Entre Algoritmos e Singularidades: A Plataformização do Trabalho Docente e a Simplificação do Atendimento Educacional Especializado no Instagram

Between Algorithms and Singularities: The Platformization of Teaching and the Simplification of Special Education Services on Instagram

Entre Algoritmos y Singularidades: La Plataformización del Trabajo Docente y la Simplificación del Atendimento Educacional Especializado en Instagram

Maura Jeisper Fernandes Vieira

Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre – RS, Brasil.

maurajeisper@gmail.com

 

Michelle Brugnera Cruz Cechin

Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre – RS, Brasil.

mibrugnera@gmail.com

 

Remerson Russel Martins

Universidade Federal Rural do Semi-Árido, Mossoró – RN, Brasil.

remerson@ufersa.edu.br

 

Cristianne Maria Famer Rocha

Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre – RS, Brasil.

cristianne.rocha@ufrgs.br

 

Recebido em 27 de abril de 2026

Aprovado em 05 de julho de 2026

Publicado em 16 de julho de 2026

 

RESUMO

Este artigo analisa a atuação de professores do Atendimento Educacional Especializado (AEE) na plataforma digital Instagram à luz do fenômeno contemporâneo da plataformização do trabalho docente. Diante desse cenário, a problemática central deste estudo consiste em compreender de que maneira a plataformização do trabalho docente, manifestada na atuação de professores do Atendimento Educacional Especializado no Instagram, tensiona as práticas pedagógicas e os processos de formação no campo da educação inclusiva. O objetivo do artigo é analisar a presença desses profissionais nessa plataforma digital, buscando identificar como os discursos, práticas e produtos pedagógicos ali divulgados dialogam — ou entram em conflito — com a natureza complexa do trabalho realizado no AEE. Parte-se da hipótese de que a crescente presença de educadores nas redes sociais representa uma reorganização discursiva das práticas educativas sob a lógica da visibilidade, simplificação e monetização do conhecimento. Ancorado em uma abordagem pós-crítica e na análise discursiva de Michel Foucault, o estudo mobiliza reflexões sobre economia digital, racionalidade neoliberal e subjetivação. Metodologicamente, utiliza a netnografia para observar práticas discursivas no Instagram em postagens que ofertam cursos, mentorias e materiais pedagógicos. Os resultados indicam que as dinâmicas das plataformas tendem a reorganizar o saber pedagógico segundo uma lógica de simplificação e circulação acelerada, oferecendo soluções rápidas para desafios complexos. Conclui-se que a tradução da experiência pedagógica em conteúdos comercializáveis pode ofuscar a potência do trabalho inclusivo, que reside na singularidade dos sujeitos e na invenção cotidiana de práticas.

Palavras-chave: Educação especial; Atendimento Educacional Especializado; Trabalho docente; Plataformização; Instagram.

 

ABSTRACT

This article analyzes the performance of Specialized Educational Service (SES) teachers on the digital platform Instagram, in light of the contemporary phenomenon of the platformization of teaching labor. Within this context, the central problem of this study consists of understanding how the platformization of teaching labor, manifested in the actions of Specialized Educational Service teachers on Instagram, tensions pedagogical practices and training processes in the field of inclusive education. The objective of the article is to analyze the presence of these professionals on this digital platform, seeking to identify how the pedagogical discourses, practices, and products disseminated there dialogue — or conflict — with the complex nature of the work carried out in the SES. It is hypothesized that the growing presence of educators on social networks represents a discursive reorganization of educational practices under the logic of visibility, simplification, and the monetization of knowledge. Anchored in a post-critical approach and in the discursive analysis of Michel Foucault, the study mobilizes reflections on the digital economy, neoliberal rationality, and subjectivation. Methodologically, it utilizes netnography to observe discursive practices on Instagram in posts offering courses, mentoring, and pedagogical materials. The results indicate that platform dynamics tend to reorganize pedagogical knowledge according to a logic of simplification and accelerated circulation, offering quick solutions to complex challenges. It is concluded that the translation of pedagogical experience into marketable content can overshadow the power of inclusive work, which resides in the singularity of the subjects and the daily invention of practices.

Keywords: Special education; Specialized Educational Service; Teaching labor; Platformization; Instagram.

