Os desafios na produção de material acessível em Libras sobre plantas alimentícias não convencionais e as possíveis soluções

The challenges in producing accessible material in brazilian sign language (Libras) about unconventional food plants and the possible solutions

Los desafíos en la producción de material accesible en lengua de señas brasileña (Libras) sobre plantas alimenticias no convencionales y las posibles soluciones

 

Mariana da Cunha Teixeira

Universidade Federal Fluminense, Niterói – RJ, Brasil.

mcunha@id.uff.br

 

Raphael Lopes da Costa

Universidade Federal Fluminense, Niterói – RJ, Brasil.

raphaellc@id.uff.br

 

Recebido em 10 de outubro de 2025

Aprovado em 06 de janeiro de 2026

Publicado em 27 de janeiro de 2026

 

RESUMO

As Plantas Alimentícias Não Convencionais - PANC são espécies vegetais comestíveis que, embora pouco utilizadas na alimentação cotidiana, possuem relevante valor nutricional e cultural. Apesar do crescente interesse por essas espécies, ainda há escassez de materiais acessíveis para comunidades como a surda. Este projeto tem como objetivo desenvolver um curso bilíngue sobre PANC para a comunidade surda brasileira, intitulado “PANC em Libras: Conhecendo e Cultivando uma Alimentação Acessível”. O curso promove práticas alimentares mais saudáveis, sustentáveis e inclusivas, destacando a importância ecológica, nutricional e econômica das PANC. Sua principal inovação está na acessibilidade, com conteúdo integralmente em Libras e legendas em português. Um dos principais desafios enfrentados foi a ausência de sinais específicos em Libras para diversas espécies, o que exigiu o uso de recursos linguísticos descritivos. Atualmente, o curso encontra-se em fase final de produção, com aulas já gravadas, editadas e legendadas, restando apenas a conclusão das atividades práticas. O projeto busca fomentar a inclusão educacional e ampliar o conhecimento sobre PANC no Brasil.

Palavras-chave: Libras; Educação bilíngue de surdos; Acessibilidade comunicacional; Plantas alimentícias não convencionais; Alimentação sustentável.

 

ABSTRACT

Non-Conventional Edible Plants (PANC) are edible plant species that, although rarely used in everyday diets, possess significant nutritional and cultural value. Despite the growing interest in these species, there remains a lack of accessible materials for communities such as the deaf community. This project aims to develop a bilingual course on PANC for the Brazilian deaf community, titled “PANC in Libras: Learning and Cultivating an Accessible Diet.” The course promotes healthier, more sustainable, and inclusive eating practices, emphasizing the ecological, nutritional, and economic importance of PANC. Its main innovation lies in accessibility, as all content is presented in Brazilian Sign Language (Libras) with Portuguese subtitles. One of the main challenges faced was the absence of specific Libras signs for various species, requiring the use of descriptive linguistic strategies. Currently, the course is in its final production stage, with lessons already recorded, edited, and subtitled, and practical activities nearing completion. The project seeks to foster educational inclusion and expand knowledge about PANC in Brazil.

Keywords: Brazilian Sign Language (Libras); Bilingual education of deaf people;  Communication accessibility; Non-conventional edible plants; Non-conventional food plants.

 

RESUMEN

Las Plantas Alimenticias No Convencionales (PANC) son especies vegetales comestibles que, aunque poco utilizadas en la alimentación cotidiana, poseen un importante valor nutricional y cultural. A pesar del creciente interés por estas especies, todavía existe una escasez de materiales accesibles para comunidades como la de personas sordas. Este proyecto tiene como objetivo desarrollar un curso bilingüe sobre PANC para la comunidad sorda brasileña, titulado “PANC en Libras: Conociendo y Cultivando una Alimentación Accesible”. El curso promueve prácticas alimentarias más saludables, sostenibles e inclusivas, destacando la importancia ecológica, nutricional y económica de las PANC. Su principal innovación radica en la accesibilidad, con contenido íntegramente en Libras y subtítulos en portugués. Uno de los principales desafíos fue la ausencia de señas específicas en Libras para varias especies, lo que exigió el uso de recursos lingüísticos descriptivos. Actualmente, el curso se encuentra en su fase final de producción, con clases ya grabadas, editadas y subtituladas, restando solo la conclusión de las actividades prácticas. El proyecto busca fomentar la inclusión educativa y ampliar el conocimiento sobre las PANC en Brasil.

Palabras clave: Lengua Brasileña de Señas (Libras); Educación bilingüe de personas sordas; Accesibilidad comunicacional; Plantas alimenticias no convencionales; Alimentación sostenible.

 

Introdução

          Ao longo da história, a subsistência e o desenvolvimento das civilizações humanas sempre estiveram profundamente conectados ao uso de recursos vegetais. Esses recursos permeiam diversas áreas da vida, como alimentação, medicina e construção. Embora exista uma grande diversidade de plantas nativas, muitas continuam subutilizadas ou desconhecidas pela maior parte da população. Entre elas estão as Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC), um conjunto de espécies com alto potencial nutricional e que, por diferentes razões, foram negligenciadas nas práticas agrícolas e na alimentação cotidiana. Entre essas razões estão a priorização do cultivo em larga escala de espécies de maior valor comercial, o desconhecimento generalizado sobre o valor nutricional e culinário dessas plantas, e o processo de urbanização e globalização que limitou a transmissão de conhecimentos tradicionais sobre a flora local.

Tal temática ganha relevância à medida que se busca novas alternativas para enfrentar os desafios globais relacionados à segurança alimentar, preservação ambiental e sustentabilidade. Entre os principais desafios estão o aumento populacional, que exerce pressão sobre a produção agrícola; as mudanças climáticas, que impactam negativamente o rendimento das colheitas e a disponibilidade de recursos naturais; a degradação dos solos e a perda de biodiversidade, resultantes de práticas agrícolas intensivas, e a distribuição desigual de alimentos, que leva à fome em algumas regiões e ao desperdício em outras. Nesse contexto, as PANC oferecem uma oportunidade de ampliar a base alimentar com espécies resilientes e nutritivas, que demandam menos recursos naturais e podem se adaptar a condições adversas.

