Universidade Federal de Santa Maria
Geografia, Ensino & Pesquisa, Santa Maria, v. 26, e9, 2022
DOI: 10.5902/2236499455381
Submissão: 29/06/2020 • Aprovação: 19/04/2022 • Publicação: 21/06/2022
3 RESGATE HISTÓRICO DE PARAÍSO DO SUL/RS: DA COLONIZAÇÃO A EMANCIPAÇÃO
4 O ESTUDO DA GEOGRAFIA CULTURAL EM SALA DE AULA: A CULTURA ALEMÃ
5 RECONHECENDO OS CÓDIGOS CULTURAIS NA PAISAGEM LOCAL.
Ensino e Geografia
IUniversidade Federal de Santa Maria, Departamento de Geociências, Santa Maria, RS, Brasil
RESUMO
Palavras-chave: Cultural; Ensino; Identidade; Lugar
ABSTRACT
Keywords: Cultured; Teaching; Identity; Place
A cultura tem papel fundamental para a formação de indivíduos crítico-reflexivos, pois está presente no cotidiano das civilizações. É a partir dela que podemos verificar as peculiaridades de cada região, os grupos étnicos que nela se fixaram, bem como as suas características e marcas materializadas na paisagem. Neste sentido, a partir das trocas entre os grupos sociais tem-se o desenvolvimento de distintas manifestações étnico-culturais.
Conforme Brum Neto (2007, p. 15), “a cultura surge como uma forma de interpretar a organização do espaço através das experiências de cada grupo, suas atitudes e valores [...]”. Portanto, estudar a cultura e como ela se manifesta, torna-se uma prática metodológica importante para o processo de ensino e aprendizagem de Geografia. A partir da compreensão dos conceitos relacionados a esta temática, conciliada com a percepção da importância das experiências individuais e coletivas, que os/as estudantes constroem seu pensamento crítico-reflexivo sobre o espaço e sobre as relações sociais que nele ocorrem, destacando as singularidades e/ou as particularidades locais.
Ressalta-se que a partir do conhecimento sobre os aspectos culturais circunscritos nas relações cotidianas, ligadas diretamente com as formas de perceber o mundo, se torna possível identificar o sentimento de pertencimento a um determinado lugar. Neste sentido, o espaço, conforme Callai (2004, p.01), pode ser entendido como “um espaço construído como resultado da vida das pessoas e dos grupos que nele vivem”. Ele também reproduz suas crenças e valores, onde ocorrem às relações de coexistência, a construção da afetividade e de significados compartilhados por todos os indivíduos que nele convivem (SANTOS, 2014).
Além do mais, a Geografia trabalhada em sala de aula deve promover a construção de conhecimentos relacionados com o cotidiano dos/das estudantes, buscando nas suas realidades a aproximação com o mundo. Entender o local para compreender o global, identificando em seu lugar de origem “as bases para o entendimento das relações que o cercam. Das materialidades das formas encontradas no espaço, mas também das relações sociais e culturais nele estabelecidas” (SLODKOWSKI, 2010, p.23).
Neste contexto, o presente trabalho buscou na Geografia Cultural os mecanismos necessários para a elaboração de uma prática educacional sobre os códigos culturais de Paraíso do Sul/RS. O qual teve como objetivo geral, verificar a contribuição cultural para o processo de ensino e aprendizagem em Geografia. Como objetivos específicos tem-se: (a) conhecer o processo de formação do município; (b) identificar os grupos étnicos que influenciaram a formação étnico-social e (c) reconhecer os códigos culturais presentes na paisagem local, buscando na vivência dos/das estudantes a compreensão dos elementos que norteiam essa temática.
A atividade proposta foi desenvolvida com os(as) educandos(as) da turma de 8º ano, da Escola Municipal de Ensino Fundamental Rodrigues Alves, localizada na área rural e distante a quatro quilômetros da sede municipal. A escolha da turma justificou-se pelo fato da mesma estar estudando as características sociais, econômicas, culturais e a diversidade populacional global e influência destes fenômenos para o local. Sendo que, este conteúdo programático possibilitou a proximidade com a temática deste trabalho. Além disso, proporcionou o resgate de suas vivências e percepções sobre os aspectos culturais da comunidade e a construção de novos conhecimentos, contribuindo para formação critico-reflexivo sobre o local no qual estão inseridos(as).
Na caracterização dos grupos étnicos que colonizaram o município, principalmente a etnia alemã, buscou-se identificar as formas de representação da cultura do cotidiano local. Ou seja, o seu significado, a sua construção, a interpretação das transformações da paisagem, as identidades sociais existentes no lugar, os costumes, bem como os símbolos encontrados nesta sociedade. Assim, as manifestações culturais podem ser analisadas e interpretadas sobre a ótica da Geografia Cultural e este conhecimento pode ser exercitado em sala de aula, possibilitando a sua compreensão.
Neste contexto, os códigos culturais como a gastronomia, a oralidade, a religião e a arquitetura presentes no cotidiano da comunidade foram investigados e trabalhados em sala de aula. Com a inserção desta temática no âmbito escolar, pretendeu-se contribuir para o processo de ensino e aprendizagem em Geografia, visando a construção da percepção dos(as) educandos(as) sobre as contribuições da cultura para formação de indivíduos sociais.
A unidade territorial foco de estudo desta pesquisa, município de Paraíso do Sul (Figura 1), possuía uma população total de 7.336 habitantes, distribuídos em uma área de 337, 842 km2, localizada no centro do estado do Rio Grande do Sul tem como posição geográfica as seguintes coordenadas: latitude 29º 39’ 50’’ sul e longitude 53° 12’ 00’’ oeste (IBGE, 2010). É caracterizado como um município jovem, tendo a legitimidade de sua emancipação em 12 de maio de 1988 pela lei estadual nº 8.622 (IBGE, 2011), quando deixou de ser distrito de Cachoeira do Sul.