 

RESUMEN

Este artículo analiza la actuación de los profesores del Atendimento Educacional Especializado (AEE) en la plataforma digital Instagram a la luz del fenómeno contemporáneo de la plataformización del trabajo docente. Ante este escenario, la problemática central de este estudio consiste en comprender de qué manera la plataformización del trabajo docente, manifestada en la actuación de profesores del Atendimento Educacional Especializado en Instagram, tensiona las prácticas pedagógicas y los procesos de formación en el campo de la educación inclusiva. El objetivo del artículo es analizar la presencia de estos profesionales en esta plataforma digital, buscando identificar cómo los discursos, prácticas y productos pedagógicos allí divulgados dialogan — o entran en conflicto — con la naturaleza compleja del trabajo realizado en el AEE. Se parte de la hipótesis de que la creciente presencia de educadores en las redes sociales representa una reorganización discursiva de las prácticas educativas bajo la lógica de la visibilidad, la simplificación y la monetización del conocimiento. Anclado en un enfoque poscrítico y en el análisis discursivo de Michel Foucault, el estudio moviliza reflexiones sobre la economía digital, la racionalidad neoliberal y la subjetivación. Metodológicamente, utiliza la netnografía para observar las prácticas discursivas en Instagram en publicaciones que ofrecen cursos, mentorías y materiales pedagógicos. Los resultados indican que las dinámicas de las plataformas tienden a reorganizar el saber pedagógico según una lógica de simplificación y circulación acelerada, ofreciendo soluciones rápidas para desafíos complejos. Se concluye que la traducción de la experiencia pedagógica en contenidos comercializables puede desdibujar la potencia del trabajo inclusivo, que reside en la singularidad de los sujetos y en la invención cotidiana de prácticas.

Palabras clave: Educación especial; Atendimento Educacional Especializado; Trabajo docente; Plataformización; Instagram.

 

Introdução

 

Nas últimas décadas, o avanço das plataformas digitais e a expansão da chamada economia do compartilhamento têm produzido transformações profundas nas formas contemporâneas de trabalho (Slee, 2017). Nesse momento, novas modalidades de organização laboral emergem a partir da mediação tecnológica, da circulação contínua de conteúdos e da gestão algorítmica das atividades produtivas (Abílio, Amorim, Grohmann, 2021). Ainda que tais dinâmicas tenham se consolidado inicialmente em determinados setores do mercado de serviços, sua lógica tem se expandido progressivamente, atravessando diferentes campos profissionais e reconfigurando práticas de trabalho historicamente estabilizadas (Abílio, 2020).

O campo educacional não permanece imune a essas transformações. Nos últimos anos, observa-se uma presença cada vez mais expressiva de professores em ambientes digitais, nos quais passam a atuar não apenas como educadores, mas também como criadores de conteúdo, produtores de cursos, comercializadores de materiais pedagógicos e influenciadores digitais em plataformas como o Instagram. Assim, práticas docentes que tradicionalmente se desenvolviam no interior das instituições escolares passam a circular em ambientes digitais, onde o conhecimento pedagógico se torna simultaneamente conteúdo, produto e experiência compartilhável.

Essa reconfiguração do trabalho docente ocorre paralelamente a outro processo significativo no campo educacional: o fortalecimento das políticas de inclusão escolar. No panorama brasileiro, marcos normativos como a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (Brasil, 2008) e as Diretrizes Operacionais para o Atendimento Educacional Especializado (Brasil, 2009) instituíram o Atendimento Educacional Especializado (AEE) como uma modalidade complementar ou suplementar ao ensino regular, destinada a assegurar o acesso, a participação e a aprendizagem de estudantes com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades.

A ampliação dessas políticas tem produzido um crescimento expressivo da presença desses estudantes nas escolas comuns e, consequentemente, uma crescente demanda por profissionais especializados na área da educação inclusiva. Esse movimento torna-se visível, por exemplo, nos dados do Censo Escolar 2023, segundo os quais as matrículas na educação especial chegaram a mais de 1,7 milhão (INEP, 2024).

É justamente nesse ponto de intersecção entre a expansão da educação inclusiva e a crescente plataformização da vida social que emergem novas questões para a formação e para a atuação do professor de AEE. A presença desses profissionais em plataformas digitais, especialmente no Instagram, suscita questionamentos relevantes sobre as formas contemporâneas de circulação do saber pedagógico, sobre as novas configurações do trabalho docente e sobre os efeitos dessas dinâmicas nas práticas educativas.