Com uma capacidade notável de fornecer nutrientes essenciais, como vitaminas e minerais, essas plantas oferecem uma rica diversidade alimentar e podem complementar ou até substituir cultivos mais populares, mas que exigem maiores recursos para o cultivo. Além disso, seu uso contribui para a conservação da biodiversidade, já que muitas dessas espécies são nativas de regiões específicas e desempenham papéis ecológicos importantes.

Nesse contexto, a redescoberta e a valorização das PANC são essenciais para diversificar a dieta e reduzir a dependência de poucas espécies vegetais, que dominam o cenário alimentar global. A adoção dessas plantas, portanto, pode ser uma resposta eficiente às crises alimentares e às questões de sustentabilidade que se impõem na atualidade, promovendo um sistema alimentar mais diversificado, saudável e resiliente.

Diante da crescente necessidade de promover alternativas alimentares sustentáveis e saudáveis, a proposta de um curso de PANC em Língua Brasileira de Sinais - Libras se apresenta como uma importante iniciativa para incluir a comunidade surda brasileira nessa discussão. A relevância desse curso está em democratizar o acesso ao conhecimento sobre as PANC, garantindo que a população surda também possa se beneficiar das vantagens nutricionais, ecológicas e econômicas que essas plantas oferecem.

O curso visa capacitar os participantes com informações sobre o consumo e a utilização das PANC, destacando sua importância para uma alimentação diversificada e sustentável. Além disso, ao ser ministrado em Libras, o curso não só valoriza a inclusão social como também fortalece a participação da comunidade surda em temas essenciais para o futuro da alimentação e da preservação ambiental.

A plataforma Moodle, disponibilizada pela Coordenação de Educação a Distância - CEAD-UFF, será utilizada como base para o curso online, oferecendo um ambiente acessível e remoto para todas as aulas. O uso de legendas possibilitará a participação de ouvintes que ainda não dominam a Libras. A proposta ainda contempla a realização de eventos presenciais no campus do Gragoatá, proporcionando momentos de interação prática e trocas de experiências em Libras.

Ao promover o ensino sobre PANC a uma proposta educacional acessível, o curso oferece uma oportunidade única de ampliar o impacto dessa discussão, fomentando a conscientização em diferentes esferas, especialmente nas escolas. Faz-se importante salientar que a introdução dessas plantas no ambiente escolar pode ser uma poderosa ferramenta para incentivar hábitos alimentares mais saudáveis, além de promover a conservação ambiental e a valorização da biodiversidade local.

Dessa forma, a oferta de um curso sobre PANC para a comunidade surda demonstra grande relevância social. No entanto, os desafios de produzir material em Libras, especialmente devido à ausência de sinais específicos para certos termos, tornam o processo bastante complexo. Assim, o presente trabalho apresentará o percurso realizado até o momento para a elaboração e promoção de um material que seja tanto fiel à temática, quanto adequado às necessidades linguísticas da comunidade surda.

A pesquisa justifica-se pela importância em assegurar o acesso a informações sobre as PANC à comunidade surda, possibilitando a inclusão e a participação efetiva em temas relacionados à alimentação e à sustentabilidade. Além disso, a pesquisa visa identificar e implementar soluções para a criação de materiais acessíveis e adaptados, como o uso de classificadores descritivos e recursos visuais, que superem a falta de sinais específicos e facilitem a compreensão do tema.

Ainda neste sentido, a pesquisa pretende avançar na tradução de termos e conceitos complexos para Libras, fornecendo uma base para futuras iniciativas educacionais acessíveis que possam ser replicadas em outros contextos e temas, promovendo assim a inclusão e o acesso ao conhecimento de forma mais ampla e eficaz.

Como objetivo geral, nasce a necessidade de elaborar um curso sobre PANC voltado à comunidade surda, incentivando práticas alimentares mais saudáveis, sustentáveis e acessíveis, além de conscientizar sobre a importância ecológica, nutricional e econômica dessas plantas.

Dentro dessa perspectiva, para que tal objetivo seja alcançado será necessário: identificar as principais necessidades e barreiras da comunidade surda em relação ao acesso a informações sobre práticas alimentares saudáveis e sustentáveis; mapear as espécies de PANC com maior potencial para consumo no estado do Rio de Janeiro, considerando fatores ecológicos, nutricionais e econômicos. desenvolver materiais didáticos bilíngues (Libras e Português) sobre PANC, com conteúdo visual e acessível; criar o curso online sobre PANC em Libras, utilizando a plataforma Moodle disponibilizada pela CEAD-UFF; promover oficinas e atividades práticas que incentivem a adoção de hábitos alimentares saudáveis e sustentáveis através do consumo de PANC; avaliar o impacto do curso na conscientização e nas práticas alimentares dos participantes da comunidade surda.

 

2        DESENVOLVIMENTO COM FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

 

O direito à alimentação de qualidade está garantido no artigo 6º da Constituição Federal do Brasil, regulamentado pela lei nº 11.346 que versa sobre o Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional – SISAN com vistas a assegurar o direito humano à alimentação adequada.

No Brasil, essa discussão iniciou-se na década de 1940, segundo Ministério da Educação (2007), pois foi nessa época que programas assistenciais de doação de alimentos surgiram. Entretanto, o objetivo era meramente material, sem qualquer discussão a respeito da qualidade desses alimentos.

Somente a partir de 1990 a temática relacionada à nutrição desses alimentos foi levantada, oportunidade em que o governo estabeleceu parcerias com produtores rurais, mapeando as regiões mais carentes do Brasil, elaborando estratégias para controlar e fiscalizar a qualidades dos alimentos, bem como melhorar o perfil nutricional da população brasileira, atrelando à assiduidade das crianças nas escolas.