Inicialmente o município era integrante da chamada Colônia Santo Ângelo, atual Agudo, ao qual também fazia parte Dona Francisca e Cachoeira do Sul (WERLANG, 1995). Caracteriza-se por apresentar colonização formada, quase que exclusivamente, por imigrantes germânicos, tendo sua base cultural, também, formada por este grupo étnico.
Figura 1 – Mapa de localização de Paraíso do Sul/RS
Fonte: IBGE (2014). Organizado pelas autoras (2020)
O caminho investigativo da pesquisa foi realizado em quatro etapas principais. A primeira preocupação esteve direcionada para o levantamento de informações por meio da pesquisa bibliográfica. A segunda etapa foi destinada para a pesquisa de campo, visando identificar, na paisagem local, a materialização dos códigos que caracterizaram a cultura do município. A terceira teve como preocupação a prática realizada em sala de aula, com o propósito de se trabalhar a cultura alemã e, assim, contribuir para a construção do conhecimento referente à cultura local e, por fim, a análise dos resultados para redação final do trabalho.
A pesquisa esteve ancorada no método fenomenológico. Assim, foram consideradas as vivências dos sujeitos, suas expressões e percepções de seu cotidiano. Buscou-se, também, descrever os fenômenos existentes na cultura local, retratando e expressando a realidade vivenciada. De acordo com Lencioni (2003, p. 152)
O espaço vivido percebido de diferentes maneiras pelos indivíduos e que representações no espaço ocorrem a partir desses indivíduos, a Geografia procura demonstrar para os estudos geográficos a importância de conhecer a mente dos homens para saber o modo como se comportam em relação ao espaço (LENCIONI, 2003, p. 152).
Para Merleau-Ponty (1999, p.01-02), a fenomenologia “é a tentativa de uma descrição direta de nossa experiência tal como ela é”. O autor também afirma que o sentido da fenomenologia está em nós mesmos, no mundo vivido e na relação espaço-tempo. Desta forma, a partir dos relatos e experiências dos(as) educandos(as) buscou-se verificar os elementos culturais presentes na paisagem daquele município. Além disso, através deste método, foi possível investigar e descrever a influência da cultura no cotidiano local.
Na elaboração do trabalho foram fundamentais as leituras realizadas no levantamento bibliográfico sobre os conceitos referentes à Geografia Cultural. Além dos autores(as) clássicos(as), pesquisou-se também, a contextualização desta temática com outros(as) autores(as), que, assim, proporcionaram o enriquecimento do embasamento teórico deste trabalho. Cabe ressaltar que este primeiro procedimento foi de fundamental relevância para a construção do conhecimento sobre cultura e os elementos atrelados a ela.
Do mesmo modo, para o entendimento sobre cultura, no processo de ensino e aprendizagem de Geografia e sua importância em ser trabalhada na escola, foi necessário a realização de leituras que contribuíssem para o desenvolvimento da fundamentação teórica e para a compreensão de como esta temática deve ser trabalhada. Esta etapa foi importante, pois auxiliou na preparação e desenvolvimento das atividades em sala de aula, proporcionando a construção do conhecimento sobre o município e a cultura local.
Paralelamente, realizou-se o resgate histórico e a caracterização de Paraíso do Sul, campo empírico do trabalho, para a descrição detalhada e conhecimento dos aspectos sobre sua formação política administrativa e sociocultural. Através do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do site da Prefeitura Municipal foi possível desenvolver o levantamento de dados referentes à caracterização da geografia local e informações referentes à sua colonização, formação e emancipação política. No acervo do Espaço Cultural Municipal, foram encontrados registros fotográficos e documentais sobre o processo de ocupação e colonização. Estas fontes foram essenciais para descrição, caracterização e apreensão da cultura local, possibilitando realizar o resgate histórico e cultural da área de estudo.
Posteriormente ao levantamento bibliográfico, o trabalho de campo foi realizado. Este visou a coleta de informações e reconhecimento dos códigos culturais presentes na paisagem, os quais remetiam a cultura alemã. O trabalho de campo foi necessário para elaboração do material a ser utilizado em sala de aula, levando aos educandos e educandas ferramentas necessárias para a construção de seus conhecimentos em relação aos conceitos concernentes à cultura, ou seja, o entendimento de como ocorreu o processo de colonização e as etnias que contribuíram para a formação da cultura local e, também, a reconhecer os códigos culturais materializados na paisagem.
Em relação a atividade proposta, esta foi desenvolvida com a turma de 8° ano da Escola Municipal de Ensino Fundamental Rodrigues Alves. A escolha da turma está atrelada as unidades temáticas e habilidades presentes na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), a qual propõe ao 8° ano, como unidade temática, o estudo do sujeito e seu lugar no mundo, com objeto de conhecimento referente a diversidade e dinâmica mundial e local. Para este objeto de conhecimento a habilidade trabalhada foi a (EF08GE02), que propõem relacionar fatos e situações representativas da história das famílias do Município em que se localiza a escola, considerando a diversidade e os fluxos migratórios da população mundial (BRASIL, 2017, p. 388-389).
Para a execução da atividade, os encontros com os/as estudantes foram realizados nas dependências da escola, em turno inverso ao das aulas, sendo realizados dois encontros semanais: nas terças e quintas feiras do mês de outubro. Inicialmente, foram realizadas rodas de conversa revisando o conceito de lugar e resgatando os saberes sobre o processo de colonização, emancipação e características geográficas de Paraíso do Sul/RS.
Abordou-se também, os conceitos de paisagem cultural, códigos culturais e identidade cultural, evidenciando-se como estes elementos influenciam e constroem as relações sociais e a afetividade com o lugar, bem como o sentimento de pertencer a um grupo social. A partir dos códigos culturais, analisou-se as ações humanas desencadeadas na paisagem local, sendo observada como ela é formada e transformada pela ação da sociedade.
Em um segundo momento, foi solicitado aos/as estudantes que investigassem junto a seus familiares sua origem étnica e registros que remetessem a cultura a qual se identificavam. Esses registros apontados em fotografias, histórias e relatos de seus antepassados permitiram compreender os costumes e as memórias afetivas atrelados a um passado não tão distante. As fotografias trazidas para sala de aula contribuíram para o entendimento dos aspectos culturais e sua importância para formação de uma sociedade, além do mais, foi de suma relevância para visualizarem a materialidade dos códigos culturais presentes em seu município.