As plataformas digitais operam a partir de uma lógica própria, orientada pela visibilidade, pelo engajamento e pela produção constante de conteúdo. Tais características articulam-se a uma racionalidade neoliberal que incentiva o empreendedorismo individual, a autogestão e a monetização das experiências profissionais (Foucault, 2008; Dardot; Laval, 2016; Srnicek, 2016). Nesse contexto, professores passam a ocupar posições múltiplas e, muitas vezes, simultâneas: educadores, produtores de conteúdo e empreendedores de si mesmos, inserindo suas práticas pedagógicas em um ecossistema digital marcado pela circulação acelerada de informações e pela busca contínua por visibilidade.

Contudo, quando essa dinâmica é observada a partir do campo da educação inclusiva, emerge uma tensão importante. O trabalho desenvolvido no Atendimento Educacional Especializado não se configura como um campo técnico de aplicação rápida de métodos ou de replicação de estratégias pedagógicas padronizadas. Ao contrário, trata-se de um campo profundamente marcado pela singularidade das experiências educativas, pela imprevisibilidade dos processos de aprendizagem e pela multiplicidade de modos de existir e aprender que atravessam o cotidiano escolar.

Diante dessa conjuntura, a problemática central deste estudo consiste em compreender de que maneira a plataformização do trabalho docente, manifestada na atuação de professores do Atendimento Educacional Especializado no Instagram, tensiona as práticas pedagógicas e os processos de formação no campo da educação inclusiva. O objetivo do artigo é analisar a presença desses profissionais nessa plataforma digital, buscando identificar como os discursos, práticas e produtos pedagógicos ali divulgados dialogam — ou entram em conflito — com a natureza complexa do trabalho realizado no AEE.

Método

A presente investigação fundamenta-se em uma abordagem qualitativa de inspiração pós-crítica, ancorada na análise discursiva a partir das contribuições teóricas de Michel Foucault. No campo dos estudos educacionais, essa perspectiva desloca o foco da busca por verdades universais para a análise das condições históricas e discursivas que tornam determinados enunciados possíveis. Parte-se do pressuposto de que as verdades circulantes em determinado contexto social são sempre contingentes e historicamente situadas, sendo produzidas em meio a relações de saber e poder (Veiga-Neto, 2007). Tal perspectiva reconhece a inseparabilidade entre pesquisador e objeto de pesquisa, compreendendo o processo investigativo como uma prática situada que participa da própria produção do conhecimento que analisa.

A pesquisa mobiliza a noção foucaultiana de subjetivação, entendida como o conjunto de processos pelos quais os indivíduos são constituídos como sujeitos em determinadas formações discursivas. Conforme o próprio Foucault indicou, seu trabalho pode ser compreendido como uma investigação sobre os modos pelos quais os seres humanos se tornam sujeitos em nossa cultura (Castro, 2009). Mais especificamente, identificar como os discursos, práticas e produtos pedagógicos ali divulgados dialogam — ou entram em conflito — com a natureza complexa do trabalho realizado no AEE. Para a produção dos dados empíricos, a pesquisa recorreu à netnografia, metodologia qualitativa que se inspira nos princípios da etnografia para o estudo de práticas sociais mediadas por tecnologias digitais (Kozinets, 2010).

O percurso de constituição do arquivo iniciou-se com um escaneamento exploratório na plataforma Instagram, focado em perfis que abordassem a temática da inclusão sob o viés educacional, especificamente no âmbito do AEE. A partir desse mapeamento, estabeleceu-se um processo de afunilamento orientado por critérios de inclusão profissionais: perfis públicos, autodeclarados de professores de AEE e que operassem a plataforma como um dispositivo de trabalho para a oferta de cursos e materiais pedagógicos. Após esse refinamento inicial, um perfil específico foi selecionado para escrutínio detalhado. A opção por uma única unidade analítica justifica-se por sua configuração como um perfil paradigmático. Na tradição da pesquisa qualitativa, conforme proposto por Bent Flyvbjerg (2006), o caso paradigmático não visa a representatividade estatística, mas busca destacar protótipos que manifestam, de forma densa, as características fundamentais do fenômeno estudado. Assim, o perfil selecionado atua como um exemplo, conferindo visibilidade aos regimes de verdade da docência plataformizada de maneira mais profunda do que uma análise extensiva de múltiplos perfis permitiria.