Todo esse cenário auxiliou para o fortalecimento de políticas públicas e diminuição tanto da fome, quanto da insegurança alimentar. Porém, segundo Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) de 2018, provou-se que a trajetória de superação dessa insegurança além de ter sido interrompida, alguns indicadores retrocederam a patamares inferiores a 2004.

Em números comparativos, entre os anos de 2013 e 2018, segundo a mesma fonte, a insegurança nos domicílios leves saltou de 12,6% para 20,7%, a moderada subiu de 6,1% para 10,1% e a greve de 4,2%, menor índice registrado, para 5,8%. Esse cenário demonstra que a temática foi vilipendiada, o que gerou o agravamento dessa situação (IBGE, 2020).

Nesse contexto, a comunidade surda encontra-se ainda mais prejudicada, tendo em vista que muitas famílias surdas hoje estão social e economicamente vulneráveis e ainda colidem com a dificuldade de comunicação e acesso à informação. Essa é uma percepção da realidade que é comprovada por teóricos e pelas pesquisas.

O surdo, encontra-se dentre os excluídos. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas-IBGE 2010, estima-se que no Brasil existe cerca de 9,8 milhões, sendo 5,1% da população, que ao longo dos anos foram descriminalizados, estigmatizados, cercados de “pré-conceitos”, ridicularizados, postos à margem da sociedade, esquecidos etc. Provavelmente, tal exclusão ocorre pela simples falta de conhecimento referente a sua forma de interação e comunicação com o mundo (Franco, 2019, p. 14).

 

A despeito das PANC serem aliadas no combate à fome e aumento da nutrição dos brasileiros, há um intenso desconhecimento geral sobre o tema. Como prova, o Centro Universitário de Brasília (CeUB), por meio do curso de nutrição, representado pela aluna Isabella Borges, realizou uma pesquisa sobre os hábitos de consumo relacionados aos alimentos não convencionais. Para tal, foram entrevistadas 303 pessoas, entre 18 e 75, a respeito do tema. Desse quantitativo, 53,5% responderam não conhecer nada sobre, enquanto 46,2% possuíam algum tipo de informação (Souza, 2022).

Ressalta-se que Brasília tem o maior Índice de Desenvolvimento Humano do Brasil e possui a maior renda média per capita nacional, segundo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE em 2023. Ainda assim, o conhecimento sobre PANC não chega adequadamente. Ao pensar em regiões mais vulneráveis, esse quadro se agrava ainda mais. Ao se considerar a comunidade surda, o panorama é ainda mais delicado, uma vez que não há muitos materiais sobre a temática em Libras.

A proposta de elaboração de um curso sobre PANC voltada para a comunidade surda visa minimizar a lacuna da falta de informação. Isso porque, historicamente, os surdos enfrentam severas dificuldades de participação social de forma efetiva e autônoma, como indica Franco:

A pessoa surda, apresenta barreiras linguísticas, definidas como “barreiras comunicacionais". (SASSAKI, 2009). A Lei nº 13.146 de 2015 (Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência), em seu art. 2º, descreve barreira como “...entrave, obstáculo, atitude ou comportamento que limite ou impeça a participação social da pessoa, bem como o gozo, a fruição e o exercício de seus direitos à acessibilidade, à liberdade de movimento e de expressão, à comunicação, ao acesso à informação, à compreensão, à circulação com segurança, entre outros [...]” (Franco, 2019, p. 30).

 

 Esse contexto é ratificado ao observar os resultados das pesquisas produzidas pelo IBGE que em 2021 verificou que 6,7% dos entrevistados com deficiência não possuíam instrução ou tinham apenas o ensino fundamental incompleto. Em relação ao recorte de pessoas surdas, o número sobe para 71% sem instrução formal, dados informados no módulo Pessoas com deficiência, da Pnad Contínua 2022 (IBGE, 2023; Gomes, 2023).

Questiona-se as razões dessas dificuldades de acesso pelos sujeitos surdos e em resposta, é possível considerar que existem alguns entraves que impedem ou dificultam a participação social dessa comunidade.

Para corroborar com esta percepção, utiliza-se uma pesquisa de campo feita no Lyceu Paraibano - instituição tradicional pública, referência histórica e educacional na educação das pessoas surdas. Tal pesquisa, organizada na Universidade Federal da Paraíba, conclui que há pelo menos treze desafios existentes na formação dos surdos brasileiros.

 

Tabela 1: Relação dos principais desafios apontados pelos surdos brasileiros no que tange à sua formação educacional

Tabela

Descrição gerada automaticamente com confiança média
 

 

 

 

 

 

 

 


Fonte: Romário et al. 2018. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbeped/a/VjRpV8LfHx4kHBtn5s57DDp/?format=pdf&lang=pt

 

A pesquisa surgiu como uma resposta à provocação feita pela prova do Enem em 2017, cujo tema abordava justamente os entraves dessa comunidade no âmbito educacional. Movidos pela curiosidade do saber científico, alunos do programa de doutorado dessa mesma universidade entrevistaram 49 estudantes que tinham realizado a prova do Enem, usando como critério único para a escolha dos entrevistados a experiência de escrever sobre a temática adotada naquele ano (Romário et al., 2018).

 

2.1 Educação bilíngue de surdos e acessibilidade comunicacional

 

A educação de surdos no Brasil passou, nas últimas décadas, por um processo de ressignificação político-pedagógica, com o reconhecimento da Língua Brasileira de Sinais - Libras como língua natural das comunidades surdas (Lei nº 10.436/2002; Decreto nº 5.626/2005) e, mais recentemente, com a consolidação da Educação Bilíngue de Surdos como modalidade específica na LDB por meio da Lei nº 14.191/2021. Nessa modalidade, a Libras é reconhecida como primeira língua (L1) e a língua portuguesa escrita como segunda língua (L2), o que implica repensar práticas curriculares, materiais didáticos e formas de avaliação à luz da visualidade e da diferença linguística.