Por fim, foi entregue um questionário semiestruturado, com perguntas abertas e fechadas, referentes a importância da cultura local no entendimento dos/das educandos/educandas. Este questionário foi aplicado com o intuito de verificar, a partir da percepção dos(as) mesmos(as), a cultura a qual identificavam como predominante no município, os códigos que remetessem a essa cultura, a existência ou não de algum dialeto, a influência da cultura no seu cotidiano e se praticavam hábitos e costumes transmitidos por seus avós ou pais e mães. Cabe destacar, que as respostas obtidas e transcritas neste trabalho são de suma relevância para compreensão da realidade vivenciada por cada sujeito, sendo assim estes não foram nomeados, a fim de preservar suas identidades.
Buscando compreender o papel da identidade cultural, bem como, dos códigos culturais para os/as estudantes e para comunidade, verificou-se a importância da cultura no município e, com isso, foi possível constatar a importância da etnia alemã na sociedade e a sua representatividade na comunidade local. A partir das informações obtidas ao longo da pesquisa, foram realizadas as interpretações e análises necessárias para a elaboração da redação final, proporcionando alcançar, de forma satisfatória, os objetivos propostos neste trabalho.
3 RESGATE HISTÓRICO DE PARAÍSO DO SUL/RS: DA COLONIZAÇÃO A EMANCIPAÇÃO
Emancipado em 12 de maio 1988, deixou de ser um distrito de Cachoeira do Sul e passou para categoria de unidade político-administrativa. Em seu processo de formação, a colonização germânica teve significativa contribuição, se fixando a este território a partir de meados 1860, com a chegada dos primeiros imigrantes trazidos pelo governo imperial para o país, onde ocorreu a ocupação e demarcação das terras do município (PHEIFER, 2008).
Anteriormente aos alemães, nesta região já viviam alguns luso-brasileiros, que possuíam lotes e se encontravam instalados com a finalidade de auxiliarem na demarcação dos lotes dos colonos alemães que estavam se fixando nas áreas destinadas aos imigrantes. Posteriormente, estes imigrantes foram deslocados para outros locais do futuro município, como por exemplo, a Linha Brasileira, cujo nome já definia as pessoas no entender dos alemães. Entretanto, alguns destes luso-brasileiros permaneceram no local e se desenvolveram, enquanto outros acabaram vendendo seus lotes para os próprios alemães e partiam para outras regiões (PHEIFER, 2008).
Os imigrantes de origem portuguesa, africana e indígena haviam chegado em Cachoeira do Sul no final do século XVII e início do século XVIII, e se instalaram neste local, quando ainda Paraíso do Sul era distrito deste município. Em 1857 começaram a chegar os primeiros imigrantes alemães, na localidade na época denominada de Colônia Santo Ângelo, onde atualmente está localizado um monumento em homenagem aos primeiros imigrantes (atual município de Agudo/RS) (WERLANG,1995).
Com a expansão da Colônia Santo Ângelo, na década de 1860, foi realizada a medição e povoamento de grande parte do atual município de Paraíso do Sul. A medição dos lotes era realizada pelo então nomeado diretor da colônia Santo Ângelo, Barão von Kahlden. Sendo a personalidade mais importante da história desta colônia, e ainda como administrador e político, tinha alto conceito junto aos colonos. Estabeleceram-se, então, os colonos alemães da região de Neustettin, Pomerânia Oriental, destacando a municipalidade de Ludow, atualmente essa região pertence à Polônia (WERLANG, 1995).
Parte das terras do chamado Rincão do Paraíso, na época, pertencia a Bento José de Moraes e o Rincão da Contenda. Ao português Antônio Candido Gomes da Silva, Comissário Geral em Cachoeira do Sul e sogro do Barão von Kahlden. Kahlden mediu os chamados “terrenos devolutos” (legalmente eram terras desocupadas pertencentes ao governo). [...] Quando da abertura da primeira picada que dava acesso a Paraíso, partindo de Agudo, passando pela Teutônia e atingindo o alto do morro denominado “Zitronenberg”, traduzido como cerro do Limão. Kahlden, ao avistar a beleza natural que se espraiava ao seu redor, exclamou: “Das ist wirklich ein Paradies”. A famosa frase em alemão significa: “Isto é um verdadeiro paraíso” (WERLANG, 1995, p.42).
O loteamento de terras, pelos imigrantes, ocorreu a partir da década de 1860. O local foi descrito, em alemão, como: “das wirklem aim paradies” - um verdadeiro paraíso (IBGE, 2011). Nesse mesmo local, em 1936, foi construído um monumento em homenagem aos colonizadores e nele está escrito a seguinte frase: “Zun andenken der deutschen einwnderer”. Traduzido para o português: “Para lembrança dos alemães que para cá se mudaram” (WERLANG, 1995). O monumento está localizado na atual Vila Paraíso, interior do município (Figura 2).
Figura 2 – Monumento ao Imigrante alemão em Paraíso do Sul/RS
Fonte: Acervo Espaço Cultural da Prefeitura Municipal de Paraíso do Sul/RS
Legenda: Retrata a homenagem realizada aos imigrantes alemães, na data de 25 de julho de 1977, junto ao monumento, localizado no interior do município
Destaca-se que a colonização mais expressiva e notória nesta região foi à alemã, mas o município também foi colonizado por imigrantes italianos que se instalaram posteriormente, por volta do ano de 1880.
Além dos alemães, vieram, a partir de 1880, os primeiros italianos a se estabelecerem nesta colônia, nas regiões campestre e serra. Na denominada “Estrada do Cortado”, hoje linha Campestre, São João (Paraíso) e Cortado (Cachoeira do Sul), foram localizadas famílias: Caprioli, Negri, Zafanello, Unfer, Fardin, Pavanatto, Biscaglia, Luchese, Pradella, Furlan, de Francechi, entre outros (WERLANG, 1995, p.43).
