanhamento de um planejamento urbano (TENREIRO, 2015).
Dentre os principais problemas urbanos de Duque de Caxias está a poluição atmosférica, em especial, nas áreas mais dinâmicas e industrializadas da cidade, como o distrito de Campos Elíseos, onde está localizado o complexo petroquímico. Nesse contexto, a cidade foi uma das áreas mais poluídas do estado, principalmente, por ter um lixão (hoje, desativado) conhecido como Lixão de Jardim Gramacho. Até junho de 2012, era o maior aterro sanitário da América Latina, recebendo desde a sua criação (1978), sessenta a oitenta milhões de toneladas de lixo[1], gerando consequências ambientais para Duque de Caxias e parte da região metropolitana do Rio de Janeiro, como a degradação de manguezais, a contaminação do solo e do lençol freático.
Segundo Tenreiro (2015), mesmo depois de fechado, o entorno do lixão apresentava problemas que deveriam ser solucionados, a partir de políticas integradoras como, por exemplo, geração de trabalho e renda para os catadores da cidade.
Outros sete estudantes destacaram a falta de segurança: “Aluno I T. 3001: “andar com tranquilidade sem ser assaltado”; Aluno J T. 3001: “andar com tranquilidade”; Aluno K T. 3001: “andar sem ser assaltado”; Aluno N T.3002: “poder andar com tranquilidade sabendo que não há riscos de assaltos”.
A falta de segurança é outro problema crônico em Duque de Caxias. Segundo dados do Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro (ISP, 2019), a cidade apresenta elevados índices de homicídios, roubos de cargas e assaltos, impedindo o bem-estar da população e o direito de ir e vir. Outros sete estudantes da turma e três da turma 3002 não responderam.
Observa-se que a pergunta não era voltada para questões negativas ou positivas sobre a cidade, no entanto, as percepções foram ligadas aos aspectos negativos como, a violência e os problemas urbanos e ambientais (lixos, poluições e condições estruturais das ruas). As exemplificações de alguns problemas urbanos e ambientais de Duque de Caxias fazem parte das percepções dos alunos. Assim, o professor pode mediar um debate sobre essas problemáticas em sala de aula, a fim de compreendê-las e buscar alternativas para minimizá-las.
A pergunta 4 “Quais as coisas positivas e negativas de sua cidade e do seu bairro?” está ligada à ideia de unicidade, uma vez que constitui a unidade do símbolo cultural dos gêneros de vida e a unidade metabólica do trabalho. Do ponto de vista simbólico, pode ser entendida, a partir de diferentes aspectos da diversidade, por exemplo, a relação ambiental que o homem tem com a água. Pode, também, remeter aos significados que os sujeitos dão ao espaço.
Destarte, dez alunos associaram como positivo o sossego e calmaria da cidade: “Aluno A T.3001: “em relação a outros lugares, é uma cidade e um bairro tranquilo”, Aluno B T.3001: “positivo é um lugar tranquilo.”; Aluno E T: 3001: “lugar calmo”; Aluno G T:3002: ”o sossego”; Aluno H T.3002: “lugar calmo”; Aluno I T.3002: “é um lugar bem calmo.”
Como negativo, sete citaram principalmente os problemas ambientais (desmatamento e poluição) e a má conscientização dos moradores e dos órgãos públicos: “Aluno M. T. 3001: “negativo: Lixos nas ruas, falta de atendimento nos postos de saúde”; Aluno N T.3001: “negativo: não tem semáforo, poluição”, Aluno P T.3002: “falta de respeito dos moradores com o meio ambiente”; Aluno Q T.3002: “muito desmatamento, descaso da prefeitura com a natureza”; Aluno R T.3002: “desmatamento, poluição, trânsito”; Aluno S T.3002: “falta de asfalto e iluminação””.
Outros dois destacaram que os serviços estão longe de suas residências, precisando se locomover para outras localidades: “Aluno T T.3001: “mas também tem nada. Tudo que precisamos só tem no Rio”; Aluno U. T.3001: “Negativo: não tem nada, tudo que precisa tem que ir pra longe”.
A partir das respostas, pode-se notar que a parte negativa foi mais destacada. Dessa forma, analisando as questões 2 e 4, pode-se pensar que os problemas urbanos e ambientais foram os pontos mais destacados, sendo importante contextualizar essas temáticas junto aos estudantes. Apresentar alguns problemas urbanos potencializados pela ação humana, como alagamentos, é um meio de demonstrar como a ação inconsciente pode impactar na dinâmica da cidade.