Pesquisadores da área (Quadros; Karnopp, 2004; Perlin; Strobel, 2006; Albres, Silva; Santos, 2021) enfatizam que a educação bilíngue de surdos demanda não apenas a presença de intérpretes, mas a produção de materiais concebidos diretamente em Libras, bem como o reconhecimento da cultura surda e das especificidades da aquisição de L2 em modalidade escrita. A ausência de materiais produzidos originalmente em língua de sinais, sobretudo em áreas específicas como ciências, nutrição e botânica, constitui um dos principais entraves ao acesso pleno de estudantes surdos ao conhecimento científico.

No campo da divulgação científica e da educação alimentar, essa lacuna torna-se ainda mais evidente: conteúdos sobre alimentação saudável, sustentabilidade e segurança alimentar costumam ser elaborados prioritariamente em língua portuguesa escrita, com eventuais recursos visuais de apoio. Quando se considera a realidade de muitos surdos que tiveram trajetórias escolares marcadas por barreiras linguísticas e por uma oferta desigual de educação bilíngue, tais materiais nem sempre são suficientes para garantir compreensão e participação efetiva. Nesse cenário, iniciativas que planejam cursos e recursos diretamente em Libras, articulando classificadores, visualidade e estratégias discursivas próprias das línguas de sinais, alinham-se às diretrizes da educação bilíngue e ampliam o acesso à informação em temas centrais como alimentação e sustentabilidade.

Embora a pesquisa tenha um quantitativo de entrevistados relativamente baixo, ela possibilita a percepção de que esses desafios de fato são comuns à comunidade surda brasileira.

Posto isso, o curso PANC em Libras: conhecendo e cultivando uma alimentação acessível não é voltado para a educação básica e não possui relação direta com a formação escolar de pessoas surdas no Brasil. No entanto, sua criação decorre de uma defasagem significativa de materiais informativos acessíveis, já que esse tipo de conteúdo raramente é oferecido à comunidade surda.

Pensando nisso, identificou-se a necessidade de desenvolver um conteúdo teórico em Libras, que respeite os aspectos linguísticos e culturais da comunidade usuária da língua. Além disso, o projeto prevê a produção de materiais práticos de vivência com esses alimentos, possibilitando uma releitura das refeições cotidianas sob uma perspectiva mais econômica, nutritiva e inclusiva.

 

2.2 Levantamento e análise de publicações sobre a temática

 

Na busca por materiais que abordassem a mesma temática, identificou-se o projeto de extensão PancPop, vinculado ao campus da Universidade Federal do Rio Grande (FURG), em São Lourenço do Sul. O principal objetivo dessa iniciativa é popularizar o uso e o conhecimento das PANC, promovendo a valorização dessas espécies na alimentação cotidiana. Para atingir esse propósito, o projeto desenvolveu um canal no YouTube, no qual são disponibilizados vídeos educativos que apresentam diferentes espécies de plantas comestíveis, destacando seus aspectos botânicos, formas de uso, possibilidades de consumo e ocorrência nas diversas regiões (Melo; Velasques; Durigon, 2022).

Os vídeos são apresentados pela professora Jaqueline Durigon, ouvinte, que realiza a narração em Língua Portuguesa e utiliza como cenário hortas e outros ambientes onde os vegetais podem ser encontrados. O conteúdo é tornado acessível por meio da inserção de uma janela de Libras, assegurando a compreensão por parte da comunidade surda.

Ressalta-se que embora o material seja inovador e muito bem-produzido, ele não é pensado diretamente na língua de sinais brasileira e isso impacta diretamente na forma como a comunidade surda pode experimentar esse conteúdo.

Além desse material, está disponível também a produção feita pela doutora Betty Lopes L’astorina De Andrade, que produziu um glossário multilíngue de sinais-termos na área de nutrição e alimentação (Andrade et al., 2019).

Apesar de o material produzido ser de extrema relevância para a comunidade surda e para a linguística das línguas de sinais - LS, pois faz o estudo terminológico em LS, este não é específico para PANC.

Posto isso, o curso PANC em Libras: conhecendo e cultivando uma alimentação acessível não é voltado para a educação básica e não possui relação direta com a formação escolar de pessoas surdas no Brasil. No entanto, sua criação decorre de uma defasagem significativa de materiais informativos acessíveis, já que esse tipo de conteúdo raramente é oferecido à comunidade surda.
          Pensando nisso, identificou-se a necessidade de desenvolver um conteúdo teórico em Libras, que respeite os aspectos linguísticos e culturais da comunidade usuária da língua. Além disso, o projeto prevê a produção de materiais práticos de vivência com esses alimentos, possibilitando uma releitura das refeições cotidianas sob uma perspectiva mais econômica, nutritiva e inclusiva.Com o objetivo de proporcionar uma experiência aplicável ao cotidiano dos cursistas, foram selecionadas as PANC de maior incidência na Região Sudeste do Brasil, com ênfase no estado do Rio de Janeiro, inserido no bioma Mata Atlântica. A partir desse recorte, buscou-se desenvolver um curso composto por aulas acessíveis, voltadas para a realidade ecológica e alimentar característica dessa região.

De acordo com o trabalho de conclusão de curso em Nutrição da UFF elaborado por Fangueiro (2022), por meio de perguntas abertas e fechadas aplicadas presencialmente a dez agricultores que cultivam PANC, localizados em cinco mercados orgânicos que integram o Circuito do Mercado Orgânico Carioca (RJ), foi possível compreender a dinâmica do cultivo das PANC, desde a produção até a comercialização.

No contexto da pesquisa, verificou-se que eles cultivavam dezenove tipos de PANC diferentes, conforme tabela abaixo extraída do artigo (Fangueiro; Penha; Lourenço, 2022).

 

Tabela 2: Percentual de agricultores entrevistados que cultivam e comercializam as PANC

Fonte: Fangueiro; Penha; Lourenço, 2022. Disponível em: https://doi.org/10.12957/demetra.2022.67365
Tabela

Descrição gerada automaticamente

Contudo, a produção desse material evidenciou diversos desafios, entre eles a ausência de sinais-termos específicos tanto para as plantas quanto para suas estruturas, a dificuldade em encontrar imagens adequadas para ilustrar as aulas e problemas técnicos na edição dos vídeos, já que os intérpretes utilizaram programas distintos, conforme o maquinário disponível. Essa divergência de softwares impediu a compatibilidade entre as produções individuais, o que acabou inviabilizando parte do material produzido na primeira fase do projeto.