A partir do escrutínio desse perfil, foram inicialmente capturadas trinta e quatro imagens e suas respectivas legendas, compondo o material empírico preliminar. Esse conjunto foi submetido a uma análise exploratória para identificar regularidades enunciativas e estratégias de apresentação profissional. Desse processo, delimitou-se o corpus final da pesquisa, composto por quatro postagens selecionadas por sua relevância e densidade discursiva. Para fins de organização analítica, estas postagens foram agrupadas em dois eixos temáticos principais: a formação de novos profissionais de AEE por meio da oferta de cursos e mentorias, e a comercialização de materiais didáticos voltados ao trabalho na área. Por tratar-se de análise de conteúdo de perfil profissional e público, o manuscrito preserva o anonimato da participante e utiliza os registros exclusivamente para fins de discussão acadêmica, seguindo a diretriz ética.

Resultados e Discussão

As transformações recentes no mundo do trabalho têm sido profundamente atravessadas pela expansão das tecnologias digitais e pela crescente centralidade das plataformas na organização das atividades econômicas e sociais. No campo educacional, esse processo tem contribuído para a reconfiguração do lócus tradicional do trabalho docente, deslocando parte das práticas profissionais dos espaços institucionais da escola para ambientes digitais plataformizados. Nesse sentido, professores passam a ampliar sua presença em redes sociais e plataformas digitais, nas quais atuam como produtores de conteúdo, ofertantes de cursos e, em alguns casos, como influenciadores educacionais.

O chamado trabalho de plataforma constitui uma modalidade contemporânea de organização laboral mediada por infraestruturas digitais que conectam produtores e consumidores de serviços por meio de sistemas algorítmicos de intermediação. Conforme discutem Abílio, Amorim e Grohmann (2021), as plataformas não funcionam apenas como ferramentas tecnológicas neutras, mas como dispositivos de gestão que organizam, monitoram e regulam as relações de trabalho. Nesse modelo, algoritmos passam a mediar a visibilidade dos conteúdos, a distribuição de oportunidades e a avaliação das performances profissionais (Grohmann, 2020).

Esse fenômeno tem sido descrito na literatura como plataformização do trabalho, conceito que designa o processo pelo qual atividades laborais passam a ser reorganizadas a partir da lógica operacional das plataformas digitais. Trata-se de uma reconfiguração das relações produtivas que desloca responsabilidades e riscos para os trabalhadores, ao mesmo tempo em que concentra o controle das infraestruturas tecnológicas e dos fluxos de valor nas grandes corporações digitais. Tal dinâmica está associada ao fenômeno da uberização do trabalho, caracterizado pela intensificação da precarização laboral, pela flexibilização das relações de emprego e pela ampliação da informalidade nas atividades profissionais mediadas por tecnologias digitais (Abílio, 2020).

No contexto brasileiro, a plataformização do trabalho encontra ressonância em um cenário historicamente marcado pela precarização das condições laborais em diferentes setores profissionais. No campo educacional, esse processo se articula a um longo histórico de desvalorização estrutural da profissão docente, agravado por políticas orientadas por princípios neoliberais que favorecem a flexibilização das relações de trabalho e a privatização de dimensões do sistema educacional (Brown, 2019; Dardot; Laval, 2016). Foucault (2008) e, posteriormente, Dardot e Laval (2016), ao caracterizar o neoliberalismo como racionalidade governamental, permite compreender como tais transformações ultrapassam o domínio econômico e passam a moldar práticas profissionais, formas de autogestão e modos de subjetivação.

Nessa perspectiva, plataformas digitais passam a se apresentar como espaços alternativos de atuação profissional. Redes sociais como o Instagram tornam-se ambientes nos quais professores criam perfis profissionais, compartilham conteúdos educacionais e oferecem cursos, mentorias, consultorias pedagógicas e materiais didáticos digitais. Assim, o trabalho docente passa a circular em um ecossistema digital no qual visibilidade, engajamento e monetização tornam-se elementos centrais da atividade profissional.