É preciso, também, desconstruir as imagens negativas sobre Duque de Caxias e incentivar a identidade do cidadão caxiense, conhecendo seus aspectos positivos, tal qual um espaço de lazer, moradia, estudo e trabalho, e não somente de violência e pobreza. Muitas das vezes os ideários negativos são reforçados pelos meios de telecomunicações que apresentam a baixada fluminense, região onde está localizado o município, como uma área de violência e pobreza, desconsiderando os aspectos positivos.
A pergunta 5: “se você fosse prefeito, o que mudaria na cidade e no seu bairro?” integra a ideia de politização, onde o espaço político exprime e transcende a relação do território. As decisões políticas imprimem um espaço de contradições em diversos âmbitos, como na distribuição de escolas, hospitais, áreas de lazer e localização de empresas.
Analisando as respostas dadas a essa pergunta, oito alunos argumentaram o desejo por mais serviços (bancos, mercados, comércio): “Aluno A T.3001: “ampliaria o centro comercial”. Aluno B T.3001: “colocaria banco, hospitais, loteria, semáforo, algo que beneficiasse os que precisam”. Aluno D T.3001: “instalaria mercados, bancos, comércios” Aluno F T.3001; “construiria bancos, mercados, áreas de lazer”. Aluno G. T.3002: “traria mercados, lotéricas, bancos”. Aluno H T.3002: “buscaria trazer serviços, como comércio, bancos, mercados”.
A necessidade de infraestrutura (ruas, pontos de ônibus, áreas de lazer) foi citada por sete estudantes: “Aluno I T.3001: “a infraestrutura dos pontos, o policiamento das ruas”; Aluno J T.3001: “asfaltar as ruas, faria mais áreas de lazer e melhoraria as condições dos hospitais.”; Aluno K T. 3001: “Mmelhorar as ruas e áreas de lazer”; Aluno L T.3002: “asfaltaria as ruas. Colocaria mais áreas de lazer (praça), iluminação.”; Aluno M T.3002: “asfaltaria as ruas, colocaria calçadas””.
Outros três questionaram a oportunidade de empregos: “Aluno O T.3001: “ia dar emprego para as pessoas que precisam, e ia arrumar a Poliarme, colocaria mais segurança, bancos, etc.”; Aluno P T.3001: “daria mais emprego, pois com uma empresa multinacional aqui, contratam pessoas de fora”; Aluno Q T.3002: “daria prioridade de emprego aos moradores, e colocaria mais polícia”. Tivemos quatro estudantes de cada turma que não responderam.
A partir dos comentários realizados pelos alunos, pode-se perceber como as áreas de serviços e comércios no bairro carecem de investimentos, provocando o deslocamento para bairros vizinhos em busca de suprir suas necessidades. Partindo dessas colocações dos próprios alunos, seria interessante desenvolver um diálogo a respeito das desigualdades sociais na cidade, principalmente, a segregação socioespacial, destacando que alguns bairros recebem mais infraestruturas e serviços que outros.
No caso de Duque de Caxias, o bairro 25 de Agosto, onde reside uma população com alto poder de compra, tem os melhores serviços, como bancos, comércios, hospitais e escolas. Já o bairro da Taquara, é formado por um grupo de menor poder aquisitivo e por isso os serviços são mais escassos.
Dessa forma, os alunos poderão entender como a segregação nas cidades brasileiras está ligada, prioritariamente, à questão do poder aquisitivo e interesse político do Estado, favorecendo a região com a concentração de serviços, aos que detém os meios de produção e o maior poder de compra, e se ausentando nas demais localidades (SOUZA, 2011).
Pode-se notar que os agentes produtores do espaço urbano percebido pelos alunos foram restaurantes, residências e comércios. É importante destacar essas ideias, enfatizando que existem outros elementos importantes na construção do espaço, como o Estado, por exemplo, ao criar vias, ferrovias, dando isenções fiscais que atraem novas empresas. Outro agente importante é o mercado imobiliário, no caso da Taquara, que objetiva fixar os trabalhadores da Coca-Cola no bairro e valorizar o solo urbano, podendo atrair novos comércios e serviços para atender a demanda desses moradores.
Dentre os agentes responsáveis por produzir esses espaços, estão os detentores dos meios de produção - os empresários. Eles investem na instalação de empresas, passando a funcionar como “salvadoras do lugar”, dando aportes de emprego e modernidade, atraindo serviços particulares para a localidade ou em associação com o poder público. (SANTOS, 2012.)
Todavia, ao mesmo tempo em que há prosperidade, existem também mazelas, como os problemas ambientais e urbanos (crescimento da violência), exemplos presentes em Duque de Caxias. E, consequentemente, a produção do espaço, tendo a industrialização como indutor de alguns problemas relativos ao crescimento e à planificação, às questões referentes à cidade e ao desenvolvimento da realidade urbana (LEFEBVRE, 2001).