Paraíso do Sul, como outros municípios dessa região, entre eles Agudo e Cerro Branco, pertenciam ao município de Cachoeira do Sul, constituindo-se como distritos. A atual área era constituída por dois distritos de Cachoeira: Rincão da Porta, atual sede do município e Paraíso, que integrava o 8º Distrito de Cachoeira, este, atualmente, é uma localidade chamada de Vila Paraíso, distante 9 km da sede (PHEIFER, 2008) (Figura 3).
O decreto municipal nº 165, de 1º de dezembro de 1923, criou o 8º Distrito de Cachoeira, constituído dos núcleos coloniais de Cortado e Paraíso. Durante a ditadura do chamado Estado Novo, o nome de Paraíso foi substituído para Marupiara (palavra de origem indígena, que significa paraíso), conforme consta no Decreto-Lei Municipal nº 4, de 10/08/1940. A Lei municipal nº 785, de 07/11/1959, alterou o nome do distrito de Marupiara para Paraíso do Sul. Posteriormente, pela lei municipal nº 1017, de 03/12/1963, o distrito de Rincão da Porta foi desmembrado do território de Paraíso do Sul, com sede na vila, de mesmo nome. Assim, a área que procurou se emancipar já possuía uma trajetória conjunta, pois Rincão da Porta era integrante do distrito de Paraíso do Sul, atual Vila Paraíso, tornando-se distrito de Cachoeira somente em 1963 (PHEIFER, 2008).
Distrito criado com a denominação de Rincão da Porta, pela Lei Municipal n.º 1.017, de 03-12-1963, subordinado ao município de Cachoeira de Sul. Em divisão territorial datada de 01-01-1979, o distrito permanece no município de Cachoeira do Sul. Elevado à categoria de município com a denominação de Paraíso do Sul, pela Lei Estadual n.º 8.622, de 12-05-1988, desmembrado de Cachoeira do Sul. Sede no antigo distrito de Rincão da Porta do município de Cachoeira do Sul. Constituído do distrito sede. Instalado em 01-01-1989. Em divisão territorial datada de -1995, o município é constituído do distrito sede (IBGE, 2011).
Figura 3 – Distrito de Rincão da Porta
Fonte: Acervo Espaço Cultural da Prefeitura Municipal de Paraíso do Sul/RS
Legenda: Rincão da Porta no ano de 1948, atualmente sede do município de Paraíso do Sul
A busca por emancipação, era devido à falta de interesse de Cachoeira do Sul com seus distritos. Então a partir de 1985 o desejo de emancipação dos habitantes se intensificou e, assim, juntamente com o distrito de Rincão da Porta, foi formada uma comissão para início do processo emancipatório.
A partir do ano de 1985, intensificam-se nesta região a ideia de emancipação política em relação a Cachoeira do Sul, motivada pelo total desleixo desta prefeitura com os distritos. Toma força a ideia de emancipação que vem percorrendo todo Rio Grande do Sul neste momento. Os dois distritos se unem e formam comissão de emancipação, desencadeando o processo (PHEIFER, 2008, p.12).
O plebiscito foi marcado para o dia 20 de setembro de 1987, após encaminhamento de documentos para a Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, credenciando a Comissão de Emancipação. Com a devida autorização da justiça, em 24 de abril de 1988, aconteceu o plebiscito junto à população, o qual obteve 1860 votos a favor e 673 contra a emancipação (ATLAS ESCOLAR DE PARSOS DO SUL, 2019). É possível observar a seguir (Figura 4) o mapa original da área emancipada, a convocação para o plebiscito e o panfleto criado para o evento.
Figura 4 – Mapa da área de emancipação e panfleto do plebiscito
Fonte: Atlas Escolar de Paraíso do Sul/RS (2019); RODHE (2013)
É neste contexto que Paraíso do Sul se tornou município em 1988, após uma série de disputas, tanto no campo jurídico quanto no social, que levaram a um processo intenso de lutas pela obtenção de sua emancipação política. A consolidação do município ocorreu tanto por questões financeiras (de arrecadação) como sociais (de acesso aos meios de sobrevivência, de estradas, de escolaridade, enfim de todos os meios que propiciam o desenvolvimento econômico e social das pessoas) e, principalmente, pelo descaso com o modo que eram tratados pelo município do qual faziam parte, Cachoeira do Sul (PHEIFER, 2008). Estas foram as razões responsáveis para que os distritos de Rincão da Porta e Paraíso desejassem e lutassem pela emancipação, pois julgavam que estavam abandonados pela administração de Cacheira do Sul, uma vez que suas reivindicações não eram atendias.
4 O ESTUDO DA GEOGRAFIA CULTURAL EM SALA DE AULA: A CULTURA ALEMÃ
É na propagação dos costumes, das tradições, dos valores, da aprendizagem e dos ensinamentos que a cultura se perpetua, pois, é a partir das características transmitidas pela família ou pelo grupo social a qual se pertence, que o indivíduo (educando(a)) constrói suas relações e desenvolve funções, às quais proporciona manter e preservar as heranças culturais. Tudo aquilo que é produzido pelo ser humano é cultura, podendo ser visível ou não na paisagem, retratada na vida social, expressada através dos saberes e fazeres. Conforme Freire (1979, p. 30), a “cultura é a vida total de um povo, a herança social que o indivíduo adquire de seu grupo”.
Segundo Oliveira (2003, p. 135), “cada povo tem uma cultura própria. Cada sociedade elabora sua própria cultura e recebe a influência de outras. [...]. Desde que nasce o indivíduo ele é influenciado pelo meio social em que vive”. Assim, não há ser humano desprovido de cultura. Uma vez que a mesma está presente no cotidiano, percebida nos mais simples gestos e símbolos. De acordo com Severino (1994, p. 81), “Cultura é o conjunto dos objetos resultantes das atividades produtivas, sociais e simbólicas dos homens”.
Cosgrove (1998) afirma a importância da cultura como organizadora do espaço a partir de um sistema simbólico, responsável pela identificação desse grupo. São formas e funções repletas de significados, como verdadeiros legados culturais que testemunham a história dos lugares e representa o sistema cultural orientador dos arranjos espaciais.