 

3.       METODOLOGIA

Este estudo adota uma abordagem qualitativa, pois busca compreender as percepções, experiências e desafios da comunidade surda em relação ao acesso à educação alimentar e ao uso de PANC. A pesquisa tem caráter aplicado, com o objetivo de elaborar e implementar um curso prático voltado à promoção de práticas alimentares sustentáveis, saudáveis e acessíveis, seja pela execução ou pelo viés linguístico. A abordagem qualitativa se justifica pela necessidade de captar as nuances das interações dos participantes com o conteúdo proposto e suas percepções sobre o curso.

A pesquisa possui uma natureza exploratória e descritiva, sendo exploratória no sentido de investigar um tema pouco discutido na literatura, que é a acessibilidade de cursos sobre PANC para a comunidade surda. É descritiva ao analisar e documentar as percepções dos participantes sobre a importância das PANC e a eficácia do curso em promover práticas alimentares mais conscientes e sustentáveis. Dessa forma, espera-se fornecer subsídios para o desenvolvimento de futuras ações educativas voltadas para este público.

De modo geral, as informações sobre alimentação saudável e sustentável, especialmente as disponibilizadas nos portais governamentais, utilizam uma linguagem acessível ao público em geral. No entanto, quando se trata da comunidade surda, que enfrenta desafios específicos relacionados à leitura e compreensão do Português, esses conteúdos podem se tornar menos acessíveis, dificultando a plena compreensão e adesão às práticas recomendadas.

 

 

 

 

Figura 1: Imagem do material Alimentação saudável e sustentável do Ministério da Educação, 2007

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Fonte: MEC, 2007. Disponível em:  http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/profunc/alimet_saud.pdf

 

A utilização de imagens, tabelas e outros recursos visuais tem um papel significativo na facilitação da compreensão de boa parte dos surdos em relação aos conteúdos apresentados. No entanto, tais ferramentas tendem a ser mais eficazes para surdos que possuem maior domínio da língua portuguesa escrita. Embora a legislação brasileira reconheça a Libras como língua das comunidades surdas e estabeleça a Educação Bilíngue de Surdos como modalidade específica de ensino (Lei nº 10.436/2002; Decreto nº 5.626/2005; Lei nº 14.191/2021), diferentes estudos apontam que a implementação dessas políticas ainda ocorre de forma desigual no território nacional, o que contribui para que uma parcela significativa da população surda enfrente dificuldades no processo de escolarização em língua portuguesa escrita (Quadros; Karnopp, 2004; Albres; Silva; Santos, 2021). Dessa forma, materiais informativos direcionados à comunidade surda devem priorizar a Libras como principal meio de comunicação, complementando-a com recursos visuais e legendas em português.

Com isso, após verificar a necessidade de apresentar o tema para a comunidade surda, fazer o recorte das plantas a serem trabalhadas, passou-se para a elaboração do material. Tal etapa seguiu a primeira versão do cronograma, iniciando no mês de maio de 2024, com o estudo do material enviado pela Professora Dra. Odara Boscolo, do Instituto de Biologia da UFF. A partir desse material, foi extraído o conteúdo necessário à elaboração das sete aulas teóricas do curso, primeiramente em português.

Em seguida, no mês de junho, iniciaram-se as filmagens e edições dessas sete aulas, agora em Libras, com recursos visuais informativos, através da ferramenta de fundo verde Chroma Key. No mês de julho, a sala de aula virtual na plataforma Moodle CEAD-UFF foi criada e seria alimentada com o conteúdo pronto. Assim, em agosto, haveria a divulgação do curso e as inscrições seriam abertas.

Por fim, o curso estava previsto para ocorrer entre os meses de setembro e novembro, com encerramento em dezembro, quando seriam entregues os certificados aos participantes.

O cronograma também contemplava a realização de três encontros presenciais no campus do Gragoatá da UFF, com o propósito de proporcionar uma experiência sensorial por meio do preparo e da degustação das plantas estudadas.

Entretanto, infelizmente, pelas dificuldades encontradas na produção desse material, não foi possível seguir o cronograma original, sendo necessário alterá-lo de maneira significativa.

Esse atraso ocorreu, pois não foi encontrada nenhuma produção acadêmica que tenha catalogado sinais termos relativos tanto às treze plantas escolhidas para serem apresentadas em sala, quanto das estruturas que são comestíveis. Sendo assim, houve a necessidade de uma linguagem classificatória (explorando a identidade visual de cada PANC) e do recurso de datilologia (utilização do alfabeto manual para representar nomes de uma língua oral).

Foi utilizado busca nos seguintes sites: google acadêmico, Scielo, Periódicos Capes e Sistema Pergamum em que foi utilizado as seguintes palavras-chaves: PANC-Libras; PANC-sinais; Botânica-libras-sinais; dicionários-plantas-libras; glossário-plantas-libras; plantas-libras;

Nesse sentido, nas plataformas citadas, não foi encontrado nenhum material que possuísse registro dos seguintes termos: Taioba (Xanthosoma sagittifolium), Cará (Dioscorea Alata.), Bertalha (Basella alba), Beldroega (Portulaca      oleracea       L.), Cactus (Opuntia ficus-indica), Dente de leão (Taraxacum officinale) Hibisco (Hibiscus   rosa-sinensis), Maria-gorda (Talinum fruticosum), Peixinho (Stachys byzantina), Serralha (Sonchus oleraceus), Umbu (Spondias tuberosa; Urtiga: (Fleurya aestuans L.) e Comigo-ninguém-pode  (Dieffenbachia picta Schott), bem como dos seguintes termos: rizomas, planta herbácea suculenta; Lâmina foliar obovada; panícula terminal, oxalatos.