Criado em 2010 por Kevin Systrom e Mike Krieger, o Instagram consolidou-se como uma das plataformas digitais mais influentes do panorama contemporâneo. Atualmente, sob administração da Meta Platforms, a plataforma reúne mais de um bilhão de usuários ativos e desempenha papel significativo na circulação de tendências culturais, práticas de consumo e formas contemporâneas de sociabilidade digital (Instagram, 2024). Pesquisas recentes indicam que ela também tem assumido crescente relevância como espaço de trabalho informal no Brasil (Pinheiro-Machado et al., 2024).

Contudo, quando esse movimento é observado a partir do campo da educação inclusiva, emerge uma tensão fundamental. O trabalho desenvolvido no Atendimento Educacional Especializado não se organiza como um campo técnico de aplicação rápida de métodos ou de replicação de estratégias padronizadas. Ao contrário, trata-se de um campo profundamente marcado pela singularidade das experiências educativas, pela imprevisibilidade dos processos de aprendizagem e pela necessidade constante de invenção pedagógica diante da diversidade dos sujeitos. É nesse terreno de fricção entre a lógica algorítmica das plataformas e a complexidade da educação inclusiva que se inscreve a análise desenvolvida nas subseções seguintes.

Quando a inclusão vira conteúdo: professores de AEE no Instagram

 

Nas últimas décadas, o imperativo da inclusão tem se consolidado como um dos princípios orientadores das políticas educacionais contemporâneas. Por meio de legislações, diretrizes e programas institucionais, os sistemas de ensino passaram a ser convocados a reorganizar suas práticas em consonância com princípios democráticos que visam garantir o acesso, a permanência e a participação de todos os estudantes no espaço escolar. Nesse sentido, a inclusão ultrapassa os limites da escola e se afirma como um projeto social mais amplo, comprometido com a construção de uma sociedade capaz de reconhecer e acolher a diversidade humana (Guimarães; Sardagna, 2024).

A ampliação dessas políticas tem se refletido no crescimento expressivo das matrículas de estudantes com deficiência nas escolas comuns e, consequentemente, na expansão do Atendimento Educacional Especializado. De acordo com dados do Censo Escolar da Educação Básica de 2023, houve aumento nas matrículas da educação especial, alcançando mais de 1,7 milhão de estudantes (INEP, 2024). Parte desse crescimento relaciona-se diretamente ao aumento das matrículas de estudantes com Transtorno do Espectro Autista (TEA) nas escolas comuns do país (Tenente, 2024).

Esse aumento das matrículas tem produzido uma demanda por profissionais especializados no campo da educação inclusiva. Contudo, em paralelo à expansão desse campo profissional, observa-se também a emergência de novas formas de circulação do saber pedagógico mediadas pelas plataformas digitais. Posto isso, o crescimento da demanda por formação em AEE passa a ser interpretado, em alguns casos, como uma oportunidade de mercado. Professores passam a utilizar o Instagram para divulgar cursos, mentorias, consultorias e materiais pedagógicos voltados ao campo da inclusão.

Esse movimento, contudo, não pode ser compreendido apenas como uma transformação técnica nas formas de trabalho docente. Ele se insere em uma dinâmica mais ampla de espetacularização do saber nas plataformas digitais. A lógica da visibilidade algorítmica favorece discursos que prometem simplificação, rapidez e soluções acessíveis para problemas complexos. Assim, saberes pedagógicos passam a ser frequentemente condensados em fórmulas breves, títulos chamativos e promessas de resolução imediata.

No entanto, essa dinâmica levanta uma questão central quando observada a partir da natureza do trabalho desenvolvido no Atendimento Educacional Especializado. O AEE não se constitui como um campo técnico de aplicação rápida de métodos ou estratégias replicáveis. Trata-se de um campo pedagógico profundamente marcado pela complexidade das relações humanas, pela singularidade dos sujeitos e pela imprevisibilidade dos processos de aprendizagem.

Nesse sentido, o trabalho desenvolvido nesse espaço aproxima-se mais de uma prática artesanal do que de um modelo técnico de produção pedagógica. Cada estudante exige interpretações, deslocamentos e invenções que não podem ser antecipadas por protocolos rígidos ou pacotes pedagógicos padronizados. O encontro educativo, nesse caso, constitui-se como experiência, aquilo que, nas palavras de Larrosa (2018), nos passa, nos acontece e nos toca. Essa dimensão relacional e imprevisível do trabalho pedagógico torna particularmente problemática a tentativa de traduzir o campo da educação inclusiva em fórmulas simplificadas de ensino.