Neste sentido, se faz necessário trabalhar, no ensino de Geografia, os aspectos culturais que envolvem um território, estado ou município. Entender seus significados, símbolos e as marcas deixadas de herança ao longo das gerações. A partir do entendimento de como cada grupo social se manifesta, através de sua cultura, é possível compreender as relações natureza-sociedade. Cada cultura se manifesta conforme seus valores e ideologias, construídas ao longo de sua formação e passadas de geração em geração.
Cabe salientar que a cultura, no processo educativo, está prevista na legislação. O artigo 26 da Lei 12796/2013, alterou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB 9394/96). Ela considera a cultura como necessária e obrigatória no processo educativo. Neste sentido, estudar a cultura em sala de aula é de fundamental importância para que os/as educandos/educandas possam conhecer as características dos diversos grupos sociais, possibilitando compreender como cada grupo se manifesta no espaço geográfico. Além disso, contribui para construir o respeito às diversidades e pluralidades étnicas existentes nos mais diversos lugares, conhecer a cultura de seu país, das regiões que o compõe, bem como, do município onde se encontra inserido.
Conhecer características fundamentais do Brasil nas dimensões sociais, materiais e culturais como meio para construir progressivamente a noção de identidade nacional e pessoal e o sentimento de pertinência ao país; conhecer e valorizar a pluralidade do patrimônio sociocultural brasileiro, bem como aspectos socioculturais de outros povos e nações, posicionando-se contra qualquer discriminação baseada em diferenças culturais, de classe social, de crenças, de sexo, de etnia ou de outras características individuais e sociais (BRASIL, 1998, p.7).
A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) também enfatiza a importância dos estudos culturais no ensino de Geografia. O documento destaca o papel essencial que a educação geográfica tem para formação do conceito de identidade, a qual pode ser expressa de diversas formas:
Na compreensão perceptiva da paisagem, que ganha significado a medida que, ao observá-la, nota-se a vivência dos indivíduos e da coletividade; nas relações com os lugares vividos; nos costumes que resgatam a nossa memória social; na identidade cultural; e na consciência que somos sujeitos da história, distintos uns dos outros e, por isso, convictos de nossas diferenças (BRASIL, 2017, p.359).
De acordo com Freire (1979, p. 61) “Nenhuma ação educativa pode prescindir de uma reflexão sobre o homem e de uma análise sobre suas condições culturais”. De encontro a esta visão freiriana, é necessário que a escola também deva estar comprometida com a formação cultural. Neste sentido, afirma Kramer (1998, p. 16) que “uma escola básica que se compromete com a cidadania e com a democracia precisa ter na formação cultural um de seus elementos básicos”.
Desta forma, a partir da cultura local, buscou-se oferecer subsídios para a reflexão de como a sociedade se estrutura, conforme suas crenças e valores, partindo da relação que os/as educandos/educandas estabelecem com o mundo a sua volta, para assim, promover a construção de uma educação libertadora, a qual contribua para formação de indivíduos crítico-reflexivos.
É necessário, também, que os/as docentes busquem metodologias que visem à integração e interação dos/das educandos/educandas, para instigar sua curiosidade e vontade de aprender, pois é a partir das trocas de saberes que ocorre a construção de novos, que, aliás, podem ser compartilhados além da sala de aula. Segundo Vygotsky (1987) e Freire (1996) os sujeitos constroem seu conhecimento à medida que interagem.
A interatividade, para Vygotsky (1987), é entendida como um processo de mediação entre sujeitos, numa construção de conhecimento compartilhado, sendo condição indispensável para a aprendizagem. De acordo com o autor, o diálogo, a cooperação e a informação são enriquecidos pela heterogeneidade do grupo, ampliando consequentemente, as capacidades individuais, uma vez que as funções mentais provêm das sociais.
Neste sentido, as atividades propostas aos/as educandos/educandas estiveram atreladas ao seu cotidiano, ao seu lugar, buscando em suas próprias vivências os mecanismos necessários para o entendimento dos aspectos culturais que envolvem as relações sociais.
Segundo Libâneo (2004, p. 61) é importante destacar que “é preciso considerar, que os alunos trazem para a escola e para as salas de aula um conjunto de significados, valores, crenças, modos de agir, resultante de aprendizagens informais, que muitos autores chamam de cultura paralela ou currículo extraescolar”.
Nesta perspectiva, ao se trabalhar com o lugar, se introduz elementos que permite instigá-los(as) a refletir sobre o ambiente a qual estão inseridos(as). Assim, com a temática sobre o município, seu lugar de pertencimento, procurou-se compartilhar informações as quais contribuíram para o entendimento do processo de formação e emancipação de Paraíso do Sul/RS. Foi realizado, também, um resgate histórico, político e cultural, proporcionando aos/as estudantes, o conhecimento sobre seu mundo vivido, bem como o compartilhamento e trocas de saberes e experiências.
Na discussão sobre o processo de formação do município, foi notório a curiosidade e envolvimento de todos(as), questionadores(as) e participativos(as), dispostos(as) a alimentar seu conhecimento. Falar de seu lugar foi necessário para poder identificar o sentimento de pertencimento, de perceber que este lugar é o que faz deles(as), indivíduos pertencentes a um grupo social, fazendo com que se sintam acolhidos(as). Assim, foi possível trazer para sala de aula informações importantes sobre os conceitos relacionados ao lugar, o qual pode ser definido, conforme Tuan (1983), como o espaço que se torna familiar às pessoas, que consiste no espaço vivido, da experiência e de seu pertencimento.
Para identificar a presença da identidade cultural e o sentimento de pertencimento, foi distribuído aos/as educandos/as um roteiro de entrevista. A análise demonstrou que eles(as) sentem-se inseridos no município. A maioria dos indivíduos residem na zona rural, com a perspectiva de permanecer neste local pelos laços afetivos e pelas atividades familiares, voltadas principalmente para a agricultura nas pequenas unidades produtivas.