Como estratégia de tradução, preferiu-se seguir a utilização de classificadores que tem por objetivo principal descrever, localizar e representar objetos segundo sua forma e tamanho.

Descreve com a extremidade do indicador, com as duas mãos, objetos ou locais (quadrados, redondos, retangulares, etc.), fios ou tiras (descrição de uma alça de bolsa); localiza com a ponta do indicador cidades, locais e outros referentes (buraco pequeno); o indicador representa objetos longos e finos (pessoa, poste espeto, prego, rabo de animais) (Ferreira-Brito, 1995, p.110).

 

Para exemplificar, o intérprete Raphael precisou, inicialmente, buscar o significado, em língua portuguesa, do termo “inflorescências racemosas longas”, a fim de compreender que ele se refere a um eixo principal no qual as flores estão fixadas.

Com o objetivo de representar essa estrutura de modo preciso em Libras, o intérprete analisou imagens ilustrativas que o ajudaram a construir uma descrição adequada.

Assim, iniciou o sinal fazendo o movimento de FLOR e, em seguida, indicou uma estrutura ereta com o dedo indicador, enquanto a outra mão formava um pequeno círculo com o polegar e o indicador, mantendo os demais dedos estendidos. Dessa forma, foi possível representar a disposição natural das flores da planta conhecida como peixinho.

 

 

 

Figura 2: Intérprete Raphael Lopes utilizando classificadores para explicar a composição do Racemo.

Uma imagem contendo pessoa, no interior, homem, segurando

Descrição gerada automaticamente
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Fonte: autoria própria, 2024

Na ilustração, observa-se que as flores estão fixadas diretamente na haste central, que se origina da própria flor. Embora o termo “inflorescências racemosas longas” não possua um sinal específico em Libras, a solução encontrada foi representá-lo por meio de recursos classificatórios, utilizando a configuração de mão, o ponto de articulação, as expressões não manuais, a orientação da palma da mão e o movimento do sinal, de modo a transmitir com precisão o significado do termo.

Por fim, todo o material foi gravado em Libras utilizando fundo verde (chroma key), recurso que permite inserir imagens, ilustrações e demais elementos visuais que complementam o conteúdo das aulas.

Essa prática reforça a inclusão da comunidade surda, considerando a necessidade do uso de recursos visuais como estratégia para facilitar a compreensão e o engajamento dos participantes.

A utilização de recursos visuais, entre eles os jogos, constitui-se em um otimizador e facilitador da aprendizagem da Libras, diante da complexidade de sua aprendizagem, na medida em que “seu uso como recurso pedagógico deve ser incentivado e aplicado em sala de aula, pois se trata de uma ferramenta didática para o professor proporcionar situações que ampliem o aprendizado do aluno” (Lima, 2019, p. 34)

 

Diante disso, a utilização da tecnologia de fundo monocromático facilita a edição de conteúdos acessíveis, pois permite inserir, ao lado do apresentador-intérprete, imagens ilustrativas relacionadas ao tema abordado.

Como exemplo, na aula 3, o intérprete Raphael apresenta o sinal de CACTUS tendo, ao seu lado, um exemplar da planta estudada, o que torna a explicação mais clara e visualmente significativa.

 

Figura 3: Intérprete Raphael Lopes apresentando o sinal de “Cactus” ao lado da imagem da planta.

Homem com os braços para cima

Descrição gerada automaticamente com confiança média
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Fonte: autoria própria, 2024

Dessa forma, evidencia-se a relevância da tecnologia na produção de materiais acessíveis, especialmente no contexto educacional em Libras.

Durante o curso, esse recurso foi empregado em diversos momentos, possibilitando a exibição de fluxogramas históricos, a apresentação dos nomes populares das plantas — soletrados pela datilologia — e a demonstração das citações diretas realizadas ao longo das aulas.

Entretanto, no que se refere à etapa de edição, a principal dificuldade ocorreu porque o intérprete Bruno, além de gravar as aulas em Libras, também as editou utilizando o software Adobe Premiere Pro, enquanto o intérprete Raphael, ao propor ajustes posteriores, recorreu ao CapCut Pro.
          Embora as empresas responsáveis pelos programas afirmem, em seus sites oficiais, que há compatibilidade e possibilidade de compartilhamento de arquivos editáveis entre as plataformas, essa integração não se confirmou na prática. Ao abrir, no CapCut Pro, os arquivos produzidos originalmente no Adobe Premiere Pro, as edições anteriores não foram reconhecidas, inviabilizando parte do processo de correção.
          Essa limitação técnica comprometeu o cronograma previsto, já que as gravações e edições, inicialmente planejadas para serem concluídas em julho, foram finalizadas apenas em agosto — mês destinado à abertura das inscrições do curso. Assim, o início das atividades precisou ser reprogramado para novembro.

 

4        DISCUSSÕES

A valorização da biodiversidade local tem ganhado crescente atenção em diversos setores, especialmente nos campos da alimentação e da sustentabilidade.

Historicamente, a diversidade de plantas presentes nos ecossistemas naturais era amplamente reconhecida e utilizada por comunidades tradicionais (Nascimento et al., 2021), que detinham vasto conhecimento sobre espécies nativas e suas múltiplas utilidades, incluindo a alimentação (Diegues et al., 2020).

No entanto, com o avanço da agricultura industrial e a globalização dos sistemas alimentares, muitas dessas espécies foram marginalizadas em prol de monoculturas que priorizam plantas mais conhecidas e comercialmente viáveis, como soja, milho e trigo.

Esse processo não apenas reduziu a variedade de alimentos consumidos, mas também comprometeu a biodiversidade dos ecossistemas (Abramovay, 2024).

A desvalorização da biodiversidade local tem provocado diversos impactos negativos, entre os quais se destaca a perda de variedades de plantas alimentícias, que implica a redução de potenciais fontes de nutrientes capazes de enriquecer a dieta humana.