Formar no feed: cursos e mentorias na economia da simplificação pedagógica

 

A formação de professores para atuação no Atendimento Educacional Especializado constitui um elemento central para a consolidação das políticas de educação inclusiva. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional estabelece, em seu artigo 59, inciso III, a necessidade de professores especializados para o atendimento educacional especializado, bem como a formação de docentes do ensino regular para atuar com estudantes com deficiência (Brasil, 1996). Em consonância com essa perspectiva, a Resolução CNE/CEB nº 4/2009 reafirma a exigência de formação inicial para a docência associada a uma formação específica em Educação Especial para atuação no AEE (Brasil, 2009).

Entretanto, pesquisas indicam que as condições institucionais para a realização dessa formação nem sempre são plenamente garantidas. Silva, Tartuci e Deus (2015) apontam que, embora a legislação estabeleça a necessidade de formação especializada, os investimentos públicos destinados à qualificação docente muitas vezes se mostram insuficientes. Inseridos nessa condição, muitos professores acabam buscando alternativas de formação por iniciativa própria, recorrendo a cursos presenciais, especializações lato sensu e programas de educação a distância oferecidos por universidades e instituições privadas. Na esteira da proposta de Lifelong Learning, isto é, da aprendizagem ao longo da vida, multiplicam-se também formações rápidas, cursos e mentorias ofertados no Instagram (Noguera-Ramírez, 2009).

Figura 1: Exemplo de formação ofertada no Instagram.

Fonte: Captura de tela do Instagram (2025).

Sob a ótica de Foucault (2016), as palavras e as coisas não mantêm uma relação de neutralidade; as enunciações são práticas que sistematicamente formam os objetos de que falam. Ao nomear uma formação como “Descomplicando o AEE”, o discurso pedagógico é capturado pela lógica da plataformização (Grohmann, 2020), que exige que o conhecimento seja fragmentado, acelerado e, sobretudo, palatável. Este gesto discursivo reorganiza simbolicamente o campo da Educação Especial, operando um processo de invisibilização da densidade teórica e metodológica que fundamenta a área, em favor de uma suposta tecnicidade resolutiva.

A problemática que emerge dessa formulação é de ordem ontológica: como seria possível "descomplicar" um campo cuja vitalidade repousa, precisamente, na complexidade? O trabalho no AEE exige o que Larrosa (2018) identifica como uma artesania pedagógica, envolvendo a articulação entre dimensões clínicas, sociais, institucionais e, fundamentalmente, a alteridade. Ao prometer a simplificação, o anúncio flerta com o que Morozov (2018) denomina solucionismo tecnológico, transposto aqui para o campo educacional. Trata-se da crença de que os impasses estruturais da inclusão escolar — que são políticos, éticos e subjetivos — poderiam ser mitigados ou resolvidos mediante a aquisição de um "kit de ferramentas" ou de uma formação de consumo rápido.

Portanto, a promessa de “descomplicar” o AEE ilustra uma tensão inerente à racionalidade neoliberal contemporânea: a transformação do saber docente em um produto de prateleira. Esse movimento não apenas desqualifica a formação continuada rigorosa, como também produz um modo de subjetivação docente que busca na plataforma a resposta para a angústia do encontro com o sujeito da diferença. No entanto, quando essas fórmulas de "passo a passo" confrontam a realidade concreta do chão da escola, evidenciam sua fragilidade, pois a potência do AEE não reside na simplificação do outro, mas na capacidade de sustentar e inventar caminhos diante da complexidade do humano.

A pedagogia empacotada: materiais e soluções para o AEE digital

Outro modo recorrente de monetização do trabalho docente nas plataformas digitais ocorre por meio da comercialização de materiais pedagógicos, instrumentos de organização e documentos voltados especificamente à prática do AEE Esse nicho de mercado abrange desde recursos didáticos para uso em Salas de Recursos Multifuncionais (SRM) até os denominados planners, modelos de relatórios, formulários e guias estruturados para a gestão das múltiplas tarefas que compõem o cotidiano profissional. Sob a lógica da racionalidade neoliberal, tais produtos são apresentados como ferramentas de otimização da performance docente, prometendo uma "organização eficaz" diante da intensificação do trabalho administrativo no AEE.