A valorização do lugar foi exaltada, com destaque para as atividades simples do cotidiano, como o dialeto alemão falado e a comida típica preparada em suas casas, estas atividades inclusive, são percebidas como algo atrelada à cultura local. O que possibilitou a compreensão, por parte dos/das educandos/educandas, que a perpetuação das tradições e valores atribuídos aos aspectos culturais de um determinado lugar se dá a partir das relações construídas com o meio e pelas experiências compartilhadas e vividas.
Para que pudessem perceber, de forma mais efetiva, a importância da cultura e percebê-la no espaço através de suas marcas, foram trabalhados os códigos culturais, a partir de fotografias e recordações de suas memórias afetivas. Além das fotografias registradas durante o trabalho de campo, foi solicitado aos/as estudantes que trouxessem seus registros fotográficos para sala de aula (alguns destes podem ser observados na figura 5). Esta etapa da atividade permitiu que pudessem visualizar estas marcas, deixadas na paisagem pelos seus antepassados, registradas no estilo arquitetônico das residências.
Figura 5 – Registros da paisagem cultural
Fonte: Acervo pessoal dos/das estudantes. Organizado pelas autoras (2020)
Legenda: Retrata o estilo arquitetônico germânico presente em algumas casas do município de Paraíso do Sul-RS
As memórias afetivas foram um ponto primordial a ser debatido em sala de aula, pois, ao serem questionados(as) sobre seus costumes e tradições perceberam que a cultura está presente nas reproduções mais simples do cotidiano. As histórias contadas por seus familiares ainda permanecem vivas, sendo descritas como era a vida dos imigrantes que aqui chegaram, como produziam neste espaço, como eram as relações com este meio, como se adaptaram a uma nova língua e ao novo país, etc. Conforme os/as estudantes, a influência cultural está presente:
“Nas festas alemãs, no aprendizado com a fala e nas músicas”. (Educando(a) E).
“Influência dos meus pais e avós”. (Educanda(a) A).
“Na comida, nas festas, nas músicas alemãs e na cultura”. (Educando(a) F).
“Nas casas, nas festas, no monumento ao imigrante e na cultura”. (Educando(a) G).
A importância de estudar a cultura local é fortalecer a valorização dos costumes, do sentimento de estar inserido em uma comunidade, mesmo que a cultura predominante não represente toda população, mas que seja sentida e percebida. A exaltação do lugar é outro fator relevante para o entendimento da cultura. Desta forma, a partir das falas dos/das educandos/educandas, pôde-se verificar a importância atrelada à cultura local e ao seu lugar de pertencimento. Neste sentido, a seguir, enfatiza-se algumas respostas obtidas a partir da entrevista realizada:
“Estudando a cultura eu aprendo mais sobre meus antepassados. Conheço minha história, minha cultura”. (Educando(a) A).
“A cultura é importante para aprendermos sobre nós, nossos antepassados e para se resgatar valores”. (Educando(a) B).
“Aprender sobre nossas origens, saber de onde nós viemos”. (Educando(a) C).
“Para aprender mais sobre o nosso município” (Educando(a) D).
A etnia alemã tem destaque no município, representando mais de 70% de sua população, sendo composta por descendentes de teuto brasileiros. Cabe salientar que com o decorrer do tempo e a integração com novos grupos sociais, ocorreu uma ruptura e hibridização das culturas. Elas são entendidas a partir da assimilação de novos costumes em contato com outras etnias. Cita-se, por exemplo, o consumo do chimarrão e do churrasco, vinculado à cultura tradicionalista sul rio-grandense, mas que foi assimilada pelos imigrantes alemães.
Os hábitos e costumes ainda são vivenciados pela comunidade, o que foi muito bem evidenciado nas falas dos/das educandos/educandas, perceptível nas festividades e danças, na linguagem (dialeto), nos hábitos alimentares, na horta, no quintal, na arquitetura das casas, entre outros. Embora a transmissão destes valores tenha enfraquecido no decorrer do tempo, ainda permanecem como elementos importantes para formação étnico-cultural das novas gerações. Carregados de significados, permitem a compreensão das relações sociais.
Os/as educandos/educandas destacaram a cultura como sendo primordial para o conhecimento de seus antepassados e para valorizar os costumes e valores deixados pelos imigrantes alemães. Sabe-se que não são todos que se sentem pertencentes à cultura alemã, mas a vivenciam, pois, esta cultura é visível na paisagem local e nas relações estabelecidas no seu cotidiano.
Desta forma, ao se estudar e evidenciar a cultura local, em sala de aula, no ensino de Geografia, pôde-se diagnosticar a presença da identidade dos educandos sobre seu lugar de pertencimento, resgatando costumes que haviam sido esquecidos, e construir nas trocas de saberes, o conhecimento sobre a cultura alemã no município. Além de agregar elementos para a sua formação, a cultura promove os saberes sobre como as relações entre natureza-sociedade e interferem na organização do espaço, permitindo compreender as especificidades locais para analisar as distintas manifestações globais na contemporaneidade.
5 RECONHECENDO OS CÓDIGOS CULTURAIS NA PAISAGEM LOCAL
A imigração alemã para o Rio Grande do Sul teve início em 1824 e foi desencadeada, basicamente, em função de duas políticas implementadas no Brasil pelo Primeiro Império: a ocupação de territórios de fronteira, constantemente ameaçados por invasão dos países platinos no Sul do país e, também, pelo estímulo ao desenvolvimento de uma agricultura voltada para produção de gêneros alimentícios destinados ao abastecimento do mercado interno, em um sistema que deveria se basear em pequenas propriedades e na força de trabalho familiar (MAYER, 2003).
Com a presença dos imigrantes em terras sulinas, sua cultura foi fundamental para organização do espaço, o qual foi transformado a partir de valores e costumes dos colonizadores alemães. Além do dialeto, ainda presente nos municípios colonizados por imigrantes germânicos, trouxeram uma bagagem cultural de seu território, com suas tradições, costumes, folclore, profissões, bem como a educação, sendo que esses conhecimentos foram sendo transmitidos para as demais gerações (PRADE, 2003).