Além disso, a adoção de monoculturas agrícolas diminui a resiliência dos ecossistemas, tornando-os mais vulneráveis a pragas, doenças e às mudanças climáticas (Sambuichi et al., 2012).

Do ponto de vista cultural, há uma crescente perda de saberes tradicionais relacionados ao uso sustentável das plantas nativas, o que enfraquece a conexão das comunidades com seus territórios e a preservação de seus recursos naturais.

Nesse contexto, a divulgação das PANC é essencial para reverter esse cenário, pois elas representam um potencial inexplorado da biodiversidade local.
          Muitas dessas espécies são ricas em nutrientes, adaptadas aos ambientes em que se desenvolvem, demandam menos insumos agrícolas e apresentam maior resistência a condições adversas (PANC UFF, 2023).
          Ao promover o conhecimento e o uso das PANC, contribui-se para a valorização da biodiversidade, o estímulo à conservação dos ecossistemas locais e a promoção de uma alimentação mais diversificada e saudável.

Essas plantas, em sua maioria hortaliças de fácil cultivo e ampla proliferação, são encontradas em locais pouco convencionais, como calçadas, praças, terrenos baldios e quintais, e, em muitos casos, são consideradas espécies indesejáveis, popularmente chamadas de ervas daninhas ou mato (Biondo et al., 2018; Kinupp; Lorenzi, 2021).

A disseminação das PANC contribui para o resgate e a valorização dos saberes tradicionais, possibilitando que as comunidades locais participem ativamente da gestão e do uso sustentável de seus recursos naturais.

Além disso, a ampliação do uso dessas espécies fortalece a soberania alimentar, ao diversificar a produção agrícola e reduzir a dependência de espécies exóticas ou comercialmente dominantes — aspecto especialmente relevante em contextos de crise alimentar global.

Portanto, divulgar as PANC é uma estratégia essencial para valorizar a biodiversidade local. Ao incentivar sua utilização, é possível não apenas enriquecer a alimentação e preservar os ecossistemas, mas também promover uma maior sustentabilidade e resiliência no setor agrícola, assegurando um futuro mais equilibrado para as gerações atuais e futuras.

As Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC), conforme destacado por Kinupp e Lorenzi (2021) em Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC) no Brasil, representam uma fonte alternativa de alimento abundante e saudável, ainda amplamente subexplorada no país.
          Essas espécies incluem variedades nativas e exóticas, muitas das quais crescem espontaneamente em diferentes regiões brasileiras, sendo adaptadas ao ambiente local e, consequentemente, demandando menos recursos agrícolas para o cultivo.

As PANC são ricas em nutrientes e podem ser utilizadas em diversas preparações culinárias, oferecendo variedade e equilíbrio nutricional que complementam e enriquecem a dieta.

Entre seus principais benefícios, destacam-se a alta densidade nutricional, com teores expressivos de proteínas, vitaminas, minerais e antioxidantes, muitas vezes superiores aos das espécies convencionais.

Por serem menos conhecidas, as PANC possuem grande potencial para fortalecer a segurança alimentar, especialmente em regiões socialmente vulneráveis.

Esse resgate do conhecimento tradicional sobre essas espécies, conforme exposto por Kinupp e Lorenzi (2021) em Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC) no Brasil, pode reaproximar as comunidades de seus territórios, estimular economias locais e promover práticas agrícolas mais sustentáveis.

A monotonia alimentar refere-se à dependência excessiva de um número limitado de alimentos básicos na dieta, resultando em uma falta de diversidade nutricional. Esse fenômeno surgiu principalmente com o avanço da agricultura industrial e a globalização dos sistemas alimentares, que priorizam a produção em larga escala de monoculturas como trigo, arroz, milho e soja. A preferência por essas culturas se deve ao seu alto valor comercial e facilidade de transporte e armazenamento, mas isso leva à marginalização de outras plantas igualmente nutritivas e importantes para a biodiversidade, como as PANC.

Do ponto de vista ambiental, a monotonia alimentar acarreta graves prejuízos ecológicos. A homogeneização das práticas agrícolas implica o uso intensivo de insumos químicos, como fertilizantes e pesticidas, que contribuem para a degradação do solo, a poluição dos corpos d’água e a redução da biodiversidade (PANC UFF, 2023).

Além disso, a expansão das monoculturas compromete a capacidade de adaptação dos ecossistemas às mudanças climáticas, uma vez que sistemas diversificados tendem a ser mais resilientes.

No âmbito social e econômico, a monotonia alimentar afeta a segurança alimentar e nutricional. A dependência de poucas culturas torna o sistema alimentar mais suscetível a crises, como quebras de safra ou flutuações de preços no mercado internacional, impactando diretamente as populações mais vulneráveis. Além disso, essa homogeneização empobrece a cultura alimentar local, com a perda de conhecimentos tradicionais relacionados ao uso de plantas nativas e à preparação de pratos diversificados, contribuindo para uma dieta menos rica em nutrientes.

As PANC surgem como uma alternativa relevante no enfrentamento da monotonia alimentar. Segundo Kinupp e Lorenzi (2021), sua facilidade de adaptação ao ambiente local reduz a necessidade de insumos agrícolas e aumenta a resiliência dos sistemas de cultivo.

Em termos econômicos, as PANC oferecem uma oportunidade de desenvolver mercados locais, fortalecendo a economia das comunidades rurais e urbanas que produzem e consomem essas plantas.

 

4.1 A dimensão da acessibilidade e da educação bilíngue no curso PANC em Libras

 

Para além da contribuição no campo da alimentação e da sustentabilidade, o curso “PANC em Libras: conhecendo e cultivando uma alimentação acessível” insere-se no debate sobre a produção de materiais educacionais bilíngues e acessíveis para a comunidade surda. Ao optar por elaborar aulas diretamente em Libras, com uso intensivo de classificadores, datilologia e recursos visuais (como o fundo verde e a inserção de imagens das plantas), o projeto dialoga com pesquisas que ressaltam a centralidade da visualidade e da língua de sinais nos processos de ensino para surdos (Quadros; Karnopp, 2004; Strobel, 2008).