Figura 2: Planner para organização do trabalho no AEE.

Fonte: Captura de tela do Instagram (2025).

A operacionalização do Atendimento Educacional Especializado (AEE) compreende um denso conjunto de atividades que exige planejamento rigoroso, registro minucioso e acompanhamento sistemático. Para assegurar a efetividade do serviço, o professor especializado deve articular cronogramas de atendimento, gerir a logística dos espaços e recursos das SRMs, estabelecer critérios de avaliação e documentar as múltiplas dimensões do processo educativo (BRASIL, 2009). Nessa circunstância, atravessado por uma crescente exigência de prestação de contas e monitoramento, instrumentos organizacionais parecem oferecer um suporte necessário ao manejo das atribuições administrativas e pedagógicas que saturam o cotidiano escolar.

Entretanto, quando esses instrumentos de gestão são deslocados para a vitrine das redes sociais, observa-se uma mutação em sua natureza enunciativa. O que originalmente se configuraria como um recurso auxiliar de organização passa a ser publicizado como uma "solução definitiva", prometendo sanar, com rapidez e eficiência técnica, a complexidade inerente ao trabalho na educação inclusiva. Esse fenômeno caracteriza o que Morozov (2018) denomina solucionismo tecnológico: a inclinação para reduzir dilemas sociais, éticos e pedagógicos profundos a problemas de ordem puramente técnica, passíveis de resolução por meio de ferramentas ou dispositivos de consumo. No contexto do Instagram, os solucionismos pedagógicos operam ao sugerir que a aquisição de um kit de formulários ou de um planner padronizado poderia substituir o exercício reflexivo e a invenção cotidiana exigidos pelo encontro com a singularidade do estudante com deficiência.

Figura 3: Atribuições burocráticas da professora de AEE.

Fonte: Captura de tela do Instagram (2025).

A metáfora do iceberg, apresentada na Figura 3, ilustra a densidade organizacional e a invisibilidade de grande parte das atribuições que constituem o trabalho no AEE. A análise da imagem permite desdobrar algumas reflexões. A parte visível do iceberg, frequentemente reduzida ao senso comum como o momento em que a professora apenas "brinca com os alunos", corresponde, na realidade, à ponta de uma complexa estrutura de interação pedagógica. Abaixo da superfície, mostra-se a extensão do trabalho docente: um acúmulo de funções que exige o manejo de entrevistas com famílias, a elaboração minuciosa de estudos de caso, a observação e registro constante, além da confecção do Plano de Desenvolvimento Individual (PDI) e do Plano de Atendimento Educacional Especializado (PAEE).

Essas atividades evidenciam que o fazer pedagógico na educação inclusiva é indissociável de uma pesada carga de gestão burocrática e organizacional. É precisamente essa "profundidade" do iceberg que se apresenta composta por tarefas que consomem tempo e exigem alto rigor técnico ajuda a explicar por que a promessa de "manter os registros em dia" ou de oferecer "modelos prontos" se torna um argumento de venda tão potente nas plataformas digitais. O marketing da simplificação atua sobre a sobrecarga real do professor, oferecendo o alívio imediato para a parte submersa do trabalho, mas, ao fazê-lo, corre o risco de reduzir a artesania da inclusão a um mero preenchimento de formulários padronizados.

Figura 4: E-book que promete “desburocratizar” o AEE.

Fonte: Captura de tela do Instagram (2025).

A análise da Figura 4, apresentada acima, aprofunda a compreensão sobre a comodificação do saber pedagógico ao exibir a publicidade de um e-book que promete “descomplicar” legislações, processos e burocracias intrínsecas ao AEE. Essa promessa de celeridade e facilitação dialoga diretamente com uma angústia estrutural de docentes que atuam na educação inclusiva: a sobrecarga administrativa derivada da produção compulsória de registros e documentos institucionais.