Os códigos culturais remetam aos símbolos encontrados na paisagem construídos pelos grupos étnicos. Cada grupo apresenta características próprias, estabelecendo relações com o meio a qual estão inseridos, deixando suas marcas e símbolos materializados na paisagem. Portanto, os imigrantes que se instalaram trouxeram consigo suas características, ainda visíveis e transmitidas aos seus descendentes, contribuindo para formação dos lugares por eles colonizados.
Uma cultura pode se manifestar na paisagem por meio dos códigos culturais que se configuram como um sistema de símbolos que permitem a visualização dessa cultura. Esses códigos possibilitam, também, a transmissão, das características culturais de determinado grupo através das gerações (BEZZI, 1996; CAETANO, 2012, p. 453-466).
Estes se apresentam de duas formas: os códigos materiais e imateriais. Conforme Caetano (2012, p.55) “considera-se que todo elemento cultural que permite sua visualização no espaço é um código cultural material e aquele que não possibilita tal visualização constitui-se em um código cultural imaterial”. Estes são representações do estilo de vida de cada sociedade, que produz e reproduz no espaço os símbolos que caracterizam sua passagem naquele local.
Os símbolos são reproduções das crenças, superstições, usos, costumes, língua, religião, que faz com que as pessoas, de determinado grupo étnico estabeleçam relações, criem modos de vida próprios, construam suas casas, seus jardins, suas estradas, suas lavouras, suas cidades, suas indústrias, enfim, o seu cotidiano. Sendo que a cultura é o resultado natural da interação entre a sociedade e a natureza e dos seres humanos com seus semelhantes, podendo ser compreendida como um processo de produção da própria existência humana. A cultura é o resultado de seu mundo, de acordo como o vivem, o percebem e o concebem (ROCHA; ALMEIDA, 2005).
Pode-se afirmar então, que Paraíso do Sul recebeu, como herança, a terra e os padrões culturais, mantendo a relação homem-meio, que tornou essa porção do território gaúcho tipicamente “germânica”. Essas marcas estão simbolizadas pela cultura e materializadas na paisagem local (BRUM NETO, 2007). Os códigos culturais herdados dos imigrantes ainda podem ser visualizados no município, como exemplos tem-se a arquitetura, a gastronomia, a religião, as festividades e o dialeto. Alguns destes códigos, materializados na paisagem, podem ser visualizados na imagem a seguir (Figura 6).
Figura 6 – Localização dos principais códigos de Paraíso do Sul/RS
Fonte: Acervo particular das autoras. Organizado pelas autoras (2020)
Legenda: Códigos culturais, que remetem a arquitetura ao estilo germânico, presentes na paisagem de Paraíso do Sul/RS
Para a caracterização dos códigos culturais observados na Figura 6 e presentes na paisagem, estes estão descritos a seguir, para uma melhor compreensão. O Pórtico localizado na entrada do município se caracteriza pelo estilo enxaimel (Fotografia 1). Ele foi construído após a emancipação de Paraíso do Sul pelo arquiteto Marçal Fernandes. Retrata um dos códigos marcantes da cultura alemã, ou seja, a arquitetura, com traços identificadores e singulares. Segundo Brum Neto (2007) o estilo enxaimel tornou-se um dos principais ícones da paisagem, podendo ser encontrado com facilidade nas regiões colonizadas pelos imigrantes alemães.
As residências com arquitetura germânica se encontram em todo município (Fotografias 4,5,6,7 e 8). Entretanto, elas predominam na zona rural onde ainda são preservadas. A arquitetura das casas representa as características trazidas com os imigrantes de seu país de origem. De acordo com Brum Neto (2007), o telhado pontiagudo reflete a arquitetura da Alemanha, entretanto, este tipo de telhado permaneceu nas construções alemães no estado gaúcho por apresentar um clima frio semelhante com o do seu país de origem. Apresentado precipitação de neve e formação de geada, este formato de telhado facilitaria o escoamento não deixando acumular neve no teto.
O Monumento ao Imigrante (Fotografia 2), como já mencionado anteriormente, é outra marca percebida na paisagem local. Construído no ano de 1936, tem sua inauguração em 25 de julho, com o objetivo de homenagear os imigrantes alemães chegados em setembro de 1863. A partir de sua inauguração, todos os anos no dia 25 de julho, dia do colono e motorista, é realizado uma celebração para homenageá-los.
A religião é outro código perceptível na formação da cultura local. Atrelada aos valores estabelecidos pela sociedade, tem como principal representação da religiosidade na paisagem cultural do município, a Igreja Evangélica Congregacional Luterana do Brasil, construída no ano de 1890 (Fotografia 9). Em seus cultos ainda é utilizado o dialeto alemão. Conforme Claval (1999, p.115) “partilhar as mesmas crenças religiosas ou metafísicas e participar dos mesmos ritos que reúnem crenças constituem cimentos muito sólidos [...]”.
O cemitério (Fotografia 3), localizado na zona rural do município, sendo uma propriedade particular pertencente as famílias que ali se encontram, famílias Kunde e Potter, também se constitui como outro monumento sacro para a cultura local. Ele foi construído para preservação e valorização da religiosidade, com o intuito de proteger os mortos, cultivando a relação da religião com a vida.
A gastronomia do município também tem presença marcante da culinária alemã, demostrando as heranças deixadas pelos imigrantes e perpassados para as demais gerações. O chutrute (repolho cozido), a linguiça, a cuca, o cless (espécie de massa cozida), a carne de porco e o chopp, são alguns alimentos atrelados à cultura alemã que ainda permanecem na alimentação da população local. De acordo com Franco (2004), a gastronomia é parte integrante da cultura de um povo, e as diferentes sociedades, em cada época da história, manifestam sua maneira de ser através dela.