Pensar essas fases e formas das práticas socioespaciais atreladas à cidade e ao urbano de Duque de Caxias e o bairro da Taquara é entender como os alunos percebem esses arranjos espaciais e problematizá-los junto a eles. Permite, assim, refletir sobre as situações que passam em seu bairro e na sua cidade, a saber: os problemas urbanos e ambientais, sociais, fluxos e redes, dos aspectos físicos, suas paisagens, seus patrimônios históricos.
A complexidade da globalização provocou intensas modificações econômicas, sociais e ambientais. No campo da educação, essas transformações estão presentes, seja no uso tecnológico, no processo de ensino e aprendizagem, nas parcerias públicas e privadas, como a alocação de verbas, ou mesmo na reformulação curricular escolar, que aumenta a disparidade entre o ensino oferecido pelas redes públicas estaduais e municipais e as redes particulares.
Essas transformações são importantes para a afirmação e papel das Ciências Humanas, mas precisamente, da Geografia, como um instrumento de análise e leitura desses acontecimentos, problematizando como eles afetam a vida dos seus cidadãos, em destaque, os alunos brasileiros. Para tanto, ensinar e aprender Geografia deve ultrapassar o seu caráter tradicional da memorização, e articular os conhecimentos científicos da realidade social para a interpretação de mundo.
Afirma-se ao longo do trabalho, que uma das formas de aproximar a Geografia da realidade dos alunos ocorre através da observação das práticas socioespaciais pela cidade, pois é nela em que a maior parte da população vive e onde se realiza de forma mais complexa a produção e reprodução do capital.
Corrêa (2000), Lacoste (1988) e Moreira (2017) discutem que a construção do espaço geográfico se dá a partir das práticas espaciais. Com isso, as diferentes relações sociais ao longo do tempo criam distintas técnicas com objetivo de modificar e reordenar a ocupação do espaço.
Estudar a cidade e o urbano articulado às práticas socioespaciais dos alunos do bairro Taquara, em Duque de Caxias, emergiu como uma alternativa metodológica para o ensino de Geografia. Ao realizar suas práticas espaciais para escola, trabalho, lazer, eles acumulam imagens sobre a paisagem, o território, o comércio, os problemas urbanos e ambientais. A aplicação do questionário foi o passo inicial para conhecer as localidades, as percepções e suas ações. Como verificado, as reflexões dos estudantes tais como: transporte precário, falta de segurança, serviços públicos (saúde, segurança) de qualidade concentrados em parcela da cidade, entre outros.
Ao conhecer essas práticas, o professor pode criar sequências didáticas que facilitem a articulação dos saberes empíricos e científicos, trazendo o debate desses fenômenos geográficos para sua realidade diária, permitindo assim, a compreensão e as possíveis soluções para minimizar e melhorar a vida dos moradores.
Nessa perspectiva, o estudo da cidade e urbano nas práticas socioespaciais dos alunos, pode acender a discussão sobre o papel da cidadania e o direito à cidade. Um dos princípios básicos da educação geográfica é a formação de cidadãos críticos, que entende a organização espacial da cidade e os problemas que a cerca, se mobilizando por igualdade social, econômica e educacional.
Considerar as práticas socioespaciais na educação geográfica é uma forma de ultrapassar sua imagem atrelada à memorização e reprodução de conteúdos/conceitos. Traz para a realidade a compreensão da cidade em que vivemos, formando cidadãos críticos para a sociedade e, desenvolvendo capacidades para uma leitura de mundo emancipatória, ao saber analisar, interpretar, questionar e opinar sobre os fenômenos espaciais.
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1 – Edson José Diniz Leite
Licenciado em Geografia, Mestre em Geografia pela mesma instituição
https://orcid.org/0000-0001-7964-6098 • edsondinizgeo@gmail.com
Contribuição: Escrita – primeira redação | Metodologia | Obtenção de financiamento | Administração do projeto | Investigação
2 – Ana Claudia Ramos Sacramento (Autor Correspondente)
Vínculo institucional, titulação
https://orcid.org/0000-0002-3006-5310 • ana.sacramento@uerj.br
Contribuição: Escrita – revisão e edição | Metodologia | Obtenção de financiamento | Validação
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[1] No Lixão de Jardim Gramacho era despejado grande parte do lixo do estado do Rio de Janeiro. Tenreiro (2015) destaca que os impactos socioambientais foram intensos. Muitas pessoas viviam de catar o lixo no local. Famílias e bairros foram criados ao redor do lixão.