Embora a elaboração de relatórios, PDIs e registros de acompanhamento constitua uma dimensão vital para a garantia de direitos e para a memória pedagógica, sua proliferação desenfreada levanta um questionamento crítico sobre em que medida a hipertrofia das exigências burocráticas contribui efetivamente para a qualidade do atendimento ou se serve apenas a uma lógica de vigilância e controle gerencial.

Nessa conjuntura, a comercialização de materiais organizacionais em redes sociais como o Instagram evidencia um fenômeno ambivalente. Por um lado, esses produtos emergem como uma resposta pragmática às lacunas de formação e à escassez de tempo enfrentadas pelos professores no cotidiano escolar. Por outro lado, ao serem enunciados como soluções rápidas para problemas sistêmicos do sistema educacional, esses insumos acabam por reproduzir a lógica de simplificação e aceleração que caracteriza a economia da atenção nas plataformas digitais.

Nesta tradução mercantil, o que originalmente deveria ser construído na "lentidão" do acompanhamento pedagógico e na singularidade inalienável das relações educativas é condensado em modelos e guias padronizados. Sob o pretexto da eficiência, tais instrumentos prometem organizar um campo que, por sua natureza ética e política, resiste a fórmulas prontas e à simplificação algorítmica.

Conclusões

Este artigo buscou analisar a atuação de professores do Atendimento Educacional Especializado (AEE) no Instagram à luz do fenômeno contemporâneo da plataformização do trabalho. Ao mobilizar uma abordagem discursiva inspirada em Michel Foucault (2008), articulada à análise das transformações do trabalho digital discutidas por Abílio (2020), Abílio, Amorim e Grohmann (2021) e Grohmann (2020), compreendeu-se como determinadas práticas, produtos e estratégias de visibilidade participam da construção de sentidos sobre a docência na educação inclusiva.

Os resultados indicam que a presença desses profissionais nas redes sociais excede a mera ampliação dos espaços de atuação; trata-se de um fenômeno atravessado por mutações na organização do trabalho e nos modos de subjetivação produzidos pela racionalidade neoliberal. Nesse cenário, o neoliberalismo opera como uma racionalidade que reorganiza práticas e subjetividades (Foucault, 2008), levando o docente a ocupar posições múltiplas e simultâneas: educador, produtor de conteúdo, vendedor de insumos pedagógicos e empreendedor de si.

A análise do escrutínio realizado permitiu observar como a lógica comunicacional das plataformas tende a reorganizar o saber pedagógico. Cursos, mentorias e guias são apresentados como mercadorias capazes de simplificar o cotidiano escolar, prometendo resoluções rápidas para dilemas complexos. Essa dinâmica aproxima-se do solucionismo tecnológico (Morozov, 2018), em que problemas sociais profundos são reduzidos a soluções técnicas e instrumentais.

Entretanto, emerge uma tensão fundamental quando essa lógica confronta a natureza do AEE. Este campo não se configura como um espaço técnico de aplicação de métodos universais, mas como um território marcado pela singularidade, pela imprevisibilidade e pela necessidade de invenção diante da diversidade. Como sugere Larrosa (2018), o trabalho pedagógico na inclusão aproxima-se mais de um fazer artesanal do que de um modelo industrial de produção em larga escala.

Embora o estudo apresente limitações metodológicas pelo recorte em um único perfil, a investigação cumpriu seu papel de identificar regularidades discursivas e modos de problematização que atravessam o campo (Veiga-Neto, 2007). Para pesquisas futuras, recomenda-se a ampliação do corpus para outras plataformas e a articulação da análise discursiva com metodologias qualitativas que alcancem as motivações e experiências subjetivas desses docentes-influenciadores.

Em última análise, se as práticas discursivas produzem regimes de verdade (Foucault, 2008), a promessa de "descomplicar" o AEE não é apenas um recurso de marketing, mas um modo de reorganizar o próprio campo da educação inclusiva. Ao traduzir a complexidade educativa em fórmulas replicáveis, corre-se o risco de gerar um apagamento da potência ética do encontro com a diferença e com os sujeitos que escapam às normas escolares. O desafio premente não parece ser o de simplificar o trabalho, mas o de sustentar sua complexidade em um mundo governado pela aceleração e pela lógica algorítmica.

 

Referências

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BROWN, Wendy. Nas ruínas do neoliberalismo: A ascensão da política antidemocrática no Ocidente. São Paulo: Politeia, 2019.

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