Outro código cultural presente na comunidade é a utilização do dialeto alemão. Ele é, principalmente, falado entre as pessoas descendentes dos imigrantes e nas famílias com pessoas mais idosas, que apesar da hibridização cultural, ainda tentam transmitir às gerações a oralidade alemã. No comércio é perceptível sua importância, pois é necessária sempre uma pessoa que fale o dialeto para atender a comunidade através desta linguagem. O dialeto alemão também está presente nos cultos realizados na Igreja Congregacional Luterana do Brasil, como já mencionado, e que ocorre uma vez a cada mês. Cabe destacar que a linguagem, apesar da hibridização da cultura, em contato com outros grupos étnicos, e pela ruptura da transmissão, ainda é marca cultural do município.
Para que as marcas culturais de Paraíso do Sul fossem percebidas, o conteúdo de Geografia Cultural e seus principais conceitos norteadores foram trabalhados em sala de aula. Desta forma, os/as estudantes puderam compreender estes conceitos e discutir sobre essa temática. Pôde-se, então, caracterizar a cultura local, a partir dos códigos culturais presentes na paisagem e, assim, os(a)s educandos(as) puderam perceber sua importância para formação da sociedade na qual eles(as) estão inseridos(as).
Os códigos culturais, bem como as manifestações culturais, são passados de geração em geração como ensinamentos. Porém, estes não são fixos no tempo e no espaço, pois as formas e as funções podem mudar de acordo com a dinâmica cultural.
A ciência geográfica tem papel relevante para o entendimento da relação existente entre a natureza e a sociedade. Busca compreender como esta relação se configura, a partir da dinâmica espacial, transformada pela ação antrópica. Ao longo dos séculos e dos diversos paradigmas, a Geografia procura entender o meio e a interferência deste para o desenvolvimento da vida. Com o decorrer da evolução, tanto humana como geográfica, a cultura passou ter caráter essencial para a interpretação das relações estabelecidas no espaço.
Com um viés humanístico, a cultura passou a ser fundamental para formação social. Tornou-se um dos principais modeladores das relações existentes, a partir dos distintos grupos étnicos e suas marcas, seus costumes e tradições, contribuindo para a construção das mais variadas paisagens. O que imprime um olhar mais detalhado e analítico sobre as mais variadas formas de manifestações étnico-culturais.
Neste contexto, destaca-se que Paraíso do Sul, foco de estudo da pesquisa, apresenta códigos culturais que remetem a etnia alemã, estando materializadas em sua paisagem. Sua contribuição está evidenciada na gastronomia, no dialeto ainda presente na comunidade, no estilo arquitetônico de algumas residências, na religião, que se fazem presentes no cotidiano de sua população. Com mais de 70% de sua população descendente de imigrantes alemães, a transmissão da cultura ainda é significativa.
Enfatiza-se a importância de estudar o lugar e as características culturais que o envolve, pois é através do entendimento sobre a cultura que os indivíduos se tornam aptos para compreender as relações existentes em seu cotidiano. A cultura está atrelada a formação coletiva e individual da sociedade. É a partir dela que são estabelecidas as relações sociais com o meio a qual o indivíduo pertence. Ela contribui de forma significativa para a compreensão dos laços afetivos, dos vínculos construídos durante a vida com determinado lugar, onde o sentimento de pertencimento pode ser evidenciado.
Pode-se afirmar, então, que a cultura no processo de ensino aprendizagem em Geografia é essencial para levar os/as educandos/educandas a compreensão de como tudo está interligado. Entender que é partir da compreensão da cultura local que é possível compreender o espaço, partindo do local para o global. É na valorização da cultura que a comunidade se organiza, mantém relações, resgata os valores, as crenças e as ideologias as quais serão transmitidas para as futuras gerações.
Conhecer as diferentes formas de relações que os/as cercam, permite uma análise mais completa dos estudos que envolvem a ciência geográfica, a qual se preocupa com uma formação crítico-reflexiva, ancorada em uma educação libertadora que vise a autonomia dos/das educandos/educandas. Não somente em descrever os lugares e as paisagens que os rodeiam, mas também, que possibilite compreender as distintas realidades, respeitando a diversidade. Portanto, resgatar a temática cultural para o ensino e aprendizagem de Geografia, permite conhecer os grupos étnicos que contribuíram para formação e organização espacial, bem como, as marcas deixadas no cotidiano e no pensamento social da sociedade.
Ao propor esta atividade à turma do 8º ano da Escola Municipal de Ensino Fundamental Rodrigues Alves, buscou-se investigar e conhecer a cultura de Paraíso do Sul, priorizando o grupo étnico germânico, verificando sua relevância para formação cultural local, expressa a partir da identidade cultural e dos códigos presentes na paisagem. Também foi fundamental para percepção dos laços afetivos e de pertencimento construídos pelos/pelas educandos/educandas.
Desta forma, trabalhar o município mediado pela cultura, no ensino de Geografia, proporcionou a compreensão da importância da cultura para suas vidas e como ela influencia as relações estabelecidas no dia a dia, bem como entender os elementos que compõe a paisagem local.
Neste contexto, reforça-se a relevância da cultura para o processo de ensino e aprendizagem em Geografia, pois somente a partir do estudo do lugar pode-se diagnosticar o verdadeiro sentido de se pertencer a um grupo social, de se fazer parte e ser representado. Enfatiza-se, também, que a cultura permite a valorização e conhecimento dos povos que colonizaram e povoaram os lugares. Assim, a cultura permite entender a diversidade de códigos culturais que se manifestam no espaço, sendo parte fundamental para a compreensão da relação diferenciada da natureza e sociedade, responsável pelas particularidades e/ou singularidades locais/regionais.
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1 – Denise Lenise Machado (Autora Correspondente)
Mestra em Geografia pela Universidade Federal de Santa Maria
https://orcid.org/0000-0003-2457-2989 • denisegeomachado@gmail.com
Contribuições: Concepção, coleta de dados, referencial teórico, interpretação e
análise dos dados, escrita e revisão do texto
2 – Meri Lourdes Bezzi
Doutora em Geografia pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, Professora Titular pela UFSM
https://orcid.org/0000-0002-7130-3442 • meribezzi@yahoo.com.br
Contribuições: escrita e revisão do texto
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