Os desafios relatados na produção do material — como a ausência de sinais-termo específicos para diferentes espécies e estruturas botânicas, a necessidade de recorrer a descrições classificatórias detalhadas e as dificuldades técnicas na edição de vídeos — evidenciam a distância entre a demanda por materiais em Libras em áreas especializadas e a disponibilidade efetiva desses recursos. Essa lacuna não é exclusiva do campo das PANC, mas reflete um cenário mais amplo em que a educação bilíngue de surdos ainda enfrenta limitações na produção de materiais didáticos que incorporam a Libras como língua de instrução e não apenas como recurso complementar de tradução.

Ao construir sinais descritivos para termos como “inflorescências racemosas longas” ou ao utilizar a datilologia combinada a imagens das plantas estudadas, o curso também se configura como espaço de criação terminológica em Libras, aproximando a comunidade surda de conceitos científicos ligados à botânica e à nutrição. Esse processo está em sintonia com iniciativas que defendem o desenvolvimento de glossários e repertórios sinalizados em áreas específicas do conhecimento (Andrade et al., 2019), ampliando o léxico disponível em língua de sinais e fortalecendo a participação de sujeitos surdos em debates científicos e acadêmicos.

Dessa forma, a experiência aqui descrita não apenas contribui para a valorização das PANC e para o enfrentamento da monotonia alimentar, mas também se configura como uma ação concreta de acessibilidade comunicacional e de implementação dos princípios da educação bilíngue de surdos, ao reconhecer a Libras como língua de produção e circulação de saberes no campo da alimentação e da sustentabilidade.

 

5        RESULTADOS

No que tange ao caminho percorrido até aqui, é possível destacar que a falta de sinais em Libras relativos as PANC foi um grande desafio na elaboração do material para o curso.  Este resultado corrobora diretamente a pouca informação sobre a temática dentro da comunidade surda brasileira, fomentando, desta maneira, a relevância da iniciativa do curso. Um outro ponto a ser considerado foi a necessidade de centralização da edição das aulas na mesma plataforma (programa de edição), minimizando, desta maneira, a margem de incompatibilidades e até mesmo de erros na edição.

Considerando os fatos e circunstâncias apresentados neste artigo, o curso PANC em Libras: conhecendo e cultivando uma alimentação acessível ainda se encontra em processo de construção.

As aulas já foram gravadas, editadas e legendadas; contudo, as atividades complementares ainda precisam ser produzidas e adequadas ao padrão visual e técnico das aulas, além de receberem legendas correspondentes, de modo a tornar o material acessível também ao público que não domina a Libras.

Diante dessas circunstâncias, ainda não há resultados empíricos disponíveis sobre a execução e o impacto efetivo do curso na comunidade surda.

A próxima etapa do projeto envolve a finalização das atividades práticas e a avaliação da recepção e eficácia do curso, por meio de testes-piloto e coleta de feedback junto aos participantes.

 

6        CONSIDERAÇÕES FINAIS

A produção de aulas em Libras sobre Plantas Alimentícias Não Convencionais - PANC articula dois eixos centrais e, por vezes, pouco dialogados na literatura: de um lado, o enfrentamento da monotonia alimentar, da insegurança alimentar e da perda de biodiversidade; de outro, a promoção da acessibilidade comunicacional e da educação bilíngue de surdos. Ao propor um curso concebido diretamente em Libras, com legendas em português e forte apoio de recursos visuais, o projeto busca democratizar o acesso ao conhecimento sobre PANC, reconhecendo a especificidade linguística da comunidade surda e sua presença ainda incipiente em ações de divulgação científica.

Os resultados parciais indicam que a ausência de sinais-termo específicos para espécies e estruturas botânicas, bem como a carência de materiais audiovisuais produzidos em Libras nessa área, configuram desafios significativos, mas também oportunidades de inovação. A elaboração de descrições classificatórias e a construção de soluções sinalizadas para conceitos científicos complexos apontam para a possibilidade de ampliar o léxico em Libras relacionado à alimentação e à botânica, contribuindo para a consolidação de repertórios terminológicos em língua de sinais.

Do ponto de vista da acessibilidade, o uso de tecnologias como o chroma key, aliado à inserção de imagens, fluxogramas e legendas, demonstrou potencial para tornar o conteúdo mais claro e engajador para o público surdo, em consonância com os princípios da visualidade e da educação bilíngue. Contudo, as dificuldades técnicas na edição e compatibilidade de softwares evidenciam a necessidade de planejamento integrado da produção audiovisual e de equipes formadas em acessibilidade, edição de vídeo e pedagogia bilíngue.

 

Ainda que o curso se encontre em fase de finalização e, portanto, não seja possível, neste momento, apresentar dados empíricos sobre seu impacto na comunidade surda, o percurso relatado neste artigo já sinaliza algumas contribuições relevantes: (i) evidencia a demanda por materiais educacionais em Libras em campos específicos como as PANC; (ii) demonstra a viabilidade de se articular educação alimentar, sustentabilidade e educação bilíngue de surdos em um mesmo projeto formativo; e (iii) oferece subsídios metodológicos para futuras iniciativas que pretendam produzir cursos on-line acessíveis em áreas afins.

Como desdobramentos futuros, pretende-se aplicar o curso em sua versão completa, realizar avaliações formativas e somativas com participantes surdos e ouvintes, e sistematizar os sinais e descrições construídos ao longo do processo, de modo a avançar na constituição de um glossário em Libras voltado para PANC. Espera-se, assim, que esta experiência possa inspirar novas ações educativas que aliem a promoção de sistemas alimentares mais sustentáveis à garantia do direito à informação e à educação acessível para a comunidade surda.

 

7        Referências

ABRAMOVAY, Ricardo. Nova era da domesticação das plantas. 19 fev. 2024. Disponível em: http://ricardoabramovay.com/2024/02/nova-era-da-domesticacao-das-plantas. Acesso em: 10 out. 2024.

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